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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Igreja de Santa Maria de Idanha-a-Velha, as suas origens islâmicas e notoriedade do seu património histórico

Edifício da antiga mesquita-igreja de Idanha-a-Velha
É possível que do edifício da antiga Catedral de Idanha-a-Velha, sede do bispado da Egitânia, já quase nada exista. Porém, deve ter sido erigido no séc. VI, um templo do culto cristão, pelas hordas invasoras dos Visigodos na atual vila de Idanha-a-Velha. Sabemos que teve vários bispos, cuja identificação conhecemos, mas quase tudo se ignora sobre a sua atividade ecuménica. Curiosamente o que mais subsiste, e o que se conhece, é relativo à colonização islâmica das antigas terras da Egitânia romana.
Após as tribos berberes muçulmanas invadirem a Península Ibérica (entre 711 e 726), passou a suposta catedral egitaniense a ser uma mesquita árabe. O local está referenciado nas fontes islâmicas dos séc. IX a XII sob a designação de لجدانية, que se traduz por Laǧdāniya. É curioso que em Marrocos e na Argélia, ainda hoje existem descendentes de Laǧdāniya, comprovado pelos apelidos Lagdani, Legdani, Lejdane, Laidani, logicamente todos relacionados com a antiga cidade árabe de Idanha.
Face posterior do edifício da antiga igreja
Embora eu não concorde, há quem sustente que as terras de Laǧdāniya pertenciam ao clã familiar de Ibn Marwan, um moçárabe (cristão-árabe), que durante o período Omíada estabeleceu os seus domínios territoriais, entre Idanha e Marvão. Diz-se que o nome do castelo de Marvão está relacionado com Ibn Marwan, chefe militar das forças islâmicas que resistiram à reconquista cristã.
Idanha-a-Velha (a antiga Egitânia) foi uma espécie de fronteira entre o al Andalus (árabes submetidos ao califado omíada de Córdova), e os cristãos do Reino de Leão. Após a reconquista da Península Ibérica, a antiga mesquita árabe, estava em ruínas, sendo reconstruída no séc. XIII pelos Templários, donatários das terras da Egitânia, que a dedicaram à veneração de Santa Maria.
Dimensão dos arcos axiais e as suas influências árabes
Mas o que o turista vê hoje é um edifício dividido em três naves separadas por arcos e colunas. A mais importante é nave central, com doze arcos axiais em ferradura, certamente da era islâmica, o que dá a impressão de ter sido uma grande mesquita. Ao centro parece ter existido um mirabe orientado para Meca. Talvez seja uma modesta imitação da grande mesquita Omíada de Damasco, que tem uma grande nave central e duas colaterais, com o mihrab ao centro da quibla, orientado para Meca. Para quem não está habituado a estes termos convém explicar que o mirabe (miḥrāb) é uma espécie de nicho, em forma de abside, que serve para amplificar o som das orações que o imã (sacerdote) dirige aos fiéis. O quibla (al-qibla) é a direção, ou seja, o ponto cardeal onde se situa a Caaba de Meca, que fica a 58 graus ao noroeste do local em que nos encontrarmos. Já agora também explico que a Caaba é aquele cubo negro que fica ao centro da mesquita de Meca, na Arábia Saudita, à volta da qual circulam a rezar os fiéis de Maomé, no culminar da peregrinação que todos os árabes devem fazer pelo menos uma vez na vida.
Na parede interior, o mirabe da antiga mesquita árabe
Percebe-se pelos arcos em ferradura e pelo aparelho de silharia (recorte das pedras de construção das paredes e muros) que a Igreja de Idanha se assemelha à de Lourosa, a qual está datada dos inícios do século X. Talvez a mesquita-igreja de Idanha-a-Velha seja da mesma época. No entanto, é visível que foi objeto de consideráveis remodelações, desde os séculos XII ao XVI, conservando ainda hoje a sua original monumentalidade. O altar-mor, que ainda subsiste na parte norte, parece ser do séc. XVII.
No século XIX deixou de servir ao culto, transformando-se posteriormente em museu. O pavimento atual é de madeira, para preservação da circulação dos turistas, mas vê-se que era lajeado em pedra.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A «Casa do Atrium». em Idanha a Velha, na antiga Egitânia romana

Casa do Atrium antiga edificação romana, e torre Templária
Em Idanha-a-Velha, num recanto da urbe medieval, encontra-se a chamada Casa do Átrio. Na verdade, e apesar da sua imponente volumetria, é o que resta de uma majestosa “domus”, ou casa urbana, que deve ter pertencido a uma família de patrícios romanos de elevado estatuto social.
Pelas escavações arqueológicas (ainda visíveis e a aguardarem melhores condições técnico-científicas para avançarem), concluiu-se que terá sido construída nos finais do século I, depois de Cristo.
O edifício, ou o que dele restou para a posteridade, faz parte do “Atrium”, que seria uma espécie de pátio aberto ladeado por duas divisões, a que chamavam “alae”, separadas por um corredor ou “atrium”, que tinha no cimo uma abertura, o “compluvium” para entrar não só a luz como também as águas das chuvas que ficavam retidas num tanque, o “impluvium”, ladeado por colunas que suportavam o travejamento do telhado. Em Conímbriga, e noutras “villae” romanas, existem ainda hoje edifícios semelhantes.
Duas portas, acessíveis através de ponte e escada amovível
Na “domus” romana considerava-se o “atrium” como o coração da casa, onde a família se reunia e convivia, e onde o “dominus” (o proprietário) recebia as visitas.
Grande parte deste e de outros edifícios romanos foram na era da reconquista cristã desmantelados para com as suas pesadas silharias de granito se edificarem as muralhas medievais. Com alguma atenção vê-se nas muralhas diferentes talhes nos blocos graníticos e até algumas inscrições muito delidas, que constituem uma espécie de sedimentos históricos, alinhavados por diferentes eras, culturas e civilizações.
Face do poente, repare-se na solidez do podium em que
assenta o edifício, ao lado vêm-se restos de escavações
O turista, ao defrontar-se com este imponente edifício, sente um misto de espanto, de assombro e admiração, face ao seu posicionamento arquitetónico na vila museu de Idanha-a-Velha. Imagine-se agora o que seria o fórum e toda a “civitas” romana da Egitânia antes de ser conquistada pelos suevos e visigodos. Mas no século VIII vieram os árabes e mudaram o paradigma civilizacional. Alguns séculos depois os templários ocuparam a região e transformaram a Egitânia num vasto empório militar, onde poucos desejavam habitar. Esse foi o princípio do fim da Idanha, uma região histórica que desde o séc. XIV apresenta indícios de irreversível desertificação demográfica.
As poldras do rio Ponsul, espécie de ponte pedonal
Deixo-vos algumas fotos da Casa do Átrio, mas também dos fundamentos de outros edifícios romanos, a que acrescento as poldras do rio Ponsul, uma estrada fluvial por onde os igeditanos escoavam as suas riquezas minerais (estanho, chumbo, zinco).

