Mostrar mensagens com a etiqueta INTRODUÇÃO - Prefácio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta INTRODUÇÃO - Prefácio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Poetisa do Mar


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tem sido meu hábito prefaciar as obras de autores já consagrados, sendo bem verdade que a confirmação ou reconhecimento do talento surge com o evoluir dos anos e, sobretudo, com a insistente (re)produção editorial da criatividade que corrobora o génio. Por isso me sinto feliz, e até de certo modo lisonjeado, pelo convite da poetisa Maria José Fraqueza para apensar umas breves palavras introdutórias a este esforçado e rigoroso trabalho de apreciação crítica elaborado pelo jurisconsulto Artemio Zanon, sobre a sua vasta e muito elogiada obra literária.
Efectivamente a obra de Maria José Fraqueza fala por si, constitui no seu conjunto uma espécie de análise introspectiva da sua alma de artista, do seu génio lírico, da sua sensibilidade intelectual, do seu humanismo literário e do seu apreço pelas Belas Letras. Como algarvia, de radícula e pura gema, não admira que lhe ecoem na alma, como inebriantes cânticos de sereia, os oníricos encantos de Orfeu, as árias celestiais das musas, o fascínio mítico e o enlevo lírico dos encantamentos, crisálidas boninas deste agareno canteiro de florescências poéticas.
Maria José Fraqueza é produto da cultura autóctone, fruto da inocência camponesa e da heróica coragem do marítimo da Fuzeta. Possui na alma esses dois pólos que se atraem e repelem mutuamente, a terra e o mar. Mas foi esse pélago imenso, esse indomável monstro que tantas almas tragou na sua insaciável voragem, que lhe inspirou as mais belas poesias da sua obra.
Todavia, também é verdade que nas suas veias corre o sangue e os genes do ancestral lirismo árabe, cuja profícua herança se poderá aquilatar nos poemas de Ibne Ammar, de Al-Mutamid, de Al-Oriani ou de Ibne-Cací, infelizmente hoje tão pouco, e mal, divulgados. Nas éclogas, nas odes, nos hinos e cânticos poéticos dos clássicos, mas sobretudo nos vates islâmicos do ancestral Garbhe, bebeu Maria José Fraqueza o elixir mágico da fonte de Orfeu, a cristalina inspiração dos seus idílicos versos. Mas foi na voz do povo que se inspirou para arquitectar muitas das suas belíssimas quadras, essa espécie de vaso poético que o povo coloca à janela do coração, e que em breves palavras contém uma peculiar lição filosófica no retinir musical da rima. A quadra popular, tantas vezes injustamente repelida pelos poetas de maior vulto, é, na simplicidade dos seus quatro versos, uma lição de vida. Desde os mais antigos trovadores provençais até ao nosso insigne Fernando Pessoa (grande apaixonado, e inspirado cultor da quadra popular), sempre se conservou na cultura portuguesa o genuíno e democrático modelo dos quatro versos, usado nas desgarradas poéticas e sobretudo nas canções de cariz popular, cuja recolha constitui o cerne do nosso folclore literário.
Não necessita pois de apresentação quem ao longo de décadas cultivou o verbo na mais lídima expressão lusíada, compondo sonetos nos moldes de Petrarca e nos cânones de Sá de Miranda.
Da sua lavra literária conheço tudo quanto saiu em livro. E tudo começou pelas Histórias da Minha Terra, publicado em 1989, um livro de poesia inspirado no ritmado pulsar da oralidade popular, uma espécie de recolha em verso das expressões que o povo usa para comunicar os seus mais genuínos sentimentos. Um livro de baptismo que ficou como uma marca, um cartão-de-visita da própria autora, já que nele também fala de si e das suas memórias de infância no seio dos sacrificados pescadores da sempre noiva aldeia da Fuzeta.
Segue-se-lhe Os Murmúrios do Mar, também de 1989, que é, para mim, um dos seus mais belos livros. O tema principal é naturalmente o mar, esse mar algarvio de dócil aparência, enlevo dos veraneantes e do turismo internacional, estrada de sonhos e de vidas, mas que, por vezes, também foi cemitério de muitos homens para quem a vida foi um constante desafio com a morte. Neste livro é o conjunto dos sonetos nele reunidos que mais impressiona o leitor. São inspirados nas formas naturais da vida, cantando o jogo do amor e a lotaria da vida, sempre acompanhada pela incerteza do destino, pelo fadário da desgraça e pela crueldade do infortúnio.
