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terça-feira, 19 de maio de 2026

Em memória de António Silva Carriço, notável escritor de Monchique

O escritor Silva Carriço
Completa-se este ano, de 2024, no próximo dia 21 de Novembro, cinco anos de saudade, pela morte do escritor António Silva Carriço, amigo de longa data, de que guardo ainda gratas recordações. Quando soube do seu falecimento, escrevi quase de imediato uma sentida evocação da sua vida literária, que reflete e o meu condoído desgosto pela perda de tão estimável amigo. Já se passaram cinco anos… E como nos tempos que correm parece que já não se dá valor a quem o merece, decidi exumar as sentidas palavras que em sua homenagem deixei registadas, para através desta tribuna, em que ele assumiu posição de relevo, lhes dar uma nova vida, e uma perpétua referência na sua terra natal.
A literatura portuguesa, e a cultura algarvia, perdeu com o falecimento de António Silva Carriço, ocorrido a 21-11-2019, um dos mais genuínos escritores da língua de Camões. Foi uma perda irreparável, sobretudo para os que o conheciam e admiravam a sua obra. Mas, ao mesmo tempo, foi também uma perda de que o país não se apercebeu, porque o Silva Carriço era um escritor da província, que vivia longe das luzes da ribalta que apenas iluminam os céus de Lisboa.
Conheci o escritor Silva Carriço na vila de Monchique, sua terra-natal, na primeira visita que fiz à Biblioteca Municipal. Estabelecemos desde logo uma sólida empatia intelectual. Voltamos a encontrar-nos, várias vezes, em eventos de carácter literário. E quando ia a Monchique costumava encontrá-lo na Farmácia Moderna, onde ao fim da tarde se reuniam os homens cultos da vila, sobretudo os colaboradores do jornal local, cujo diretor era então o Dr. José Manuel Furtado.
Numa dessas tardes contou-me a sua vida. Estudara no Colégio de Santa Catarina, em Monchique, que foi um dos mais prestigiados estabelecimentos escolares do sul do país, sob a égide das freiras do Convento de Nossa Senhora do Desterro, professas da Ordem Terceira de S. Francisco. O colégio funcionava em regime de internato, para os alunos que vinham de fora, tanto do Algarve como do Baixo Alentejo, e de externato para os poucos que eram da vila e suas redondezas. Foram essas proficientes religiosas que vieram, em 1954, fundar o Colégio do Alto, em Faro, um dos mais conceituados do país.
O Silva Carriço, saiu de Monchique, para completar os estudos liceais em Lisboa. Mas, como já tinha idade para ganhar a vida, foi trabalhar como desenhador num gabinete de arquitetura, enquanto estudava no Liceu Camões. Terminou o curso no Liceu de D. João de Castro, em Lisboa, empregando-se de seguida no Instituto Nacional de Estatística, aí convivendo com outros algarvios, que se fizeram gente em diversos organismos estatais. Entrado no quadro da função pública, pediu transferência para a Câmara de Monchique, onde permaneceu desde 1961 até à aposentação em 2003.
Biblioteca Municipal António da Silva
Carriço, em Monchique

Funcionário público e homem da cultura

Muito dado ao estudo e à leitura, revelou-se interessado nas letras e na cultura local, razão pela qual lhe seria entregue a direção da Biblioteca Fixa da Fundação Calouste Gulbenkian e, dez anos depois, em 1971, a Biblioteca Municipal de Monchique. Nessas funções prestou um inestimável serviço à cultura e à educação de sucessivas gerações de jovens monchiquenses. Conhecia os clássicos da literatura europeia, mas não era só a leitura que lhe ocupava o tempo, era também o estudo da arte, sobretudo da pintura e escultura. Sabia onde paravam os tesouros artísticos do mundo, e quando as posses o permitiram foi vê-los, na companhia da sua amorosa esposa, aos principais museus da Europa.
Durante quase meio século, pode dizer-se que foi ele quem cuidou da educação literária e do autodidatismo de muitas centenas de crianças e jovens daquele concelho serrano. Fez do seu posto de bibliotecário uma espécie de cátedra popular, na qual divulgou os principais monumentos da cultura lusíada.
O que mais me impressionava os seus “alunos de circunstância” era a sua prodigiosa memória, e a forma inteligente como concatenava os autores e as suas obras, clareando diferenças, juntando afinidades, esclarecendo as ideias e os objetivos que incitaram os escritores a exaltar convicções, incendiar mentalidades, revolucionar gerações. E a par da sua refinada cultura estava a sua requintada sensibilidade, que transparecia de forma contagiante no amor à poesia. E quantos por sua influência leram, e adoraram Alves Redol, Manuel da Fonseca, José Régio ou Natália Correia, quando as suas obras ainda não tinham alcançado o prestígio, com que hoje são reconhecidas em todo o mundo.

Um homem da escrita e das belas-letras

Ainda jovem, com apenas 16 anos de idade, o Silva Carriço começou a escrever nos jornais. E não se estreou, como tantos outros, na humilde imprensa regional, mas antes nas prestigiadas colunas do «Novidades», órgão católico de expansão nacional, cujos assinantes se distribuíam pelo país inteiro. E como os jornais sempre foram a rampa de lançamento dos escritores, tornou-se correspondente em Monchique de «O Século» e do «Diário de Lisboa», mantendo durante décadas uma assídua colaboração.
Uma das suas facetas menos conhecida é a de poeta. Começou a expor a sua inspiração lírica em concursos locais de poesia, embora sem grande sucesso. Conseguiu ser distinguido, em 1982, nos Jogos Florais do Algarve, do Racal Clube de Silves, recebendo uma Menção Honrosa, na modalidade «Poesia Lírica». Percebeu que a sua poesia não teria o apreço que esperava, e dedicou-se quase em exclusivo à prosa. As musas deixou-as em repouso, para só as venerar nos momentos de desencanto e solidão, quando as angústias da vida lhe abatiam a alma.
Quando, em Dezembro de 1985, o Grupo de Dinamização Cultural «O Monchiqueiro», decidiu lançar a edição inaugural do «Jornal de Monchique», é o António Silva Carriço, juntamente com o José Manuel Furtado, o José Gonçalo Duarte, o José Rosa Sampaio, o Reis Luís, e outros, que preenchiam as suas colunas com interessantes reportagens, artigos e curiosas secções, sobre os mais variados assuntos. Esse prestigiado órgão da nossa comunicação social ainda hoje se publica, e numa altura em que a imprensa algarvia se reduz a meia dúzia de periódicos, impõe-se enaltecer a persistente luta pela sobrevivência do «Jornal de Monchique», cujos 39 anos de vida editorial, num concelho em crescente desertificação, deveria ser alvo de homenagem pelo Ministério da Cultura.

