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quinta-feira, 5 de setembro de 2024

A história do Biquíni e a Praia de Monte Gordo

Costuma dizer-se, com fantasiosa imaginação, que a criação do biquíni teve origem no racionamento de tecidos e no baixo poder de compra das mulheres, durante o período da II Guerra Mundial. Se o objetivo era reduzir custos e racionalizar recursos, nada mais inteligente do que reduzir o tradicional maillot de praia aos seus dois elementos essenciais.
Na verdade, foi no decurso dos derradeiros dias da guerra, que um francês, engenheiro de automóveis, de seu nome Louis Réard, desenhou o traje de praia feminino na sua forma mais reduzida, criando assim um novo modelo, a que deu o nome de «biquíni». Lembrou-se dessa designação porque a sua criação era uma verdadeira bomba atómica no mundo da moda.
Brigitte Bardot, em 1953, na praia de Cannes, em bikini
Ora, como dias antes, em Julho de 1946, os Estados Unidos haviam realizado testes nucleares na Micronésia, destruindo por completo o Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico, pareceu-lhe que esse nome poderia ser adotado pelo seu novo modelo de praia, como uma forma de homenagem, mas também de protesto, pela destruição do ambiente e pelo uso de armas de extermínio maciço.
Todavia, o projeto era tão ousado que nenhuma modelo, habituada a desfilar nos certames da moda internacional, se dispunha a usá-lo em público. Apesar de habituadas ao mundanismo da moda, as jovens modelos negaram-se a exibir o biquíni por lhes parecer de uso indecoroso e despudorado.
Para contrariar essa espécie de boicote moral, Louis Réard teve de contratar uma stripper, de corpo escultural e sem pruridos éticos, chamada Micheline Bernardini, que se dispôs a usá-lo num desfile de moda, junto a uma piscina, em Paris. Nesse dia, 11 de julho de 1946, nascia oficialmente o biquíni. O impacto visual do desfile parisiense teve um enorme estrondo na imprensa internacional, cujo escândalo social foi avassalador, tornando-se de facto numa verdadeira «bomba atómica» lançada sobre o mundo da moda.

Imoralidade e pudor

Não se pense, porém, que o biquíni alcançaria um êxito rápido e quase imediato, como é costume acontecer na moda. Bem pelo contrário. A maioria das nações do mundo livre reprovou o seu uso, restringindo-o às piscinas públicas e a certas praias menos frequentadas. E não se pense que hoje é muito diferente, porque em muitos países árabes é proibido o uso do biquíni nas praias, como se tratasse de uma afronta ao pudor e aos bons costumes corânicos.
Curiosamente, no primeiro concurso de Misse Mundo, realizado em Londres em 1951, proibiram-se as concorrentes de sequer tentarem experimentar o uso de biquíni no desfile final do certame. O argumento sustentado pelos membros do júri era, mais uma vez, o da preservação da moral e dos bons costumes.
Para que o mundo desse esse passo em frente precisava-se de uma mulher corajosa, que não tivesse medo de enfrentar a oposição dos mais conservadores e até da própria igreja, que contestava os excessos e liberdades da moda. Essa mulher, corajosa e desafiante, surgiu em 1953, durante o Festival de Cannes, na figura da jovem e deslumbrante atriz francesa Brigitte Bardot, que desceu à praia daquela famosa estância turística com um revolucionário biquíni, desenhado com motivos florais, como se a própria Eva voltasse de novo ao convívio dos mortais pecadores.
Brigitte Bardot, na praia de Cannes, em bikini
A bela diva do cinema, tem hoje 84 anos de idade. Está há muito retirada dos olhares públicos. Lembramo-nos dela pela sua deslumbrante beleza física, pela sua luta contra o uso de peles no vestuário da moda, pela sua cruzada na proteção dos animais domésticos e selvagens. Mas certamente já poucos se lembrarão que ela foi a primeira mulher a usar um biquíni em público, desafiando os falsos pudores desta sociedade de hipócritas sibaritas, em que ainda hoje vivemos.
A partir de então, as mulheres de todo o mundo passaram a usar os provocantes biquínis, cada vez mais curtos e ousados, para afirmarem a sua liberdade e a sua independência, sem medo de serem, por isso, acusadas de atrair a si os olhares concupiscentes dos homens.
O que talvez poucos saibam é que a atriz sueca, Ingrid Bergman, esteve em Agosto de 1963 na praia de Monte Gordo, numa viagem de surpresa ao Algarve. Instalou-se no conhecido Hotel Vasco da Gama, então com cinco estrelas, e desceu à praia com um provocante biquíni. Quando se soube que a actriz do filme «Casablanca» estava na praia e de biquíni, juntou-se logo um magote de gente em silêncio, mas de boca aberta. Nunca os pescadores de Monte Gordo, nem tão pouco os veraneantes, quase todos alentejanos, tinham visto uma mulher, assim, tão bela e tão provocante.
A deslumbrante apaixonada de Humphrei Bogart, no inesquecível «Casablanca» – considerado um dos melhores filmes da história do cinema – já então premiada com dois óscares de melhor actriz, acabara de filmar nesse ano, para televisão sueca, a conhecida peça «Hedda Gabler», um clássico do século XIX da autoria de Henrik Ibsen. Nela encarnava a personagem de Hedda, uma mulher fútil e ambiciosa, que casara por dinheiro com um homem que nunca amara. O desempenho desse papel deixou Ingrid bastante extenuada, pelo realismo com que interpretou as pretensões frustradas da personagem, cuja infelicidade originou, na peça, a depressão e consequente suicídio.
Na vida real, Ingrid Bergman passava também por uma situação desconfortável. Primeiro foi a relação amorosa, em 1949, com o célebre realizador italiano, Roberto Rossellini, quando ambos eram casados e tinham filhos. Depois foi o escândalo, que abalou o mundo do cinema, quando ambos foram considerados adúlteros. E nessa condição tiveram o primeiro filho.
Em 24-5-1950 casaram-se, e tiveram mais dois filhos. Essa paixão, nascida do cinema, durou até 1957, ano em que se divorciaram. Em 1958 a diva de Hollywood casou-se com o produtor de cinema Lars Schmidt, seu compatriota, com quem viajou em 1963 pela costa mediterrânica até ao Algarve.
Acrescente-se que a década de sessenta ficou marcada em Hollywood pelo género beach movie, que trouxe para o grande ecrã o biquíni como símbolo da cultura jovem, que via nas praias da Califórnia, e na música dos Beach Boys, a expressão natural da sua liberdade. Em 1963 estreou-se o filme «Beach Party», o primeiro dos cinco realizados por William Asher, nos quais se consagrou o uso do biquíni como ícone da liberdade feminista.