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, publicado em 1990, é um livro de poemas caldeado num finíssimo humorismo algarvio que só a Maria José Fraqueza seria capaz de traduzir em verso. A forma como brinca com as coisas sérias da vida parece fácil de escrever, mas só quem tenta imitar-lhe o exemplo é que se apercebe da dificuldade que enfrenta ao procurar traduzir em ritmados versos a graça e o espírito das alcunhas dos marítimos seus conterrâneos. Curiosas são também as quadras, tecidas no mais genuíno sentimento popular, cantadas com um sadio e profiláctico sorriso, sem maldade nem motejo. Ainda que tentando ser sarcásticas, vê-se que estão depuradas das tão banais quanto inconvenientes e depreciativas críticas contra a inocência do povo. Não há nos seus versos ridicularizações nem apoucamentos, mas tão só breves apreciações sarcásticas, tentando ironizar com certas atitudes do nosso quotidiano.
Vendavais da Alma, editado em 1994, é certamente o mais conseguido e o mais conhecido livro da sua autoria. Constitui uma antologia de sonetos de muita qualidade, seguindo os figurinos clássicos, tendo sempre em conta uma temática naturalista, uma inspiração intimista e sentimental. É uma panóplia de sonetos de muito boa urdidura, numa concepção introspectiva e de profunda emotividade, nos quais transparecem diferentes sensibilidades numa dicotomia de afectos e numa permanente interrogação metafísica entre o ser, o estar e o partir. Sente-se ainda na leitura deste livro de sonetos uma constelação de ideias, aparentemente díspares e confusas, construindo um caleidoscópio de idílicas formas, de incisivas cores e de impressivos cheiros, num comportando emocional ou numa coreografia de sentimentos que nos deixa estonteados, inebriados, encandeados pela luz do seu raro lirismo poético.
Há Natal dentro de Mim – Poemas de Natal, publicado em 1995, é, como se depreende facilmente, uma compilação de poemas inspirados na quadra natalícia, muito conforme, aliás, ao que é usual nessa época festiva, em que as editoras, e até os órgãos de comunicação social, procuram dar a público, em prosa e verso, textos ilustrativos do profundo significado de que se reveste o Natal para a união das famílias. Neste pequeno livro, Maria José Fraqueza reuniu vinte e cinco poemas de diferentes estruturas poéticas, cuja leitura transmite uma certa paz interior, uma solidariedade e um enlevo fraterno para as famílias desavindas, para além de comunicar às crianças uma mensagem cristã de bondade e afectuosa doçura para com os mais desfavorecidos, para quem o Natal poderá, pelas circunstâncias da vida, ter deixado de existir. Um livrinho muito belo e muito simples.
Maresias Infinitas, publicado também em 1995, é mais uma compilação de sonetos e poemas estróficos de diferentes estruturas, numa dimensão algo reduzida para o valor da sua poesia. Em todo o caso, nele volta o mar da Fuzeta a ser o cenário principal da sua inspiração, ressaltando mais uma vez o niilismo sentimental da própria vida. O Mar que dá a vida também dá a morte. O Mar, esse oráculo de mistérios e de terrores, traz no regaço das suas ondas os sonhos e as quimeras que só as musas sabem transmitir.
O Cântico das Ondas, publicado em 1998, é algo semelhante ao anterior, mas para melhor. Tem novamente o Mar como protagonista, como palco e como fonte de inspiração da sua poesia. Pela insistência temática percebe-se que Maria José Fraqueza pretende assumir-se como a Poetisa do Mar, a mulher embalada desde o berço nas ondas da sua amada praia da Fuzeta. E julgo que por tudo quanto tem feito pela sua terra merece o honroso epíteto de poetisa da Branca Noiva do Mar.
A verdade é que o mar, na plenitude da sua força mítica, está sempre presente na obra lírica de Maria José Fraqueza. Repare-se que os livros seguintes transmitem essa presença nos próprios títulos. Desde logo a Maré de Trovas – Quadras populares, publicado em 2000, cujos versos ao jeito do povo cantam os filhos do mar, cavalgando na procela das ondas para granjear com hercúleo sacrifício o sustento da família; mas também cantam as sereias, os búzios e todos os habitantes das misteriosas profundezas desse imenso pélago que serviu de estrada aos mareantes, para como dizia Camões, dar novos mundos ao mundo nunca antes imaginados.
Repisa a mesma temática em Cantando o Mar – Sonetos, publicado em 2005, no qual apura a técnica do soneto em belíssimas composições, mais profundas de sentimentalismo e paixão, sendo claro que nele atingiu um patamar de recursos metafóricos mais evoluído do que nas obras anteriores.
