terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A Poetisa do Mar


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tem sido meu hábito prefaciar as obras de autores já consagrados, sendo bem verdade que a confirmação ou reconhecimento do talento surge com o evoluir dos anos e, sobretudo, com a insistente (re)produção editorial da criatividade que corrobora o génio. Por isso me sinto feliz, e até de certo modo lisonjeado, pelo convite da poetisa Maria José Fraqueza para apensar umas breves palavras introdutórias a este esforçado e rigoroso trabalho de apreciação crítica elaborado pelo jurisconsulto Artemio Zanon, sobre a sua vasta e muito elogiada obra literária.
Efectivamente a obra de Maria José Fraqueza fala por si, constitui no seu conjunto uma espécie de análise introspectiva da sua alma de artista, do seu génio lírico, da sua sensibilidade intelectual, do seu humanismo literário e do seu apreço pelas Belas Letras. Como algarvia, de radícula e pura gema, não admira que lhe ecoem na alma, como inebriantes cânticos de sereia, os oníricos encantos de Orfeu, as árias celestiais das musas, o fascínio mítico e o enlevo lírico dos encantamentos, crisálidas boninas deste agareno canteiro de florescências poéticas.
Maria José Fraqueza é produto da cultura autóctone, fruto da inocência camponesa e da heróica coragem do marítimo da Fuzeta. Possui na alma esses dois pólos que se atraem e repelem mutuamente, a terra e o mar. Mas foi esse pélago imenso, esse indomável monstro que tantas almas tragou na sua insaciável voragem, que lhe inspirou as mais belas poesias da sua obra.
Todavia, também é verdade que nas suas veias corre o sangue e os genes do ancestral lirismo árabe, cuja profícua herança se poderá aquilatar nos poemas de Ibne Ammar, de Al-Mutamid, de Al-Oriani ou de Ibne-Cací, infelizmente hoje tão pouco, e mal, divulgados. Nas éclogas, nas odes, nos hinos e cânticos poéticos dos clássicos, mas sobretudo nos vates islâmicos do ancestral Garbhe, bebeu Maria José Fraqueza o elixir mágico da fonte de Orfeu, a cristalina inspiração dos seus idílicos versos. Mas foi na voz do povo que se inspirou para arquitectar muitas das suas belíssimas quadras, essa espécie de vaso poético que o povo coloca à janela do coração, e que em breves palavras contém uma peculiar lição filosófica no retinir musical da rima. A quadra popular, tantas vezes injustamente repelida pelos poetas de maior vulto, é, na simplicidade dos seus quatro versos, uma lição de vida. Desde os mais antigos trovadores provençais até ao nosso insigne Fernando Pessoa (grande apaixonado, e inspirado cultor da quadra popular), sempre se conservou na cultura portuguesa o genuíno e democrático modelo dos quatro versos, usado nas desgarradas poéticas e sobretudo nas canções de cariz popular, cuja recolha constitui o cerne do nosso folclore literário.
Não necessita pois de apresentação quem ao longo de décadas cultivou o verbo na mais lídima expressão lusíada, compondo sonetos nos moldes de Petrarca e nos cânones de Sá de Miranda.
Da sua lavra literária conheço tudo quanto saiu em livro. E tudo começou pelas Histórias da Minha Terra, publicado em 1989, um livro de poesia inspirado no ritmado pulsar da oralidade popular, uma espécie de recolha em verso das expressões que o povo usa para comunicar os seus mais genuínos sentimentos. Um livro de baptismo que ficou como uma marca, um cartão-de-visita da própria autora, já que nele também fala de si e das suas memórias de infância no seio dos sacrificados pescadores da sempre noiva aldeia da Fuzeta.
Segue-se-lhe Os Murmúrios do Mar, também de 1989, que é, para mim, um dos seus mais belos livros. O tema principal é naturalmente o mar, esse mar algarvio de dócil aparência, enlevo dos veraneantes e do turismo internacional, estrada de sonhos e de vidas, mas que, por vezes, também foi cemitério de muitos homens para quem a vida foi um constante desafio com a morte. Neste livro é o conjunto dos sonetos nele reunidos que mais impressiona o leitor. São inspirados nas formas naturais da vida, cantando o jogo do amor e a lotaria da vida, sempre acompanhada pela incerteza do destino, pelo fadário da desgraça e pela crueldade do infortúnio.
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, publicado em 1990, é um livro de poemas caldeado num finíssimo humorismo algarvio que só a Maria José Fraqueza seria capaz de traduzir em verso. A forma como brinca com as coisas sérias da vida parece fácil de escrever, mas só quem tenta imitar-lhe o exemplo é que se apercebe da dificuldade que enfrenta ao procurar traduzir em ritmados versos a graça e o espírito das alcunhas dos marítimos seus conterrâneos. Curiosas são também as quadras, tecidas no mais genuíno sentimento popular, cantadas com um sadio e profiláctico sorriso, sem maldade nem motejo. Ainda que tentando ser sarcásticas, vê-se que estão depuradas das tão banais quanto inconvenientes e depreciativas críticas contra a inocência do povo. Não há nos seus versos ridicularizações nem apoucamentos, mas tão só breves apreciações sarcásticas, tentando ironizar com certas atitudes do nosso quotidiano.
Vendavais da Alma, editado em 1994, é certamente o mais conseguido e o mais conhecido livro da sua autoria. Constitui uma antologia de sonetos de muita qualidade, seguindo os figurinos clássicos, tendo sempre em conta uma temática naturalista, uma inspiração intimista e sentimental. É uma panóplia de sonetos de muito boa urdidura, numa concepção introspectiva e de profunda emotividade, nos quais transparecem diferentes sensibilidades numa dicotomia de afectos e numa permanente interrogação metafísica entre o ser, o estar e o partir. Sente-se ainda na leitura deste livro de sonetos uma constelação de ideias, aparentemente díspares e confusas, construindo um caleidoscópio de idílicas formas, de incisivas cores e de impressivos cheiros, num comportando emocional ou numa coreografia de sentimentos que nos deixa estonteados, inebriados, encandeados pela luz do seu raro lirismo poético.
Há Natal dentro de Mim – Poemas de Natal, publicado em 1995, é, como se depreende facilmente, uma compilação de poemas inspirados na quadra natalícia, muito conforme, aliás, ao que é usual nessa época festiva, em que as editoras, e até os órgãos de comunicação social, procuram dar a público, em prosa e verso, textos ilustrativos do profundo significado de que se reveste o Natal para a união das famílias. Neste pequeno livro, Maria José Fraqueza reuniu vinte e cinco poemas de diferentes estruturas poéticas, cuja leitura transmite uma certa paz interior, uma solidariedade e um enlevo fraterno para as famílias desavindas, para além de comunicar às crianças uma mensagem cristã de bondade e afectuosa doçura para com os mais desfavorecidos, para quem o Natal poderá, pelas circunstâncias da vida, ter deixado de existir. Um livrinho muito belo e muito simples.
Maresias Infinitas, publicado também em 1995, é mais uma compilação de sonetos e poemas estróficos de diferentes estruturas, numa dimensão algo reduzida para o valor da sua poesia. Em todo o caso, nele volta o mar da Fuzeta a ser o cenário principal da sua inspiração, ressaltando mais uma vez o niilismo sentimental da própria vida. O Mar que dá a vida também dá a morte. O Mar, esse oráculo de mistérios e de terrores, traz no regaço das suas ondas os sonhos e as quimeras que só as musas sabem transmitir.
O Cântico das Ondas, publicado em 1998, é algo semelhante ao anterior, mas para melhor. Tem novamente o Mar como protagonista, como palco e como fonte de inspiração da sua poesia. Pela insistência temática percebe-se que Maria José Fraqueza pretende assumir-se como a Poetisa do Mar, a mulher embalada desde o berço nas ondas da sua amada praia da Fuzeta. E julgo que por tudo quanto tem feito pela sua terra merece o honroso epíteto de poetisa da Branca Noiva do Mar.
A verdade é que o mar, na plenitude da sua força mítica, está sempre presente na obra lírica de Maria José Fraqueza. Repare-se que os livros seguintes transmitem essa presença nos próprios títulos. Desde logo a Maré de Trovas – Quadras populares, publicado em 2000, cujos versos ao jeito do povo cantam os filhos do mar, cavalgando na procela das ondas para granjear com hercúleo sacrifício o sustento da família; mas também cantam as sereias, os búzios e todos os habitantes das misteriosas profundezas desse imenso pélago que serviu de estrada aos mareantes, para como dizia Camões, dar novos mundos ao mundo nunca antes imaginados.
Repisa a mesma temática em Cantando o Mar – Sonetos, publicado em 2005, no qual apura a técnica do soneto em belíssimas composições, mais profundas de sentimentalismo e paixão, sendo claro que nele atingiu um patamar de recursos metafóricos mais evoluído do que nas obras anteriores.
Por fim, surgem dois novos trabalhos, os mais recentes da sua inspirada lavra poética: Sob as Margens do Gilão, publicado em 2006, e dedicado à cidade de Tavira, no qual o misticismo da água, como fonte de vida, volta a estar presente na estrutura rimática dos seus versos. Um livro de muito boa qualidade poética que só confirma a minha anterior asserção, ou seja a poesia de Maria José Fraqueza ao longo dos anos tem vindo a apurar-se na eficácia, nos atributos, na energia e na eficiência dos valores poéticos, em suma, na excelência do seu lirismo.
O apelido da poetisa, Fortaleza, não traduz a força contra a resistência, mas antes a força moral elevada ao seu expoente máximo, isto é, a força de ânimo que inflama a alma dos vencedores. E em boa verdade, a Maria José, a Poetisa do mar, é uma mulher vencedora, que soube encarar os reveses e os infortúnios da vida com a intrépida coragem dos heróicos mareantes da sua querida praia da Fuzeta, dessa mítica Branca Noiva do Mar.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O espírito tertuliano – uma miragem do passado


José Carlos Vilhena Mesquita

Nos primórdios do século passado o país despontava para a curiosidade e o interesse das novas ideias libertárias, que fervilhavam um pouco por toda a Europa. Nas grandes cidades europeias, como Paris, Londres, Roma e Madrid, reuniam-se nos cafés pequenos grupos de artistas e homens de letras, para discutirem ideias e ideologias, novas concepções de ética e de estética, sobretudo novas formas de organização da vida social e económica, tendentes à construção de um mundo mais justo e mais fraterno, erigido sob a luz da liberdade.
Nos antigos Salões e nas Academias reais do setecentismo europeu, incorporaram-se as elites iluministas – numa mesclagem intelectualizada da nobreza com a alta burguesia, tendente ao debate das grandes reformas que inspiraram a formação do estado moderno. Porém, essas instituições culturais foram paulatinamente cedendo lugar aos espaços públicos de reunião mais acessível e popular, de que é principal exemplo o Salão-de-chã, de inspiração burguesa e frequência feminina, e o Café, de origens pequeno-burguesas, onde se reuniam, em democrática convivência, todos os estratos sociais, com especial incidência no empresariado mercantil e industrial.
Na verdade, é ao convívio intelectual e à efervescência das ideias que o Café deve as suas origens, cabendo à cidade universitária de Oxford a glória de ter erigido, em 1650, o primeiro de que confirmada memória. Quatro anos depois os mercadores de Marselha fundaram um Café (o segundo com veracidade histórica), para se reunirem e acertarem os seus negócios nos portos mediterrânicos. Seria, contudo, em Paris que, em 1689, abriria o Café Procope, o mais célebre do mundo por nele se reunirem os artistas, os políticos e os intelectuais mais famosos na época das Luzes.
O Café, com o decorrer dos anos, foi perdendo as suas particularidades selectivas e burguesas, mercê da tolerância de novas frequências, suscitada pela exponencial abertura de novos espaços nas cidades portuárias e no interior industrializado. Em boa verdade, o Café evoluiu com o tempo até se tornar numa instituição de equidade social, onde o convívio das classes dominantes se caldeou com o funcionalismo terciário e o operariado industrial. De centro de reunião empresarial, nomeadamente de Bolsa popular do comércio regional, o Café tornar-se-ia num espaço tertuliano das novas ideias políticas e num cenáculo artístico-literário de jovens talentos. Mais do que qualquer outra instituição social, o Café tornar-se-ia num dos símbolos do Liberalismo e da afirmação política da pequena burguesia.
O século XIX, a que muitos historiadores chamaram o século da Burguesia, parece-me que foi também o século dos Cafés, porque neles se aproximaram, em salutar convivência e em acesa discussão de ideias, os representantes dos diversos patamares em que se repartia a sociedade oitocentista. Os cafés, onde todos se sentiam iguais por se sentarem em mesas iguais, tornaram-se locais de reunião periódica para se tomar um simples e popular café, um requintado e burguês cacau, um conhaque ou um brandy, sorver um aromático havano ou uma onça de perfumado tabaco holandês em golfadas de cachimbo canadiano. Nos cafés divulgaram-se as ideologias redentoras do socialismo, do anarquismo e do republicanismo, do associativismo proletário e do sindicalismo, urdiram-se reivindicações operárias, marcaram-se greves e manifestações, congeminaram-se revoluções, escreveram-se romance, versos, canções, e até os grandes manifestos políticos, fundaram-se redacções de jornais, difundiu-se o maçonismo e proclamou-se a utopia dum mundo novo, sem domínio nem pecado.
O café tornou-se no símbolo de uma época, que transitou do liberalismo económico para o demo-liberalismo político. Atravessou os últimos séculos como um areópago da liberdade de reunião e de expressão. Neles se discutiam os comportamentos e as ideias mais avançadas, misturavam-se os sexos, expunham-se quadros de artistas excluídos e experimentavam-se transgressões de toda a ordem. Mas também neles o operário se instruía e divertia, quer lendo os jornais gratuitamente, quer jogando ao bilhar, às cartas, às damas, ao gamão e ao xadrez. Havia um reservado para os jogos de azar, uma espécie de casino dos pobres, e, nalguns casos, a horas mortas, faziam-se sessões de espiritismo. Alguns transformaram-se em cabarés, com espectáculos de música e dança, alternando com actividades menos recomendáveis, descortinando-se nalguns a existência de lupanares clandestinos.
Não obstante, os cafés conservaram-se fiéis às suas originais tradições, como respeitáveis locais de reunião da classe-média, verdadeiros alfobres das ideias libertárias e núcleos de livre discussão das novas concepções estéticas da Arte da Literatura. Alguns, raros, ainda subsistem no nosso país, como o Magestic, a Brasileira e o Nicola. Mas a esmagadora maioria dos Cafés históricos, berços da liberdade e da democracia, desapareceram já, na voragem do capitalismo e na rasoira boçal do imperante neo-liberalismo, a que a globalização deu uma expressão de impiedade cultural e de predominante ignorância.
Nos últimos decénios do século passado surgiram novos cafés, mais pequenos e mais simples, consentâneos com a sociedade em que vivemos, apressada, frenética e instável, por isso mesmo mais individualista e menos convivente. O Café Hélice, na Avenida 5 de Outubro, é um exemplo dos cafés da nova vaga. Pela sua despretensiosa aparência estética e sóbrio conforto, depressa se tornou num ponto de encontro a cujas mesas se costumam acolher cidadãos da classe média, que moram ou trabalham nas imediações, especialmente professores e estudantes, funcionários públicos, bancários, engenheiros, advogados, empresários, enfim, toda uma panóplia social ilustrativa dos tempos hodiernos.
Entre os seus frequentadores diários distinguia-se o eng.º Tito Olívio, morador num prédio fronteiro, que não raras vezes ali se reunia, no final do dia, com professores e outros cidadãos, interessados em discutir e reflectir sobre os problemas da cultura, da arte, do património histórico, e sobretudo da literatura, sendo que a alguns era a poesia que os atraía ao convívio. Tudo terá começado em Maio de 1997, quando Tito Olívio pensou, juntamente com Fonseca Domingos e Diamantino Barriga, que eram os mais assíduos, em reunirem-se semanalmente com outros poetas para analisarem o que cada um produzia, fazendo críticas construtivas, ajudando a melhorar as deficiências de estrutura formal ou de construção semântica, que não raras vezes os impediam de concluir com ilustração e beleza os seus poemas. Depressa o grupo cresceu, não só em quantidade como também em qualidade intelectual e em diversidade artística. Aos três poetas fundadores juntaram-se prosadores, jornalistas, ensaístas, músicos, pintores e até cantores, numa espécie de sociedade de autores da cultura farense. Enquanto uns iam ficando, marcando presença assídua e semanal, outros só esporadicamente voltavam para obter um conselho, uma crítica, uma ajuda pontual para remover dúvidas estéticas ou deficiências formais na construção das suas composições líricas.
Em torno de uma “bica”, de um chá ou de um galão com torradas, surgiu um salutar convívio entre homens e mulheres cultores de Orfeu, de diferentes idades e níveis de instrução, desenvolvendo pretextos para a reflexão intelectual sobre a dimensão estética da vida. Formou-se assim uma espécie de cenáculo, no qual pontifica ainda hoje a figura de Tito Olívio, não pelo seu natural protagonismo intelectual, mas muito especialmente pela sua bondade, pela sua generosidade e, sobretudo, pela sua disponibilidade para incentivar os poetas e para implementar iniciativas que promovem e divulgam as obras daqueles que ainda não obtiveram o justo reconhecimento do público. O grupo, cada vez mais numeroso, carecia de algo que o identificasse, que lhe desse nome, porque nascido à luz da liberdade rejeitava a formulação de estatutos ou de vínculos que o prendesse à sociedade civil e à organização política. A única regra a que aqueles tertulianos se comprometeram obedecer é a da tolerância, e do respeito mútuo no direito à diferença, tanto nas divergências políticas como nos credos religiosos.
A vida é um círculo em perpétuo movimento, cuja aceleração depende da vontade moral e da criatividade intelectual. Daí a ideia de adoptar a Hélice, que decora e dá o nome ao próprio café, como símbolo e designação mais apropriada para aquele grupo de poetas, de prosadores e artistas. Quando em Janeiro de 1998 nasceu a AJEA – Associação de Jornalistas e Escritores Algarvios, logo se lhe juntaram os fundadores da Tertúlia Hélice, cujo grupo passou a constituir-se numa espécie de núcleo dinamizador das actividades daquela agremiação no seio da sociedade farense.
Lembro aqui, a título de curiosidade, alguns dos autores com quem convivi a partir de 1998, quando tive o privilégio de me juntar à Tertúlia Hélice. Desde logo os que já desapareceram, todos talentosos poetas, como o genial Fonseca Domingos, o irreverente Vivaldo Beldade, a meiga e carinhosa Quina Faleiro e o apaixonado Hélder Azevedo - espírito notável de artista, poeta e prosador, cuja vida dava um romance. Mas outros que os acompanharam ou que lhes seguiram as pisadas, permanecem estoicamente na Tertúlia Hélice, tercendo armas pelo desenvolvimento da cultura algarvia. Destaco o Manuel Cardoso, poeta, músico e cronista, na sua escrita barroca, ilustrada, cuidada e perfeccionista, revela-se a nobreza do seu cavalheirismo e do seu raro polimento social. O Diamantino Barriga, poeta e quadrista de inspiração naturalista, generoso, fraterno e de bondosíssimo coração, uma alma de eleição já hoje difícil de encontrar na nossa sociedade. Igualmente bondosa é a Romana Rosa, poetisa de invulgar criatividade, que escreveu em prosa e verso belos livros para as crianças, procurando sempre incutir no espírito dos jovens a mesma generosa fraternidade com que ela sempre pautou a sua vida. A poetisa Manuela Odete, sempre atenta às questões ambientais e à solidariedade social, temas em que se tem inspirado para a composição dos seus belos sonetos. O mesmo acontece com a Célia Roque, mulher sofredora, castigada pelos desgostos da vida, que procurou na poesia o acolhedor refúgio para as suas mágoas. A Lília Bárbara cuja obra poética tem escapado aos elogios da crítica, mas que é sem favor um dos mais seguros valores da literatura algarvia. O mesmo acontece com o Ferradeira de Brito, poeta, dramaturgo, letrista e compositor, de quem há pouco apresentei 20 livros de uma assentada, atingindo certamente um recorde digno de figurar nos anais do Guiness.
Entre as poetisas da Tertúlia, merece destaque especial a Glória Duarte Marreiros, detentora de vasta obra poética, muito elogiada pela crítica e justamente asseverada pelos galardões literários que tem arrebatado nos últimos anos. Os sonetos da Glória são verdadeiras sinfonias de expressividade poética, em que a paixão e a mágoa se juntam num sincero amplexo de sentimentos e emoções. Entre as frequentadoras mais assíduas, distingue-se não só pelos seus dotes de inteligência e de fecunda originalidade literária, como ainda pelo seu maternal carinho, a Ilda Costa. Uma verdadeira dama, há muito aposentada das suas funções de criativa da alta moda parisiense, dedicando-se hoje à pintura e, sobretudo, à poesia, com invulgar e engenhoso talento, cabendo-me a honra de ter prefaciado o seu livro de estreia. Outra das figuras que inicialmente marcava posição distinta no seio da tertúlia era a Manuela Saraiva, senhora muito educada, de belos traços femininos, com laivos de uma nobreza genuína, que veio para Faro quando a transportadora aérea nacional aqui abriu os seus escritórios. Tinha sempre a palavra certa para a crítica mais sincera e exigente, por vezes com uma mordacidade desarmante. Por fim, a Maria Margarida, a nossa eloquente diseuse, senhora do mais fino quilate social, professora aposentada, possuidora duma prodigiosa capacidade de memorização, o que lhe permite decorar e declamar um poema em poucos minutos. A sua elegante presença física, associada à mais moderna indumentária parisiense, faz dela proeminente figura nos recitais de poesia promovidos pela AJEA, onde consegue arrebatar do pública as mais estrondosas ovações.
Entre os mais recentes frequentadores da Tertúlia Hélice merecem especial destaque o Francisco Alexandre, o François Blanc e o Telmoro. O primeiro é professor e poeta, muito inteligente, bastante culto e perseverante estudioso das civilizações clássicas, autêntico exegeta das profecias e do misticismo bíblico, que discute e analisa com a mais persuasiva eloquência. O segundo é um médico francês, muito culto e generoso, verdadeiro andarilho do mundo latino-americano, dedicando-se à investigação criterioso da medicina andina. Apaixonado pela cultura lusíada, que estudou com profundidade e rigor científico, aqui veio aportar, escolhendo o Algarve e a cidade de Tavira como reduto natural para a sua inspiração poética. Possui vasta obra literária, consagrada internacionalmente pela crítica da especialidade. Por fim, um destaque muito pafrticular para o poeta Telmoro, espírito dos mais criativos e talentosos que conheço no Algarve, um verdadeiro humanista à imagem do seu Mestre e mentor literário, Tito Olívio, que o lançou no mundo das letras algarvias. É dos raros poetas que compõe em várias línguas, espanhol, italiano, francês e inglês, um autêntico poliglota, que escreve e canta as suas próprias canções. Alguns dos seus poemas foram musicados, cantados e editados em dois CDs por Alberto Carlos, um artista que também frequentou a Terlúlia Hélice até atingir a merecida consagração, sendo hoje considerado como um dos mais distintos e requisitados cantores das casas de fados sedeadas no Algarve.
Não querendo esquecer-me de ninguém, aqui presto também a minha homenagem à Rosinda Vargues e ao Luciano, seu marido, ela cantora, ele compositor e instrumentista, que têm participado na apresentação de livros editados pela AJEA, cantado belíssimas canções com poemas de Tito Olívio, de Telmoro, de Ferradeira e Brito e até de Vitória Rodama, que é a mais recente e promissora poetisa da Tertúlia.
Para terminar, impõe-se acrescentar que considero esta Antologia como uma breve amostra do talento poético e da qualidade literária dos seus intervenientes. Convém frisar, entre muitos outros aspectos reveladores da sua genuína criatividade poética, que quase todos eles têm obra publicada em letra de forma, sendo certo que alguns possuem vários prémios que atestam o reconhecimento público das suas obras. No seio deste diversificado grupo de poetas, prosadores e artistas, justifica-se que, em nome de todos, aqui deixe uma palavra de apreço e de muita gratidão para com o poeta Tito Olívio, alma-mater da Tertúlia Hélice e da maioria das actividades culturais realizadas pela AJEA, da qual é, sem favor nem exagero, a principal figura. A sua natural generosidade tem-no levado a erguer aos ombros muitos poetas que, pela sua gigantesca sombra, nunca veriam brilhar a luz do sol. A publicação desta Antologia é mais uma prova da sua capacidade de iniciativa e da sua dedicação fraternal a todos quantos frequentam a Tertúlia Hélice.
Como os últimos são os primeiros, termino com uma menção de gratidão para com a Vitória Rodama, a cuja abnegação e espírito de iniciativa se deve o patrocínio financeiro desta Antologia.