domingo, 6 de setembro de 2026

Idanha a Velha, a antiga Egitânia dos romanos, é hoje uma vila-museu quase desconhecida

Porta das antigas muralhas romanas de Egitânia, hoje Idanha
A secular vila de Idanha-a-Velha, cujas origens remontam aos princípios do cristianismo na península ibérica, merece uma visita atenta e demorada, face ao seu valiosíssimo património histórico. A sua diversidade e multiplicidade artística é vasta, invulgar, singular e desconhecida pela maioria dos portugueses.
Estive alojado uma semana em S. Miguel d'Acha, atraído pelas minhas investigações sobre o pseudo-maçonismo do partido miguelista. Mas isso é um assunto que ficará para outras calendas. 
O que me trás agora a terreiro é o prazer de "turistar" na minha pátria. Confesso que fiquei atónito quando fui visitar a vila medieval de Idanha-a-Velha, não esperava tão agradável viagem no tempo. Passei do século XXI ao século I-IV da nossa era, seguindo depois para o VIII-X, até ao XV, sem qualquer esforço de reflexão. 
Sé da Egitânia, cujo adro é um imenso museu arqueológico

Era tudo óbvio, tudo evidente, estava tudo ali à minha frente, como se estivesse num museu a céu aberto. Literalmente assim, à mão e à vista de todos. Cada pedra era um grito silenciado no passado, uma evocação histórica, pronunciada em voz baixa, porque só ali estava eu e a minha esposa, na imensidão daquela máquina do tempo. Eu sabia, ou pensava que sabia, o que me esperava. Já tinha lido muito sobre o assunto, sobretudo quando fui um jovem aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas a realidade com que me defrontei foi absolutamente desarmante. 
 Fiquei surpreendido com a magnitude da sua riqueza patrimonial; fiquei deslumbrado com a beleza e antiguidade histórica da vila medieval... fiquei envergonhado por ser a primeira vez que visitava Idanha-a-Velha. 
Arco Romano, porta de saída para o rio Ponsul
Como historiador, e porque não dizer como turista, senti um enorme orgulho de ser português. Afirmo-o sem qualquer resquício de nacionalismo bacoco. A Vila, conserva atualmente apenas uma ínfima parte daquilo foi na antiguidade. No século XX, uma família de apelido Marrocos (sintomático para os dias de hoje) destruiu a seu belo prazer a antiga civitas romana, e edificou um solar de duvidoso gosto arquitetónico sobre o antigo fórum romano, cujos alicerces atrapalhava os novos proprietários de explorar os campos agrícolas em redor. Quantos testemunhos da colonização romana, das invasões sueva e visigótica, não se perderam, ou se reduziram à brita dos caminhos, em nome dos interesses da civilização moderna e dos hodiernos proprietários... Deixe-vos aqui algumas imagens de Idanha-a-Velha, numa espécie de aperitivo para um futuro desafio – ou desarmante convite - a deslocarem-se à nossa deslumbrante Beira Baixa, mais propriamente ao distrito de Castelo Branco, para percorrerem esse triângulo maravilhoso que se espraia desde Idanha até Monsanto, passando depois a Penha Garcia até finalizar nas termas de Monfortinho.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Jardim Episcopal de Castelo Branco, uma joia do barroco português

Primeiro patamar ou "jardim do buxo"
Quando no século XIX o romantismo histórico se deixou influenciar pelas ideias naturalistas dos bons ares, da higiene física e do termalismo, construíram-se nas principais capitais europeias majestosos jardins para devaneio da burguesia e recreação das elites. É rara a capital de distrito que não tem belo jardim municipal onde se pode respirar, passear, conviver, descansar ou simplesmente estanciar à sombra de uma árvore secular, de uma odorífera magnólia, de uma frondosa japoneira ou de um perfumado caramanchão de jasmineiros.
Porém, no século anterior, em pleno barroco joanino, as dioceses mais ilustradas e opulentas começaram a erigir jardins de oliveiras, mesclados com olorosos roseirais, numa clara alusão ao monte Getsemani, onde Jesus orou com seus discípulos, na véspera da sua crucificação. Outros antistes preferiram recriar o Jardim do Éden, com árvores frondosas importadas dos paraísos orientais, cujos frutos e sementes atraem aves canoras e de ornato, como o pavão, cuja cintilante plumagem encanta o mais insensível amante destes belos recantos da natureza. Bordejando as idílicas sombras deparamo-nos com geométricos lagos e artísticos repuxos de água, com carpas vermelhas, e até alguns animais exóticos de terna convivência.
O jardim é votado a S. João Evangelista,
embora a primeira estátua seja S. Miguel 
Foi um desses jardins, inspirado num modelo edénico e bíblico, que o bispo da Guarda, D. João de Mendonça, mandou construir em Castelo Branco, entre 1720 e 1726, certamente sugestionado pelos vergéis idílicos que presenciara durante os três anos que viveu na cúria romana. É possível que o autor deste singular jardim episcopal tenha sido um arquiteto italiano, que o citado bispo contratasse em Roma, para recriar no nosso país, aquela pérola do barroco naturalista. Os custos, certamente elevados, compaginavam-se com o fausto da corte joanina, então no seu auge, mercê dos avultados quintos auríferos do Brasil.
O jardim foi consagrado a São João Baptista, sendo atualmente a mais notável e resplandecente joia da nossa arquitetura paisagística. A massa arbustiva e arbórea, sobretudo os dédalos de buxo esculpido em harmoniosas figuras geométricas, encontra-se hoje decorado com pequenos lagos de fino recorte artístico, a par de centenas de estátuas (nem todas de artístico bom-gosto) da autoria de santeiros locais. O jardim e o edifício adjacente (hoje museus), serviam de estância de veraneio aos bispos da Guarda, mas no consulado pombalino, em 1771, passaram para a posse da recém-criada diocese de Castelo Branco.
Escadaria dos Reis, ao cimo está D. Afonso Henriques
O jardim em si possui três patamares diferentes, o mais baixo junto do portão de entrada é dominado pelo buxo, um arbusto de verde viçoso com eflúvios de flores vermelhas. A madeira de buxo é resistente, mas macia, sendo por isso usada em alfaias agrícolas e até na estatuária sacra. A sua ramagem é fácil de recortar em artísticos desenhos trapezoidais, sendo por isso muito usado nos jardins de aparato mais famosos do mundo.
Ascende-se por uma escadaria ao patamar central, que é o mais amplo, onde se destacam as árvores de jardins, sobretudo laranjeiras bravas. Chamam a este espaço o “jardim alagado” por causa dos cinco pequenos lagos, no interior dos quais se destacam os geométricos canteiros de flores que lhe dão a graça e a beleza do barroco italiano. O “lago das coroas”, situado à esquerda, com três colunas de repuxos encimadas por coroas reais, são de uma retumbante beleza artística, representativos das três dinastias nacionais, visto que a quarta dinastia, a dos Braganças, ainda não existia no tempo em que o jardim foi construído.
Escadaria dos Apóstolos
O mais apelativo aos olhos do visitante é a escadaria, dividia em dois segmentos ascendentes com um pequeno pátio ao meio, que dá acesso ao “Lagos das Coroas”. Ambos se encontram bordejados de estatuária. O da esquerda é a chamada “Escadaria dos Reis”, e o da direita é a “Escadaria dos Apóstolos”, cujas estátuas terão pouco mais de um metro de altura. Conhecendo a vida dos apóstolos percebe-se pelos símbolos do seu martírio que não correspondem ao nome indicado. Isso acontece também com outras estátuas cujos nomes estão trocados.
Confesso desconhecer a identidade do escultor, ou do mestre canteiro, de casa uma delas, sendo que em tempos se alvitrou serem da autoria do Aleijadinho (António Francisco Lisboa, 1738-1814), o que julgo ser um absoluto disparate, não só porque o famoso escultor nunca saiu de Minas Gerais, de onde era natural, como também pelo seu traço artístico, que era muto mais perfeito do que o das estátuas do jardim episcopal de Castelo Branco.
Patamar do "jardim alagado"
A escadaria dos reis, composta por dezasseis estátuas representativas das duas primeiras dinastias, termina com D. Sebastião, sendo que a 3ª dinastia, a Filipina, se encontra representada num varandim lateral, com os monarcas esculpidos em tamanho reduzido. É a chamada ala dos “reis intrusos”, composta pelos Filipes, pelo cardeal D. Henrique e pelo D. António Prior do Crato.
Ocupando o lado direito deste patamar encontra-se o magnífico lago dos jogos de água (laghi di giochi), certamente de feitura italiana, que é uma verdadeira preciosidade no contexto artístico europeu dos jardins de aparato.
Panorâmica do patamar central
No último patamar deparamos com um lago de surpreendentes dimensões, que julguei ter sido a piscina dos clérigos, ou talvez um reservatório destinado a aquacultura piscícola, para fins lúdicos e de alimentação da mitra bispal. Disseram-me, porém, que servira como reservatório de água para regar os jardins, embora se soubesse que o bispo, por vezes, nele se divertisse a remar uma pequena canoa.
Em suma, o jardim episcopal de Castelo Branco não fica atrás de outros que se conhecem pelo seu grande prestígio nacional, como é o caso dos que existem nos palácios de Queluz, da Ajuda, de Mafra, de Belém, do Bussaco, e de Mateus em Vila Real; embora reconheçamos que não se pode comparar com a majestosidade dos de Monserrate, de Serralves, no Porto, do Palácio de Fronteira, em Lisboa, da Quinta da Regaleira, em Sintra, da Quinta do Palheiro, no Funchal e do Parque Terra Nostra, nas Furnas, Açores, que são de maior dimensão, de maior diversidade botânica e de maior riqueza arbórea. Em todo o caso, é motivo de orgulho e positivo espanto a beleza artística do Jardim Episcopal de Castelo Branco, cuja visita recomendo vivamente a todos os que se orgulham do nosso património natural e paisagístico.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