Multada por usar biquíni

Nunca se soube ao certo, por que razão Ingrid Bergman viajou até ao Algarve naquele verão de 1963. Pensa-se que o marido veio à descoberta dos paraísos naturais do sul peninsular, atraído pela intensa luz da orla costeira, considerada mais forte do que a de Hollywood.
Nessa altura, já se falava nas deslumbrantes praias do Algarve, de areia fina e dourada, de águas límpidas e tépidas. Pela mão de jornalista estrangeiros, e sobretudo de artistas consagrados, como Cliff Richard, Olivia Newton-John, ou Bruce Welch guitarrista dos The Shadows, que tal como outras figuras da pop music havia comprado casa em Albufeira.
Ingrid Bergman, na praia com os filhos, usando bikini
A partir de 1965, com a inauguração do aeroporto de Faro, foram dezenas de figuras públicas da música e do cinema que visitaram o Algarve, sobretudo a Praia da Rocha, a costa de Lagos, e a castiça praia dos pescadores em Albufeira.
Na imprensa estrangeira dizia-se que Albufeira seria em breve a nova Saint Tropez de Portugal. E o Café Bailote era o fulcro internacional da arte e da cultura.
Ingrid Bergman quando esteve em Monte Gordo tinha 48 anos, e era ainda uma mulher de deslumbrante beleza, quando desceu à praia em provocante biquíni. Não sabia, porém, que estava num país avesso a esse tipo de liberdades. O cabo do mar, cioso do seu pequeno poder, abeirou-se da bela actriz, munido do seu caderninho de multas, e escreveu: «indecência». Entregou-lhe o papelinho e acompanhou-a até à recepção do Hotel Vasco da Gama, onde lhe foi explicado, em inglês, que havia sido multada por usar biquíni em público.
O valor da multa era comportável, apenas 2,5 escudos, ou vinte e cinco tostões, como era uso dizer-se na época. Na realidade, era inferior ao custo de um bilhete de cinema. Mas não era o preço da multa que mais importava. Era o vexame de ser multado. E nesse aspeto a acriz sentiu-se ofendida, sobretudo pelo atraso de mentalidades e pela falta de liberdade sentida no país.