Prefácio ao livro Antologia Poética da Tertúlia Hélice

domingo, 1 de Novembro de 2009

A família Lã, e o seu palácio em Faro


Uma das perguntas que há tempos um dos meus alunos me colocou, foi a de saber se eu tinha conhecido o Palácio Lã em Faro. Isso fez com que me lembrasse de reunir alguns apontamentos que tenho em fichas, mal ordenadas e já hoje quase por mim esquecidas, sobre algarvios notáveis. Vejamos o que possuo sobre o assunto.
Quem construiu a residência apalaçada da família Lã, demolida no princípio dos anos oitenta do século passado para no seu lugar se erguer o actual Edifício Tridente, foi o sr. Modesto Gomes Reis, proprietário do renque de habitações que no lado fronteiro ocupavam o quarteirão de fogos operários e armazéns industriais.
Essa casa, de traço e decoração sevilhana, mandara-a construir o Modesto Reis para sua própria residência, numa clara afirmação do seu sucesso empresarial e do seu poder económico. Os meios de fortuna de que dispunha, em significativa abundância, provinham das suas fábricas de fiação, de algodão e linho, concentradas no quarteirão que se estendia desde o local onde actualmente se encontra o edifício da Região de Turismo até ao cruzamento com a rua Bernardo de Passos, de acesso ao Jardim João de Deus, vulgo da Alameda.
É de realçar que para se construir o Liceu de Faro, edifício que constitui hoje a Escola Tomás Cabreira, houve que contar com a benemerência do Modesto Reis, para a cedência de algumas casas e terrenos actualmente integrantes daquele amplo complexo educativo.
Importa desde já acrescentar que o Modesto Reis era de origens espanholas, creio que de famílias da Andaluzia, o que não é para admirar, pois grande parte da indústria algarvia dos meados do séc. XIX foi aqui implantada por espanhóis, sobretudo das terras meridionais. Ao que sei, era parco de instrução, faltava-lhe polimento e finura de trato, tinha atitudes rudes e gestos boçais. Em contrapartida, era esforçado no trabalho e muito persistente nos negócios, apesar de desconfiado e ardiloso. Tinha espírito criativo e empreendedor. Desdenhava dos burgueses ricos a quem chamava de “finórios” e tinha verdadeiro asco aos argentários, a quem chamava de “sanguessugas”.
O Modesto tinha três filhas, que segundo consta eram bonitas e muito prazenteiras, as quais se integraram muito bem na sociedade. Além de simpáticas eram apreciadoras da música e da poesia, causando assolapadas paixões entre os cultores de Orfeu...
Casaram as três com algarvios, que formaram respeitáveis famílias na sociedade do seu tempo. Porém, mais tarde, com a morte do Modesto Gomes Reis, as filhas herdaram os imóveis e as indústrias, que, por razões várias, sobretudo por vicissitudes externas, tiveram de vender ao empresário João Francisco Lã, creio que natural dos arredores de Lisboa, oriundo de uma família de comerciantes com negócios e relações no Algarve.
Foi esta família Lã quem comprou a vivenda do Modesto Reis, que após alguns melhoramentos a transformou naquilo a que o vulgo chamou de “Palácio Lã”. Mas este empresário era também aquilo a que em Lisboa se chamava um novo-rico, ou seja, alguém que enriquecera à custa das novas oportunidades suscitadas pelas alterações políticas do novo regime republicano. Quem o conheceu dizia que não era menos rude do que o Modesto Reis, pelo que o velho palácio em estilo neo-islâmico continuava a ser residência de príncipes... do dinheiro.
A origem da fortuna dos Lã enraizava-se no negócio de importação e exportação de produtos alimentares e de primeira necessidade, especialmente de café, açúcar, cereais e leguminosas, trigo, cevada, aveia, feijão e grão, além de frutos secos, amêndoa, figo, vinhos e aguardentes. Mas foi a transformação industrial do azeite e da alfarroba que mais lucros lhes proporcionaram. Era no Largo do Carmo, na esquina com a rua da Fonte do Bispo, que se situavam as mercearias e armazéns de venda, por grosso e a retalho, da família Lã. As indústrias, os lagares e destilarias, continuavam a ocupar os quarteirões iniciais da actual avenida 5 de Outubro. Nos finais dos anos setenta, que foi quando vim morar para a Rua Eça de Queirós, conheci não só as velhas instalações industriais como ainda os bairros onde residiam ainda muitos dos antigos operários.
A título de curiosidade, faço aqui lembrar que quando o general Carmona efectuou a primeira das duas visitas presidências que realizou ao Algarve, ficou instalado no edifício do Departamento Marítimo do Sul, pouco depois devolvido à Igreja para nele ser reinstalado o Paço Episcopal; mas alguns dos ministros e membros da sua comitiva oficial instalaram-se na majestosa residência que o vulgo designava por “Palácio Lã”. Nessa altura, foram tão magnificamente recebidos e tratados pela família anfitriã, que o governo, com a anuência do próprio Presidente Óscar Carmona, decidiu agraciar o João Francisco Lã com o grau de Cavaleiro de uma ordem militar, creio que de Cristo, pelo que o vulgo, com a subserviente deferência da época, passou a tratá-lo por “Senhor Comendador”.
Em abono da verdade, devemos afirmar que a Família Lã obteve grande notoriedade na sociedade farense, sobretudo nas décadas de trinta até sessenta do século XX, devido à projecção empresarial dos seus negócios. Por isso se compreende que alguns dos seus membros tenham sido convidados a desempenhar alguns cargos públicos importantes, nomeadamente na autarquia farense e nos grémios associativos relacionados com o comércio e a indústria. Um dos seus filhos, José Francisco Lã, desenvolveu uma grande paixão pela aviação, tornando-se amigo muito dedicado dos principais pilotos aviadores da aeronáutica civil e militar do seu tempo. Digamos que durante quarenta anos o “Lã Aviador” foi não só um pioneiro da aviação no Algarve, como ainda o seu maior impulsionador, divulgando iniciativas nacionais e internacionais, criando um clube de aviadores e recrutando instrutores para o ensino da pilotagem aérea. Ao seu esforço se ficou ainda devendo construção de uma pista improvisada no sítio da Meia Légua para a aterragem de pequenas aeronaves. Nessa pista chegou a aterrar, mais do que uma vez, o seu íntimo amigo General Humberto Delgado que na sua casa era sempre recebido da forma mais efusiva e entusiástica.
Os algarvios, na sua acirrada e, por vezes, inconveniente ironia, apelidavam jocosamente o José Francisco Lã como “Ministro do Ar”, epíteto que, aliás, não lhe passava desapercebido. Era natural da Fuzeta, e faleceu em Maio de 1975, com 73 anos de idade. Os seus dois filhos foram igualmente importantes cidadãos: Maria da Encarnação Silveira Lã Fernandes Correia, foi uma notável Inspectora do Instituto de Oncologia, e o José Silveira Lã, foi um competente e muito dedicado funcionário da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Foi o último do clã, porque o seu irmão mais velho, João Francisco Lã Júnior, o grande impulsionador dos negócios herdados do patriarca da família, morrera em Faro, vinte anos antes, a 5-10-1954, com 60 anos de idade, depois de umas férias de intensa pesca desportiva na vila de Sagres, de onde regressara bastante doente. Dotado de um apurado sentido empreendedor e de grande inteligência, expandiu os negócios que do pai herdara, tornando-se num dos mais prestigiados comerciantes da praça de Faro, com capital investido em diversas firmas algarvias, o que lhe permitia manter interesses financeiros em diversos sectores ao mesmo tempo. Em todo o caso era no mercado das hortícolas, dos frutos secos, azeites, vinhos e cortiças, que mais se evidenciou, mantendo avultados negócios no estrangeiro. As suas relações internacionais com diversos países europeus e com as nossas antigas colónias permitiram-lhe dispor de meios financeiros capazes de se tornar num dos homens mais ricos do Algarve. O prestígio de que gozava entre os seus pares valeu-lhe a eleição para Presidente do Grémio dos Exportadores de Frutos e Produtos Hortícolas do Algarve. Além disso desempenhava as honrosas funções de director-tesoureiro da Caixa de Abono de Família do distrito de Faro.
Por fim, o seu primo, António Lã, natural de Mira d’Aire, e notável armazenista de mercearias em Faro, que desempenhara vários cargos públicos, nomeadamente em 1934 na vereação municipal, e, mais tarde, na Comissão Municipal de Turismo, onde se manteve muitos anos, viria a falecer, também nesta cidade, em Agosto de 1974, com 69 anos de idade.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O Monografismo Algarvio - O pioneirismo de Ataíde Oliveira

Este artigo corresponde a uma conferência pronunciada na Biblioteca Municipal de Loulé a 30 de Novembro de 2005,aquando das comemorações do 90.º aniversário do falecimento do Dr. Francisco Xavier de Ataíde Oliveira. O texto, depois de melhorado, foi publicado na revista Al-Ulyà, órgão científico do Arquivo Municipal de Loulé, cuja edição sai a público sob a chancela da respectiva edilidade.
O leitor interessado poderá ler o texto neste blog, ou fazer o seu download para posterior utilização.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Da Extinção à Restauração do concelho de Aljezur nos finais do séc. XIX

sábado, 17 de Outubro de 2009

A localização do aeroporto de Faro, escolhida em 1945 por Humberto Delgado

J. C. Vilhena Mesquita

Em Janeiros de 1945 o então governador civil de Faro, Dr. Antero Cabral, reuniu-se em Lisboa no Secretariado de Aeronáutica Civil, dirigido pelo então tenente-coronel Humberto Delgado, cujos estudos realizados nos EUA na área da sua especialidade lhe proporcionaram a precoce promoção a general, tornando-se no mais jovem caudilho militar da Europa. Todos o conhecemos hoje no proscénio da História como o “general sem medo”, pela sua audaciosa candidatura à presidência da República em 1958, cuja derrota eleitoral, fabricada pelos esbirros do regime, o transformaram num proscrito e três anos depois no celebérrimo sacrificado da sanha fascista, assassinado numa emboscada da PIDE.
Mas em 1945 era ainda um delfim do regime salazarista e um promissor quadro da Aeronáutica Civil, cujo futuro político ninguém imaginava tão transviado. Nessa sua reunião com o Governador Civil de Faro, confidenciou-lhe que estavam a realizar-se importantes estudos no sentido de dotar a cidade de Faro com um grande aeródromo de carácter internacional. Conforme estudos prévios, deveria ser construído nos vastos terrenos da Arábia, situados na actual freguesia do Montenegro, local esse onde já costumavam aterrar alguns aviões, naturalmente pequenos e de origem militar. Cumpria-se assim uma das promessas proferidas no seu acto de posse como director do Secretariado de Aeronáutica Civil, ou seja, a construção de aeródromos em cidades estratégicas do país, para servir a defesa militar e o desenvolvimento económico das regiões do interior.
O Governador Civil de Faro, que era um homem sério e bastante ponderado, ficou muito impressionado com a presença de espírito e capacidade de trabalho do tenente-coronel Humberto Delgado, dedicando-lhe, em conversas privadas no Café Aliança, os mais rasgados elogios. Aliás, em declarações à imprensa local o Dr. Antero Cabral afirmaria: “O sr. Tenente-coronel Humberto Delgado, ilustre e grande amigo do Algarve que por várias vezes tem visitado, pessoa de raro dinamismo, cuja acção todo o país está acompanhando com o mais decidido interesse, cumpre desta forma a promessa que fizera no seu discurso de posse.”
Na verdade, um mês depois dessa reunião, o Governador Civil de Faro recebeu a 12-2-1945 um telegrama do director do Secretariado da Aeronáutica Civil, comunicando-lhe ter sido aprovada a construção dum campo de aviação no sítio da Arábia, concelho de Faro, a fim de dotar o sul do país de ligações aérea internacionais. No mesmo telegrama se informa que foram solicitados ao Ministério das Obras Públicas e Comunicações a elaboração do respectivo projecto para poder avançar rapidamente com a sua construção.
Em Fevereiro de 1946 o Gabinete Técnico dos Aeródromos Civis, informou o Governo Civil que se encontrava quase concluído o projecto de construção do campo de aviação no sítio da Arábia. Por sua vez, o governo reconhecendo o interesse público de um aeródromo em Faro, aprovou o decreto-lei n.º 36067 de 30-12-1946, através do qual a Câmara Municipal passaria a liderar o processo de expropriação dos terrenos e execução das obras de construção daquele equipamento, na parte aplicável ao dec. Lei n.º 28797 de 1-7-1938 com as alterações constantes no decreto n.º 35831 de 27-8-1946. Foram estes os documentos oficiais que deram ao município a autoridade de partir para a expropriação ou aquisição dos terrenos tendentes à construção do aeródromo. Mas factores de ordem económica e muita burocracia à mistura, forçaram o atraso das obras. Com o decorrer do tempo e o desenvolvimento da aviação comercial, revelou-se o turismo num sector a privilegiar, razão pela qual entendeu o governo que o aeródromo de Faro se deveria transformar num aeroporto internacional, equipamento de estrutural importância para o desenvolvimento económico do Algarve, o qual cujas obras estariam definitivamente concluídas em 1965. A sua inauguração efectuou-se com toda a pompa e circunstância, mas isso será objecto de análise numa “nótula” posterior.