A história do Biquíni e a Praia de Monte Gordo

Costuma dizer-se, com fantasiosa imaginação, que a criação do biquíni teve origem no racionamento de tecidos e no baixo poder de compra das mulheres, durante o período da II Guerra Mundial. Se o objetivo era reduzir custos e racionalizar recursos, nada mais inteligente do que reduzir o tradicional maillot de praia aos seus dois elementos essenciais.
Na verdade, foi no decurso dos derradeiros dias da guerra, que um francês, engenheiro de automóveis, de seu nome Louis Réard, desenhou o traje de praia feminino na sua forma mais reduzida, criando assim um novo modelo, a que deu o nome de «biquíni». Lembrou-se dessa designação porque a sua criação era uma verdadeira bomba atómica no mundo da moda.
Brigitte Bardot, em 1953, na praia de Cannes, em bikini
Ora, como dias antes, em Julho de 1946, os Estados Unidos haviam realizado testes nucleares na Micronésia, destruindo por completo o Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico, pareceu-lhe que esse nome poderia ser adotado pelo seu novo modelo de praia, como uma forma de homenagem, mas também de protesto, pela destruição do ambiente e pelo uso de armas de extermínio maciço.
Todavia, o projeto era tão ousado que nenhuma modelo, habituada a desfilar nos certames da moda internacional, se dispunha a usá-lo em público. Apesar de habituadas ao mundanismo da moda, as jovens modelos negaram-se a exibir o biquíni por lhes parecer de uso indecoroso e despudorado.
Para contrariar essa espécie de boicote moral, Louis Réard teve de contratar uma stripper, de corpo escultural e sem pruridos éticos, chamada Micheline Bernardini, que se dispôs a usá-lo num desfile de moda, junto a uma piscina, em Paris. Nesse dia, 11 de julho de 1946, nascia oficialmente o biquíni. O impacto visual do desfile parisiense teve um enorme estrondo na imprensa internacional, cujo escândalo social foi avassalador, tornando-se de facto numa verdadeira «bomba atómica» lançada sobre o mundo da moda.

Imoralidade e pudor

Não se pense, porém, que o biquíni alcançaria um êxito rápido e quase imediato, como é costume acontecer na moda. Bem pelo contrário. A maioria das nações do mundo livre reprovou o seu uso, restringindo-o às piscinas públicas e a certas praias menos frequentadas. E não se pense que hoje é muito diferente, porque em muitos países árabes é proibido o uso do biquíni nas praias, como se tratasse de uma afronta ao pudor e aos bons costumes corânicos.
Curiosamente, no primeiro concurso de Misse Mundo, realizado em Londres em 1951, proibiram-se as concorrentes de sequer tentarem experimentar o uso de biquíni no desfile final do certame. O argumento sustentado pelos membros do júri era, mais uma vez, o da preservação da moral e dos bons costumes.
Para que o mundo desse esse passo em frente precisava-se de uma mulher corajosa, que não tivesse medo de enfrentar a oposição dos mais conservadores e até da própria igreja, que contestava os excessos e liberdades da moda. Essa mulher, corajosa e desafiante, surgiu em 1953, durante o Festival de Cannes, na figura da jovem e deslumbrante atriz francesa Brigitte Bardot, que desceu à praia daquela famosa estância turística com um revolucionário biquíni, desenhado com motivos florais, como se a própria Eva voltasse de novo ao convívio dos mortais pecadores.
Brigitte Bardot, na praia de Cannes, em bikini
A bela diva do cinema, tem hoje 84 anos de idade. Está há muito retirada dos olhares públicos. Lembramo-nos dela pela sua deslumbrante beleza física, pela sua luta contra o uso de peles no vestuário da moda, pela sua cruzada na proteção dos animais domésticos e selvagens. Mas certamente já poucos se lembrarão que ela foi a primeira mulher a usar um biquíni em público, desafiando os falsos pudores desta sociedade de hipócritas sibaritas, em que ainda hoje vivemos.
A partir de então, as mulheres de todo o mundo passaram a usar os provocantes biquínis, cada vez mais curtos e ousados, para afirmarem a sua liberdade e a sua independência, sem medo de serem, por isso, acusadas de atrair a si os olhares concupiscentes dos homens.
O que talvez poucos saibam é que a atriz sueca, Ingrid Bergman, esteve em Agosto de 1963 na praia de Monte Gordo, numa viagem de surpresa ao Algarve. Instalou-se no conhecido Hotel Vasco da Gama, então com cinco estrelas, e desceu à praia com um provocante biquíni. Quando se soube que a actriz do filme «Casablanca» estava na praia e de biquíni, juntou-se logo um magote de gente em silêncio, mas de boca aberta. Nunca os pescadores de Monte Gordo, nem tão pouco os veraneantes, quase todos alentejanos, tinham visto uma mulher, assim, tão bela e tão provocante.
A deslumbrante apaixonada de Humphrei Bogart, no inesquecível «Casablanca» – considerado um dos melhores filmes da história do cinema – já então premiada com dois óscares de melhor actriz, acabara de filmar nesse ano, para televisão sueca, a conhecida peça «Hedda Gabler», um clássico do século XIX da autoria de Henrik Ibsen. Nela encarnava a personagem de Hedda, uma mulher fútil e ambiciosa, que casara por dinheiro com um homem que nunca amara. O desempenho desse papel deixou Ingrid bastante extenuada, pelo realismo com que interpretou as pretensões frustradas da personagem, cuja infelicidade originou, na peça, a depressão e consequente suicídio.
Na vida real, Ingrid Bergman passava também por uma situação desconfortável. Primeiro foi a relação amorosa, em 1949, com o célebre realizador italiano, Roberto Rossellini, quando ambos eram casados e tinham filhos. Depois foi o escândalo, que abalou o mundo do cinema, quando ambos foram considerados adúlteros. E nessa condição tiveram o primeiro filho.
Em 24-5-1950 casaram-se, e tiveram mais dois filhos. Essa paixão, nascida do cinema, durou até 1957, ano em que se divorciaram. Em 1958 a diva de Hollywood casou-se com o produtor de cinema Lars Schmidt, seu compatriota, com quem viajou em 1963 pela costa mediterrânica até ao Algarve.
Acrescente-se que a década de sessenta ficou marcada em Hollywood pelo género beach movie, que trouxe para o grande ecrã o biquíni como símbolo da cultura jovem, que via nas praias da Califórnia, e na música dos Beach Boys, a expressão natural da sua liberdade. Em 1963 estreou-se o filme «Beach Party», o primeiro dos cinco realizados por William Asher, nos quais se consagrou o uso do biquíni como ícone da liberdade feminista.

Multada por usar biquíni

Nunca se soube ao certo, por que razão Ingrid Bergman viajou até ao Algarve naquele verão de 1963. Pensa-se que o marido veio à descoberta dos paraísos naturais do sul peninsular, atraído pela intensa luz da orla costeira, considerada mais forte do que a de Hollywood.
Nessa altura, já se falava nas deslumbrantes praias do Algarve, de areia fina e dourada, de águas límpidas e tépidas. Pela mão de jornalista estrangeiros, e sobretudo de artistas consagrados, como Cliff Richard, Olivia Newton-John, ou Bruce Welch guitarrista dos The Shadows, que tal como outras figuras da pop music havia comprado casa em Albufeira.
Ingrid Bergman, na praia com os filhos, usando bikini
A partir de 1965, com a inauguração do aeroporto de Faro, foram dezenas de figuras públicas da música e do cinema que visitaram o Algarve, sobretudo a Praia da Rocha, a costa de Lagos, e a castiça praia dos pescadores em Albufeira.
Na imprensa estrangeira dizia-se que Albufeira seria em breve a nova Saint Tropez de Portugal. E o Café Bailote era o fulcro internacional da arte e da cultura.
Ingrid Bergman quando esteve em Monte Gordo tinha 48 anos, e era ainda uma mulher de deslumbrante beleza, quando desceu à praia em provocante biquíni. Não sabia, porém, que estava num país avesso a esse tipo de liberdades. O cabo do mar, cioso do seu pequeno poder, abeirou-se da bela actriz, munido do seu caderninho de multas, e escreveu: «indecência». Entregou-lhe o papelinho e acompanhou-a até à recepção do Hotel Vasco da Gama, onde lhe foi explicado, em inglês, que havia sido multada por usar biquíni em público.
O valor da multa era comportável, apenas 2,5 escudos, ou vinte e cinco tostões, como era uso dizer-se na época. Na realidade, era inferior ao custo de um bilhete de cinema. Mas não era o preço da multa que mais importava. Era o vexame de ser multado. E nesse aspeto a acriz sentiu-se ofendida, sobretudo pelo atraso de mentalidades e pela falta de liberdade sentida no país.

O biquíni remonta à Antiguidade Clássica

Mas, será o biquíni tão assim recente como afirmam os designers da moda? Não tenho a certeza se já existiria, ou não, no tempo dos romanos uma indumentária, talvez mais para uso desportivo do que recreativo, semelhante ao que hoje designamos por biquíni.
Em frescos de Pompeia encontraram-se várias pinturas de mulheres a exercitarem-se num ginásio, praticando pugilato e luta greco-romana, usando apenas duas peças de couro para taparem as partes íntimas. Isto faz supor que as mulheres na antiguidade clássica já usavam algo semelhante aos biquínis modernos, certamente nos banhos públicos e saunas privadas, mas talvez também durante a prática dos diversos jogos e competições em que as mulheres tinham o direito de participar.
Este é um assunto que não domino, nem posso asseverar que o uso das duas peças de reduzido vestuário, a que chamamos hoje biquíni, era já usado na antiguidade. O que posso garantir é que na localidade de Piazza Armerina, na Sicília central, foi descoberta a vila imperial romana de Casale, com dezenas de mosaicos de uma beleza esplendorosa, retratando cenas da vida quotidiana no século IV depois de Cristo. Em alguns desses mosaicos vêm-se várias jovens romanas, usando apenas duas peças muito semelhantes ao atual biquíni.
Mosaico da Villa romana de Piazza Armerina, vendo-se
 duas mulheres supostamente em bikini
Neles se observa que algumas jovens estavam a praticar luta, creio que pugilato – uma modalidade desportiva de tradição olímpica – mas noutros parecem estar a desfilar num cortejo religioso, escoltadas por outras mulheres, cobertas com tecidos transparentes, que talvez fossem as intocáveis vestais.
Sem querer especular, julgo que algo semelhante ao biquíni já era usado na civilização romana pelas mulheres que frequentavam os banhos públicos, então designados por Thermae (de cujo étimo latino deriva a palavra Termas), sendo famosas em Roma as termas de Caracalla, de Nero, de Diocleciano, de Tito e de Trajano, frequentadas diariamente por milhares de patrícios de ambos os sexos, num cenário de majestosa beleza artística, rodeada de colunas e estátuas em mármore de Carrara.
As termas públicas repartiam-se por diferentes espaços, para que os seus utentes usufruíssem de sucessivos estágios de temperatura nas águas.
Assim, passavam primeiro pelo Frigidarium, onde os utentes se banhavam em água fria, passavam depois ao Tepidarium, de águas mornas, até chegarem ao Caldarium onde as águas quentes proporcionavam o relaxamento muscular.
Pormenor do mosaico romano
Associada ao uso medicinal da água e à sua fruição térmica, nasceu a ideia clássica do SPA, que mais não é do que uma sigla, cujo desdobramento significa salus per aquam, uma expressão latina que se traduz literalmente como «saúde pela água».
As mais ricas e poderosas famílias romanas, que se estabeleceram ao longo do imenso império, trataram de recriar nas suas villae residenciais um equipamento termal, de que ainda hoje subsistem restos arqueológicos visíveis um pouco por todo o nosso país.
Pela imagem do mosaico da Villa imperial romana de Piazza Armerina prova-se que na antiguidade clássica as mulheres usavam uma espécie de biquíni nas suas práticas físicas de ginásio, e, muito provavelmente, na natação. A diferença entre o passado e o presente, está na concepção e fruição do espaço da orla marítima que derivou na evolução dos tempos para o seu uso terapêutico e para o lazer.
A talassoterapia, isto é, a frequência das praias para recuperação da saúde e tratamento de doenças, foi uma das maiores descobertas da medicina do século XIX. Mas, na centúria seguinte, a praia e o mar transformaram-se num espaço de lazer, convivência e divertimento, no qual o biquíni ainda hoje impera, apesar das alternativas, inclusivamente o naturalismo, não terem tido o sucesso que muitos auguravam.

