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terça-feira, 19 de maio de 2026

Em memória de António Silva Carriço, notável escritor de Monchique

O escritor Silva Carriço
Completa-se este ano, de 2024, no próximo dia 21 de Novembro, cinco anos de saudade, pela morte do escritor António Silva Carriço, amigo de longa data, de que guardo ainda gratas recordações. Quando soube do seu falecimento, escrevi quase de imediato uma sentida evocação da sua vida literária, que reflete e o meu condoído desgosto pela perda de tão estimável amigo. Já se passaram cinco anos… E como nos tempos que correm parece que já não se dá valor a quem o merece, decidi exumar as sentidas palavras que em sua homenagem deixei registadas, para através desta tribuna, em que ele assumiu posição de relevo, lhes dar uma nova vida, e uma perpétua referência na sua terra natal.
A literatura portuguesa, e a cultura algarvia, perdeu com o falecimento de António Silva Carriço, ocorrido a 21-11-2019, um dos mais genuínos escritores da língua de Camões. Foi uma perda irreparável, sobretudo para os que o conheciam e admiravam a sua obra. Mas, ao mesmo tempo, foi também uma perda de que o país não se apercebeu, porque o Silva Carriço era um escritor da província, que vivia longe das luzes da ribalta que apenas iluminam os céus de Lisboa.
Conheci o escritor Silva Carriço na vila de Monchique, sua terra-natal, na primeira visita que fiz à Biblioteca Municipal. Estabelecemos desde logo uma sólida empatia intelectual. Voltamos a encontrar-nos, várias vezes, em eventos de carácter literário. E quando ia a Monchique costumava encontrá-lo na Farmácia Moderna, onde ao fim da tarde se reuniam os homens cultos da vila, sobretudo os colaboradores do jornal local, cujo diretor era então o Dr. José Manuel Furtado.
Numa dessas tardes contou-me a sua vida. Estudara no Colégio de Santa Catarina, em Monchique, que foi um dos mais prestigiados estabelecimentos escolares do sul do país, sob a égide das freiras do Convento de Nossa Senhora do Desterro, professas da Ordem Terceira de S. Francisco. O colégio funcionava em regime de internato, para os alunos que vinham de fora, tanto do Algarve como do Baixo Alentejo, e de externato para os poucos que eram da vila e suas redondezas. Foram essas proficientes religiosas que vieram, em 1954, fundar o Colégio do Alto, em Faro, um dos mais conceituados do país.
O Silva Carriço, saiu de Monchique, para completar os estudos liceais em Lisboa. Mas, como já tinha idade para ganhar a vida, foi trabalhar como desenhador num gabinete de arquitetura, enquanto estudava no Liceu Camões. Terminou o curso no Liceu de D. João de Castro, em Lisboa, empregando-se de seguida no Instituto Nacional de Estatística, aí convivendo com outros algarvios, que se fizeram gente em diversos organismos estatais. Entrado no quadro da função pública, pediu transferência para a Câmara de Monchique, onde permaneceu desde 1961 até à aposentação em 2003.
Biblioteca Municipal António da Silva
Carriço, em Monchique

Funcionário público e homem da cultura

Muito dado ao estudo e à leitura, revelou-se interessado nas letras e na cultura local, razão pela qual lhe seria entregue a direção da Biblioteca Fixa da Fundação Calouste Gulbenkian e, dez anos depois, em 1971, a Biblioteca Municipal de Monchique. Nessas funções prestou um inestimável serviço à cultura e à educação de sucessivas gerações de jovens monchiquenses. Conhecia os clássicos da literatura europeia, mas não era só a leitura que lhe ocupava o tempo, era também o estudo da arte, sobretudo da pintura e escultura. Sabia onde paravam os tesouros artísticos do mundo, e quando as posses o permitiram foi vê-los, na companhia da sua amorosa esposa, aos principais museus da Europa.
Durante quase meio século, pode dizer-se que foi ele quem cuidou da educação literária e do autodidatismo de muitas centenas de crianças e jovens daquele concelho serrano. Fez do seu posto de bibliotecário uma espécie de cátedra popular, na qual divulgou os principais monumentos da cultura lusíada.
O que mais me impressionava os seus “alunos de circunstância” era a sua prodigiosa memória, e a forma inteligente como concatenava os autores e as suas obras, clareando diferenças, juntando afinidades, esclarecendo as ideias e os objetivos que incitaram os escritores a exaltar convicções, incendiar mentalidades, revolucionar gerações. E a par da sua refinada cultura estava a sua requintada sensibilidade, que transparecia de forma contagiante no amor à poesia. E quantos por sua influência leram, e adoraram Alves Redol, Manuel da Fonseca, José Régio ou Natália Correia, quando as suas obras ainda não tinham alcançado o prestígio, com que hoje são reconhecidas em todo o mundo.

Um homem da escrita e das belas-letras

Ainda jovem, com apenas 16 anos de idade, o Silva Carriço começou a escrever nos jornais. E não se estreou, como tantos outros, na humilde imprensa regional, mas antes nas prestigiadas colunas do «Novidades», órgão católico de expansão nacional, cujos assinantes se distribuíam pelo país inteiro. E como os jornais sempre foram a rampa de lançamento dos escritores, tornou-se correspondente em Monchique de «O Século» e do «Diário de Lisboa», mantendo durante décadas uma assídua colaboração.
Uma das suas facetas menos conhecida é a de poeta. Começou a expor a sua inspiração lírica em concursos locais de poesia, embora sem grande sucesso. Conseguiu ser distinguido, em 1982, nos Jogos Florais do Algarve, do Racal Clube de Silves, recebendo uma Menção Honrosa, na modalidade «Poesia Lírica». Percebeu que a sua poesia não teria o apreço que esperava, e dedicou-se quase em exclusivo à prosa. As musas deixou-as em repouso, para só as venerar nos momentos de desencanto e solidão, quando as angústias da vida lhe abatiam a alma.
Quando, em Dezembro de 1985, o Grupo de Dinamização Cultural «O Monchiqueiro», decidiu lançar a edição inaugural do «Jornal de Monchique», é o António Silva Carriço, juntamente com o José Manuel Furtado, o José Gonçalo Duarte, o José Rosa Sampaio, o Reis Luís, e outros, que preenchiam as suas colunas com interessantes reportagens, artigos e curiosas secções, sobre os mais variados assuntos. Esse prestigiado órgão da nossa comunicação social ainda hoje se publica, e numa altura em que a imprensa algarvia se reduz a meia dúzia de periódicos, impõe-se enaltecer a persistente luta pela sobrevivência do «Jornal de Monchique», cujos 39 anos de vida editorial, num concelho em crescente desertificação, deveria ser alvo de homenagem pelo Ministério da Cultura.

Memória das Coisas

Como prosador, Silva Carriço, testou o seu talento novamente nos concursos literários. É uma prática corrente, e uma estratégia normal, quando se começa a tentear o árduo caminho das letras. Submeteu-se à aferição do mestre das letras algarvias, o famoso Dr. Joaquim Magalhães, que como presidente júri dos Jogos Florais do Algarve, promovidos pelo Racal Clube de Silves, avaliou e apadrinhou o talento de muitos poetas e prosadores algarvios. Vemos então o Silva Carriço laureado em 1990 com uma Menção Honrosa, o que era um bom augúrio para a carreira literária que iniciaria em 1995, com a publicação do seu livro de estreia, intitulado Memória das Coisas. Nele compilou as crónicas que publicara ao longo de vários anos no «Jornal de Monchique», cujos temas retratam vivências da cultura serrenha, relatam episódios marcantes na vida local, registam o valor e a importância do património etnográfico e das tradições do povo, que constituem a memória e identidade de Monchique. Como livro de estreia teve um inusitado sucesso, esgotando-se a edição pouco tempo depois. Sendo justamente reeditado em 2008.
No ano seguinte à sua estreia literária, em 1996, foi-lhe atribuído pela Região de Turismo do Algarve, o 2.º Prémio de Comunicação Social, em razão do seu artigo «O Prazer da Diferença», um texto brilhante, carregado de conceitos filosóficos, no qual os valores da ética e da estética artística são rebatidos com a sincera e natural eloquência de um homem sensível e inteligente, como sempre o foi o meu amigo António Silva Carriço.
Na continuidade do seu périplo pelos concursos literários, recebeu em 1997 do Clube de Jornalistas de Braga o Prémio Especial Verde Minho, patrocinado pela Região de Turismo do Minho, mercê do artigo publicado no Jornal de Monchique, sob o título de «O Irresistível Fascínio do Verde», no qual compara a viçosa floresta da sua terra natal com o fascinante Gerês na viridente serra minhota. Um texto de rara beleza literária, que se pode comparar com os que melhor escreveu Raul Brandão, certamente um dos autores que mais inspiraram a sua escrita e melhor moldaram a sua personalidade literária.