Humberto Delgado, envolvido numa capa oferecida por um estudante, discursando junto ao monumento a Carvalho Araujo, durante a sua campanha eleitoral, na cidade de Vila Real, em 22 Maio de 1958

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

O Remexido e a Resistência Miguelista no Algarve

O leitor interessado pode ler ou fazer o dowload, em formato PDF, do meu mais recente trabalho publicado da revista «Al-'Ulyà», editada pelo Arquivo Municipal de Loulé.
Nele procurei analisar o trajecto de vida do Remexido como guerrilheiro, como cidadão, como político local e como militar. O trabalho está estribado em documentação inédita e em credíveis referências bibliográficas. A sua leitura pode ser muito proveitosa até mesmo áqueles que se sentem menos familiarizados com a temático das Lutas Liberais no nosso país.

História das Pescas em Tavira no século XIX

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

A JUVENTUDE e a EDUCAÇÃO – da política da cigarra ao sacrifício da formiga


José Carlos Vilhena Mesquita

O conceito de Juventude, pela sua complexidade psico-fisiológica, é muito vasto e de difíceis contornos. Porém, é hoje consensual que o seu escalão etário oscila entre os 15 e os 24 anos, qualquer que seja o estatuto social, religioso e cultural em que se insere. Num cômputo universal o espectro etário da juventude está avaliado em 1092 milhões de pessoas, metade das quais já constituíram família ou estarão prestes a mudar de estatuto social. A maioria desses jovens vive em países subdesenvolvidos, inseridos na esfera de influência económica do chamado terceiro-mundo. Vivem em zonas rurais, com particular incidência na África, a sul do Saara, no sudoeste asiático e na Oceânia. Neste espectro humano cerca de 65 milhões do sexo masculino e 106 do feminino não sabem ler nem escrever, e pertencem a países pobres. Acresce a esta estimativa cerca de 95 milhões de jovens desempregados, sendo certo que em todo o mundo as taxas de desemprego entre os jovens é duas vezes superior à dos adultos.
Em Portugal cerca de 80% da população possui a educação básica e só a restante ascende aos níveis superiores de instrução especializada. A percentagem respeitante ao sector da Juventude ronda os 30% da população residente, a maioria dos quais ocupados nos diversos sectores produtivos. Uma minoria dessa percentagem termina a sua fase de juventude nos bancos das universidades. Com efeito, 70% da população portuguesa com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos possui a instrução básica. Note-se que a escolaridade obrigatória estabelece-se desde o ensino primário até ao 9.º ano, passando a prescindir dessa obrigatoriedade a partir dos 15 anos, traduzindo-se a experiência dos últimos anos numa escala sempre crescente de incomplementaridade das expectativas nacionais de formação mínima educativa.

A política da paixão socialista

Nestes últimos anos, os governos elegeram a educação como prioridade máxima nacional, propagandeando mesmo uma espécie de “paixão política” que marcaria o sentido nacional e os Orçamentos Gerais do Estado. Se efectivamente consistiu num investimento ou num simples processo de aplicação financeira, acumulador do índice da despesa nacional, é o que veremos na próxima década, sendo minha convicção que a verdade deverá encontrar-se a meio caminho das expectativas criadas pela máquina da propaganda nacional. Contudo, muito se irá alterar com a suposta panaceia de Bolonha, que, não melhorando o ensino nem desenvolvendo a ciência, terá certamente o positivo desfecho de poupar ao Estado muitos dos milhões de euros que até agora investia na Educação. Esperemos que as propinas baixem 25% do seu valor actual, porque é nessa percentagem que vai diminuir o tempo de frequência nas licenciaturas.
O grande defeito do actual processo de educação nacional está na estratégia de avaliação das expectativas gerais, que infelizmente se nivela pelos mais baixos índices, o que forçosamente cavará um fosso cada vez maior entre as camadas instruídas e a mediocridade, à qual sobeja mesmo a mais elementar consciência cívica. O problema agudizou-se quando a mediocridade impante se aventurou à conquista dos partidos políticos, infiltrando-se nas chefias para sub-repticiamente empalmar o poder. Aquilo a que chamo a mediocridade aventureira expulsou da senda política e das esferas do poder os homens de bem, os mais instruídos e melhor intencionados, os mais honrados, impolutos e desinteressados das sinecuras da governança.
O exemplo do Ministério da Educação é paradigmático. Instalaram-se nos diversos gabinetes daquele Ministério uma clique de funcionários, especializados em Ciências da Educação e “coisas” afins, de que foi particular exemplo o Prof. Marçal Grilo, que foi quem no último quarto de século timonou a nau educativa da nação portuguesa. Os resultados estão à vista, mas parece que não têm sido os mais animadores. É o que acontece quando se misturam os interesses partidários com os interesses da Nação, e os rasteiros valores da política com a suprema grandeza da Ciência.

A educação auto-sustentada e a instrução popular

Pela experiência acumulada, nos mais de vinte anos que dedico à docência universitária, constato que raros são os alunos que leram integralmente uma obra de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queirós, de Vitorino Nemésio ou de Jorge de Sena. Quando muito ouviram falar desses autores ou leram deles alguns textos, breves e parcelares, ficando na total ignorância em relação às suas obras.
Urge pois proceder à alfabetização cultural da nação portuguesa, não só através duma educação auto-sustentada, como principalmente dum programa nacional de instrução das massas laborais, urbanas e rurais. O processo educativo deve contemplar não só os jovens estudantes, como também as classes etárias intermédias ou produtivas. Aos desempregados deverá ser dada prioridade num programa de formação intelectual e de reaprendizagem da vida produtiva. Aos idosos deverá ser franqueada a entrada nas universidades para obterem cursos reais e efectivos, e não apenas a simples ocupação dos tempos livres nas designadas Universidades da Terceira Idade.
É fácil incutir não só nos jovens como nas classes adultas uma educação autodidáctica, estribada na observação e na análise superficial, a qual poderá vir a ser consolidada por um acompanhamento de leituras educativas a preços controlados e acessíveis. O Estado precisa de optar urgentemente por uma política do Livro, que facilite a edição a baixo custo e proporcione o consumo e a popularização da leitura. Daqui resultará uma política de defesa e valorização da língua portuguesa, uma divulgação e fomento da leitura pelo prazer da descoberta autodidáctica dos grandes valores da literatura nacional.
Em paralelo impõe-se uma política de familiarização dos estudantes e da classe média com a música, com a herança etnográfica do nosso património etnomusical, das danças e cantares, dos instrumentos e dos sons. Por outro lado, parece-me implícita a educação da preservação dos valores identificativos, como é o caso do património histórico, arquitectónico, artístico e cultural. A preservação e fruição dessa riqueza nacional não devem ser pertença exclusiva dos mais instruídos, mas antes da população em geral, através de uma política de divulgação e, vamos lá, do incentivo ao orgulho de ser português, na justa proporção do nosso contributo universal e da nossa rudimentar inserção europeia.

A gestão das prioridades

A viabilização deste programa de articulação da Cultura com a Educação deverá ser um dos prioritários objectivos do Estado. A “gestão das prioridades” em que se deve articular essa relação Cultura/Educação é que se tornará no principal papel do Estado, em sintonia com os poderes locais e com as Organizações Não Governamentais. Há, talvez, que voltar a recuperar o que é genuíno – não o que é fundamental – o que é caracteristicamente lusíada e tudo aquilo que constituem valores clássicos do humanismo ocidental, sem contudo marginalizar as vanguardas experimentais que optam por outras vias de criação, não divergente nem contrárias aos interesses gerais. Errado seria ver no vanguardismo a prioridade nacional em nome da livre criação artística e do subsídio-dependentismo, o qual forçosamente resultará em detrimento dos objectivos globais da educação, os quais julgamos que devem embasar numa solidez intelectual construída a partir da leitura dos autores e das obras em que se consubstanciou, ao longo dos séculos, a cultura portuguesa.
É preferível nas idades de formação intelectual ler Bernardim Ribeiro, Camões ou Cesário Verde, do que os poetas e escritores simbolistas, modernistas, surrealistas ou existencialistas, cujo discernimento socio-filosófico só se poderá aquilatar depois de adquirida uma sólida cultura geral. Nessa altura a descoberta dos movimentos vanguardistas tornar-se-à mais positiva e mais inteligível para o leitor, pois que está mais receptivo à aquisição da diferença e da mudança.
Nas escolas é preciso induzir os jovens à leitura sem que isso constitua necessariamente uma obrigação ou um parâmetro de avaliação exclusiva, o qual se deverá basear na liberdade de opção e de auto-análise. O aluno conforme a sua classe etária deverá ler quatro a cinco obras, de prosa ou de poesia por ano, para ir consolidando a sua instrução auto-sustentada. O recurso à memorização dos factos históricos, das regras gramaticais, dos basilares teoremas matemáticos e de certas fórmulas químicas, tem de ser exigido através duma maior responsabilização do aluno. As exigências de trabalho, de sacrifício e de competência, assim como as penalizações e reprovações terão de ser restabelecidas sem receio de atingirem índices elevados, de forma a criarmos novas gerações de excelência e de inquestionável responsabilidade cívica.

A defesa da língua e o combate à iliteracia

A forma pouco polida, descuidada, agressiva e despudorada como se tem usado a língua portuguesa, nomeadamente nos meios de comunicação social, quer por parte dos jornalistas, quer por parte dos artistas, escritores e políticos, é sintoma da nossa crescente iliteracia e da nossa progressiva insuficiência intelectual. Essa imagem de incompetência no elementar uso da linguagem tem contribuído em larga escala para o rebaixamento dos níveis de qualidade e de erudita aplicação da comunicação integrada. Cada vez mais se desvaloriza e se corrompe a língua portuguesa, através da introdução de estrangeirismos e de descabidos neologismos.
O regular ordenamento da expressão oral e, sobretudo, a exigente composição da escrita, contribuirá para o aperfeiçoamento do diálogo, da erudição e da respeitabilidade social. Só através do correcto uso da capacidade de expressão é que se poderá explanar a superioridade do pensamento. Pensa melhor quem traduz melhor, ou seja, as ideias poderão ser tanto ou melhor adquiridas quanto mais esclarecida e cristalina se tornar a comunicação. Para isso urge aperfeiçoar as capacidades de escrita nas classes estudantis. Isso adquire-se e entranha-se através da leitura que melhor se adapta ao seu nível etário e intelectual.
Lembro-me que no passado houve tentativas de popularização da cultura e da instrução através da edição de livros a baixo preço, com um discurso acessível, sintetizado e explícito. Foram disso exemplo a «Colecção Cosmos» e os «Cadernos da Seara Nova». Através deles aprenderam gerações de portugueses sem recursos financeiros para ocuparem os bancos universitários. O esforço de Bento de Jesus Caraça é paradigma desse programa de autodidactismo das classes trabalhadoras. Também por esse caminho fizeram ligeiras incursões alguns espíritos superiores como António Sérgio, Jaime Cortesão, Raul Proença e outros “searistas” ou “presencistas”.
O que acontece actualmente é que os alunos quando chegam às Universidades têem uma propensão natural para o generalismo, pois que assim foram treinados nos anos anteriores, com recurso ao ensino das línguas, da Filosofia, das Humanidades e das Ciências Exactas. O seu intelecto mostra-se disposto a derramar a atenção por várias matérias. Porém, na Universidade é logo conduzido para a focalização científica, para a especialização e para o particularismo. Desse modo contrai-se a sua avidez de aprendizagem, secciona-se e fulcraliza-se a sua formação científica em aspectos exclusivamente relacionados com a sua área de formação. Daí que os cursos das chamadas Ciências Exactas ou das Ciências Experimentais não optem por uma formação mais abrangente, no sentido de acompanharem a acumulação de conhecimentos com a sua integração e explicação no tempo social, no tempo político e no tempo cultural.
O desfasamento entre o ensino secundário e universitário é abissal. Contudo, nota-se hoje uma crescente aproximação do topo para a base. Parece-me que deveria ser ao contrário. Mais grave ainda é o nível cultural das licenciaturas antigas para as novas licenciaturas, que sendo cada vez maior só tem conduzido ao abaixamento da qualidade científica e das exigências de competência profissional. Com a reforma de Bolonha tudo se resumirá à queda da fasquia da qualidade, da exigência e da competência, numa rasoira da sumidade e numa entronização da mediocridade intra-europeia. Quem se vai aproveitar disso é o Reino Unido e os Estados Unidos da América, que assim irão superiorizar-se ao nosso baixo nível científico e à nossa inferior qualidade académica. Dantes era-mos pobres mas cultos, agora vamos continuar a ser pobres, mas cada vez mais ignorantes.

sábado, 26 de Setembro de 2009

Breve Ensaio Etno-Económico sobre o Algarve - homenagem ao Prof. Viegas Guerreiro


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tive a honra de ter sido aluno do Prof. Doutor Manuel Viegas Guerreiro. Mas tive o prazer e a satisfação de o conhecer pessoalmente, sentindo-lhe o pulsar da alma algarvia na forma alegre e prazenteira como acolhia, sem excepção, todos os que dele se abeiravam, para desfrutar do conhecimento que dele emanava em inesgotável manancial ou, simplesmente, receber conselhos, indicações e referências. Era um cientista na verdadeira acessão da palavra. Paciente, meticuloso e muito rigoroso nos seus trabalhos de investigação, nomeadamente na recolha da Literatura Oral, em que foi modelar. Humilde e ávido de aprender, mas fraterno na transmissão do saber. Acima de tudo era homem de bom coração e de uma ternurenta generosidade. Um verdadeiro paradigma para os colegas e alunos.
O amor à terra-mãe, o espírito “algarviísta” - tão peculiar nos que vivem longe do seu Algarve - era um sentimento, uma emoção sempre presente quando alguém se revelava seu conterrâneo. Falava logo das lendas e encantamentos que à sua terra diziam respeito, imitando sotaques e trejeitos regionais que a todos encantava, pela forma viva e jovial como os interpretava.
Amiudadas vezes trocamos impressões sobre as particularidades da cultura algarvia. Conheci-o quando era caloiro na Faculdade de Letras de Lisboa, achando desde logo que era uma bondosíssima e muito carismática figura daquela casa. Todos o conheciam e respeitavam, havendo sempre da sua parte um sorriso luminoso de extrema candura e afabilidade. Recordo-me bem da impressão que me fizera a sua aparente estatura doutoral, marcada por uma conservadora indumentária de fato e gravata, alto, elegante, olhos perscrutantes, cabelo branco e pescoço ligeiramente inclinado. Metia respeito, e para mim, jovem aluno, aquele deveria ser o protótipo do Professor Catedrático.
Encontrava-o às vezes na Biblioteca da Faculdade ou na Biblioteca Nacional, quase sempre rodeado de alunas e na sua pose habitual: com a mão na ilharga e o pescoço inclinado. Aquele “defeito” no pescoço era, em boa verdade, a sua imagem de marca.
Mais tarde, quando fiz a cadeira de Antropologia Cultural pedi-lhe ajuda para obter bibliografia e sobretudo para ouvir as suas explicações sobre os chamados padrões culturais do Algarve. Ficamos amigos. Amizade essa que se estreitaria com o decorrer dos anos e principalmente quando comecei a fazer a Algarviana, com o Dr. Mário Lyster Franco, de quem era grande amigo. Escrevi-lhe algumas vezes a pedir informações sobre diversos assuntos, geralmente relativos às minhas investigações da cultura algarvia. Por vezes recebia cumprimentos enviados pelo Dr. Alberto Iria, um grande e comum amigo, com quem privei mais de perto.
Foi numa das conversas que tivemos há longos anos, que lhe ouvi dizer que faltava um estudo de fundo sobre a etno-economia do Algarve, desde o Antigo Regime até aos nossos dias. E como paradigma ou em contraposição ao pouco que nesse sentido se fazia entre nós, citava o exemplo de investigadores estrangeiros, como era o caso de Albert Silbert, Michel Drain, Pierre Birot e outros. Porém, referia-se com rasgados elogios aos valiosos contributos que nesse sentido fornecera o Prof. Orlando Ribeiro, nomeadamente no seu livro Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico, no qual distinguiu e salientou a importância do Algarve no contexto geográfico peninsular. Aliás Orlando Ribeiro sempre insistiu que o Algarve era uma região própria, em si mesma, incomparável, com características naturais e meios de sobrevivência económica que lhe poderiam garantir a auto-sustentabilidade. Nesse aspecto as suas convicções de geógrafo e investigador iam de encontro ao pensamento político-económico de Tomás Cabreira, que no princípio do século demonstrou no seu livro O Algarve Económico, que esta região tinha condições de sustentação económica que justificavam a sua integração na proposta de autonomia regional com que foram contemplados os Açores e a Madeira.
Não estando ao nível dos investigadores citados, ocorreu-me porém, há alguns anos atrás, traçar um esboço etno-económico do Algarve na primeira metade deste século, precisamente aquele período cronológico que o meu saudoso amigo Prof. Manuel Viegas Guerreiro, melhor conheceu. E, tal como ele dizia, o Algarve era uma terra de pescadores pobres, agricultores remediados e burgueses oportunistas.
As ideias e as palavras, alinhavadas nas linhas que se seguem, são-lhe dedicadas. Foi a pensar nele e no “nosso” Algarve que as escrevi.