terça-feira, 14 de maio de 2024

A iliteracia intelectual – um paradoxo da modernidade

Neste último Natal de 2023 decidi fazer um teste sobre a nossa iliteracia intelectual, com base na retoma de uma tradição muito antiga na cultura ocidental. O teste foi muito simples e não teve outro propósito senão o de avaliar a capacidade de domínio da escrita manual, do respeito pelas tradições e das relações sociais afetivas. O teste era apenas qualitativo, e consistiu no envio de postais de Natal, através do correio, aos amigos que considero intelectualmente evoluídos, emotivos e sentimentais. O que deles aguardava era uma retribuição semelhante, e pela mesma via, tal como fazíamos no passado, ainda recente. Essa liberdade de pensar, de criar e de agilizar a escrita, perdeu-se nos anos noventa com a imperialização da informática e da telecomunicação. A máquina subjugou-nos ao ponto de já nem sabermos exteriorizar a liberdade através dos sentimentos, porque deixamos, sob a falsa ideia do progresso, que a Inteligência Artificial nos substituísse, não só no simples ato de produzir, como também no de pensar e sentir.
Grav. 1 - Primeiro postal ilustrado, Londres, 1843

Quem me está a ler já percebeu que em epígrafe existe um contrassenso: a iliteracia é uma defetividade dos potenciais analfabetos. Devo, por isso, esclarecer que, pessoalmente, entendo que quem sabe ler e escrever, mas é insensível à leitura e à escrita, não deixa de ser analfabeto. No velho princípio aforístico de que se perde o que se não usa.
Como os postais natalícios são uma tradição muito comum na nossa cultura, fácil se torna comprovar a desativação da mensagem manuscrita, o que dentro da arqueologia dos sentidos representa a perda da mão, como objeto da escrita e da transmissão dos afetos, da sensibilidade, da amizade e sobretudo do Saber.
Significa isto que a epistolografia – uma área que foi no passado uma fonte da história biográfica – está morta, na generalidade dos casos, apenas subsistindo ao escasso nível das mentes mais idosas, e, talvez por isso, mais infoexcluídas. A iliteracia digital é atualmente considerada como uma espécie de analfabetismo moderno. Ou seja, inverteu-se o ónus da culpa. Ignorante e desatualizado é aquele que não trabalha com os iPhones de última geração ou o que não tira o melhor rendimento dos tablets e Notebooks (computadores portáteis).
Grav.2 Postal de Natal, Londres 1848, Willi am Maw Egly
O teste do postal de Natal

O exercício prático do meu teste de aferição sobre a atual iliteracia intelectual consistiu no envio de 33 postais ilustrados, à moda antiga, isto é, à inglesa, uma face impressa e outra escrita. A razão deste teste prende-se com a revolução digital que facilitou a comunicação encurtou distâncias e originou a globalização, não só da economia e dos mercados financeiros, como também da educação e da cultura, notando-se, todavia, um abaixamento intelectual ao nível do primeiro mundo. As novas tecnologias incrementaram o alcance e desenvolvimento da ciência, mas diminuíram a concentração, o esforço e o sacrifício da pesquisa por parte dos mais jovens, sobretudo dos estudantes. Nos adultos notou-se a perda da leitura e do uso da escrita manual. A sociedade, na sua hierarquização por grupos socioprofissionais, nivelou-se por baixo, perdendo qualidade e exigência devido à substituição do trabalho, ainda que especializado, pela máquina e pela Inteligência Artificial. E isso vê-se claramente na perda das tradições, nos usos e costumes etnográficos e na antropologia cultural, que vem perdendo os seus padrões naturais em prol de uma homogeneização assintomática da civilização ocidental.
Só as elites parecem reservar para si as tradições do passado, no sentido de salvaguardarem as suas raízes e os seus valores morais. Assistimos hoje a uma inversão na cultura ocidental, cujas tradições têm sido paulatinamente caldeadas noutras oriundas de diferentes quadrantes do mundo.
Grav. 3 - Laura Costa, «Chegada dos Pastores»

Origem histórica do postal de Natal

Já agora convém esclarecer o postal ilustrado de Natal, um dos mais apreciados padrões da cultura cristã ocidental, teve a sua origem histórica em Inglaterra, no ano de 1843, por causa de um simples gesto de cortesia que se transformou numa ideia genial, replicada por sucessivas gerações no mundo inteiro. O postal natalício é, aliás, uma das poucas tradições transversais à humanidade.
Com efeito, Sir Henry Cole, então director do South Kensington Museum, hoje designado como Victoria and Albert Museum, em Londres, costumava escrever na quadra natalícia dezenas de cartas aos familiares e amigos a desejar-lhes Boas Festas. Todavia, em dezembro de 1843, assoberbado de trabalho não se apercebeu que estava encima do Natal. Concluiu que não dispunha de tempo para cumprir as suas acostumadas obrigações de cortesia. Mas, num rebate de genialidade, ocorreu-lhe uma solução, rápida e eficaz. Pediu ao seu amigo, o pintor John Callcott Horsley, que desenhasse e pintasse num pequeno pedaço de cartolina, no tamanho 9x13cm, a sua família reunida à mesa da consoada, a brindar ao familiar ou amigo ausente naquele Natal. Aprovado o desenho foi a correr a uma tipografia onde encomendou dezenas de cópias a cores, com a simples mensagem «Merry Christmas and a Happy New Year to you» [Feliz Natal e um Próspero Ano Novo], deixando o verso em branco para escrever o nome e endereço do destinatário. Impõe-se, porém, salientar que ladeando a feliz cena do brinde, ao centro, com um copo de vinho (talvez do Porto), o artista incluiu duas mensagens de caridade: vestir os andrajosos e alimentar os pobres. [ver gravura 1]
Como na tipografia sobraram alguns postais decidiram colocá-los na montra à venda pelo módico preço de um xelim cada. Venderam-se mais de mil, e só não se imprimiram mais porque já estavam quase encima do dia de Natal. O certo é que dessa edição prínceps apenas se conserva pouco mais do que uma dezena de exemplares, devido ao zelo dos seus destinatários. Por ser uma peça rara e histórica, quando surgem à venda nos leilões de artes e antiguidades costumam ser arrematados por quantias exorbitantes, acima de vinte mil libras.
O gesto de Sir Henry Cole, foi depois imitado por milhares de pessoas, tornando-se numa nova tradição natalícia. A arte da cartofilia natalícia evoluiu com o tempo, em todo o mundo e em diferentes credos religiosos, sendo desde há 180 anos uma das principais tradições culturais do mundo ocidental.
Grav.4 Postal editado pelos CTT, 1943
Adoração do Menino Jesus

