quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

O Museu e a Escola

José Carlos Vilhena Mesquita


Com imensa mágoa verifico que a maioria das escolas portuguesas não aproveita convenientemente as potencialidades culturais das áreas geográficas em que se acham inseridas. Assim, raramente os estudantes do ciclo preparatório ou das escolas secundárias fizeram uma visita de estudo aos museus, monumentos e palácios da sua área residencial, sem esquecer os passeios pelo campo, que hoje os professores já não fazem. O que é pena, pois constituem verdadeiras aulas práticas de botânica, geologia, mineralogia, zoologia, etc. Numa época em que assistimos ao crescimento avassalador de uma nova ciência como a Ecologia que, sem ser por acaso, tem congregado o interesse e a atenção dos nossos jovens, não compreendemos porque é que não se abrem as portas da escola para o campo.
O museu é, no seu próprio contexto geográfico, o mais valioso espólio do património local. Nele se deposita a memória dos nossos antepassados e através dele poderemos fazer uma verdadeira e alucinante viagem no tempo. Aí se contacta com testemunhos insubstituíveis cuja observação e estudo nos farão compreender melhor a nossa história. Porém, há que preparar convenientemente essa visita para que não nos confrontemos com situações ou peças museológicas que nada nos dizem por lhes desconhecermos o significado. Não vale a pena levar as crianças a visitar uma praça-forte sem terem previamente uma noção do que foi e em que consistiu o feudalismo.
Na verdade, jamais poderemos esquecer que os testemunhos permanecem eternamente mudos se não os soubermos interrogar e, convêm lembrar, ir ao museu não é o mesmo que ir ao supermercado. Para nele se penetrar é preciso ter cultura, que só se adquire na escola, daí que as visitas só se devam efectuar a partir de um determinado nível etário e intelectual. De contrário, a visita será contraproducente e os jovens poderão contrair a ideia de que os museus são cemitérios inúteis, tristes, aborrecidos, frios, sem alegria nem significado. Raramente lá voltarão.

A formação estética

Mas há um sector pouco explorado, ou pelo menos negligenciado, pelos nossos pedagogos no âmbito da museologia, que é a formação estético-artística dos alunos. Em parte, esta situação também se fica devendo à intrínseca desmotivação dos professores para a expressão estética. E não raras vezes se assiste a retumbantes fracassos quando os mais zelosos professores entregam os seus alunos aos cuidados de um erudito especialista que, naturalmente, não consegue adaptar o seu discurso aos parcos conhecimentos culturais dos jovens. Nessa altura, uma visita que se previa ser um êxito pedagógico transformou-se numa chachada e numa total perda de tempo. Os alunos nada perceberam do que lhes foi dito e normalmente limitam--se, em certos casos, a comentar e ridicularizar os trejeitos e o snobismo intelectual do seu ilustre cicerone. A informação cultural, por mais interessante e correcta que possa ser, deverá sempre obedecer a um esquema pedagógicos.
Por outro lado, uma visita ao museu sem ser guiada está também votada ao fracasso, já que não basta aos alunos a «liberdade da descoberta», pois que necessitam dos meios indispensáveis a essa mesma descoberta. Normalmente, os directores dos museus reprovam este tipo de actuação, visto que, sem preparação nem ordem, os alunos chegam mes mo a causar incómodos e distúrbios de vária ordem.

Organizar uma visita

Como proceder então? É simples. Toda e qualquer visita ao museu terá de ser forçosamente preparada em gabinete pelos respectivos responsáveis pedagógicos, que deverão previamente conhecer o espólio museológico e determinar as peças, conjuntos salas ou colecções que mais interessam aos seus alunos.
É fundamental que na aula anterior à visita sejam ministrados aos alunos alguns conselhos sobre o carácter do museu, algumas normas de conduta e de respeito para com a instituição e ainda algumas pistas sobre aquilo que irá ser observado. Nunca e deve privar o aluno do prazer da surpresa e do gosto pela descoberta. O jovem deve directamente contactar com o objecto ou com a obra de arte, para que sinta nisso algum prazer. Nessa altura ele descobre, regista e, sobretudo, familiariza-se com a arte e com a própria instituição.
Torna-se indispensável e até fundamental que o orientador pedagógico da turma ou da disciplina em que essa visita de estudo estiver enquadrada forneça previamente aos alunos um inquérito sobre algumas peças que eles irão descobrir no museu, assim como alguns roteiros cronológicos que possibilitarão caminhos repartidos por grupos (discretamente acompanhados pelo professor), que serão compensados pelo prazer da autodescoberta.
À entrada do museu, deve-se apresentar os alunos ao director e aos conservadores, solicitando-se depois a estes algumas breves palavras de saudação e de esclarecimento sobre os objectivos culturais da própria instituição. Os alunos sentir-se-ão respeitados e satisfeitos, para além de perceberem mais facilmente que estão em presença de um verdadeiro santuário da cultura, que facilmente se poderá transformar em laboratório de investigação histórica.
No final da visita verificaremos, através da leitura dos inquéritos, que nem sempre os melhores observadores são os melhores alunos, pois que a capacidade de análise e reflexão sobre a arte não exige, nesta idade, um «background» cultural de peso, mas antes uma forte sensibilidade, que, como se sabe, é inata. Para esses, devemos dar alguns conselhos e, sobretudo, motivá-los para que não desperdicem as suas intrínsecas inclinações artísticas, de que poderão vir a colher no futuro um glorioso sucesso.

Nas aulas seguintes

Se possível, nas aulas seguintes deverá abrir-se um debate sabre a importância dos museus, a sua necessidade, o seu interesse e ainda sobre o valor de algumas peças nele expostas, as quais poderão eventualmente ser confrontadas com outras da mesma espécie, através da projecção de «slides» ou de gravuras. Veremos que dessa discussão surgirão opiniões interessantíssimas que convirá registar e até, se possível, publicar no jornal da escola. A elaboração de uma reportagem por um grupo de trabalho acerca da visita e da integração do museu na escola seria um exercício complementar da mais elevada importância pedagógica e a sua publicação ou divulgação pública tornar-se-ia imprescindível.
Enfim, aqui está sumariamente a fórmula ideal para a concretização de uma visita de estudo ao museu da nossa localidade, que facilmente se pode adaptar a outros tipos de visitas, como aos monumentos ou ao campo. A posição do professor pode ser activa ou discreta, mas sempre acompanhando os seus alunos, prestando-lhes informações e esclarecimentos que estes registarão no seu bloco de apontamentos. Um relatório final e o preenchimento de um inquérito serão importantes ferramentas pedagógicas para a boa formação estético-artística e histórico-cultural do aluno.
Resta-nos apenas esperar que na província, onde existem dos mais maravilhosos museus do País, se tornem as visitas culturais numa prática corrente das escolas.


(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 12 de Janeiro de 1984)

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

O Algarve precisa de mais museus que falem do seu histórico passado


José Carlos Vilhena Mesquita

A província do Algarve, expoente máximo do turismo nacional, não pode, infelizmente, orgulhar-se de possuir muitos e variados museus, pese embora o seu passado histórico se encontre vincadamente perpetuado nos inúmeros testemunhos arqueológicos deixados pelos povos oriundos das grandes civilizações mediterrânicas.
Saliente-se que a museologia no Algarve nasce, por via de regra, da iniciativa particular e fundamenta-se na doação de colecções pertencentes a comprovincianos obviamente dotados de marcante espírito científico e altruístico. O primeiro exemplo partiu do arqueólogo Estácio da Veiga que em vão pretendeu criar o Museu Arqueológico do Algarve, com sede em Faro. No entanto, grande parte do espólio recolhido aquando das escavações que efectuara para a Carta Arqueológica do Algarve (1878-1883) foi recuperado por Monsenhor Joaquim Maria Pereira Botto, que, a 4 de Março de 1894, fundou na capital desta província o «Museu Archeologico e Lapidar Infante D. Henrique» designação essa que ainda hoje conserva.
Em Lagos, idêntica iniciativa se ficou a dever ao José Formosinho, que nesta cidade erigiu o que pode considerar-se, sem exagero, o segundo melhor museu em todo o Algarve.
Quanto a Vila Real de Santo António, beneficiou da oferta feita, pelo genial xilogravurista Manuel Cabanas, que foi deputado à Assembleia Constituinte, de uma. valiosa colecção de gravuras esculpidas pelo seu punho. Mais recentemente em Moncarapacho, o rev. P. Isidoro Domingos da Silva, sacerdote da mais elevada formação eclesiástica, e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, escritor e investigador de reconhecido mérito, ofereceram à sua paróquia duas notáveis colecções, uma de Arte Sacra e outra de Arqueologia, capazes de fazer inveja a qualquer museu do nosso país.
Oficialmente, no Algarve apenas estas localidades possuem um museu de que possam orgulhar-se, com especial destaque para Faro onde podem ainda ser visitados os museus Etnográfico, Marítimo e Antonino.

Museu de Moncarapacho, a concretização de um sonho já antigo

Desta vez, porém, falaremos apenas do Museu Paroquial de Moncarapacho, inaugurado há pouco mais de um ano.
Fundada em 19 de Junho de 1471, pelo então bispo de Silves, D. João de Melo, a freguesia de Moncarapacho possui vestígios de ocupação muito remota, pois nela foram postos a descoberto vários testemunhos pré-históricos, como é o caso de cilindros totémicos de configuração antropomórfica; ídolos neo-eneolíticos e inúmeros artefactos pertencentes a povos metalúrgicos do período neolítico. Posteriormente, ali deixaram assinalada a sua passagem Romanos, Visigodos e Árabes, todos eles representados nas galerias do museu.
Muito embora a ideia da fundação deste museu fosse uma velha aspiração da freguesia, o certo é que foi necessário aguardar pelas comemorações do seu quinto centenário para, definitiva e oficialmente, se encarar com optimismo a concretização deste justo e merecido sonho. Como atrás referi, a iniciativa partiu de dois beneméritos, o padre Isidoro Domingos da Silva e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, o primeiro detentor da riquíssima colecção de arte sacra (a que atrás aludi), e o segundo de um não menos notável espólio arqueológico. Refira-se que ambas as colecções foram avaliadas em milhares de contos aquando da inauguração no ano passado, no dia 12 de Julho, do museu que pode assim considerar-se um dos mais importantes museus paroquiais do País.
Por estranho que pareça, desde o lançamento da primeira pedra, que marcou o início da construção do edifício, em Setembro de 1971, até à sua inauguração em Julho de 1981., foram dez anos de canseiras e impedimentos diversos que quase fizeram perigar a sua. Concretização, não fosse a vontade indómita dos seus beneméritos fundadores.
O edifício, modesto de proporções mas sóbrio de linhas, encontra-se adstrito à secular Capela de Santo Cristo onde, segundo reza. a história, muitos prodígios e milagres se registaram ao longo dos últimos cinco séculos.

Como as pratas algarvias «viajaram» até Baiona

A ancestral ermida, cuja construção remonta ao ano de 1632, encontra-se esplendorosamente revestida de azulejos policromos datados de 1663, provenientes de Lisboa, possivelmente de uma das 12 mais importantes olarias que na cidade então existiam.
Por altura das invasões francesas, os soldados de Junot, como represália pela derrota sofrida junto à ponte de Quelfes, assaltaram a indefesa freguesia de Moncarapacho não escapando ao saque os valiosos objectos e alfaias de culto existentes na vetusta Capela de Santo Cristo. A maior parte do espólio, criminosamente obtido, pode apreciar-se, ainda hoje, em alguns museus da França, nomeadamente no de Baiona, que não esconde inclusivamente a proveniência moncarapachense das suas peças de prata.
Enfim... coisas da História que, por tristes e ignóbeis, nos escusamos de recordar. Seja como for, na sua idoneidade e no barroquismo da sua talha, a capela de Santo Cristo não poderia ter melhor aproveitamento do que aquele que o povo de Moncarapacho lhe acaba de dar, ao transformá-la em Museu.
Mas penetremos no edifício. este núcleo museológico divide-se em dois grandes sectores: o da Arqueologia e o da Arte Sacra. O primeiro encontra-se instalado no pavimento inferior do edifício e compõe-se sobretudo de artefactos paleolíticos, de cerâmica calcolítica e de várias peças epigráficas, heráldicas e numismáticas pertencentes às épocas da ocupação romana e árabe. Assumem particular destaque um enorme vaso árabe destinado a ablações religiosas, várias lápides epigráficas islâmicas que o Dr. Garcia Domingues tem estado a decifrar, dezenas de ânforas romanas e tubas árabes, alguns; cipos sepulcrais e marcos miliários; com especial destaque para aquele que o Dr. José Fernandes Mascarenhas identificou como sendo o que assinalava a estrada de Ossónoba a Balsa. Além de tudo isto, podem ainda observa-se inúmeras peças de inegável valor museológico, como uma colecção de lucernas, algumas cornijas arquitectónicas, capitéis coríntios de belo talhe, um túmulo romano em perfeito estado de conservação, lápides; taças, pratos e múltiplas peças de cerâmica provenientes da estação arqueológica romana de Alfanxina, situada nos arredores da freguesia de Moncarapacho.

Valioso presépio do séc. XVIII é peça de interesse nacional

No andar superior está reunida a colecção de arte doada pelo rev.º P.e Isidoro Domingos da Silva, merecendo especial referência um valioso presépio napolitano considerado de interesse nacional, datado do século XVIII, presumivelmente anterior à escola de Machado de Castro, e que pertenceu ao magnata da indústria conserveira, Júdice Fialho. Refira-se que só existe um presépio semelhante no Museu de São Paulo, no Brasil, coevo deste e possivelmente importado da mesma origem por algum português emigrado em terras de Vera Cruz.
O prior Isidoro da Silva adquiriu este presépio a uma freira que se encontrava no orfanato de Santa Isabel, em Faro, e que, atendendo ao confrangedor estado de degradação em que a peça se encontrava, preferiu vendê-la a quem se propunha restaurá-la e conservá-la num museu. Posteriormente, seguiu para o Museu de Arte Antiga, onde se procedeu ao seu gracioso restauro. Regressado ao Museu de Moncarapacho, foi logo considerado como peça de interesse público, já que, na Europa, não há notícia de existir nenhum outro que se lhe assemelhe ou equipare em grandeza e majestosidade artística.
Mas não é só este famoso presépio napolitano que merece a nossa visita atenta e demorada ao Museu de Moncarapacho. Outras peças ali existem de incomensurável valor artístico, nomeadamente um valioso calvário lavrado em marfim e pau-santo do século XVI em estilo indo-português; dezenas de imagens sacras, algumas delas com séculos de existência, recolhidas nas imediações do concelho de Olhão; e ainda alfaias, panejamentos e objectos de culto religioso; além de ricas colecções de cálices, custódias e moedas de valor incalculável; peças de mobiliário, com especial destaque para uma bonita arca setecentista do reinado de D. João V; quadros de interesse regional como os assinados por Bernardo Marques e Henrique Pousão; fotocópias de documentos que atestam o heroísmo do povo olhanense frente às tropas invasoras de Junot; animais embalsamados e toda uma série de pequenas peças de interesse não só artístico como etnográfico.
Em suma, um museu repleto de muita coisa valiosa e rara, à mistura com peças, talvez de pouca importância museológica, mas de inegável valor decorativo. Não obstante isso, gostamos francamente da secção de Arqueologia, que nos pareceu bem ordenada se atendermos à exiguidade do espaço a ela destinado. Além disso, não podemos deixar de salientar a imponência que esse deslumbrante presépio napolitano assume no meio do vasto espólio artístico, aqui e ali marchetado por imagens sacras, algumas de sabor popular a atestar a sua ancestralidade.
Para terminar, cumpre-nos assinalar a carência de um funcionário, a tempo inteiro, que sirva de cicerone aos eventuais visitantes, e, especialmente, de um catálogo ou guia interno do Museu, no qual se discrimine a função e importância de cada uma das peças ali expostas. Isto para não falar já da inexistência dos tradicionais postais e diapositivos reproduzindo as peças de maior valor e que, vendendo-se normalmente à entrada dos museus, não só contribuem para a divulgação da cultura e do património local, como contribuem também para a amortização das graves dificuldades financeiras que se vivem em instituições deste género.
Apenas a título de curiosidade, direi ainda que a entrada é grátis.

(artigo publicado no «Diário de Notícias» de 7-09-1982)

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Valioso espólio do Museu Antonino de Faro é grande atracção turística no Algarve


José Carlos Vilhena Mesquita

No contexto museológico da cidade de Faro assume particular interesse aquele que, reunindo características intrinsecamente populares, ficou perfeitamente dedicado a um dos mais antigos padroeiros desta cidade: Santo António.
Criado por decisão camarária em 23 de Junho de 1932, pelo então presidente da edilidade farense, Dr. Mário Lyster Franco, só veio a reunir grande parte do seu actual espólio no ano seguinte, para em; 4 de Fevereiro de 1934 ser oficialmente inaugurado pelo Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. A 27 de Outubro do mesmo ano foi nomeado para seu conservador o Dr. Justino de Bivar Weinholtz, igualmente director do Museu Arqueológico e Lapidar, que nesta cidade deixou bem vincada presença cultural, a ele se devendo inclusivamente vários actos de benemerência que ainda hoje, enriquecem os nossos museus. À sua morte sucedeu-lhe o seu fundador, Dr. Mário Lyster Franco, que em 1966 foi substituído pelo então director dos museus municipais, prof. José António Pinheiro e Rosa, grande estudioso e investigador de reconhecidos méritos com vastíssima obra publicada.

Igreja de Santo António do Alto

A fundação deste museu constituiu uma forma de preencher um espaço que em tempos se dizia que era aproveitado para actos e procedimentos indecorosos. Em face disso, e atendendo a que as dependências anexas ao secular templo de Santo António do Alto reuniam as condições minimamente indispensáveis à instalação de um museu popular, lançou o seu já citado fundador uma campanha de angariação de peças que de algum modo estivessem ligadas ao culto daquele taumaturgo.
Nessa altura, aproveitou-se a oportunidade para mobilar toda a igreja que se encontrava praticamente ao abandono e apenas possuía as cadeirinhas de tabua que os devotos para lá levaram quando iam assistir aos velórios e outras cerimónias religiosas. Também se colocaram no seu lugar próprio três interessantes lápides que o cónego Pereira Botto, na ânsia de formar um museu arqueológico, de lá extraíra, esquecendo-se de que só devem ser retiradas dos seus lugares originais as peças que correm risco de desaparecer, o que não era o caso.
Igualmente se abriu na parte antiga da torre (curioso edifício gótico que marca nitidamente a sua origem) uma janela que permitiu apreciar-se devidamente o magnífico artesanato que apresenta. O pátio de entrada foi logicamente alindado, com um poço mais ou menos artificial, e colocaram-se nas paredes da Igreja alguns quadros de menor valia que se encontravam depositados no Museu Arqueológico, o que permitiu dar àquelas instalações uma disposição e um ambiente mais museológico. A igreja de Santo António do Alto ficou, desta forma, muito valorizada, e se a então inesperada construção do novo edifício do liceu e a infeliz ideia do aproveitamento da torre para depósito de água não tivessem tirado a graça, a posição e a beleza própria que o templo ostentava, estamos certos de que este singular museu se transformaria num dos mais curiosos pólos de atracção turística da cidade de Faro. Refira-se que o aproveitamento da torre para depósito de água obrigou a elevá-la mais uns metros retirando-lhe por isso todas as proporções.
Convém, ainda, acrescentar que o referido templo erigido na mais alta colina da cidade foi em tempos uma primitiva torre de vigia da costa (as conhecidas, mas mal estudadas, atalaias), que para contrariarem as constantes investidas dos corsários árabes davam o sinal de rebate chamando as populações a defenderem os seus haveres. Igualmente ali se verificaram sangrentas lutas, durante a guerra civil de 1832-1834, pela posse do mais estratégico ponto militar da cidade, facto esse que há anos facilmente constatável pelos buracos das balas incrustadas nas paredes do edifício, mas que, infelizmente, são hoje irreconhecíveis devido aos trabalhos de reboco e restauro mandados executar há já alguns anos pelos responsáveis camarários.

Soberba panorâmica

Do alto da torre desfruta-se a mais soberba panorâmica da capital algarvia, sendo daí facilmente reconhecíveis os recortes da linha costeira e da Ria Formosa, assim como a distribuição orográfica da região, que se reparte pela serra – a necessitar urgentemente de ser arborizada – pelas terras algo fragosas do barrocal e pela faixa litoral, plana e fértil mas pejada de construções desenquadradas e agressivas no contexto ecológico em que se inserem.
Pelo esplendor do panorama que dali se desfruta, tem sido este local o mais visitado de toda a cidade, facto que quase obriga o turista a penetrar igualmente nas instalações singelas do interessantíssimo Museu Antonino, afecto ao templo e incorporado nas dependências de um antigo claustro. Muitos têm sido os seus visitantes, oscilando a média anual do último quinquénio entre os 15 e 20 mil, o que dá bem a ideia do seu interesse turístico.
Entre os mais ilustres que por ali passaram permitam-me que destaque, para além do ex-Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, dos bispos e arcebispos de Évora, Beja, Coimbra, Algarve e outros, dos deputados; e figuras políticas dos tempos de ontem e de hoje, os mundialmente conhecidos artistas de cinema Marlon Brando e Catherine Deneuve que, aproveitando um curto período de férias, vieram até ao Algarve e juntos visitaram o Museu Antonino, dedicando-lhe palavras de muito apreço e admiração. A fama da sua passagem depressa se fez constar e hoje raros são os jovens fãs do cinema que não pedem à zelosa guarda do museu, sr.ª D.ª Maria Celeste Iria, que lhes mostre os autógrafos daqueles conhecidos actores cinematográficos.