O biquíni remonta à Antiguidade Clássica

Mas, será o biquíni tão assim recente como afirmam os designers da moda? Não tenho a certeza se já existiria, ou não, no tempo dos romanos uma indumentária, talvez mais para uso desportivo do que recreativo, semelhante ao que hoje designamos por biquíni.
Em frescos de Pompeia encontraram-se várias pinturas de mulheres a exercitarem-se num ginásio, praticando pugilato e luta greco-romana, usando apenas duas peças de couro para taparem as partes íntimas. Isto faz supor que as mulheres na antiguidade clássica já usavam algo semelhante aos biquínis modernos, certamente nos banhos públicos e saunas privadas, mas talvez também durante a prática dos diversos jogos e competições em que as mulheres tinham o direito de participar.
Este é um assunto que não domino, nem posso asseverar que o uso das duas peças de reduzido vestuário, a que chamamos hoje biquíni, era já usado na antiguidade. O que posso garantir é que na localidade de Piazza Armerina, na Sicília central, foi descoberta a vila imperial romana de Casale, com dezenas de mosaicos de uma beleza esplendorosa, retratando cenas da vida quotidiana no século IV depois de Cristo. Em alguns desses mosaicos vêm-se várias jovens romanas, usando apenas duas peças muito semelhantes ao atual biquíni.
Mosaico da Villa romana de Piazza Armerina, vendo-se
 duas mulheres supostamente em bikini
Neles se observa que algumas jovens estavam a praticar luta, creio que pugilato – uma modalidade desportiva de tradição olímpica – mas noutros parecem estar a desfilar num cortejo religioso, escoltadas por outras mulheres, cobertas com tecidos transparentes, que talvez fossem as intocáveis vestais.
Sem querer especular, julgo que algo semelhante ao biquíni já era usado na civilização romana pelas mulheres que frequentavam os banhos públicos, então designados por Thermae (de cujo étimo latino deriva a palavra Termas), sendo famosas em Roma as termas de Caracalla, de Nero, de Diocleciano, de Tito e de Trajano, frequentadas diariamente por milhares de patrícios de ambos os sexos, num cenário de majestosa beleza artística, rodeada de colunas e estátuas em mármore de Carrara.
As termas públicas repartiam-se por diferentes espaços, para que os seus utentes usufruíssem de sucessivos estágios de temperatura nas águas.
Assim, passavam primeiro pelo Frigidarium, onde os utentes se banhavam em água fria, passavam depois ao Tepidarium, de águas mornas, até chegarem ao Caldarium onde as águas quentes proporcionavam o relaxamento muscular.
Pormenor do mosaico romano
Associada ao uso medicinal da água e à sua fruição térmica, nasceu a ideia clássica do SPA, que mais não é do que uma sigla, cujo desdobramento significa salus per aquam, uma expressão latina que se traduz literalmente como «saúde pela água».
As mais ricas e poderosas famílias romanas, que se estabeleceram ao longo do imenso império, trataram de recriar nas suas villae residenciais um equipamento termal, de que ainda hoje subsistem restos arqueológicos visíveis um pouco por todo o nosso país.
Pela imagem do mosaico da Villa imperial romana de Piazza Armerina prova-se que na antiguidade clássica as mulheres usavam uma espécie de biquíni nas suas práticas físicas de ginásio, e, muito provavelmente, na natação. A diferença entre o passado e o presente, está na concepção e fruição do espaço da orla marítima que derivou na evolução dos tempos para o seu uso terapêutico e para o lazer.
A talassoterapia, isto é, a frequência das praias para recuperação da saúde e tratamento de doenças, foi uma das maiores descobertas da medicina do século XIX. Mas, na centúria seguinte, a praia e o mar transformaram-se num espaço de lazer, convivência e divertimento, no qual o biquíni ainda hoje impera, apesar das alternativas, inclusivamente o naturalismo, não terem tido o sucesso que muitos auguravam.

domingo, 14 de abril de 2013

Biblioteca Municipal de Faro - Uma riqueza à espera do futuro

 [Fiz a minha estreia jornalística, como redator regional, no vespertino lisboeta «Diário de Notícias, no dia 20 de Junho de 1981, com um artigo sobre a Biblioteca Municipal de Faro, cujas instalações, nessa altura, acabavam de ser melhoradas mercê da sua transferência do edifício da Câmara Municipal para o quinhentista Convento de Nª Sª da Assunção, vulgo colégio das freiras, e atual Museu Arqueológico e Lapidar do Infante D. Henrique. A biblioteca era pouco frequentada, mas o seu acervo bibliográfico era significativo e valioso. O objetivo deste artigo prendia-se com a urgência de melhorar as circunstâncias de trabalho, as instalações e a divulgação das reais potencialidades daquela instituição para o apoio à investigação e ao ensino universitário, que havia sido oficialmente criado em 1979, mercê da fundação da Universidade do Algarve. Para que não ficasse definitivamente esquecido nas colunas desse grande vespertino (entao como hoje, o mais antigo e mais importante órgão de imprensa do nosso país), decidi recuperar o artigo e transcrevê-lo aqui, na sua integridade original, atualizando-lhe apenas a ortografia. Como era relativamente extenso, a direção do «DN» decidiu publicá-lo em duas partes: a primeira a 20 e a segunda a 30 de Junho de 1981.]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Algarve e a Cortiça ou a ameaça de uma riqueza