Quando em 1879 o historiador Oliveira Martins deu à estampa a sua História de Portugal, tentou, num dos capítulos iniciais, associar os condicionalismos geográficos às características socioeconómicas dos diversos complexos administrativos em que se decompunha o território nacional. No caso especial do Algarve, essa particularização do binómio espaço/comunidade surge-nos esquematizada de uma forma muito elucidativa e bastante esclarecedora. Ouçamos, portanto, as suas palavras:
«Ao calor de um sol já africano, durante o estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios o obrigam à industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para comer. Enquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando, contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os anos em frutos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos valados, pedem apenas que lhes colham os frutos e os ramos; e o mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as trocar por dinheiro
Ressaltam desta transcrição os principais factores de identificação e permanência do Algarve, consubstanciados na afabilidade climatérica, na bonomia das águas oceânicas de abundante riqueza pesqueira, na cultura hortofrutícola dos solos, na indústria artesanal e no comércio marítimo. O turismo - então imperceptível - surgiria muito mais tarde, mas ainda assim como reflexo das magníficas condições naturais da região.
Para não correr o risco de nos alongarmos em demasia, diremos, em síntese e na nossa opinião, que o Algarve da primeira metade deste século mantinha uma estrutura económica muito semelhante à do século passado. Quer isto dizer que os alicerces da sua economia regional permaneciam ainda assentes na agricultura, na pesca e indústria conserveira, no comércio e no artesanato. Todavia, a escassez dos recursos hidrográficos e as descontinuidades geomorfológicas, que numa espécie de anfiteatro decrescem de Norte para Sul, geraram assimetrias de desenvolvimento que mantiveram a serra adstrita a uma economia de subsistência, enquanto o litoral progredia no aumento da produção agro-industrial, na diversificação da oferta e na senda duma economia de mercado, ainda que incipiente.
Por diversos condicionalismos e alguma tradição histórica, era no sector primário que residiam as fontes da economia algarvia. Essa dependência dos bens naturais, da terra e do mar, associada à débil preparação técnica das forças laborais, ao escasso investimento na industrialização agrícola, à individualização da propriedade, à concentração dos meios de produção e à apropriação das mais-valias no seio de um reduzido número de empresários ou de proprietários tradicionais, não fazia traduzir uma região modelarmente próspera, mas, sim, um espaço socioeconómico bastante sensível às contingências da natureza, ao diálogo comercial norte-sul e às relações político-económicas com os mercados exteriores.
No âmbito da agricultura havia (como há hoje) que tomar em linha de conta a dicotomia serra-litoral, apesar de entre estas sub-regiões existirem produções agrícolas semelhantes, especialmente nas culturas arvenses.
O interior serrano identificava-se, grosso modo, pelas seguintes características: pobreza dos solos, fragosidade e aridez da terra, culturas de sequeiro, produção cerealífera e pastoril, povoamento escasso e isolado, dificuldade de acessos e afastamento das redes viárias, fraca produção, baixo poder de compra, frugalidade alimentar, austeridade e habitação modestíssima. Numa palavra, os lugarejos serranos resistiam com dificuldade e algum estoicismo às agruras da pobreza. As aldeias subsistiam por força da solidariedade dos seus habitantes e mercê dos poucos excedentes transaccionados nos mercados semanais. As vilas ou sedes de concelho permaneciam envoltas numa certa letargia económica, que se fazia reflectir na sua reduzida actividade comercial. A emigração dos mais jovens para as terras baixas do litoral, para a cintura industrial de Lisboa ou para o estrangeiro, indiciava já o envelhecimento da população e a rarefacção demográfica.
O litoral caracterizava-se pela fertilidade dos solos, tanto nos vales e várzeas como na planície da beira-mar. à cultura de sequeiro no barrocal-serra sucedia a cultura de regadio na faixa litoral, em cuja propriedade repartida se desenvolviam as primícias hortofrutícolas. Pomares, olivais, figueirais e vinhas, prevaleciam entre as culturas arvenses. As feiras e mercados animavam a economia local e a exportação dos frutos secos - figo, amêndoa e alfarroba - mantinham aceso o comércio com o país e o estrangeiro. Na faixa litoral crescia o tecido urbano das principais cidades e vilas, gerado pelo incremento comercial, desenvolvimento da industria e fomento das pescas. O centro de decisão político-administrativo, sediado em Faro, outorgava ao litoral o próprio epíteto de Algarve, justificando-se deste modo a expressão serrenha de “ir ao Algarve”, como tradução duma simples deslocação para as terras baixas da beira-mar.
Vejamos agora o sector das pescas, tradicionalmente considerado como uma das mais acentuadas potencialidades do povo algarvio, que teve durante a epopeia dos Descobrimentos Marítimos uma acentuada expressão de glória universal.
Com uma extensa plataforma continental e uma tão vasta quanto acessível linha costeira, o Algarve constitui, desde longa data, um dos mais cobiçados bancos pesqueiros da Península Ibérica. A política pombalina de incremento pesqueiro nos meados da centúria de Setecentos e o investimento nas artes de captura do atum, sardinha e corvina, levado a cabo no século seguinte por diversas empresas nacionais e estrangeiras, das quais ainda subsiste a Companhia de Pescarias do Algarve (fundada em 1835), fizeram dos portos de Vila Real de St.º António, Portimão, Faro e Olhão os principais centros económicos da pesca algarvia. Neles despontaram as primeiras industrias conserveiras, cuja tecnologia teria sido introduzida em 1865 por um empresário italiano em Vila Real de St.º António.
Ao investimento estrangeiro, de origem italiano (para o atum) e francês (para a sardinha), seguiu-se-lhe o espanhol que trazia consigo o melhor azeite da Andaluzia e Catalunha. Mas se de início os empresários nacionais escasseavam o certo é que por todo o país despontavam novas fábricas, sendo de realçar o facto de em 1924 existirem em Portugal cerca de 400 unidades fabris, número esse que em 1945 decrescera para 246 industrias. E se a princípio o azeite se importava de Itália e de Espanha, a folha-de-flandres e a solda de França, também é certo que não tardou muito a que fossem substituídos por tecnologia nacional, assumindo-se neste âmbito o Algarve como uma das regiões mais proeminentes, mercê dos avultados índices de exportação efectua- dos no decurso das duas guerras mundiais. Daí resultaram incalculáveis fortunas, de que são ainda exemplo várias residências apalaçadas e algumas extensas propriedades agrícolas (como foi o caso de Vilamoura) que o turismo se encarregaria, mais tarde, de anexar e converter em aldeamentos ou estâncias de veraneio.
O crescimento da indústria atraiu muitas famílias do campo e da serra, operando-se a transformação do agricultor em operário. Dessa transmutação social resultaria um certo esvaimento da força de trabalho nos campos do interior. E com o advento do turismo repetir-se-ia nova sangria demográfica que abriu o caminho ao ermamento da serra.
A evolução era constante no sector pesqueiro. Fundam-se arraiais para os pescadores do atum, despontam bairros operários em torno das fábricas, abrem-se novas ruas nas vilas e cidades portuárias, há mais poder de compra e o comércio alarga a oferta em função da procura.
Atum, sardinha, biqueirão, cavala, bacalhau e arenque, são as espécies mais procuradas e afincadamente capturadas. As primeiras nas costas nacionais e as últimas nos longínquos mares da Terra Nova, Islândia, Canadá e Noruega. Nas águas do Atlântico navegava confiante o pescador algarvio. Mas a família ficava em terra, no bairro pobre, nem sempre com o sustento garantido. A miséria habitava paredes meias com a opulência. E quando o mar negava o pão ou roubava a vida dos mais incautos faziam-se rezas, juravam-se promessas e organizavam-se procissões a S. Pedro e S. Gonçalo, às Senhoras do Carmo, da Guia, da Vitória, da Boa Morte, etc. Havia (e creio que ainda não se extinguiu) todo um ritual religioso à volta dos mistérios do mar e dos perigos da pesca, de que foram exemplos as Confrarias ou Compromissos Marítimos, a benção das redes, dos barcos, das armações, as procissões e os ex-votos nas igrejas. A etnografia marítima do Algarve, tão rica e multifacetada, esbateu-se ligeiramente com o decorrer dos tempos, carecendo hoje de um estudo atento, rigoroso e cientificamente conduzido, antes que se apaguem definitivamente da memória dos vivos as reminiscências do passado.
As armações do atum constituíam as artes mais rendáveis, apesar de muito dispendiosas em artefactos e mão-de-obra. De Maio a Junho capturava-se o atum “de direito”, que em direcção ao Mediterrâneo corria a desovar; de Julho a Agosto aguardava-se o seu regresso, sendo por isso designado como “atum de revés”. A faina do copejo nas redes da armação, também conhecida por “tourada do mar”, constituía um dos mais típicos quadros etnográficas região, magistralmente captados nas obras de Raul Brandão e de Manuel Teixeira Gomes.
O valor económico desta espécie era assaz considerável, sendo de referir que os tunídeos apanhados antes da desova pesavam entre 60 e 150 quilos. Por isso se pode imaginar quão notável era o seu aproveitamento na industria conserveira e como era relevante o seu papel na alimentação, quer pelo seu valor calórico-proteico, quer ainda pelo seu destaque na gastronomia regional, que fez do “atum frescal” um dos seus recursos mais apreciados. Infelizmente, também neste aspecto se nota hoje uma enorme distância do passado, visto que a tradicional cozinha regional algarvia vai ficando cada vez mais pobre e estereotipada pela influência das dietas estrangeiras - sendo certo, também, que a carência de certas espécies pelágicas tem contribuído para o empobrecimento da nossa gastronomia.
Por fim, uma ligeira alusão ao comércio.
As actividades comerciais de mais acentuada tradição no Algarve eram as feiras francas e os mercados semanais, sem esquecer as transacções diárias no mercado camarário. As feiras, cujas origens remontam aos tempos medievos, reuniam-se em datas festivas de carácter religioso ou profano. Para elas convergiam mercadores - e mais recentemente os “tendeiros” - de toda a região, não sendo raros os oriundos doutras províncias. De tudo se vendia e comprava, sendo de realçar a transacção de alfaias agrícolas, obras de esparto, palma e couro, frutos secos, gado, vestuário, calçado, loiças de barro e vidro, mobiliário, ourivesaria, etc. Nos mercados semanais distinguiam-se sobretudo e frutos e hortícolas, cereais, sementes, aves, ovos, mel, etc.
Eram, sem dúvida, os mercados semanais (reunidos ao sábado nas localidades do litoral-barrocal ou os mercados mensais estabelecidos em determinado domingo nas aldeias do barrocal-serra) que mais contribuíam para o escoamento da produção agrícola e para o abastecimento de manufacturas por parte das populações do interior. Nestes mercados pulsava o autêntico Algarve, na sua mais concreta pujança agrícola e artesanal. Eram verdadeiros fóruns da economia autóctone e da cultura etnográfica que os tempos modernos adulteraram ou fizeram desaparecer.
O comércio retalhista, de porta aberta, estribava-se na polivalência da oferta, sendo na sua maioria estabelecimentos de mercearia, fazendas e retrosaria, ferragens, sapatarias, olarias, curtumes, casas de pasto e tabernas. Nas aldeias do interior só praticamente existiam tabernas e mercearias, que muitas vezes correspondiam ao mesmo estabelecimento e onde se vendia de tudo um pouco: fazendas, alfaias, loiças sementes, conservas, carnes fumadas e peixe seco ou salgado. Muitos desses produtos eram adquiridos nas imediações próximas, sendo o restante fornecido pelo caixeiro viajante, cuja visita além de incerta era, por vezes, demorada.
Nas vilas e cidades as lojas eram em maior número, mas a polivalência das mercearias ou “vendas” era, na maioria dos casos, semelhante à que se verificava nas aldeias.
O grande comércio assumia-se, logicamente, na exportação, quer para o norte do país, quer para o estrangeiro. As vias de escoamento processavam-se, sobretudo, por via férrea e marítima. Os produtos enviados para os mercados exteriores eram especialmente de origem agrícola, animal ou de matérias primas naturais, transformadas em pequenas unidades fabris e oficinas de carácter familiar, sendo certo que algumas eram de proveniência artesanal. As mercadorias que dos portos algarvios se destinavam ao estrangeiro eram, resumidamente, as seguintes: conservas de peixe, sal marinho e sal-gema, alfarroba triturada, farinha de semente de alfarroba e derivados, peixe fresco, salgado e marisco, miolo de amêndoa ou em casca, figo seco, farinhas e guanos de peixe, cortiças, vinho, azeite, madeiras e obras de artesanato em palma e esparto, nomeadamente cestos, canastras, alcofas e vassouras. pela foz do Guadiana também se escoavam minérios e seus derivados (das pirites cupríferas de S. Domingos), cerâmicas, cantarias, mós de moinho, cal e brita, pedras de amolar, areia para a construção civil e vidraria, cimento, mármores e sienitos. As mercadorias e matérias primas aqui citadas destinavam-se a vários países da Europa, América e África, com especial incidência para o Reino Unido, Espanha, Itália, Alemanha, E.U.A., Bélgica, França, Holanda, Congo etc.
Enfim, uma actividade comercial relativamente intensa e laboriosa que teve como principais centros dinamizadores os portos marítimos de Vila Real de St.º António, Faro-Olhão, Portimão e Lagos, aos quais estava também associada uma antiga industria de construção naval, da qual saía a maioria das embarcações pesqueiras.
Foram necessariamente breves as considerações tecidas em torno das principais actividades económicas do Algarve. Propositadamente não falamos do turismo. E isto porque apesar de existirem visíveis indícios da actividade turística na Praia da Rocha desde os primórdios deste século (conforme se constata nas Actas do I Congresso Regional Algarvio de 1915) e desde 1919 em Albufeira (como se demonstra pelos panfletos turísticos então editados), o certo é que no início da década de quarenta os seus resultados económicos eram ainda pouco expressivos. O turismo como principal fonte de rendimento económico do Algarve insere-se num contexto muito recente, cujas origens poderíamos estabelecer nos meados da década de sessenta, através do aparecimento dos grandes empreendimentos hoteleiros.
Termino com a plena consciência de que muito haveria para dizer entre o pouco que ficou expresso. Contudo, relevem-se-me as omissões pela pouca ambição deste breve esboço etno-económico, que outro objectivo não teve senão o de fazer ressaltar a cultura popular algarvia nas suas mais ancestrais e peculiares actividades económicas. Penso que o algarvio enquanto desbravador de mares nunca antes navegados conquistou de pleno direito um lugar de relevo na história universal. Mas foi e é como homem da terra, inovador e criativo, que ele adquire a sua plenitude social e se insere como elemento activo num dos mais importantes espaços culturais da Europa.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Um clamor na centelha do génio

José Carlos Vilhena Mesquita

A arte poética é uma capacidade inata, que desperta em nós como resposta a um profundo estado emocional. O sofrimento e a paixão são os estados de alma mais comumente exorcizados através da poesia. O poeta é um sofredor. E quem ama sente a poesia nas mais pequenas coisas da vida. A dor e a alegria parecem constituir-se nos antípodas da nossa esfera emocional. Porém, andam geralmente próximas. Não restam dúvidas que nos preenchem a existência e fazem-nos sentir que a vida não é mais do que um universo de emoções.
É desse universo, desse pélago de intensas comoções, de perturbações e rupturas, que nos fala a poesia de Quina Faleiro. Sente-se nos seus versos uma alquimia de impressões, mescladas num doloroso sofrimento de rejeição, de que ressuma a interjeição da deslealdade. A perfídia é um dos seus campos preferidos. Uma lavra de quem sabe por onde arrotear. E quão sentenciosas palavras sulcam os seus poemas, como se neles traçasse um mapa de desencantos. Os seus versos ferem-nos por dentro, estremecem-nos a alma, impressionam-nos em sentimentos de culpa. Reflecte-se neles o exorcismo do aleive e da insídia. E neles espiam-se os gestos que se escondem por detrás das mãos que nos enganam, modelando rostos que se esfumam na imperceptibilidade das formas. Não vemos ninguém, apenas sentimos. Estamos todos ali, presos naqueles versos que nos acorrentam à realidade amarga da vida. Amamos e sofremos, somente.
Por outro lado, os sonetos de Quina Faleira são um exemplo flagrante dessa espécie de surda dialéctica interior entre a mágoa das quiméras e a imaterialidade do sonho. É o amor que espreita nas esquinas do tempo, fugaz e enganador. É a construção dos arquétipos, moldados na inatingível perfeição dos seres que nos rodeiam. A Quina imaginou-os esculpidos no barro do Olimpo, puros e sem mácula, talhados sob os cânones dos deuses. O ídolo que erguera fez-se em pó, esboroou-se nas fissuras da traição, apodreceu nas entranhas da matéria. Diluiu-se o sonho, desvelou-se a farsa e a aurora rompeu luminosa no orvalho das lágrimas. A vida ressumava novamente, titubeante e confusa, por entre os escombros do passado.
Os seus versos são palavras meigas, percorrendo o corpo sensível em toques de emoção, exalando segredos que se sussurram, na aragem do amor volatizado pelo fogo da paixão. São como rosas brancas em perfumadas pétalas de imaculada candura. Mas entre a pureza da aparência despontam acerados espinhos em pungentes versos de amor inconseguido. Esta é a lição da vida. Aprendeu-a, com lágrimas escondidas pelas mãos que abafam gritos de raiva, a minha querida amiga Joaquina Faleiro.
Secou-se o pranto, derramou-se no fluir do tempo o último cálice do sacrifício. Descravou os punhais da traição, suturou as feridas, desatou as amarras e encarou a existência com um novo olhar. Regressou à vida. Desprendeu-se ao vento e seguiu o seu rumo, aprendendo a voar sózinha, como se tudo começasse agora, somente agora no plano inclinado da vida.

Foram-se os anéis da vida. Partiram-se os elos que a prenderam em dolosos laços de hipocrisia e falsidade. Mas ficaram os dedos, sobreviventes e triunfantes, numa confusa mesclagem de sofrimento e libertação. Ficaram entrelaçados e serenos... a meditar. Não encontram respostas, nem reclamam justificações. Por vezes, erguem-se para enxugar as lágrimas da nostalgia. É a involuntária derrota do amor, numa incontida sensação de perda. A poesia surgiu na vida de Quina Faleiro como lenitivo da solidão, uma espécie de confidente companheira, que não desilude nem abandona nos momentos em que o desespero parece querer trucidar a alma. As desilusões e amarguras que antes em lágrimas se transformavam, correm agora na asas do prelo em belos sonetos materializadas.
Eis, pois, a obra, humilde amostra duma poetisa singular, de cujos dedos já não escorrem lágrimas, mas antes cintilam lampejos de génio.
Prefácio ao livro de poesia Choram Meus Dedos, da autoria de Quina Faleiro.