Valioso espólio

De entre as cerca de quatrocentas peças que compõem aquele espólio museológico, merecem especial realce um quadro de Santo António, que se encontrava no antigo Convento de Santo António dos Capuchos desta cidade, onde em tempos esteve instalado o Museu Arqueológico, verificavelmente inspirado (para não dizer cópia fiel) do fresco de Giotto, que se admira na Basílica de Pádua; um Missale Romanum - Ex Decreto Sacrosancti… editado em Antuérpia pela tipografia Plantiniana, no ano de 1725, que curiosamente apresenta as armas dos Bulhões de Coimbra, a cuja família pertencia Santo António, o qual esteve durante largos anos ao serviço litúrgico da Sé de Faro; um azulejo com moldura gótica, imitando um vitral, assinado por Maria Portugal, pseudónimo da principal assistente do conhecido escultor Leopoldo Batistini, autor das magníficas placas azulejadas que assinalam a toponímia histórico-urbana da baixa citadina de Faro; uma madona pintada sobre cobre e um quadro do santo, oferecido pelo conhecido escritor e diplomata Dr. Amadeu Ferreira d’Almeida, que à sua terra natal legou uma das mais ricas e interessantes colecções de arte do seu tempo, a qual preenche hoje uma das mais importantes salas do Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique em Faro; uma escultura do santo em madeira do século XVII, outra em cerâmica com 1,11 m de altura, proveniente da escola coroclasta de Bordalo Pinheiro; várias estatuetas em madeira, cerâmica e metal de fábrica nitidamente popular; dezenas de azulejos e pratos, tendo gravadas ingénuas quadras galhofeiras alusivas ao santo; um aquário de cerâmica representando o taumaturgo a pregar aos peixes, o qual foi adquirido por uma das antigas comissões municipais de turismo nas Caldas da Rainha; centenas de pequenas estampas (que o vulgo designa por“santinhos”), folhetos, opúsculos e livros, alguns deles bastante raros; uma colecção de fotografias emolduradas que se estendem pelas paredes do museu, focando aspectos totais ou parciais de outros templos algarvios ligados ao culto de Santo António, algumas das quais constituem verdadeiros documentos por representarem aspectos de um património histórico já desaparecido; dezenas de medalhas de todos os tamanhos e matérias; uma colecção incompleta do Almanaque de Santo António; revistas, folhas volantes, uma peça de teatro manuscrita em espanhol, bilhetes de lotaria, loiças, vidros e um sem número de peças dispersas de valor muito desigual, mas todas dizendo respeito ao culto do milagroso Santo António.

Recomendações e melhoramentos

Como não podia deixar de ser, verificam-se algumas falhas estruturais que urge colmatar e para as quais gostaria de chamar a atenção das entidades camarárias responsáveis.
1.º - Não existe um catálogo, ou inventário do recheio artístico do Museu, que possibilite aos visitantes encarar e compreender pelo menos as peças consideradas do ponto de vista artístico-museológico mais importantes. Recomenda-se que para a elaboração do mesmo se convidem especialistas e se faça uma edição trilingue do respectivo texto, dado que a maioria dos visitantes são estrangeiros.
2.º - Que se coloquem nos locais apropriados alguns projectores de luz por forma a iluminarem-se as peças mais interessantes.
3.º - Que se reboquem as paredes da sala e se eliminem os repassos de humidade que em certos casos tem desprendido alguns quadros e constituem um sério risco para a oclusão de um curto-circuito, causa próxima de tantos incêndios em instituições do género:
4.º - Que se envernizem as travessas do tecto que atestam a secularidade do edifício, mas que por se encontrarem mal tratadas acabam por dar um reflexo de desleixo e de ruína.
5.º- Que se caiem as paredes internas e externas do edifício, sem esquecer de pintar periodicamente os ladrilhos que revestem o pavimento do Museu.
6.º - Que se repare a porta que dá acesso ao pátio fronteiro ao Museu que, pelo facto de não ficar devidamente encerrada, poderá dar azo a possíveis tentativas de assalto.
7.º - Que se volte a repor, no lugar próprio, a quase lendária fechadura do claustro lateral, em cujo buraco procuravam as jovens casadoiras de olhos vendados introduzir o dedo indicador, transformando este acto numa tradição pouco vulgar e de incontestável interesse etnográfico.
8.º - Que se instalem resguardos de rede nas janelas do Museu de forma a permitir a entrada de ar, luz e calor natural no seu interior.
9.º - Que se proceda, urgentemente, à reparação da escada metálica em caracol, que dá acesso ao mirante, e que, pelo seu estado carcomido, poderá ser motivo de graves desastres pessoais.
10.º - Que se equipe o edifício com extintores e outros meios de combate a um possível incêndio.
11.º - Que se inclua e aconselhe a sua visita nos roteiros turísticos da cidade e do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», de 1-02-1984)

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

A tortura da alma na efervescência dos neurónios


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é um manancial de sensações que se agitam em torno das palavras como ebulições do pensamento. É a efervescência dos neurónios nas etéreas cogitações da alma, causando a agitação das ideias e removendo as concepções estáticas da sociedade civil. Neste caso são revolucionárias, premunitórias e demolidoras. Anunciam a aurora regeneradora de novas eras. Porém, outras estremecem credos e apologias, remexem no íntimo da crença e da fé, esboroam dogmas em refulgentes concepções filosóficas. São agnósticas umas, cépticas outras, descrentes todas, quando concebem a criatura sem ver o criador. Mas, por mais ideológicas e sublimes, ou por mais profundas, ascépticas e enigmáticas que sejam as proposições de um poema de Antero ou de Junqueiro, não restam dúvidas que é na poesia que tudo se transmite e se transforma.
O génio sente-se no acto da criação. A expressão é que difere. A luz e a cor são do pintor, a forma do escultor, a palavra do escritor. Mas a emoção é do poeta. No jogo das sensações, no choque das impressões, nasce a poesia, pura, nua e crua. Um místico mundo de fantasia e realidade desfila pela escadaria do poema. São as metáforas que desaguam no remate de um soneto. A nostalgia da saudade, as comoções do amor, as vicissitudes da alma invadem o poema como uma enxurrada de sentimentos. Isso é poesia. E só o poeta sabe verdadeiramente sentir a poesia. Mesmo quando finge sentir na alma a tortura do imaterializável, o poeta consegue transluzir em diamantinas metáforas a sincera nostalgia de um ideal por construir.
José Estevão Cruz, prosador das efémeras colunas dos hebdomadários algarvios, estreia-se neste livro como poeta. Não sei se algum dia permitirá que o tratem desse modo. Em todo o caso, vê-se que a sua poesia é sentida, sincera e imarcescível. Ainda que retocada nas imagens e rebuscada nos conceitos, não deixa de ser expressiva, raiando, aqui e ali, elevados níveis de pureza lírica.
Parece não existir neste livro um tema principal, nem seria crível que tal acontecesse numa obra poética. Porém sente-se que, no âmago dos seus versos, é a denúncia da opressão e a pusilânime teia dos interesses económicos internacionais, que constituem o tema global desta obra. E se para o comum dos poetas é a Liberdade, na sua concepção mais sublime, o ideal preferido do canto lírico, o José Estevão Cruz vai mais além e elege-a como luta universal da humanidade.
Por isso, os seus versos são um veemente apelo à consciencialização dos oprimidos, clamando contra a iniquidade do poder político que procura entear as classes laboriosas numa inebriante estrutura de dependências socioeconómicas. A letárgica “paz podre” em que vivemos hoje conduz-nos ao insensível alheamento dos que sofrem. E a indiferença parece ser indício do desenvolvimento. O resultado é a distribuição desigual, a marginalidade, o racismo, a violência e a droga. Até parece que no código genético das novas gerações vêem já gravados os defeitos da sociedade moderna: poder, corrupção, vício e perfídia. E estes são os pontos cardeais da educação que na estultícia do nosso egoísmo transmitimos aos vindouros, em nome do sucesso e da competência. A vida é uma competição de tecnologias e cifrões que tudo submete e esmaga à impiedosa lógica da produtividade.
O José Cruz deixa perceber nos seus versos que os direitos individuais, a liberdade e a democracia são mais uma aparência do que uma realidade. E o homem na sua multiplicidade de anseios e frustrações, deixou de ter significado. O cidadão na sua dignidade e honra, é quase uma expressão de retórica. Dá impressão que somos escravos dum sistema sem rosto nem pátria, a que alguns designam por progresso e no qual somos reduzidos à mais abjecta insignificância. Mas se, por um lado, uma cadeia de interesses económicos parece conduzir o mundo, por outro assiste-se à destruição do ambiente, à ameaça termonuclear e aos conflitos internacionais pela posse das fontes energéticas.
Esta é a realidade do autor, que sente a poesia como uma forma de comunicação intelectualizada, dirigida a uma parcela da sociedade civil supostamente preparada para o entender. Este livro é uma espécie de tribuna pública e como tal um risco calculado, visto que o autor nele se expõe à crítica e à imprevisível discordância dos que vêem o mundo por um prisma diferente. Não obstante, acredito que a mensagem que o autor pretende fazer passar é correcta e preocupante, merecedora da nossa melhor atenção.
A poesia é a vida. Por isso a poesia simplesmente acontece, sem peias nem destinos predeterminados. O seu modelo é o homem, nos seus anseios, frustrações e sentimentos. Na verdade, a poesia só não acontece quando não há amor, razão e solidariedade. Em suma, a poesia não é mais do que a associação da inteligência com o sentimento. A vida é o pensamento. Na conjugação primordial desse binómio, na sua expressão mais sublime, reside a poesia como paradigma da humanidade. E a efervescência dos neurónios, que nos torturam a alma em constantes interrogações, é apenas poesia.

(Prefácio ao livro Neurónios Flutuantes, da autoria de José Estêvão Cruz)

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

A Procissão das Tochas, em São Brás de Alportel

José Carlos Vilhena Mesquita

A rainha da beira serra algarvia comemora, anualmente, no Domingo de Páscoa, o seu mais glorioso feito histórico através de uma festa profana, que a Igreja converteu numa grandiosa manifestação religiosa. Curiosamente, as origens desta festa remontam ao século XVI, mais precisamente ao dia 25 de Julho de 1596, data em que, segundo reza a história, se verificou a invasão da cidade de Faro e seus arredores pelas tropas do duque de Essex.
Na verdade, é hoje dado como certo que, nessa data, aquele nobre militar invadiu o Algarve, após ter infligido estrondosa derrota na Baía de Cádis, a esquadra de Filipe II. Contudo, falou-se durante muito tempo que o saque, e o consequente incêndio da cidade de Faro, havia sido obra do famoso pirata Sir Francis Drake, que as más-línguas apontavam como amante da rainha Isabel I de Inglaterra, por ironia cognominada de «a Virgem».
O referido alvitre partiu do cronista algarvio João Baptista da Silva Lopes, que, nas suas Memórias Eclesiásticas do Bispado do Algarve, a páginas 345 diz o seguinte:«Em 25 de Julho de 1596, foi ella [cidade de Faro] incendiada pelos inglezes, que a accommettêrão com huma esquadra comandada por Francisco Drake, sendo governador do Algarve Rui Lourenço de Távora, e Bispo D. Fernando Martins Mascarenhas, talando e assolando tudo quanto encontrárão até á Aldêa de S. Braz, aonde se diz que chegarão, escapando do incêndio apenas a igreja de S. Pedro, e a da Misericórdia. Então se consumirão os cartórios e livros antigos tão interessantes para a História; consta, por tradição, que boa parte da livraria do Bispo D. Jerónimo Osório, roubada nesta occasião, fora levada para a Universidade de Oxford, onde existe
Todavia, sabemos hoje que a invasão não foi chefiada pelo «corsário negro», mas antes pelo duque de Essex, que, para além de incendiar a cidade, assaltou, de facto, a biblioteca que pertenceu ao citado bispo, e famoso humanista, depositando-a depois na universidade de Oxford. Contudo, nem toda a biblioteca foi roubada, pois que aquele nobre inglês, como não era pessoa muito ilustrada, preferiu a beleza das encadernações à qualidade ou ancestralidade das obras e dos manuscritos. Daí que a maior parte dos livros depositados na biblioteca da Universidade de Oxford seja de carácter místico-religioso, principalmente manuais e tratados de teologia, ciência essa que, em larga medida, constituiu a base de formação intelectual daquele insigne estudioso.
Portanto, apesar do prejuízo que este facto acarretou para a história da cultura portuguesa, não podemos deixar de afirmar que a maior parte dos nossos historiadores costuma exagerar um pouco, quando se refere ao apocalíptico acontecimento, visto que sendo livros escritos em latim, que versam temas litúrgicos, não tem hoje a aplicabilidade e o interesse dos tempos de outrora.
Quanto à data apontada como verídica, há ainda quem discorde dela, talvez por que se apoiam em Rebelo da Silva, que, na sua História de Portugal, vol. VIII, a páginas 145, afirma que os ingleses eram senhores de uma armada de 130 velas, chefiada por Lord Effingham, que tinha sob o seu comando oito mil ingleses e uma frota holandesa, que conjuntamente atacaram e destruíram a esquadra de Filipe II, que se encontrava fundeada em Cádis, no dia 20 de Junho de 1596. Um mês depois, avistaram as costas do Algarve, desembarcando então em Faro cerca de três mil homens que, após 48 horas de sangue e fogo, retiraram em direcção aos mares do Norte.
Não nos parece que Rebelo da Silva esteja no pleno uso da razão. No entanto, o que é certo é que, durante esse período de ocupação estrangeira, uma franja do exército inglês derivou até S. Brás, onde, apesar do seu número, foi heroicamente repelido pelos rapazes solteiros da freguesia.
Efectivamente, «tendo os inglezes entrado em Faro, na força de três mil homens, saqueado os haveres dos seus habitantes, incendiando toda a cidade, não escapando cousa que tivesse valor, tiveram conhecimento de que a povoação de S. Braz era rica e importante, e que valia a pena ir sobre ella para a por tambem a saque.
Organizado um forte destacamento, marcharam sobre S. Braz e chegando ali, encontraram todos os habitantes desprevenidos, sendo-lhes fácil roubar o que encontravam. Não contentes, porém, com os roubos e mortes que praticaram, lançaram fogo á egreja, o que produziu uma grande indignação entre os habitantes. Foi então que, passado o primeiro panico, alguns rapazes solteiros, uniram-se como um só homem, e cahindo sobre os inglezes, fizeram n’elles grande chacina obrigando-os a bater em retirada, largando o que tinham saqueado
» (in Almanaque de S .Braz d’ Alportel para o ano de 1894, p. 22).
O heroísmo dos sambrasenses encontra-se, inclusivamente, narrado na única fonte que a este facto se refere com o rigor do pormenor: «Ha a confraria do nome de Jesus, em que só servem os solteiros, em memoria de quando os inglezes deram fogo a esta egreja, e invocando as taes solteiros o nome de Jesus se opposeram contra aquelles anglicanos, e os lançaram fora, com feliz successo, acção que se obrou em dia de S. Thiago Apóstolo, e n’esse dia lhe fazem a festa com as suas cavalhadas de tarde» (António Pereira. da Silva, «Descripção de S. Braz», manuscrito depositado na Torre do Tombo, dotado de 1757).
Curiosamente, as armas empunhadas pelos rapazes solteiros não passavam de lanças improvisadas machados rústicos, chucos e alfaias agrícolas, com as quais «cahiram destemidamente sobre os inglezes» (Sebastião Joaquim Baçam, «S. Bras do Alportel», 1912). Daí nasceu a alcunha de “cachamorreiros” para os Alportelenses. A única fonte que fala com orgulho desta alcunha pertence a João Manuel Rodrigues de Passos, quando, a dado passo, afirma o seguinte: «Caros, conterrâneos, a palavra cachamorreiros, com que nos alcunharam, parece que teve origem n’aquella data (25 de Julho de 1596), em consequencia. dos nossos ascendentes terem feito retirar á cacheirada a pirataria ingleza. Tal alcunha, pois, é, uma glória para nós filhos d’esta formosa rainha da beira serra». (in Almanaque de S. Bras, de 1894).
Presentemente, a comemoração deste ano heróico constitui uma extraordinária manifestação religiosa, eivada porém de um certo machismo, derivado precisamente do seu carácter histórico.
Esta festa celebra-se no Domingo de Páscoa, e o povo chama-lhe a Procissão das Tochas, pois que os homens empunham uns paus enramalhetados de flores que, pela sua esplendorosa tonalidade mais parecem tochas flamejantes.
Percorrem assim, com as “tochas” floridas, as ruas da vila, gritando em uníssono: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia». Porém, entrementes e à socapa, trazem consigo uma pequena garrafa da mais pura e cristalina medronheira, que emborcam a espaços, enquanto gritam cada vez com mais força e entusiasmo: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia».
Concluída a procissão, as “tochas” são prostradas ordenadamente sobre a calcada, constituindo, assim, um vasto e esplendoroso tapete florido, sobre o qual o sacerdote caminha solenemente, ao mesmo tempo que empunha o Santíssimo. Após a marcha religiosa, o prior celebra então a missa campal, à qual assistem sempre milhares de fiéis, alguns deles ainda arfantes do vigor da solenidade.
Antigamente, e julgo que também ainda hoje, se costuma realizar um concurso para apuramento das mais belas “tochas” que desfilaram na procissão, as quais se distribuem por três grupos, conforme as técnicas empregues na sua elaboração artística. Refira-se que, neste ano [1982], o concurso das melhores tochas organizado pela paróquia terá a especial comparticipação da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, da Junta de Freguesia e da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Após a actuação do Rancho Folclórico de Alte e do lançamento dum vistoso fogo-de-artifício, serão encerradas as festividades, que, no seu género, bem poderão ser consideradas como únicas na Península Ibérica.
Pelo seu real valor etnográfico, que, por estranho que pareça, ainda não foi estudado, aqui fica o nosso apontamento, que mais nenhuma pretensão encerra que não seja a de dar a conhecer uma manifestação popular, que em si congrega o espírito profano, mas inocente, do nosso povo com o misticismo cristão da Igreja.
Lamentamos apenas que o dia 25 de Julho, data da invasão inglesa do Algarve, não seja comemorado com o júbilo e a veneração com que os actos de grande heroísmo patriótico costumam ser celebrados no nosso país.

(artigo publicado, no matutino «Diário de Notícias» de 12-04-1982)

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O Monte de S. Miguel no Algarve – panorâmica turística inexplorada

José Carlos Vilhena Mesquita

O Algarve não é apenas sol e mar. Muitas vezes o dissemos e todos sabem que temos razão. Porém, o turismo algarvio continua insistindo na polarização do litoral, esquecendo o interior onde muitas vezes a beleza do campo e do património histórico se transforma num tonificante lenitivo para o «stress», ou para as enfadonhas e rotineiras férias nas praias. Há que pensar na organização de novos roteiros turísticos e na alternância praia/campo que possibilite ao visitante uma imagem mais objectiva da realidade algarvia. O facto de não levar o turista até à serra, só para que não veja a frugalidade económica dos habitantes ou o atraso “civilizacional” (se é que isso existe) dos seus costumes, e quanto a nós uma política errada. Confinar o turista ao espaço geográfico que medeia entre a praia e o hotel é um perfeito disparate, e esconder-lhe a própria beleza do Algarve, e afastá-lo da nossa cultura e do nosso riquíssimo artesanato. Os estrangeiros apreciam as nossas tradições e os nossos valores sociais, muitas vezes aqueles que o desenvolvimento económico-industrial fez desaparecer nos seus próprios países, sem esquecer que a sua canalização para o interior iria certamente desenvolver a economia local, tão marginalizada e esquecida, prestes a sofrer o ermamento humano e, como natural consequência, a desertificação.
Como sugestão ou alternativa aqui deixo a ideia de uma visita ate ao monte de S. Miguel, cuja panorâmica, salvo as devidas proporções, nada fica a dever à Fóia em Monchique. Acrescento ainda que o cerro de S. Miguel é muito mais do que um soberbo miradouro natural da serra, do Barrocal e da linha azul cristalina do nosso litoral, pois que outros atractivos e riquezas se podem ali observar. Vejamos então.

«O monte do Figo» na história

Na antiguidade sabe-se que o cerro de S. Miguel ou monte do Figo, como então era conhecido, servia de importante ponto de referência à navegação costeira, não sendo raras as alusões à sua estratégica localização nos mapas portulanos, textos literários e documentos históricos pertencentes aos Fenícios, Cartagineses, Gregos, Romanos, Vikings, Árabes e outros povos cristãos da Europa do Norte. Inclusivamente, atribuíam-se-lhe poderes místicos, obscuros e fantasiosos, provenientes de uma fértil imaginária, intrínseca aos povos marítimos. Mitólogos como W. Christ Imullenhoff consideravam aquela elevação como uma montanha sagrada, uma espécie de Olimpo onde as divindades marítimas se reuniam em sigilosa conferência. O eminente arqueólogo prof. Schulten chegou mesmo a identificar o cabo Zéfiro, citado por Avieno no seu imortal poema Ora Marítima, como sendo o monte Figo, opinião de que comungam outros investigadores, nomeadamente o prof. Mendes Correia e o espanhol Antonio Arribas, o que parece definitivamente afastar quaisquer dúvidas acerca da identificação do tartéssico cabo Zéfiro com o cerro de S. Miguel.
Não obstante estas opiniões abalizadas de estudiosos célebres, como Schulten, penso que o problema não está ainda totalmente clarificado, e francamente, na minha opinião, não me parece muito lógico, ou pelo menos muito fácil de compreender, que um cerro de 400 metros de altitude e a cerca de duas léguas de distância da costa possa ser a mesma coisa que um cabo. Mais lógico seria, talvez, identificar o cabo Zéfiro com o cabo de Santa Maria e considerar como seu perceptível e mais elevado ponto de referência o Monte do Figo. Mas, enfim, tudo isso são questões que transcendem os meus precários conhecimentos.