O Sabor da Vida – a consagração do escritor

Ainda em 1997 publica o seu segundo livro de crónicas, O Sabor da Vida, que tal como o primeiro foi editado pelo grupo cultural «O Monchiqueiro», que não demorou a esgotar-se. Trata-se da compilação de alguns artigos publicados no «Jornal de Monchique», que o próprio Silva Carriço considerou como “pedaços de um profundo olhar, que não se limitou a agarrar a luz das pessoas e das situações, mas que se perde e prende nas funduras do sentir”. É um livro de ampla dimensão filosófica, ponderada apreciação artística e de ajuizada análise literária, que o autor, para facilitar a compreensão do leitor, segmentou em conjuntos temáticos de grande interesse para o conhecimento da vida intelectual nos finais do século passado. Pode parecer estranho, a quem nos lê, conceder tão elevados créditos a um simples cronista dum jornal de província, numa terra ignorada e esquecida como Monchique. Para quem não conheceu o Silva Carriço poderá parecer um exagero da nossa parte, mas, na verdade, era um homem muito culto e inteligente, que escrevia primorosamente, caldeando a sua ilustrada escrita com aferições artísticas e juízos de valor, só ao alcance das mentes mais eloquentes e brilhantes.
Em 1998 convidei-o a pertencer à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, à qual aderiu imediatamente. Fundei, e dirigi, no ano seguinte a Revista Stilus, em cuja edição inaugural publiquei de Silva Carriço um brilhante trabalho, do mais fino recorte literário, intitulado «Sabina na Casa de Espelhos» [Stilus, nº 1, Junho 1999, pp.89-96].
Prosseguindo a ordem cronológica da sua vida literária, impõe-se salientar o facto de ter sido galardoado, em 2002, com o 1.º Prémio Manuel Teixeira Gomes, no concurso instituído pela Câmara Municipal de Portimão, com o patrocínio da Delegação Regional da Cultura do Algarve. Daí resultou a publicação do seu primeiro livro de ficção, Entre o Corpo e a Rosa, inspirado no realismo mágico da literatura sul-americana, cuja urdidura endógena decorre no espaço rural do Barranco do Demo, um suposto lugarejo da serra algarvia, onde uma mulher com raros poderes místicos, faz prodigiosas curas e milagres, em troca dos prazeres da carne. Todavia a morta colheu-a da vida de uma forma quase misteriosa, mas ela volta para se vingar dos algozes, como uma penumbra diabólica, que à noite enlouquece de desejo os seus antigos amantes. A bíblica sedução de Eva, e a explanação erótica das relações adúlteras, acaba por resvalar numa imbricada estória macabra, onde o medo, o terror e a desconfiança se apodera dos habitantes da aldeia. Um conto fantástico, muito bem escrito, ao nível de um clássico Edgar Allan Poe ou de um moderno Gabriel Garcia Márquez.
Reconhecendo o seu contributo, como «figura proeminente na vida cultural do concelho de Monchique», a Câmara Municipal decidiu atribuir em 2004, à Biblioteca Municipal o nome de António da Silva Carriço, em homenagem ao seu esforço desenvolvido em prol da educação e da cultura local. Tratou-se de um gesto de agradecimento pelos 43 anos de serviços prestados naquela edilidade, em benefício das gerações jovens que tiveram em Silva Carriço um fraterno amigo, um conselheiro cultural e modelo de erudição, com base num insaciável autodidatismo, que a todos poderia servir de exemplo.
Em 2005 publicou o seu terceiro livro de crónicas, Retrato da Paisagem Enquanto Gente, uma compilação dos textos publicados no «Jornal de Monchique». Na origem desta obra está a intenção de resgatar para a posteridade a efémera lembrança das suas crónicas, na fugaz leitura daquele periódico. A editora Colibri, especialmente vocacionada para a publicação de obras académicas, teve o mérito de acolher debaixo da sua prestigiada chancela a última coletânea de crónicas literárias de António Silva Carriço.
Nos anos que se seguiram participou em diversos eventos culturais, nomeadamente na apresentação de livros, do seu conterrâneo António Manuel Venda, ou em exposições de artes plásticas, incluídas no programa «Faro Capital Nacional da Cultura», presidido pelo meu saudoso amigo António Rosa Mendes. No domínio das artes publicou Silva Carriço os seus últimos textos, um deles intitulado Zé Ventura – As Cores do Tempo, foi premiado em 2007 no London Book Festival. O outro texto, «Uma Abertura de Alma», escreveu-o em 2008 para o livro-catálogo da exposição de fotografia de António Maria Callapez – um olhar a Sul, numa edição comemorativa do centenário do seu nascimento.
Por fim, em 2014, a Paulinas Editora, publicou o seu último livro, Reflexos, constituído por treze contos de Natal, nos quais se apela à paz e à reconciliação entre os homens de todos os quadrantes, de todas as raças e credos. Nesses contos ressalta a esperança num futuro melhor, sob a bênção do Deus-Menino nascido em Belém. A mensagem, que o Silva Carriço nos deixou nesses contos natalícios, é a de os homens foram talhados pela mão de Deus para fazerem o bem, protegendo os fracos e os desfavorecidos, como expressão do amor e da conciliação da humanidade.
Nesta quadra natalícia, seria de inteira justiça que alguns desses belos contos fossem difundidos na rádio Fóia, recriados nas escolas de Monchique ou editados em pequenos livrinhos ilustrados, para oferta daquele município às crianças de todo o Algarve.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Aníbal Guerreiro, empresário industrial, escritor e benemérito farense