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Projecto de Encanamento para a Barra de Tavira, em 1825


José Carlos Vilhena Mesquita

Através da atenta observação deste esboço de carta geográfica, rapidamente se compreende que se trata de um imaginoso plano do encanamento do rio Séqua, directamente orientado para o seu leito de foz, obstando dessa forma à estagnação económica em que havia mergulhado a cidade desde o séc. XVI, mercê do assoreamento do rio e da inacessibilidade do seu porto comercial. O projecto parece simples na sua planificação estrutural, e muito eficiente na prossecução dos seus objectivos. De tal forma que, à primeira vista, evidencia uma provável poupança nos custos de investimento, aplicando métodos de engenharia que funcionalizavam com a estrutura orográfica do terreno, aproveitando os declives, os recursos envolventes e a própria conservação do ambiente natural. A forma simples, e quase radical, como o projecto se apresenta, transmite desde logo uma enorme confiança no engenho humano e tecnológico, sendo aqui rentabilizado num expoente muito próximo da sua máxima eficiência. Pena é que não estivesse acompanhado do competente caderno de encargos, o que nos permitiria avaliar da sua possibilidade de execução prioritária.
O objectivo deste projecto consistia na construção de um canal que conduzisse o caudal do rio directamente para a embocadura da sua foz, abrindo assim uma barra artificial na zona conhecida por Bacia da Quatro Águas (onde fora originariamente a barra de Tavira). Deste modo encurtavam-se percursos e evitavam-se os meandros em que se dispersava o leito natural do rio, condicionantes orográficas essas que, juntamente com as cheias de Inverno, facilitaram o progressivo assoreamento do Séqua ao longo de séculos, impedindo o acesso das embarcações mercantes de largo bojo e alta tonelagem ao porto comercial, situado muito próximo do actual Jardim Público. Para esse efeito, projectava-se construir um açude, aqui assinalado pelas letras G-H, em forma pontiaguda e num ângulo obtuso, descaído de Este para Oeste, conforme à inclinação do terreno e ao atrito natural das águas. Embora não seja explícito no desenho, presume-se que esta represa não seria estanque, sendo talvez constituído por comportas que permitiriam a penetração de parte das águas para Sul, em direcção ao sapal cuja curvatura em cotovelo quase estrangula o rio, situando-se nas suas imediações alguns moinhos. O estabelecimento de comportas em forma de guilhotina devia estar previsto no projecto, para melhor viabilizar o escoamento ou a retenção das águas, conforme o regime das marés ou, pontualmente, a força de impacto das cheias invernais. A ideia é genial e parece ser de fácil viabilidade. Certamente o mais oneroso seria escavar o canal directo à Barra de Tavira, que teria de ser aberto à força de braço ao longo de alguns milhares de metros. Mas atendendo ao terreno pantanoso e à sua constituição arenosa, não seria o esforço humano o pior dos entraves, mas antes a sua conservação desassoreada, para cuja efectivação o canal teria de possuir uma profundidade e largura muito consideráveis para a época. Por conseguinte, é de todo previsível que os custos fossem demasiado avultados para satisfazer uma população e um rendimento fiscal da actividade mercantil bastante escassos. Em todo o caso, esta questão do assoreamento da Barra do rio Séqua tem sido, desde há séculos, um forte indicador de desagregação demográfica e de recessão económica da cidade de Tavira, que desde o séc. XVI iniciou um longo percurso de estagnação e de progressiva decadência, só muito recentemente atalhado, e impulsionado num movimento inverso, pelo actual poder autárquico.
Salinas e Moinhos são alguns dos elementos de maior interesse económico na época, razão pela qual claramente se distinguem neste esquiço cartográfico. Repare-se que no debuxo arquitectónico a margem ocidental, a mais nobre e habitada da cidade, termina pouco antes da denominada «Casa do Sal», na qual se registava a produção das salinas limítrofes e se cobrava o respectivo imposto, principalmente quando se destinava à exportação. Pouco distante, na margem direita, ficava a «Casa do Registo», um posto fiscal e alfandegário para as embarcações que saíam do cais de acostagem. Repare-se também que o esboço de encanamento do rio projectava-se numa linha secante à do próprio edifício, impedindo o descaminho fiscal do sal e facilitando a acostagem das barcaças de transporte dessa espécie de “ouro branco” do Algarve. Impõe-se acrescentar que o sal era um produto muito procurado e altamente valorizado no mercado externo, não só pela sua indispensabilidade na conservação dos alimentos, como ainda pela sua coadjuvante aplicabilidade em certas indústrias, pelo que a produção salífera no Algarve foi até praticamente ao dealbar do séc. XX uma das maiores indústrias extractivas da região. Note-se que ainda hoje, apesar dos seus baixos índices económicos, naquilo a que podemos chamar a “Balança Comercial do Algarve”, o Sal continua a ter uma importância relativamente significativa em Tavira, com a tão procurada «Flor do Sal», para fins gastronómicos, e em Loulé com as minas de sal gema, para fins industriais. Mas já que falamos nas salinas, vê-se, pela carta do projecto de encanamento do rio, que iriam perder-se as denominadas «Salinas do Desembargador», uma mercê régia cujos rendimentos constituíam uma espécie de compensação financeira para o exercício de apelo à Justiça, e que no passado privilegiou também a magistratura alfandegária em Tavira.
A linha da margem ocidental do projectado canal além de viabilizar a acostagem na «Casa do Sal» também rentabilizaria o aqui denominado «Moinho de Manuel António», também conhecido por Moinho do Aragão pertencente a Manuel António das Chagas. Era uma avantajada azenha alicerçada em vários arcos de volta inteira, dispostos em declive, por onde penetravam as águas da maré, cuja força era aproveitada para fazer mover as pesadas mós que trituravam o trigo, o milho e outros cereais. É curioso notar que nesta Carta apenas se registam quatro moinhos, o de «Manuel António» na margem esquerda, e o «do Safio», pertencente a Manuel Martins da Conceição, o «da Vinha» de que era proprietário Francisco José Marques Freire, e o «da Forca» pertença de Dona Teresa Pestana, residente em Faro, todos instalados na margem direita. É estranho que se assinalem tão poucos, pois sabe-se que existiam treze moinhos registados no rio Séqua e anexados ao Reguengo de Tavira (sete na margem direita e seis na esquerda), acerca dos quais as Cortes Constituintes deliberaram, em 5-6-1822, isentá-los do pesado tributo (metade da sua produção) que pagavam ao Convento da Estrela, em Lisboa. Felizmente a implantação do Liberalismo e do regime parlamentar-constitucional pôs termo a todo o tipo de privilégios e de imposições fiscais de carácter mais ou menos privado, libertando a circulação e a produção das cargas tributárias que, além de muito injustas, serviam apenas para sustentar as classes não produtivas – o Clero e a Nobreza.
O assoreamento da barra de Tavira foi sempre um problema incontornável e de difícil solução, em larga medida resultante da constituição lagunar e da estrutura orográfica do terreno. O problema era de tal forma grave que a localização da barra mudou várias vezes de local ao longo do tempo, comprovando-se que o assoreamento era um fenómeno estrutural, derivado de toda a envolvência orográfica em que a mesma se achava inserida. Além disso, a restinga dunar que percorre a costa algarvia desde Faro até Cacela, formando a hoje designada Ria Formosa, e na qual se integra a “Ilha de Tavira”, tem contribuído também para o assoreamento do rio Séqua, pois que nela esbarra, como se de um tampão se tratasse, a foz daquele importante curso de água. Por isso é que o assoreamento da barra tem constituído ao longo da história um forte impedimento ao desenvolvimento da cidade, cujo percurso cronológico importa aqui fazer lembrar. A tradição de prosperidade económica do porto de Tavira remonta ao reinado de D. Dinis, afirmando-se que nessa altura a sua azáfama mercantil rivalizava com o de Lisboa. Praticamente toda a zona sotaventina do Algarve, da foz do Guadiana ao Cabo de Stª Maria, dependia comercialmente do porto de Tavira. Assim se explica que se tenha transformado também numa Praça de Guerra, projectada para defender a linha costeira dos ataques corsários e assegurar o abastecimento, e o auxílio marcial, às praças militares do Norte de África.
A primeira notícia do assoreamento da barra de Tavira data de 1441, quando os mercadores da cidade do Porto pediram ao Regente D. Pedro (o famoso príncipe da “sete partidas”, um dos mais belos espíritos do renascentismo europeu) que os isentasse da dízima portuária quando acostassem nas praias próximas de Tavira, para carregarem mercadorias frescas, porque a barra do rio estava tão assoreada que não permitia a entrada dos seus navios. Em 26-8-1506, um alvará de D. Manuel I, a instâncias da Câmara de Tavira, proibia que se construíssem mais moinhos nas margens do rio, porque se suspeitava que os mesmos ao reterem as águas nas suas azenhas embaraçavam a corrente e contribuíam para o entulhamento do seu percurso natural. Em 1570 o rei D. Sebastião, a pedido da vereação tavirense, proibiu os navios de carregarem as frutas e outras mercancias fora do porto ou da barra de Tavira, obstando a que desse modo, e sob a desculpa do entupimento do rio, fossem os mercadores locais vender as suas produções a Aiamonte ou a outros portos andaluzes. Curiosamente foi também o rei D. Sebastião quem mandou construir a Fortaleza de St.º António na embocadura do rio para defender a barra, definindo desse modo a sua localização, conforme aliás se comprova por este esboço de carta geográfica na qual se regista a existência do respectivo Paiol, cuja dureza de paredes garantiu a sua permanência séculos depois de nada existir que asseverasse a construção da dita fortaleza. Em 1639 o assoreamento da barra era já intransponível, a tal ponto que um navio inglês com cerca de cem toneladas não pode entrar, ficando impedido de chegar ao porto de Tavira para carregar azeite. Anos depois, em 1670, já a barra se tinha mudado, cada vez mais para Levante, a cerca de três quilómetros da posição inicial, para o sítio da Gomeira, na freguesia da Conceição, junto às Cabanas da Armação, o que se comprova pelo facto de nessa data o regente, e futuro rei, D. Pedro II decretar, em nome do irmão D. Afonso VI, a construção da Fortaleza de S. João, que dois anos depois já cumpria as suas funções de defesa da barra. Além de perder profundidade, a barra “fugia” cada vez mais da cidade, o que originaria a transferência dos pescadores para as praias de S. Luzia e das Cabanas da Conceição.
Repare-se que a barra não consta deste esboço de carta geográfica, precisamente porque nessa altura já se havia transferido da Gomeira, para muito próximo da Fortaleza de Cacela, isto é, já se havia mudado da própria circunscrição concelhia. Esta questão do assoreamento do rio, como se vê pelas breves referências aqui aduzidas, originou com o evoluir dos séculos o afastamento da barra de Tavira, tornando-se, por isso, num problema estrutural que originou a decadência económica e demográfica da urbe tavirense. A carência de um porto, amplo, seguro e acessível, na costa leste do Algarve, motivou o Marquês de Pombal a fundar, ou a “restabelecer”, Vila Real de Santo António como centro impulsionador e aglutinador das pescarias algarvias, sobretudo da chamada “pesca rica” do atum e da corvina. É claro que o objectivo subjacente à edificação daquela vila seria o de arrecadar os impostos que escapavam à Coroa, desde que os pescadores sotaventinos procuraram obter nas praias de Monte Gordo a acessibilidade e a liberdade de movimentos que não tinham em Tavira. A nova ordem política estabelecida após a guerra-civil de 1832-34, mas que no Algarve se prolongaria até 1840, trouxe um novo folgo às pescarias algarvias, abolindo as pesadas imposições fiscais e impulsionando as relações económicas com os portos mediterrânicos. Não admira pois que a decantada questão do assoreamento do rio Séqua, e consequente afastamento da sua barra, fosse em 1835 considerada como obra prioritária da autarquia tavirense. Para a efectivação desse projecto o eng.º António Vaz Velho chegou mesmo a inventar uma espécie de draga para abrir uma nova barra e remover as areias que atrofiavam o percurso natural do rio. Mas as avultadas despesas que daí resultariam não permitiram à autarquia levar por diante um desiderato que nunca chegou a ser satisfeito. As acessibilidades entre o Algarve e o resto do país fazia-se quase exclusivamente por via marítima, e fluvial na zona nordeste entre Vila Real Stº António e Mértola, pelo que com o advento da «Regeneração» e do período «Fontista» iniciou-se uma época de fomento económico mercê da construção de novas vias de comunicação de terrestre, nomeadamente estradas macadamizadas e caminhos de ferro. Em 1859 a antiga «estrada real» (que marginava o litoral) foi substituída por uma nova via longitudinal que praticamente coincide com a actual 125. O comércio e o escoamento das produções locais passou a efectuar-se por via terrestre, mas só a nível regional, porque a maioria das exportações e dos contactos externos, nomeadamente com a capital continuavam a fazer-se por via marítima através das carreiras em navio a vapor iniciadas em 1862, cujos portos de atracagem seriam preferencialmente Portimão, Faro e Vila Real de Santo António, sendo proveniente desse tráfego o grande crescimento económico experimentado nessas localidades. É claro que o problema do assoreamento do rio Séqua e da deslocalização da barra de Tavira passou a ser cada vez menos premente quando em 1889 chegou o comboio a Faro, estendendo-se progressivamente a via até Vila Real de Santo António, terminada em 1906. Em todo o caso, o povo tavirense foi insistindo com as autoridades centrais para que a obra se fizesse, concretizando as suas esperanças com a implantação da República, pois que em 1918 o eng.º Duarte Abecassis (descendente de algarvios) elaborou o projecto de abertura da barra, para cuja efectivação seria criada a «Junta Autónoma das obras da barra e porto de Tavira», cujas obras se concluiriam em finais de 1926. O ciclone de 1941 arrasou a velha barra, abrindo uma nova mais adiante a que chamaram “do Cochicho”. Em 1961 a Junta Autónoma dos Portos do Sotavento do Algarve procedeu aos trabalhos de reabertura da barra das Quatro Águas, onde ainda hoje se mantém, tal como estava projectada neste carta de 1825.

domingo, 13 de Setembro de 2009

A FEIRA de ALCOUTIM em 1822


José Carlos Vilhena Mesquita

Prometi no artigo anterior, sobre as cheias do Guadiana em 1823, carrear para estas mesmas colunas os documentos históricos que justificaram em 1822 a instituição de uma Feira na vila de Alcoutim. E isto porque o Sr. Ascensão Nunes, na sua Monografia de Alcoutim, refere a pgs. 117 que não encontrou o ano de criação da "Feira da Vila". Ora, como Baptista Lopes não só ignora a data da sua fundação como ainda se engana nos dias em que a mesma decorre[1], decidi-me a prestar mais este pequeno subsídio para a História de Alcoutim.
A feira, em si, constituía, tão simplesmente, uma reunião mercantil, baseada na oferta da produção excedentária e regulada pela necessidade/escassez dos bens de consumo. Porém, desde o "movimento foraleiro", que na Idade Média presidiu à formação dos concelhos, que as mesmas traduziam uma estratégia de desenvolvimento económico do sector primário e de comunicação intra-regional. À sua organização e reconhecimento oficial estavam associados determinados privilégios e isenções fiscais, que lhes outorgavam um carácter muito especial - quer comemorativo (santo padroeiro, data histórica, etc.), quer até auto-determinativo, visto que, por vezes, a pujança económica dos pequenos mercados impunha o seu reconhecimento oficial com o estatuto de feira. Daí surgir a distinção entre feiras regulares e feiras francas. Enquanto as primeiras se reuniam por um dia, com uma periodicidade semanal ou mensal, em locais definidos como o "Rocio da Vila" ou o "Terreiro do Mercado"; as segundas distinguiam-se pelo seu carácter anual, geralmente nas épocas de determinadas colheitas, com datas fixas mas alargadas a vários dias, num espaço físico mais amplo como o "Campo da Feira", tendo a particularidade de estarem isentas de encargos fiscais.
No século XIX criaram-se dezenas de feiras francas, muitas delas "especializadas" em certas produções regionais, como legumes, aves, gado, loiças, etc. Chegaram a ser mais de trezentas, entre profanas e religiosas; no primeiro caso designavam-se por "Feiras Grandes", no segundo por "Festas". O exemplo de Alcoutim pertence ao primeiro caso, embora como veremos mais adiante, não lograsse o estatuto de feira franca.
Vejamos, depois deste breve preâmbulo, como se desenrolou o processo da sua criação.
A origem da Feira de Alcoutim está intimamente ligada à vontade popular. Foram os moradores da vila que determinaram a necessidade da sua criação. Nada mais simples do que isto. Porém, pretendiam-na franca. A exemplo do que acontecia no passado, esta pretensão faz supor que a feira já existia e que ao oficializá-la apenas pretendiam isentá-la de impostos. Não acredito nessa hipótese. Penso que o objectivo consistia numa antecipação à feira de Mértola, que se realizava a 20 e 21 de Setembro, onde os alcoutinenses iam vender a produção cerealífera dos seus campos.
Não deixa, porém, de ser estranho que nesse ano de 1822 fosse instituída a feira de Alcoutim ­ predominantemente cerealífera ­ quando as terras do litoral barlaventino, atravessavam uma forte carestia de cereais. Em Portimão, por exemplo, só tinham trigo para 60 dias em «consequencia da mais desgraçada colheita que se tem visto, pois que huma grande parte dos Lavradores deste Districto nem a semente colherão».
[2]
Em Fevereiro de 1821 (ano da petição dos moradores de Alcoutim), os lavradores alentejanos da raia de Espanha queixavam-se da decadência da agricultura devido ao «exçeçivo preço a que a ambição dos senhorios tem elevado a renda das erdades, asim como a falta de braços»; além disso, baixaram os preços dos cereais, lãs e gados, em face do contrabando espanhol sobretudo de trigo, cujo preço era «tam comodo que a maior parte dos povos da arraia se não sustenta de outro pão».[3]

Petição da Feira Franca

Sendo Alcoutim uma vila da raia espanhola‚ é provável que experimentasse o mesma fenómeno. Mas a movimentação dos preços dos cereais oscilava bastante, e em períodos curtos, nos principais mercados do trigo, evidenciando-se mais constantes no sul do que no norte.
[4] Por isso‚ é possível que Alcoutim, inserida nas margens do Guadiana, com férteis campos de regadio, pomares, gados e pescarias estivesse a atravessar um período de abundância em contradição com a alta dos preços nos mercados de Évora e Beja. Seja como for, estou em crer que a justificação desta feira prende-se não só com as épocas das colheitas como ainda com factores concorrenciais de mercado entre Mértola e Castro Marim.
O certo é que os alcoutinenses, em 1821, suplicaram a D. João IV a criação de uma feira franca, através da seguinte petição:
«Senhor ­ Dizem os moradores na vila de Alcoutim e seu termo que não havendo Feira alguma na dita Villa à qual concorrão os Povos Vezinhos para venderem e comprarem os generos e feitos que fazem a abundancia e giro do Comercio, pertendem que Vossa Magestade lhes faça Graça de Conceder-lhes licença para se fazer mercado publico na dita villa no mez de Setembro e nos dias treze, quatorze e quinze francos, pois que os Supplicantes se persuadem ser lhes conveniente e de muita utilidade, athe mesmo para a Real Fazenda, para cujo fim Pedem a Vossa Magestade se digne mandar se lhes passe provisam. E. R. M.
Como Procurador, Jacintho Alves de Pina.»
[5]
Assinaram esta petição 32 pessoas, cujos nomes escuso de citar para não alongar demasiado este artigo. Inserida no mesmo processo judicial encontrei uma carta da Câmara de Alcoutim, a confirmar e corroborar a petição dos seus moradores:
«O Prezidente e Veriadores da Camara de Alcoutim, Clero Nobreza e Povo desta mesma Villa e seu termo, sendo mandados ouvir pelo Meretissimo Corregedor de Beja (a cuja Commarca esta Villa pertence) sobre o requerimento que fizemos, no qual pedimos a Sua Magestade a graça de nos conceder trez dias de feira nesta Villa: respondemos que queremos ter feira nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro, e que esta para todos os moradores desta Villa e seu termo seria franca e sem onus algum e só os de fóra pagarão terrado e este que seja aplicado para o Concelho que he pobrissimo. Esta he a nossa vontade geral. Eu Antonio Sebastião de Freitas, Escrivão da Camara que o escrevi.
[6]
Subscrevem esta missiva 44 habitantes, dos quais 8 eram analfabetos. Entre as individualidades destacam-se o Juiz de Fora, Joaquim António da Costa Sobrinho, os Veriadores António Joaquim da Silva, José Guerreiro Mestre e João Viegas Teixeira; o Procurador, Joaquim Costa, o Major Governador da Praça, José Maria Xavier, o Capitão Mor, José de Britto Magro, o Major Comandante de Ordenanças, Sebastião José Teixeira, o Prior da Matriz, Joaquim José Cavaco e o Ajudador, Frei Thomaz de Santa Rita Evangelista.
Para atestar a veracidade dos factos contidos na petição, foi lavrado em Beja, a 23-7-1821, pelo Corregedor da Comarca Dr. António José Cabral de Mello e Pinto, um auto de inquirição no qual testemunharam o Rev.º António José Penedo, José Telles de Góis e Manoel Joaquim Ferreira Pato, todos moradores naquela cidade. Confirmaram que «a Feira estabelecida naquella Villa [podia] fazer mais abondante o giro do commercio e que nos dias pedidos no dito requerimento são mais favoraveis por ser em melhor tempo.» O Juiz de Fora de Beja, Joaquim José Anastácio Monteiro de Carvalho e Oliveira, em 30-7-1821, oficiou ao Secretário de Estado dos Negócios do Reino que a petição de Alcoutim deveria ser inteiramente satisfeita.

O Rei autoriza.

Em face dos dados carreados para o processo, a Mesa do Desembargo anuiu, em parte, à pretensão dos moradores e Câmara de Alcoutim, «com a clauzula de não ser franca a feira pertendida»
Conformando-se com esse despacho o Rei mandou exarar a seguinte Provisão:
"Dom João por Graça de Deos, e pela Constituição, etc. Faço saber que os Moradores da Villa de Alcoutim, e seu Termo, Me supplicarão a Graça de lhes conceder licença para estabelecerem hum Mercado publico e franco em os dias 13, 14 e 15 do mez de Setembro, afim dos Povos vezinhos ali venderem e comprarem os generos e effeitos que fazião a abundancia e giro do Commercio de que rezultava utilidade Publica e interesse da Fazenda Nacional. E outro seu requerimento a Informação que se houve do Juiz de Fora da Cidade de Beja servindo de Corregedor da Commarca da mesma cidade, com audiência da Câmara, Nobreza e Povo da Villa, que não tiverão duvida no pertendido estabelecimento, bem como o não teve o Procurador da Coroa e Soberania Nacional que também mandei ouvir. Hey por bem conceder aos Supplicantes a necessaria licença para nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro de cada hum anno poderem fazer na dicta Villa a Feira de que se tracta com a clauzula de não ser franca. E Mando ás justiças a que pertencer cumprão e guardem esta Provisam como nella se contem, será registada nos livros respectivos da Camara, da sobredicta Villa, e vallerá posto que seu effeito haja de durar por mais de hum anno sem embargo de Ord. do livro 2.º 40 em contrario. Não pagarão direitos por estar assim Determinado, como constou por hum conhecimento regido emforma a fl. 15 do livro 91 do Registo Geral. El Rey o Mandou pelos Ministros abaixo assignados do seu Conselho e Desembargo do Paço. Luiz António de Araujo a fez em Lisboa a 26 de Março de 1822. José Maria Sinel de Cordes a fez escrever. Manoel Vicente Teixeira de Carvalho, Francisco José de Faria Guião. Por Despacho do Desembargo do Paço de 22 de Agosto de 1821.»
[7]
Deste modo, estão esclarecidas as dúvidas. A feira de Alcoutim data oficialmente de 22 de Agosto de 1822, ressaltando dos documentos acima transcritos que a vontade geral dos alcoutinenses se consubstanciava numa feira franca, o que não veio a ser satisfeito pelo monarca. Faltou a este povo a força económica e a pressão política necessária para fazer prevalecer os seus legítimos desígnios. E a conjugação desses dois vectores esteve quase sempre por detrás da marginalização e esquecimento a que tem sido votada, desde há séculos, a raiana vila de Alcoutim.


NOTAS

[1] João Baptista da Silva Lopes, Corografia ou Memoria Economica, Estadistica, e Topografica do Reino do Algarve, Lisboa, Typ. Academia das Sciencias de Lisboa, 1841, p. 396.

[2] Arquivo Nacional da Torre do Tombo Ministério do Reino, Câmaras do Reino, Maço 986, letra P.
Nesta carta da Câmara de Vila Nova de Portimão, datada de 9-11-1822, pede-se ao Rei que lhes conceda 60 moios de trigo «para acorrer aos terriveis males que pode produzir a fome, que já de tão perto ameaça este Povo».

[3] Arquivo Histórico-Parlamentar da Assembleia da República Documentos das Cortes, Maço 37, n.º 40 a.

[4] Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Prix et Monnaies au Portugal, Paris, Liv. Armand Colin, 1955, pp. 151-164, veja-se os quadros 19 a 21.

[5] A.N.T.T., Desembargo do Paço, Maço 528, n.º 64.

[6] A.N.T.T., Idem, ibidem.

[7] A.N.T.T. Chancelarias Reais Chancelara de D. João VI livro 37, fls 170-170 vº.

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

AS ORIGENS DO ENSINO PRIMÁRIO NA VILA de ALCOUTIM

José Carlos Vilhena Mesquita

A razão do presente artigo prende-se com a leitura de um interessante estudo publicado no «Jornal do Algarve» n.ºs 1775 e 1776 de 4 a 11 de Abril de 1991, pelo Sr. José Varzeano (pseudónimo de António Miguel Ascensão Nunes) intitulado Um século de ensino escolar no concelho de Alcoutim (1840-1940). Nele o autor dá a público várias informações de particular importância para a vila de Alcoutim, mas que também podem e devem servir de exemplo a futuros subsídios de investigação histórica, através dos quais se torne possível a elaboração duma História do Ensino Primário no Algarve.
Não vamos criticar, rebater ou contrariar a preciosa contribuição que o Sr. José Varzeano nos acaba de oferecer. Bem pelo contrário. A minha intenção é tão simplesmente a de contribuir para o aprofundamento do referido artigo, na parte talvez menos esclarecida que o mesmo comporta: as origens cronológicas do ensino primário em Alcoutim.
Assim, no citado artigo, José Varzeano refere a data de 1840 como início da instrução primária em Alcoutim, mas não acrescenta outra prova documental senão a lacónica referência contida na Acta da Sessão Camarária de 1 de Maio desse ano, onde se constata o fornecimento de cadeiras para a escola. Mas para que tal ficasse demonstrado faltava conhecer a carta de Mercê que instituía o professor proprietário da cadeira de ensino primário em Alcoutim. Esta era a primeira e mais importante questão a desvendar, tendo em conta os limites cronológicos do artigo de José Varzeano. Já lá iremos.
Contudo, o mesmo articulista ­ e brilhante autor da Monografia de Alcoutim, editada em 1985, ­ afirma que a escola primária masculina deveria ser anterior a 1840, visto que num oficio do Administrador do concelho, datado de 1877, e dirigido ao Governador Civil, consta que «a escola da vila é antiquíssima». Como o Sr. José Varzeano não encontrou melhores provas para corroborar ou contradizer as palavras do antigo Administrador de Concelho, deixou que essa afirmação por si só encerrasse a questão. E este é o segundo problema a que gostaria de oferecer uma solução, apesar de ainda não ter encontrado provas definitivamente seguras.
Mas vamos ao primeiro contributo de que o Sr. José Varzeano poderá dispor para uma futura reedição/actualização da sua Monografia de Alcoutim.
Efectivamente o ensino primário instituiu-se em Alcoutim no ano de 1840. A prova está na Carta de Professor proprietário e vitalício da cadeira de ensino Primário em Alcoutim, dada como Mercê de D. Maria II a Francisco José de Barros, em 17 de Janeiro de 1840. Para uma hipotética utilização posterior aqui fica a transcrição da Carta de Mercê:
«D. Maria por Graça de Deos e pela Constituição da Monarchia, Rainha de Portugal, Algarves e seus Dominios; Faço saber aos que esta Minha Carta virem Que hei por bem, Conformando-Me com a proposta do Conselho Geral Director de Ensino Primario e Secundario, Fazer Mercê de Nomear para Professor Proprietário e vitalicio da Cadeira de Ensino Primario de Alcoutim, Districto Administrativo de Faro, a Francisco José de Barros, pelo que Ordeno ao Administrador Geral daquelle Districto, que sendo-lhe prezente esta Carta Sellada com o Sello da Cauza Publica, defira o competente juramento ao dito Francisco José de Barros ou a quem para esse acto estiver munido de legitima procuração, e lhe faça dar posse do seu Cargo pelo Administrador do respectivo concelho, deixando-lhe servir e exercitar, na Conformidade das Leis mediante os vencimentos e prerrogativas que direitamente lhe pertencerem. Não pagou Direitos de Mercê por dispensa da Lei de 19 d'Agosto de 1837.
E por firmeza do que dito é lhe Mandei passar a prezente, referendada pelo Secretario de Estado dos Negocios do Reino e Sellada com o Sello das Armas Reaes.
Dada no Paço das Necessidades em 17 de janeiro de 1840. A Rainha com Guarda - Rodrigo da Fonseca Magalhães [Ministro do Reino].»[1]
Dado que a História do Ensino Primário não é temática do meu interesse académico, não procurei desvendar os traços biográficos de Francisco José de Barros. De qualquer modo, possuo nos meus ficheiros sobre a História do Algarve a nomeação deste mesmo Francisco José de Barros para o cargo de sub-director da Alfândega de Alcoutim.[2]
Quanto à segunda questão, das origens do ensino primário em Alcoutim no século XVIII, apuramos que no tempo do Marquês de Pombal não foi este concelho contemplado com a nomeação de um «Mestre de ler e escrever e contar». Mas disso se pode orgulhar a então designada Vila de Santo António de Arenilha [e não Vila Real de St.º António], que em 22 de Fevereiro de 1774 recebia de D. José I a carta de nomeação de José Pereira para ministrar o ensino das primeiras letras. Dado que o Rev.º Dr. F.X. de Athaíde Oliveira, na sua Monografia do concelho de Vila Real de Santo António não se refere às origens do ensino primário naquela localidade, aqui fica a transcrição do documento, não só pela utilidade de que possa ser alvo, como ainda pelo facto de poder admitir-se uma possível transferência deste «Mestre» para a vila de Alcoutim no reinado seguinte:
«Dom José, etc. Faço saber aos que esta Minha carta virem que tendo consideração aos merecimentos que concorrem na pessoa de José Pereira, Hei por bem fazer-lhe mercê do lugar de Mestre de Ler e escrever e contar para a Villa de Santo Antonio de Arenilha, vencendo de ordenado em cada hum anno quarenta mil reys que cobrará na folha dos Professores da Comarca a que pertencer, e servirá o sobre dito lugar por tempo de tres annos. E quando Eu haja por bem que continue no mesmo exercicio o farey por Appostilla Gratuita nesta Carta E jurará perante o Bispo de Beja do Meu Conselho, Prezidente da Real Meza Censoria, de guardar em tudo o servisso de Deos e o Meu na observancia das Instruçoins determinadas para Escollas Menores e no mais concernente ao dito Emprego, pello que Mando a todos os Menistros officiaes e pessoas a que esta Minha Carta for aprezentada conhecimento della pertencer que deyxem uzar o mesmo José Pereira, plena e Livremente do dito Exercicio de Mestre de Ler e escrever e contar e gozar de todas as Onrras Previllegios Leberdades e Inzençoens que lhe são Concedidas. E por firmeza de tudo lhe mandey dar a prezente Carta asinada pello mesmo Bispo de Beja, e passada pella Minha Chancellaria Mor da Corte e Reyno e Sellada com o Sello pendente de Minhas Armas a qual se cumprirá tam inteiramente como nella se contem e se registará nos Livros da Provedoria e Camera a que pertencer. E não pagou novos direitos na conformidade do meu Decreto de vinte e sete de setembro de 1759.
Dada em Lisboa aos 22 dias do mez de Fevereiro. Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de 1774».[3]
Acontece, porém, que no reinado de D. Maria I a Real Mesa Censória na sua reunião de 12-1-1778 submeteu à aprovação da Rainha uma «lista das terras, conventos e pessoas destinadas para professores», a qual mereceu o régio assentimento em 16-8-1779. Nela surge, creio que pela primeira vez, a instituição do ensino primário em Alcoutim, demonstrada através da indicação de José Pereira da Silva‚ para o cargo de Mestre de ler e escrever.[4]
A principal e única dúvida está na precisão do nome. Seria este José Pereira da Silva o mesmo que exercera idêntico cargo, cinco anos antes, na Vila de Santo António de Arenilha ? Não posso afirmá-lo com segurança. Tudo indica que serão pessoas distintas até porque em 13-3-1783 a Câmara de Vila Real de St.º António recebe da Chancelaria Mor de D. Maria I uma provisão para aforar a José Pereira um determinado terreno;[5] o mesmo acontece em 5-8-1795 e sobre assunto idêntico: aforamento de terras.[6] Ora isto leva a crer que o «Mestre» José Pereira continuava em Vila Real. Contudo, não exercia ali o múnus para que fora nomeado no tempo de Pombal, visto que na lista dos professores promulgada por D. Maria I quem surge no desempenho daquelas funções é um tal Francisco José Torrones.[7]
Por mais esforços que fizesse nunca encontrei a carta de nomeação de José Pereira da Silva para o cargo de «Mestre de Ler e escrever da vila de Alcoutim», como aliás era meu propósito demonstrar no intuito de dar como absolutamente segura a instituição do ensino primário em Alcoutim no ano de 1779. O único José Pereira da Silva que encontrei no Registo Geral das Mercês a exercer funções docentes diz respeito a um «Profeçor de Orthographia Diplomatica para esta cidade de Lisboa, vencendo de ordenado em cada hum anno quatro centos mil reis».[8]
Sabendo-se que no tempo de D. Maria I se procedeu à reforma compulsiva de certos professores, com metade do ordenado «que percebiam», assim como à transferência de outros para localidades muito afastadas daquelas onde anteriormente se encontravam fixados - é possível, embora muito duvidoso, que talvez sejam ambos uma e a mesma pessoa. Contudo, custa a crer que este José Pereira da Silva passasse de um cargo remunerado com 400$000 réis/ano em Lisboa, para uma longínqua vila raiana, com um ordenado dez vezes inferior àquele que auferia antes.
Infelizmente nada mais pude apurar, talvez pela desmotivação que o próprio assunto me oferece. A época de D. José e de D. Maria I está fora dos meus horizontes de investigação histórica. Por isso, deixo ao interesse de outros estudiosos, porventura interessados nestes assuntos, a tarefa de deslindar esta imbróglia confusão e semelhança de identidades.
Para terminar, deixo desde já ao Sr. José Varzeano a promessa de voltar a falar de Alcoutim, mais propriamente acerca de uma «innaudita e nunca lembrada cheia deste Rio Godiana... tão inorme que de outra igual não há mimoria», ocorrida entre 31-1 e 10-2-1823, da qual resultou o derrube do edifício da Câmara e do vetusto Pelourinho.

NOTAS

[1] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registo Geral das Mercês, Livro 11, fls. 232-232 v.º

[2] A.N.T.T., Idem, livro 36, fl. 91 v.º.

[3] A.N.T.T., Chancelaria de D. José I, Livro 34, fl. 12.

[4] Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Collecção de Leis, decretos e alvarás de D. José I e D. Maria I, «Listas das Terras, Conventos e Pessoas destinadas para Professores de Filosofia Racional, Retórica, Lingua Grega, Gramática Latina, Desenho, Mestres de Ler Escrever e Contar, como também dos aposentados nas suas respectivas cadeiras, tudo por resolução real de S. Majestade de 16 de Agosto do presente anno de 1779, tomada em consulta da Real Mesa Censória de 12 de Janeiro de 1778», cota 4-30-9-4.

[5] A.N.T.T., Chancelaria de D. Maria I, Livro 20, fl. 253.

[6] A.N.T.T., Idem, Livro 48, fl. 246.

[7] B.G.U.N., Idem‚ ibidem.

[8] A.N.T.T., Registo Geral das Mercês‚ D. José I, Livro. 29, fl. 52.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Fortaleza de Santa Catarina na Praia da Rocha


José Carlos Vilhena Mesquita

Remonta aos anos trinta da centúria de seiscentos a fundação do conhecido forte e actual monumento histórico, turisticamente conhecido por “Miradouro de St.ª Catarina, situado no extremo sudeste da Praia da Rocha, dominando a embocadura do rio Arade. Com indubitável certeza, sabe-se que em 1633, durante o reinado de Filipe III, o então governador do Algarve, D. Luís de Sousa, dedicou-se pessoalmente à conclusão das obras, nelas empregando as rendas da fazenda pública e do donatário de Vila Nova de Portimão, que era ao tempo o Conde D. Gregório Castelo-Branco.
No célebre relatório do engenheiro Alexandre Massaii, datado de 1621 e designado por Descripção do Reino do Algarve, publicado por Lívio da Costa Guedes no «Boletim do Arquivo Histórico Militar» (n.os 57-58), consta que para obstar aos ataques dos corsários ou de outros agressores que colocassem em risco a defesa das cidades de Portimão e de Silves, se decidiu, em consonância com os especialistas da sua comitiva, optar pela construção de um forte na ponta de Santa Catarina, onde já existia uma antiga ermida, que talvez já antes funcionasse como torre de vigia da costa, pois que St.ª Catarina é da invocação religiosa dos artilheiros militares.
Dado que a falésia estava virada para o sul, apresentando uma altura e posição natural já por si quase inexpugnável, optou-se pela construção duma sólida muralha abaluartada para defesa de terra, com revelins para a fixação de peças de artilharia que disparariam para as praias adjacentes e para a entrada na foz do Arade. Para efectuar uma barreira de artilharia que impedisse a penetração na barra do rio, sugeriu também aquele engenheiro italiano a construção, na margem oposta, do forte de São João de Ferragudo, o que só se concretizaria após a Restauração de 1640, possivelmente em 1643, ou seja dez anos depois do Forte de St.ª Catarina.
Conforme se pode ver no “segundo parecer”, que foi o aprovado dos três que Massaii desenhou para a Ponta de St.ª Catarina, mantém-se inalterável a cortina de muralha com dois meios baluartes nos extremos para a fixação de quatro peças de artilharia, cuja estrutura original compõem a fachada principal, situada a norte de todo o complexo militar. Mas pouco ou nada restando das muralhas laterais, que seriam baixas e pouco extensas, por serem desnecessárias face à envergadura alcantilada da encosta natural. Os restos, ainda visíveis, desses muros situados a nascente e a poente, serviam para sustentar algumas peças de artilharia. Desapareceram com o tempo não só essas paredes laterais como também as peças de fogo, das quais ainda há bem pouco tempo restavam seis canhoneiras de feitura recente. A antiga ermida, cuja invocação deu origem à designação do forte, sofreu sensíveis alterações por ter sido transferida para a face esquerda do interior da muralha, onde, conforme se vê no desenho de Massaii, também se construíram diminutas aposentadorias para fins militares. Não creio que tenha sido construído o fosso, sugerido por Massaii, à volta da fachada original, pois que em face das novas circunstâncias políticas e das novas estratégias militares, os antigos fossos de forte cariz medieval, tornaram-se desnecessários e obsoletos. O engenheiro italiano para qualquer dos três desenhos propostos (um Baluarte e dois pedaços de cortina; dois meios baluartes e uma cortina [opção aprovada]; ou um baluarte ao meio com duas meias cortinas), estimou uma despesa geral a rondar um conto de reis e 200 mil réis.
A estrutura militar original manteve-se praticamente inalterada até aos novos dias, conservando-se quase intacta a fachada, assim como a ermida e a cisterna. Acresce dizer, porém, que nos finais do século XVIII (entre 1792 e 1794) foi palco de sensíveis obras de reparação, derivadas dos estragos provocados pelo terramoto de 1-11-1755. Com efeito, o abalo telúrico e o desastroso maremoto que se lhe seguiu, causaram certos estragos, abrindo brechas nas muralhas, derrubando os muros laterais, a antiga “casa do capitão” e a vetusta ermida. O conde Val de Reys, então governador e capitão-general do Algarve, encarregou o coronel José de Sande Lemos, reputado engenheiro militar, de procedeu às obras de reparação do forte de St.ª Catarina, datando dessa época a actual configuração daquele complexo histórico-militar. Os muros da fachada foram reforçados com mais de um metro de espessura, a ermida foi consolidada, assim como a cisterna, o paiol e outras arrecadações militares.
A utilização prática e efectiva do forte, digamos assim, nunca foi de grande monta, a não ser nos finais do séc. XVII e princípios da centúria seguinte, períodos em que a costa barlaventina era esporadicamente assolada por corsários magrebinos e até ingleses, de cuja memória não se apagam os estragos provocados por Sir Francis Drake.
Nos anos de Oitocentos praticamente não se ouviu falar do forte de St.ª Catarina. As suas peças de artilharia eram escassas e pouco eficientes, perante a versatilidade de manobra das novas embarcações e até perante o aumento do poder de fogo dos novos vasos de guerra. E o certo é que pelas imediações das suas muralhas passou, sem qualquer oposição de fogo de artilharia, a armada liberal do almirante Charles Napier, quando em Junho de 1833 desembarcou nas praias da Altura as tropas do Duque da Terceira. O mesmo aconteceu no seu regresso em direcção ao Cabo de S. Vicente, onde se deu a feroz batalha naval do mesmo nome, cujo vitorioso desfecho ditou a definitiva implantação do liberalismo e do regime parlamentar-constitucional no nosso país.
Na verdade, o forte de St.ª Catarina desde os meados do séc. XVIII que se resumia a um posto de vigia da costa marítima, tornando-se a sua utilização militar de todo obsoleta a partir do momento em que a marinha passou a dispor de embarcações movidas a vapor e equipadas com obuses de largo alcance. Ainda que não tenha sido abandonado, o certo é que o forte de St.ª Catarina passou todo o século XIX e primeira metade da centúria seguinte, praticamente desactivado, resumindo-se a sua utilidade prática à instalação de um posto da Guarda-Fiscal e mais recentemente à instalação da Capitania do Porto de Portimão.
Durante os preparativos das Comemorações Centenárias de 1940, o comissariado regional e as autoridades centrais, pensaram no seu aproveitamento como equipamento turístico, sector que a partir dessa altura começava a estar nas cogitações da Sociedade de Propaganda Nacional, cujos serviços eram dirigidos por António Ferro, fiel servidor do “Estado Novo”, mas acima de tudo um homem ilustre, esclarecido e modernista.
Com o advento das Comemorações Henriquinas, realizadas em 1960, procedeu-se à transformação do velho forte num moderno e turístico miradouro, que engrandeceria toda a marginal da Praia da Rocha, já então uma estância turística de grande renome internacional, mercê do seu renovado casino e dos modernos equipamentos hoteleiros, de entre os quais assumia particular destaque o Hotel Algarve. As obras operadas no antigo Forte de St.ª Catarina foram de molde a torná-lo atraente e funcional para os novos fins a que se destinava, dotando aquele espaço com um quiosque de “souvenires”, um bar-esplanada, um restaurante e um magnífico miradouro voltado para a foz do rio Arade, dominando toda a zona envolve da Praia da Rocha. Até aos anos setenta foram ali efectuadas obras de reconsolidação do esporão rochoso, melhorando-se também os equipamentos turísticos, com nova esplanada num piso inferior, instalações sanitárias e remodelação dos aposentos da capitania, com vista à sua transformação em estalagem ou pousada.
Actualmente mantém a sua função turística, perdendo-se um pouco a sua percepção como monumento histórico devido ao estacionamento automóvel e, mais grave do que isso, ao parqueamento de vendedores ambulantes que desvirtuam quase por completo o mais belo testemunho do património histórico de Portimão.

domingo, 23 de Agosto de 2009

Nem Colombo nem Cabral - Quem descobriu a América?


José Carlos Vilhena Mesquita

A dúvida, precedida da afirmação, que usamos como título para este artigo, exclui à partida que aceitemos a tese clássica do “acaso”, como se tratasse de obra do destino o feliz “achamento” do Brasil pela frota de Pedro Álvares Cabral. E isto porque não se pode atribuir à ocasionalidade ou ao sortilégio da sorte, a descoberta de um território que já havia sido demandado por outros povos, que não os portugueses. Além disso, a ajuizar pelas palavras de Estevão Fróis, as costas do Brasil já eram navegadas pelos nossos marinheiros desde 1493.[1]
Mas a nossa intenção não é a de discutir se existiu ou não um conhecimento pré-colombino dos portugueses acerca das terras americanas, mas antes o de afirmar que muito antes das nações ibéricas já outros povos ocidentais e orientais haviam aportado naquelas paragens.
Efectivamente, uma espécie de “pedra roseta”, digamos assim, foi há anos exumada na Bolívia, na qual se podem observar inscrições cuneiformes juntamente com outras grafias de tipo semítico o que, à priori, nos leva a deduzir que navegadores do extremo oriente haviam precedido os navios de Colombo.
Através da leitura de obras como A Agonia do Deus Sol, de Jacques Mahieu, A América Antes de Colombo, de Cyrus Gordon, ou Os Conquistadores do Pacífico, de Pierre Carnac, somos despertados para as prováveis presenças em terras americanas de povos como os Irlandeses, os Fenícios, os Bascos (que em 1143 pescaram bacalhau na Terra Nova), os Vikings, os Egípcios e até os Chineses e Japoneses. Para se chegar a esta suposição muito tem contribuído a intervenção científica da moderna arqueologia.
Relativamente aos irlandeses, sabemos que estes se estabeleceram nos territórios da Terra Nova e da Nova Inglaterra, onde fundaram a chamada “Grande Irlanda”, muito antes de ali chegarem os Vikings comandados por Bjorn Herjulfason e por Leif Ericsson. Estes por sua vez, no ano mil, colonizaram a tão famosos quanto mítica Vimlândia, que se situaria entre Nova Iorque e Boston, embora Jacques Mahieu tenha encontrado vestígios da sua presença na ilha do Yucatão e na América Central.
Mas há ainda outros indícios e testemunhos arqueológicos que quase nos garantem a sua permanência no Peru, se considerarmos a descoberta de algumas múmias de cabelo ruivo na fortaleza amazónica de Kuelap, caso estranho já que os indígenas são regra geral de cabelo negro. Além disso, foram encontrados no deserto de Atacama alguns restos ósseos de cães dinamarqueses, galgos, muito provavelmente trazidos para este continente pelas embarcações vikingues.
Quanto aos povos asiáticos, possivelmente chineses, sabemos que o monge budista Huey Sing esteve na América Central, provavelmente na actual Guatemala, à qual chamou o “país de Fusang”. Por outro lado, de acordo com os estudos efectuados por investigadores e arqueólogos, presume-se que a cultura pré-colombina denominada Chimu, estabelecida a norte do actual território do Peru é, segundo parece, de origem japonesa. Na verdade, sabe-se que os Chineses chegaram a estas paragens por via marítima, e daí se infere que tenham vindo do Japão em resultado das constantes guerras-civis que se desencadeavam naquele arquipélago.
No que respeita aos Fenícios, também se aventa a hipótese da sua presença no continente americano, pois segundo alguns historiadores as terras do “Paruaim”, citadas na Bíblia não passam de uma corruptela da palavra “Peru”. Efectivamente, o templo de Salomão encontrava-se repleto de ouro, trazido pelos fenícios de Hirão, rei de Tiro, cujos marinheiros visitavam assiduamente as minas de “Paruaim”. Aliás, entre o avultado espólio arqueológico exumado na cidade geométrica de Cusco, capital do Império Inca, foi encontrada uma pequena estatueta representando um homem de compridas barbas, em posição sentado, retendo entre os joelhos uma pequena placa na qual parece registar algo que não podemos adivinhar. Porém, existe uma semelhança enorme entre esta pequena escultura e as estátuas representativas dos escribas fenícios. Visto que Cusco foi até à conquista espanhola uma das mais ricas regiões auríferas da América, porque não admitirmos que esse escriba estaria a anotar os carregamentos daquele preciso metal.
Mas foi Pierre Carnac, o historiador que melhor desmistificou a virgindade do continente americano, tomando como referência incontornável os achados arqueológicos encontrados em diversos lugares e regiões do continente americano. Foi com base nesses elementos que teve a ousadia de elaborar uma lista cronológica sobre o aportamento ao continente americano de variadíssimos povos provenientes da Europa e da África que precederam as naus de Colombo. O escalonamento desses povos, segundo Carnac, ficaria ordenado da seguinte maneira:
Cananeus, fenícios, povos negros indeterminados, cartagineses, gregos, romanos, celtas, irlandeses, vikings, ingleses, suevos, noruegueses, venesianos, bretões, bascos, dinamarqueses, portugueses, e só depois os espanhóis de Colombo.
Embora a arqueologia seja uma ciência rigorosa e de reconhecida autoridade, que muito tem contribuído para o progresso do saber histórico, cremos que Pierre Carnac exagerou no que respeita à lista dos povos acima discriminados. Não parece crível que a maioria deles tivesse precedido Colombo. O facto de terem sido encontrados objectos de diferentes origens e culturas, de diversas proveniências e distantes épocas, embora indubitavelmente estranhos às culturas autóctones, não significa que tenham sido levados para ali pelos seus originários produtores. O que deve ter acontecido é que foram transportados para a América por efeito de trocas mercantis não necessariamente operadas naquele território. Por isso é que foram encontrados em contextos arqueológicos deveras estranhos, para cuja explicação prevaleceram certas análises mais especulativas do que científicas, elaborando-se assim conclusões prematuras e pouco fiáveis.
Seja como for, uma coisa é certa: Colombo não descobriu a América, afirmação que é extensiva a Cabral, pois pensamos que alguns dos povos acima referidos terão chegado pelo menos ao actual estado de Pernambuco.
Antes de terminar, porém, acrescentaremos algumas achegas à tão decantada problemática do pré-conhecimento das terras americanas antes do aportamento em terras de Vera Cruz da frota de Pedro Alvares Cabral.
Cumpre assim, em primeiro lugar, perguntar como se explica que D. João II se tivesse apressado a negociar o Tratado de Tordesilhas com os Reis Católicos? De facto, a divisória de 1493 excluía aos portugueses a hipótese de “achamento de terras” para ocidente, e a avaliar pelas preocupações do monarca na demarcação de um meridiano situado a 370 léguas a ocidente do Cabo Verde torna-se um facto estranho, que facilmente no leva a deduzir que já então se sabia da existência de terras no Austro.[2]
Há ainda um outro facto algo estranho que merece ponderosa reflexão. No Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, publicado em 1838 por Diogo Kopke, a certo passo diz o seguinte:
E huma quynta feira que eram tres dias Dagosto partimos em Leste, e hindo hum dia com Sull quebrou a verga ao capitam morr e foy em xviij dias Dagosto e seria isto (duzentas) légoas da Ilha de Santiaguo, e pairamos com o traquete e papafigo dous dias e huma noute, e em xxij do dito mês hindo na volta do mar ao Sul e a Quarta do Sudueste achamos muytas aves feitas como garçõees e quando veo a noute tiravam contra o Susoeste muyto rrigas como aves que hiam pera terra, e neste mesmo dia vimos huma balea e isto bem oytocentas légoas em mar.”[3]
Algo um pouco semelhante escreveu Pero Vaz de Caminha, na sua Carta do Achamento:
E à quarta-feira seguinte (22 de Abril) pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra”.[4]
Ora, não terá Vasco da Gama avistado sinais de terra durante a sua prioritária missão de descobrir o caminho marítimo para a Índia? O indício das aves (garças), dos lenhos flutuantes (“rigas”, possivelmente madeira de pinho) e da baleia (mamífero que proliferava pelas costas brasileiras, e cuja pesca mais tarde se haveria de desenvolver), parecem-nos muito significativos se lhe ajuntarmos ainda o facto de no Roteiro se dizer peremptoriamente que “muyto rrigas como aves que hiam pera terra”. Logo, é muito provável que o descobridor da rota marítima das especiarias se tenha apercebido de correntes orientadas para terra, se é que não vislumbrou mesmo a terra brasileira. Só que a descrição do avistamento dessas terras não consta no Roteiro de Álvaro Velho, nem tão pouco no Diário de Vasco da Gama, facto esse quanto a nós originado pela política de sigilo impulsionada por D. João II. Porém, sabemos hoje que Vasco da Gama aconselhou Cabral a seguir a rota do Sul precisamente a partir das Ilhas de Cabo verde rumando para Sudoeste, caso viesse a ser “importunado” por ventos tempestuosos. Na verdade, o navegador seguiu o conselho, desviando-se ostensivamente para o quadrante de Sudoeste, durante as setecentas léguas que separam a Ilha de São Nicolau do local do primeiro desembarque em Porto Seguro.[5] E como as descrições da viagem não se referem nem a tempestades nem a correntes marítimas que justificassem tão pronunciado desvio da rota, é lógico admitir-se um pré-conhecimento daquele continente. Aliás, se por acaso houvesse necessidade de desvio motivado pelo regime dos ventos (o que não nos parece viável, já que os nossos pilotos sabiam bolinar há quase um século e dominavam as mais modernas técnicas de navegação), como é que se explica que Cabral e os seus pilotos tenham velejado setecentas léguas em águas desconhecidas sem procederem à correcção da rota?
Por outro lado, na Carta do Achamento de Pero Vaz de Caminha nada consta que nos possa levar a supor que aquela descoberta foi acolhida com grande surpresa e contentamento por todos os expedicionários. Ora, se efectivamente o acontecimento fosse obra do acaso, com certeza que o procedimento narrativo de Pero vaz de Caminha seria idêntico ao de Cadamosto quando descreve euforicamente a descoberta das Ilhas de Cabo Verde.[6]
Enfim, muitas mais razões se poderiam adiantar, mas não é nossa intenção esgotar este assunto, pelo que ficamos por aqui. A finalizar, e apenas a talhe de foice, concluímos que é quase certo o conhecimento prévio da existência de terras para ocidente da África, pois doutra forma Pedro Alvares Cabral não teria seguido uma rota tão directa para aquele continente. Agora, duma coisa temos a certeza, é que não foram nem Colombo nem Cabral os descobridores do “Novo Mundo”.

NOTAS

[1] Em todo o caso, Duarte Leite contraria a veracidade das afirmações de Estevão Fróis, considerando-as exageradas.
Cf. Duarte Leite, História dos Descobrimentos, 2 vols., Lisboa, Ed. Cosmos, 1959, 1.º vol. pp. 346-349.

[2] A este facto se refere a carta de Roberto Thorne de 1527, na qual o mercador inglês escreve ao seu monarca dizendo-lhe que desconfia que D. João II estivesse já na posse de notícias que lhe garantissem a existência dum continente austral a oeste de África, e daí ter negociado pela segunda vez o Tratado de Tordesilhas. Jaime Cortesão apresenta o documento e acredita nele, o que não se verifica na citada obra de Duarte Leite.

[3] Damião Peres (dir. de), História de Portugal, 9 vol., Porto, Portucalense Editora, 1928-1954, vol. III, p. 579.

[4] Pero Vaz de Caminha, Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974, p. 33.

[5] Duarte Leite. op. cit., p. 538.

[6] “Aguentamo-nos assim o tempo duas noites com três dias havendo ao terceiro vista de terra, e, gritando todos: - Terra, terra, muito nos maravilhamos, porque não sabíamos que naquelas paragens houvesse terra alguma e mandando subir ao mastro dois homens, descobriram duas grandes ilhas (Ilha do cabo Verde), o que, sendo noticiado, demos graças a Deus Nosso Senhor que nos levava a ver coisas novas; porque bem sabíamos que destas ilhas não havia notícia alguma em Espanha (designação que abrange os países da Península Ibérica, aqui refere-se a Portugal) e, julgando nós que elas podiam ser habitadas, para saber o mais e provar nossa ventura, nos fizemos na volta de uma delas e em pouco tempo nos achamos perto”.
Luís de Cadamosto, «Viagens», in Grandes Viagens Portuguesas, selecção de Branquinho da Fonseca, 2 vols., 2.ª ed., Lisboa, Portugália Editora, s/d, vol. II, pp. 11-12.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