Ermida de S. Miguel

Através da reconquista Afonsina cristianizaram-se os locais místicos ligados ao paganismo greco-romano, não escapando a essa onda de renovação religiosa o simples Monte do Figo, em cujo alto, reza a tradição, se teria erguido uma ermida para assinalar o aparecimento do Arcanjo S. Miguel. Contudo, no cume do cerro nada subsiste que prove a sua anterior existência, e de concreto apenas se sabe que o bispo D. Francisco Gomes do Avelar ali mandou colocar um pedestal de pedra com uma enorme cruz de madeira, que o tempo se encarregou de fazer desaparecer.
Todavia, na encosta norte do cerro ergueu-se, em data que desconhecemos, mas que deve rondar os séculos XV ou XVI, uma (nova) ermida, bastante singela, de tipo rural, denotando fortes influências góticas e visíveis reconstruções, que, por certo, alteraram a sua traça original. O último restauro processou-se no ano passado [1983], e tal como, desde 1943, ficou a dever-se à iniciativa do padre Isidoro Domingos da Silva, pároco de Moncarapacho, que nesta freguesia tem desenvolvido, de parceria com o Dr. José Fernandes Mascarenhas, uma acção cultural verdadeiramente brilhante e assinalável.
O seu recheio é bastante pobre, de uma só nave, chão de grés em ladrilho, um único altar dois degraus acima do nível central, ostentando ao centro uma antiga imagem do padroeiro, ladeada por duas estatuetas de Nossa Senhora do Socorro. Possui alguns bancos corridos em castanho de antiga fábrica, à esquerda um secular púlpito (certamente resquício da primitiva construção), com boa acústica e uma improvisada sacristia. O referido pároco ali reza missa todos os últimos domingos de cada mês, a ela assistindo a população do barranco de S. Miguel, que não ultrapassa os 20 habitantes.
Curiosamente, a ermida possui campanário, mas não tem sino, o que, segundo apurámos, é uma aspiração destas gentes que vivem placidamente na lonjura da serra.

Potencialidades e dificuldades

Depois que a radiotelevisão ali instalou um retransmissor, depressa se abriram os convenientes acessos rodoviários, e hoje facilmente qualquer cidadão pode subir até ao cume do monte para dali desfrutar duma panorâmica de indescritível beleza.
A altitude atinge os 411 metros acima do nível do mar, o solo é calcário e no cume abundam vários minerais como a calcite, cor de mel rosado, e a halina, os calhaus rolados de quartzo e quartzites, um filão de basalto alterado com olivina e na encosta sul vêem-se imensas rochas com amonites fossilizadas.
Na face norte, a poucos metros do retransmissor, encontra-se o Barranco de S. Miguel, pequeno aglomerado habitacional, que em 1964 totalizava uma centena de moradores, mas que hoje não ultrapassa duas dezenas de locatários. O abandono da população deveu-se em larga medida à fraca rentabilidade agrícola, à escassez da água e, fundamentalmente, à emigração, não propriamente para o estrangeiro mas antes para a orla litoral do Algarve.
A zona florestal tem vindo a diminuir, as secas sucedem-se, os poços esgotam-se e as privações de toda a ordem têm tornado a vida insustentável àqueles que persistem em ficar. As crianças, que são em reduzido número, para irem à escola primária do Azinheiro, na freguesia de Estoi, deslocam-se quatro quilómetros, desbravando caminho entre os cerros. Os jovens têm de ir para Faro estudar, o que é muito dispendioso e praticamente incomportável. O analfabetismo ronda os oitenta por cento e a fuga à escolaridade obrigatória não é um hábito mas antes uma necessidade.
A luz eléctrica foi instalada há cerca de cinco anos [1979], não possuem água encanada nem fontanário, as instalações sanitárias (quando existem) são rudimentares, não há telefones, não lêem jornais e o único contacto com o quotidiano exterior é feito através da rádio (que ouvem com frequência) e da televisão, cujo aparelho poucos possuem, mas que vêem amiúde, sendo o programa preferido a telenovela, que curiosamente designam por «Gabriela», qualquer que seja o seu título original.
Nos últimos quatro anos tiveram de comprar água nas imediações mais próximas, a qual transportavam em mulas e cântaros para utilização doméstica e amanho de algumas sementeiras, pois o único poço (que é comunitário) só este ano, devido à forte pluviosidade, atingiu um nível razoável. A inquinação das águas e a deflagração de um surto de febres tifóides são perigos constantes e iminentes.
A produção agrícola é fundamentalmente composta por cereais: centeio, trigo, cevada e outros. Colhem alguns frutos num terreno difícil, onde só resistem com abundância as alfarrobeiras, oliveiras, figueiras e amendoeiras, cuja produção poderia ser aproveitada de forma conveniente à sua comercialização.
A exuberância silvestre, fortemente marcada pela presença do rosmaninho, tomilho, giesta, alecrim, rosas albardeiras e outros arbustos floridos, transforma o terreno numa vasta área propícia à produção de mel.
A constante desarborização da serra tem sido a causa próxima da secura e esterilização dos solos, situação que futuramente poderá levar ao desaparecimento deste interessante aglomerado que dá pelo nome de Barranco de S. Miguel.
Esperemos que as autoridades do turismo regional aproveitem ao máximo as belezas naturais deste local, onde se pode desfrutar de uma beleza panorâmica inigualável no Algarve. Sugerimos também aos futuros visitantes do cerro de S. Miguel que não deixem de confraternizar com o povo do sítio de Barrancos, esquecido e marginalizado desde há largas décadas, sofrendo em silêncio as amarguras de uma existência praticamente sem futuro.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», em 24-9-1984)

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Tradições do Natal Português


José Carlos Vilhena Mesquita

Num país como o nosso, de reduzidas dimensões territoriais, é impensável que a festa da Natividade assuma proporções etnográficas dignas de elevado relevo. Além disso, em quase todo o mundo se celebra idêntica data, se bem que nem sempre com o mesmo espírito religioso e festivo que nós, europeus, lhe outorgamos.
Na realidade, desde os primórdios do cristianismo que se celebra esta solene data, muito embora se deva salientar que no início do século V se comemorava o nascimento de Cristo no mês de Janeiro, e no ano de 432 festejava-se simultaneamente no dia 25 de Dezembro a Natividade e a adoração dos Reis Magos. O estabelecimento desta data como aniversário do nascimento de Cristo deve-se a São João Crisóstomo, que no panegírico de S. Figolonio, pronunciado no ano de 386, defendeu a sua autenticidade. Houve, porém, que esperar pelo pontificado de Júlio II para definitivamente se estabelecer como dia de Natal a data de 25 de Dezembro.
A primitiva festa da Natividade consolidou-se durante a vigência do Papa Sisto III (432-440), e apontava já para o estabelecimento de duas celebrações bastante características: a do Presépio e a da Santa Missa, com as respectivas orações litúrgicas. A primeira deu grande impulso ao carácter festivo da celebração e realizava-se principalmente na basílica romana de Santa Maria, que passou desde então a denominar-se ad praesepe. Quanto aos ofícios litúrgicos, celebravam-se no mesmo templo e tinham um acentuado carácter mariano, obedecendo à clara intenção de converter a Natividade numa vigília nocturna, semelhante à que se celebrava na Páscoa.
A devoção e o gosto pela festa da Natividade acentuaram-se ainda mais quando o Papa Teodoro, no século VII, trouxe para Roma as relíquias do berço do Menino Jesus e das manjedouras dos animais que aqueceram a sua nudez. Muito embora nos pareça existir em tudo isto algo de fantasioso, o certo é que ainda hoje se veneram essas relíquias como se fossem autênticas. Por certo, o que importa é a sua simbologia e não a sua verosimilhança.
Associada à festa do Natal celebravam-se durante a Alta Idade Média três missas rezadas pelo Papa na Igreja de Santa Maria Maior, sendo de realçar a primeira, a da meia-noite, popularmente designada por missa do Galo por ser propiaquante gallorum canti. A segunda missa, a da alvorada, rezava-se na Igreja de Santa Anastásia, já inexistente, e a terceira na Basílica de São Pedro, às quais se outorgava um profundo sentido místico, já que a primeira significava o nascimento de Cristo, a segunda a felicidade que Cristo veio trazer aos homens e, a terceira a realização das promessas da lei santa.
Presentemente só a missa do Galo prevalece na tradição cristã e no espírito popular, se bem que a corrosão dos tempos e o materialismo da vida actual haja desbotado o seu significado. De qualquer modo, há que assinalar a permanência de algumas tradições de raiz medieval, que, nas terras do interior, ainda se vão mantendo, mau grado a aculturação motivada pelo surto emigratório. Mesmo assim, a época natalícia tem um carácter telúrico e vigoroso que, em certos casos, especialmente em Trás-os-Montes e nas Beiras, se assume como fonte inesgotável de conhecimentos nos domínios da etnografia e da demopsicologia. Como características gerais apontam-se a queima do madeiro ou cepo, a consoada, a Missa do Galo, o presépio, as Janeiras e Reis, os cortejos evocativos dos Reis Magos e os autos, entremezes e vilancicos.

A queima do madeiro ou do cepo

Em praticamente toldas as províncias do País se verifica a tradição do fogo da lareira familiar, alimentado por um enorme toro de madeira, que no Minho tem o nome de Canhoto, enquanto nas restantes regiões lhe chamam madeiro ou cepo.
Conforme a tradição, é preferível que o cepo seja de oliveira, árvore da paz, por ser dessa madeira a cruz de Cristo. Por outro lado, associam-se-lhe tradições profanas, pois que quanto mais grosso ele fosse mais gordo seria o porco para a matança do ano. Além disso, também se lhe atribuem poderes sobrenaturais, pois que os restos que não arderem serão guardados para com eles se preservar o lar das trovoadas e outras iras divinas. E para provar esta regra muitas lendas dramáticas se narram contra aqueles que violam a tradição e a crença do povo.
No fundo, a incineração do madeiro ou cepo não é mais do que a revitalização do fogo simbólico originário do rito pagão, que nos adros das igrejas e capelas crepita, abrasivo e luminoso, por entre os grupos de jovens que lhe dedicam inúmeras quadras do vasto cancioneiro natalino.

A ceia grande ou consoada

Normalmente designada por festa da família, por se reunir à mesa a maioria dos familiares, era costume realizar-se a consoada depois da Missa do Galo. Contudo, hoje, essa tradição já se vai perdendo devido ao desuso das antigas ceias. E na composição das ementas é que se constatam algumas heterogenias de carácter antropológico resultantes das assimetrias sociogeográficas.
Assim, enquanto no Minho predomina o bacalhau cozido com batatas, ovos e tenros, “tronchos” de “coivão” da horta, em Trás-os-Montes, no Centro Litoral e no Alentejo assa-se o leitão ou come-se um lauto assado de porco, regado com bom vinho novo. Por sua vez, na Estremadura, no Ribatejo e nas ricas casas beirãs, come-se o tradicional peru recheado de acepipes saborosos, enquanto no Algarve nos deliciamos com o lendário pitéu da carne de porco com amêijoas e linguiça assada, prato este já caído em desuso mercê da aculturação turística do peru.
Paralelamente ao “presigo”, as mesas, os armários e escaparates, estão repletos de doçarias de toda a espécie, variando igualmente de região para região. Por exemplo, no Minho os «mexidos» arabescados com canela da Índia, assumem posição de destaque, logo acompanhados pelas deliciosas rabanadas ensopadas no mel doirado, pelo leite-creme crestado com açúcar caramelizado, pelos pratos de aletria, pelo pão-de-ló e bolo-rei, este ultimo já importado desde há longa data. Nas Beiras confeccionam-se filhós estendidas. fatias-douradas, coscorões, bilhós, pães-leves, merendas, bicas e arroz-doce. No Douro, comem-se rabanadas, formigos, mexidos, sopas secas, ovos queimados, sonhos, arroz-doce, aletria, figos, uvas-passas e vinho quente. No Ribatejo tem especial relevo o bolo-podre, as broas, os bolos de gema e as azevias compostas por grão, arroz-doce e filhós. No Alentejo saboreiam-se as filhós, azevias, sonhos, borrachos e os nogados, à base de nozes, amêndoas ou pinhões misturados com mel. Finalmente, no Algarve, apreciam-se doirados fritos escorrendo mel, filhós, bolinhóis, empanadilhas de batata-doce, figos, pinhões e nogado.
Como facilmente se depreende, é ao nível da doçaria que as diferenças se acentuam, se bem que a gastronomia seja igualmente um indício da personalidade do nosso povo. Mas passemos adiante.

A Missa do Galo

Atendendo a que se trata duma celebração religiosa, não se radicalizam quaisquer heterogenias regionais. No entanto, pela circunstância de só se realizar nesta quadra do ano, não podemos deixar de salientar a sua singularidade litúrgica. Mas como especial atractivo registe-se o desvelamento do Presépio, que ate aí permanecia envolto numa cortina para dar ao acto um carácter mais solene. O pároco, após dar a conhecer a ingénua composição de figuras de barro. Celebra a missa enquanto o povo entoa cânticos de Natal. Por fim, o pároco dá o Menino Jesus a beijar aos fiéis, que silenciosamente lhe pedem mercês e protecção.
Como nota curiosa, é saliente nesta altura a boa disposição de todos os presentes alguns deles já bem bebidos e mais bem comidos.

O Presépio

A origem dos presépios remonta a São Francisco de Assis, que teve a genial ideia de fazer reviver, através da arte popular, as cenas bíblicas directamente relacionadas com o nascimento de Cristo. Em si mesmos, os presépios constituem uma lição viva de fraternidade, amor e humildade.
Compõem o presépio, a Sagrada Família, os Reis Magos e a respectiva cascata com a manjedoura e os animais que aqueceram o Menino. No entanto, o gosto popular acentuou este enternecedor quadro litúrgico com o acrescentamento de centenas de outras figuras da sua própria existência socioeconómica, como é o caso dos gaiteiros, moleiros, moinhos, açougueiros, pastores, ferreiros, sapateiros, sem esquecer naturalmente a tradicional cena da matança do porco. Aliás, convêm lembrar que o nosso país é tradicionalmente ceramista, rico em valores artísticos, alguns deles florescendo em grupo, como são exemplo as escolas de Lisboa e de Mafra. Com especial relevo para os discípulos de Machado de Castro. Na Estremadura as igrejas locais pugnavam pela realização de maravilhosos presépios e rivalizavam com os de Coimbra, Aveiro, Viseu e Lamego, igualmente notáveis pela majestosidade e profusão das suas figuras.
Armados nas igrejas, expostos admiração e culto dos povos, os presépios funcionam ainda hoje como principal atractivo religioso para a Missa do Galo. Pena é que nas residências particulares se vá cedendo à importação profana das escandinavas árvores de Natal, que nada tem de católico nem de latino. O mesmo se verifica com essa figura pouco significativa que é O Pai Natal. Igualmente originário das regiões rígidas do Norte da Europa.

As Janeiras e os Reis


O cantar das Janeiras e o domínio, quiçá o mais rico, do Cancioneiro Popular Português. A sua origem remonta igualmente ao tempo do paganismo em imitação das Saturnais Romanas que, ao converterem-se à religião crista, assumiram foros da maior originalidade.
No ancestral cantar das Janeiras está contido todo o espírito popular, a criatividade; a beleza, o encómio e o escárnio. Muito embora neste domínio se acentuem as heterogenias regionais, é, no entanto, comum a todo o País a composição de pequenos grupos corais, normalmente acompanhados de instrumentos musicais, que percorrem os mais variados lugares da sua freguesia ou vila, batendo às portas e entoando loas religiosas à mistura com quadras de fino gosto popular. O objectivo era serem bem recebidos pelos moradores que lhes ofereciam doces e vinho. Mas, caso não correspondessem a contento, eram “mimoseados” com canções de chacota, por vezes achincalhantes, e não raras vezes culminadas por cenas bem tristes e desnecessárias. As esmolas recebidas, em géneros, guloseimas ou dinheiro, eram em certas regiões destinadas à ceia ou festa do grupo, enquanto que noutras paragens revertiam a favor das almas do Purgatório. No Algarve são bem conhecidas as tradicionais charolas que na orla marítima do Sotavento ainda se mantêm com o mesmo fulgor de há dezenas de anos atrás. A recolha deste riquíssimo espólio da nossa literatura oral, foi, em parte, compilado por José Leite de Vasconcelos, Ataíde Oliveira e muitos antropólogos, amadores ou profissionais, que percorreram o País de lés-a-lés.

Os cortejos de Reis Magos

Esta tradição dos cortejos dedicados ao tema bíblico da adoração dos Reis Magos tem vindo progressivamente a desaparecer, se bem que em Coimbra e na aldeia de Tentúgal ainda se conserve na plenitude da sua beleza etnográfica.
Assim, em Coimbra, desfilam bandas de música acompanhadas de crianças de batina vermelha e cota de renda branca, transportando consigo turíbulos de incenso e oferendas para o Menino Jesus. Seguem-se os homens que ostentam bandeiras engalanadas e archotes em ignição, como que a abrirem caminho aos Reis Magos, cujas roupagens sumptuosas e brilhantes denunciam a presença real. Nesta conformidade percorrem as ruas da cidade até à Igreja de S. Bartolomeu, em cujo adro se representa um auto popular alusivo ao carácter festivo da própria comemoração. Por fim, procede-se ao leilão das oferendas, após o que o pároco dá o Menino a beijar.
Na pacata localidade de Tentúgal, o cortejo é precedido por numerosos gaiteiros e clarins que duma forma ruidosa e alegre se anunciam a aproximação do desfile. Este é encabeçado por um arauto, logo seguido por uma estrela brilhante e majestosa alusiva àquela que guiou os Reis Magos até Belém, e um pouco mais atrás desfilam as três altezas reais com as respectivas oferendas de ouro, incenso e mirra, que se fazem acompanhar pelos seus pajens e pelo numeroso público presente. Após percorrerem as ruas da povoação dirigem-se à aldeia de Ribeiva de Frades, de onde regressam a Tentúgal para confraternizarem em simultâneo com o povo de ambas as localidades.
No fundo, trata-se de um cortejo de carácter religioso, mas nem por isso menos importante do ponto de vista etnográfico, que merece ser preservado e minuciosamente estudado.