Aníbal da Cruz Guerreiro, aos 70 anos
Empresário, escritor e jornalista, Aníbal da Cruz Guerreiro, de seu nome completo, nasceu na freguesia da Sé, concelho de Faro, em 1911, e faleceu na mesma cidade a 20-2-1990, com 78 anos de idade.
Frequentou o Liceu de Faro de 1920 a 1927, onde se fez notar pela sua vivacidade e inteligência, colaborando nos jornais estudantis e organizando torneios desportivos. No velho Liceu, que é hoje o edifício da Escola Tomás Cabreira, fez muitas amizades, algumas das quais permaneceram leais até ao fim da vida. Nesse período de juvenil fulgor acalentava a ideia de vir a ser jornalista desportivo, começando então a escrever para alguns órgãos de Lisboa sobre os desafios de futebol aqui disputados pelo Olhanense, pelo Farense e pelo Luzitano de Vila Real.
Não tendo logrado os meios de sobrevivência necessários ao melhor desempenho nos estudos secundários, decidiu pelo trabalho auferir o seu sustento, de forma livre e independente. Enveredou pela vida profissional ligada à indústria de transportes. Como era muito inteligente e perspicaz, decidiu avançar em 1932, com a ajuda doutros sócios fundadores, para a criação da Empresa de Viação Algarve, Ld.ª (E.V.A.). E como necessidade de expansão do negócio, alguns anos depois fundou a Empresa Rodoviária do Sotavento do Algarve. Ambas alcançaram enorme sucesso no sector dos transportes de passageiros e mercadorias, impondo-se entre as melhores do país. Para além disso, criou outras empresas comerciais de pequena dimensão que foi vendendo com o decorrer do tempo. De todas as que fundou ao longo da sua vida mantém-se ainda em laboração a empresa de camionagem, que é uma das maiores do país, e o famoso Hotel Eva, o mais moderno do seu tempo e o importante da cidade de Faro, sendo hoje um dos mais antigos do Algarve.
Caricatura de Francisco
Zambujal
O apelo do jornalismo amador não o largava, pelo que em 1938 fez-se comentador desportivo no semanário farense «Correio do Sul», com uma secção intitulada “Vida Desportiva” na qual dava pormenorizado destaque aos desafios de futebol que se realizavam na província. Isto é notável se tivermos em linha de conta que aquele semanário pelo seu forte pendor cultural, não dava importância ao futebol.
Uma das suas principais paixões era a música, dedicando muito do seu tempo livre à composição e à prática instrumental. Diga-se, em abono da verdade, que era talentoso, mas tinha uma vida profissional muito ocupada, além de que era muito modesto nas suas aspirações artísticas, razão pela qual, apesar de tocar vários instrumentos, nunca chegou a ser conhecido como músico. Em todo o caso, nos Jogos Florais de Tavira, realizados a 31-12-1943, obteve o 1.º prémio na modalidade de “composição musical” com um corridinho do Algarve, cujo júri era presidido pelo famoso maestro da Orquestra Sinfónica Nacional e professor do Conservatório de Lisboa, Eduardo Pavia de Magalhães, o que atesta bem da qualidade da peça vencedora.
Na década de 60, dedicou-se também ao transporte turístico pela província e já como sócio gerente da E.V.A. criou uma carreira diária entre Lisboa e Sevilha, o que sendo notável, para a época, representava também uma grande aposta na implementação do turismo.
Igualmente a Aníbal Guerreiro se ficou devendo a criação de núcleos de apoio social para os trabalhadores da empresa, nomeadamente um refeitório para o pessoal, uma biblioteca e uma Caixa Particular de Auxilio na Doença. Foi sócio fundador e primeiro presidente do Grémio Distrital dos Industriais Hoteleiros e Similares de Faro, que foi a primeira associação de classe dos hoteleiros no Algarve, que por vicissitudes políticas alterou a sua designação para Associação dos Industriais Hoteleiros e Similares do Algarve (AIHSA). Neste sector, Aníbal Guerreiro, tem o seu nome ligado à construção, em 1950, da Estalagem EVA, na vila de Ferreira do Alentejo, e ao Hotel EVA, inaugurado a 1-4-1966, em Faro, e do qual foi administrador até 1974.
Hotel Eva, junto à doca de Faro, inaugurado a 1-4-66
Em 1962 fundou a “Agência de Viagens EVA” e a “EVA rent a car”. Pertenceu como vogal ao Conselho Superior de Transportes Rodoviários, onde se manteve durante vários anos, e aos grupos de estudo e planeamento da Direcção-Geral de Turismo e da Direcção-Geral de Transportes Terrestres, formulando a regulamentação dos Circuitos Turísticos e Agências de Viagens.
Preocupado com a assistência social, desenvolveu acção de assinalável mérito à frente do Instituto D. Francisco Gomes, vulgarmente designado por «Casa dos Rapazes», a cuja direcção pertenceu durante sete anos, mas à qual ficou ligado como benemérito até ao fim da sua vida. Não podemos esquecer que foi Aníbal Guerreiro quem providenciou a obtenção dos meios financeiros que permitiram construir o seu actual magnifico edifício-sede. Para a obtenção desses fundos organizou as «Festas da Cidade de Faro», a cuja comissão promotora presidiu durante vários anos. Foram célebres essas festividades, realizadas por ocasião dos Santos Populares, no Jardim da Alameda. Aqui vinham milhares de pessoas ouvir os artistas mais famosos do país, não sendo rara a presença de Amália Rodrigues e de outros fadistas famosos, assim como de cançonetistas da nova vaga, como António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias e o hilariante Max, cantor e entertainer madeirense, que deveria ser considerado como um dos fundadores do “stand-up” em Portugal.
O sucesso das «Festas da Cidade de Faro» não estava só na qualidade do repertório artístico, mas também na vontade popular de contribuir para uma obra de grande benemerência social, como era a “Casa dos Rapazes”, oficialmente designada por Instituto D. Francisco Gomes. O êxito era tal que praticamente aquela instituição vivia do apuramento financeiro das festividades, das quotizações dos sócios beneméritos e de algumas multas de trânsito que o chefe da P.S.P. na cidade mandava reverter a favor dos pobres rapazes. E note-se que daquelas crianças desvalidas se educaram e formaram muitas dezenas de homens válidos, honrados profissionais e não raros empresários de sucesso, que ainda hoje muito enobrecessem a cidade de Faro.
Acresce dizer que o sucesso das «Festas da Cidade» deveu-se não só ao entusiasmo de Aníbal Guerreiro, mas também à protecção e incentivo do Dr. Gordinho Moreira, então presidente da edilidade, que disponibilizava a logística camarária para garantir o conforto e segurança do público. Mas o que mais celebrizou essas festividades foi a criação das famosas Marchas Populares, que eram inspiradas nas de Lisboa, mas que em si constituíam uma manifestação artística e uma clara afirmação do bairrismo farense. Note-se que o desfile de cada marcha era escrutinado por um júri competente que escolhia a vencedora, pela criatividade artística da dança, da música e da beleza da indumentária.
Os poetas locais escreviam as letras das marchas, cabendo talvez o maior número de vitórias ao inspirado major Victor Castela, que foi um dos mais célebres poetas do seu tempo. Além disso tinha um coração de oiro, nunca dizia que não a um pedido das gentes do povo, e era um grande apaixonado pelos Santos Populares. Nessa altura, as Marchas Populares representavam não só os bairros populares da cidade como também das freguesias do concelho. Lembramos por exemplo a participação das Marchas do Alto Rodes, das Pontes de Marchil, do Montenegro e da Bordeira, que ganhou o concurso em Junho de 1962. A Taça do 1.º Prémio das Marchas era um trofeu de primeiríssima honra para os vencedores, havendo ainda hoje alguns desses trofeus nas sedes das juntas de freguesia do concelho.
Sports do Algarve, fundado por A.G.
No campo do jornalismo deveu-se a Aníbal Guerreiro a fundação, em 14-10-1935, do semanário desportivo farense, «Sports do Algarve», que ele próprio dirigiu e financiou até à extinção, em 9-5-1938. Este órgão de imprensa é hoje uma fonte privilegiada para o estudo do desporto e do futebol algarvio nos anos que precederam a II Guerra Mundial. Por outro lado, contém informação sobre desporto escolar e sobre diversas actividades da recém-criada Mocidade Portuguesa. Para além dessa fase inicial de jornalista desportivo, Aníbal Guerreiro dispersou a sua prestimosa colaboração por diversos órgãos da imprensa algarvia, nomeadamente «O Algarve», «Correio do Sul», «Algarve Desportivo» (1987), etc. Escrevia com elegância e erudição, em bom estilo literário, muito correcto e delicado, mesmo quando era preciso ser acintoso na crítica. Na maioria dos seus artigos notava-se a sua paixão algarvia, e no brilho da sua pena ressaltava a preocupação do futuro, muito particularmente no sector emergente do turismo, a que estava ligado e conhecia bem, sobretudo na necessidade de construir novas e modernas infraestruturas, nomeadamente um aeroporto em Faro – como aliás viria a ser realizado em 1965 – de se melhorar a revê viária para Lisboa e Sevilha (estradas e, caminhos de ferro), de se erigirem novos hóteis em todo o litoral algarvio, de se construir o novo porto de Faro-Olhão (o que foi feito), de se criarem escolas para a instrução das modernas técnicas de turismo, à imagem do que acontecia em França e na Suíça. A forma como abordava esses problemas e como elaborava uma estratégia para a sua solução era tão clara que parecia evidente e exequível. Porém, tudo isso esbarrava na realidade (tanto de ontem como de hoje), isto é, na condição socioeconómica do Algarve, enquanto região periférica, para a qual nenhuma razão se tornava óbvia para fazer convergir o investimento público.
Desde sempre ligado ao sector da cultura, Aníbal Guerreiro pertenceu aos corpos directivos do Conservatório Regional de Música do Algarve, e, no que toca ao fomento desportivo, foi presidente do Sporting Clube Farense, e durante vários anos presidiu à Assembleia Geral do clube. Também foi presidente da Associação de Futebol de Faro, cuja designação localista conseguiu alterar para Associação de Futebol do Algarve.
Primeira excursão turística da EVA, em 1934
Diga-se de passagem, que Aníbal Guerreiro tinha a paixão da música e tocava inclusivamente alguns instrumentos por intuição natural, pois julgo que nunca chegou verdadeiramente a receber lições de solfejo. Em todo o caso, esse amor pela música terá sido o principal motivo que o levou a encarar com tanto fervor a fundação do Conservatório Regional de Música do Algarve, cabendo-lhe a honra de ter conseguido convencer as autoridades a consentirem na sua fundação. Segundo creio foi também dele a ideia de convidar a artista Maria Campina e outros músicos, como o Diamantino Piloto, para ensinarem naquele estabelecimento.
Nos últimos anos de vida colaborava com bastante intensidade na imprensa regional, especialmente no semanário farense «O Algarve», onde manteve a secção «Crónicas Algarvias», que tiveram numerosa audiência não só pela sua elevação sociopolítica como principalmente pela sua qualidade literária. Pouco antes de falecer, publicou em Novembro de 1989 livro as suas apreciadas «Crónicas Algarvias», que saiu a público com o título Esboços de um Algarve Menor. Assisti ao lançamento do livro no Hotel Eva, recebendo da sua mão um exemplar com uma bonita dedicatória e pelo Natal, como era costume, recebia sempre em minha casa uma tarte de amêndoa, que era o seu “foro natalício”, como ele gostava de dizer, em retribuição da minha colaboração na revisão do seu primeiro livro sobre a História da Camionagem. Depois disso encontrávamo-nos pontualmente num ou dois momentos de carácter cultural, até que a notícia da sua morte me colheu de surpresa.
A Câmara Municipal de Faro, em reconhecimento dos bons serviços prestados à cidade, e como forma de gratidão pelas suas acções de benemerência pública, atribuiu-lhe as medalhas de Mérito Municipal (grau prata), em 1982, depois reconfirmada, mas no grau ouro, em 1986. Por sua vez, a Secretaria de Estado do Turismo atribui-lhe a medalha, no grau prata, de Mérito Turístico, pela sua visão precoce e inovadora em prol do desenvolvimento no sector dos transportes, do investimento hoteleiro e do turismo em geral.
Dedicatória de Aníbal Guerreiro
Como escritor e profundo conhecedor do sector do turismo e dos transportes no Algarve, publicou as seguintes obras:
História da Camionagem Algarvia (de passageiros) 1925-1975 (da origem à nacionalização), edição do autor, Faro, 1983; Turismo, Estradas e os problemas, presentes, no Algarve, ed. do autor, Faro, 1984; Esboços de um Algarve menor, edição do Instituto D. Francisco Gomes, Faro, 1989. Publicou também um opúsculo muito interessante, destinado como oferta natalícia aos amigos, intitulado Natal dos Benditos Desditosos, ed. do autor, 1985.
Para terminar, resta-me acrescentar que como elemento da Comissão de Toponímia de Faro, tive a honra de atribuir o nome de Aníbal da Cruz Guerreiro à avenida que vai desde a rotunda da Biblioteca Municipal até desembocar na estrada do Moinho da Palmeira.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

João Rico, um poeta algarvio injustamente ignorado

Venho hoje a terreiro lembrar a figura de um poeta olhanense, hoje absolutamente esquecido, diria antes, injustamente ignorado. E acreditem que foi no seu tempo um homem de talento invulgar, um espírito livre e um inconformista rebelde...
As características açoteias de Olhão, por Artur Pastor
Creio que a determinada altura da sua vida se sentiu desenraizado, desfasado, do tempo, da sociedade e da mentalidade que não o soube acolher nem compreender. Chama-se João Rico, mas foi sempre desprovido de quaisquer riquezas materiais, que aliás não procurou obter, porque a isso não lhe davam tréguas as musas, nem a ambição da posse material dos prazeres fúteis. Foi sempre prisioneiro do seu génio de poeta sonhador. 
Viveu num tempo em que o sonho não comandava a vida, e quem sonhava com outros mundos, mais perfeitos e justos do que este - em que apenas lutamos para não morrer de fome - era tido por lunático, fantasista e louco. Não admira, pois, que a ignorância do vulgo tivesse dele escarnecido e desprezasse as suas palavras, os seus pensamentos e atitudes. Tudo isso porque o João Rico, era apenas um pobre diabo, que incompreensivelmente optara por seguir caminho na margem esquerda do rio, no sentido contrário ao da vulgaridade conformista. Morreu pobre e abandonado. 
Para os que nunca souberam quem foi o poeta João Rico, aqui vos deixo, em traço largo e mal vincado, um breve esboço biográfico. 