A conclusão do teste

O objetivo do meu teste, estribado na simbologia do postal natalício, consistiu na comprovação de que a revolução digital emburreceu as elites e a civilização ocidental, considerada até aqui como a cultura do primeiro mundo. A leitura homogeneizou-se na “googletização” da cultura, e a escrita passou a digitar-se em código SMS, degenerando tudo isto naquilo a que os brasileiros chamam a “celularização” das relações humanas. O conceito de “googletização” significa a necessidade pelo imediato, ou a solução instantânea, mas teve como efeito prático a perda da referência e da vontade da pesquisa, o esforço da descoberta e da construção crítica. O pior de tudo isso foi a habituação à rotina, que quando interrompida ou dificultada degenera na impaciência, e na banalização da violência. Mas, esse fenómeno da violência, posso sociologicamente atribuí-lo à má distribuição da riqueza, o que nos países potencialmente ricos, embora concretamente pobres, como é o caso da Índia, do México ou do Brasil, tornou-se num verdadeiro cancro sociopolítico.
Grav. 5 Postal de Natal por Maria Keil
Não, positivamente não. Para mim o que está a verificar-se é uma perda substancial do conhecimento crítico e da vontade de questionar o Saber. Como resultado prático deste vertiginoso progresso, assistimos à subordinação das gerações jovens, principais vítimas deste hostil processo de estupidificação das massas, através da lei do menor esforço, isto é, quanto menos leres menos sabes escrever, e quanto menos escreveres menos sabes pensar. O resultado final será a sujeição generalizada à opinião veiculada e à ordem transmitida, em oposição à qual carecemos cada vez mais de capacidades mentais, de conhecimento e de reflexão crítica para podermos discordar, debater, contrariar e contestar. A banalização da violência, por estranho que pareça, deu lugar ao conformismo e à pacificação da opinião crítica, inviabilizando ou obstaculizando a contestação racional. Daí vermos que é hoje muito fácil os jovens passarem do imobilismo conformista à radicalização do exclusivismo, do extremismo à exterminação, por não possuírem meios racionalistas de aferição das circunstâncias políticas em que se acham envolvidos.
No ano passado ainda recebi alguns cartões em troca dos que enviei. Mas, este ano, tenho a triste consciência de ter recebido apenas dois cartões de retribuição. Ao invés respondem-me por email ou pelo Messenger. Os mais novos nem respondem, porque não usam sequer o Facebook, mas antes o Instagram e outras redes sociais, que eu não uso para não banalizar o raciocínio mental nem a minha consciência crítica.
A iliteracia que tem vindo a tomar conta da Europa está à vista em tudo, até nos simples postais de Boas Festas.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Aníbal Guerreiro, empresário industrial, escritor e benemérito farense

Aníbal da Cruz Guerreiro, aos 70 anos
Empresário, escritor e jornalista, Aníbal da Cruz Guerreiro, de seu nome completo, nasceu na freguesia da Sé, concelho de Faro, em 1911, e faleceu na mesma cidade a 20-2-1990, com 78 anos de idade.
Frequentou o Liceu de Faro de 1920 a 1927, onde se fez notar pela sua vivacidade e inteligência, colaborando nos jornais estudantis e organizando torneios desportivos. No velho Liceu, que é hoje o edifício da Escola Tomás Cabreira, fez muitas amizades, algumas das quais permaneceram leais até ao fim da vida. Nesse período de juvenil fulgor acalentava a ideia de vir a ser jornalista desportivo, começando então a escrever para alguns órgãos de Lisboa sobre os desafios de futebol aqui disputados pelo Olhanense, pelo Farense e pelo Luzitano de Vila Real.
Não tendo logrado os meios de sobrevivência necessários ao melhor desempenho nos estudos secundários, decidiu pelo trabalho auferir o seu sustento, de forma livre e independente. Enveredou pela vida profissional ligada à indústria de transportes. Como era muito inteligente e perspicaz, decidiu avançar em 1932, com a ajuda doutros sócios fundadores, para a criação da Empresa de Viação Algarve, Ld.ª (E.V.A.). E como necessidade de expansão do negócio, alguns anos depois fundou a Empresa Rodoviária do Sotavento do Algarve. Ambas alcançaram enorme sucesso no sector dos transportes de passageiros e mercadorias, impondo-se entre as melhores do país. Para além disso, criou outras empresas comerciais de pequena dimensão que foi vendendo com o decorrer do tempo. De todas as que fundou ao longo da sua vida mantém-se ainda em laboração a empresa de camionagem, que é uma das maiores do país, e o famoso Hotel Eva, o mais moderno do seu tempo e o importante da cidade de Faro, sendo hoje um dos mais antigos do Algarve.
Caricatura de Francisco
Zambujal
O apelo do jornalismo amador não o largava, pelo que em 1938 fez-se comentador desportivo no semanário farense «Correio do Sul», com uma secção intitulada “Vida Desportiva” na qual dava pormenorizado destaque aos desafios de futebol que se realizavam na província. Isto é notável se tivermos em linha de conta que aquele semanário pelo seu forte pendor cultural, não dava importância ao futebol.
Uma das suas principais paixões era a música, dedicando muito do seu tempo livre à composição e à prática instrumental. Diga-se, em abono da verdade, que era talentoso, mas tinha uma vida profissional muito ocupada, além de que era muito modesto nas suas aspirações artísticas, razão pela qual, apesar de tocar vários instrumentos, nunca chegou a ser conhecido como músico. Em todo o caso, nos Jogos Florais de Tavira, realizados a 31-12-1943, obteve o 1.º prémio na modalidade de “composição musical” com um corridinho do Algarve, cujo júri era presidido pelo famoso maestro da Orquestra Sinfónica Nacional e professor do Conservatório de Lisboa, Eduardo Pavia de Magalhães, o que atesta bem da qualidade da peça vencedora.
Na década de 60, dedicou-se também ao transporte turístico pela província e já como sócio gerente da E.V.A. criou uma carreira diária entre Lisboa e Sevilha, o que sendo notável, para a época, representava também uma grande aposta na implementação do turismo.
Igualmente a Aníbal Guerreiro se ficou devendo a criação de núcleos de apoio social para os trabalhadores da empresa, nomeadamente um refeitório para o pessoal, uma biblioteca e uma Caixa Particular de Auxilio na Doença. Foi sócio fundador e primeiro presidente do Grémio Distrital dos Industriais Hoteleiros e Similares de Faro, que foi a primeira associação de classe dos hoteleiros no Algarve, que por vicissitudes políticas alterou a sua designação para Associação dos Industriais Hoteleiros e Similares do Algarve (AIHSA). Neste sector, Aníbal Guerreiro, tem o seu nome ligado à construção, em 1950, da Estalagem EVA, na vila de Ferreira do Alentejo, e ao Hotel EVA, inaugurado a 1-4-1966, em Faro, e do qual foi administrador até 1974.
Hotel Eva, junto à doca de Faro, inaugurado a 1-4-66
Em 1962 fundou a “Agência de Viagens EVA” e a “EVA rent a car”. Pertenceu como vogal ao Conselho Superior de Transportes Rodoviários, onde se manteve durante vários anos, e aos grupos de estudo e planeamento da Direcção-Geral de Turismo e da Direcção-Geral de Transportes Terrestres, formulando a regulamentação dos Circuitos Turísticos e Agências de Viagens.
Preocupado com a assistência social, desenvolveu acção de assinalável mérito à frente do Instituto D. Francisco Gomes, vulgarmente designado por «Casa dos Rapazes», a cuja direcção pertenceu durante sete anos, mas à qual ficou ligado como benemérito até ao fim da sua vida. Não podemos esquecer que foi Aníbal Guerreiro quem providenciou a obtenção dos meios financeiros que permitiram construir o seu actual magnifico edifício-sede. Para a obtenção desses fundos organizou as «Festas da Cidade de Faro», a cuja comissão promotora presidiu durante vários anos. Foram célebres essas festividades, realizadas por ocasião dos Santos Populares, no Jardim da Alameda. Aqui vinham milhares de pessoas ouvir os artistas mais famosos do país, não sendo rara a presença de Amália Rodrigues e de outros fadistas famosos, assim como de cançonetistas da nova vaga, como António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias e o hilariante Max, cantor e entertainer madeirense, que deveria ser considerado como um dos fundadores do “stand-up” em Portugal.
O sucesso das «Festas da Cidade de Faro» não estava só na qualidade do repertório artístico, mas também na vontade popular de contribuir para uma obra de grande benemerência social, como era a “Casa dos Rapazes”, oficialmente designada por Instituto D. Francisco Gomes. O êxito era tal que praticamente aquela instituição vivia do apuramento financeiro das festividades, das quotizações dos sócios beneméritos e de algumas multas de trânsito que o chefe da P.S.P. na cidade mandava reverter a favor dos pobres rapazes. E note-se que daquelas crianças desvalidas se educaram e formaram muitas dezenas de homens válidos, honrados profissionais e não raros empresários de sucesso, que ainda hoje muito enobrecessem a cidade de Faro.
Acresce dizer que o sucesso das «Festas da Cidade» deveu-se não só ao entusiasmo de Aníbal Guerreiro, mas também à protecção e incentivo do Dr. Gordinho Moreira, então presidente da edilidade, que disponibilizava a logística camarária para garantir o conforto e segurança do público. Mas o que mais celebrizou essas festividades foi a criação das famosas Marchas Populares, que eram inspiradas nas de Lisboa, mas que em si constituíam uma manifestação artística e uma clara afirmação do bairrismo farense. Note-se que o desfile de cada marcha era escrutinado por um júri competente que escolhia a vencedora, pela criatividade artística da dança, da música e da beleza da indumentária.
Os poetas locais escreviam as letras das marchas, cabendo talvez o maior número de vitórias ao inspirado major Victor Castela, que foi um dos mais célebres poetas do seu tempo. Além disso tinha um coração de oiro, nunca dizia que não a um pedido das gentes do povo, e era um grande apaixonado pelos Santos Populares. Nessa altura, as Marchas Populares representavam não só os bairros populares da cidade como também das freguesias do concelho. Lembramos por exemplo a participação das Marchas do Alto Rodes, das Pontes de Marchil, do Montenegro e da Bordeira, que ganhou o concurso em Junho de 1962. A Taça do 1.º Prémio das Marchas era um trofeu de primeiríssima honra para os vencedores, havendo ainda hoje alguns desses trofeus nas sedes das juntas de freguesia do concelho.
Sports do Algarve, fundado por A.G.
No campo do jornalismo deveu-se a Aníbal Guerreiro a fundação, em 14-10-1935, do semanário desportivo farense, «Sports do Algarve», que ele próprio dirigiu e financiou até à extinção, em 9-5-1938. Este órgão de imprensa é hoje uma fonte privilegiada para o estudo do desporto e do futebol algarvio nos anos que precederam a II Guerra Mundial. Por outro lado, contém informação sobre desporto escolar e sobre diversas actividades da recém-criada Mocidade Portuguesa. Para além dessa fase inicial de jornalista desportivo, Aníbal Guerreiro dispersou a sua prestimosa colaboração por diversos órgãos da imprensa algarvia, nomeadamente «O Algarve», «Correio do Sul», «Algarve Desportivo» (1987), etc. Escrevia com elegância e erudição, em bom estilo literário, muito correcto e delicado, mesmo quando era preciso ser acintoso na crítica. Na maioria dos seus artigos notava-se a sua paixão algarvia, e no brilho da sua pena ressaltava a preocupação do futuro, muito particularmente no sector emergente do turismo, a que estava ligado e conhecia bem, sobretudo na necessidade de construir novas e modernas infraestruturas, nomeadamente um aeroporto em Faro – como aliás viria a ser realizado em 1965 – de se melhorar a revê viária para Lisboa e Sevilha (estradas e, caminhos de ferro), de se erigirem novos hóteis em todo o litoral algarvio, de se construir o novo porto de Faro-Olhão (o que foi feito), de se criarem escolas para a instrução das modernas técnicas de turismo, à imagem do que acontecia em França e na Suíça. A forma como abordava esses problemas e como elaborava uma estratégia para a sua solução era tão clara que parecia evidente e exequível. Porém, tudo isso esbarrava na realidade (tanto de ontem como de hoje), isto é, na condição socioeconómica do Algarve, enquanto região periférica, para a qual nenhuma razão se tornava óbvia para fazer convergir o investimento público.
Desde sempre ligado ao sector da cultura, Aníbal Guerreiro pertenceu aos corpos directivos do Conservatório Regional de Música do Algarve, e, no que toca ao fomento desportivo, foi presidente do Sporting Clube Farense, e durante vários anos presidiu à Assembleia Geral do clube. Também foi presidente da Associação de Futebol de Faro, cuja designação localista conseguiu alterar para Associação de Futebol do Algarve.
Primeira excursão turística da EVA, em 1934
Diga-se de passagem, que Aníbal Guerreiro tinha a paixão da música e tocava inclusivamente alguns instrumentos por intuição natural, pois julgo que nunca chegou verdadeiramente a receber lições de solfejo. Em todo o caso, esse amor pela música terá sido o principal motivo que o levou a encarar com tanto fervor a fundação do Conservatório Regional de Música do Algarve, cabendo-lhe a honra de ter conseguido convencer as autoridades a consentirem na sua fundação. Segundo creio foi também dele a ideia de convidar a artista Maria Campina e outros músicos, como o Diamantino Piloto, para ensinarem naquele estabelecimento.
Nos últimos anos de vida colaborava com bastante intensidade na imprensa regional, especialmente no semanário farense «O Algarve», onde manteve a secção «Crónicas Algarvias», que tiveram numerosa audiência não só pela sua elevação sociopolítica como principalmente pela sua qualidade literária. Pouco antes de falecer, publicou em Novembro de 1989 livro as suas apreciadas «Crónicas Algarvias», que saiu a público com o título Esboços de um Algarve Menor. Assisti ao lançamento do livro no Hotel Eva, recebendo da sua mão um exemplar com uma bonita dedicatória e pelo Natal, como era costume, recebia sempre em minha casa uma tarte de amêndoa, que era o seu “foro natalício”, como ele gostava de dizer, em retribuição da minha colaboração na revisão do seu primeiro livro sobre a História da Camionagem. Depois disso encontrávamo-nos pontualmente num ou dois momentos de carácter cultural, até que a notícia da sua morte me colheu de surpresa.
A Câmara Municipal de Faro, em reconhecimento dos bons serviços prestados à cidade, e como forma de gratidão pelas suas acções de benemerência pública, atribuiu-lhe as medalhas de Mérito Municipal (grau prata), em 1982, depois reconfirmada, mas no grau ouro, em 1986. Por sua vez, a Secretaria de Estado do Turismo atribui-lhe a medalha, no grau prata, de Mérito Turístico, pela sua visão precoce e inovadora em prol do desenvolvimento no sector dos transportes, do investimento hoteleiro e do turismo em geral.
Dedicatória de Aníbal Guerreiro
Como escritor e profundo conhecedor do sector do turismo e dos transportes no Algarve, publicou as seguintes obras:
História da Camionagem Algarvia (de passageiros) 1925-1975 (da origem à nacionalização), edição do autor, Faro, 1983; Turismo, Estradas e os problemas, presentes, no Algarve, ed. do autor, Faro, 1984; Esboços de um Algarve menor, edição do Instituto D. Francisco Gomes, Faro, 1989. Publicou também um opúsculo muito interessante, destinado como oferta natalícia aos amigos, intitulado Natal dos Benditos Desditosos, ed. do autor, 1985.
Para terminar, resta-me acrescentar que como elemento da Comissão de Toponímia de Faro, tive a honra de atribuir o nome de Aníbal da Cruz Guerreiro à avenida que vai desde a rotunda da Biblioteca Municipal até desembocar na estrada do Moinho da Palmeira.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O ignorado e desaproveitado «HINO de SAGRES»