José Carlos Vilhena Mesquita

Considerada desde há milénios como uma das principais riquezas naturais à flor da Terra, a cortiça deverá ser encarada no seu dualismo pragmático e económico. Assim, para os mais leigos no assunto, compete-nos informar que no nosso país, fundamentalmente na zona a sul do Tejo, produz-se mais de metade da cortiça mundial. A sua qualidade é, insofismavelmente, a melhor do mundo, fazendo deste produto natural a principal mercadoria do nosso comércio externo.
Como curiosidade, refira-se que cerca de metade do volume da cortiça é composto de ar que se encontra alojado em poliedros estanques revestidos de resina, os quais numa casca com 8 cm de espessura poderão cifrar-se em mais de 500 milhões de células. Devido a esta particularidade, a cortiça é indispensável como isolante do som e do calor, sendo, por isso, a sua aplicação múltipla e variada. Além do mais é levíssima, estanque, sem cheiro ou sabor, é elástica, resistente, impermeável e não é tóxica. Cientificamente, a cortiça (quercus suber) não é mais do que a camada suberificada das células protectoras do córtex da árvore e resulta de um meristema secundário que se radica na periferia do caule como se se tratasse da epiderme humana.
A árvore da cortiça é, como todos sabem, o sobreiro, que só começa a produzir a partir dos 20 anos de vida, e o seu habitat natural situa-se nas regiões arenosas, de terrenos profundos e soltos, com altitudes inferiores a mil metros, sob um clima de forte insolação do tipo mediterrâneo continental caracterizado por verões secos e Invernos rigorosos. A zona de implantação do sobreiro estende-se, por conseguinte, pela bacia mediterrânica e, numa escala decrescente, os principais produtores de cortiça são Portugal, Espanha, Argélia, Itália, Tunísia e França.

Produzirmos mais de metade dos valores mundiais

A área total da produção mundial anda à volta dos 2050 milhões de hectares e o rendimento anual é da ordem dos 400 mil toneladas, cujo valor comercial atingiu no ano transacto cerca de 500 milhões de dólares: Especificamente no nosso país, a área de exploração totaliza 656.200 hectares e a produção cifra-se em valores superiores a 200 mil toneladas anuais, o que equivale a dizer que produzimos mais de metade dos valores mundiais.
Refira-se, igualmente, que um sobreiro tem uma longevidade média de 150 anos e que, normalmente, dele não se consegue extrair mais de uma dúzia de «reproduções», se bem que a partir das cinco primeiras “tiradas” a qualidade da cortiça venha a diminuir progressivamente. Em média dum “chaparro” extrai-se pouco mais de uma arroba de cortiça, dum sobreiro cinquentenário obtemos o triplo e dum octogenário mais de 15 arrobas. As árvores descascadas tomam uma cor ferruginosa devido à oxidação dos tecidos em contacto com o ar, iniciando-se imediatamente o processo de recomposição que, por força da natureza, é, apesar disso, bastante lento, visto que só dali a nove anos é que estará em condições de poder sofrer idêntica operação.
A principal aplicação da cortiça situa-se ao nível da indústria rolheira, que absorve 65% de toda a cortiça vendida, senda de primordial qualidade as rolhas de champanhe produzidas nas nossas fábricas de Santa Maria de Lamas. Além disso a cortiça aplica-se na indústria do calçado, na construção civil, na indústria automóvel, nas artes plásticas, na decoração do lar, na caça, na pesca e no desporto em geral. Ultimamente, tomando em consideração a sua baixa combustibilidade, serve para forrar os tubos de ventilação dos submarinos nucleares, para transportar isótopos radioactivos a mais de 800º C, para protecção de naves espaciais e satélites de comunicação e, inclusivamente, foi há bem pouco tempo aplicada cortiça portuguesa como isolante térmico da camada externa da nave espacial «Columbia».