Por fim, surgem dois novos trabalhos, os mais recentes da sua inspirada lavra poética: Sob as Margens do Gilão, publicado em 2006, e dedicado à cidade de Tavira, no qual o misticismo da água, como fonte de vida, volta a estar presente na estrutura rimática dos seus versos. Um livro de muito boa qualidade poética que só confirma a minha anterior asserção, ou seja a poesia de Maria José Fraqueza ao longo dos anos tem vindo a apurar-se na eficácia, nos atributos, na energia e na eficiência dos valores poéticos, em suma, na excelência do seu lirismo.
O apelido da poetisa, Fortaleza, não traduz a força contra a resistência, mas antes a força moral elevada ao seu expoente máximo, isto é, a força de ânimo que inflama a alma dos vencedores. E em boa verdade, a Maria José, a Poetisa do mar, é uma mulher vencedora, que soube encarar os reveses e os infortúnios da vida com a intrépida coragem dos heróicos mareantes da sua querida praia da Fuzeta, dessa mítica Branca Noiva do Mar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A alma e a memória do povo da Várzea


Só os povos com história merecem ser lembrados. Nem todos terão razões de carácter civilizacional ou de necessidade cultural para se fazerem lembrados. Contudo, mesmo os povos mais humildes e menos poderosos deixaram a sua herança, influenciando as gerações vindouras à medida das suas proporções culturais. A História nasceu dessa necessidade de conhecer as raízes e de preservar os padrões culturais daqueles que nos precederam. Depressa se tornou evidente que a História era uma espécie de cimento aglutinador dos povos. E enquanto conhecimento criterioso do passado tornou-se reveladora das virtudes e fraquezas das gerações antecedentes. Transformou-se, assim, numa referência, numa âncora e num espelho, onde se devem procurar os exemplos de modelar conduta social, os factos e as atitudes de heroísmo, de generosidade e de altruísmo, daqueles que nos proporcionaram o orgulho de existirmos livres e independentes.
A nossa História, na sua grandiosidade espaço/tempo, tem sido estudada e analisada de forma macrocefalista, enaltecendo os protagonista e os eventos que ergueram esta pobre e pequena nação no seio da Europa. Para que não perdêssemos as nossas modelares referências, surgiram os grandes tratados da História. Primeiro escreveram-se as crónicas dos reis medievais, depois publicaram-se as compilações de legislação jurídica e por fim surgiu a historiografia moderna, com metodologias e critérios muito rigorosos, cada vez mais próximos da ciência experimental. Às grandes obras da historiografia clássica, nascida com Alexandre Herculano, sucederam-se as obras de conjunto sobre a História de Portugal, que à sua volta reuniram um escol de historiadores de insofismável qualidade, de que são exemplo as obras dirigidas por Damião Peres, por João Medina ou por José Matoso. Mas como subsidiárias destas obras de macro-história vemos a cada dia surgirem inúmeros estudos sobre os mais diversos aspectos da micro-história. São designados por estudos monográficos. Porém, antes de mais convém esclarecer o que se entende por Monografia.
Assim, todo o estudo de investigação, sério e exaustivo, que se debruça sobre um tema específico, quer seja da ciência, da história, da geografia ou até da arte, deve designar-se como monografia. Decompondo a palavra vemos que mono significa um só ou um único e grafia significa ortografia ou modo de escrever, isto é a forma como se exprimem as ideias. Obviamente uma monografia deve ser um trabalho cientificamente conduzido, pormenorizado e profundo nas suas observações e nas suas refutações críticas, das quais se devem extrair conclusões seguras e inabaláveis. Uma monografia é sempre a última palavra do conhecimento científico, até que outra venha a público complementá-la ou contradizê-la, num processo natural de avanço do conhecimento científico.