Em 1957, a «Casa do Algarve» promoveu um concurso de música para a criação do «Hino de Sagres», sob o alto patrocínio do empresário algarvio Libânio Correia. Com este certame pretendia-se apoiar a criação artística e incentivar o regionalismo. Além disso, vinha na esteira das pré-comemorações do V Centenário da morte do Infante D.Henrique, que se realizariam em 1960, tendo no Algarve, sobretudo no Cabo de Sagres, um dos principais palcos para a concretização daquela histórica efeméride.Nessa altura, este conceito – Regionalismo - envolvia uma forte carga nacionalista, que se traduzia no exacerbamento da paixão patriótica, através da fusão no espaço nacional das regiões do interior. O que se pretendia, neste caso, era identificar e valorizar as características etnográficas das nossas aldeias, vilas e concelhos, cujas tradições e património histórico, ressumavam o que melhor distinguia e identificava a, então designada, portugalidade.
Repare-se que o conceito de Regionalismo não se decalca na Regionalização, por ter este um sentido mais abrangente, que se prende com a afinidade geográfica e identidade cultural de determinados espaços, inseridos da unidade nacional. Mas a principal diferença entre os dois conceitos reside na proposta de administração autónoma das regiões, o que seria impensável durante o consulado salazarista.
Voltando à questão inicial. A Casa do Algarve de entre os vários trabalhos a concurso, escolheu como vencedor do «Hino de Sagres», uma belíssima peça musical, de inspiração patriótica e de glorificação dos valores históricos que enformavam o nacionalismo, tendo como figura central o Infante D. Henrique, alma mater da epopeia dos Descobrimentos.
Este interessantíssimo «Hino de Sagres», hoje esquecido, foi escrito por Mateus Moreno (1892-1970), uma grande figura da cultura algarvia, um notabilíssimo escritor, fundador da revista «Alma Nova», e militar de prestígio que combateu na I Guerra Mundial. A vida do major Mateus Moreno dava um romance, pela forma multifacetada como desenvolveu a sua acção cívica, no país e nas colónias, com algum aventureirismo à mistura, como aliás é peculiar nos portugueses, que só precisam de um cantinho para nascer, mas têm o mundo inteiro para viver.
Mateus Moreno
A composição musical do «Hino de Sagres» é da autoria da lisboeta Elvira de Freitas (1928 – 2015), notabilíssima pianista e diretora de orquestra, que para ganhar a vida optou pela docência no liceu Camões, onde desenvolveu uma profícua actividade melómana, de que muitos dos seus antigos alunos ainda hoje se recordam com saudade. É curioso que este prémio da «Casa do Algarve», patrocinado por Libânio Correia – outro algarvio esquecido –, possibilitou à pianista Elvira de Freitas entrar na carreia docente em 1957, e tornar-se numa das maiores figuras do Conservatório Nacional e, mais tarde, do Instituto Gregoriano de Lisboa.
Elvira de Freitas
Não vou aqui tecer qualquer apreciação crítica em relação aos versos de Mateus Moreno, e muito menos à música de Elvira de Freitas. O que me apetece enaltecer é o facto de naquela época se terem reunido, para compor o «Hino de Sagres», duas grandes figuras da cultura nacional, lamentando em contramão que essa peça não seja hoje conhecida, e quiçá reaproveitada para fins culturais, nomeadamente turísticos ou etnográficos.Aqui ficam as imagens da letra e da música do «Hino de Sagres», que talvez, bem aproveitado do ponto de vista turístico-cultural, ainda possa servir os interesses do município de Vila do Bispo, onde a figura do Infante D. Henrique se vislumbra e se sente ainda a rondar aquela agreste penedia do Promontório de Sagres.