Os preços da arroba baixaram assustadoramente no mercado

Acontece, porém, que um dos problemas que mais afligem os agricultores da serra algarvia é a questão do tratamento e comercialização da cortiça. Fala-se, inclusivamente, de alguns casos em que se verificam situações de pré-ruína, visto que os preços da arroba da cortiça baixaram assustadoramente no mercado, a ponto de atingirem cotações inferiores àquelas que se verificavam em 1980.
Efectivamente, enquanto há dois anos atrás os industriais pagavam 1000$00 por arroba, hoje mostram-se relutantes em oferecer ao produtor 800$00 pela mesma quantidade de matéria-prima. Em contrapartida, os honorários a despender com o aluguer da força de trabalho especializada subiram em flecha, atingindo verbas praticamente incomportáveis. Atendendo a que no Algarve a exploração suberícola se processa nas regiões da serra interior, os custos de extracção da cortiça são substancialmente agravados pelo facto de primeiramente se ter de proceder à decapagem do terreno, que pela sua morfologia se transforma numa faina árdua e onerosa. De facto, para se proceder a tal tarefa é necessário alugar alfaias mecânicas, próprias para o efeito, que cobram ao agricultor entre 1000$00 e 1500$00 escudos à hora. Acontece que a remoção do mato numa propriedade de extensão relativamente pequena nunca custa menos de 20 contos. Saliente-se que esta acção de decapagem do terreno não se processa nos mesmos moldes do Alentejo, onde o solo e plano e árido. Daí podermos afirmar que, à partida, o agricultor algarvio está em desvantagem económica relativamente ao seu vizinho alentejano.

Os salários subiram e a cotação da cortiça baixou

Quanto à contratação de mão-de-obra experimentada na arte de descascar o sobreiro, é preciso reconhecer que a sua taxa inflacionista cresceu na razão inversa dos preços que a matéria-prima atinge no mercado. E isto porque enquanto os salários subiram a cotação da cortiça baixou. Assim, nos dias que correm, um “tirador” de cortiça não ganha menos de 2000$00 por dia. A sua função, sendo a mais especializada, baseia-se numa técnica ancestral, transmitida de pais para filhos, que consiste no rigoroso manejo do machado, cuja afiada lâmina penetra, com precisão milimétrica, até ao tecido interior da árvore sem lhe provocar a mais pequena beliscadura.
Aliás, diga-se de passagem, que uma leve incisão no tronco interno provocaria a formação de nódulos que prejudicariam extraordinariamente a futura qualidade da cortiça. Por outro lado, um bom “tirador” é capaz de num dia extrair 360 kg de matéria-prima sem ferir uma única árvore. Daí resulta naturalmente a justificação para a possível exorbitância do seu vencimento.
Após a contratação do “tirador” é preciso proceder de igual modo com o “ajuntador”, cuja função se resume simplesmente ao amontoar das pranchas e canudos da cortiça em local apropriado à sua expedição. Só por isso ele ganha entre 1500$00 e 2000$00 por dia. Por outro lado, como normalmente os sobreiros se estendem por terrenos bastante acidentados, não é possível a utilização de veículos motorizados para o transporte da cortiça, pelo que se terá de colmatar esta dificuldade através da contratação do “homem da besta”. Ora, acontece que o aluguer do homem e da mula anda à volta dos 2500$00 diários. É curioso que ao animal são incorporadas cangalhas laterais que permitem a sustentação da matéria-prima. Normalmente aguenta com algumas centenas de quilos empilhados de forma especial, semelhante a uma abóbada formada por inúmeros canos de cortiça. Só através desta operação é possível descer os íngremes cerros da recôndita serra algarvia. Por vezes, a vários quilómetros de distância, aguarda a sua chegada o motorista, que por seu turno transfere a matéria-prima para os respectivos centros industriais de transformação. Para cumprir essa tarefa o camionista cobra cerca de 15$00 por arroba, fora as despesas da quilometragem que serão cobrados conforme a distância a que se situam as devidas indústrias.