Memória das Coisas

Como prosador, Silva Carriço, testou o seu talento novamente nos concursos literários. É uma prática corrente, e uma estratégia normal, quando se começa a tentear o árduo caminho das letras. Submeteu-se à aferição do mestre das letras algarvias, o famoso Dr. Joaquim Magalhães, que como presidente júri dos Jogos Florais do Algarve, promovidos pelo Racal Clube de Silves, avaliou e apadrinhou o talento de muitos poetas e prosadores algarvios. Vemos então o Silva Carriço laureado em 1990 com uma Menção Honrosa, o que era um bom augúrio para a carreira literária que iniciaria em 1995, com a publicação do seu livro de estreia, intitulado Memória das Coisas. Nele compilou as crónicas que publicara ao longo de vários anos no «Jornal de Monchique», cujos temas retratam vivências da cultura serrenha, relatam episódios marcantes na vida local, registam o valor e a importância do património etnográfico e das tradições do povo, que constituem a memória e identidade de Monchique. Como livro de estreia teve um inusitado sucesso, esgotando-se a edição pouco tempo depois. Sendo justamente reeditado em 2008.
No ano seguinte à sua estreia literária, em 1996, foi-lhe atribuído pela Região de Turismo do Algarve, o 2.º Prémio de Comunicação Social, em razão do seu artigo «O Prazer da Diferença», um texto brilhante, carregado de conceitos filosóficos, no qual os valores da ética e da estética artística são rebatidos com a sincera e natural eloquência de um homem sensível e inteligente, como sempre o foi o meu amigo António Silva Carriço.
Na continuidade do seu périplo pelos concursos literários, recebeu em 1997 do Clube de Jornalistas de Braga o Prémio Especial Verde Minho, patrocinado pela Região de Turismo do Minho, mercê do artigo publicado no Jornal de Monchique, sob o título de «O Irresistível Fascínio do Verde», no qual compara a viçosa floresta da sua terra natal com o fascinante Gerês na viridente serra minhota. Um texto de rara beleza literária, que se pode comparar com os que melhor escreveu Raul Brandão, certamente um dos autores que mais inspiraram a sua escrita e melhor moldaram a sua personalidade literária.

O Sabor da Vida – a consagração do escritor

Ainda em 1997 publica o seu segundo livro de crónicas, O Sabor da Vida, que tal como o primeiro foi editado pelo grupo cultural «O Monchiqueiro», que não demorou a esgotar-se. Trata-se da compilação de alguns artigos publicados no «Jornal de Monchique», que o próprio Silva Carriço considerou como “pedaços de um profundo olhar, que não se limitou a agarrar a luz das pessoas e das situações, mas que se perde e prende nas funduras do sentir”. É um livro de ampla dimensão filosófica, ponderada apreciação artística e de ajuizada análise literária, que o autor, para facilitar a compreensão do leitor, segmentou em conjuntos temáticos de grande interesse para o conhecimento da vida intelectual nos finais do século passado. Pode parecer estranho, a quem nos lê, conceder tão elevados créditos a um simples cronista dum jornal de província, numa terra ignorada e esquecida como Monchique. Para quem não conheceu o Silva Carriço poderá parecer um exagero da nossa parte, mas, na verdade, era um homem muito culto e inteligente, que escrevia primorosamente, caldeando a sua ilustrada escrita com aferições artísticas e juízos de valor, só ao alcance das mentes mais eloquentes e brilhantes.
Em 1998 convidei-o a pertencer à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, à qual aderiu imediatamente. Fundei, e dirigi, no ano seguinte a Revista Stilus, em cuja edição inaugural publiquei de Silva Carriço um brilhante trabalho, do mais fino recorte literário, intitulado «Sabina na Casa de Espelhos» [Stilus, nº 1, Junho 1999, pp.89-96].
Prosseguindo a ordem cronológica da sua vida literária, impõe-se salientar o facto de ter sido galardoado, em 2002, com o 1.º Prémio Manuel Teixeira Gomes, no concurso instituído pela Câmara Municipal de Portimão, com o patrocínio da Delegação Regional da Cultura do Algarve. Daí resultou a publicação do seu primeiro livro de ficção, Entre o Corpo e a Rosa, inspirado no realismo mágico da literatura sul-americana, cuja urdidura endógena decorre no espaço rural do Barranco do Demo, um suposto lugarejo da serra algarvia, onde uma mulher com raros poderes místicos, faz prodigiosas curas e milagres, em troca dos prazeres da carne. Todavia a morta colheu-a da vida de uma forma quase misteriosa, mas ela volta para se vingar dos algozes, como uma penumbra diabólica, que à noite enlouquece de desejo os seus antigos amantes. A bíblica sedução de Eva, e a explanação erótica das relações adúlteras, acaba por resvalar numa imbricada estória macabra, onde o medo, o terror e a desconfiança se apodera dos habitantes da aldeia. Um conto fantástico, muito bem escrito, ao nível de um clássico Edgar Allan Poe ou de um moderno Gabriel Garcia Márquez.
Reconhecendo o seu contributo, como «figura proeminente na vida cultural do concelho de Monchique», a Câmara Municipal decidiu atribuir em 2004, à Biblioteca Municipal o nome de António da Silva Carriço, em homenagem ao seu esforço desenvolvido em prol da educação e da cultura local. Tratou-se de um gesto de agradecimento pelos 43 anos de serviços prestados naquela edilidade, em benefício das gerações jovens que tiveram em Silva Carriço um fraterno amigo, um conselheiro cultural e modelo de erudição, com base num insaciável autodidatismo, que a todos poderia servir de exemplo.
Em 2005 publicou o seu terceiro livro de crónicas, Retrato da Paisagem Enquanto Gente, uma compilação dos textos publicados no «Jornal de Monchique». Na origem desta obra está a intenção de resgatar para a posteridade a efémera lembrança das suas crónicas, na fugaz leitura daquele periódico. A editora Colibri, especialmente vocacionada para a publicação de obras académicas, teve o mérito de acolher debaixo da sua prestigiada chancela a última coletânea de crónicas literárias de António Silva Carriço.
Nos anos que se seguiram participou em diversos eventos culturais, nomeadamente na apresentação de livros, do seu conterrâneo António Manuel Venda, ou em exposições de artes plásticas, incluídas no programa «Faro Capital Nacional da Cultura», presidido pelo meu saudoso amigo António Rosa Mendes. No domínio das artes publicou Silva Carriço os seus últimos textos, um deles intitulado Zé Ventura – As Cores do Tempo, foi premiado em 2007 no London Book Festival. O outro texto, «Uma Abertura de Alma», escreveu-o em 2008 para o livro-catálogo da exposição de fotografia de António Maria Callapez – um olhar a Sul, numa edição comemorativa do centenário do seu nascimento.
Por fim, em 2014, a Paulinas Editora, publicou o seu último livro, Reflexos, constituído por treze contos de Natal, nos quais se apela à paz e à reconciliação entre os homens de todos os quadrantes, de todas as raças e credos. Nesses contos ressalta a esperança num futuro melhor, sob a bênção do Deus-Menino nascido em Belém. A mensagem, que o Silva Carriço nos deixou nesses contos natalícios, é a de os homens foram talhados pela mão de Deus para fazerem o bem, protegendo os fracos e os desfavorecidos, como expressão do amor e da conciliação da humanidade.
Nesta quadra natalícia, seria de inteira justiça que alguns desses belos contos fossem difundidos na rádio Fóia, recriados nas escolas de Monchique ou editados em pequenos livrinhos ilustrados, para oferta daquele município às crianças de todo o Algarve.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Homenagem ao poeta Tito Olívio no Dia Mundial da Poesia e no seu 90º aniversário