Autos entremezes e vilancicos

A origem dos autos de Natal perde-se no tempo e crê-se que as primeiras representações deste género teatral foram impulsionadas pela própria Igreja para melhor divulgar as suas doutrinas. Em Portugal, o dramaturgo que maiores êxitos alcançou foi Gil Vicente, sendo ainda hoje as suas peças muito apreciadas e procuradas pelo público. Muitos destes autos tem um carácter estritamente popular e por esse país fora ainda se representam anualmente. Recorde-se, por exemplo, em terras de Viana o Auto de Floripes, felizmente já estudado por especialistas, e que constitui um verdadeiro atractivo turístico nesta quadra natalícia.
Infelizmente, os grupos de teatro amador espalhados, por esse país fora, não costumam aproveitar esta fonte de inesgotável riqueza etnográfica, para darem a conhecer a nossa juventude algumas das tradições mais genuínas do nosso povo.
Quanto aos entremezes, que eram curtas representações teatrais de espírito jocoso ou burlesco, são vulgarmente designadas por farsas, género que Gil Vicente igualmente cultivou no decurso da sua obra. Presentemente, os entremezes raramente os representam.
Finalmente, os vilancicos são madrigais que se cantavam nas igrejas por ocasião do Natal e dos Santos Populares, mas que hoje caíram totalmente no esquecimento e poucas são as localidades em que ainda se conservam.
Enfim, de um modo geral, procurando ser breve e sucinto, penso que sobre as tradições do Natal português muito mais haverá que dizer se bem que cairíamos no aprofundamento das questões levantadas o que só contribuiria para a saturação do leitor.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias» em 24-12-1982)

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Cacela a Velha – Imóvel de interesse público


José Carlos Vilhena Mesquita

O núcleo histórico de Cacela a Velha acaba de ser classificado [1983], pelo Instituto Português do Património Cultural, como imóvel de interesse público, devendo-se essa determinação oficial à aprovação de uma proposta apresentada, nesse sentido, pela Junta de Freguesia de Vila Nova de Cacela. Contudo, a justíssima petição do órgão mais representativo do povo de Cacela, teve como fundamento o brilhante estudo em tempos executado pelo Arq.º Cabeça Padrão que, justamente, apontava como um dos objectivos prioritários a classificação do Núcleo Histórico como imóvel de interesse público, de forma a evitar-se a degradação da arquitectura e do ordenamento paisagístico, não só da zona monumental, fronteira ao mar, como ainda de todo o conjunto urbano que felizmente ainda conserva evidentes traços das suas origens medievais. Saliente-se, igualmente, o incondicional apoio prestado pela ADIPACNA (Associação para a Defesa e Investigação do Património Cultural e Natural) e pelo município vila-realense, cabendo àquela organização a salvaguarda deste valioso núcleo histórico do qual fazem parte uma velha fortaleza, que serve de quartel à Guarda-fiscal, a Igreja Matriz e a secular ermida de Santa Rita.
A freguesia de Cacela, cuja origem remonta ao tempo dos Fenícios e que, segundo alguns historiadores teria sido a lendária Conistorgis, capital dos Cúneos, foi com toda a certeza uma das mais importantes localidades da ocupação árabe e nela residiu, se bem que temporariamente, o célebre conquistador do Algarve, D. Paio Peres Correia, cujos restos mortais julga-se que repousam na Igreja de S. Maria do Castelo, em Tavira. Também nesta povoação se evidenciam alguns resquícios da ocupação pré-histórica e especialmente romana (desde antas e outras necrópoles, até ao achamento de fustes de colunas, capitéis, moedas, cerâmica, mármores, etc.), em parte estudados por Estácio da Veiga, Santos Rocha, José Leite de Vasconcelos, e outros, muito embora devamos acrescentar que a maioria das estações arqueológicas conhecidas permanecem ainda inexploradas em progressiva degradação.
Cerca de 1240 foi esta povoação tomada aos Mouros por D. Sancho II que, juntamente com o seu castelo, a doou à Ordem de Santiago. Porém, decorridos dois anos voltou à posse dos muçulmanos para, em seguida, ser retomada pelo fronteiro-mor do Algarve e Mestre da referida ordem, D. Paio Peres Correia, que não mais a perdeu. Por sua vez, D. Afonso III, que em 1252 conquistou definitivamente o território do Algarve, confirmou em 1255 a doação feita por seu pai à Ordem de Santiago e seu filho, D. Dinis, outorgava-lhe a 17 de Julho de 1283 o primeiro foral.
Apesar do seu passado brilhante a vila de Cacela foi paulatinamente ofuscada pela cidade de Tavira, e pela aldeia piscatória de Monte Gordo, até que o Marquês de Pombal lhe deu o golpe fatal ao retirar-lhe os privilégios de sede de concelho, incorporando-a como freguesia da renascente Vila Real de Santo António. De qualquer modo, a permanência de várias famílias de agricultores (algumas delas até de origem nobre), a florescente pesca do atum e a posterior fundação de uma fábrica de telha francesa pertencente à Companhia de Cerâmica, possibilitou a continuidade do povoado, que apesar da sangria emigratória ainda hoje resiste, em parte devido ao turismo e às excelentes condições naturais da sua costa para a prática de desportos náuticos.
A fortaleza de Cacela, que defendia a entrada da barra de Tavira, é de origem bastante remota, sabendo-se por intermédio do prior Duarte Correia de Freitas, autor de uma memória datada de 1758, que ao pé da Igreja existia um castelo "que padeceu grande ruína com o terramoto de 1755", mas que acabou por ser reparado. É muito possível que esse castelo esteja, pelo menos em parte, integrado na actual fortaleza que, conforme documentação digna de crédito, foi mandada construir em 1770 por D.Rodrigo de Noronha, governador do reino do Algarve. Porem, a sua edificação terminaria apenas em 1794, no reinado de D. Maria I, sendo, nessa altura, governador e capitão general deste reino o Conde de Val de Reis, D. Nuno José Fulgêncio de Mendonça e Mourão. Inspeccionou aquela edificação militar o Dr. José Caetano de Andrade e Castro, guarda-mor da cidade de Tavira, conforme se pode constatar na inscrição que figura sobre a porta principal, e que passamos a transcrever:

EM O REINADO DA AIGVSTISSI
MA S D M I RAINHA DE PORTV-
GAL GOVERNADO ESTE RN.º
DO ALG. O INmo EXmo NUNO
JOSE FVLGENCIO DE MENDONSA
E MOURA CONDE DE VALDREIS
GENTIL HOME D. SAR. DE
PUTADO DA JUNTA DOS 3
ESTADOS GOVERNADOR E CApam
GENERAL DO REINO MANDOU RE
EDIFICAR E ACABO ESTA FOR-
TALEZA SENDO INSPECTOR
DA MESMA OBRA O Dor JOSE
CAETANO DANDRADE E CASTRO
GUARDA MOR DA CIDe DE TA-
VIRA.
ANNO DE 1794

Quanto à Igreja Matriz convirá dizer que a sua fundação remonta provavelmente ao séc. XIII, sendo depois, em 1518, construído sobre as suas ruínas o actual templo. Das suas origens resiste ainda uma velha porta lateral em estilo gótico e da edificação quinhentista assume especial interesse o seu belo pórtico renascentista, sobre o qual se destacam os bustos em baixo relevo de S. Pedro e de S. Paulo. Apresenta duas pilastras laterais ornadas de carrancas, dragões, machados, cabeças de anjo, tridentes, arcos e aljavas, todas dispostas numa sequência vertical. Tem três naves, separadas por arcos ogivais assentes em colunas de 1,70 m. de altura, com bases e capitéis oitavados, cujos elementos decorativos são hemisférios ou cordas, o que denota o seu estilo manuelino. O comprimento da igreja é de 24,5 m. e a altura é de 10,5 m., com cinco altares muito singelos, mas de grande beleza.
De salientar a abóbada artesoada, com bocetes estrelados, da capela da Senhora dos Mártires, e ainda uma grade de ferro seiscentista da capela do Santíssimo, e uma cruz processional de ferro decorada nas extremidades com as figuras de S. José, N. Senhora, S. João Evangelista e St.ª M.ª Madalena.
Esta igreja foi praticamente arrasada pelo sismo de 1755 e reedificada pelo Bispo D. Francisco Gomes do Avelar em 1795, encontrando-se hoje ainda aberta ao culto.
Por fim, a ermida de St.ª Rita, pequena e modesta, tem apenas um altar no qual assenta num nicho a imagem da Santa devendo-se igualmente a D. Francisco Gomes o seu restauro e protecção. Dista da Igreja Matriz cerca de 3 km., e desconhece-se a data da sua fundação.
Em suma, resta-nos aguardar que este exemplo da Associação para a Defesa do Património de Vila Real de St.º António, do respectivo município e da Junta de Freguesia de Cacela, venha a servir de estímulo às entidades oficiais do Algarve que, nomeadamente em Faro, não prestam o mínimo interesse ao valiosíssimo espólio histórico-cultural do seu próprio concelho.

(artigo publicado no semanário «Jornal do Algarve», n.º 1401 de 3-2-1984)

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

O Natal Algarvio perdeu tradições

José Carlos Vilhena Mesquita

Dificilmente se encontram hoje no Algarve os resquícios da festa natalícia genuinamente regional. Mesmo nos lugares mais recônditos da serra se esbateram as tradições, apesar de em toda a província não ser estranha a alegria que a verdadeira festa do lar traduz no espírito da família. No fundo, o Natal, quer seja minhoto, transmontano, beirão ou algarvio, contem um denominador comum: a celebração de uma festa religiosa com características muito intimas, na qual a família se reúne numa verdadeira apoteose dos seus continuadores – as crianças. O Natal é, por excelência, a festa da criança, o prolongamento da família, a personificação da unidade e da esperança no futuro.
Os presentes, com que no início da nossa Era os Reis Magos homenagearam o Deus-Menino, são hoje simbolicamente os mesmos – embora materialmente muito diferentes – e servem para traduzir a felicidade do lar, a paz e a amizade entre os homens. Por isso, Natal sem consoada, sem presépio nem prendas, não é Natal. E estas são, sem sombra para dúvidas, as características mais gerais da festa, que, cada vez mais, se tornou pertença de um património universal.
Verifica-se, porém, que as influências culturais resultantes de uma heterogeneidade geomorfológica de insondável ancestralidade marchetaram as celebrações religiosas com dispares manifestações populares, que, de algum modo, as diferenciavam, criando-lhes uma individualidade peculiar, e, por vezes, algo estranha e muito curiosa. Com o seu estudo se preocuparam os etnógrafos e antropólogos, mas para o seu progressivo esvaziamento parece estar a contribuir um hodierno progresso tecnológico, emanado duma sociedade consumista e alienante, que tende a estandardizar as próprias raízes culturais dos povos. O conservadorismo etnográfico, e a reserva do tradicional, assume-se hoje, numa perspectiva mais cosmopolita, como sintoma de atraso civilizacional. A mundialização do pinheiro escandinavo, e do Pai Natal normando, superaram, por observância da normalização comercial, os padrões culturais e as manifestações populares do Natal latino, esse sim, genuinamente cristão e profundamente visigótico. De tal forma assim é que o Natal secularizou-se para dar lugar a uma festa social, altamente vulgarizada, profundamente dependente duma indústria de mercado, que a força persuasora da publicidade e dos meios audiovisuais de comunicação tem vindo a banalizar.
Mesmo assim, apesar de todas as atrocidades etnográficas a que impavidamente temos vindo a assistir, o Natal é, e será sempre, a festa do lar, a apoteose da criança, um hino de paz que apela à fraternidade humana.

À procura do Natal algarvio

Tal como acima ficou explicitado, não existe hoje propriamente um Natal algarvio. Contudo, tempos houve em que as manifestações natalícias se transformavam em verdadeiras festas da comunidade, com ligeiras ou salientes afirmações da cultura local, que se transformavam em peculiares variações, de região para região, às vezes mesmo de concelho para concelho. Nas comunas rurais sempre se evidenciou um sentimento de solidariedade e de confraternização entre os seus membros, ao qual o espírito religioso emprestava uma forte consistência. Era uma festa deambulatória, se assim se lhe pode chamar, usando o lar e a igreja coma balizas duma intercomunicabilidade fraternal em que as dissensões e incompatibilidades entre as pessoas se perdoavam e desfaziam num amplexo, que o respectivo pároco se esforçava por estreitar. Na região algarvia, dum luminoso cenário azul, falta-lhe na noite de consoada a neve e o frio enregelante, capaz de reter as pessoas no aconchego da cálida lareira.
Antigamente, logo após a consoada, as famílias costumavam visitar-se na noite de Natal, tradição que até há bem pouco se conservava no interior algarvio. As crianças saíam com os pais a visitar os lares mais queridos, comendo deliciosos pastéis de mel e provando espirituosos vinhos. A bondosa inocência do serrenho algarvio impregnava a noite de Natal com um fraterno calor humano verdadeiramente inigualável.
Na esperança de encontrarmos a chama ardente desse passado cultural, deslocamo-nos até ao concelho de S. Brás de Alportel, perdido na serra algarvia, cujos lugarejos percorremos ao sabor de seculares caminhos. Falamos com alguns anciãos de diferentes sítios, com pessoas instruídas e até com alguns jovens. No avaliação deste ligeiro inquérito, verificámos que as tradições antigas já se perderam, que na sua grande maioria são irrecuperáveis, que a juventude pouco se interessa com o passado, que a televisão faz reter as pessoas em casa, que a carestia de vida exterminou quase por completo as visitas aos lares, e, em suma, que o Natal se tornou na noite em que se recebem os presentes. Concordam todos que se trata da festa da família, marcada pela ceia natalícia e pela convivência com as crianças. Não obstante, os jovens preferem mais a noite de Passagem de Ano do que a noite de Natal, pois que, não se sentindo obrigados a ficar em casa com a família, reúnem-se em grupo para saírem até ao litoral ou às cidades mais cosmopolitas onde dançam e bebem até ao raiar da manhã. Surgiu mesmo uma nova tradição: a de presenciar o nascer do sol do Ano Novo.
Todavia, algo permanece ainda vivo do tradicional Natal algarvio, para alguns tão longínquo, mas para outros ainda saudosamente presente, sobretudo na memória dos mais idosos. Acima de tudo mantêm-se a Ceia de Natal, alguma gastronomia tradicional, a reunião da família e o presépio. Porém, são já raros os cantadores populares das janeiras e reisadas, cujos grupos de cantares se designam por “charoleiros”.
O dia de Natal continua a ser insofismavelmente o dia da Família, cujos membros se reúnem na casa dos pais, na do filho mais velho ou na do irmão mais “remediado". Curiosamente, ainda ouvimos falar dos morgados, termo que servia para designar os indivíduos mais ricos, em cujos lares se faziam lautas ceias de vários pratos, imensa doçaria e animada festa, para a qual se convidava o pároco. Durante a noite jogavam-se às cartas, contavam-se histórias antigas, revivia-se a memória dos antepassados, cantavam-se velhas modinhas, mimoseavam-se os mais idosos, presenteavam-se as crianças, filhos e netos. Às vezes reuniam-se numa só casa dezenas de familiares e amigos para celebrarem em conjunto a fraternidade natalícia.
Para estes lados da serra algarvia, e nesta altura do ano, vêem-se numerosas viaturas de emigrantes que apressadamente regressam aos seus lares de origem, para confraternizarem e reunirem-se com a família. A necessidade de afirmação do seu sucesso económico leva-os, por vezes, a realizarem ruidosas festas a que não faltam os acostumados foguetes.
Nos lares mais tradicionais, e que possuem antigas lareiras, queimam-se grossos madeiros, que se colocam atrás do fogo. Reza a tradição local que os rapazes solteiros, para no ano que se avizinha serem bafejados pela sorte, têm que durante a noite visitar nove madeiros, comendo filhós e bebendo vinho novo. Mas hoje já poucas casas se podem dar a esse luxo de receber tanta gente e de ter uma lareira acesa durante todos esses dias. Aliás, para combater o trio existem modernos caloríferos, para além de que as novas construções (os modernos apartamentos) nem sempre possuem fogão nem sala. De qualquer modo, dizem que quando o madeiro não chega a consumir-se inteiramente ate ao Dia de Reis deve-se parti-lo em pequenos pedaços, que servem para nos dias de tempestade se voltar a acender, evitando-se assim que algum raio fulmine o lar. Além disso, o Natal é também a festa da lareira, ou do ancestral fogo sagrado, e quanto maior for o madeiro e mais tempo durar a sua lenta incineração, maior e mais saudável ficará a seara. Parece que também dá mau agoiro não comer bolotas ou castanhas nas vésperas de Natal.
O presépio é tradição inalterável. Toda a gente monta o presépio, que nas casas mais modernas figura, por vezes debaixo de um incaracterístico e profano “pinheirinho”, enfeitado com luminosos conjuntos eléctricos. Nos lares mais antigos, porém, entroniza-se o Menino, numa espécie de altar, ou peanha, que as moças casadoiras constroem sobre uma mesa, sobrepondo varias gavetas invertidas e de tamanhos sucessivamente menores, cobertas de alvas toalhas de linho, enfeitadas com lamparinas de azeite, frutos variados, bonecos alegóricos à quadra natalícia e as tradicionais searas. Convém esclarecer que estas searas, com um significado simbólico de ancestral origem, obtêm-se colocando em pequenos recipientes uma porção de cereais, geralmente trigo, cevada, lentilhas, grãos ou centeio, mergulhados em água, que passados alguns dias germinam e crescem com colorações de um verde amarelado e suave, semelhante aos das verdadeiras searas. No último degrau desta curiosíssima pirâmide figurava o Menino Jesus, emoldurado pela luz radiante das luminárias, em volta do qual se reuniam os mais jovens, para no Dia de Reis entoarem alguns cânticos bastante peculiares:

O meu menino Jesus
Está lá alto na tribuna;
Está pedindo a sua mãe,
Que nos dê muita fortuna.

Eu vim ver este presépio,
Qual será o meu destino,
Por ser noite de ano bom,
Venho cantar ao menino.

Hei-de dar ao menino
Quatro, cinco, nove, seis,
E uma camisinha fina
Pra vestir, Dia de Reis.

Hei-de dar ao menino
Um galão pra cintura;
Que ele também me há-de dar
Um lugar na sepultura.


A ceia de Natal

Junto ao presépio montava-se a mesa para a ceia, repleta de enchidos, presunto, carnes variadas, deliciosos bolos de mel, filhós, fatias douradas, brinhóis, “empanadilhas” de batata-doce, estrelas de figo, queijos de figo, bolos de amêndoa, dons-rodrigos, figos torrados, amêndoas, pinhões, avelãs e nozes, tudo isto acompanhado de espirituosos vinhos e da saborosa medronheira algarvia. Ao contrário do bacalhau minhoto, come-se no Algarve um anafado galo, escolhido meses antes, o qual o povo desde logo designa por Galo do Natal. Porém, nas casas mais opulentas há quem mate um porco, cuja carne e cuidadosamente repartida, salgada ou defumada, para que dure ate à Quaresma.
Durante a noite ou depois da consoada alguns grupos de rapazes vão cantando de casa em casa até à hora da Missa do Galo. Entretanto, os chefes das famílias mais gradas da freguesia dirigem-se à igreja da paróquia, onde apresentam as boas-festas ao pároco e distribuem esmolas aos pobres. À meia-noite celebra-se a Missa do Galo, cujo templo foi previamente decorado, pelas senhoras mais respeitáveis da freguesia, com flores, velas e um magnífico presépio. No fim da Missa o pároco dá o Menino-Jesus a beijar aos fiéis, regressando depois todos a casa, com os mais novos a cantarolar algumas quadras alusivas à época, quando não se reúnem à volta de um madeiro ardendo ao ar livre, cantando e dançando um qualquer improvisado corridinho.
No dia seguinte, come-se o que sobrou da noite da consoada, voltando-se a reunir a família. Porém a alegria e bastante menor. Nas localidades da faixa litoral, especialmente nos bairros de pescadores, come-se pelo Natal o célebre leitão, litão, ou “peixe-de-cor”, que não é mais do que um pequeno esqualo, conhecido por pata-roxa, também aqui designado por caneja. Este pequeno tubarão, para ser transformado numa iguaria do natal algarvio, precisa de ter no mínimo um metro de comprimento para poder pesar pouco mais de um kilo. Prepara-se “escalado”, ou seja, aberto ao meio, depois é distendido numas canas em forma de papagaio, e após salgado põe-se a secar à soleira da porta de casa durante uma semana. Guarda-se depois em sítio seco para ser consumido no Inverno, sobretudo na consoada por ser mais barato do que o bacalhau. Este costume ainda hoje se mantém em Olhão e Portimão.
Curiosamente, na serra repete-se pelo Carnaval uma ceia algo semelhante à do Natal, com filhós e o tal, indispensável, galo. Por isto se vê quão simples e pobre se mantém a gastronomia por estas bandas, onde a agricultura continua a ser rudimentar, mal dando para a sobrevivência da família.
Na passagem de ano, ou noite de Ano Novo, a festa é semelhante à do Natal, embora muito mais alegre, marchetada por frequentes libações e bailaricos, que os mais jovens organizam nas sociedades recreativas ou nos clubes populares. As charolas e o cantar das janeiras são as manifestações mais castiças do povo serrenho e as mais características desta época. No Dia de Reis era costume fazer-se o bolo-rei, cuja confecção difere muito daquela que já nos habituamos a consumir durante toda a quadra natalícia. As tradicionais janeiras ou reisadas cantavam-se pela última vez, encerrando-se, deste modo, o mais belo período festivo do ano.
Presentemente, nas cidades do litoral algarvio já não existem quaisquer manifestações populares que identifiquem aquilo a que poderíamos chamar um “Natal diferente”. As tradições esbateram-se ou perderam irrecuperavelmente o sentido peculiar do Natal.
Hoje, o Natal é de cada um, nunca para todos, mas cada vez será menos do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias» em 24-12-1985)

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Manuel Gomes Guerreiro, um Homem superior a quem o Algarve deve a fundação da sua Universidade