As razões da preocupante baixa dos preços

No apuramento final das despesas de extracção, verifica-se que cada arroba de cortiça custa em média ao produtor cerca de 300$00. Se em 1980 o preço da arroba esteve no mercado a 1000$00, logicamente este ano, atendendo às aludidas despesas, deveria atingir os 1300$00. Mas, por incrível que pareça, oscila entre os 750$00 e os 900$00, o que equivale a dizer que o seu preço real, deduzidos os custos de extracção, é de 500$00.
Agora pergunta-se: a que se deve esta baixa dos preços? Muito naturalmente à inadmissível facilidade de importação da cortiça espanhola que, devido à sua exploração mecanizada, ao câmbio e, sobretudo, à inferior qualidade da mesma, permite atingir no mercado um preço bastante inferior ao vigente no nosso país. Porém, o pior de tudo isto é que esta cortiça, pretensamente portuguesa, é exportada para os nossos clientes do norte da Europa, que ao aperceberem-se da sua inferior qualidade acabarão por perder a confiança na nossa matéria-prima. Em contrapartida, quem ganha com isso é a Espanha, que só exporta para os países da CEE a cortiça de melhor qualidade, equilibrando com isso o seu preço menos competitivo.
Nesta conformidade, o país é duplamente prejudicado, não só internamente como no estrangeiro. Por essa razão, os agricultores do Algarve, na sua maioria, não tem mandado descascar os sobreiros, por não compensarem os preços no mercado, deixando ficar nas árvores a cortiça por mais um ou dois anos à espera de melhores dias, ou seja de melhores preços. Porém, esta disposição de vender a cortiça com 10 ou 11 anos é lesiva ao País, pois são mais dois anos que se perdem na produção, se bem que se melhore na qualidade do produto. Todavia, se os preços se mantiverem mais ou menos a este nível, a qualidade continuará a ser prejudicada pela oferta, o que em boa verdade trará a ruína a muitas casas agrícolas. Cremos mesmo que, por este andar, a cultura do sobreiro, protegida superiormente desde 1310, aquando do reinado de D. Dinis, tem tendência a ser abandonada, senão mesmo substituída por outra mais rentável.

À espera de medidas enérgicas e moralizadoras

Urge, portanto, que o Governo tome medidas enérgicas para atalhar a este estado de coisas que, obviamente, não só prejudicam quem moireja nos campos como, inclusivamente, agravam a economia do País que corre o risco de ver a sua cortiça rejeitada futuramente nos mercados internacionais.
Refira-se que o deputado pelo círculo de Beja, Dr. António Chagas, considerado especialista na matéria, expôs este problema na Assembleia da República, onde a questão mereceu da parte de alguns membros do Governo, entre eles o ministro da Agricultura e Pescas, Dr. Basílio Horta, a mais viva repulsa, a ponto de responsabilizar os industriais pela situação existente no Alentejo e no Algarve. Recorde-se que nos concelhos de São Brás de Alportel, Loulé e Tavira, nomeadamente nas regiões da Cova da Muda, Vale de Luís Netos, Estragamantens e Cachopo, produz-se a mais qualificada cortiça de toda a província do Algarve.
Ficamos, assim, a aguardar a publicação de legislação competente que permita o escoamento da produção interna e proíba os abusos oportunistas dos industriais corticeiros, que na mira de chorudos lucros prejudicam enormemente a economia nacional.


(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 18-08-1982)

domingo, 26 de julho de 2009

Um esclarecimento que se impõe - Edição da ALGARVIANA pode e deve ser retomada

J. C. Vilhena Mesquita

Insistentemente me têm perguntado porque não prossigo a Algarviana, cuja publicação iniciei em 1982. E a resposta é simples, essa decisão não depende de mim.
Causam, de facto, estranheza as razões que justificam tão dilatado hiato no tempo, ou seja, uma interrupção de um quarto de século. É claro que diversos e numerosos são os exemplos de obras que, tendo ficado inconclusas, aguardaram durante anos a sua prossecução, na expectativa de verem surgir quem tivesse a coragem e o talento necessários para, metendo ombros à tarefa, serem capazes de as levar por diante e com sucesso. De entre os exemplos que poderíamos para aqui carrear atente-se no que se passou com a História de Portugal, de Pinheiro Chagas, continuada por Barbosa Colen e concluída por Marques Gomes. Melhor exemplo ainda é o do Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado por Brito Aranha e concluído por Martinho da Fonseca.
Mas também existem casos que contradizem os anteriores, isto é que não chegaram a ser concluídos, como por exemplo o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa, dirigido por João José Cochofel, ou ainda o Dicionário de História da Igreja em Portugal, iniciado por António Banha de Andrade e continuado por Fernando Jasmins Pereira. Exemplos como estes (que não são tão raros como se pensa) deixam sempre uma certa nostalgia por se tratar de oportunidades perdidas, quase sempre em obras modelares e fundamentais, que se tornaram com o decorrer dos anos em situações irrecuperáveis.
Não é esse, porém o caso nem a situação da Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, à qual me encontro ligado, praticamente desde que finquei âncora e estabeleci amarras neste belo jardim de trinta léguas. Muitos amigos e cidadãos ligados à cultura algarvia, que conheceram o início do processo, encetado em 1980, costumam interrogar-me sobre as razões de originaram a interrupção dos trabalhos conducentes à publicação da obra. Confesso que tenho tentado sempre omitir essas razões junto do público, por achar que as mesmas poderiam conduzir a polémicas desnecessárias e a entravar ainda mais a continuidade da obra. Em todo o caso, tanto o Dr. Mário Lyster Franco, enquanto foi vivo, como eu próprio, sempre tentamos impedir que a obra fosse entravada, nada podendo fazer contra a forma vil e traiçoeira como foi perpetrada. Inclusivamente cheguei a responsabilizar publicamente esse indivíduo da morte do Dr. Mário Lyster Franco, que não resistindo ao desgosto de ver a sua obra impedida de ser editada acabaria por ser acometido de vários achaques, de que resultaram a cegueira, irregularidades cardíacas, afasia e desinteresse pela vida. Daí até à morte foi um curto passo.
Quando, no já distante início da década de oitenta, trabalhei na actualização da Algarviana não existiam, como agora felizmente existem, as condições técnicas para produzir com satisfatória qualidade aquela que considero como a obra modelar da cultura algarvia. Não é pois impossível prosseguir com a sua edição. O que é difícil, isso sim, é colocar em consonância todas as entidades que directa ou indirectamente possam, ou devam, estar envolvidas. E, nesse caso, incluo desde logo a Câmara Municipal de Faro como responsável pelo financiamento da edição; os herdeiros do Dr. Mário Lyster Franco pela cedência dos direitos autorais; o IPLB – Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, pelo co-financiamento da investigação e actualização da obra; a RTA – Região de Turismo do Algarve, como possuidora do espólio literário pela cedência de todo o material tendente à prossecução da obra; a Universidade do Algarve pela sua primacial ligação a este processo através da minha pessoa; e, por fim, à minha disponibilidade para assegurar a continuidade da obra.
É claro que tudo isto se pode sintetizar e concentrar numa única instituição: a Câmara Municipal de Faro. Provavelmente até será mais prudente resumir poderes e responsabilidades do que dispersar e decompor decisões. Muita gente envolvida pode desbaratar e confundir o bom andamento do processo. Porém a concatenação das entidades oficiais, locais ou regionais, poderá aligeirar os custos de produção. Nessa ordem de ideias, talvez não fosse descurável a participação da instituição mecenática, atraindo ao processo empresas privadas interessadas em financiar o projecto. Enfim, muitas hipóteses se antepõem no horizonte da suposta boa vontade regionalista.
De qualquer das formas, se a autarquia assim o desejar estou certo que se encontrarão as soluções mais acertadas para a conclusão desta obra injustificadamente interrompida há vinte e cinco anos atrás. Haverá certamente que limar algumas arestas e acertar alguns detalhes. Nada que não se possa ultrapassar, desde que não falte vontade, esforço e empenho da autarquia. Aliás, convém sempre lembrar, que pertence à edilidade farense o direito de primazia na edição da obra, o que afasta as editoras privadas do interesse na continuidade da publicação. Por outro lado, acresce à autarquia a obrigação moral de prosseguir a edição, já que seria uma forma de concluir com letras de ouro as comemorações centenárias do nascimento do Dr. Mário Lyster Franco, que em 2002, passaram praticamente desapercebidas, porque nessa altura a autarquia farense estava nas mãos da ignorância e da obscuridade.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Jornalismo e o Ensino

por José Carlos Vilhena Mesquita*

Os caminhos da imprensa são cada vez mais insondáveis e imprevisíveis. E um dos maiores equívocos da actualidade é tentar ensinar nas escolas, ditas superiores, aquilo que é suposto considerar-se um dom da natureza: a arte da escrita. Centenas de jovens frequentam hoje os Cursos Superiores de Comunicação Social, de onde saem habilitados a desenvolver uma profissão cada vez mais estereotipada e cada vez menos intelectualizada.
Nos jornais, e principalmente na televisão e na rádio, campeia uma confrangedora mediocridade de “jornalistas de plástico”, modelados numa concepção robotisada da imprensa, que pouco ou nada tem a ver com as artes da escrita. As suas aptidões não brotam do fundo da alma nem irradiam cristalinos talentos mineralizados pela natureza genética. O jornalista deixou de ser um artista da palavra, um comunicador de valores, de princípios éticos e de elementos formativos do espírito intelectual e dos direitos de cidadania. As colunas dos periódicos eram a antecâmara do escritor, cuja obra literária acabaria por eclodir como fruto natural das suas inatas qualidades para a arte da escrita. Ao contrário de tudo isso, hoje o jornalista é um produto marketizado pela escola, que faz a informação com régua e esquadro, seguindo os cânones e perseguindo os modelos da CNN, da NBC, ESPN, CBS ou da BBC.
Repare-se que actualmente os jornalista já não são “opinion makers”, deixando essa função aos colaboradores especializados, geralmente oriundos do mundo universitário. Mas ainda há bem pouco tempo era assim com Francisco Pinto Balsemão e José António Saraiva, do Expresso, com Mário Mesquita, do Diário de Notícias, ou com Joaquim Letria, Miguel Sousa Tavares, José Carlos de Vasconcelos, Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Dacosta, etc.
Ser-se jornalista não é saber falar para o microfone radiofónico nem para as câmaras televisivas. Ser-se jornalista é saber escrever. E isso não se ensina, quando muito apura-se, porque o “dom” da escrita nasce com o ser humano, como uma dádiva da natureza.
É um erro grosseiro considerar-se jornalista aquele que apenas cumpriu um plano curricular universitário durante um determinado período e que em seguida estagiou na redacção dum jornal nacional ou regional. A sua primeira constatação é a de que, na verdade, não foi devidamente preparado para desempenhar essa profissão, porque se as ideias afloram ao cérebro já o mesmo não acontece com a escrita que tarda em afluir ao papel. É que o exercício da escrita, mesmo para os dotados, além de ser lento, pensado, reflectido, estruturado e lógico, tem de ser ético e estético. E para isso é preciso possuir o dom com que a natureza bafeja os mais aptos. Certamente será um apuramento genético que estará por detrás dessas inatas qualidades. Mas também há que descobri-las a tempo por forma a evitarem-se os equívocos a que temos vindo a assistir com os nossos jovens, que tentam a todo o transe frequentar os cursos que lhes garantam maiores proventos económicos (como a Medicina ou a Arquitectura), sem que para isso demonstrem a menor vocação. Os cursos de comunicação social estão na moda pelo efeito da imitação que nos jovens provoca a televisão, onde todos os rostos mediáticos são considerados jornalistas. Puro erro. Se lhes pedirmos um artigo de duas páginas ou não são capazes de o fazer ou demoram uma semana a conclui-lo. Falta-lhes a capacidade natural da escrita. Mas são jornalistas. O equívoco é esse. As nossas escolas são meros infantários, que gozam da conivência do próprio governo, pois que o objectivo da instituição consiste na ocupação dos filhos enquanto os pais trabalham. Esta é a mais trágica das realidades. Ninguém quer saber se, na realidade, o seu tempo está a ser bem empregue e melhor aproveitado. O que os pais pretendem é que os seus filhos estejam ocupados nos bancos da escola e longe das ruas, onde campeia o vício e se instalou a insegurança
Lamentavelmente a maioria dos alunos que pretendem frequentar as Escolas de Comunicação Social não têm noção se são efectivamente capazes de alinhavar uma notícia ou um simples ensaio de vinte linhas. Essas Escolas deveriam poder gozar dum estatuto especial de selecção dos candidatos por forma a evitar que os alunos optassem por esses cursos sem a mais pequena vocação. Julgo que à Escola Superior de Belas Artes só se candidatam os jovens com apetência para as artes, que precocemente revelem qualidades inatas para o desenho, para a pintura ou para a escultura. Quem não sabe já desenhar não vai propriamente aprender a fazê-lo nas Belas Artes, visto que aí irá principalmente despertar os sentidos para a percepção das formas, da luz e das cores, ao mesmo tempo que aperfeiçoa as suas qualidades naturais para o rigor do traço, o equilíbrio das forças e a proporção dos volumes. Em boa verdade, a Escola (no sentido institucional do termo) prepara os jovens de uma forma interdisciplinar para enfrentar, com algum conhecimento de causa, os principais problemas que o rodeiam. É nessa altura que os professores devem aperceber-se nas intrínsecas apetências dos seus alunos para as artes da escrita, do espírito e das formas.
Os professores apercebem-se que alguns alunos têm qualidades para o desenho, para a música, para a escrita e até para a representação cénica. Nessa altura deverão aconselhá-los a seguir uma formação tanto quanto possível integrada e especializada no aperfeiçoamento dessas qualidades. Mas infelizmente os professores concentram as suas preocupações no cumprimentos dos currículos escolares, restando-lhes pouco tempo para cuidar, desenvolver e incentivar as naturais apetências dos seus alunos. E não conhecendo os docentes as instituições dificilmente poderão aconselhar os seus alunos a tomar o rumo para o qual aponta o seu talento.


* Presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve
Nota: este artigo foi publicado em diferentes jornais, por solicitação dirigida ao autor