Nas últimas décadas do séc. XIX assistiu-se ao crescimento do nosso natural fervor nacionalista, que na literatura teve no movimento do Romantismo a sua mais elevada expressão. A necessidade de revelar os nossos heróis, de exacerbar as nossas qualidades e de potencializar as nossas riquezas, deu origem a uma onda de quantificação dos mais variados índices, desde o registo da população através de novos e modernos censos até aos inquéritos industriais, procurando saber cada vez com mais profundidade quantos éramos e como vivíamos. A partir de então surgiu a ideia de saber e, especialmente, de divulgar as tradições nacionais, as características fundamentais da nossa cultura, das nossas manifestações artísticas e sobretudo das nossas actividades económicas. Com esta curiosidade e com esta necessidade de reavaliação dos valores pátrios, beneficiou grandemente o Estado, que através da reorganização dos seus meios de investigação e de avaliação estatística conseguiu apurar quais eram e onde paravam as riquezas naturais e os seus melhores recursos humanos. Essa febre de quantificação nacional deu origem ao desenvolvimento de inquéritos nacionais ligados aos sectores da economia. Houve então investigadores que transpuseram essa ideia de se conhecer melhor e mais de perto a realidade nacional, para uma dimensão mais concreta, fazendo de cada vila e cidade um relatório sobre as suas potencialidades agrícolas e industriais, a que se juntou a curiosidade de se apurarem as suas origens históricas, as suas manifestações artísticas e culturais, assim como todas as informações que pudessem esclarecer a relação do presente com o passado.
Foi deste modo que surgiram as primeiras monografias sobre as vilas e cidades do nosso país, quase sempre fruto da curiosidade científica, mas também por vezes do amor localista dos seus autores. O figurino geral destas obras varia muito, mas em geral a sua tendência orientava-se para o enaltecimento das riquezas naturais, a ancestralidade histórica e as qualidades da terra e do seu povo. Depressa se transformaram numa espécie de novas cartas de foral do nosso velho municipalismo, pois que sendo essas monografias distribuídas pelo país poderiam dar a conhecer as tradições e valores de muitos concelhos esquecidos no mapa nacional.
Muitos foram os exemplos espalhados por esse país fora, com especial incidência nas regiões estremadas e insulares, onde o regionalismo floresce e se desenvolve com maior acintosidade, por vezes até com laivos de certo separatismo. A ideia de monografar vários concelhos de uma região, como foi o caso no Algarve de Francisco Xavier Ataíde Oliveira, ou de construir um complexo histórico-geográfico, como foi o caso do Abade de Baçal para Trás-os-Montes, parecia indicar, nos extremos do continente e nas ilhas, a emergência de um espírito autonomista para obstar ao ostracismo a que o centro (Lisboa) costuma votar a periferia (províncias).
A publicação de monografias sobre diversos concelhos do país ocorreu sobretudo no início do século XX, quando a República parecia querer levar avante a regionalização administrativa do território nacional. O projecto de autonomização regional apenas foi aplicado nas ilhas, perdendo-se depois a oportunidade de responsabilizar as regiões e os seus habitantes pelas opções de desenvolvimento mais adequadas às suas necessidades. Os estudos regionais e as monografias concelhias, constituíam uma espécie de diagnóstico do estado de desenvolvimento socioeconómico do país. Previa-se com o incremento da ciência estatística, e sobretudo com o auxílio das instituições públicas, que se pudesse assistir a uma onda monografista, que tornassem conhecidas as potencialidades locais e regionais.
Mas a quebra económica e a conflitualidade partidária surgida após a I Guerra Mundial, ditaram o estertor da democracia republicana e facilitaram o advento da ditadura. Com a ascensão ao poder de Oliveira Salazar tudo mudaria. Perdeu-se o orgulho localista e o fervor regionalista. Reinstalou-se o espírito nacional, centralista e autoritário. O direito de expressão, o livre pensamento e o contraditório opinativo, foi coarctado pela Censura, que nos jornais e na edição livreira impedia a formação de autonomias de qualquer espécie, quer fossem culturais, geográficas ou políticas. O governo optou por uma política de controlo das vontades e aspirações individuais, sujeita a modelos colectivistas de unificação nacional, acima de qualquer suspeita, como era o caso da trilogia Deus-Pátria-Família. O culto do Chefe, do protector e salvador da Pátria, do humilde servidor da causa pública, do homem honesto e incansável trabalhador, do governante desinteressado e anti-político, contrapunha-se à imagem dos governantes do passado: corruptos, incompetentes e partidários. A política salazarista, eufemisticamente traduzido por “Estado Novo”, açaimou o regionalismo e impediu o movimento monografista, esporadicamente contrariado nos breves estudos que sob a capa do folclorismo nacional e ultramarino beneficiavam do apoio do SNI, dirigido pelo benemérito António Ferro.