João Rico foi um inspirado poeta e publicista algarvio, nasceu na madrugada do dia 3 de Março de 1892, no sítio de Brancanes, freguesia de Quelfes, no concelho de Olhão. Era filho de João Martins Rico, pedreiro de profissão, e de sua mulher Ana de Jesus, doméstica, ambos naturais da referida freguesia e sítio de Brancanes. Era neto paterno de Domingos Martins Rico e Maria do Rosário, e materno de João de Sousa Neto e Maria dos Santos. Foi seu padrinho de baptismo o avô paterno, também pedreiro de profissão, e madrinha Maria do Carmo, casada com António de Sousa Gago. 
Estudou no Liceu de Faro, onde se revelaria um jovem de talento e de grandes recursos intelectuais, partindo depois para a capital a fim de seguir a vida militar, chegando a atingir o posto de oficial do exército. Quando se implantou a República aderiu com entusiasmo ao novo regime, empenhando a pena e o talento na divulgação dos valores morais e dos objectivos de progresso social, cultural e económico, que o governo se propunha empreender para elevar a fasquia do desenvolvimento e do fomento industrial na pátria lusa. Tudo idílicas quimeras que sustentou com a mais sólida convicção, como se a simples mudança de regime constituísse a panaceia de todos os males, de que há séculos enfermava a nossa pobre nação. Quando tinha apenas 22 anos de idade, carreava na alma e no coração muitas desilusões e desgostos que lhe serviram de inspiração para escrever o seu primeiro livro de poesia, com o sugestivo título de Lembrança e Dores, dado à estampa em Lisboa, na tipografia «Sousa e Gonçalves», no ano de 1914. A sua estreia literária, ainda que precoce, evidenciava já o seu raro talento de inspirado e criativo poeta, que não passou desapercebido nas colunas dos jornais da época, nomeadamente no «Século» e na «Ilustração Portuguesa», que lhe publicou o retrato e teceu rasgados elogios ao livro de versos que acabava de publicar.
Após persistentes conversações políticas, levadas a cabo pelo nosso prestigiado embaixador em Londres, Manuel Teixeira Gomes, consegui-se pela persuasão diplomática convencer o velho aliado militar britânico a consentir a participação de Portugal, naquela que augurava ser a guerra de todas as guerras. O governo rejubilava de euforia, porque com a participação no conflito europeu caía de vez o perigo da contra-revolução monárquica vir um dia a contar com o apoio britânico, para a restauração do trono bragantino. 
Tal como aconteceu com milhares de outros jovens, João Rico foi incorporado no CEP - Corpo Expedicionário Português, que depois da instrução e treino de combate, realizada na planície alentejana, seguiu para França a bordo dos navios estrangeiros da chamada Tríplice Entente - a aliança militar formada pelas super-potências europeias, o Reino Unido, a França e Rússia . Pouco antes de partir, vemo-lo em 1916 ao lado do major Mateus Moreno no elenco da revista «Alma Nova», fundada em Faro em 20-9-1914, mas que dois anos depois assentava arraiais na capital, onde chegou a ter um naipe colaboradores do melhor que então campeava na imprensa portuguesa. Era na secção do «Teatro e Cinema» que João Rico assentara a sua banca de redactor, assinando os artigos de crítica teatral simplesmente com as iniciais do seu nome. Simples e modesto, era assim, na imprensa como na vida.
Descarga da pesca no porto de Olhão (Artur Pastor)
A carreira das armas, que parecia auspiciosa, tornou-se numa breve miragem, pois que dela foi afastado e destituído de todas as patentes, por razões políticas, já que se manifestara abertamente contrário à revolução do “28 de Maio”. Os promotores da ditadura militar demitiram-no logo do exército. 
Sem desesperar, aceitou depois uma via-sacra por diversas repartições públicas, às quais não se conseguia adaptar. O seu talento e espírito rebelde era contrário ao ronceirismo em que viviam os “mangas-de-alpaca”, onde lhe faltava o ar da liberdade de pensamento, onde se sentia naufragar entre os papéis oficiais e as fastidiosas burocracias. 
Para sublimar as frustrações da sua vida enfastiante dedicava-se nas horas vagas a escrever, colaborando nos jornais e mesmo publicando livros que lhe deram efémera glória e admiração social. «Melancholia», assim se designava a primeira obra que deu à estampa em 1917, apadrinhada pelo consagrado poeta Gomes Leal, para a qual escreveu um belíssimo prefácio em verso. Apropriado título para um livro de poesia que ressumava as acostumadas mágoas, a natural tristeza e abatimento muito peculiar dos nossos vates. E, na verdade, a poesia resulta, por vezes, na expiação das nossas frustrações e da nossa deprimente infelicidade. Por isso se escreve tanta poesia em Portugal. Não somos um país de poetas, mas antes um país pobre, infeliz e deprimente. 
Seguiram-se outras obras de João Rico, como «Fogo nas Cinzas», uma novela singular, com alguns capítulos em que as personagens dialogam em verso, editado em 1931. Seguiram-se outros livros de versos, como «Sonetos e Sonetilhos», editado em 1939 pelo seu próprio bolso, a exemplo dos que se seguiram, como foi o caso de «Rimanceiro», publicado em 1941, «O Enviado», designado como uma espécie de poema didáctico, saído em 1944, cujo exagerado preço de venda ao público, 50$00, era absolutamente proibitivo. É claro que o público não podia aderir a tão desproporcionado valor. Mas a intenção de João Rico era precisamente a de chamar a atenção do público para o valor da poesia, que em seu entender era a mais sublime expressão do génio humano. Por isso o seu livro deveria pagar-se caro, como forma de justificação do seu valor intrínseco. É claro que tudo não passava de uma manobra publicitária, ou como hoje se diz, de um golpe de marketing, para conferir ao poeta a projecção literária que verdadeiramente não possuía. Acrescentava ainda, na página de abertura, que o autor reservava os seus direitos autorais de tradução ou adaptação ao teatro nos seguintes termos: “Esta obra só poderá ser representada em teatro lírico ou declamativo, em qualquer adaptação, com a colaboração e autorização do Autor, em sua vida, e, bem assim, direitos de tradução”. Nunca se tinha visto nada semelhante num livro de poesia, e passo o exagero, que era muito intencional, causou um certo escândalo na opinião pública, a ousadia e presunção do autor, que não passava de um ilustre desconhecido. 
Pescador de Olhão, foto de Artur Pastor
A crítica é que não achou piada nem ao preço nem à presunção do poeta, passando ao lado do intrínseco valor do grosso volume, que ficou ignorado e adormecido no longo sono em que ainda permanece. O desgosto do poeta foi inexorável. Desiludido pela incompreensão do público e da crítica, sentindo-se ridicularizado pelos seus altos padrões de exigência, desistiu de escrever e refugiou-se numa letargia degradante e humilhante para um talento que parecia bafejado para mais altos e largos voos. Mergulhou, pois, numa deprimente agonia, marcada por uma desgastante e aviltante miséria, dedicando-se à boémia e ao álcool que lhe minaram as frágeis carnes de antigo soldado enamorado pelas musas, que cobardemente o abandonaram num dos mais difíceis transes da sua malograda existência. 