Comemorou-se no passado dia 21 de Março o Dia Mundial da Poesia, a par da Primavera, que anuncia o ciclo da regeneração da vida, no brilho do sol, no perfume das flores, e de todas as evidências naturais da esperança, do amor e da fertilidade. São esses, os temas positivos, que mais inspiraram a criação poética. E nós, portugueses, somos um povo de poetas, marcados pelo orgulho da independência e pela glória espiritual da nossa identidade. Soubemos erigir uma pátria, e foi pelo destemor da vontade e da coragem que logramos definir o exíguo quadrilátero a que demos o nome de Portugal. Fomos e continuamos a ser a mais antiga nação da Europa, com nove séculos de existência, mantendo sempre a mesma língua, o mesmo território, a mesma religião e o mesmo povo. Numa época trágica, como a que vivemos hoje, não é um vírus que nos vai abater nem calar, mas antes a falta de coragem, de orgulho, de valentia e de consciência nacional, para nos mantermos unidos e não deixar subjugar aos interesses materiais, o supremo valor espiritual da pátria, erguida com o sangue, as lágrimas e a vida dos nossos egrégios avós. É assim que reza o nosso hino, porque foi assim que se moldou no barro da História, a alma e a estirpe do povo lusíada, disseminado pelos diversos quadrantes geográficos da Humanidade.Nesse lindo dia de sol primaveril, Dia Mundial da Poesia, deste esperançoso ano de 2021, não posso deixar de evocar os Poetas Vivos, porque dos nossos amados vates do passado, todos os dias são de poesia e de saudade. Hoje é dia de reverente homenagem, e de suprema gratidão, para com todos os que entre nós continuam a criar pelo brilho diamantino palavra poética, o cenário idílico da vida, a fantasia do amor e a quimera da felicidade social, que os filósofos e os sábios da humanidade sonharam um dia poder realizar.
Os poetas Tito Olivio, Quina Faleiro e Ferradeira Brito
Hoje quero homenagear os poetas do Algarve, humildes e ignorados, que vivem no remanso da província, sem que as luzes da ribalta se lembrem que eles existem. São tantos que corro o risco de deixar algum para trás de forma injusta e involuntária. Por isso, a todos abraço num fraterno amplexo, dirigido a um só desses talentosos e geniais poetas, que todos respeitam e admiram. Refiro-me ao poeta Tito Olívio Henriques, cuja obra é um marco indelével na poesia portuguesa contemporânea.
Os poetas Nídia Horta, Glória Marreiros e Tito Olívio

Ser poeta é dedicar-se aos outros

O seu talento é muito diversificado, não só no campo da engenharia civil, como na engenharia hidráulica, e até na sociologia, tendo realizado obra material e produção científica, nessas áreas em que desenvolveu a sua actividade profissional. Todavia, o que mais importa realçar na sua já longa existência de quase 90 anos de idade - que completa daqui a dois dias, no próximo 23 de Março -, é a sua dedicação, graciosa e prestativa, aos mais desvalidos e carenciados, alvo preferencial do seu auxílio material e afectivo. Só para termos uma ideia da sua dedicação à sociedade farense, no âmbito do auxílio mútuo, da saúde, da cultura, do desporto, da caridade e até da política, começaremos por ordenar os cargos que exerceu como Presidente: do Sporting Club Farense, da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia da C.M.F., da Comissão Administrativa do Sport Faro e Benfica, da Associação de Xadrez de Faro, da Comissão Distrital dos Serviços à Comunidade do Distrito Rotário 1961, e do Rotary Club de Faro (por diversas vezes). Além disso foi Mesário da Santa Casa da Misericórdia de Faro, Vereador da Câmara Municipal, Vice-presidente do Cine-Clube, Secretário da Comissão Distrital de Árbitros de Faro, da Comissão Instaladora do Conservatório Regional do Algarve, técnico responsável pelas obras de restauro do Teatro Lethes, técnico-voluntário do Refúgio Aboim Ascensão, etc. Para não enfadar o leitor, omiti mais de uma dezena de funções prestadas ao serviço da comunidade e do bem comum. Mas não posso deixar de salientar a sua dedicação à delegação de Faro da Cruz Vermelha Portuguesa, de que foi secretário-geral durante vários anos, ao Instituto D. Francisco Gomes, vulgo Casa dos Rapazes, aos Bombeiros Voluntários de Faro de que foi Presidente da Direcção, e ao Conservatório Regional do Algarve - Maria Campina, de que foi Secretário-Geral. Em nenhuma destas instituições auferiu qualquer remuneração, o que é raro acontecer nos tempos que correm.
Glória Marreiros e Tito Olívio, dois expoentes da poesia algarvia

Jornalista, escritor e editor

Na parte que mais directamente se relaciona comigo, posso dizer que o engº Tito Olívio Henriques prestou um serviço inestimável à cultura algarvia. Desde logo porque há mais de cinquenta anos que colabora na imprensa regional algarvia, com artigos em prosa de intervenção cívica. E depois, como dirigente associativo, primeiro da AIRA, da ASORGAL, e, por fim, como Presidente da Assembleia-geral da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve (AJEA), e como subdirector do «Jornal Escrito» e da revista «Stilus», onde se deram a público importantes trabalhos sobre a história, a etnografia, a economia, a arte e a literatura algarvia. Fundou também a «Tertúlia Hélice», através da qual organizou diversos recitais de poesia em todo o Algarve.
Além da sua dedicação ao serviço social, o poeta Tito Olívio soube evidenciar o seu talento nas diversas áreas da cultura, nomeadamente na arte, participando em exposições de pintura e escultura, e na literatura, colaborando em jornais regionais, e publicando livros. Para isso, fundou a colecção «Cadernos de Santa Maria», integrada na «AJEA Edições», destinada a publicar obras de curta dimensão da autoria de diversos poetas e escritores algarvios.
Tito Olívio e Rocha Gomes, dois grandes poetas e amigos
Falar de alguém com a dimensão intelectual do poeta Tito Olívio é sempre difícil de resumir em breves palavras, razão pela qual me alonguei talvez mais do que a natural paciência do meu leitor. Peço desculpa a quem me lê, mas também ao homenageado, pela minha falta de recursos para poder enaltecer as qualidades e o supremo valor do seu talento literário.
Por isso, encerro este breve apontamento lembrando que a sua obra literária e iniciou em 1963, há quase meio século, com a edição do seu livro O Romance do Homem Solitário, uma colectânea de contos, cuja leitura nos deixa surpreendidos pela forma estilística como supera e transcende o neorrealismo, tão em voga e no agrado político da sua geração literária.
Em jeito de remate final, apresento ao poeta Tito Olívio, cuja vitalidade e genica, tem sido um dos seus mais invejáveis predicados, os meus sinceros votos de muita saúde e de felicidade para os desafios que se irão suceder às 90 primaveras que acabou de completar no passado dia 23 de Março.
Tertúlia Hélice num encontro de poetas em Ayamonte
Bem hajas, amigo Tito Olívio, por tudo o que nos destes e nos ensinastes. Brindei ao teu aniversário, e à distância de um telefonema, porque não te pude abraçar no dia em que certamente mais desejarias ter os amigos por perto. Esta maldita pandemia, e o consequente confinamento a que nos tem sujeitado, consegue-nos separar fisicamente, mas não nos consegue silenciar, e muito menos impedir de te dizer, urbi et orbi, que te admiro muito e que, em qualquer circunstância, estarei sempre ao teu lado.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

João Rico, um poeta algarvio injustamente ignorado

Venho hoje a terreiro lembrar a figura de um poeta olhanense, hoje absolutamente esquecido, diria antes, injustamente ignorado. E acreditem que foi no seu tempo um homem de talento invulgar, um espírito livre e um inconformista rebelde...
As características açoteias de Olhão, por Artur Pastor
Creio que a determinada altura da sua vida se sentiu desenraizado, desfasado, do tempo, da sociedade e da mentalidade que não o soube acolher nem compreender. Chama-se João Rico, mas foi sempre desprovido de quaisquer riquezas materiais, que aliás não procurou obter, porque a isso não lhe davam tréguas as musas, nem a ambição da posse material dos prazeres fúteis. Foi sempre prisioneiro do seu génio de poeta sonhador. 
Viveu num tempo em que o sonho não comandava a vida, e quem sonhava com outros mundos, mais perfeitos e justos do que este - em que apenas lutamos para não morrer de fome - era tido por lunático, fantasista e louco. Não admira, pois, que a ignorância do vulgo tivesse dele escarnecido e desprezasse as suas palavras, os seus pensamentos e atitudes. Tudo isso porque o João Rico, era apenas um pobre diabo, que incompreensivelmente optara por seguir caminho na margem esquerda do rio, no sentido contrário ao da vulgaridade conformista. Morreu pobre e abandonado. 
Para os que nunca souberam quem foi o poeta João Rico, aqui vos deixo, em traço largo e mal vincado, um breve esboço biográfico. 

João Rico foi um inspirado poeta e publicista algarvio, nasceu na madrugada do dia 3 de Março de 1892, no sítio de Brancanes, freguesia de Quelfes, no concelho de Olhão. Era filho de João Martins Rico, pedreiro de profissão, e de sua mulher Ana de Jesus, doméstica, ambos naturais da referida freguesia e sítio de Brancanes. Era neto paterno de Domingos Martins Rico e Maria do Rosário, e materno de João de Sousa Neto e Maria dos Santos. Foi seu padrinho de baptismo o avô paterno, também pedreiro de profissão, e madrinha Maria do Carmo, casada com António de Sousa Gago. 
Estudou no Liceu de Faro, onde se revelaria um jovem de talento e de grandes recursos intelectuais, partindo depois para a capital a fim de seguir a vida militar, chegando a atingir o posto de oficial do exército. Quando se implantou a República aderiu com entusiasmo ao novo regime, empenhando a pena e o talento na divulgação dos valores morais e dos objectivos de progresso social, cultural e económico, que o governo se propunha empreender para elevar a fasquia do desenvolvimento e do fomento industrial na pátria lusa. Tudo idílicas quimeras que sustentou com a mais sólida convicção, como se a simples mudança de regime constituísse a panaceia de todos os males, de que há séculos enfermava a nossa pobre nação. Quando tinha apenas 22 anos de idade, carreava na alma e no coração muitas desilusões e desgostos que lhe serviram de inspiração para escrever o seu primeiro livro de poesia, com o sugestivo título de Lembrança e Dores, dado à estampa em Lisboa, na tipografia «Sousa e Gonçalves», no ano de 1914. A sua estreia literária, ainda que precoce, evidenciava já o seu raro talento de inspirado e criativo poeta, que não passou desapercebido nas colunas dos jornais da época, nomeadamente no «Século» e na «Ilustração Portuguesa», que lhe publicou o retrato e teceu rasgados elogios ao livro de versos que acabava de publicar.
Após persistentes conversações políticas, levadas a cabo pelo nosso prestigiado embaixador em Londres, Manuel Teixeira Gomes, consegui-se pela persuasão diplomática convencer o velho aliado militar britânico a consentir a participação de Portugal, naquela que augurava ser a guerra de todas as guerras. O governo rejubilava de euforia, porque com a participação no conflito europeu caía de vez o perigo da contra-revolução monárquica vir um dia a contar com o apoio britânico, para a restauração do trono bragantino. 
Tal como aconteceu com milhares de outros jovens, João Rico foi incorporado no CEP - Corpo Expedicionário Português, que depois da instrução e treino de combate, realizada na planície alentejana, seguiu para França a bordo dos navios estrangeiros da chamada Tríplice Entente - a aliança militar formada pelas super-potências europeias, o Reino Unido, a França e Rússia . Pouco antes de partir, vemo-lo em 1916 ao lado do major Mateus Moreno no elenco da revista «Alma Nova», fundada em Faro em 20-9-1914, mas que dois anos depois assentava arraiais na capital, onde chegou a ter um naipe colaboradores do melhor que então campeava na imprensa portuguesa. Era na secção do «Teatro e Cinema» que João Rico assentara a sua banca de redactor, assinando os artigos de crítica teatral simplesmente com as iniciais do seu nome. Simples e modesto, era assim, na imprensa como na vida.
Descarga da pesca no porto de Olhão (Artur Pastor)
A carreira das armas, que parecia auspiciosa, tornou-se numa breve miragem, pois que dela foi afastado e destituído de todas as patentes, por razões políticas, já que se manifestara abertamente contrário à revolução do “28 de Maio”. Os promotores da ditadura militar demitiram-no logo do exército. 
Sem desesperar, aceitou depois uma via-sacra por diversas repartições públicas, às quais não se conseguia adaptar. O seu talento e espírito rebelde era contrário ao ronceirismo em que viviam os “mangas-de-alpaca”, onde lhe faltava o ar da liberdade de pensamento, onde se sentia naufragar entre os papéis oficiais e as fastidiosas burocracias. 
Para sublimar as frustrações da sua vida enfastiante dedicava-se nas horas vagas a escrever, colaborando nos jornais e mesmo publicando livros que lhe deram efémera glória e admiração social. «Melancholia», assim se designava a primeira obra que deu à estampa em 1917, apadrinhada pelo consagrado poeta Gomes Leal, para a qual escreveu um belíssimo prefácio em verso. Apropriado título para um livro de poesia que ressumava as acostumadas mágoas, a natural tristeza e abatimento muito peculiar dos nossos vates. E, na verdade, a poesia resulta, por vezes, na expiação das nossas frustrações e da nossa deprimente infelicidade. Por isso se escreve tanta poesia em Portugal. Não somos um país de poetas, mas antes um país pobre, infeliz e deprimente. 
Seguiram-se outras obras de João Rico, como «Fogo nas Cinzas», uma novela singular, com alguns capítulos em que as personagens dialogam em verso, editado em 1931. Seguiram-se outros livros de versos, como «Sonetos e Sonetilhos», editado em 1939 pelo seu próprio bolso, a exemplo dos que se seguiram, como foi o caso de «Rimanceiro», publicado em 1941, «O Enviado», designado como uma espécie de poema didáctico, saído em 1944, cujo exagerado preço de venda ao público, 50$00, era absolutamente proibitivo. É claro que o público não podia aderir a tão desproporcionado valor. Mas a intenção de João Rico era precisamente a de chamar a atenção do público para o valor da poesia, que em seu entender era a mais sublime expressão do génio humano. Por isso o seu livro deveria pagar-se caro, como forma de justificação do seu valor intrínseco. É claro que tudo não passava de uma manobra publicitária, ou como hoje se diz, de um golpe de marketing, para conferir ao poeta a projecção literária que verdadeiramente não possuía. Acrescentava ainda, na página de abertura, que o autor reservava os seus direitos autorais de tradução ou adaptação ao teatro nos seguintes termos: “Esta obra só poderá ser representada em teatro lírico ou declamativo, em qualquer adaptação, com a colaboração e autorização do Autor, em sua vida, e, bem assim, direitos de tradução”. Nunca se tinha visto nada semelhante num livro de poesia, e passo o exagero, que era muito intencional, causou um certo escândalo na opinião pública, a ousadia e presunção do autor, que não passava de um ilustre desconhecido. 
Pescador de Olhão, foto de Artur Pastor
A crítica é que não achou piada nem ao preço nem à presunção do poeta, passando ao lado do intrínseco valor do grosso volume, que ficou ignorado e adormecido no longo sono em que ainda permanece. O desgosto do poeta foi inexorável. Desiludido pela incompreensão do público e da crítica, sentindo-se ridicularizado pelos seus altos padrões de exigência, desistiu de escrever e refugiou-se numa letargia degradante e humilhante para um talento que parecia bafejado para mais altos e largos voos. Mergulhou, pois, numa deprimente agonia, marcada por uma desgastante e aviltante miséria, dedicando-se à boémia e ao álcool que lhe minaram as frágeis carnes de antigo soldado enamorado pelas musas, que cobardemente o abandonaram num dos mais difíceis transes da sua malograda existência. 
O seu último livro, intitulado «Astrologia», publicado em 1947, foi uma espécie de canto do cisne, de um dos muitos poetas que o nosso país rejeitou pelo simples facto de não beneficiado da protecção dos críticos literários, submissos e estipendiados por ideologia e partidos, quando não por veladas maçonarias que incensam e glorificam os soezes eleitos do patrocinato político. 
João Rico viria a falecer na freguesia do Campo Grande, concelho de Lisboa, a 26 de Dezembro de 1951, com 59 anos de idade. 

sábado, 12 de setembro de 2020

O notável escritor algarvio César dos Santos, está injustamente esquecido

Lembrei-me hoje de trazer a este tablado a memória de um grande jornalista e escritor algarvio, César dos Santos, infelizmente já quase esquecido entre os seus comprovincianos e praticamente ignorado pelos portugueses em geral. Embora tivesse ganho a vida como publicista, o certo é que foi intrinsecamente um escritor de enorme talento, cujo livro Terra Morena, é hoje o mais celebrado de toda a sua obra literária, por ser uma espécie de homenagem ao seu Algarve natal. Em todo o caso, posso asseverar aos que desconhecem a sua obra que o livro de contos Neblina é, pelo menos para mim, a sua principal obra, por nela se incluírem pequenas novelas e contos, cujo estilo e inspiração são claramente de transição entre o neorealismo, a que o autor se sentia culturalmente ligado, até ao modernismo, mais positivista do que ficcionista, em que se enformam algumas das histórias contidas neste livro. Não sei por que razão a maioria dos livros que compõem a obra de César dos Santos não obtiveram o conforto da crítica, quer nos órgãos de imprensa quer nas revistas da especialidade, em cujas colunas se teceram diversas notícias e artigos, com palavras de apreço e de enaltecimento dirigidas a livros de muito menor quilate e merecimento. Sinceramente, nunca entendi as razões da má vontade da crítica para com o escritor César dos Santos, um homem que ao longo da sua vida sempre escreveu com isenção, rigor e altruísmo, ainda que para manter o pendor do seu carácter, inabalável e inquebrável, tivesse muitas vezes que enfrentar com coragem as perseguições da Censura e até da polícia do regime. Quem com ele privou, e nesse aspecto estou-me a lembrar de Norberto Lopes, jornalista do «Diário de Notícias» e um dos melhores do seu tempo, que sempre enfrentou com coragem as adversidades políticas com o regime salazarista, escreveu acerca de César dos Santos um breve retrato psicológico do seu estreme profissionalismo e do seu diamantino carácter, que não resisto à tentação de aqui transcrever:
«Como profissional, apreciei sempre o seu escrúpulo, o seu amor da verdade, a sua dedicação ao trabalho, a sua exactidão no cumprimento dos deveres. De feitio naturalmente cordial, não lhe foi difícil conquistar amizades e admirações, que lhe ficaram fiéis em todas as circunstâncias da vida. O tratamento de «camarada» com que distinguia os amigos mais íntimos, e que lhe ficara das lutas sindicais, era conhecido na «Fleet Street» lisboeta, que tem por fronteiras a rua do Século e a ladeira da Misericórdia, incluindo o enclave intelectual da «Brasileira» do Chiado.»
É claro que aqui o Norberto Lopes, acerca da «Fleet Street» lisboeta, está a referir-se às redacções, que por ali existiam, dos jornais mais famosos desse tempo, como o «Século», o «Diário de Lisboa», o «Diário de Notícias», o «Diário Popular» e a «República», cujos principais plumitivos se reuniam, ou melhor, se dispersavam pelas diferentes tertúlias culturais que se concentravam ao fim do dia no café da Brasileira, frente à estátua do poeta Chiado.
Acerca do carácter e da personalidade de César dos Santos, acrescenta ainda: «Camarada César não alimentava ódios nem guardava rancores. Discreto, reservado, paciente, embora algumas vezes explodisse em inesperados arrebatamentos, como todos os introvertidos, não se entregava facilmente». E acerca das suas ideias e do seu posicionamento político esclarece: «Espírito liberal, amava naturalmente todas as ideologias, embora não seguisse nenhuma, que conduzem à libertação do homem e à dignificação da sociedade. Subscreveu todas as representações e protestos que visavam a restituir à Imprensa os direitos e privilégios que lhe são inerentes. Não aceitou a nova orgânica sindical [fascista] e conservou-se fiel aos princípios e às ideias que defendeu sempre, não se deixando deslumbrar por modas que o seu gosto literário repudiava. Embora tímido e por vezes hesitante em definir uma posição de que dependia o seu futuro imediato, procurou sempre seguir a linha de rumo que a sua consciência lhe ditava e as preferências naturais que o seu espírito havia escolhido.
Jornalista e escritor, César Augusto Pires dos Santos, de seu nome completo, nasceu a 14-11-1907 na cidade de Silves, e faleceu em Lisboa, a 22-1-1974, com 66 anos de idade.
Desde muito jovem que César dos Santos se dedicava na capital à prática do jornalismo, colaborando em diversos órgãos nacionais e estrangeiras, e trabalhando em vária redacções de jornais e revistas. Dentre os principais jornais em que trabalhou destacamos «O Século» e «República», mas foi no «Diário de Lisboa», a cujo corpo redactorial pertencia desde 1954, que mais se distinguiu. Não obstante, colaborou ainda no «Diário do Norte», «A Bola», «Diário Ilustrado», «Primeiro de Janeiro», «Diário Liberal», e «Notícias de Lourenço Marques», assim como nas prestigiadas revistas «Ver e Crer», «Vida Mundial», «Domingo», «Humanidade», e ainda nos jornais do Brasil e portugueses publicados nos Estados Unidos da América do Norte; sem referir os almanaques, jornais do Alentejo e Algarve.
Foram diversíssimos os temas e assuntos versados pela sua pena de ilustre jornalista e de inspirado escritor, tendo o Algarve e os algarvios recorrentemente ocupado lugar de relevante preponderância nas colunas dos jornais por onde passou, através de extensas reportagens onde propagandeou as suas belezas naturais e as suas potencialidades turísticas.
Como jornalista foi um dedicadíssimo amigo do Algarve e um estrénuo defensor dos seus mais genuínos valores culturais e patrimoniais. Por outro lado, foi um magnífico profissional da imprensa lisboeta, muito preocupado com os interesses da sua classe e com o sucesso dos seus camaradas. Era, como homem, estruturalmente sério e honesto, e, como jornalista, bastante competente e metódico nas suas actividades, e estimável nas suas atitudes.
Foi também um escritor distinto, que burilava a prosa como um ourives, procurando enriquecê-la com aprimoradas descrições do ambiente natural, das relações de produção e dos antagonismos sociais. A sua escrita possuía requintes de estilos diversos, entre o naturalismo e o neo-realismo, com um forte pendor analítico para os desequilíbrios psíquicos dos personagens. A observação ambiental e a descrição socioeconómica são dois atributos que marcam o apreço do público leitor, e impregnam os seus livros com o incontestável perfume literário dos grandes escritores.
A sua obra literária ficou marcada por uma forte sensibilidade pela beleza natural das coisas simples, numa simbiose entre o meio ambiente e a cultura social, um pouco ao gosto do naturalismo oriental. Aliás, nutria uma especial paixão pela filosofia Zen e pela cultura japonesa, claramente visível nos dois primeiros livros dados à estampa, O Japão, na História, na Literatura e na Lenda (1944), e O Japão através da sua Literatura (1945). Essa admiração pela cultura nipónica advinha-lhe da leitura da notável obra de Wenceslau de Morais, proeminente escritor e poeta, o mais admirável cultor da arte, da ética, do humanismo e da sensualidade oriental na nossa literatura. Outro dos seus interessantes livros, talvez o mais jornalístico de toda a sua obra, é a colectânea de crónicas e reportagens sobre Lisboa, intitulada A Cidade das Mil Cores (1946), belíssimas notas impressionistas sobre a vida sociocultural na velha “capital do império”. Seguiu-se-lhe o livro de contos, Neblina (1956), que a crítica não deixou passar incólume, tecendo-lhe justos elogios, embora merecesse maior sucesso editorial do que aquele que efectivamente teve. O mesmo se passou com o seu curioso trabalho de ficção intitulado Viagens Maravilhosas às «Terras do Céu» (1949), talvez a menos conhecida das suas obras. Mas o livro que mais o notabilizou foi certamente essa brilhante colectânea de crónicas publicadas no «Diário de Lisboa», depois reunidas nesse verdadeiro poema em prosa intitulado Terra Morena - Algarve do Sonho e da Realidade (1965), a sua obra de maior fôlego, onde calorosamente descreve e analisada a sua região natal, com requintes de artista e de refinado esteta, glorificando o Algarve nos seus mais relevantes pormenores ambientais, históricos, etnográficos, patrimoniais, artísticos, literários, paisagísticos, turísticos, económicos e até mentais. Uma verdadeira “Ode ao Algarve”, numa rendilhada prosa da mais fina sensibilidade poética.
César dos Santos foi também um dos mais abnegados dirigentes da Casa da Imprensa e do extinto Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa. Pertenceu também à aniquilada Sociedade Portuguesa de Escritores e fazia parte da actual Associação Portuguesa de Escritores. Com Ferreira de Castro, Assis Esperança e Roberto Nobre e alguns mais, constituíra uma pequena tertúlia literária na pastelaria «Veneza», na Avenida da Liberdade.
Apesar do seu notável porte físico queixava-se constantemente da falta de saúde, como se fosse quase uma mania dum cismático ou dum doente crónico. Ninguém podia, porém, prever que os seus receios e lamúrias se tornassem numa infeliz realidade, tão prematura e tão injusta, pois que o colheu ainda na flor da vida.
Foi casado com D. Maria da Glória Lobão Cruz dos Santos, e era irmão dos srs. Luís Alves Pires dos Santos, chefe da Secção de Contabilidade de «O Século», e Artur Rodrigues Alves, funcionário público.
Pela sua árdua e proficiente actividade literária, César dos Santos situa-se entre os mais relevantes jornalistas e escritores algarvios do século XX, sendo de enaltecer a sua fervorosa dedicação ao Algarve. Dissipou o seu talento por variadíssimos periódicos nacionais e estrangeiros, mas, honra lhe seja feita, em todos divulgou com vibrante entusiasmo o seu Algarve natal, lutando, vigorosa e apaixonadamente, pela sua divulgação e engrandecimento. Retratou persistentemente o Algarve numa prosa fluente e brilhante, expondo a sua riqueza paisagística, a beleza das suas praias e a amenidade climática, atributos propiciadores do desenvolvimento turístico na região, efectivamente aproveitados nos anos subsequentes à sua morte.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Um ciclópico falo algarvio glorificado por Guerra Junqueiro