Felizmente no último cartel deste século, com a reposição da liberdade e da democracia, assistiu-se ao retomar dos projectos autonomistas para as ilhas e ao recrudescimento dos regionalismos tradicionais. Por influência de alguns países europeus, principalmente da França e da Espanha, assistiu-se na década de noventa à formação de um novo espírito político com base na solidariedade do centro para a periferia. Surgiu assim uma nova política administrativa do Estado a que vulgarmente chamamos “regionalização”. E com esse espírito de renovação das potencialidades locais e regionais se assistiu nas universidades e nas instituições públicas à implementação dos estudos económico-geográficos e histórico-culturais, que vulgarmente se designam por estudos monográficos. No seu conjunto fazem um “puzzle” da situação real do país. Para isso basta apenas que o Estado se interesse pela reunião e correcto enquadramento de todas as peças monográficas que constituem o quadro da situação de desenvolvimento nacional.
Ora no caso presente, o espírito altruísta, desinteressado e benemérito de António Miguel de Ascensão Nunes - cujo pseudónimo de José Varzeano é já uma incontornável referência no monografismo ribatejano e algarvio - teve a ingénita vontade de legar à sua terra-natal um magnífico trabalho de investigação histórico-geográfico e de avaliação dos recursos humanos, das potencialidades naturais e socioeconómicas evidenciadas pela freguesia da Várzea, no concelho de Santarém, desde as suas vetustas origens até à actualidade. Na sua peculiar humildade preferiu considerar este exaustivo estudo apenas como umas “Achegas para uma monografia”, o que, sendo excessivamente modesto, é também injusto para si próprio e, até mesmo desincentivador para os investigadores que pretendam monografar as outras freguesias daquele concelho. Digo isto porque me parece que dificilmente outros investigadores poderão ultrapassar, em extensão e qualidade, este trabalho sobre a freguesia da Várzea, realizado por Ascensão Nunes sem quaisquer apoios financeiros e sem recurso à colaboração de uma equipa de especialistas nas diversas matérias aqui abordadas, o que mesmo assim não faz com que esta monografia se ache desprovida do rigor e da objectividade científica que se lhe exige.
A estrutura desenvolvida nesta Monografia é não só inteligente como funcional, nunca perdendo de vista a metodologia inerente a este género de trabalhos, reflectida na sua concisidade, positividade e objectividade. As cinco partes que a constituem, são como cinco livros, que com o decorrer dos tempos podem ser revistas, acrescentadas e actualizadas, como se de novas edições se tratassem. É, por conseguinte, uma obra aberta, disponível à continuidade, sem necessidade de ser desvirtuada nem postergada em favor de outros projectos semelhantes. A estrutura pode manter-se sempre inalterada, apenas o corpo do texto poderá crescer e desenvolver-se conforme as exigências do tempo e as necessidades da investigação.
O autor começa por analisar os aspectos geográfico-económicos da freguesia da Várzea, passando em síntese as peculiaridades mais relevantes da freguesia, de entre as quais destacamos a potencialidade hidrográfica, a riqueza da sua flora, a dispersão das vias de comunicação, as actividades económicas e laborais dos habitantes, com especial relevância para o sector agro-pecuário e sobretudo para as suas antigas e tradicionais indústrias de moagem, movidas por energias naturais e renováveis (eólica e hidráulica), destinadas à panificação das farinhas do trigo e do milho, assim como os ainda existentes lagares de azeite. Não podemos deixar de lembrar que o historiador Alexandre Herculano foi um dos mais prósperos industriais da olivicultura nas terras de Santarém, podendo ainda hoje encontrar-se nos antiquários as latas de azeite Herculano. Curioso é também o debuxo que o autor faz dos tipos de habitação tradicional, da estatística populacional desde 1527 até 2001, e da descrição das festas religiosa e mercados locais.
Segue-se-lhe uma secção designada por “Respigos Históricos e Templos”, na qual faz uma espécie de roteiro da evolução da freguesia ao longo dos tempos. Verifica-se, como aliás é perfeitamente natural, que faltam elementos documentais ou referências historiográficas que atestem a ancestralidade e relevância socioeconómica da freguesia. Sobre os templos o autor distingue os que já desapareceram dos que ainda se encontram ao culto, sendo que para os primeiros a informação histórica é logicamente escassa, enquanto para os segundos a descrição da sua monumentalidade e riqueza patrimonial é destacada sem excessivo desenvolvimento. Os factos históricos mais relevantes e estruturalizantes para o país, aos quais a freguesia da Várzea deu o seu humilde contributo, são também aqui referenciados: o terramoto de 1755, as invasões francesas, a implantação da República, a I Guerra Mundial, a revolta de Santarém e a guerra do Ultramar, sendo que neste capítulo o autor elaborou um detalhado quadro de todos os mancebos mobilizados para as diversas colónias portuguesas. A encerrar esta segunda parte, o autor faz referência aos sectores do ensino, da saúde e do associativismo, realçando o facto das actividades recreativas e culturais poderem a todo o momento reunir o interesse e a colaboração da juventude local.