O seu último livro, intitulado «Astrologia», publicado em 1947, foi uma espécie de canto do cisne, de um dos muitos poetas que o nosso país rejeitou pelo simples facto de não beneficiado da protecção dos críticos literários, submissos e estipendiados por ideologia e partidos, quando não por veladas maçonarias que incensam e glorificam os soezes eleitos do patrocinato político. 
João Rico viria a falecer na freguesia do Campo Grande, concelho de Lisboa, a 26 de Dezembro de 1951, com 59 anos de idade. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Frederico Ramirez, pioneiro da indústria conserveira no Algarve

Frederico Ramirez, em jovem
Quando se fala de conservas de peixe, especialmente de atum e sardinha, vem-nos logo à memória o nome Ramirez, uma marca que ao longo dos anos conquistou um lugar de prestígio no mercado da indústria alimentar. Na vila pombalina da foz do Guadiana ainda existe uma fábrica de transformação do pescado, pertencente ao grupo Ramirez, a par de outras que a mesma empresa mantém em laboração no norte do país. Nas últimas décadas do século XIX, contavam-se dezenas de fábricas conserveiras em laboração no Algarve, sendo a marca Ramirez foi uma das pioneiras, que teve por sede a próspera Vila Real de Santo António, fundada pelo Marquês de Pombal em 1774 para sede das pescarias do Reino do Algarve.
A figura histórica de Frederico Ramirez, está hoje muito injustamente esquecida, e não merece ser apagada da da memória das gerações vindouras, porque devemos à sua inteligência e espírito empreendedor a fundação da primeira fábrica de conservação da pesca da sardinha e do atum, mercê da qual podemos designar como o início da revolução industrial no Algarve.
Esbocemos a traço largo uma síntese biográfica deste notável industrial algarvio.
Frederico Alexandrino Garcia Ramirez, de seu nome completo, foi uma figura proeminente da política nacional e regional, um talentoso engenheiro civil e um criativo industrial, que nasceu em Vila Real de St.º António a 26-11-1869 e faleceu naquele burgo pombalino a 30-10-1935, aos 66 anos de idade, quando muitos projectos havia ainda para concretizar na sua actividade empresarial. 
Iate D. Amélia, no qual viajou Frederico Ramirez com o
Rei D. Carlos nas suas visitas ao Algarve
Estudou na antiga Escola do Exército onde obteve o curso de engenharia civil e no ano seguinte, com apenas 22 anos de idade, foi eleito deputado pelo círculo do Guadiana, sendo reeleito para todas as legislaturas seguintes até 1908, data em que decidiu abandonar a política em sinal de luto pelo assassinato do seu rei e dilecto amigo D. Carlos I. 
Filiado no Partido Progressista chefiou durante largos anos os interesses dos seus correlegionários no Algarve, que representou com sacrifício dos seus interesses pessoais na capital, durante a vigência dos seus mandatos como deputado à Assembleia. Durante a sua permanência no hemiciclo exerceu durante largos anos as trabalhosas e complicadas funções de relator da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados. Em algumas das legislaturas desempenhou também o cargo de primeiro secretário daquela nobre assembleia. 
A determinada altura foi Governador Civil de Faro, num momento assaz delicado pelas circunstâncias políticas, mas desempenhou aquelas funções a contento dos interesses nacionais. 
Exposição internacional de produtos Cocagne, marca
que a Ramirez exportou para a Bélgica desde 1906
Como homem culto, educado nos preceitos da nobreza, sobretudo muito instruído e de saber actualizado na leitura dos mais modernos cientistas do seu tempo, depressa se tornou notado e apreciado pelos seus pares, neles se incluindo o próprio monarca. A sua amizade com o rei D. Carlos merece uma referência especial, já que era sincera, leal e recíproca, ao ponto do Conselheiro Frederico Ramirez ter sido um dos poucos escolhidos para acompanhar o monarca em muitas das suas viagens oceanográficas, a bordo do famoso iate D. Amélia. Aliás, quando o monarca se deslocava ao Algarve, nas suas acostumadas viagens de estudo, era certo e sabido que vinha a bordo o conselheiro Ramirez, pois que também era um profundo conhecedor destas águas e sobretudo dos seus ricos bancos pesqueiros. 
A partir do regicídio retirou-se da vida política, mas não da vida activa. Mesmo depois da implantação da República nunca virou a cara à luta pelos interesses nacionais, dispondo-se a servir a pátria quando disso se tornasse indispensável. Assim aconteceu em 1915, aceitando integrar a comissão portuguesa que foi a Madrid discutir o candente problema das águas jurisdicionais, de primordial importância para a salvaguarda os interesses industriais das pescarias no Algarve. 
Lata de atum Ramirez
Também aceitou pertencer, durante largos anos, aos corpos directivos da Associação Industrial Portuguesa, no seio da qual, entre 1890 e 1930, defendeu, desenvolveu e incentivou as iniciativas privadas direccionadas para o desenvolvimento económico do Algarve. Da sua profícua actividade à frente daquela instituição, resultaria a honra de ser agraciado com a Carta de Conselho, assim como mais tarde a sua nomeação para delegado do governo nos corpos gerentes da Companhia dos Caminhos-de-ferro de Quelimane ao Ruo. 
Os seus largos proventos económicos advinham-lhe das circunstâncias de ser considerado um dos maiores industriais conserveiros do Algarve, cujas unidades fabris, sediadas em Vila Real de St.º António davam emprego a centenas de operários. 
Também se dedicou à agricultura, com grande carinho e desvelo, a ponto de dirigir pessoalmente certas sementeiras experimentais nas suas vastas propriedades situadas em Cacela e em Castro Marim, cujos meios técnicos empregues no amanho das terras foram considerados paradigmática para o desenvolvimento do sector na região. 
Conselheiro Frederico Ramirez
Colaborou no semanário «Guadiana», fundado em 1903 como órgão do Partido Progressista na vila pombalina. Também passou pelas colunas de «A Voz do Guadiana», semanário igualmente de índole progressista, que em 1899 publicou-lhe os discursos proferidos na Assembleia, como deputado por Tavira, através dos quais defendeu acerrimamente os interesses da pesca do atum no Algarve. 
Era, à data do seu passamento, já viúvo de D. Maria Garcia Ramirez, de quem teve os seguintes filhos: eng.º Sebastião Ramirez, ministro do Comércio e Indústria do primeiro governo de Salazar; D. Maria Emília Ramirez de Sanches, Mário Garcia Ramirez e D. Maria das Dores Ramirez de Vasques Garcia. Importa acrescentar que era irmão de Manuel Garcia Ramirez, reputado industrial conserveiro na foz do Guadiana. 
Ao seu funeral, iniciado em Lisboa e concluído no dia seguinte em Vila Real de St.º António, compareceram as principais entidades do país, vários ministros, um representante do presidente da República e até o próprio Doutor Oliveira Salazar, que acompanhou na dor o filho, seu ministro e particular amigo, Sebastião Ramirez.

sábado, 12 de setembro de 2020

O notável escritor algarvio César dos Santos, está injustamente esquecido

Lembrei-me hoje de trazer a este tablado a memória de um grande jornalista e escritor algarvio, César dos Santos, infelizmente já quase esquecido entre os seus comprovincianos e praticamente ignorado pelos portugueses em geral. Embora tivesse ganho a vida como publicista, o certo é que foi intrinsecamente um escritor de enorme talento, cujo livro Terra Morena, é hoje o mais celebrado de toda a sua obra literária, por ser uma espécie de homenagem ao seu Algarve natal. Em todo o caso, posso asseverar aos que desconhecem a sua obra que o livro de contos Neblina é, pelo menos para mim, a sua principal obra, por nela se incluírem pequenas novelas e contos, cujo estilo e inspiração são claramente de transição entre o neorealismo, a que o autor se sentia culturalmente ligado, até ao modernismo, mais positivista do que ficcionista, em que se enformam algumas das histórias contidas neste livro. Não sei por que razão a maioria dos livros que compõem a obra de César dos Santos não obtiveram o conforto da crítica, quer nos órgãos de imprensa quer nas revistas da especialidade, em cujas colunas se teceram diversas notícias e artigos, com palavras de apreço e de enaltecimento dirigidas a livros de muito menor quilate e merecimento. Sinceramente, nunca entendi as razões da má vontade da crítica para com o escritor César dos Santos, um homem que ao longo da sua vida sempre escreveu com isenção, rigor e altruísmo, ainda que para manter o pendor do seu carácter, inabalável e inquebrável, tivesse muitas vezes que enfrentar com coragem as perseguições da Censura e até da polícia do regime. Quem com ele privou, e nesse aspecto estou-me a lembrar de Norberto Lopes, jornalista do «Diário de Notícias» e um dos melhores do seu tempo, que sempre enfrentou com coragem as adversidades políticas com o regime salazarista, escreveu acerca de César dos Santos um breve retrato psicológico do seu estreme profissionalismo e do seu diamantino carácter, que não resisto à tentação de aqui transcrever:
«Como profissional, apreciei sempre o seu escrúpulo, o seu amor da verdade, a sua dedicação ao trabalho, a sua exactidão no cumprimento dos deveres. De feitio naturalmente cordial, não lhe foi difícil conquistar amizades e admirações, que lhe ficaram fiéis em todas as circunstâncias da vida. O tratamento de «camarada» com que distinguia os amigos mais íntimos, e que lhe ficara das lutas sindicais, era conhecido na «Fleet Street» lisboeta, que tem por fronteiras a rua do Século e a ladeira da Misericórdia, incluindo o enclave intelectual da «Brasileira» do Chiado.»
É claro que aqui o Norberto Lopes, acerca da «Fleet Street» lisboeta, está a referir-se às redacções, que por ali existiam, dos jornais mais famosos desse tempo, como o «Século», o «Diário de Lisboa», o «Diário de Notícias», o «Diário Popular» e a «República», cujos principais plumitivos se reuniam, ou melhor, se dispersavam pelas diferentes tertúlias culturais que se concentravam ao fim do dia no café da Brasileira, frente à estátua do poeta Chiado.
Acerca do carácter e da personalidade de César dos Santos, acrescenta ainda: «Camarada César não alimentava ódios nem guardava rancores. Discreto, reservado, paciente, embora algumas vezes explodisse em inesperados arrebatamentos, como todos os introvertidos, não se entregava facilmente». E acerca das suas ideias e do seu posicionamento político esclarece: «Espírito liberal, amava naturalmente todas as ideologias, embora não seguisse nenhuma, que conduzem à libertação do homem e à dignificação da sociedade. Subscreveu todas as representações e protestos que visavam a restituir à Imprensa os direitos e privilégios que lhe são inerentes. Não aceitou a nova orgânica sindical [fascista] e conservou-se fiel aos princípios e às ideias que defendeu sempre, não se deixando deslumbrar por modas que o seu gosto literário repudiava. Embora tímido e por vezes hesitante em definir uma posição de que dependia o seu futuro imediato, procurou sempre seguir a linha de rumo que a sua consciência lhe ditava e as preferências naturais que o seu espírito havia escolhido.
Jornalista e escritor, César Augusto Pires dos Santos, de seu nome completo, nasceu a 14-11-1907 na cidade de Silves, e faleceu em Lisboa, a 22-1-1974, com 66 anos de idade.
Desde muito jovem que César dos Santos se dedicava na capital à prática do jornalismo, colaborando em diversos órgãos nacionais e estrangeiras, e trabalhando em vária redacções de jornais e revistas. Dentre os principais jornais em que trabalhou destacamos «O Século» e «República», mas foi no «Diário de Lisboa», a cujo corpo redactorial pertencia desde 1954, que mais se distinguiu. Não obstante, colaborou ainda no «Diário do Norte», «A Bola», «Diário Ilustrado», «Primeiro de Janeiro», «Diário Liberal», e «Notícias de Lourenço Marques», assim como nas prestigiadas revistas «Ver e Crer», «Vida Mundial», «Domingo», «Humanidade», e ainda nos jornais do Brasil e portugueses publicados nos Estados Unidos da América do Norte; sem referir os almanaques, jornais do Alentejo e Algarve.
Foram diversíssimos os temas e assuntos versados pela sua pena de ilustre jornalista e de inspirado escritor, tendo o Algarve e os algarvios recorrentemente ocupado lugar de relevante preponderância nas colunas dos jornais por onde passou, através de extensas reportagens onde propagandeou as suas belezas naturais e as suas potencialidades turísticas.
Como jornalista foi um dedicadíssimo amigo do Algarve e um estrénuo defensor dos seus mais genuínos valores culturais e patrimoniais. Por outro lado, foi um magnífico profissional da imprensa lisboeta, muito preocupado com os interesses da sua classe e com o sucesso dos seus camaradas. Era, como homem, estruturalmente sério e honesto, e, como jornalista, bastante competente e metódico nas suas actividades, e estimável nas suas atitudes.
Foi também um escritor distinto, que burilava a prosa como um ourives, procurando enriquecê-la com aprimoradas descrições do ambiente natural, das relações de produção e dos antagonismos sociais. A sua escrita possuía requintes de estilos diversos, entre o naturalismo e o neo-realismo, com um forte pendor analítico para os desequilíbrios psíquicos dos personagens. A observação ambiental e a descrição socioeconómica são dois atributos que marcam o apreço do público leitor, e impregnam os seus livros com o incontestável perfume literário dos grandes escritores.
A sua obra literária ficou marcada por uma forte sensibilidade pela beleza natural das coisas simples, numa simbiose entre o meio ambiente e a cultura social, um pouco ao gosto do naturalismo oriental. Aliás, nutria uma especial paixão pela filosofia Zen e pela cultura japonesa, claramente visível nos dois primeiros livros dados à estampa, O Japão, na História, na Literatura e na Lenda (1944), e O Japão através da sua Literatura (1945). Essa admiração pela cultura nipónica advinha-lhe da leitura da notável obra de Wenceslau de Morais, proeminente escritor e poeta, o mais admirável cultor da arte, da ética, do humanismo e da sensualidade oriental na nossa literatura. Outro dos seus interessantes livros, talvez o mais jornalístico de toda a sua obra, é a colectânea de crónicas e reportagens sobre Lisboa, intitulada A Cidade das Mil Cores (1946), belíssimas notas impressionistas sobre a vida sociocultural na velha “capital do império”. Seguiu-se-lhe o livro de contos, Neblina (1956), que a crítica não deixou passar incólume, tecendo-lhe justos elogios, embora merecesse maior sucesso editorial do que aquele que efectivamente teve. O mesmo se passou com o seu curioso trabalho de ficção intitulado Viagens Maravilhosas às «Terras do Céu» (1949), talvez a menos conhecida das suas obras. Mas o livro que mais o notabilizou foi certamente essa brilhante colectânea de crónicas publicadas no «Diário de Lisboa», depois reunidas nesse verdadeiro poema em prosa intitulado Terra Morena - Algarve do Sonho e da Realidade (1965), a sua obra de maior fôlego, onde calorosamente descreve e analisada a sua região natal, com requintes de artista e de refinado esteta, glorificando o Algarve nos seus mais relevantes pormenores ambientais, históricos, etnográficos, patrimoniais, artísticos, literários, paisagísticos, turísticos, económicos e até mentais. Uma verdadeira “Ode ao Algarve”, numa rendilhada prosa da mais fina sensibilidade poética.
César dos Santos foi também um dos mais abnegados dirigentes da Casa da Imprensa e do extinto Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa. Pertenceu também à aniquilada Sociedade Portuguesa de Escritores e fazia parte da actual Associação Portuguesa de Escritores. Com Ferreira de Castro, Assis Esperança e Roberto Nobre e alguns mais, constituíra uma pequena tertúlia literária na pastelaria «Veneza», na Avenida da Liberdade.
Apesar do seu notável porte físico queixava-se constantemente da falta de saúde, como se fosse quase uma mania dum cismático ou dum doente crónico. Ninguém podia, porém, prever que os seus receios e lamúrias se tornassem numa infeliz realidade, tão prematura e tão injusta, pois que o colheu ainda na flor da vida.
Foi casado com D. Maria da Glória Lobão Cruz dos Santos, e era irmão dos srs. Luís Alves Pires dos Santos, chefe da Secção de Contabilidade de «O Século», e Artur Rodrigues Alves, funcionário público.
Pela sua árdua e proficiente actividade literária, César dos Santos situa-se entre os mais relevantes jornalistas e escritores algarvios do século XX, sendo de enaltecer a sua fervorosa dedicação ao Algarve. Dissipou o seu talento por variadíssimos periódicos nacionais e estrangeiros, mas, honra lhe seja feita, em todos divulgou com vibrante entusiasmo o seu Algarve natal, lutando, vigorosa e apaixonadamente, pela sua divulgação e engrandecimento. Retratou persistentemente o Algarve numa prosa fluente e brilhante, expondo a sua riqueza paisagística, a beleza das suas praias e a amenidade climática, atributos propiciadores do desenvolvimento turístico na região, efectivamente aproveitados nos anos subsequentes à sua morte.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

João Henrique, um notável filólogo, escritor e jurista brasileiro, nascido em Faro

Poucos serão os que no Algarve conheceram ou já ouviram falar de João Henrique dos Santos, um dos muitos portugueses que no vórtice da República e dos seus conturbados anos de instabilidade revolucionária, emigrou para o Brasil. Muito menos sabem que desfrutou da reputação de homem culto, sério e ilustrado – considerado uma autoridade no foro brasileiro, uma espécie de Séneca dos tempos modernos. Os seus dotes de oratória, aliada a uma sólida erudição, permitiram-lhe granjear a glória de ter sido figura de proa, e de referência, no mundo académico do seu tempo. Não obstante tudo isso, pode bem dizer-se que é mais um dos muitos algarvios que no século passado foi alguém, com notável prestígio social e académico, mas que hoje, perante o desprezo e a ignorância das novas gerações, dorme o sono eterno nas brumas da omissão e do esquecimento.
À imagem do protótipo emigrante português de além-mar, foi competente, honesto e leal. Trabalhou muito e produziu melhor, tanto como professor universitário como, sobretudo, como homem público e publicista, fazendo da palavra escrita a sua enxada de vida. Escreveu prolixamente para os jornais, reservando a centelha da sua inteligência para os livros que deu à estampa no Brasil, sobre diversas temáticas, com especial realce para a Filologia e para o Direito.
João Henrique quando leccionava na
Universidade do Rio Grande do Sul
João Henrique dos Santos, nasceu em Faro, mais propriamente na aldeia de Santa Bárbara de Nexe, em 2-8-1884, num lar modesto de família pobre, mas honesta e trabalhadora. Os pais não tendo melhores recursos, mas cientes da inteligência do filho, anuíram aos conselhos do seu professor primário, no sentido de prosseguir os estudos no Seminário de São José, em Faro. Senão seguisse a vida eclesiástica adquiria, pelo menos, uma educação que lhe permitisse superar os desafios da vida. Não lhe foi difícil vencer os obstáculos sociais das suas humildes origens, impondo-se e distinguindo-se no ambiente austero do seminário pelo seu génio intelectual e pelas suas qualidades humanas.
O apelo de Cristo foi, porém, mais forte, e o jovem João Henrique aceitou os votos sagrados, ordenando-se presbítero com outros companheiros do seminário, em cerimónia de júbilo e pompa religiosa, celebrada na Sé Catedral de Faro. Decorria então o tempo da Carbonária, das bombas e dos atentados republicanos, cujo exemplo principal foi o assassinato do Rei, no fatídico 1º de Fevereiro de 1908, a que se seguiu dois anos depois a implantação da República. Nessa altura ser padre era prova de coragem e de convicção religiosa, até mesmo nas recônditas e ignoradas aldeias algarvias que João Henriques paroquiou, até assentar arraiais na pequena freguesia do Azinhal, no concelho de Castro Marim, onde foi sempre lembrado e estimado.
Sequioso de tudo conhecer e compreender, dedicou-se à leitura e à formação de uma biblioteca pessoal, mostrando-se muito interessado no estudo histórico das línguas latinas, da nossa primordial literatura e do direito civil. Começou então a escrever para o público, primeiramente uns pequenos folhetos, depois um sermão e, por fim, nos órgãos da imprensa regional algarvia. Nos princípios do séc. XX, fundou e dirigiu, em parceria com o então tenente José Francisco Guerreiro Fogaça, o semanário católico «Correio do Algarve», sediado em Lagos, ao tempo considerado como dos mais notáveis órgãos da imprensa algarvia. O espírito aguerrido e polémico do padre João Henrique, a sua demolidora e vituperina crítica política, inspirada no seu homólogo José Agostinho de Macedo, transmitiu-se às colunas do jornal, granjeando-lhe fama e prestígio.
Emigrantes portugueses à espera de barco para o Brasil
Razões de ordem doutrinária, e do foro eclesiástico, intrínsecas ao espírito e disciplina da Igreja, a que não seriam certamente estranhas as novas ideias reformistas do pós-guerra, levaram a que o padre João Henrique, em 1916, se desentendesse com o bispo da diocese, o famoso D. António Mendes Belo, que haveria de ser mais tarde Patriarca de Lisboa. A zanga não foi ligeira nem muito menos passageira, porque teve consequências dramáticas, decisões radicais e sem retorno. O caso pouco importa esmiuçar, até porque tem sido ultimamente muito comum no seio da Igreja. O certo é que o padre João Henrique, desiludido com as intrigas e perseguições que lhe foram movidas, pediu a redução ao estado laical e, no seguimento disso, decidiu em 1917 emigrar para o Brasil. Nessa altura, a rota de Vera Cruz tornou-se no caminho da redenção para milhares de portugueses, uns por necessidade de sobrevivência económica, outros por razões políticas.
A ida para o Brasil foi uma decisão duplamente acertada, porque se destinava a alcançar uma merecida segunda oportunidade, não só do ponto de vista civil como também política, pois que João Henrique foi sempre um fervoroso monárquico. O Brasil, a partir do séc. XVIII com o chamariz da mineração aurífera, tornou-se para os portugueses numa espécie de terra prometida, um novo Jardim do Éden para onde partiam uns à procura de fortuna, outros de glória e, a maioria, buscando construir uma nova vida, sem peias nem máculas. Na segunda metade do século XIX, muito depois de consumada a independência daquela antiga colónia, numa fase em que arrancava a todo o vapor a Revolução Industrial, retomaram os portugueses a rota do Brasil, já não atraídos pelo ouro, mas antes pelo café, algodão, cacau, e, por fim pelos seringais da borracha. Dos principais portos da Europa levantam ferro grandes vapores, pejados de emigrantes pobres, de perseguidos religiosos, de presidiários, de proscritos, degredados, exilados, enfim, uma turbamulta desejosa de alcançar uma nova oportunidade de vida. E essa nova esperança de vida estava à sua espera nos campos férteis do Novo Mundo, desde o Alasca até às Pampas. A revolução industrial e o capitalismo agrário, desenvolveu-se e implementou-se na América, através da importação de grandes contingentes obreiros, transvasados da Europa e da Ásia, para construírem aquilo que mais tarde se designaria como “sonho americano”.
Planta antiga da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul
O Brasil era para os portugueses a pátria que ficava do outro lado do mar. A língua e a religião eram iguais, e as dificuldades de adaptação, se acaso existissem, eram debeladas pela solidariedade existente no seio da colónia portuguesa ali residente.
Assim que se fixou no Brasil a vida de João Henriques sofreu uma mudança completa e profunda. Começou a estudar, e com tal sucesso que em breve estava licenciado em Direito. Tomou então mais uma decisão radical: naturalizou-se cidadão brasileiro. A vida eclesiástica e o seu Algarve natal ficavam assim definitivamente para trás, de tal forma que não mais voltaria à pátria.
Fixou a sua residência definitiva na Rua Carlos von Koseritz, nº 77, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e abriu escritório de advogado. Rapidamente fez amigos e alcançou fama de proficiente jurisconsulto, tendo na colónia residente de portugueses o grosso da sua clientela. Para complemento de vida dedicou-se também à docência, primeiro no ensino secundário, leccionando francês e latim, e depois no universitário, regendo as disciplinas de filologia românica e literatura clássica greco-latina. No ensino superior granjeou prestígio entre os seus alunos, que tinham pelos seus dotes de oratória e sólida erudição, uma profunda admiração. A isso foi sensível a Casa de Portugal no Brasil, que por várias vezes o elegeu para os seus corpos socias, tendo-lhe, posteriormente, dedicado uma sentida homenagem pública, através do descerramento do seu busto no salão-nobre daquela instituição, para admiração e veneração futura da sua memória
Antiga rua dos Andrades, em Porto Alegre, cidade
fundada por portugueses no Rio Grande do Sul
A carreira universitária foi construindo-a até chegar a Professor Catedrático da Universidade do Rio Grande do Sul, na qual se aposentaria com as honras do jubileu. Outras dignidades alcançaria ao longo da vida, também por mérito e distinção, nomeadamente o de membro de honra do C. I. M. dos Oficiais da Brigada Militar do Estado, sócio efectivo da Academia de Letras do rio Grande do Sul, sócio da Associação Riograndense da Imprensa, da Sociedade de Estudos Filológicos de São Paulo, e logicamente membro da Ordem dos Advogados.
Como publicista pode dizer-se que o Prof. João Henrique colaborou em todos os jornais e revistas da imprensa do Rio Grande do Sul, e de outros estados brasileiros. Os assuntos a que dedicou maior atenção intelectual, foram os que ao tempo mais preocupavam o desenrolar das ciências jurídicas, do Direito e da Filologia. Sei que nessas áreas publicou dezenas de artigos científicos, que depois saíram em separata, infelizmente de reduzido número para a circulação pública, o que as torna hoje espécimes bibliográficos muito raros e valiosos.
De entre a sua vastíssima lista de obras merecem especial referência os livros Filologia Jurídica, editado em 1934 e Direito Romano, um verdadeiro tratado em dois volumes, publicado em 1938. No entanto, também publicou outros trabalhos de grande interesse científico, como por exemplo a Doação Mortis Causa no Direito Romano; a Pontuação na Escrita – sua história e seu emprego; o Latim e a formação das línguas românicas; Roma pagã - suas instituições, usos e costumes; O casamento perante o Direito Romano; O operariado e a legislação romana; Axiomas do Direito Romano, Culto dos Césares, Gramática Latina, Origem e significação dos nomes das pessoas, e vários outros livros, que se tornaria enfadonho citar.
Faculdade de Direito na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Consta também que estaria a preparar um dicionário etimológico da língua portuguesa, uma edição comentada dos Lusíadas, e várias traduções de Virgílio e de Cornélio Nepos, obras essas que desconhecemos se viram algum dia a luz da estampa.
Acima de tudo o Dr. João Henrique Santos foi um dos mais famosos professores universitários do Brasil, um incansável investigador do Direito e da Linguística, um profundo conhecedor e inveterado estudioso das línguas e das literaturas clássicas.
Era casado com D. Ana Faria Henrique e pai de David Faria Henrique, conhecido jornalista brasileiro. Era irmão de D. Maria do Carmo Henrique, que residiu em Santa Bárbara de Nexe, de D. Adelina Henrique da Cruz, que vivia em S. Paulo, de D. Alexandrina Henrique de Brito que residia no Rio de Janeiro, e de Artur Henrique, que foi um conhecido capitão da marinha mercante brasileira.
O Prof. João Henriques Santos, faleceu em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, a 7-1-1952, com 67 anos de idade.
Dado que se trata de um notável cidadão farense, cuja memória o tempo se encarregou de obliterar ao conhecimento das novas gerações, propus numa das recentes reuniões da comissão de Toponímia do Município de Faro, à qual tenho a honra de pertencer, que fosse atribuído nome do Prof. João Henrique dos Santos a uma das artérias da cidade, o que foi aceite, e, mais tarde, cumprido. Ficou, assim, reconhecida a gratidão dos seus conterrâneos farenses, prestada em derradeira homenagem, a um grande vulto da cultura luso-brasileira.
 José Carlos Vilhena Mesquita