O poeta Guerra Junqueiro, que fez parte dos «Vencidos da Vida» ao lado de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão, que foi um indomável republicano, revolucionário fervoroso, céptico e anticlerical, autor de várias obras primas da lírica contemporânea – escreveu nos tempos de jovem deputado por Macedo de Cavaleiros, um poema jocoso, a que chamou filho do álcool e da boémia. Arrependeu-se cedo de o ter feito, mas não a tempo de impedir que algum dos seus amigos, não sei se por brincadeira ou maldade, o publicasse num quarto de papel, de forma clandestina e não autorizada. O poema em si é bem-humorado, tem graça e suscita a gargalhada no mais sisudo leitor.
O poeta Guerra Junqueiro
Esse raríssimo folheto, editado em segredo, tinha por título «A Torre de Babel ou a Porra do Soriano», e segundo creio teve uma edição de apenas 40 exemplares. O poeta Guerra Junqueiro não achou que a divulgação favorecesse o seu bom nome, e por isso tratou de dar caça ao panfleto que certa mão negra dera à estampa. Ocupou-se nisso quase toda a vida, e parece que lhe deu eficaz extermínio. Todavia nunca se apercebeu da traição que um dos seus amigos lhe aprontou, ao reservar uma cópia para posteriores edições. O seu amigo Raúl Brandão relatou o episódio no 2º volume das suas Memórias: «Junqueiro escreveu algumas poesias eróticas, que um livreiro do Porto a ocultas coligiu e publicou tirando quarenta exemplares». E mais adiante acrescenta: «José Sampaio [Bruno] arranjou um para a Biblioteca Municipal do Porto. Junqueiro que passou a vida a comprar por todo o preço esses exemplares, deu o manuscrito da Pátria à Câmara do Porto em troca do exemplar da Biblioteca. E dizia: - Esses versos não são meus, são do álcool.»
Todavia, o conhecido escritor João Paulo Freire (Mário), publicou em «Curiosidades Bibliográficas» o seguinte acrescento: «Sampaio Bruno aceitou e mandou fechar a sete chaves uma cópia que mandara tirar do original que Junqueiro acabava de inutilizar. Desta edição tiraram-se apenas 60 exemplares».
Concluiu-se, portanto, que foram feitas novas edições, com datas apócrifas e, como facilmente se constata, com um título diferente: «Pedro Soriano». Porém, nunca lhes passou pela cabeça, nem do poeta nem do “Bruno da Biblioteca” que o jocoso poema chegasse ao Brasil, onde não foi depurado do conhecimento público. Julgo que em 1981 vi esse exemplar, que se dizia ser o único da edição prínceps, disputado em leilão por alguns dos mais insignes bibliófilos nortenhos, cujo arrematante deixou na mesa do pregão um cheque de sessenta contos.
Capa da edição apócrifa do Porto

Há alguns anos, vi uma edição considerada erradamente original, que se apresentava como impressa em Paris, e tinha a data de 2119. É claro que essa data fazia parte da laracha que envolvia a própria edição, apócrifa do Porto. Esse opúsculo, tipo in-fólio, já que tinha apenas 14 páginas, nas dimensões de 11,5x16,5 cm, estava impresso em papel linho, com uma capa cinzenta e o título, «Pedro Soriano», impresso a vermelho, com uma vinheta floral ao meio. Um olhar experiente e conhecedor vê logo que aquilo tinha saído de um prelo antigo e desgastado, à maneira imagem dos pasquins que os republicanos davam à estampa nas tipografias clandestinas.
Qual não foi o meu espanto quando vi, agora, há dias, num outro leilão, realizado em Lisboa, um folheto do célebre poema obsceno de Junqueiro, numa edição impressa na Typographia de José F. Ferreira, em Lisboa, datada de 1882!!! Dizia que era edição original e raríssima. Por isso foi arrematado por 110 euros.
Por conseguinte, existem no mínimo duas edições do poema licencioso de Junqueiro, ambas clandestinas e com o mesmo título, Pedro Soriano, presumivelmente editadas na década de oitenta do século dezanove, que escaparam ao conhecimento e à sanha exterminadora do poeta.
Apesar de Junqueiro tentar apagar aquela excrescência literária, de exaltação a outra excrescência, física, não logrou extirpar o furúnculo poético que é hoje mais procurado e raro do que a edição monumental de A Velhice do Padre Eterno, editado em 1885.
Na parte que me toca, interessa referir que na origem deste poema está um algarvio, de facto chamado Pedro Soriano, que no decorrer da sua vida aventurosa e atribulada cometeu alguns erros, mas também algumas virtudes, de que hoje já nem reza a história. Não vou falar desse pobre diabo, que para fugir à justiça e procurar uma nova oportunidade de vida teve de emigrar para a América, onde alcançou sucesso, foi feliz e morreu como um justo. Nas terras do tio Sam dedicou-se curiosamente às letras e granjeou prestígio como jornalista. Conheço dele dezenas de crónicas que publicou nos jornais portugueses, naquelas secções de correspondência do exterior, a que chamavam «Cartas da América». Não vou agora falar dele. Fica para a próxima.
Capa da edição comercial do poema
O que importa agora é dizer que o tal Pedro Soriano, tornou-se alvo da verve poética do Junqueiro porque, segundo lhe diziam os amigos, possuía um membro viril de tão grandes proporções que causava a cobiça aos mais galantes Casanovas da capital, que ao lado desse garanhão descomunal não passavam de níveos querubins de sacristia. Quando os amigos do Pedro Soriano, muitos deles algarvios, como o famoso Lorjó Tavares, todos com largo cadastro de pândegos, e réus encartados de flostrias e distúrbios da ordem pública – razão pela qual em Faro designavam o grupo por «Sociedade dos Terríveis» – o obrigaram a descer as calças e mostrar a ciclópica “tromba” ao poeta da «Musa em Férias», escancarou-se-lhe a boca de espanto, e acicatou-se-lhe o estro para borcar uns versos mais ordinários que os tafuis da Mouraria.
Na capa do famoso opúsculo, editado em 1882, narra-se o episódio nos seguintes termos:
«Pedro Soriano foi o heroi de um casamento simulado que houve em Lisboa. Tinha o membro viril desenvolvidíssimo. Uns amigos de Junqueiro, encarregaram-se de lhe apresentar o Soriano, porque tendo contado a Junqueiro a enormidade do membro, ele dissera que exageravam. Junqueiro viu e exclamou: “Tamanho membro merece um poema”.»
E escreveu-o, mas de tal maneira ordinário, indecoroso e obsceno, que anos mais tarde, após ter alcançado o êxito e a glória, com «A Velhice do Padre Eterno» (1885), com o «Finis Patriae» (1890), «Os Simples» (1892) e a «Pátria» (1915), lembrou-se já Ministro Plenipotenciário da República, que deixara no passado um rasto de indecência poética que urgia apagar da posteridade. Foi o que fez, quase até ao fim da vida. Mas quando pensava ter-se livrado desse escabroso apêndice poético, eis que os seus adversários políticos encontram no Brasil um exemplar, que reeditam, salvando da obscuridade uma composição poética que Guerra Junqueiro ditou de improviso, quiçá inspirado na verborreia bocagiana.
O poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Dizem alguns dos que privaram com Junqueiro, que ele já conhecia o femeeiro algarvio e que se divertira imenso com a tal diatribe do seu falso casamento. Acrescentam até que terá escrito este licencioso poema por causa do escandaloso conúbio. Na verdade, a imprensa da época falou muito no “caso de Torres Novas”, em que o Pedro Soriano encenou um sacrílego matrimónio com uma jovem inocente, de nome Maria Eugénia, que depois de com ele viver largo tempo, abandonou o lar e escapou-se para Lisboa. O estouvado Soriano, perdido de amor e de ciúmes, foi-lhe no encalce, e tentou resgatá-la de volta ao lar. Mas ela queixou-se às autoridades de ter sido não só enganada como “arrombada” pelo descomunal membro viril do seu falso marido.
Apesar da chacota e do escândalo, o Pedro Soriano foi preso e condenado em 1881, por ter simulado um casamento religioso com uma jovem inocente, com o objectivo de desfrutar as núpcias de forma ilícita. Note-se que os casos de duplo casamento não eram raros naquele tempo, se bem que constituíssem grave crime. Mas este foi muito pior, porque inventaram a cerimónia de casamento, para brincarem com a situação e desfeitearem a jovem, lançando-a à mercê do “Mastro do Leviathan”. Depois que a marosca foi descoberta e denunciada, o malandro do Pedro Soriano foi detido, fechado em grades e condenado a degredo. Fugiu mais tarde para os Estados Unidos da América, de onde não mais regressou à pátria.

* ... * ... * ... * ... *

 O poema licencioso, que na versão original saiu a pública sob o título «A Torre de Babel ou A Porra do Soriano», e para que os nossos leitores possam aquilatar, no seu vernáculo, o jaez pouco recomendado para época, deixamo-lo aqui transcrito na íntegra, pedindo desde já desculpa pelo excessos de linguagem que o mesmo contém. Pelo texto se verá que o poeta Guerra Junqueiro, mesmo que toldado pelo álcool, que como ele afirma, terá sido o principal obreiro desta versalhada, não deixa de evidenciar o seu talento, entre um humor, livre e desbragado, e um cepticismo religioso aferrado num incontido anticlericalismo. Nos seus versos ressumam palavras de excessiva licenciosidade, sem as quais, é certo, o poema perderia toda a graça e bom humor. Nota-se um estilo bocagiano difícil de esconder ao leitor. Para melhor leitura adaptei as palavras à ortografia actual. Ouçamos então o dito poema, dedicado ao algarvio Pedro Sebastião de Almeida Soriano, natural de Albufeira, que segundo diziam os amigos, estava equipado com um apêndice sexual de inusitadas proporções, causadoras da maior inveja aos que com ele acamaradavam. 

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal ! Ciclópico trabalho !
     Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
     Dez séculos !
                         Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.


Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo !
     Mastro do Leviathan ! Eminência revel !
     Estando murcho foi a Torre de Babel !
     Caralho singular ! É contemplá-lo
                                                    É vê-lo
teso ! Atravessaria o quê ?
                                      O Sete-Estrelo !!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra !
     É uma porra, arquiporra !
                                                    É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso !!
     É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.


Oh caralho imortal ! Glória destes lusos !
Tu poderias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro !
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo ??!
     Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano !
     - Nada, nada contém a porra do Soriano !!


Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita ??
     - Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha !!!


A porra do Soriano é um infinito assunto !
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto ?
     Onde é que começa ?
                                    Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento ??
     Porra !
               Mil vezes porra !
                                       Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos num minuto !!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

AS PRIMÍCIAS JORNALÍSTICAS DE MESTRE AQUILINO RIBEIRO NA VILA DE OLHÃO

Poucos saberão certamente que o escritor Aquilino Ribeiro fez as suas primícias de publicista emérito no Algarve, mais precisamente na vila de Olhão, tendo escolhido para palco da sua estreia jornalística o semanário «O Cruzeiro do Sul», fundado e dirigido por José Marques Corpas Centeno, dedicado secretário da edilidade local e notável publicista. Trata-se de um pormenor biográfico, frequentemente descurado, que à primeira vista poderá parecer irrelevante mas que, no fundo, assume particular interesse para o roteiro literário e estilístico do autor do Malhadinhas. Por outro lado, constitui um elemento de insofismável orgulho para a História da Imprensa Algarvia, que de forma alguma se poderá desdenhar, sob pena de incorrermos num verdadeiro atentado à memória daquele que muito justamente se considera como o maior romancista português do século XX.

UMA VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ

Este livro gira em torno duma espécie de viagem cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia incomensurável do universo físico está patente neste livro através da persistente alusão aos seus elementos constituintes, com particular acinte na luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que compõem o nosso universo mítico, como a fénix, a cobra alada, a pedra filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na volatilidade do verso poético.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Fonseca Domingos, um progressista poeta do povo

No contexto da poesia algarvia do século XX, assume particular destaque a figura do poeta José Maria Fonseca Domingos, cuja obra apesar de não ser muito vasta foi bastante apreciada entre os seus pares. Homem íntegro e de forte personalidade, que sempre defendeu os valores da liberdade e do socialismo, correu o mundo, confrontou culturas, conheceu diferentes civilizações e vivenciou díspares organizações políticas. Regressou ao seu Algarve natal para viver os últimos anos de vida em convívio com alguns poetas farenses, para cuja consolidação ajudou a fundar, juntamente com Tito Olívio e Diamantino Barriga, a «Tertúlia Hélice», que apesar de todas as vicissitudes ainda subsiste. O texto que aqui se divulga corresponde à conferência que pronunciei em 18-02-2006, na cerimónia de homenagem póstuma realizada no auditório da Biblioteca Municipal Ramos Rosa, em Faro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Evocação da saudosa memória da poetisa Quina Faleiro

     No passado dia 25 de Maio tive o grato prazer de assistir à inauguração da Praceta Joaquina Faleiro, uma brilhante poetisa de quem tive o grato prazer de ser amigo. A cerimónia teve muita dignidade e alguma emoção, transmitida pelos familiares e amigos que nela estiveram presentes. Embora sem a pompa e circunstância de outros eventos, o certo é que a presença do presidente da edilidade  engº Macário Correia, bem como de toda a vereação e de alguns deputados municipais, conferiu àquela singela cerimónia um comovente momento de reflexão e de evocação poética. O Presidente Macário Correio teve a gentileza de proferir um breve discurso, com palavras de muito apreço e de sentida admiração, após o que, em parceria com a nora da homenageada, descerrou a placa toponímica.
     Como a Quina Faleiro (era assim que fraternalmente a tratávamos, e foi esse o seu nome literário que adoptou) possuía um enorme talento para a poesia, lembraram-se os seus companheiros da Tertúlia Hélice de evocar a sua memória através da leitura de alguns dos seus sonetos, extraídos do livro que publicou em vida, «Choram Meus Dedos», mas também da obra editada postumamente pela AJEA Edições com o titulo «Viagem dos Sentidos». Foi uma breve e efusiva homenagem cultural, à qual o presidente e a comitiva autárquica emprestou o carácter oficial da sua presença. A comitiva partiu para outros eventos que nesse dia tiveram igualmente lugar, incluídos num vasto programa de inaugurações com o qual a vereação de Macário Correia pretende demonstrar a eficácia da sua administração.
    Acima de tudo foi um belo momento de convívio cultural, debaixo de um radioso sol primaveril, durante o qual nos lembramos com imensa saudade da Quina, mas também de outros amigos, poetas, escritores e artistas, que faziam parte da AJEA e entretanto nos deixaram, mas dos quais nunca nos esqueceremos.
    Para evocar a saudosa memória da poetisa Quina Faleiro aqui deixo, para reflexão pública, o texto que escrevi para a sessão de homenagem póstuma que a AJEA lhe prestou, a 11-3-2006, no auditório da Biblioteca Municipal de Faro, onde estiveram presentes numerosos amigos, poetas e admiradores, para além de representantes da autarquia e do Governo Civil.