A terceira parte, é talvez das mais interessantes desta monografia. Nela o autor reúne os traços de maior relevância etnográfica da freguesia. São uma espécie de espelho cultural, no qual se reflecte a alma do povo da Várzea. Os ditos e folguedos populares, como “as pulhas”, a “serração da velha”, as “cavalhadas” e “picarias” de toiros, são traços da alegria e jovialidade do nosso povo, que se repetem, com traços muito similares, noutras terras do país, nas ilhas e até no Brasil, ainda que naturalmente com ligeiros cambiantes. Curiosos são também os usos e costumes relacionados com o casamento, tanto na sua envolvência moral e social, como sobretudo na sua importância económica para a fixação e desenvolvimento do agregado populacional. A explicação da “molhadura”, do jogo do varapau ou dos trajes e cantares, geralmente empregues nas actividades laborais, são de uma importância fulcral para a compreensão da singularidade deste povo. A recolha e transcrição de uma vintena de quadras populares entoadas na apanha da azeitona é outra das particularidades que enriquecem esta monografia. Também não podemos deixar de salientar as pormenorizadas referências à gastronomia local, fundamentada nos produtos naturais da terra, nas hortícolas, nas cerealíferas e na agro-pecuária. As plantas que serviam de condimentos na gastronomia, também em certos casos tinham aplicação na medicina popular, que o autor descreve e enumera ao detalhe.
O capítulo seguinte é importantíssimo por nele se reunir uma plêiade de varzeenses que pela sua notoriedade social, política, militar ou intelectual, em muito dignificaram a sua terra-natal. Ao todo são uma dezena de figuras notáveis, que desde o século dezoito até à actualidade marcaram posição de relevo na sociedade portuguesa. Não vamos aqui distinguir nenhum dos biografados, porque em todos encontramos incomparáveis testemunhos de honradez, altruísmo e nobreza, deixando a curiosidade dessa descoberta aos leitores e consulentes desta monografia.
Encerra esta utilíssima obra com uma secção intitulada “viajando no espaço e no tempo”, que é uma espécie de roteiro das principais quintas e casais da freguesia da Várzea. É, talvez, o capítulo mais belo pela forma como o autor descreve a riqueza paisagística, ambiental e pluricromática em que se espraia toda a dimensão socio-territorial da aldeia. É também, do ponto de vista literário, muito interessante, pois que nele vislumbramos alguns semblantes queirosianos inspirados na Cidade e as Serras. A beleza descritiva dos humildes casais, dos lugarejos que ainda conservam as suas antigas denominações medievais de “outeiros”, “quinteiros” e outras, mais populares como “Aramanha”, “Marmelal”, “Mata-o-Demo”, “Chões”, “Carneiria”, etc. Para quem não conhece a freguesia ficará a saber que a sua designação de “Várzea” não é em vão, pois que traduz um solo irrigado e rico em aluviões, formado por terras agrícolas muito ricas em nutrientes e de grande produtividade hortícola. Muito interessante é também a descrição das origens históricas e dos pergaminhos nobiliárquicos da maioria das famílias que instituíram as vetustas “Quintas” da Várzea. A investigação dessas origens revela o esforço, a dedicação e o rigor colocado pelo autor na elaboração da sua obra. Mas, ao mesmo tempo, também revela a sua admiração pela perseverança com que os actuais proprietários pretendem manter, com dignidade e nobreza, as Quintas herdadas dos seus avoengos aristocratas. Algumas dessas quintas e desses casais agrícolas talvez sejam originários do emparcelamento fundiário a que se assistiu na segunda metade do século dezanove com a definitiva extinção dos morgadios.
Depois de tudo quanto ficou dito, resta-me acrescentar que acima de tudo esta é uma obra para perdurar ao longo dos tempos, não só pelo rigor e qualidade do texto, como também porque permanecerá como uma espécie de monumento de homenagem ao povo varzeense. Mais ainda, será um exemplo de modelar dedicação de um filho à terra-mãe, legando aos seus conterrâneos e às gerações vindouras uma obra de grande merecimento, que todos irão apreciar como verdadeiro testemunho da alma e da memória do povo da Várzea.


José Carlos Vilhena Mesquita
Presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve