sábado, 18 de janeiro de 2020

Um ciclópico falo algarvio glorificado por Guerra Junqueiro


O poeta Guerra Junqueiro, que fez parte dos «Vencidos da Vida» ao lado de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão, que foi um indomável republicano, revolucionário fervoroso, céptico e anticlerical, autor de várias obras primas da lírica contemporânea – escreveu nos tempos de jovem deputado por Macedo de Cavaleiros, um poema jocoso, a que chamou filho do álcool e da boémia. Arrependeu-se cedo de o ter feito, mas não a tempo de impedir que algum dos seus amigos, não sei se por brincadeira ou maldade, o publicasse num quarto de papel, de forma clandestina e não autorizada. O poema em si é bem-humorado, tem graça e suscita a gargalhada no mais sisudo leitor.
O poeta Guerra Junqueiro
Esse raríssimo folheto, editado em segredo, tinha por título «A Torre de Babel ou a Porra do Soriano», e segundo creio teve uma edição de apenas 40 exemplares. O poeta Guerra Junqueiro não achou que a divulgação favorecesse o seu bom nome, e por isso tratou de dar caça ao panfleto que certa mão negra dera à estampa. Ocupou-se nisso quase toda a vida, e parece que lhe deu eficaz extermínio. Todavia nunca se apercebeu da traição que um dos seus amigos lhe aprontou, ao reservar uma cópia para posteriores edições. O seu amigo Raúl Brandão relatou o episódio no 2º volume das suas Memórias: «Junqueiro escreveu algumas poesias eróticas, que um livreiro do Porto a ocultas coligiu e publicou tirando quarenta exemplares». E mais adiante acrescenta: «José Sampaio [Bruno] arranjou um para a Biblioteca Municipal do Porto. Junqueiro que passou a vida a comprar por todo o preço esses exemplares, deu o manuscrito da Pátria à Câmara do Porto em troca do exemplar da Biblioteca. E dizia: - Esses versos não são meus, são do álcool.»
Todavia, o conhecido escritor João Paulo Freire (Mário), publicou em «Curiosidades Bibliográficas» o seguinte acrescento: «Sampaio Bruno aceitou e mandou fechar a sete chaves uma cópia que mandara tirar do original que Junqueiro acabava de inutilizar. Desta edição tiraram-se apenas 60 exemplares».
Concluiu-se, portanto, que foram feitas novas edições, com datas apócrifas e, como facilmente se constata, com um título diferente: «Pedro Soriano». Porém, nunca lhes passou pela cabeça, nem do poeta nem do “Bruno da Biblioteca” que o jocoso poema chegasse ao Brasil, onde não foi depurado do conhecimento público. Julgo que em 1981 vi esse exemplar, que se dizia ser o único da edição prínceps, disputado em leilão por alguns dos mais insignes bibliófilos nortenhos, cujo arrematante deixou na mesa do pregão um cheque de sessenta contos.
Capa da edição apócrifa do Porto

Há alguns anos, vi uma edição considerada erradamente original, que se apresentava como impressa em Paris, e tinha a data de 2119. É claro que essa data fazia parte da laracha que envolvia a própria edição, apócrifa do Porto. Esse opúsculo, tipo in-fólio, já que tinha apenas 14 páginas, nas dimensões de 11,5x16,5 cm, estava impresso em papel linho, com uma capa cinzenta e o título, «Pedro Soriano», impresso a vermelho, com uma vinheta floral ao meio. Um olhar experiente e conhecedor vê logo que aquilo tinha saído de um prelo antigo e desgastado, à maneira imagem dos pasquins que os republicanos davam à estampa nas tipografias clandestinas.
Qual não foi o meu espanto quando vi, agora, há dias, num outro leilão, realizado em Lisboa, um folheto do célebre poema obsceno de Junqueiro, numa edição impressa na Typographia de José F. Ferreira, em Lisboa, datada de 1882!!! Dizia que era edição original e raríssima. Por isso foi arrematado por 110 euros.
Por conseguinte, existem no mínimo duas edições do poema licencioso de Junqueiro, ambas clandestinas e com o mesmo título, Pedro Soriano, presumivelmente editadas na década de oitenta do século dezanove, que escaparam ao conhecimento e à sanha exterminadora do poeta.
Apesar de Junqueiro tentar apagar aquela excrescência literária, de exaltação a outra excrescência, física, não logrou extirpar o furúnculo poético que é hoje mais procurado e raro do que a edição monumental de A Velhice do Padre Eterno, editado em 1885.
Na parte que me toca, interessa referir que na origem deste poema está um algarvio, de facto chamado Pedro Soriano, que no decorrer da sua vida aventurosa e atribulada cometeu alguns erros, mas também algumas virtudes, de que hoje já nem reza a história. Não vou falar desse pobre diabo, que para fugir à justiça e procurar uma nova oportunidade de vida teve de emigrar para a América, onde alcançou sucesso, foi feliz e morreu como um justo. Nas terras do tio Sam dedicou-se curiosamente às letras e granjeou prestígio como jornalista. Conheço dele dezenas de crónicas que publicou nos jornais portugueses, naquelas secções de correspondência do exterior, a que chamavam «Cartas da América». Não vou agora falar dele. Fica para a próxima.
Capa da edição comercial do poema
O que importa agora é dizer que o tal Pedro Soriano, tornou-se alvo da verve poética do Junqueiro porque, segundo lhe diziam os amigos, possuía um membro viril de tão grandes proporções que causava a cobiça aos mais galantes Casanovas da capital, que ao lado desse garanhão descomunal não passavam de níveos querubins de sacristia. Quando os amigos do Pedro Soriano, muitos deles algarvios, como o famoso Lorjó Tavares, todos com largo cadastro de pândegos, e réus encartados de flostrias e distúrbios da ordem pública – razão pela qual em Faro designavam o grupo por «Sociedade dos Terríveis» – o obrigaram a descer as calças e mostrar a ciclópica “tromba” ao poeta da «Musa em Férias», escancarou-se-lhe a boca de espanto, e acicatou-se-lhe o estro para borcar uns versos mais ordinários que os tafuis da Mouraria.
Na capa do famoso opúsculo, editado em 1882, narra-se o episódio nos seguintes termos:
«Pedro Soriano foi o heroi de um casamento simulado que houve em Lisboa. Tinha o membro viril desenvolvidíssimo. Uns amigos de Junqueiro, encarregaram-se de lhe apresentar o Soriano, porque tendo contado a Junqueiro a enormidade do membro, ele dissera que exageravam. Junqueiro viu e exclamou: “Tamanho membro merece um poema”.»
E escreveu-o, mas de tal maneira ordinário, indecoroso e obsceno, que anos mais tarde, após ter alcançado o êxito e a glória, com «A Velhice do Padre Eterno» (1885), com o «Finis Patriae» (1890), «Os Simples» (1892) e a «Pátria» (1915), lembrou-se já Ministro Plenipotenciário da República, que deixara no passado um rasto de indecência poética que urgia apagar da posteridade. Foi o que fez, quase até ao fim da vida. Mas quando pensava ter-se livrado desse escabroso apêndice poético, eis que os seus adversários políticos encontram no Brasil um exemplar, que reeditam, salvando da obscuridade uma composição poética que Guerra Junqueiro ditou de improviso, quiçá inspirado na verborreia bocagiana.
O poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Dizem alguns dos que privaram com Junqueiro, que ele já conhecia o femeeiro algarvio e que se divertira imenso com a tal diatribe do seu falso casamento. Acrescentam até que terá escrito este licencioso poema por causa do escandaloso conúbio. Na verdade, a imprensa da época falou muito no “caso de Torres Novas”, em que o Pedro Soriano encenou um sacrílego matrimónio com uma jovem inocente, de nome Maria Eugénia, que depois de com ele viver largo tempo, abandonou o lar e escapou-se para Lisboa. O estouvado Soriano, perdido de amor e de ciúmes, foi-lhe no encalce, e tentou resgatá-la de volta ao lar. Mas ela queixou-se às autoridades de ter sido não só enganada como “arrombada” pelo descomunal membro viril do seu falso marido.
Apesar da chacota e do escândalo, o Pedro Soriano foi preso e condenado em 1881, por ter simulado um casamento religioso com uma jovem inocente, com o objectivo de desfrutar as núpcias de forma ilícita. Note-se que os casos de duplo casamento não eram raros naquele tempo, se bem que constituíssem grave crime. Mas este foi muito pior, porque inventaram a cerimónia de casamento, para brincarem com a situação e desfeitearem a jovem, lançando-a à mercê do “Mastro do Leviathan”. Depois que a marosca foi descoberta e denunciada, o malandro do Pedro Soriano foi detido, fechado em grades e condenado a degredo. Fugiu mais tarde para os Estados Unidos da América, de onde não mais regressou à pátria.