J. C. Vilhena Mesquita

Os amigos, verdadeiros e sinceros, nunca deveriam desaparecer do nosso convívio. Fazem-nos falta, como se deles dependêssemos para equilibrar o espírito e sossegar a alma. Mais nos dói ainda o coração quando temos de falar deles no passado, isto é, quando apenas deles resta uma saudosa recordação. É o caso do Professor Engenheiro Manuel Gomes Guerreiro, de quem guardo a memória da mais profunda gratidão. Pessoalmente devo-lhe uma amizade sincera, enriquecida por uma franca e recíproca admiração. A paixão pelo Algarve, e o estudo dos seus mais diversificados aspectos histórico-culturais, era o cimento conglomerador da nossa amizade. E foi por causa dessa minha afeição algarviista que dele recebi o convite para ingressar no corpo docente da Universidade do Algarve.
Acima de tudo o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi um Homem de muitos saberes, a quem tudo suscitava a curiosidade do conhecer e do entender. Cientista esforçado, preocupado e proficiente, para quem a biodiversidade constitui uma harmoniosa estrutura erguida ao longo de milénios, como se fosse uma teia de interdependências na qual o homem parece ser um agente regulador e vigilante. Porém, era sua convicção que a incompetência e a ignorância dos políticos, acrescidas dos interesses económicos, tendiam a ameaçar o frágil equilíbrio ecológico do nosso planeta.
Afligia-o a responsabilidade de saber que sucessivas gerações anteriores, com sofridos sacrifícios, nos tivessem legado um património ambiental e um equilíbrio ecológico que a todo o momento tem sido descurado, alterado e irremediavelmente delapidado. Só um cientista com a sua capacidade para sentir o que o rodeia, e com uma enorme carga emotiva para entender os poetas, é que era capaz de escrever ciência com o calor das palavras simples, usadas por gente simples para atravessar a essência das coisas. No seu cientificismo académico nunca subiu à torre de marfim para se isolar da realidade nem do pragmatismo funcional. Preferiu a verdade primeira, concreta e sensível das coisas, para só depois a perscrutar com o olhar profundo e rigoroso da ciência. O saber é um encadeamento de sucessivas experiências e de acumuláveis conhecimentos, no qual a ciência representa alguns elos, mas não completa toda a cadeia cognitiva. Tinha disso consciência, e, por isso, respeitava todos os caminhos, todas as percepções e contributos, que o pudessem ajudar a compreender a realidade e o porquê das coisas, na plena certeza de que a verdade absoluta não passa de uma quimera filosófica.
Quantas vezes o ouvi dizer que existia uma ciência popular que o mundo científico levianamente desprezava. Quantas vezes me disse que com o povo humilde da serra algarvia se aprende mais do que se ensina. Percebi-o e dei-lhe razão no primeiro confronto directo com a realidade. Existe um saber próprio nas entranhas das terras fragosas e altaneiras que subsistiu ao longo dos séculos, preservando métodos e técnicas de trabalho, costumes e condutas sociais, medicinas alternativas, músicas e cantares, provérbios e ladainhas, enfim um mundo de conhecimentos que não é do foro exclusivo do etnólogo, mas sim de todo o cientista que faça da avidez do conhecimento e da humildade da aprendizagem o que Gomes Guerreiro fez: um lema de vida.
Para além da feição de homem de ciência, o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi, sobretudo, um homem íntegro, que nunca permitiu que os seus legítimos interesses lhe pervertessem o carácter ou lhe desviassem o prumo da honra. Foi, como diria o poeta, um homem perpendicular. Que aprendeu, mercê de grandes e sofridas desilusões, a perceber a falsidade, a traição e a mesquinhez dos “homens pequenos”. A vara com que se mede o estro dum homem não comporta os centímetros da sua estatura nem a altivez das suas palavras, mas antes a sua grandeza de carácter e a dimensão das suas atitudes e comportamentos. Disse-me muitas vezes que a crise de consciência democrática e de valores ético-sociais do mundo actual está intimamente ligada ao egoísmo e à velada satisfação de apátridas interesses económicos. E à imitação da primeira metade deste século, o actual regime democrático poderá correr riscos de sobrevivência e de satisfação das massas se nada se fizer para combater o clientelismo e a partidocracia. Por outro lado, insistia que o melhor investimento no futuro e a principal obrigação do Estado moderno é a Educação e a formação intelectual. A institucionalização da Escola aberta à formação livre e independente de curriculuns académicos estatizados, que evitasse a simples “caça ao canudo” para a obtenção de um emprego, era também um dos seus desideratos. Mas como tantos outros sonhos que o Prof. Gomes Guerreiro sustentou ao longo da vida, muitos deles não se concretizaram. Contudo o mais importante realizou-se: a Universidade do Algarve, da qual foi com toda a justiça o seu primeiro Reitor. Tive nessa altura a minha quota parte, não só na angariação de assinaturas para o Dr. José Vitorino poder exigir na Assembleia da República a discussão da fundação da nossa Universidade, como também alguns anos depois ao ter sido convidado pelo Prof. Gomes Guerreiro para docente fundador desta casa a que muito me orgulho de pertencer.
Devo pois confessar, que pessoalmente sempre recebi do Prof. Gomes Guerreiro as maiores deferências, sendo uma delas a sua adesão à AJEA – Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, logo nos primeiros dias em que avancei com a sua criação.
Da sua biografia, que escrevi para o meu ainda inédito «Dicionário da Imprensa Algarvia», extracto para aqui os seguintes elementos:
Manuel Gomes Guerreiro, era filho de Manuel Guerreiro e de Maria Vitória Gomes, ambos naturais da freguesia de Querença. Nasceu a 20-1-1919 no sítio das Vargens, freguesia de Querença, dali se apartando dois anos depois em direcção a Faro, onde fez a instrução primária e se distinguiu no velho Liceu João de Deus. Em 1939 fez o exame de admissão ao Instituto Superior de Agronomia, onde concluiria, em 1943, o curso de engenheiro silvicultor. Em Alcobaça, sob a orientação do Prof. Vieira Natividade, elaborou a sua tese de licenciatura intitulada «O Problema do melhoramento Florestal do Género Populus», dado à estampa na Revista da Direcção Geral dos Serviços Florestais. A partir daí não parou com a investigação e os trabalhos publicados rondam hoje uma centena de títulos, os quais nos escusaremos de citar ao longo desta notícia por na sua grande maioria dizerem exclusivo respeito à sua especialidade científica.
Depois de ter passado pelo Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, ingressou, em 1944, no Quadro de Investigação da Estação de Experimentação Florestal do Sobreiro, organismo sediado em Alcobaça e de grande prestígio internacional, chefiado pelo Prof. Abílio Fernandes. Aí se dedicou, durante 12 anos, ao estudo dos problemas do Melhoramento Genético, particularmente de espécies lenhosas incluídas nos géneros Populus, Castanea, Quercus e Pinus. A esse período remontam vários trabalhos de investigação publicados em revistas nacionais e estrangeiras.
Convidado a ingressar no quadro docente do Instituto Superior de Agronomia, apresentou-se em 1957 a defender provas para Professor Agregado ascendendo mais tarde, por concurso, a Professor Extraordinário da Universidade Técnica de Lisboa, na qual se integrava aquele Instituto. Em ambos os casos apresentou dissertações específicas e obteve aprovação por unanimidade. Em 1959 aceitou o convite do director do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, sediado em Lourenço Marques (actual Maputo), para integrar o Quadro efectivo na qualidade de Investigador. Em 1963 foi-lhe conferida a posse do lugar de Presidente daquele Instituto. Naquela antiga colónia desempenhou também os cargos de Director da Sociedade de Estudos de Moçambique e do Museu de Álvaro de Castro, ambas instituições do maior prestígio científico.
No ano seguinte transferiu-se, em comissão de serviço, para o Instituto de Investigação Científica de Angola e daí para a Universidade de Luanda, onde, em 1968, viria a ser aprovado, por concurso público e unanimidade, para Professor Catedrático, através de provas que teve de vir realizar a Lisboa no Instituto Superior de Agronomia, perante um júri que incluía todo o corpo de professores catedráticos daquele Instituto. Regressando a Angola exerceu as funções de Director (por delegação do Reitor da Universidade de Luanda) dos cursos de Agronomia e de Silvicultura instalados em Nova Lisboa, actual Huambo, tendo aí leccionado várias disciplinas dos cursos de Engenharia Agrónoma e de Silvicultura. Em 1972, foi nomeada Vice-Reitor da Universidade de Luanda, onde se manteve até Janeiro de 1974, altura em que tomou posse, por convite do Ministro Veiga Simão, do lugar de vogal da Comissão Instaladora da Universidade de Évora. Em 1978 transferiu-se para a Universidade Nova de Lisboa, onde foi responsável pelo Departamento de Ciências do Ambiente, em virtude até das provas dadas como Secretário de Estado do Ambiente, no I Governo Constitucional, entre 1976 e 1977. Refira-se, por curiosidade, que só não ingressou no governo seguinte porque ao ser-lhe exigida a filiação no Partido Socialista recusou-se a fazê-lo, para garantir a liberdade e independência do poder executivo. Nos dois anos que se seguiram leccionou a disciplina de Ecologia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Quando em 1979 foi criada a Comissão Instaladora da Universidade do Algarve o Professor Manuel Gomes Guerreiro teve a honra de ter sido logo escolhido para a presidência daquele órgão, em que se manteve até 1982, ano em que lhe foi conferida a distinta posse de Reitor. Por razões diversas, que não importa agora esmiuçar, demitiu-se em 1986 daquele cargo, vindo a jubilar-se como Professor em Janeiro de 1989. Entre 1992 e 1994 aceitou o convite para exercer as funções de Vice-Reitor da Universidade Internacional, cargo que abandonou por decisão própria.
A sua vastíssima bibliografia reparte-se por domínios tão diversos como os Sistemas Agroflorestais, a Ecologia, e o Ensino Universitário. Para além de ter sido um consagrado cientista, não podemos deixar de salientar que ultimamente se tinha também revelado como um analista do binómio Desenvolvimento/Ambiente, usando perspectivas de observação e de enfoque teórico que poderão considerar-se muito próximas dos filósofos pós-modernistas que, de Toffler a Alghore, se debateram com os problemas de crescimento da industrialização, da poluição e da destruição do meio-ambiente.
Acompanhei-o até quase aos últimos dias de vida. E posso afirmar que não obstante os seus oitenta e um anos de idade, aparentava bom estado de saúde pelo que nada fazia prever que sentindo-se ligeiramente indisposto desse entrada num hospital de Lisboa no dia 9 de Abril, em cuja madrugada acabaria por falecer vítima de acidente cardio-vascular. O seu funeral realizou-se no dia seguinte, partindo da Igreja de São João de Deus, em Lisboa, para o cemitério da freguesia de Querença, onde foi celebrada missa de corpo presente pelo Padre Dr. Júlio Tropa Mendes, perante numerosa assistência constituída pela maioria do corpo docente da Universidade do Algarve, deputados, autarcas, entidades oficiais e governativas da região. Nessa tarde de Abril os céus fecharam-se para sempre, deixando para detrás, no altaneiro cemitério de Querença, o corpo de um amigo, cuja memória de gratidão sempre me acompanhará até ao resto dos meus dias.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Simone de Beauvoir no Algarve - um episódio nas relações luso-francesas


José Carlos Vilhena Mesquita

Há cerca de vinte e sete anos atrás publiquei no vespertino lisboeta «Diário de Notícias» um artigo em que recordava uma controversa visita de Simone de Beauvoir ao nosso país, a qual teve como particular ponto de referência a província do Algarve, e em especial a cidade de Faro. Nessa altura, o artigo pareceu-me oportuno e, talvez por isso, se justifique o bom acolhimento que recebeu da parte da comunidade literária. Estava, porém, longe de supor que a escritora francesa lhe sobrevivesse tão pouco tempo. Talvez por essa infeliz circunstância se possa explicar o facto da Biblioteca Nacional – numa exposição bibliográfica realizada logo após o desaparecimento da escritora – ter apresentado numa das suas vitrinas o artigo que pouco tempo antes lhe dedicara.
Tomando em consideração os anos decorridos e o interesse de que se reveste o próprio tema para a história cultural do Algarve, achei que deveria exumar o artigo das páginas do jornal para assim perpetuar a memória de uma das mais célebres escritoras da cultura europeia contemporânea. As relações culturais luso-francesas, que tantas tradições tiveram no Algarve na década de quarenta, constituem, por outro lado, um dos objectivos fundamentais deste despretensioso artigo.
Longe vai da memória dos presentes a meteórica passagem pelo Algarve da escritora francesa Simone de Beauvoir, nascida em Paris a 9-1-1908 e falecida na mesma cidade a 14-4-1986.
Ocorreu este feliz episódio em Março de 1945, por força de um convite que lhe fora oficialmente enviado pelo Instituto Francês em Portugal e pela sua delegação em Faro. Raras referências se tem feito a este acontecimento e a única excepção que conheço pertence ao Prof. Doutor João Medina, que no seu inteligente livro Salazar e França (Lisboa, Ed. Ática, 1977), lhe dedicou um capítulo intitulado «Simone de Beauvoir no Algarve» (Idem, pp. 144-l46), o qual aparece precedido duma extensa antologia retirada das obras A Força das Coisas e de Os Mandarins. Num estilo biográfico-memoralista, Simone de Beauvoir recorda a amarga impressão que lhe causou o clima Salazarista e a consequente situação económico-social, francamente desfavorável ao proletariado rural e fabril, materializada na fossilização dos conceitos de liberdade de expressão e de associação política. Um país pobre com sete milhões de habitantes, onde setenta mil comiam demasiado, enquanto os restantes passavam fome - afirmava e repetia Simone de Beauvoir nos seus livros. Sujo ocaso (“Sale hasard”) desabara sobre Portugal – parece ser a sua conclusão relativamente ao Estado Novo. Tamanhas “heresias” e “vitupérios” valeram-lhe a distinção de ver os seus livros proibidos no mercado livreiro português.

Familiares no Algarve

A principal razão da sua vinda ao nosso país prendia-se a motivações de ordem familiar, interligada com factores de ordem cultural. Efectivamente, estamos em crer que o convite formulado pelo Instituto Francês fora sugerido pelo seu cunhado Lionel de Roulet, casado com Hélène de Beauvoir, ambos refugiados no nosso país pouco antes do colapso militar da França, em 1939. Colocado em Lisboa, como membro directivo do referido Instituto, em breve Lionel de Roulet se transferiria para o Algarve, procurando na amenidade do clima o eficaz tratamento para uma, presumível, tuberculose óssea. Certamente não seria essa a sua doença, mas o certo é que igualmente para aqui o atraíam a mãe, Hélène Laure de Coninck, e o padrasto, o pintor Carlos Porfírio, intelectual da mais fina têmpera, antigo companheiro e amigo de Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor e tantos outros, que em 1917 aparecerá distinguido com as honras de Director e Fundador da revista Portugal Futurista – um dos marcos miliários do movimento modernista português.
Com efeito, Carlos Porfírio[1] numa das suas estadias em Paris consorciara-se, em segundas núpcias com Hélène Laure de Coninck, mãe de dois filhos: Lionel e Chantal. Esta senhora, de esmerada cultura e delicada educação, que era irmã da mãe de Simone de Beauvoir[2], viria a falecer ao Faro, em Dezembro de 1964.
Lionel de Roulet era um homem culto – suponho que fora aluno de Jean-Paul Sartre no Liceu do Havre e do mestre do Existencialismo traduzira o conto Estátuas Volantes, dado à estampa pela Editorial Inquérito. À frente da delegação do Instituto Francês, em Faro, viria a relacionar-se com os mais proeminentes intelectuais algarvios desse tempo, na sua maioria republicanos, de índole pacifista e contemporizadora, que formalmente se declaravam oposicionistas ao regime de Salazar.

O Círculo Cultural de Camões em Faro.

Decorria, então, a época áurea da Comemoração dos Centenários e com ela nasceu a ideia de fundarem um organismo cultural onde se pudessem reunir e implementar na comunidade farense o apreço pelas Humanidades e pela Ciência em geral.[3]
Deram-lhe o nome de Círculo Cultural de Camões e sediaram-se na Praça Alexandre Herculano, nos baixos do “Palácio das Lágrimas”, curiosa designação cuja origem não vale a pena aqui explicar.[4]
Rapidamente se elaboraram os Estatutos, que foram aprovados pelas entidades oficiais em 1940. As actividades culturais iniciaram-se nos finais desse ano na sede do Instituto Francês. A situação financeira do Círculo dependia dum subsídio da Junta de Província, que inclusivamente lhes prometera cinco salas no edifício que então se construía no chamado Largo da Pontinha, hoje designado por Largo da Liberdade. Esta situação de dependência, aliada a outros factores de carácter particular, ditou mais tarde a sua extinção, de cujas cinzas nasceria em 1943 o actual Círculo Cultural do Algarve. Vem, contudo, a talho de foice revelar que António Ferro fizera sigilosas reuniões numa conhecida estalagem próxima de Faro com intelectuais afectos ao regime, propondo a conversão daquele organismo aos ideais vigentes. Felizmente, nem todos viram no Círculo Camões o perigo “reviralhista” que se lhe pretendeu atribuir, recusando-se, portanto, a tomar parte em quaisquer manobras de boicote ou de apropriação ilegal.

Patrocínio Cultural da França.

Apesar de todas as dificuldades o Círculo Camões promoveu ou participou em várias iniciativas culturais que marcaram a época e não deixaram no olvido a sua, ainda que efémera, existência. Assim, registe-se a vinda ao Algarve do célebre coro infantil «La Manécanterie des Petits Chanteurs à la Croix de Bois», dirigidos pelo Abade Maillet e patrocinados pelo Instituto Francês. O grupo coral chegou a Faro a 29-12-1940 e no dia imediato realizou um concerto cujo produto revertia a favor dos pobres. A recepção fez-se com grande aparato na Câmara Municipal, onde discursaram os Drs. Justino de Bivar Weinholtz, Joaquim Magalhães, Lionel de Roulet, Abade Maillet e Francisco Guerreiro Barros. Para anunciar o espectáculo, que decorre no Cine-Teatro Farense, foram afixados interessantes cartazes da autoria de Hélène de Beauvoir e do artista algarvio Tóssan.[5] O êxito foi retumbante e as instalações do Teatro foram insuficientes para conter as largas centenas de espectadores.[6]
Outras iniciativas se seguiram, todas elas organizadas ou patrocinadas pelo Instituto Francês, visto que o Círculo Camões era uma espécie de sua filial.
Assim, decorreu entre 1941 e 1943 nas instalações do Círculo Camões vários cursos de línguas vivas, francês, inglês e alemão, embora suponha que este último nunca chegou a funcionar. Em Março de 1941, o crítico e professor de arte, Myron Malkiel Jirmounsky, pronunciou uma interessante conferência, no salão nobre da Câmara Municipal, subordinada ao tema «O Problema dos Primitivos Portugueses». No mesmo ano, Lionel de Roulet orientou no Círculo um curso de Literatura Francesa. A 14-11-1941 visitou o Algarve o ministro francês François Gentil, demorando-se nesta província três dias, tendo o Círculo Camões, de parceria com o Instituto, promovido algumas conferências daquele político, assim como um banquete de despedida nas instalações do Clube Farense. Por intermédio do mesmo ministro deslocou-se depois a Faro, em 9-12-1941, a pianista Reine Gianoli, aproveitando o Círculo para realizar alguns concertos pelo Algarve. Em Janeiro de 1942, Armand Guibert – conhecido tradutor de Fernando Pessoa – pronunciou uma palestra sob o patrocínio do Instituto Francês. Em Março, Lionel de Roulet inicia uma série de conferências sobre literatura francesa no séc. XIX. Em Maio, Bernard Michelin dava um concerto no Clube Farense, etc, etc. Não vale a pena continuar a enunciar as iniciativas conjuntas do Instituto Francês e do Círculo Cultural Camões, pois tornar-se-ia num vasto e enfastiante rol de concertos, conferências, exposições, cursos intensivos e outras manifestações culturais, que em Faro obtiveram assinalável êxito e muito contribuíram para o desenvolvimento cultural da região.


A revista «AFINIDADES»


Para além de tudo quanto ficou dito, merece especial destaque a publicação da revista «Afinidades», de cultura luso-francesa, que saiu em Setembro de 1942 sob a direcção do médico e musicólogo Dr. Francisco Fernandes Lopes e tendo como chefe da redacção Lionel de Roulet.[7]
A imprensa local acolheu com satisfação a nova revista[8] (de que se publicaram vinte números até Novembro de 1946), na qual colaboraram, entre outros, Joaquim Magalhães, Fernandes Lopes, Lionel de Roulet, Cândido Guerreiro, Abel Salazar, Ardré Gide, Moisés Amzalak, Paul Teyssier, Adolfo Casais Monteiro, Mário Dionísio, Saint-Exupéry, Albert Camus, Joel Serrão, Manuel da Fonseca, André Malraux, Jaime Brasil, Tomás Kim e Simone de Bauvoir, que assina um trabalho intitulado «D'un Novel Humanisme Français», que suponho ser o texto da sua conferência pronunciada em Faro. A capa foi desenhada por Hélène de Beauvoir e apresentava no centro uma vinheta com dois vultos medievais abraçados, como símbolo das afinidades existentes entre as culturas lusa e francesa. Aliás, desta talentosa pintora encontram-se em Faro, na sede da Alliance Française, dois painéis alegóricos, representando um a geografia literária da França e o outro a sinopse da história algarvia no contexto da História de Portugal. Em Fevereiro de 1943, Hélène de Beauvoir realizou no Secretariado de Propaganda Nacional uma exposição de pintura com 50 quadros, que mereceu da crítica grandes elogios.

Simone de Beauvoir no Algarve.

Como já disse, a escritora Simone de Bauvoir esteve na capital algarvia em Março de 1945, demorando-se no nosso país cerca de vinte dias. Dessa visita resultaram algumas das impressões que inspiraram não só os seus livros A Força das Coisas e Os Mandarins, como ainda uma série de artigos, publicados sob pseudónimo, no jornal «Le Combat»[9], os quais provocaram grande celeuma nos meios políticos e nos órgãos de informação nacional.
A sua conferência, pronunciada a 9 de Março pelas 21,30 na sede do Instituto Francês em Faro[10], obteve da imprensa local elogiosas referências. Vejamos um exemplo:
«Na Delegação do Instituto Francês em Faro, sob a presidência do Sr. Governador Civil (Dr. Antero Cabral) ladeado pelas autoridades locais, realizou a sua anunciada conferência sobre “A Vida Literária em França, da Ocupação à Libertação”, a distinta professora e publicista Simone de Beauvoir que foi apresentada pelo Prof. Lionel de Roulet.
A conferente que durante duas horas teve o condão de prender a atenção do auditório, sem o fatigar, fez uma brilhante prelecção e conseguiu comover e emocionar o seu numeroso auditório. O Sr. Governador Civil, agradecendo, extraiu o significado da lição de patriotismo dada pela França e posta em relevo pela conferente.
No final houve uma recepção íntima nas dependências da Pensão Sota, sendo exibidos bailados regionais algarvios e trocados afectuosos brindes».[11]
O clima hostil aos ideais democráticos que se vivia no país deve ter, pelo menos parcialmente, comedido a agressividade política da sua palestra. Simone de Beauvoir vinha distinguida como primeira enviada intelectual duma França renovada e livre, e apesar de se confrontar com uma audiência aburguesada, acomodada e protectora do Estado Novo, nem por isso deixou de atacar a ferocidade nazi e o demoníaco holocausto perpetrado nos campos de concentração:
«... não me amedrontava falar; mas havia uma distância, que por vezes me desencorajava, entre a experiência que evocava e o público. Este vinha escutar-me por ociosidade, snobismo e frequentemente, com malevolência: muitos auditores conservavam total afeição pelo fascismo; a sala manteve-se gelada; ninguém queria acreditar nos campos, nas execuções e nas torturas; quando me levantei, o agente consular disse-me: Pois bem, agradeço-lhe por ter contado estas coisas, que ignorávamos completamente».[12]
A ideia que Simone de Beauvoir levou do nosso país não foi a mais favorável e embora se referisse ao Algarve com algum pictorismo, o certo é que também não lhe escaparam os pormenores de desolação e pobreza que então grassavam nas classes rurais, por serem as mais desprotegidas:
«...Vi uma terra de cores africanas, florida de mimosas e eriçada de agaves, falésias abruptas chocando com um oceano tranquilizado pela doçura do céu, aldeias caiadas de branco, igrejas de um barroco mais circunspecto que o de Espanha; (...) De longe a longe avistava grupos de homens e mulheres curvados para o solo, que sachavam num movimento ritmado: vermelhas, azuis, amarelas, laranja, as roupas brilhavam ao sol. Mas já não me deixava iludir; havia uma palavra que começava a medir o peso: a fome. Sob os tecidos coloridos, aquelas pessoas tinham fome; andavam descalças, cara fechada; e nas aldeias falsamente graciosas, reparei nos seus olhares hebetados; debaixo do sol esmagador, queimava-os um desespero selvagem».[13]
Durante a sua estadia percorreu o país de norte a sul. Gostou do Minho, apreciou os nossos vinhos, o artesanato, os costumes etnográficos, as feiras, o mar e a gastronomia. Mas por todo o lado o seu olhar forasteiro tecia impiedosas críticas à frugalidade em que viviam as camadas populares. Impressionaram-na os inúmeros pedintes, na sua maioria crianças que apresentavam sinais de evidente desnutrição. «O povo era deliberadamente mantido na porcaria e na ignorância»[14], conclui Simone de Beauvoir.
De qualquer modo, a visita foi compensadora para a escritora francesa, mercê da compensação financeira de que foi dotada a sua deslocação, podendo assim dar-se ao luxo de adquirir imenso vestuário, algum calçado e saborear pitéus, que em França o clima de guerra tornara de todo impensáveis.
Ao longo das suas memórias denota não só um acerado espírito crítico – por vezes injusto e até exagerado – como também um intrínseco burguesismo (chegou inclusivamente a comprar um casaco de peles, sapatos de fina pelica e meias de vidro), atitude que contrariava as suas ideias políticas, mas que se devem desculpar a uma mulher que, apesar de tudo, não gostava que lhe chamassem vaidosa.
Os tempos passaram e com eles despontou o reconhecimento público do seu inigualável talento literário, demonstrado pela sua numerosa lista de obras, que lhe granjearam desafogados meios de sobrevivência, um carisma e uma invejável celebridade. Após o desaparecimento de Jean-Paul Sartre (seu marido à hora da morte), viveu despreocupadamente os anos que ainda lhe restavam, de certo modo já afastada daquela atribulada e sensacional vida cultural, que pela sua obra deixou vincadas marcas na intelectualidade francesa e nas gerações europeias contemporâneas.
Mas no remanso da sua acolhedora residência, preenchida de fabulosas recordações dum passado a todos os títulos brilhante, certamente já não se lembrava daquela auspiciosa primavera de 1945, nem daquele deslumbrante Algarve de «falésias abruptas chocando com um oceano tranquilizado pela doçura do céu». E o Algarve esta hoje tão diferente... A vida passa... mas ficam as recordações.


NOTAS

[1] Pintor e cineasta, Carlos Filipe Porfírio nasceu em Faro a 29-3-1895 e faleceu nesta cidade a 25-11-1970. Herdou os seus dotes de artista do pai, José Filipe Porfírio (pintor, decorador e conservador do Teatro Lethes), estudou nas Belas Artes e conviveu de perto com os homens do «Orpheu». Em 1917 surge na direcção da revista «Portugal Futurista», cuja edição de 10.000 exemplares foi em grande parte apreendida pela polícia. Viajou pela Europa e fixou-se em Paris, onde estudou com artistas famosos. Em 1918 realizou em Faro um exposição de parceria com Jorge Barradas, Lyster Franco e Raul Carneiro. Foi o mentor da página futurista do jornal farense «O Heraldo», dirigido pelo pintor Lyster Franco. No salão da «Ilustração Portuguesa» realizou ao 3-2-1923 uma exposição de assinalável êxito. Com o enteado Lionel de Roulet fundou o Círculo Cultural Camões, em Faro, e já em Lisboa notabilizar-se-ia como cineasta ao realizar os filmes Um Grito na Noite, que obteve grande sucesso, e Sonho de Amor. Entretanto em 1940, por ocasião das Comemorações dos Centenários, promoveu a memorável Exposição Regional Algarvia. Mas a sua obra imortal foi, sem sombra de dúvida, o excelente Museu Etnográfico por ele instituído em Faro e para o qual pintou excelentes quadros retratando as lendas algarvias, os costumes populares e as festas religiosas. Acometido por grave enfermidade na garganta, passou os últimos anos de vida completamente afónico e impossibilitado de comunicar com os seus inúmeros amigos e admiradores. Faleceu vítima de um enfarte do miocárdio.

[2] Não tenho a certeza desta filiação, muito embora o Prof. João Medina, baseado em informações cedidas pelo Dr. Joaquim Magalhães, a dê como certa e verosímil.

[3] Neste centro de cooperação intelectual e de formação cultural pretendiam-se atingir objectivos à escala regional, nacional e universal:
«Sur le plan régional il s'appliquera à mieux faire connaître tout ce qui concerne l'Algarve, tous les traits qui font sa personnalité géographique et historique. Il créera une ambiance favorable capable de stimuler les créateurs ou les chercheurs qui se trouvent dans cette province. Il pourra même avoir un certain rôle social (...)
Sur le plan national, il s'agira surtout de faire connaître à la province les personnalités qui font la gloire de la science des lettres ou des arts portugais, au moyen des conférences, d'expositions, de concerts, etc...
Le plan de l'information en général concerne toutes les questions d'ordre culturel. Mais sont spécialement prévus: des cours de vulgarisation scientifique sur le thème: "Histoire des découvertes qui firent le monde modern; lumière électrique, photographie, T.S.F., aviation, etc" et des conférences destinées à procurer une représentation de l'Univers conforme aux derniers données de la science: astronomie, physique, etc...»
Institut Français au Portugal, Le Cercle Culturel Camoens Faro, s/l, Ed. du Bulletin d'Etudes Portugaises, 1941, p. 2.

[4] Aproveito para explicar agora essa origem. Segundo reza a tradição, naquela casa viveu o compositor Militão Coelho que sendo um musicólogo verdadeiramente genial, era também uma pessoa muito livre e atreita a compromissos ou a qualquer tipo de sujeição. Por vezes ficava dias sem sair á rua, outras vezes saía de Faro e só aparecia passados vários meses. Ora aconteceu que em determinada altura ficou noivo de uma senhora de Faro, de boas famílias, com a qual casou talvez um pouco precipitadamente. Pelo seu feitio, livre e distraído, parece que não fazia a senhora muito feliz. Até que um dia, sem que nada o fizesse prever, foi para Lisboa e nunca mais voltou para a sua casa de Faro. Numa cidade provinciana este exemplo de abandono do lar conjugal causou o maior escândalo. Não sei se com verdade ou se por pena da esposa preterida, o certo é que o povo deu em chamar àquela belíssima residência no antigo Largo da Alagoa, como o “Palácio das Lágrimas”, pois que supostamente a senhora passava os seus dias a carpir a chamada “viuvez de vivo”.

[5] O cartaz de Hélène de Beauvoir apresentava ao centro uma criança a cantar, ladeada por três anjos e três jovens tambores, enquanto o de Tóssan mostrava uma criança ajoelhada com a seguinte legenda: «Meu Deus faz com que o papá me compre um bilhete para ir ouvir os pequenos cantores».

[6] Vieram a Faro camionetas de Loulé (duas), Olhão e São Braz de Alportel. O espectáculo que contou com a presença do bispo D. Marcelino Franco, foi apresentado pelo Dr. Mário Lyster Franco, que pronunciou um brilhante discurso, e a organização esteve a cargo do Dr. Joaquim Magalhães, Aleixo da Cunha, Carlos Porfírio e Lionel de Roulet.

[7] Vide José Carlos Vilhena Mesquita, História da Imprensa do Algarve, 2 vols. , Faro, Ed. da Comissão de Coordenação da Região do Algarve, 1988-1989, vol. I, pp. 102-104.

[8] «Em Faro, capital do sul, acaba de nascer uma revista que se propõe exprimir as afinidades profundas de Portugal e da França. E, por isso, escolheu o título “Afinidades”. Entre outras actividades propõe-se esta revista manter o público ao corrente dos mais recentes movimentos literários, artísticos e científicos franceses e relacionar oportunamente o passado cultural comum aos dois países. Nas grandes crises espirituais que periodicamente nos arrancam à nossa quietude, habituamo-nos a voltar-nos para a França (...) Qual será a contribuição francesa para o novo humanismo em formação ? É este o inquérito que “Afinidades” tem como próximo e primacial objectivo.
E é neste espírito que trabalha um grupo de colaboradores portugueses e franceses. O Dr. Fernandes Lopes, que dirige a revista, é um notável exemplo destes homens, cuja cultura é tão vasta que abrange as riquezas espirituais de duas nações. Este primeiro número é um êxito completo.
Sob a capa cor de creme, ornada de uma vinheta de estilo medieval, símbolo da amizade luso-francesa, encontramos uma apresentação agradável e variada com belas gravuras, sugestivas reproduções e 96 páginas de texto...»
In «Correio do Sul», semanário de Faro, n.º 1333 de 1-11-1942.

[9] Cf. A Força das Coisas, Amadora, Livraria Bertrand, 1978, p. 41.

[10] Vide «Correio do Sul», n.º 1451 de 8-3-1945.

[11] In «O Algarve», de 25-3-1945.

[12] In A Força das Coisas, op. cit., pp. 39-40.

[13] In Idem, p. 38.

[14] In Idem, p. 40.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Uma Histórias das Arábias


J. C. Vilhena Mesquita

Com a chancela da AJEA Edições publicou-se há anos atrás um livro com o sugestivo título de Zunzuns 26 Histórias das Arábias. Trata-se de uma interessantíssima compilação de pequenas crónicas, ordenadas alfabeticamente, sobre os temas mais díspares e em larga medida relacionados com o desempenho profissional do autor por terras do Oriente. Por estranho que pareça este é o seu livro de estreia. Mas por humildade e modéstia preferiu o anonimato, usando o pseudónimo de Hamin Viei. Resguarda-se, desse modo, o talento de um algarvio, natural de Aljezur, cuja formação em engenharia o levaria a desenvolver intensa actividade por terras de África, nas areias do Sahara e nos míticos recônditos do Médio Oriente.
O livro compõe-se de vinte e seis pequenas histórias decorridas em várias partes do mundo e termina com um estudo, mais especulativo do que científico, sobre as origens de Aljezur, estabelecendo para o efeito algumas comparações da sua toponímia com possíveis étimos da língua árabe. Mas o que torna este livro verdadeiramente imperdível são as “Histórias das Arábias”, um autêntico acepipe literário, sobretudo para os apreciadores do humorismo britânico, visto ser inspiradamente britânico o estilo literário de que estão imbuídas essas brevíssimas crónicas. E no Algarve não conheço ninguém com quem se possa comparar (senão talvez em parte com Carlos Abreu), pois que se trata de uma espécie de apontamentos de viagens, temperados num humor muito subtil e aceradamente crítico. Por outro lado, as comparações culturais e os remoques políticos, além de espirituosos são duma clarividência notável.
A forma como Hamin Viei brinca com os absurdos babélicos, as confusões fonéticas e os equívocos linguísticos, ou com os dilemas políticos duma África dilacerada pelo tribalismo, com os choques culturais entre europeus e árabes, com o racismo e a pobreza, ou a emigração e a exploração humana, merece do leitor uma reflexão atenta e criteriosa sobre problemas de tão difícil, senão impossível, solução. Estas histórias que o autor ordenou de uma forma temática, começaram por ser apenas anotações ou breves memorandos, que foi exarando a esmo numa espécie de Diário de viagem. Tinham não só um forte exotismo literário como também um intenso brilho de humor e de crítica social. Ouçamos as suas justificações: «As histórias desta edição eram, a princípio, notas escritas apensas ao diário da minha missão no Sahara. Li-as e reli-as, mas cedo descobri que diziam respeito a outra realidade pela qual muitos se começaram a interessar. (...) Ao trabalhar as minhas notas, senti a necessidade de as ordenar por forma agradável e suave. A forma abecedaria como elas são apresentadas, nasceu por mero acaso. Os títulos foram criados a partir dos textos. Os espelhos de cada história foram uma necessidade criada para comparação de realidades. Outros retoques vieram a seguir... ao virar uma página... (uma página de vida...).»
Os amigos mais próximos partilharam da leitura desses apontamentos de viagens e ficaram surpreendidos, não só com o estilo irónico como também com a sua qualidade literária. Em geral a opinião convergia para o aconselhamento da sua edição em livro. Urgia partilhar com o público as sardónicas mensagens que o autor dirigia à navegação política europeia, sobre as relações internacionais com o Norte de África e os países da bacia mediterrânica, aqui tão perto, mas infelizmente tão descuradamente ignorados. Alguns desses amigos foram mais convincentes do que outros. Por isso mereceram ser destacados no livro e merecem também ser aqui referenciados. São eles o Dr. Joaquim José Magalhães dos Santos, o Eng.º Carlos Abreu (já falecido), o artista Tolentino de Lagos e a Dr.ª Ester Fernandes, que prefacia a obra com palavras de apreço e simpatia. Deste grupo importa salientar Tolentino de Lagos que assina os magníficos desenhos que acompanham o livro. E que talento e graça irradia daqueles bonecos que emprestam um toque “cartoonístico” às humoradas crónicas de Hamim Viei.
Para os leitores interessados devo acrescentar que além do estilo “very british” do autor, do seu imperdível sarcasmo político, importa também realçar os conhecimentos que se podem extrair deste livro para comparar a cultura árabe com a ocidental, concluindo-se que as diferenças não são tão acentuadas que justifiquem a separação, o alheamento e até o ódio com que nos encaramos mutuamente. O feitiço do deserto, a sua quietude e placidez, deixa fortes marcas no espírito civilizadamente agitado e stressante do homem europeu. Ali a vida parece ter o ritmo sideral das estrelas, submetida a um sol impiedoso onde se esquentam ideias, fervilham crenças e se luta arduamente pela sobrevivência. Fermenta naquele mítico deserto um mundo de vida, por vezes imperceptível e geralmente incompatível com certas mentalidades. E, porém, foi ali que Hamin Viei se sentiu mais perto de Deus, numa ascese existencial, que lhe revelou o intrínseco valor das coisas simples da vida, sentindo diferenças, barreiras, desigualdades, abusos e injustiças, que espelham a ambição dos homens e os defeitos das civilizações erguidas sob o estandarte dum dogmatismo religioso ou duma bandeira ideológica desumanizante.
As reflexões que a paz do deserto suscita no cidadão europeu, deformado pelas exigências da produtividade capitalista, estão bem patentes neste livro, cujo autor soube construir página a página com laivos de humor, graça e ironia. Certamente algumas delas motivariam um sorriso amarelo aos nossos políticos envolvidos nas relações internacionais com o Médio Oriente. Só um espírito prático e muito perspicaz como o de Hamin Viei seria capaz de retratar de forma tão mordaz e clarividente os choques culturais motivados pela chamada cooperação ocidental. São os interesses do petróleo e dos grandes empreendimentos de engenharia civil que movem a atracção ocidental e levam a mão-de-obra especializada para as profundezas do deserto sahariano.
O autor deste livro é um engenheiro de conceituada experiência técnica, que esteve ao serviço de várias empresas multinacionais responsáveis pela construção de equipamentos sociais de grande envergadura. A solidão experimentada nas areias saharianas ficou bem patente neste livro, mas a sua inspiração literária prende-se com as saudades do seu Algarve distante. Por isso não prescindo, para concluir, de transcrever as palavras com que o autor abre este livro, as quais me parecem lapidares para explicarem o feitiço do deserto e a profilaxia mental de que, por vezes, se pode revestir a própria solidão: «Os ruídos da Civilização nunca me deixaram pensar; mas longe deles, no coração do Sahara, onde a única realidade era eu e o Deserto... (eu, senhor do Mundo, e o Mundo de mim) vim a descobrir, nas profundezas da sua solidão e quietude, quanto útil ele me foi. Pena é que outros não possam lá chegar...»

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

A sublime expressão do amor no doloroso sofrimento da saudade


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é o paraíso da inteligência e das ideias, é a suprema elevação do pensamento, um alfobre de concepções quiméricas e de altruística entrega aos valores humanísticos do amor e da amizade. A poesia é também uma seara de emoções e de sentimentos, de cujo pão se alimentam sonhos de liberdade e de solidariedade, que se consubstanciam no afecto e na lealdade, no desvelo e na paixão. A poesia é um ascético templo de reflexão e desinteressada meditação sobre o fogo do amor, a luz do pensamento, a chama da vida e o imperscrutável mistério da morte. O poeta é um singular actor, um privilegiado observador e um genial pintor, que no tablado da vida escreve com a pena molhada em lágrimas poemas de amor e de sofrimento, passando indelevelmente para o etéreo, mas deixando atrás de si um rasto de ideias e de emoções, de que outros comungarão como uma terapia de vida ou um lugar de resistência.
A poesia de Telmoro – pseudónimo de Telmo Bernardes da Silva – é um oráculo erguido ao amor, à liberdade e ao livre-arbítrio, à beleza das coisas simples da vida, à amizade, ao amor e à paixão. O cândido lirismo de Telmoro, orvalhado e puro, rompe, despedaça e perfura a urdidura subtil dos enganos e dos prazeres fáceis. Os seus versos elevam-se acima da futilidade das rotinas, com a pujança e a expressiva naturalidade das alianças que se estabelecem entre a forma e a essência, entre o significado e o significante.
Enquanto, nos séculos precedentes, a poesia era o orgulho das nações civilizadas, o enlevo das elites dirigentes e o alimento espiritual do povo, de cujo sangue descenderam muitos dos vates que melhor ilustram as galerias da cultura europeia – hoje, todos sabemos que a poesia e as artes espirituais que transluzem a alma duma nação, valem muito pouco porque muito pouco valem também os povos letrados que ergueram a bandeira do espírito acima do tenebroso pendão do materialismo financeiro.
O imperialismo espiritual que modelou a alma das nações orientais e fez da poesia uma forma de orar a Deus, acha-se hoje ultrapassado, atrasado e empobrecido, exaurido nas suas milenares riquezas, outrora erguidas sobre os valores da espiritualidade humana. O altar das nações ergue-se sob a alta finança, sem rosto nem pátria, que tudo submete e destrói em nome do lucro, transformando os supremos sentimentos da fraternidade e da solidariedade em abjectos egoísmos e velados interesses de domínio, de submissão e de neo-servilismo. O que vemos hoje no templo da humanidade não é a glorificação de um Deus misericordioso, tolerante e compreensivo – o que vemos hoje elevado ao culto das nações desenvolvidas é a veneração da riqueza, do egocentrismo, da arrogância, do desprezo pela filantropia e pelos desafortunados, em suma… assistimos à sacralização do materialismo, à entronização da mediocridade, à glorificação do egoísmo, à exaltação da barbárie terrorista e à desculturalização dos povos espiritualizados.
Impávidos e serenos, vemos transformar-se a cultura numa indústria da mediatização e do populismo barato, num bacoquismo vivencial para gente iletrada, ou, pior ainda, para gente que se pretende amorrinhar, desinstruir e submeter a uma mediania amesquinhante, de forma a açaimar o pensamento e a desvitalizar a ilustração. Os povos de seculares culturas e modelares tradições, como os europeus, que enraizaram a civilização ocidental como modelo de progresso e de humanização, têm vindo a deixar-se cair numa americanização assoberbante e numa rasoirante globalização, submetendo-se ao imperialismo económico e à supremacia dos países industrializados.
O resultado previsível da globalização e do imperialismo financeiro será a generalização dos métodos educativos, a equalização dos graus académicos, o facilitismo da instrução, o rebaixamento da erudição e o nivelamento intelectual, inferiorizando as proeminências propulsoras das ideias humanistas, do criticismo filosófico, das artes criativas, da música erudita e da poesia lírica. O nível cultural vai inexoravelmente decrescendo pelas exigências duma mediocridade impante e dominadora, que despreza o génio poético, como quem abomina os valores da vida e condena os princípios mais elementares do humanismo, execrando os sentimentos e as emoções.
Nos dias que correm apenas interessa desenvolver as ciências experimentais em detrimento da cultura humanística, amesquinhando as Letras sob o princípio economicista da sua improdutividade.
Vivemos hoje envergonhados sob o estigma duma escolarização dita incipiente, supostamente infrutífera, por não instilar nos jovens o abstraccionismo do número e da quantificação. O nosso atraso – dizem os governantes – não resulta apenas duma deficiente equipagem tecnológica do sector industrial, mas tão só da nossa incapacidade para as ciências matemáticas, para a mecanização do pensamento em associações quantitativas, formalizando conjuntos e acções numéricas, visualizando formas e modelos. Os nossos tecnocratas preconizam insistentemente uma moderna fórmula de imbecilidade, que se consubstancia nesta peregrina afirmação: a matemática é a vida, e a vida é matemática. Pela frente e pelo verso, a frase tem muito para discutir, sendo que em todos os ângulos que a perspectivemos resulta sempre numa inverdade. A vida não é um número nem uma numeração, nem tão pouco a matemática vive do número, e muito menos da matematização. A vida, tal como a matemática, é pensamento, imaginação e criatividade. A vida é, em suma, uma herança e uma sucessão. A matemática é uma convenção, que, elevada à escala universal, pretende abarcar o todo e o nada. É uma concepção e uma idealização do abstracto, uma materialização do pensamento em formalizações imateriais, uma imponderabilidade do efectivo e uma inconsistência da verosimilhança.
A vida, e o que verdadeiramente interessa à vida, não consiste no progresso tecnológico ou na erudição científica, nem unicamente no crescimento do Produto Interno Bruto. A vida é sentimento e paixão, é emoção e contrariedade, é prazer e felicidade, é sacrifício e sofrimento, é amor e aversão, é a fortuna e a desventura, a verdade e a mentira.
A vida é também a morte, coabitando o mesmo espaço, mas trilhando caminhos tão diferentes e tão distantes, que se chega a pensar nunca serem capazes de se cruzar. Entre o nascimento e a morte espraia-se toda uma existência, a que só a poesia sabe dar alento e coragem, para glorificar a paixão, a felicidade e a saudade.
Tudo isto se pode ver e ler neste livro de Telmoro. As contradições da ciência, a sua frieza e inexpressividade, contra a sublimidade das letras e a excelência da palavra, cuja beleza e ordenamento conceptual, articulada numa silábica sucessão rítmica, fazem do poema e do pensamento lírico, uma construção artística absolutamente insuperável. Os versos de Telmoro não preconizam doutrinas, nem difundem ideologias; não se inspiram nem se modelam nos figurinos das novas escolas poéticas, tão pouco enfileiram nos movimentos expressionistas ou pós-modernos da “nouvelle vague” em que se integram as recentes gerações de poetas. A sua poesia é independente, mas não se divorcia dos cânones que moldaram os nossos maiores vates. A sua arte poética faz do soneto uma sinfonia de palavras, uma escultura de voluptuosos sentimentos e uma tela de afectuosas impressões. O soneto é a arte maior do poeta, apenas ao alcance daqueles que fazem da poesia um atelier de arte e um laboratório de filosofia.
Nestes Idílios da Madrugada resplandecem clarões de ideias, arquitectadas em sublimes pensamentos, talvez sugestionados pela recente perda da sua amantíssima esposa. Diz-se que o poeta é mais sincero e mais excelso quando sente a alma trucidada pela dor. Mas é sobretudo a luz da paixão, que se difunde na refracção do seu amor por Eduarda Maria, que nos deixa enternecidos, condoídos, feridos até aos recônditos da alma, vendo a ténue candeia da vida penetrar na última prega da neblina que cobre agora a sua pedra tumular.
Choram os seus versos pesadas lágrimas de amor, derramadas sobre o esquife ainda morno da vida que tão prematuramente partira. Debaixo do trauma da morte, com a alma esmagada pelo peso da derradeira tumba, escreveu o poeta os presente sonetos plasmados na lancinante dor de quem sofre sem poder esconder o agudo pranto da sua amargura. Em dolorosos versos, plenos de sentimento e de paixão, exarou um amargurado testemunho de amor eterno, num sagrado juramento de imperecível saudade.

(Prefácio ao livro, Idílios da Madrugada, de Telmoro)

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A Poetisa do Mar


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tem sido meu hábito prefaciar as obras de autores já consagrados, sendo bem verdade que a confirmação ou reconhecimento do talento surge com o evoluir dos anos e, sobretudo, com a insistente (re)produção editorial da criatividade que corrobora o génio. Por isso me sinto feliz, e até de certo modo lisonjeado, pelo convite da poetisa Maria José Fraqueza para apensar umas breves palavras introdutórias a este esforçado e rigoroso trabalho de apreciação crítica elaborado pelo jurisconsulto Artemio Zanon, sobre a sua vasta e muito elogiada obra literária.
Efectivamente a obra de Maria José Fraqueza fala por si, constitui no seu conjunto uma espécie de análise introspectiva da sua alma de artista, do seu génio lírico, da sua sensibilidade intelectual, do seu humanismo literário e do seu apreço pelas Belas Letras. Como algarvia, de radícula e pura gema, não admira que lhe ecoem na alma, como inebriantes cânticos de sereia, os oníricos encantos de Orfeu, as árias celestiais das musas, o fascínio mítico e o enlevo lírico dos encantamentos, crisálidas boninas deste agareno canteiro de florescências poéticas.
Maria José Fraqueza é produto da cultura autóctone, fruto da inocência camponesa e da heróica coragem do marítimo da Fuzeta. Possui na alma esses dois pólos que se atraem e repelem mutuamente, a terra e o mar. Mas foi esse pélago imenso, esse indomável monstro que tantas almas tragou na sua insaciável voragem, que lhe inspirou as mais belas poesias da sua obra.
Todavia, também é verdade que nas suas veias corre o sangue e os genes do ancestral lirismo árabe, cuja profícua herança se poderá aquilatar nos poemas de Ibne Ammar, de Al-Mutamid, de Al-Oriani ou de Ibne-Cací, infelizmente hoje tão pouco, e mal, divulgados. Nas éclogas, nas odes, nos hinos e cânticos poéticos dos clássicos, mas sobretudo nos vates islâmicos do ancestral Garbhe, bebeu Maria José Fraqueza o elixir mágico da fonte de Orfeu, a cristalina inspiração dos seus idílicos versos. Mas foi na voz do povo que se inspirou para arquitectar muitas das suas belíssimas quadras, essa espécie de vaso poético que o povo coloca à janela do coração, e que em breves palavras contém uma peculiar lição filosófica no retinir musical da rima. A quadra popular, tantas vezes injustamente repelida pelos poetas de maior vulto, é, na simplicidade dos seus quatro versos, uma lição de vida. Desde os mais antigos trovadores provençais até ao nosso insigne Fernando Pessoa (grande apaixonado, e inspirado cultor da quadra popular), sempre se conservou na cultura portuguesa o genuíno e democrático modelo dos quatro versos, usado nas desgarradas poéticas e sobretudo nas canções de cariz popular, cuja recolha constitui o cerne do nosso folclore literário.
Não necessita pois de apresentação quem ao longo de décadas cultivou o verbo na mais lídima expressão lusíada, compondo sonetos nos moldes de Petrarca e nos cânones de Sá de Miranda.
Da sua lavra literária conheço tudo quanto saiu em livro. E tudo começou pelas Histórias da Minha Terra, publicado em 1989, um livro de poesia inspirado no ritmado pulsar da oralidade popular, uma espécie de recolha em verso das expressões que o povo usa para comunicar os seus mais genuínos sentimentos. Um livro de baptismo que ficou como uma marca, um cartão-de-visita da própria autora, já que nele também fala de si e das suas memórias de infância no seio dos sacrificados pescadores da sempre noiva aldeia da Fuzeta.
Segue-se-lhe Os Murmúrios do Mar, também de 1989, que é, para mim, um dos seus mais belos livros. O tema principal é naturalmente o mar, esse mar algarvio de dócil aparência, enlevo dos veraneantes e do turismo internacional, estrada de sonhos e de vidas, mas que, por vezes, também foi cemitério de muitos homens para quem a vida foi um constante desafio com a morte. Neste livro é o conjunto dos sonetos nele reunidos que mais impressiona o leitor. São inspirados nas formas naturais da vida, cantando o jogo do amor e a lotaria da vida, sempre acompanhada pela incerteza do destino, pelo fadário da desgraça e pela crueldade do infortúnio.
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, publicado em 1990, é um livro de poemas caldeado num finíssimo humorismo algarvio que só a Maria José Fraqueza seria capaz de traduzir em verso. A forma como brinca com as coisas sérias da vida parece fácil de escrever, mas só quem tenta imitar-lhe o exemplo é que se apercebe da dificuldade que enfrenta ao procurar traduzir em ritmados versos a graça e o espírito das alcunhas dos marítimos seus conterrâneos. Curiosas são também as quadras, tecidas no mais genuíno sentimento popular, cantadas com um sadio e profiláctico sorriso, sem maldade nem motejo. Ainda que tentando ser sarcásticas, vê-se que estão depuradas das tão banais quanto inconvenientes e depreciativas críticas contra a inocência do povo. Não há nos seus versos ridicularizações nem apoucamentos, mas tão só breves apreciações sarcásticas, tentando ironizar com certas atitudes do nosso quotidiano.
Vendavais da Alma, editado em 1994, é certamente o mais conseguido e o mais conhecido livro da sua autoria. Constitui uma antologia de sonetos de muita qualidade, seguindo os figurinos clássicos, tendo sempre em conta uma temática naturalista, uma inspiração intimista e sentimental. É uma panóplia de sonetos de muito boa urdidura, numa concepção introspectiva e de profunda emotividade, nos quais transparecem diferentes sensibilidades numa dicotomia de afectos e numa permanente interrogação metafísica entre o ser, o estar e o partir. Sente-se ainda na leitura deste livro de sonetos uma constelação de ideias, aparentemente díspares e confusas, construindo um caleidoscópio de idílicas formas, de incisivas cores e de impressivos cheiros, num comportando emocional ou numa coreografia de sentimentos que nos deixa estonteados, inebriados, encandeados pela luz do seu raro lirismo poético.
Há Natal dentro de Mim – Poemas de Natal, publicado em 1995, é, como se depreende facilmente, uma compilação de poemas inspirados na quadra natalícia, muito conforme, aliás, ao que é usual nessa época festiva, em que as editoras, e até os órgãos de comunicação social, procuram dar a público, em prosa e verso, textos ilustrativos do profundo significado de que se reveste o Natal para a união das famílias. Neste pequeno livro, Maria José Fraqueza reuniu vinte e cinco poemas de diferentes estruturas poéticas, cuja leitura transmite uma certa paz interior, uma solidariedade e um enlevo fraterno para as famílias desavindas, para além de comunicar às crianças uma mensagem cristã de bondade e afectuosa doçura para com os mais desfavorecidos, para quem o Natal poderá, pelas circunstâncias da vida, ter deixado de existir. Um livrinho muito belo e muito simples.
Maresias Infinitas, publicado também em 1995, é mais uma compilação de sonetos e poemas estróficos de diferentes estruturas, numa dimensão algo reduzida para o valor da sua poesia. Em todo o caso, nele volta o mar da Fuzeta a ser o cenário principal da sua inspiração, ressaltando mais uma vez o niilismo sentimental da própria vida. O Mar que dá a vida também dá a morte. O Mar, esse oráculo de mistérios e de terrores, traz no regaço das suas ondas os sonhos e as quimeras que só as musas sabem transmitir.
O Cântico das Ondas, publicado em 1998, é algo semelhante ao anterior, mas para melhor. Tem novamente o Mar como protagonista, como palco e como fonte de inspiração da sua poesia. Pela insistência temática percebe-se que Maria José Fraqueza pretende assumir-se como a Poetisa do Mar, a mulher embalada desde o berço nas ondas da sua amada praia da Fuzeta. E julgo que por tudo quanto tem feito pela sua terra merece o honroso epíteto de poetisa da Branca Noiva do Mar.
A verdade é que o mar, na plenitude da sua força mítica, está sempre presente na obra lírica de Maria José Fraqueza. Repare-se que os livros seguintes transmitem essa presença nos próprios títulos. Desde logo a Maré de Trovas – Quadras populares, publicado em 2000, cujos versos ao jeito do povo cantam os filhos do mar, cavalgando na procela das ondas para granjear com hercúleo sacrifício o sustento da família; mas também cantam as sereias, os búzios e todos os habitantes das misteriosas profundezas desse imenso pélago que serviu de estrada aos mareantes, para como dizia Camões, dar novos mundos ao mundo nunca antes imaginados.
Repisa a mesma temática em Cantando o Mar – Sonetos, publicado em 2005, no qual apura a técnica do soneto em belíssimas composições, mais profundas de sentimentalismo e paixão, sendo claro que nele atingiu um patamar de recursos metafóricos mais evoluído do que nas obras anteriores.
Por fim, surgem dois novos trabalhos, os mais recentes da sua inspirada lavra poética: Sob as Margens do Gilão, publicado em 2006, e dedicado à cidade de Tavira, no qual o misticismo da água, como fonte de vida, volta a estar presente na estrutura rimática dos seus versos. Um livro de muito boa qualidade poética que só confirma a minha anterior asserção, ou seja a poesia de Maria José Fraqueza ao longo dos anos tem vindo a apurar-se na eficácia, nos atributos, na energia e na eficiência dos valores poéticos, em suma, na excelência do seu lirismo.
O apelido da poetisa, Fortaleza, não traduz a força contra a resistência, mas antes a força moral elevada ao seu expoente máximo, isto é, a força de ânimo que inflama a alma dos vencedores. E em boa verdade, a Maria José, a Poetisa do mar, é uma mulher vencedora, que soube encarar os reveses e os infortúnios da vida com a intrépida coragem dos heróicos mareantes da sua querida praia da Fuzeta, dessa mítica Branca Noiva do Mar.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O espírito tertuliano – uma miragem do passado


José Carlos Vilhena Mesquita

Nos primórdios do século passado o país despontava para a curiosidade e o interesse das novas ideias libertárias, que fervilhavam um pouco por toda a Europa. Nas grandes cidades europeias, como Paris, Londres, Roma e Madrid, reuniam-se nos cafés pequenos grupos de artistas e homens de letras, para discutirem ideias e ideologias, novas concepções de ética e de estética, sobretudo novas formas de organização da vida social e económica, tendentes à construção de um mundo mais justo e mais fraterno, erigido sob a luz da liberdade.
Nos antigos Salões e nas Academias reais do setecentismo europeu, incorporaram-se as elites iluministas – numa mesclagem intelectualizada da nobreza com a alta burguesia, tendente ao debate das grandes reformas que inspiraram a formação do estado moderno. Porém, essas instituições culturais foram paulatinamente cedendo lugar aos espaços públicos de reunião mais acessível e popular, de que é principal exemplo o Salão-de-chã, de inspiração burguesa e frequência feminina, e o Café, de origens pequeno-burguesas, onde se reuniam, em democrática convivência, todos os estratos sociais, com especial incidência no empresariado mercantil e industrial.
Na verdade, é ao convívio intelectual e à efervescência das ideias que o Café deve as suas origens, cabendo à cidade universitária de Oxford a glória de ter erigido, em 1650, o primeiro de que existe confirmada memória. Quatro anos depois os mercadores de Marselha fundaram um Café (o segundo com veracidade histórica), para se reunirem e acertarem os seus negócios nos portos mediterrânicos. Seria, contudo, em Paris que, em 1689, abriria o Café Procope, o mais célebre do mundo por nele se reunirem os artistas, os políticos e os intelectuais mais famosos na época das Luzes.
O Café, com o decorrer dos anos, foi perdendo as suas particularidades selectivas e burguesas, mercê da tolerância de novas frequências, suscitada pela exponencial abertura de novos espaços nas cidades portuárias e no interior industrializado. Em boa verdade, o Café evoluiu com o tempo até se tornar numa instituição de equidade social, onde o convívio das classes dominantes se caldeou com o funcionalismo terciário e o operariado industrial. De centro de reunião empresarial, nomeadamente de Bolsa popular do comércio regional, o Café tornar-se-ia num espaço tertuliano das novas ideias políticas e num cenáculo artístico-literário de jovens talentos. Mais do que qualquer outra instituição social, o Café tornar-se-ia num dos símbolos do Liberalismo e da afirmação política da pequena burguesia.
O século XIX, a que muitos historiadores chamaram o século da Burguesia, parece-me que foi também o século dos Cafés, porque neles se aproximaram, em salutar convivência e em acesa discussão de ideias, os representantes dos diversos patamares em que se repartia a sociedade oitocentista. Os cafés, onde todos se sentiam iguais por se sentarem em mesas iguais, tornaram-se locais de reunião periódica para se tomar um simples e popular café, um requintado e burguês cacau, um conhaque ou um brandy, sorver um aromático havano ou uma onça de perfumado tabaco holandês em golfadas de cachimbo canadiano. Nos cafés divulgaram-se as ideologias redentoras do socialismo, do anarquismo e do republicanismo, do associativismo proletário e do sindicalismo, urdiram-se reivindicações operárias, marcaram-se greves e manifestações, congeminaram-se revoluções, escreveram-se romance, versos, canções, e até os grandes manifestos políticos, fundaram-se redacções de jornais, difundiu-se o maçonismo e proclamou-se a utopia dum mundo novo, sem domínio nem pecado.
O café tornou-se no símbolo de uma época, que transitou do liberalismo económico para o demo-liberalismo político. Atravessou os últimos séculos como um areópago da liberdade de reunião e de expressão. Neles se discutiam os comportamentos e as ideias mais avançadas, misturavam-se os sexos, expunham-se quadros de artistas excluídos e experimentavam-se transgressões de toda a ordem. Mas também neles o operário se instruía e divertia, quer lendo os jornais gratuitamente, quer jogando ao bilhar, às cartas, às damas, ao gamão e ao xadrez. Havia um reservado para os jogos de azar, uma espécie de casino dos pobres, e, nalguns casos, a horas mortas, faziam-se sessões de espiritismo. Alguns transformaram-se em cabarés, com espectáculos de música e dança, alternando com actividades menos recomendáveis, descortinando-se nalguns a existência de lupanares clandestinos.
Não obstante, os cafés conservaram-se fiéis às suas originais tradições, como respeitáveis locais de reunião da classe-média, verdadeiros alfobres das ideias libertárias e núcleos de livre discussão das novas concepções estéticas da Arte da Literatura. Alguns, raros, ainda subsistem no nosso país, como o Magestic, a Brasileira e o Nicola. Mas a esmagadora maioria dos Cafés históricos, berços da liberdade e da democracia, desapareceram já, na voragem do capitalismo e na rasoira boçal do imperante neo-liberalismo, a que a globalização deu uma expressão de impiedade cultural e de predominante ignorância.
Nos últimos decénios do século passado surgiram novos cafés, mais pequenos e mais simples, consentâneos com a sociedade em que vivemos, apressada, frenética e instável, por isso mesmo mais individualista e menos convivente. O Café Hélice, na Avenida 5 de Outubro, é um exemplo dos cafés da nova vaga. Pela sua despretensiosa aparência estética e sóbrio conforto, depressa se tornou num ponto de encontro a cujas mesas se costumam acolher cidadãos da classe média, que moram ou trabalham nas imediações, especialmente professores e estudantes, funcionários públicos, bancários, engenheiros, advogados, empresários, enfim, toda uma panóplia social ilustrativa dos tempos hodiernos.
Entre os seus frequentadores diários distinguia-se o eng.º Tito Olívio, morador num prédio fronteiro, que não raras vezes ali se reunia, no final do dia, com professores e outros cidadãos, interessados em discutir e reflectir sobre os problemas da cultura, da arte, do património histórico, e sobretudo da literatura, sendo que a alguns era a poesia que os atraía ao convívio. Tudo terá começado em Maio de 1997, quando Tito Olívio pensou, juntamente com Fonseca Domingos e Diamantino Barriga, que eram os mais assíduos, em reunirem-se semanalmente com outros poetas para analisarem o que cada um produzia, fazendo críticas construtivas, ajudando a melhorar as deficiências de estrutura formal ou de construção semântica, que não raras vezes os impediam de concluir com ilustração e beleza os seus poemas. Depressa o grupo cresceu, não só em quantidade como também em qualidade intelectual e em diversidade artística. Aos três poetas fundadores juntaram-se prosadores, jornalistas, ensaístas, músicos, pintores e até cantores, numa espécie de sociedade de autores da cultura farense. Enquanto uns iam ficando, marcando presença assídua e semanal, outros só esporadicamente voltavam para obter um conselho, uma crítica, uma ajuda pontual para remover dúvidas estéticas ou deficiências formais na construção das suas composições líricas.
Em torno de uma “bica”, de um chá ou de um galão com torradas, surgiu um salutar convívio entre homens e mulheres cultores de Orfeu, de diferentes idades e níveis de instrução, desenvolvendo pretextos para a reflexão intelectual sobre a dimensão estética da vida. Formou-se assim uma espécie de cenáculo, no qual pontifica ainda hoje a figura de Tito Olívio, não pelo seu natural protagonismo intelectual, mas muito especialmente pela sua bondade, pela sua generosidade e, sobretudo, pela sua disponibilidade para incentivar os poetas e para implementar iniciativas que promovem e divulgam as obras daqueles que ainda não obtiveram o justo reconhecimento do público. O grupo, cada vez mais numeroso, carecia de algo que o identificasse, que lhe desse nome, porque nascido à luz da liberdade rejeitava a formulação de estatutos ou de vínculos que o prendesse à sociedade civil e à organização política. A única regra a que aqueles tertulianos se comprometeram obedecer é a da tolerância, e do respeito mútuo no direito à diferença, tanto nas divergências políticas como nos credos religiosos.
A vida é um círculo em perpétuo movimento, cuja aceleração depende da vontade moral e da criatividade intelectual. Daí a ideia de adoptar a Hélice, que decora e dá o nome ao próprio café, como símbolo e designação mais apropriada para aquele grupo de poetas, de prosadores e artistas. Quando em Janeiro de 1998 nasceu a AJEA – Associação de Jornalistas e Escritores Algarvios, logo se lhe juntaram os fundadores da Tertúlia Hélice, cujo grupo passou a constituir-se numa espécie de núcleo dinamizador das actividades daquela agremiação no seio da sociedade farense.
Lembro aqui, a título de curiosidade, alguns dos autores com quem convivi a partir de 1998, quando tive o privilégio de me juntar à Tertúlia Hélice. Desde logo os que já desapareceram, todos talentosos poetas, como o genial Fonseca Domingos, o irreverente Vivaldo Beldade, a meiga e carinhosa Quina Faleiro e o apaixonado Hélder Azevedo - espírito notável de artista, poeta e prosador, cuja vida dava um romance. Mas outros que os acompanharam ou que lhes seguiram as pisadas, permanecem estoicamente na Tertúlia Hélice, tercendo armas pelo desenvolvimento da cultura algarvia. Destaco o Manuel Cardoso, poeta, músico e cronista, na sua escrita barroca, ilustrada, cuidada e perfeccionista, revela-se a nobreza do seu cavalheirismo e do seu raro polimento social. O Diamantino Barriga, poeta e quadrista de inspiração naturalista, generoso, fraterno e de bondosíssimo coração, uma alma de eleição já hoje difícil de encontrar na nossa sociedade. Igualmente bondosa é a Romana Rosa, poetisa de invulgar criatividade, que escreveu em prosa e verso belos livros para as crianças, procurando sempre incutir no espírito dos jovens a mesma generosa fraternidade com que ela sempre pautou a sua vida. A poetisa Manuela Odete, sempre atenta às questões ambientais e à solidariedade social, temas em que se tem inspirado para a composição dos seus belos sonetos. O mesmo acontece com a Célia Roque, mulher sofredora, castigada pelos desgostos da vida, que procurou na poesia o acolhedor refúgio para as suas mágoas. A Lília Bárbara cuja obra poética tem escapado aos elogios da crítica, mas que é sem favor um dos mais seguros valores da literatura algarvia. O mesmo acontece com o Ferradeira de Brito, poeta, dramaturgo, letrista e compositor, de quem há pouco apresentei 20 livros de uma assentada, atingindo certamente um recorde digno de figurar nos anais do Guiness.
Entre as poetisas da Tertúlia, merece destaque especial a Glória Duarte Marreiros, detentora de vasta obra poética, muito elogiada pela crítica e justamente asseverada pelos galardões literários que tem arrebatado nos últimos anos. Os sonetos da Glória são verdadeiras sinfonias de expressividade poética, em que a paixão e a mágoa se juntam num sincero amplexo de sentimentos e emoções. Entre as frequentadoras mais assíduas, distingue-se não só pelos seus dotes de inteligência e de fecunda originalidade literária, como ainda pelo seu maternal carinho, a Ilda Costa. Uma verdadeira dama, há muito aposentada das suas funções de criativa da alta moda parisiense, dedicando-se hoje à pintura e, sobretudo, à poesia, com invulgar e engenhoso talento, cabendo-me a honra de ter prefaciado o seu livro de estreia. Outra das figuras que inicialmente marcava posição distinta no seio da tertúlia era a Manuela Saraiva, senhora muito educada, de belos traços femininos, com laivos de uma nobreza genuína, que veio para Faro quando a transportadora aérea nacional aqui abriu os seus escritórios. Tinha sempre a palavra certa para a crítica mais sincera e exigente, por vezes com uma mordacidade desarmante. Por fim, a Maria Margarida, a nossa eloquente diseuse, senhora do mais fino quilate social, professora aposentada, possuidora duma prodigiosa capacidade de memorização, o que lhe permite decorar e declamar um poema em poucos minutos. A sua elegante presença física, associada à mais moderna indumentária parisiense, faz dela proeminente figura nos recitais de poesia promovidos pela AJEA, onde consegue arrebatar do pública as mais estrondosas ovações.
Entre os mais recentes frequentadores da Tertúlia Hélice merecem especial destaque o Francisco Alexandre, o François Blanc e o Telmoro. O primeiro é professor e poeta, muito inteligente, bastante culto e perseverante estudioso das civilizações clássicas, autêntico exegeta das profecias e do misticismo bíblico, que discute e analisa com a mais persuasiva eloquência. O segundo é um médico francês, muito culto e generoso, verdadeiro andarilho do mundo latino-americano, dedicando-se à investigação criterioso da medicina andina. Apaixonado pela cultura lusíada, que estudou com profundidade e rigor científico, aqui veio aportar, escolhendo o Algarve e a cidade de Tavira como reduto natural para a sua inspiração poética. Possui vasta obra literária, consagrada internacionalmente pela crítica da especialidade. Por fim, um destaque muito pafrticular para o poeta Telmoro, espírito dos mais criativos e talentosos que conheço no Algarve, um verdadeiro humanista à imagem do seu Mestre e mentor literário, Tito Olívio, que o lançou no mundo das letras algarvias. É dos raros poetas que compõe em várias línguas, espanhol, italiano, francês e inglês, um autêntico poliglota, que escreve e canta as suas próprias canções. Alguns dos seus poemas foram musicados, cantados e editados em dois CDs por Alberto Carlos, um artista que também frequentou a Terlúlia Hélice até atingir a merecida consagração, sendo hoje considerado como um dos mais distintos e requisitados cantores das casas de fados sedeadas no Algarve.
Não querendo esquecer-me de ninguém, aqui presto também a minha homenagem à Rosinda Vargues e ao Luciano, seu marido, ela cantora, ele compositor e instrumentista, que têm participado na apresentação de livros editados pela AJEA, cantado belíssimas canções com poemas de Tito Olívio, de Telmoro, de Ferradeira e Brito e até de Vitória Rodama, que é a mais recente e promissora poetisa da Tertúlia.
Para terminar, impõe-se acrescentar que considero esta Antologia como uma breve amostra do talento poético e da qualidade literária dos seus intervenientes. Convém frisar, entre muitos outros aspectos reveladores da sua genuína criatividade poética, que quase todos eles têm obra publicada em letra de forma, sendo certo que alguns possuem vários prémios que atestam o reconhecimento público das suas obras. No seio deste diversificado grupo de poetas, prosadores e artistas, justifica-se que, em nome de todos, aqui deixe uma palavra de apreço e de muita gratidão para com o poeta Tito Olívio, alma-mater da Tertúlia Hélice e da maioria das actividades culturais realizadas pela AJEA, da qual é, sem favor nem exagero, a principal figura. A sua natural generosidade tem-no levado a erguer aos ombros muitos poetas que, pela sua gigantesca sombra, nunca veriam brilhar a luz do sol. A publicação desta Antologia é mais uma prova da sua capacidade de iniciativa e da sua dedicação fraternal a todos quantos frequentam a Tertúlia Hélice.
Como os últimos são os primeiros, termino com uma menção de gratidão para com a Vitória Rodama, a cuja abnegação e espírito de iniciativa se deve o patrocínio financeiro desta Antologia.

Prefácio ao livro Antologia Poética da Tertúlia Hélice

domingo, 1 de Novembro de 2009

A família Lã, e o seu palácio em Faro


Uma das perguntas que há tempos um dos meus alunos me colocou, foi a de saber se eu tinha conhecido o Palácio Lã em Faro. Isso fez com que me lembrasse de reunir alguns apontamentos que tenho em fichas, mal ordenadas e já hoje quase por mim esquecidas, sobre algarvios notáveis. Vejamos o que possuo sobre o assunto.
Quem construiu a residência apalaçada da família Lã, demolida no princípio dos anos oitenta do século passado para no seu lugar se erguer o actual Edifício Tridente, foi o sr. Modesto Gomes Reis, proprietário do renque de habitações que no lado fronteiro ocupavam o quarteirão de fogos operários e armazéns industriais.
Essa casa, de traço e decoração sevilhana, mandara-a construir o Modesto Reis para sua própria residência, numa clara afirmação do seu sucesso empresarial e do seu poder económico. Os meios de fortuna de que dispunha, em significativa abundância, provinham das suas fábricas de fiação, de algodão e linho, concentradas no quarteirão que se estendia desde o local onde actualmente se encontra o edifício da Região de Turismo até ao cruzamento com a rua Bernardo de Passos, de acesso ao Jardim João de Deus, vulgo da Alameda.
É de realçar que para se construir o Liceu de Faro, edifício que constitui hoje a Escola Tomás Cabreira, houve que contar com a benemerência do Modesto Reis, para a cedência de algumas casas e terrenos actualmente integrantes daquele amplo complexo educativo.
Importa desde já acrescentar que o Modesto Reis era de origens espanholas, creio que de famílias da Andaluzia, o que não é para admirar, pois grande parte da indústria algarvia dos meados do séc. XIX foi aqui implantada por espanhóis, sobretudo das terras meridionais. Ao que sei, era parco de instrução, faltava-lhe polimento e finura de trato, tinha atitudes rudes e gestos boçais. Em contrapartida, era esforçado no trabalho e muito persistente nos negócios, apesar de desconfiado e ardiloso. Tinha espírito criativo e empreendedor. Desdenhava dos burgueses ricos a quem chamava de “finórios” e tinha verdadeiro asco aos argentários, a quem chamava de “sanguessugas”.
O Modesto tinha três filhas, que segundo consta eram bonitas e muito prazenteiras, as quais se integraram muito bem na sociedade. Além de simpáticas eram apreciadoras da música e da poesia, causando assolapadas paixões entre os cultores de Orfeu...
Casaram as três com algarvios, que formaram respeitáveis famílias na sociedade do seu tempo. Porém, mais tarde, com a morte do Modesto Gomes Reis, as filhas herdaram os imóveis e as indústrias, que, por razões várias, sobretudo por vicissitudes externas, tiveram de vender ao empresário João Francisco Lã, creio que natural dos arredores de Lisboa, oriundo de uma família de comerciantes com negócios e relações no Algarve.
Foi esta família Lã quem comprou a vivenda do Modesto Reis, que após alguns melhoramentos a transformou naquilo a que o vulgo chamou de “Palácio Lã”. Mas este empresário era também aquilo a que em Lisboa se chamava um novo-rico, ou seja, alguém que enriquecera à custa das novas oportunidades suscitadas pelas alterações políticas do novo regime republicano. Quem o conheceu dizia que não era menos rude do que o Modesto Reis, pelo que o velho palácio em estilo neo-islâmico continuava a ser residência de príncipes... do dinheiro.
A origem da fortuna dos Lã enraizava-se no negócio de importação e exportação de produtos alimentares e de primeira necessidade, especialmente de café, açúcar, cereais e leguminosas, trigo, cevada, aveia, feijão e grão, além de frutos secos, amêndoa, figo, vinhos e aguardentes. Mas foi a transformação industrial do azeite e da alfarroba que mais lucros lhes proporcionaram. Era no Largo do Carmo, na esquina com a rua da Fonte do Bispo, que se situavam as mercearias e armazéns de venda, por grosso e a retalho, da família Lã. As indústrias, os lagares e destilarias, continuavam a ocupar os quarteirões iniciais da actual avenida 5 de Outubro. Nos finais dos anos setenta, que foi quando vim morar para a Rua Eça de Queirós, conheci não só as velhas instalações industriais como ainda os bairros onde residiam ainda muitos dos antigos operários.
A título de curiosidade, faço aqui lembrar que quando o general Carmona efectuou a primeira das duas visitas presidências que realizou ao Algarve, ficou instalado no edifício do Departamento Marítimo do Sul, pouco depois devolvido à Igreja para nele ser reinstalado o Paço Episcopal; mas alguns dos ministros e membros da sua comitiva oficial instalaram-se na majestosa residência que o vulgo designava por “Palácio Lã”. Nessa altura, foram tão magnificamente recebidos e tratados pela família anfitriã, que o governo, com a anuência do próprio Presidente Óscar Carmona, decidiu agraciar o João Francisco Lã com o grau de Cavaleiro de uma ordem militar, creio que de Cristo, pelo que o vulgo, com a subserviente deferência da época, passou a tratá-lo por “Senhor Comendador”.
Em abono da verdade, devemos afirmar que a Família Lã obteve grande notoriedade na sociedade farense, sobretudo nas décadas de trinta até sessenta do século XX, devido à projecção empresarial dos seus negócios. Por isso se compreende que alguns dos seus membros tenham sido convidados a desempenhar alguns cargos públicos importantes, nomeadamente na autarquia farense e nos grémios associativos relacionados com o comércio e a indústria. Um dos seus filhos, José Francisco Lã, desenvolveu uma grande paixão pela aviação, tornando-se amigo muito dedicado dos principais pilotos aviadores da aeronáutica civil e militar do seu tempo. Digamos que durante quarenta anos o “Lã Aviador” foi não só um pioneiro da aviação no Algarve, como ainda o seu maior impulsionador, divulgando iniciativas nacionais e internacionais, criando um clube de aviadores e recrutando instrutores para o ensino da pilotagem aérea. Ao seu esforço se ficou ainda devendo construção de uma pista improvisada no sítio da Meia Légua para a aterragem de pequenas aeronaves. Nessa pista chegou a aterrar, mais do que uma vez, o seu íntimo amigo General Humberto Delgado que na sua casa era sempre recebido da forma mais efusiva e entusiástica.
Os algarvios, na sua acirrada e, por vezes, inconveniente ironia, apelidavam jocosamente o José Francisco Lã como “Ministro do Ar”, epíteto que, aliás, não lhe passava desapercebido. Era natural da Fuzeta, e faleceu em Maio de 1975, com 73 anos de idade. Os seus dois filhos foram igualmente importantes cidadãos: Maria da Encarnação Silveira Lã Fernandes Correia, foi uma notável Inspectora do Instituto de Oncologia, e o José Silveira Lã, foi um competente e muito dedicado funcionário da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Foi o último do clã, porque o seu irmão mais velho, João Francisco Lã Júnior, o grande impulsionador dos negócios herdados do patriarca da família, morrera em Faro, vinte anos antes, a 5-10-1954, com 60 anos de idade, depois de umas férias de intensa pesca desportiva na vila de Sagres, de onde regressara bastante doente. Dotado de um apurado sentido empreendedor e de grande inteligência, expandiu os negócios que do pai herdara, tornando-se num dos mais prestigiados comerciantes da praça de Faro, com capital investido em diversas firmas algarvias, o que lhe permitia manter interesses financeiros em diversos sectores ao mesmo tempo. Em todo o caso era no mercado das hortícolas, dos frutos secos, azeites, vinhos e cortiças, que mais se evidenciou, mantendo avultados negócios no estrangeiro. As suas relações internacionais com diversos países europeus e com as nossas antigas colónias permitiram-lhe dispor de meios financeiros capazes de se tornar num dos homens mais ricos do Algarve. O prestígio de que gozava entre os seus pares valeu-lhe a eleição para Presidente do Grémio dos Exportadores de Frutos e Produtos Hortícolas do Algarve. Além disso desempenhava as honrosas funções de director-tesoureiro da Caixa de Abono de Família do distrito de Faro.
Por fim, o seu primo, António Lã, natural de Mira d’Aire, e notável armazenista de mercearias em Faro, que desempenhara vários cargos públicos, nomeadamente em 1934 na vereação municipal, e, mais tarde, na Comissão Municipal de Turismo, onde se manteve muitos anos, viria a falecer, também nesta cidade, em Agosto de 1974, com 69 anos de idade.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O Monografismo Algarvio - O pioneirismo de Ataíde Oliveira

Este artigo corresponde a uma conferência pronunciada na Biblioteca Municipal de Loulé a 30 de Novembro de 2005,aquando das comemorações do 90.º aniversário do falecimento do Dr. Francisco Xavier de Ataíde Oliveira. O texto, depois de melhorado, foi publicado na revista Al-Ulyà, órgão científico do Arquivo Municipal de Loulé, cuja edição sai a público sob a chancela da respectiva edilidade.
O leitor interessado poderá ler o texto neste blog, ou fazer o seu download para posterior utilização.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Da Extinção à Restauração do concelho de Aljezur nos finais do séc. XIX

sábado, 17 de Outubro de 2009

A localização do aeroporto de Faro, escolhida em 1945 por Humberto Delgado

J. C. Vilhena Mesquita

Em Janeiros de 1945 o então governador civil de Faro, Dr. Antero Cabral, reuniu-se em Lisboa no Secretariado de Aeronáutica Civil, dirigido pelo então tenente-coronel Humberto Delgado, cujos estudos realizados nos EUA na área da sua especialidade lhe proporcionaram a precoce promoção a general, tornando-se no mais jovem caudilho militar da Europa. Todos o conhecemos hoje no proscénio da História como o “general sem medo”, pela sua audaciosa candidatura à presidência da República em 1958, cuja derrota eleitoral, fabricada pelos esbirros do regime, o transformaram num proscrito e três anos depois no celebérrimo sacrificado da sanha fascista, assassinado numa emboscada da PIDE.
Mas em 1945 era ainda um delfim do regime salazarista e um promissor quadro da Aeronáutica Civil, cujo futuro político ninguém imaginava tão transviado. Nessa sua reunião com o Governador Civil de Faro, confidenciou-lhe que estavam a realizar-se importantes estudos no sentido de dotar a cidade de Faro com um grande aeródromo de carácter internacional. Conforme estudos prévios, deveria ser construído nos vastos terrenos da Arábia, situados na actual freguesia do Montenegro, local esse onde já costumavam aterrar alguns aviões, naturalmente pequenos e de origem militar. Cumpria-se assim uma das promessas proferidas no seu acto de posse como director do Secretariado de Aeronáutica Civil, ou seja, a construção de aeródromos em cidades estratégicas do país, para servir a defesa militar e o desenvolvimento económico das regiões do interior.
O Governador Civil de Faro, que era um homem sério e bastante ponderado, ficou muito impressionado com a presença de espírito e capacidade de trabalho do tenente-coronel Humberto Delgado, dedicando-lhe, em conversas privadas no Café Aliança, os mais rasgados elogios. Aliás, em declarações à imprensa local o Dr. Antero Cabral afirmaria: “O sr. Tenente-coronel Humberto Delgado, ilustre e grande amigo do Algarve que por várias vezes tem visitado, pessoa de raro dinamismo, cuja acção todo o país está acompanhando com o mais decidido interesse, cumpre desta forma a promessa que fizera no seu discurso de posse.”
Na verdade, um mês depois dessa reunião, o Governador Civil de Faro recebeu a 12-2-1945 um telegrama do director do Secretariado da Aeronáutica Civil, comunicando-lhe ter sido aprovada a construção dum campo de aviação no sítio da Arábia, concelho de Faro, a fim de dotar o sul do país de ligações aérea internacionais. No mesmo telegrama se informa que foram solicitados ao Ministério das Obras Públicas e Comunicações a elaboração do respectivo projecto para poder avançar rapidamente com a sua construção.
Em Fevereiro de 1946 o Gabinete Técnico dos Aeródromos Civis, informou o Governo Civil que se encontrava quase concluído o projecto de construção do campo de aviação no sítio da Arábia. Por sua vez, o governo reconhecendo o interesse público de um aeródromo em Faro, aprovou o decreto-lei n.º 36067 de 30-12-1946, através do qual a Câmara Municipal passaria a liderar o processo de expropriação dos terrenos e execução das obras de construção daquele equipamento, na parte aplicável ao dec. Lei n.º 28797 de 1-7-1938 com as alterações constantes no decreto n.º 35831 de 27-8-1946. Foram estes os documentos oficiais que deram ao município a autoridade de partir para a expropriação ou aquisição dos terrenos tendentes à construção do aeródromo. Mas factores de ordem económica e muita burocracia à mistura, forçaram o atraso das obras. Com o decorrer do tempo e o desenvolvimento da aviação comercial, revelou-se o turismo num sector a privilegiar, razão pela qual entendeu o governo que o aeródromo de Faro se deveria transformar num aeroporto internacional, equipamento de estrutural importância para o desenvolvimento económico do Algarve, o qual cujas obras estariam definitivamente concluídas em 1965. A sua inauguração efectuou-se com toda a pompa e circunstância, mas isso será objecto de análise numa “nótula” posterior.

Humberto Delgado, envolvido numa capa oferecida por um estudante, discursando junto ao monumento a Carvalho Araujo, durante a sua campanha eleitoral, na cidade de Vila Real, em 22 Maio de 1958

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

O Remexido e a Resistência Miguelista no Algarve

O leitor interessado pode ler ou fazer o dowload, em formato PDF, do meu mais recente trabalho publicado da revista «Al-'Ulyà», editada pelo Arquivo Municipal de Loulé.
Nele procurei analisar o trajecto de vida do Remexido como guerrilheiro, como cidadão, como político local e como militar. O trabalho está estribado em documentação inédita e em credíveis referências bibliográficas. A sua leitura pode ser muito proveitosa até mesmo áqueles que se sentem menos familiarizados com a temático das Lutas Liberais no nosso país.