* ... * ... * ... * ... *

 O poema licencioso, que na versão original saiu a pública sob o título «A Torre de Babel ou A Porra do Soriano», e para que os nossos leitores possam aquilatar, no seu vernáculo, o jaez pouco recomendado para época, deixamo-lo aqui transcrito na íntegra, pedindo desde já desculpa pelo excessos de linguagem que o mesmo contém. Pelo texto se verá que o poeta Guerra Junqueiro, mesmo que toldado pelo álcool, que como ele afirma, terá sido o principal obreiro desta versalhada, não deixa de evidenciar o seu talento, entre um humor, livre e desbragado, e um cepticismo religioso aferrado num incontido anticlericalismo. Nos seus versos ressumam palavras de excessiva licenciosidade, sem as quais, é certo, o poema perderia toda a graça e bom humor. Nota-se um estilo bocagiano difícil de esconder ao leitor. Para melhor leitura adaptei as palavras à ortografia actual. Ouçamos então o dito poema, dedicado ao algarvio Pedro Sebastião de Almeida Soriano, natural de Albufeira, que segundo diziam os amigos, estava equipado com um apêndice sexual de inusitadas proporções, causadoras da maior inveja aos que com ele acamaradavam. 

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal ! Ciclópico trabalho !
     Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
     Dez séculos !
                         Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.


Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo !
     Mastro do Leviathan ! Eminência revel !
     Estando murcho foi a Torre de Babel !
     Caralho singular ! É contemplá-lo
                                                    É vê-lo
teso ! Atravessaria o quê ?
                                      O Sete-Estrelo !!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra !
     É uma porra, arquiporra !
                                                    É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso !!
     É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.


Oh caralho imortal ! Glória destes lusos !
Tu poderias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro !
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo ??!
     Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano !
     - Nada, nada contém a porra do Soriano !!


Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita ??
     - Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha !!!


A porra do Soriano é um infinito assunto !
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto ?
     Onde é que começa ?
                                    Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento ??
     Porra !
               Mil vezes porra !
                                       Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos num minuto !!!

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Faleceu o historiador francês Jean Delumeau

Jean Delumeau no seu gabinete de trabalho

Morreu, ontem dia 13 de Janeiro de 2020, o historiador francês Jean Delumeau, um medievalista consagrado que dedicou a maior parte da sua vida ao estudo das religiões, e às relações da Europa com o Oriente. O cristianismo foi o principal tema da sua análise, como historiador, não se poupando a elogios nem a críticas, que por vezes, quando falou da inquisição, foram muito severas.
Jean Delumeau teve um lugar merecidamente preponderante na historiografia francesa, e os seus livros constituem verdadeiros monumentos de erudição, rigor e objectividade no estudo do cristianismo e da cultura ocidental no mundo.

Tinha 96 anos de idade, nasceu a 18 de Junho de 1923, no seio de uma família pequeno-burguesa, em Nantes, onde estudou num colégio religioso da ordem Salesiana, de onde seguiu para a Universidade. Foi um dos mais brilhantes alunos da sua geração. Manteve-se coerente e nunca renunciou às suas convicções.
Era um dos últimos sobreviventes da escola dos «Annales d'histoire économique et sociale», revista fundada pelo imortal Marc Bloch, do qual foram também discípulos Lucien Febvre e Fernand Braudel. À escola dos «Annales» sucedeu nos anos setenta a chamada «Nouvelle Histoire» de Jacques Le Goff e Georges Duby, da qual descem praticamente todos os historiadores da minha geração. Inclusivamente tive alguns professores, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que se repartiam em simpatia, ora por uma ora por outra, dessas escolas. Lembro-me do Prof. Magalhães Godinho dizer que era o principal herdeiro da escola dos «Annales» em Portugal, em compita com o Prof. Borges de Macedo, que foi meu orientador de tese. Como defensores da mesma escola tive o Prof. Barradas de Carvalho, o Borges Coelho e o José Tengarrinha, enquanto o João Medina, que era dos mais brilhantes professores que tive na FLL, já se autorreconhecia como fiel seguidor da «Nouvelle Histoire».
Tenho alguns livros de Delumeau em francês, e em português, um deles bastante antigo, do meu tempo de estudante, sobre a Idade Média, publicado na colecção «Saber», que era uma reposição da francesa com o mesmo nome, que o saudoso Lyon de Castro teve a ousadia de editar no nosso país.
Curvo-me perante a memória desse grande historiador, que está directamente ligado à minha formação científica, cuja perda deixará na historiografia do cristianismo e da cultura ocidental uma marca indelével e uma posição insubstituível.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Agricultura, valor e conceito no Antigo Regime

As colheitas, iluminura medieval
A terra, enquanto bem e rendimento, esteve sempre exposta e indefesa, ao sabor dos ventos políticos, das estruturas económicas e da concorrência dos mercados. Mas, ao cabo e ao resto, o que sempre se teve na consideração de verdadeiro e imutável foi a primazia, generosidade, afeição e imortalidade da agricultura, como expressão natural e garantia de permanência do homem à face da terra. A ligação, ou melhor, a umbilical dependência do homem com a terra, criou fortes laços de identificação com a natureza e o meio ambiente que lhe está adstrito. Não resistimos à tentação de aqui transcrever uma definição deste objecto, pela mão de um pensador anónimo, que mais não traduz do que o sentimento político económico do novo espírito fisiocrático, que anunciava a aurora liberal:
«A terra he depozitaria de todas as matérias não somente proprias para satisfazer as necessidades fisicas, a que os homens são pella sua natureza sujeitos, mas tãobem daquellas que a Commodidade e o Luxo inventarão, e a Agricultura he a Arte e o meio para se procurarem todas estas materias». E logo o nosso desconhecido «economista» avança para a definição do objecto da Agricultura: «(...) o seu effeito he dar occupação a huma parte dos homens de cada Paiz; e a sua perfeição consiste em prover a maior quantidade possível das materias proprias para satisfazer as necessidades dos homens reaes ou de oppinião». Mas não deixa de elucidar que a produção agrícola deve estar em consonância com o comércio, servindo de pedra angular na animação do próprio mercado. Porém, reserva ao Estado a obrigação de não só apoiar as culturas locais como, sobretudo, de incentivar as produções de maior interesse nacional, que, aliás, enuncia: trigo, frutas, gados, bosques, ferro, couros, lãs, azeites, linho, vinhos e seda. Precisamente por esta ordem, misturando a agricultura com a silvicultura ou a pastorícia com a indústria, como se tudo fosse comum e acostumado ao lavor das gentes.  Logicamente, a conjugação dos dois sectores (agrícola e industrial) constituiria a chave que abriria as portas do sucesso económico. Atente-se mais uma vez nas suas palavras: «Os povos que tem unicamente contemplado a cultura das terras relativamente á propria subsistencia, tem sempre vivido no receio de Carestias; e o que mais he elles a tem frequentissimamente experimentado: mas aquelles Povos que tem considerado a dita cultura como hum objecto de Commercio tem gozado de huma abundancia assaz copioza e inconstante para o proprio sustento e para suprir com o sobejo as necessidades de outros Povos».[1]
A ceifa do trigo, pintura inglesa do século XIX
Não obstante todos os valores sentimentais de que se reveste o assunto, não se pode, nunca, perder de vista o sentido económico da agricultura, a imponderabilidade dos elementos naturais e o árduo esforço, quantas vezes inglório, do trabalhador agrícola. É, principalmente, nesse sentido, de rendimento, valor e lucro que temos de encarar o problema. Quer na óptica do Estado, quer nos interesses do proprietário, o que sempre esteve em jogo foi o aumento da produção, o abastecimento dos mercados e o preço dos géneros, tudo isto girando numa «equilibrada» esfera de valias e conveniências.
Estamos, por conseguinte, frente à evolução natural das coisas, pela conjugação do factor tempo com o aumento dos contactos e conhecimentos entre os povos, do que resultou uma melhor resposta para a satisfação das necessidades e um substancial incremento dos seus rendimentos, mercê da abertura de novos mercados. O aumento das populações fez disparar o consumo e com isto forçar a passagem de uma agricultura de subsistência para uma agricultura «comercial» ou de mercado.

[1] B.N.L., Reservados, códice 11260, «Notícia Geral do Commercio», fls. 8vº-9.


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fundação do convento Franciscano de Silves


Silves, e o seu castelo mourisco, em 1883
Ao tempo da fundação do Convento de Nossa Senhora do Paraíso, era a cidade de Silves uma urbe praticamente em ruínas, quase abandonada pelos seus antigos moradores, valendo-lhe sobremaneira a determinação régia para que os oficiais de justiça e o tribunal permanecessem ali sediados, e sem darem mostra de constrangimento. Em 1577 mudara-se a cadeira episcopal de Silves para Faro, ficando na histórica cidade – outrora capital do emirato almorávida do Gharb andaluz – apenas uns quantos Beneficiados, com a incumbência de não deixarem derruir de vez a vetusta Catedral. Dizia, o povo ignaro, que a principal causa da sua decadência provinha de uma maldição que sobre a cidade lançara o Bispo D. Álvaro Pais, “pelos desacatos e irreverências com que os moradores della o trataram”, conforme, aliás, consta da missiva dirigida ao Papa Clemente VI.
Fundou este Convento Dom Fernando Coutinho, Bispo de Silves, num local que distava duas léguas da foz do rio, dando-lhe o nome de Convento de Nossa Senhora do Paraíso por, igualmente, assim se designar uma ermida que, antes ele mesmo, mandara construir. Em boa verdade, o edifício do convento era pequeno e pobre, embora tivesse uma horta e pomar, para sustento dos frades. O que de verdadeiramente importante possuía, era uma abundante fonte, da qual jorravam todo o ano, muito fartas e salubres águas. O tempo deu-lhe fama de sadia, a que o povo acrescentou-lhe santidade. E a tal ponto cresceu no conceito e reputação, que por via dela tem atraído muitas embarcações nacionais e estrangeiras, para ali fazerem as suas aguadas.
Mas a salubridade era só das águas, porque o lugar em si era muito achacado a enfermidades, sobretudo nos meses húmidos do inverno. Parece que as sezões e catarros que o lugar infligia nos pobres frades, foram a causa de muitos deles se terem dali afastado para o convento de Portimão, aonde iam à procura de lenitivo para as suas enfermidades físicas. Apesar daquele convento de Vila Nova distar dali pouco mais de três léguas, o certo é que o rio, outrora principal via de acesso à cidade episcopal, estava muito assoreado e as estradas mal definidas e perigosas, tornando-se, por isso, muito dificultosa a deslocação dos fradinhos até Portimão.
Antiga Sé de Silves, em 1916
Face à insalubridade da cidade e ao desconforto do convento, a vida dos religiosos foi sendo cada vez mais penosa, razão pela qual chegaram mesmo a pedir para deixarem o convento, pois face à morbidez das instalações temiam pela sua própria vida. A petição foi analisada e racionalmente ponderada em Capítulo da Ordem, reunido na Sé de Évora, em 1592, cujo Provincial, Frei Pedro de Setúbal, recém-eleito, deferiu de imediato a súplica dos irmãos de Silves, ordenando o abandono da cidade e do convento.
Esta decisão originou um certo alarmismo nas gentes de Silves e das aldeias serrenhas, que trataram logo de subscrever várias missivas a rogar que não os deixassem desamparados dos serviços religiosos e sociais que aqueles frades tão competentemente vinham ali prestando àquele povo, que apesar de pobre se prontificava a ajudar no sustento e conforto dos seus queridos fradinhos. De tal modo o suplicaram, que, na verdade, os conseguiram convencer a ficar por mais alguns anos.
Todavia, com o crescente assoreamento do rio a cidade foi perdendo vigor económico, não só por abrandamento das trocas comerciais, como também pelas dificuldades de abastecimento de bens de primeira necessidade, daí resultando um crescente ermamento demográfico. As cheias de inverno areavam os campos e entulhavam as férteis courelas do pão, causando graves danos na agricultura. No verão as águas escasseavam para a rega, e as que corriam nos recessos do rio, as mulheres represavam-nas para a maceração do esparto, que usavam nas suas atividades manufatureiras, produzindo seiras, capachos, esteiras, baraços e cordas. Mas as águas paradas, que amoleciam o esparto, tornavam-se fétidas e com isso atraíam os mosquitos, que ao picarem a pele dos incautos trabalhadores rurais lhes transmitiam doenças infectocontagiosas, como o tifo, o cólera-mórbus, e outras febres sazonais, a que o vulgo chamava “sezões”.
Crónica da Provincia da Piedade, p. 209
Todas estas razões, de ordem económica, ambiental e especialmente sanitária, concorreram para que os religiosos do Convento de Nossa Senhora do Paraíso abandonassem o seu antigo cenóbio, de forma definitiva e irreversível. Não aguentavam mais o flagelo das enfermidades que continuavam a dizimar os pobres frades, sobretudo os mais idosos, levando muitos deles para os covais da sua pequenina ermida. Perante as insalubres condições do convento de Silves, o Padre Comissário Geral da Ordem de S. Francisco, Frei João Venido, autorizou em Capitulo Geral, reunido em Salamanca, a 4 de Junho de 1618, que abandonassem o local para sempre.
Na «Crónica da Província da Piedade» (p. 208 e ss), principal fonte de informação histórica sobre a ordem franciscana, este triste episódio ficou exarado nos seguintes termos:
«Nam ouve entre os nossos Frades duvida alguma; mas antes sendo todos uniformemente deste parecer, mandou o Ministro Provincial, que então era Fr. Gonsalo de Guimaraes, a Frey Jeronymo de Estremoz o Sande, que indo a Sylves despejasse a Casa, mandando aos Frades que alli estavão moradores, para outros Conventos da Provincia; o que tudo se cumprio cõ pontualidade; e no principio do mez de Julho do anno referido, deixamos de todo o Cõvento. DE presente estão nelle os muy Religiosos Padres da Terceira Ordem de Nosso Padre S. Francisco, os quaes, depois que nós o deixamos, a petição de hum Rui Sylva, forão morar nelle, com grande exemplo, e edificação da gente, como fazem em todas as terras, em que tem Casas neste Reyno.»

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Divisão militar do Algarve na primeira metade do século XIX

Mapa da divisão administrativa e militar do Algarve-Alentejo
O Algarve tinha, nos começos do século XIX, nove governadores de praças com 49 fortes e baterias devidamente equipadas com diversas peças de artilharia, assim como a tropa de que se compunham as respectivas guarnições militares. Tudo isto somava algumas centenas de homens. Porém, no tempo do general Beresford a maior parte das defesas costeiras do Algarve foram desmanteladas. Com o decorrer do tempo as circunstâncias de degradação dos equipamentos foi-se agravando, a tal ponto que – segundo o parecer de uma comissão de engenheiros, liderada por José Sande de Vasconcelos, que aqui que aqui veio inspeccioná-las – seria necessário investir 27 contos de réis para voltar a pô-las operacionais. Apesar disso, quando ocorreu a chamada “invasão do Algarve” pelas tropas do Duque da Terceira, as guarnições miguelistas da lista costeira, ainda conseguiram aproveitar alguma artilharia que daqui levaram na debandada para o Alentejo, onde reorganizaram a resistência. Assim que o exército libertador partiu para tomar Lisboa em 24 de Julho de 1833, a tropa do estropiado exército absolutista, agora sob o comando do Remexido, serviu-se dessa artilharia para atacar as cidades de Lagos e Faro, assim como a intrépida vila de Olhão, principais baluartes da causa pedrista no Algarve.
Desembarque de D. Pedro à frente do exército
libertador, na praia da Arnosa de Pampelido

A guarnição militar do Algarve era constituída pelos Regimentos de Infantaria nº 2 e 14, sediados em Lagos e Tavira, respectivamente, e ainda pelo Regimento de Artilharia nº 2, em Faro, com o respectivo Trem, onde se repararam e fundiram várias peças de médio calibre, que foram muito úteis na defesa da cidade contra as investidas das guerrilhas miguelistas, nos anos que se sucederam à Convenção de Évora Monte. Para além destas guarnições, existia também o secular Regimento de Cavalaria de Caçadores 4, sedeado em Castro Marim, e uma Companhia de Veteranos, dispersa pelas principais praças do reino do Algarve, cujo comando estava sedeado em Lagos. Em boa verdade, esta Companhia não passava de uma decrépita e mal equipa milícia territorial, composta por velhos soldados incapazes de assegurar a defesa das vilas e cidades algarvias. Um pouco melhor equipados estavam os Regimentos de Milícias de Lagos e de Tavira, embora também padecessem da falta de homens, de fardamento, de fuzis e cartuchame. O efectivo das Ordenanças no Algarve compunha-se de 14 capitanias-mores, com várias companhias de infantaria e alguma cavalaria. Mas, na realidade, serviam mais para a decoração militar em actos solenes e festivos, do que propriamente para a defesa efectiva do território.
Caricatura da luta pelo trono português entre D. Pedro
e D. Miguel, num desenho de Honoré Daumier, 1833
Por força do decreto de 26-11-1836, foi o Algarve integrado no Distrito Administrativo de Beja, na 8ª Divisão Militar, liderado por um Oficial General, com uma gratificação de 90 mil réis, um Chefe de Estado Maior e um Ajudante de Ordens, suprimindo-se o secretário e os oficiais de secretaria ao efectivo militar.
A partir de então, o Algarve passou a dispor, como guarnição permanente, de dois corpos de Infantaria e apenas um de Artilharia; uma Companhia de Veteranos dispersa pela província, comandada por Lagos, onde, aliás, também se encontrava o quartel de um dos corpos militares, além do de Tavira, e do de Artilharia em Faro, onde se instalou um novo Trem.
Remexido, o guerrilheiro do Algarve
O número de praças militares continuou a ser o mesmo. Os fortes e baterias da costa também não sofreram alteração, ainda que permanecessem abandonados, desequipados e arruinados.
Para a execução da justiça militar havia um auditor da divisão, com 40 mil réis de ordenado e uma forragem para os animais.
Em resumo, era assim que se compunha e organizava a Divisão Militar do Algarve, que desde 1762, quando o Conde de Lippe aqui chegou, não teve uma intervenção na recuperação das suas defesas marítimas, não melhorou o seu equipamento bélico, nem aumentou o efectivo militar. O Algarve, desde o século XVII, quando se preparou para a “guerra da independência”, nada tem feito para defender a sua vasta linha costeira, que permanece, ainda hoje, indefesa para suster um ataque marítimo. Não admira, por isso, que o Algarve tivesse sido escolhido pelas tropas do Duque da Terceira, em 1833, e de Sá da Bandeira, em 1846, para operar o desembarque das tropas invasoras, que implantaram o Liberalismo em Portugal.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O ignorado e desaproveitado «HINO de SAGRES»


Em 1957, a «Casa do Algarve» promoveu um concurso de música para a criação do «Hino de Sagres», sob o alto patrocínio do empresário algarvio Libânio Correia. Com este certame pretendia-se apoiar a criação artística e incentivar o regionalismo. Além disso, vinha na esteira das pré-comemorações do V Centenário da morte do Infante D.Henrique, que se realizariam em 1960, tendo no Algarve, sobretudo no Cabo de Sagres, um dos principais palcos para a concretização daquela histórica efeméride.Nessa altura, este conceito – Regionalismo - envolvia uma forte carga nacionalista, que se traduzia no exacerbamento da paixão patriótica, através da fusão no espaço nacional das regiões do interior. O que se pretendia, neste caso, era identificar e valorizar as características etnográficas das nossas aldeias, vilas e concelhos, cujas tradições e património histórico, ressumavam o que melhor distinguia e identificava a, então designada, portugalidade.
Repare-se que o conceito de Regionalismo não se decalca na Regionalização, por ter este um sentido mais abrangente, que se prende com a afinidade geográfica e identidade cultural de determinados espaços, inseridos da unidade nacional. Mas a principal diferença entre os dois conceitos reside na proposta de administração autónoma das regiões, o que seria impensável durante o consulado salazarista.
Voltando à questão inicial. A Casa do Algarve de entre os vários trabalhos a concurso, escolheu como vencedor do «Hino de Sagres», uma belíssima peça musical, de inspiração patriótica e de glorificação dos valores históricos que enformavam o nacionalismo, tendo como figura central o Infante D. Henrique, alma mater da epopeia dos Descobrimentos.
Este interessantíssimo «Hino de Sagres», hoje esquecido, foi escrito por Mateus Moreno (1892-1970), uma grande figura da cultura algarvia, um notabilíssimo escritor, fundador da revista «Alma Nova», e militar de prestígio que combateu na I Guerra Mundial. A vida do major Mateus Moreno dava um romance, pela forma multifacetada como desenvolveu a sua acção cívica, no país e nas colónias, com algum aventureirismo à mistura, como aliás é peculiar nos portugueses, que só precisam de um cantinho para nascer, mas têm o mundo inteiro para viver.
Mateus Moreno
A composição musical do «Hino de Sagres» é da autoria da lisboeta Elvira de Freitas (1928 – 2015), notabilíssima pianista e diretora de orquestra, que para ganhar a vida optou pela docência no liceu Camões, onde desenvolveu uma profícua actividade melómana, de que muitos dos seus antigos alunos ainda hoje se recordam com saudade. É curioso que este prémio da «Casa do Algarve», patrocinado por Libânio Correia – outro algarvio esquecido –, possibilitou à pianista Elvira de Freitas entrar na carreia docente em 1957, e tornar-se numa das maiores figuras do Conservatório Nacional e, mais tarde, do Instituto Gregoriano de Lisboa.
Elvira de Freitas
Não vou aqui tecer qualquer apreciação crítica em relação aos versos de Mateus Moreno, e muito menos à música de Elvira de Freitas. O que me apetece enaltecer é o facto de naquela época se terem reunido, para compor o «Hino de Sagres», duas grandes figuras da cultura nacional, lamentando em contramão que essa peça não seja hoje conhecida, e quiçá reaproveitada para fins culturais, nomeadamente turísticos ou etnográficos.Aqui ficam as imagens da letra e da música do «Hino de Sagres», que talvez, bem aproveitado do ponto de vista turístico-cultural, ainda possa servir os interesses do município de Vila do Bispo, onde a figura do Infante D. Henrique se vislumbra e se sente ainda a rondar aquela agreste penedia do Promontório de Sagres.



quinta-feira, 25 de julho de 2019

O meu agradecimento ao autor do vídeo, «220 metros de Guadiana» e à organização das 3ªs Jornadas do Contrabando em Alcoutim, integradas no âmbito do Festival do Contrabando, realizadas a 28 de Março de 2019, cujo trailer aqui vos deixo, sobre as tradições do contrabando raiano, com breves excertos da minha palestra, legendados em língua castelhana.

https://www.youtube.com/watch?v=WX3MjhFHlYc&feature=youtu.be&fbclid=IwAR2mhhSmlysMvIqz1SfQazBdfwdAzMSAvNVRlAL3Bci6olT6ha9p04GOu3Y

terça-feira, 9 de abril de 2019

Loulé no contexto político e socioeconómico das Lutas Liberais

A inserção geográfica do Algarve, no extremo sul do território nacional, moldou a mentalidade das suas gentes e corroeu as barreiras sociais, suavizadas por um cosmopolitismo emergente do trato mercantil. Contudo, não permitiu que se emancipasse da sua inexorável condição periférica de reino integrado. O Algarve sempre foi encarado pelo poder central como uma região extremada, mas estratégica na conservação da unidade nacional. Perdê-lo seria abrir as portas à temível anexação ibérica. Na sua identidade patriótica, os algarvios sempre se esforçaram por permanecerem no seio da nação. Nos momentos cruciais da nossa história, nunca deixaram que se pusesse em causa o seu patriotismo, nem invocaram ou alimentaram qualquer pretensão separatista. E foi esse orgulho, associado ao seu apreço pela liberdade, que lhe deu alento e protagonismo no contexto político-militar da primeira metade do século XIX. O relacionamento mercantil com os empresários britânicos, as tentaculares influências maçónicas e as várias praças de guerra sediadas no Algarve, colocaram este pequeno e esquecido reino em sintonia com os tumultos sociais e pronunciamentos militares que despontaram na cidade do Porto. Tornou-se sui generis essa participação do Algarve ao lado da cidade Invicta em todo o século XIX. E esse relacionamento manteve-se permanente, imitando-lhe as atitudes e decisões.

terça-feira, 12 de março de 2019

Felipa de Sousa, algarvia condenada na Inquisição pelo "pecado nefando da sodomia"

O suplício e a humilhação pública infligidos a Felipa de Sousa, pelo horrendo Tribunal do Santo Ofício, não podem ser esquecidos, merecendo ser sempre rememorado como algo que avilta e indigna a liberdade de género, que oblitera a opção sexual, que agride a tolerância e impede a integração social, que, em suma, impossibilita o direito à diferença. Foi através do sacrifício de muitas mulheres que, como Felipa de Sousa, sofreram a opressão sexista e foram ostracizadas ou estigmatizadas devido às suas opções sexuais, que as mentalidades avançaram no sentido da tolerância, da integração e do reformismo no mundo. Felizmente, na civilização ocidental o processo histórico avançou no sentido da conquista das liberdades e direitos individuais – desde a luta do sufragismo e do feminismo até à igualdade plena de género. Todavia, é de todos sabido que ainda existem por esse mundo muitas centenas de milhões de mulheres, que se sentem privadas da sua liberdade sexual e da sua opção de género. É para essas mulheres, que nunca puderam revelar o seu desejo nem expressar livremente a sua preferência sexual, que escrevi este artigo, personificando na memória de Felipa de Sousa, uma homenagem a todas as mulheres dos cinco continentes que ainda não desfrutam do direito de poderem expressar livremente as suas afeições, as suas preferências sexuais e o livre arbítrio no amor. A 18 de Dezembro de 1591, em Salvador da Bahia – uma das mais ricas e mais prósperas cidades do Brasil –, os esbirros da Inquisição após persistente interrogatório, conseguiram obter da cristã-velha, Paula de Siqueira, de 38 anos de idade, a denúncia de haver praticado o “abominável pecado nefando” da «sodomia foeminarum», isto é, o sacrilégio da contranatura, com uma mulher de 35 anos, chamada Felipa de Sousa, natural de Tavira, no reino do Algarve. Deste modo, tão imprevisto quanto surpreendente, emergiu ao conhecimento público o primeiro caso de perseguição sexual e de condenação da prática de lesbianismo pelo Tribunal do Santo Ofício em terras de Vera Cruz. A singularidade deste tipo de flagício herético, o modo como o processo foi dirimido pelo Inquisidor, e sobretudo o facto da principal vítima ser uma mulher algarvia, de quem se ignorava a própria existência, mas que é hoje um símbolo universal da liberdade de género e da opção sexual, levou-me a escrever este trabalho, não apenas por curiosidade académica, mas também por solidariedade com os que sofrem a exclusão, o opróbrio e o estigma da diferença.



segunda-feira, 4 de março de 2019

A "Banha da Cobra" - uma patranha com história

Entende-se por “Banha da Cobra” tudo aquilo que sendo um simples placebo, isto é, inócuo e inútil, se difunde e propaga publicamente como algo comprovadamente eficaz, seguro, poderoso e miraculosamente infalível. Para os lexicólogos significa algo que se publicita ou anuncia para endrominar incautos; um palavreado com o velado propósito de enganar os outros; uma proposta ou promessa de que não existe intenção de cumprir. Em suma, uma mentira, uma trapaça, um ludíbrio, uma vigarice. Hoje a expressão “banha da cobra” é usualmente empregue de modo pejorativo. E o "vendedor de banha da cobra" identifica alguém que é mentiroso, charlatão e de falsa índole. A banha da cobra é sempre a mesma, porque o prazer psicótico da fraude não se refreia perante a ganância de lucros tão arrebatadores. O que muda é a embalagem, isto é, o design e o marketing, porque a finalidade é sempre a mesma, sendo inclusivamente comum à mensagem hipocrática: submeter a dor e o sofrimento, vencer a doença. A diferença é que os charlatães visam apenas o lucro pelo embuste, enquanto os médicos e a medicina validam a ciência no confronto com a doença e o padecimento, na quimérica ilusão de triunfarem sobre a morte.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

João Henrique, um notável filólogo, escritor e jurista brasileiro, nascido em Faro

Poucos serão os que no Algarve conheceram ou já ouviram falar de João Henrique dos Santos, um dos muitos portugueses que no vórtice da República e dos seus conturbados anos de instabilidade revolucionária, emigrou para o Brasil. Muito menos sabem que desfrutou da reputação de homem culto, sério e ilustrado – considerado uma autoridade no foro brasileiro, uma espécie de Séneca dos tempos modernos. Os seus dotes de oratória, aliada a uma sólida erudição, permitiram-lhe granjear a glória de ter sido figura de proa, e de referência, no mundo académico do seu tempo. Não obstante tudo isso, pode bem dizer-se que é mais um dos muitos algarvios que no século passado foi alguém, com notável prestígio social e académico, mas que hoje, perante o desprezo e a ignorância das novas gerações, dorme o sono eterno nas brumas da omissão e do esquecimento.
À imagem do protótipo emigrante português de além-mar, foi competente, honesto e leal. Trabalhou muito e produziu melhor, tanto como professor universitário como, sobretudo, como homem público e publicista, fazendo da palavra escrita a sua enxada de vida. Escreveu prolixamente para os jornais, reservando a centelha da sua inteligência para os livros que deu à estampa no Brasil, sobre diversas temáticas, com especial realce para a Filologia e para o Direito.
João Henrique quando leccionava na
Universidade do Rio Grande do Sul
João Henrique dos Santos, nasceu em Faro, mais propriamente na aldeia de Santa Bárbara de Nexe, em 2-8-1884, num lar modesto de família pobre, mas honesta e trabalhadora. Os pais não tendo melhores recursos, mas cientes da inteligência do filho, anuíram aos conselhos do seu professor primário, no sentido de prosseguir os estudos no Seminário de São José, em Faro. Senão seguisse a vida eclesiástica adquiria, pelo menos, uma educação que lhe permitisse superar os desafios da vida. Não lhe foi difícil vencer os obstáculos sociais das suas humildes origens, impondo-se e distinguindo-se no ambiente austero do seminário pelo seu génio intelectual e pelas suas qualidades humanas.
O apelo de Cristo foi, porém, mais forte, e o jovem João Henrique aceitou os votos sagrados, ordenando-se presbítero com outros companheiros do seminário, em cerimónia de júbilo e pompa religiosa, celebrada na Sé Catedral de Faro. Decorria então o tempo da Carbonária, das bombas e dos atentados republicanos, cujo exemplo principal foi o assassinato do Rei, no fatídico 1º de Fevereiro de 1908, a que se seguiu dois anos depois a implantação da República. Nessa altura ser padre era prova de coragem e de convicção religiosa, até mesmo nas recônditas e ignoradas aldeias algarvias que João Henriques paroquiou, até assentar arraiais na pequena freguesia do Azinhal, no concelho de Castro Marim, onde foi sempre lembrado e estimado.
Sequioso de tudo conhecer e compreender, dedicou-se à leitura e à formação de uma biblioteca pessoal, mostrando-se muito interessado no estudo histórico das línguas latinas, da nossa primordial literatura e do direito civil. Começou então a escrever para o público, primeiramente uns pequenos folhetos, depois um sermão e, por fim, nos órgãos da imprensa regional algarvia. Nos princípios do séc. XX, fundou e dirigiu, em parceria com o então tenente José Francisco Guerreiro Fogaça, o semanário católico «Correio do Algarve», sediado em Lagos, ao tempo considerado como dos mais notáveis órgãos da imprensa algarvia. O espírito aguerrido e polémico do padre João Henrique, a sua demolidora e vituperina crítica política, inspirada no seu homólogo José Agostinho de Macedo, transmitiu-se às colunas do jornal, granjeando-lhe fama e prestígio.
Emigrantes portugueses à espera de barco para o Brasil
Razões de ordem doutrinária, e do foro eclesiástico, intrínsecas ao espírito e disciplina da Igreja, a que não seriam certamente estranhas as novas ideias reformistas do pós-guerra, levaram a que o padre João Henrique, em 1916, se desentendesse com o bispo da diocese, o famoso D. António Mendes Belo, que haveria de ser mais tarde Patriarca de Lisboa. A zanga não foi ligeira nem muito menos passageira, porque teve consequências dramáticas, decisões radicais e sem retorno. O caso pouco importa esmiuçar, até porque tem sido ultimamente muito comum no seio da Igreja. O certo é que o padre João Henrique, desiludido com as intrigas e perseguições que lhe foram movidas, pediu a redução ao estado laical e, no seguimento disso, decidiu em 1917 emigrar para o Brasil. Nessa altura, a rota de Vera Cruz tornou-se no caminho da redenção para milhares de portugueses, uns por necessidade de sobrevivência económica, outros por razões políticas.
A ida para o Brasil foi uma decisão duplamente acertada, porque se destinava a alcançar uma merecida segunda oportunidade, não só do ponto de vista civil como também política, pois que João Henrique foi sempre um fervoroso monárquico. O Brasil, a partir do séc. XVIII com o chamariz da mineração aurífera, tornou-se para os portugueses numa espécie de terra prometida, um novo Jardim do Éden para onde partiam uns à procura de fortuna, outros de glória e, a maioria, buscando construir uma nova vida, sem peias nem máculas. Na segunda metade do século XIX, muito depois de consumada a independência daquela antiga colónia, numa fase em que arrancava a todo o vapor a Revolução Industrial, retomaram os portugueses a rota do Brasil, já não atraídos pelo ouro, mas antes pelo café, algodão, cacau, e, por fim pelos seringais da borracha. Dos principais portos da Europa levantam ferro grandes vapores, pejados de emigrantes pobres, de perseguidos religiosos, de presidiários, de proscritos, degredados, exilados, enfim, uma turbamulta desejosa de alcançar uma nova oportunidade de vida. E essa nova esperança de vida estava à sua espera nos campos férteis do Novo Mundo, desde o Alasca até às Pampas. A revolução industrial e o capitalismo agrário, desenvolveu-se e implementou-se na América, através da importação de grandes contingentes obreiros, transvasados da Europa e da Ásia, para construírem aquilo que mais tarde se designaria como “sonho americano”.
Planta antiga da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul
O Brasil era para os portugueses a pátria que ficava do outro lado do mar. A língua e a religião eram iguais, e as dificuldades de adaptação, se acaso existissem, eram debeladas pela solidariedade existente no seio da colónia portuguesa ali residente.
Assim que se fixou no Brasil a vida de João Henriques sofreu uma mudança completa e profunda. Começou a estudar, e com tal sucesso que em breve estava licenciado em Direito. Tomou então mais uma decisão radical: naturalizou-se cidadão brasileiro. A vida eclesiástica e o seu Algarve natal ficavam assim definitivamente para trás, de tal forma que não mais voltaria à pátria.
Fixou a sua residência definitiva na Rua Carlos von Koseritz, nº 77, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e abriu escritório de advogado. Rapidamente fez amigos e alcançou fama de proficiente jurisconsulto, tendo na colónia residente de portugueses o grosso da sua clientela. Para complemento de vida dedicou-se também à docência, primeiro no ensino secundário, leccionando francês e latim, e depois no universitário, regendo as disciplinas de filologia românica e literatura clássica greco-latina. No ensino superior granjeou prestígio entre os seus alunos, que tinham pelos seus dotes de oratória e sólida erudição, uma profunda admiração. A isso foi sensível a Casa de Portugal no Brasil, que por várias vezes o elegeu para os seus corpos socias, tendo-lhe, posteriormente, dedicado uma sentida homenagem pública, através do descerramento do seu busto no salão-nobre daquela instituição, para admiração e veneração futura da sua memória
Antiga rua dos Andrades, em Porto Alegre, cidade
fundada por portugueses no Rio Grande do Sul
A carreira universitária foi construindo-a até chegar a Professor Catedrático da Universidade do Rio Grande do Sul, na qual se aposentaria com as honras do jubileu. Outras dignidades alcançaria ao longo da vida, também por mérito e distinção, nomeadamente o de membro de honra do C. I. M. dos Oficiais da Brigada Militar do Estado, sócio efectivo da Academia de Letras do rio Grande do Sul, sócio da Associação Riograndense da Imprensa, da Sociedade de Estudos Filológicos de São Paulo, e logicamente membro da Ordem dos Advogados.
Como publicista pode dizer-se que o Prof. João Henrique colaborou em todos os jornais e revistas da imprensa do Rio Grande do Sul, e de outros estados brasileiros. Os assuntos a que dedicou maior atenção intelectual, foram os que ao tempo mais preocupavam o desenrolar das ciências jurídicas, do Direito e da Filologia. Sei que nessas áreas publicou dezenas de artigos científicos, que depois saíram em separata, infelizmente de reduzido número para a circulação pública, o que as torna hoje espécimes bibliográficos muito raros e valiosos.
De entre a sua vastíssima lista de obras merecem especial referência os livros Filologia Jurídica, editado em 1934 e Direito Romano, um verdadeiro tratado em dois volumes, publicado em 1938. No entanto, também publicou outros trabalhos de grande interesse científico, como por exemplo a Doação Mortis Causa no Direito Romano; a Pontuação na Escrita – sua história e seu emprego; o Latim e a formação das línguas românicas; Roma pagã - suas instituições, usos e costumes; O casamento perante o Direito Romano; O operariado e a legislação romana; Axiomas do Direito Romano, Culto dos Césares, Gramática Latina, Origem e significação dos nomes das pessoas, e vários outros livros, que se tornaria enfadonho citar.
Faculdade de Direito na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Consta também que estaria a preparar um dicionário etimológico da língua portuguesa, uma edição comentada dos Lusíadas, e várias traduções de Virgílio e de Cornélio Nepos, obras essas que desconhecemos se viram algum dia a luz da estampa.
Acima de tudo o Dr. João Henrique Santos foi um dos mais famosos professores universitários do Brasil, um incansável investigador do Direito e da Linguística, um profundo conhecedor e inveterado estudioso das línguas e das literaturas clássicas.
Era casado com D. Ana Faria Henrique e pai de David Faria Henrique, conhecido jornalista brasileiro. Era irmão de D. Maria do Carmo Henrique, que residiu em Santa Bárbara de Nexe, de D. Adelina Henrique da Cruz, que vivia em S. Paulo, de D. Alexandrina Henrique de Brito que residia no Rio de Janeiro, e de Artur Henrique, que foi um conhecido capitão da marinha mercante brasileira.
O Prof. João Henriques Santos, faleceu em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, a 7-1-1952, com 67 anos de idade.
Dado que se trata de um notável cidadão farense, cuja memória o tempo se encarregou de obliterar ao conhecimento das novas gerações, propus numa das recentes reuniões da comissão de Toponímia do Município de Faro, à qual tenho a honra de pertencer, que fosse atribuído nome do Prof. João Henrique dos Santos a uma das artérias da cidade, o que foi aceite, e, mais tarde, cumprido. Ficou, assim, reconhecida a gratidão dos seus conterrâneos farenses, prestada em derradeira homenagem, a um grande vulto da cultura luso-brasileira.
 José Carlos Vilhena Mesquita

domingo, 31 de dezembro de 2017

FOGAÇA, Marisabel

A escritora Marisabel Fogaça
Pseudónimo literário da escritora e publicista Maria Isabel Fogaça Xavier, nascida na freguesia da Mexilhoeira Grande, em Portimão, a 15-11-1914, e falecida em Lisboa, a 20-1-1985. Era filha de Francisco José Xavier, e de Maria Júlia Leal Fogaça.
Realizou os preparatórios na terra natal, seguindo depois para Faro onde concluiu o Magistério Primário. Exerceu durante alguns anos, mas um casamento muito jovem, com Hugo Limpo de Negrão Buísel, e a necessidade de angariar maiores proventos afastou-a da docência e do Algarve. Foi trabalhar como funcionária de uma grande empresa de Lisboa, subindo na escala da competência e da confiança profissional até quase à intimidade da direcção, que depositava no seu trabalho a maior credibilidade.
Anos mais tarde foi para Angola, tendo colaborado assiduamente na Rádio Clube de Angola.
Marisabel Fogaça ficou conhecida no meio literário nacional como uma escritora de mediana qualidade, tendo como público alvo a mulher jovem e pouco instruída, romântica e sensível, para a qual não interessa escrever de forma rebuscada e muito elaborada. O que importava, sim, era escrever num estilo claro, simples e pouco exigente, mas sempre empolgante, com traições amorosas, ciladas dos colegas de trabalho e denúncias perjurosas, amizades desfeitas por velados interesses económicos, relações paralelas e, equívocos dramáticos, enfim toda uma panóplia representativa das misérias humanas, entrecortada por deslealdades, frustrações, angústias, suicídios, etc. Não há dúvida nenhuma que os seus livros não passaram incólumes, nem aos olhos da crítica nem dos seus leitores. Em certos casos chegaram a atingir grandes vendas, como foi o caso de do romance Manuela, publicado em 1945, que alcançou a 8.ª edição, vendendo milhares de exemplares.
Como escritora, Marisabel Fogaça começou a revelar-se na literatura infantil, escrevendo vários livrinhos muito interessantes e instrutivos, de grande utilidade para a formação moral, religiosa e educativa das crianças. Aventurou-se também na poesia, mas apenas com uma ligeira e infrutífera tentativa, de que resultaria pouco mais do que Nada, Nada, título aliás mal conseguido até por ser em parte coincidente com um livro Júlio Dantas, precisamente aquele com que se estreou nas letras em 1897.
Toupeiras Humanas, romance realista de
grande sucesso literário
Passou depois para o romance, conseguindo alcançar um relativo sucesso sobretudo no género que hoje designamos por literatura ligth ou cor-de-rosa. Em todo o caso, impõe-se destacar dois ou três exemplos de romances mais consistentes, literariamente mais sérios e realistas, estruturados num enquadramento sociológico existencial e objectivado para a denunciação política das desigualdades socioeconómicas do capitalismo moderno. Entre a difusão da realidade e o discernimento da verdade sociopolítica, encontra-se nos seus livros o problema do colonialismo português em África, a razão histórica da ocupação territorial, as relações de domínio e de subserviência, a contradição antropológica entre os dois povos e a injustiça do predomínio etnocentrista europeu, assente numa aculturação do homem africano. No conjunto de toda a sua obra destacamos apenas três exemplos de romances de qualidade literária, imbuídos de forte espírito sociológico e político: Toupeiras Humanas (1948), Destinos (1949) e Pegadas Negras em Mundo Branco.
Como publicista, Marisabel Fogaça dispersou colaboração por vários quadrantes nacionais, desde o antigo jornal «Ecos de Belém», passando ao «Jornal dos Açores», avançando para «A Província de Angola» e terminando na conceituada revista feminina das «Modas e Bordados».
Interessante livro infantil, que passou
praticamente desapercebido à crítica
No âmbito da imprensa algarvia distinguiu-se nas colunas do «Comércio de Portimão», «Jornal de Lagos», «Voz de Loulé», «A Avezinha», e muito especialmente nas colunas do «Correio do Sul» onde constantemente se dava notícia da publicação dos seus livros, não regateando elogios à sua prolífera obra de romancista e à sua fecunda produção de livros infantis.
Maria Isabel Fogaça, teve uma filha, Maria Júlia Fogaça Buísel, nascida em Portimão a 13-3-1939, que viria a ser actriz de cinema, trabalhando com o famoso cineasta Manoel de Oliveira que a convidou para integrar a sua equipa da realização, tornando-se anotadora, assistente de produção e por fim seu braço direito na realização. Dessa amizade nasceu a obra Manoel de Oliveira - Fotobiografia, que Júlia Buísel deu à estampa em 2002, editada pela Livraria Figueirinhas. Em 2012, Júlia Buísel escreveu uma obra notável sobre o cinema português, intitulada Antes que me Esqueça, na qual relata algumas histórias pessoais passadas nos bastidores de realização de alguns dos mais importantes filmes da nossa cinematografia. 
Resta acrescentar que Maria Isabel Fogaça antes de falecer,  ofereceu a sua vasta biblioteca particular à Casa do Povo da Mexilhoeira Grande.

Da sua lista de obras fazem parte os seguintes títulos: Poesia –  Nada, Nada, 1960. Romance A plebeia com alma de rainha, 1942; Manuela, 1945; Toupeiras humanas, 1946; Amor diferente, 1947; Negrita de olhos verdes, 1948; Comediante, 1948; Destinos, 1949; Herdei uma mulher!, 1950; Katia, cigana ou princesa? 1951; Um marido a prestações, 1951; O oitavo mandamento, 1952; Dénye, 1953; Mulheres sem sexo, 1955; Não sei quem sou, 1955; Cristiana... e eu, 1956; Eu não sabia, 1956; Pequenina, 1957; Almas sem Deus, 1958; 333, 1960; Menti! Que Deus me perdoe..., 1960; A outra face de Deus, 1972. Literatura infantil - Amendoeiras em flor, 1941; A lei de Deus, 1945; História maravilhosa do pastor mineiro, 1947; História maravilhosa do príncipe pastor, 1947; Psxiu... Jesus vai contar..., 1947; Escutem... que vou contar, 1949; A vingança de Mérty, 1949; A princezinha bago de milho, 1954; A bota do tio André, 1954; A Força dos Fracos; Assim Nasceu o Algarve.

(extraído do meu «Dicionário da Imprensa Algarvia», ainda inédito)