O Paladino da Poesia Algarvia – Joaquim Magalhães


José Carlos Vilhena Mesquita

Procurando estabelecer um paralelismo comparativo entre a erudição e a generosidade intelectual, a bondade espiritual e a lisura de carácter, cheguei à triste conclusão que são atributos que muito raramente ornam a figura humana. Como raro é também caminharem juntos o percurso da vida numa só pessoa. Dei-me ao trabalho de procurar nos meus arquivos da cultura algarvia as personalidades que melhor preenchessem essas qualidades e virtudes. Confesso que entre os que possuíram essas virtudes e mais se assemelham entre si foram João de Deus e Joaquim Magalhães. A principal diferença entre ambos reside na distância cronológica e na confinação geográfica das suas acções cívicas. Um viveu e desenvolveu os seus principais projectos culturais em Lisboa e o outro quedou-se pela província, curiosamente a de que era originário o “poeta das crianças”.
Existindo, como creio, uma geopolítica da cultura, protegida pelo poder político, favoritista e centralizador, não admira pois que João de Deus se tenha alcandorado ao areópago das figuras nacionais, apontado como elemento definidor duma cultura e educador de gerações. As suas qualidades foram reconhecidas e o seu génio imortalizado. O Dr. Joaquim Magalhães embora mais humilde e menos ambicioso que o autor da Cartilha, nunca poderia guindar-se a altos voos porque destas terras de lendas e feitiços nunca se apartou. Em todo o caso viveram duas realidades político-culturais absolutamente diferenciadas, em dimensões cronológicas muito distantes, pelo que qualquer comparação entre ambos é sempre passível de incongruências e anacronismos.
No Algarve dos meados do século a vida cultural era incipiente, escassa e quase episódica. O regime vigente também não permitia grandes veleidades, pois encarava os intelectuais como subversivos e potenciais adversários. E quantas vezes o Dr. Joaquim Magalhães não sentiu a impossibilidade de ir mais longe, vendo-se coagido a silenciar as suas opiniões sobre a situação sociocultural em que o país vivia. Por vezes a mais elementar crítica de âmbito literário, quando dita em público, podia ser entendida como perniciosa e desafecta ao regime. Talvez para evitar mais sacrifícios e perseguições - até porque como professor estava sob a alçada do Estado - decidiu refrear as opiniões políticas, evitando confrontar-se com os esbirros do salazarismo. Provavelmente por isso, chegou mesmo a dar a impressão que pactuava com o regime, mas toda a gente sabia que o Dr. Magalhães era um indefectível democrata, cuja bondade de carácter não era capaz de estabelecer diferenças nem distinções entre bons e maus concidadãos.
Pela admiração que me merecia esse generoso amigo, senti um indescritível desgosto no passado dia 16 de Outubro de 1999 quando recebi a triste notícia do seu falecimento. Eram cinco horas da tarde quando um telefonema frio e repentino anunciava: Morreu o Dr. Magalhães. Senti um calafrio, um aperto sufocante no coração que me paralisou a voz. O meu ilustre conterrâneo, indefectível amigo e companheiro nas lides culturais algarvias, partia para sempre. Não sofreu, foi de repente, faleceu serenamente - confidenciou um seu familiar. Virou-se para o outro lado da vida, diria certamente o nosso comum amigo Pinheiro e Rosa, que tinha para a morte uma explicação de transitoriedade, uma espécie de mutação material para um estado de graça absolutamente espiritual, que pessoalmente prefiro qualificar como a prova da nossa impermanência existencial. A sua provecta idade, noventa anos acabados de concluir em Maio, não parecia ter-lhe diminuído a ânsia e viver. Bem pelo contrário, mostrava-se esperançado em romper o século e penetrar no novo milénio. Esta meta cronológica, carregada de fortes implicações psicológicas, sentia-a como uma barreira que desejava vencer. Todavia, uma recente intervenção cirúrgica ao esófago precarizara-lhe a saúde, agravada naturalmente pelo peso da idade. Vi-o definhar neste último verão. Notei-lhe uma grande quebra física, perdendo peso de uma forma irreversível, que o impossibilitou de andar e até de falar com o vigor a que nos havia acostumado. Senti-lhe o fim. Mas apesar de se temer o pior, mas nunca se está preparado para receber e aceitar a morte de um amigo.
Em boa verdade pode dizer-se que o Dr. Joaquim Magalhães foi uma personalidade ímpar e uma figura tutelar da cultura algarvia. Creio mesmo que terá sido o último de uma plêiade de intelectuais que marcaram profundamente a vivência cultural no Algarve. Alguns deles tive a honra de conhecer, como foi o caso do Dr. Mário Lyster Franco, o museólogo José António Pinheiro e Rosa, os publicistas Maurício Serafim Monteiro, Antero Nobre, Abílio Gouveia e Aníbal Guerreiro, os historiadores Alberto Iria, Garcia Domingues e Mariana Santos, os jurisconsultos Rita da Palma, Júlio Carrapato e Neves Anacleto, os poetas João Bráz e Leonel Neves, o escritor Vicente Campinas e o artista Manuel dos Santos Cabanas, além de outros que a memória atraiçoa.
Guardo do meu querido amigo Dr. Joaquim Magalhães as mais gratas recordações, nomeadamente os seus conselhos e ensinamentos, que nunca recusava a quem quer que fosse. Aliás, a sua principal característica era a generosidade. A sua grandeza humana definia-se em duas palavras: bondade e benevolência. É nesse sentido que se tornam mais entendíveis as palavras da escritora Lídia Jorge, quando na homenagem realizada na Livraria Odisseia afirmou: «O Dr. Joaquim Magalhães criou no Algarve uma autêntica família cultural e espiritual... era um homem bom de grande capacidade de envolvimento humano». Como teve a honra de aos catorze anos de idade ter sido sua aluna, recorda-se que «O Dr. Joaquim Magalhães ensinou-nos a saber ler que o silêncio das palavras é uma coisa muito importante... Aprendi com ele o fundamental para a minha vida».
É raríssimo ver-se hoje alguém da sua estirpe, mostrando-se desprendido e desinteressado nas coisas de que poderia beneficiar. E como poderia ter ido longe este homem se fosse um pouco mais ambicioso e não vivesse quase em exclusivo para os outros. Não era esse o seu feitio. Recusou sempre o exercício do poder, apenas aceitando o cargo de Reitor do Liceu de Faro, por ser essa a vontade dos seus colegas. Por isso costumava dizer com alguma ironia que «quem não vive para servir, não serve para viver», sendo inclusivamente esse o seu lema de vida. Esta máxima identifica claramente um homem desprendido de quaisquer vaidades, sem pretensões para ser mais do que um educador e um provocador de ideias e um descobridor de talentos. Mas não só. A sua afabilidade granjeava-lhe amizades tanto à esquerda como à direita, suscitando através da cultura uma convivência pluridimensionada, geradora de consensos e de tolerâncias. A lisura de carácter, que tanto o caracterizava, é uma das razões que me leva a considerá-lo como um paradigma do intelectualismo moderno, inspirado nos sublimes valores do classicismo florentino.
Acresce dizer também que, não obstante ser muito conhecida a sua máxima de vida (quem não vive para servir, não serve para viver), muitas vezes apregoou em público que se considerava um “algarvio nascido no Porto”, razão pela qual adoptou do seu conterrâneo Infante D. Henrique a divisa “talante de bem fazer” (talant de bien faire) para caracterizar a sua conduta sociocultural. Foi sobretudo essa vontade de fazer bem aos outros, usando largamente da paciência e da tolerância, para não ofender a ignorância nem a incompetência dos muitos que dele se cercavam, que obteve a aura de homem singular. Andarilho das ruas de Faro, visitava quase diariamente as sedes dos jornais, as livrarias e os escritórios de alguns amigos. Fazia-o como um ritual, em breves passagens à laia de “visita de médico”. Era só para dar de vaia, comentava em jeito de graça, e partia depois dos cumprimentos habituais. No seu passeio matinal era geralmente abordado por imensas pessoas. Escutava pacientemente quem o interpelava e nunca ouvi dizer que tivesse uma palavra, um comentário reprovador ou depreciativo para quem quer que fosse. Também não gostava de dar opiniões, porque receava que isso pudesse vir a causar dissabores ou a indispô-lo com alguém. Preferia agir como um autêntico diplomata - nem sim, nem não. Contudo, para que a conversa não azedasse tinha logo uma laracha para comparar à situação ou uma anedota para amenizar o clima de crispação. Ouvindo maus dizeres contra tanta gente, nunca foi capaz de “trazer e levar” as intriguinhas que adornam e fertilizam a nossa mesquinha sociedade. Posso afirmar, com pleno conhecimento de causa, que levei algum tempo até aceitar do Dr. Magalhães este silêncio, qual voto de confessionário, que o impedia de revelar as maledicências que lhe confidenciavam aqui e ali. Tinha uma “calma freudiana” que lhe refreava o ânimo e impedia de exteriorizar as emoções ofensivas. Foi então que me disse uma quadra de António Aleixo que nunca esquecerei:

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida
Não deixa de ser Razão.

A benemerência que espalhou foi de carácter espiritual, já que de ordem material não lhe era possível. Aliás, uma das queixas que lhe ouvi várias vezes prendia-se com a sua escassa reforma, nada consentânea com a sua especialização profissional, que noutros tempos era exigentíssima. Apesar disso, a Dr.ª Maria Aliete Galhoz afirmou, na homenagem acima referida, que o Dr. Magalhães após ter sido seu professor soube que as dificuldades económicas colocavam em causa a continuidade dos seus estudos na Universidade, pelo que de uma forma mecenática se ofereceu para lhe pagar as propinas, o que não chegou a ser necessário. Este gesto identifica bem o homem que ele era, as salutares preocupações que tinha com o sucesso dos seus alunos. Mesmo sabendo-se das suas dificuldades económicas, já que um professor ganhava pouco para as funções sociais que desempenhava. Por outro lado, o Dr. Joaquim Magalhães não prescindia das despesas inerentes a um intelectual, ou seja, comprava diariamente jornais e adquiria de livros, por mais dispendiosos que fossem.
Tínhamos em comum algo que nos unia profundamente: nascêramos ambos na mesma rua, a trinta passos de distância, como ele costumava dizer. Distanciavam-nos, porém, 46 anos de diferença. Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, de seu nome completo, nasceu na freguesia da Sé, na cidade do Porto a 3 de Maio de 1909, razão pela qual se intitulava como um “irmão mais velho da República”. Aprendeu as primeiras letras na escola primária de Massarelos, na cidade Invicta, transferindo-se pouco depois para São Martinho de Sande, no Marco de Canaveses, terra de origem dos seus ascendentes. Estudou depois no Colégio Francês e no Liceu Rodrigues de Freitas, ambos no Porto, em cuja Faculdade de Letras se licenciaria em Filologia Românica, com dezasseis valores, no ano de 1930. No ano seguinte iniciou o estágio pedagógico no Liceu Normal de Coimbra, relativo ao 2.º grupo nas disciplinas de Português e Francês. Foram dois anos extenuantes e de certo modo injustos, pois que durante o estágio não se recebia salário. Por isso, foi trabalhar na Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, no Colégio de S. Luís, em Espinho e no Internato de Sernache do Bom Jardim.
Em 1933 foi aprovado com dezassete valores no Exame de Estado no Liceu Normal Pedro Nunes em Lisboa. Ainda antes de ser colocado, no ano lectivo de 1933-34, no Liceu de Faro como professor agregado, O primeiro contacto com Faro durou apenas um ano, já que em 1934-35 concorreu para professor efectivo sendo colocado no Liceu Jaime Moniz, no Funchal. No ano seguinte tomava posse no Liceu de Faro como professor efectivo de Português e Francês, tendo até exercido funções de Director de Classe, Director de Ciclo, Vice-Reitor e Reitor entre 1968 e 1974, com a particularidade de não ter sido saneado com o «25 de Abril». Pelo contrário, merecendo a confiança dos colegas e das novas instituições teve a honra de ser o primeiro Presidente do Conselho de Gestão Democrática do Liceu de Faro. Durante esses quase quarenta anos de docência foi por diversas vezes requisitado para elaborar os pontos nacionais de exame da disciplina de Francês, assim era solicitado para aprovar os livros escolares da mesma língua e de Português.
Ao longo desses quarenta anos de docência deixou fortes marcas no espírito dos seus jovens alunos, que na sua maioria guardam dele as mais gratas recordações. Nesse aspecto parecem-me, mais uma vez, dignas de memória as palavras, aliás, bastante elucidativas, da escritora Lídia Jorge quando a esse respeito afirmou: «Para além do pensamento aberto ao mundo, ele [Dr. Joaquim Magalhães] faz parte de uma espécie de tendência de escola libertária, os únicos textos pedagógicos, didácticos de que eu me lembro e a que ele se referia nas aulas eram os textos de Rousseau. Dizia-nos que cada homem tem um saber dentro de si, tem é de o descobrir, foi a essa perspectiva que o Prof. Joaquim Magalhães foi capaz de se associar com um temperamento que estava perfeitamente coadunado para esse tipo de escola libertária. Por isso nós acabamos por ser tocados por ele.»
[1]
Também o seu ex-aluno e reputado poeta, Gastão Cruz, corrobora as influências deixadas pelo antigo mestre, salientando que o Dr. Joaquim Magalhães foi «uma pessoa que soube estimular os alunos no sentido de um aperfeiçoamento cultural. Era um homem que demonstrava aos seus alunos e não só, uma claridade, uma abertura de espírito e um grande estímulo para todos os que conviviam com ele.»[2]
A sua acção pedagógica foi notável, sendo ainda hoje lembrado como um professor que não preparava as lições como a maioria dos seus colegas, pois fazia da aula um acto de criação. Mas não foi só na sala de aula que o seu talento se evidenciava, pois que durante dezoito anos preparou as récitas de teatro dos finalistas do Liceu, cabendo-lhe a encenação de obras de autores consagrados como Garrett, Gil Vicente, Camilo, António José da Silva (O Judeu), Ramada Curto, Júlio Dinis e Moliére. Alguns dos seus antigos alunos ficavam bastante surpreendidos com a forma como o Dr. Magalhães se dedicava ao teatro, explicando as cenas e imaginando as emoções do autor quando as escreveu. Ainda recentemente, na sua última homenagem pública realizada na Livraria Odisseia no dia 9 de Outubro, a Prof. Doutora Teresa Rita Lopes e a Prof. Aliete Galhoz, recordavam com saudade alguns desses momentos em que a criatividade e a sensibilidade artística do Dr. Magalhães conseguiam fazer dos ensaios verdadeiras homenagens à arte de Talma.
Como agente promotor da cultura a sua acção na sociedade farense foi a todos os títulos exemplar. Merece especial menção a sua participação na fundação da Alliance Française, de que foi o último presidente. Pertenceu com Lionel de Roulet e o Dr. Fernandes Lopes, ao grupo fundador do Círculo Cultural Camões, que durante a guerra se haveria de transformar no Círculo Cultural do Algarve, ao qual presidiu desde 1943 até 1970. Importa acrescentar que o Círculo foi uma espécie de bolsa de resistência intelectual ao fascismo, ali se realizando várias exposições, conferências, colóquios e até cursos intensivos sobre assuntos que não agradavam à situação política. Inclusivamente alguns dos conferencistas e prelectores eram claramente desafectos ao regime salazarista, o que originava constantes visitas dos agentes da PIDE. Além de desagradável a situação chegava por vezes a ser atemorizante, pois podia ocasionar a detenção do palestrante e o encerramento do Círculo.
Apesar da sua honorabilidade o próprio Dr. Joaquim Magalhães chegou a temer pela sua segurança, quando numa das suas acostumadas palestras literárias encarou na assistência com um agente da polícia secreta. O caso não passou de um susto, com uma certa graça, que o Dr. Magalhães descreveu nos seguintes termos: «Fui passar férias e encontrei na casa do meu avô, em Marco de Canavezes, um livro de poemas de Olindo Cabral, abade de Jazende. Achei interessante para apresentar uma conferência. Quando já estava quase no fim vi na sala um PIDE que já conhecia por ter lá ido fazer apreensões de livros. Fiquei perturbado a pensar o que é que ele quereria. No fim da conferência ele aproximou-se de mim e disse que estava curioso em saber quem tinha sido o abade de Jazende porque ele era natural daquela freguesia. Foi uma grande surpresa saber que um agente da repressão podia também ter curiosidade literária.».
[3]
Fundou igualmente o Cine Clube de Faro e o Conservatório Regional do Algarve, a cujo Conselho Administrativo presidiu durante catorze anos. Estas foram as instituições a que mais se dedicou. Porém, outras houve que igualmente beneficiaram do seu esforço como a Misericórdia de Faro, de que foi Vice-Provedor e Provedor, a Mutualidade Popular de que foi Presidente, a Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes Mentais em Faro, e a Câmara Corporativa a que foi Procurador entre 1973-74 em representação das Associações de Socorros Mútuos ao Sul do Tejo. Pertenceu a certos organismos autárquicos de carácter consultivo, como foi o caso do Conselho Municipal de Faro, da Comissão Municipal de Turismo e da Comissão de Arte e Arqueologia de Faro. Julgo também que terá sido um dos primeiros membros do Rotary Clube de Faro, da Cruz Vermelha e de tantas outras associações locais e regionais.
Importa referir que não obstante a sua reconhecida independência política, o certo é que o Dr. Joaquim Magalhães aceitou tomar parte nas comissões distritais eleitorais das candidaturas de Norton de Matos e do general Humberto Delgado. Recentemente foi mandatário regional da segunda candidatura do Dr. Mário Soares à presidência da república, para a qual, como se sabe seria eleito por esmagadora maioria.
Em reconhecimento da sua dedicação à cidade de Faro, às instituições culturais e ao associativismo filantrópico, foi agraciado pela autarquia com as medalhas de Grau Ouro da Câmara Municipal de Faro e Grau Prata da Câmara Municipal de Tavira, culminando em 1995 com a atribuição da Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Porém a mais digna e a mais sentida homenagem pública que se lhe prestou em vida ocorreu em 16 de Setembro de 1991, quando foi atribuído o seu nome à Escola C+S n.º 2 de Faro, que hoje ostenta orgulhosamente a designação de Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Dr. Joaquim Magalhães. Essa foi justamente a mais coerente e perpectualizante homenagem da sua longa e nobre existência.
Estreou-se na imprensa algarvia nos meados da década de trinta tornando-se logo num assíduo e respeitável colaborador, a ponto de lhe ter pertencido durante trinta anos a secção «Sete Dias da Semana» no semanário farense O Algarve, do qual viria mesmo a ser Director entre 1981 e 1983. Colaborou também na Voz de Loulé, no Correio do Sul (Faro), no Povo Algarvio (Tavira), no Jornal do Algarve (V. R. St.º António), nos órgãos estudantis do Liceu de Faro, etc, etc.
Pronunciou largas dezenas de conferências no Algarve, Funchal, Setúbal, Lisboa e Porto, concitando sempre numerosas audiências. A forma como teatralizava a palavra, aliada a uma dicção cristalina, ao estilo coimbrão, proporcionou-lhe a justa fama de orador. Onde quer que fosse palestrar era certo e sabido que tinha a sala cheia. A sua coroa de glória, fruto do seu bom coração, surgiu nos anos quarenta quando deu atenção a um simples cauteleiro que nas ruas de Faro apregoava a “sorte grande”, bonificando os seus clientes com quadras populares a que só um espírito superior como o do Dr. Magalhães sabia dar valor. Esse simples cauteleiro era o poeta António Aleixo, figura popular e de parcas posses, a que a sociedade burguesa dava pouca importância. Era quase analfabeto, porém o Dr. Magalhães soube ver nele um verdadeiro filósofo, que escutou e apoiou, fazendo-se orgulhosamente seu “secretário”.

Não há nenhum milionário O tal Aleixo, o poeta,
Que seja feliz como eu: Que dizem ser de Loulé,
Tenho como secretário É uma figura incompleta
Um professor do Liceu. Sem o Magalhães ao pé.

Essa prova de humildade chegou mesmo a ser criticada no tempo, visto ser indício de um certo bolchevismo, perigoso e desafecto ao regime vigente. Mas o Dr. Joaquim Magalhães não ligou importância e prosseguiu o seu trabalho de compilar, e certamente corrigir (senão mesmo melhorar), as quadras do Aleixo que deu à estampa num pequeno livro intitulado Quando Começo a Cantar, editado em 1943 pelo Círculo Cultural do Algarve. E foi logo um sucesso, já que o autor com a venda do mesmo apurou cerca de vinte e cinco contos, que o ajudaram a combater a tuberculose que infelizmente o haveria de vitimar. Apesar de Tóssan haver incentivado o poeta Aleixo, no Sanatório dos Covões, em Coimbra, a escrever e publicar os Autos da Vida e da Morte e do Curandeiro, divulgando assim o seu talento junto da academia coimbrã, o que certo é que pertenceu ao Dr. Magalhães a humildade e a generosidade de resgatar o simples cauteleiro do anonimato a que estava condenado, fazendo dele um poeta de renome e prestígio nacional. A bem dizer quem “fez” o poeta Aleixo foi o Dr. Joaquim Magalhães, a quem aliás dedicou o seu primeiro livro, intitulado Romance do Poeta Aleixo, editado em 1959.
Para além de tudo isto, merece especial destaque o facto de haver pertencido ao grupo de intelectuais que liderou o movimento literário da «Presença», ao lado de Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, José Régio, Miguel Torga e Adolfo Casais Monteiro. Os “presencistas” foram os grandes difusores do Modernismo em Portugal, contra o academismo e o jornalismo ronceiro, favoráveis a uma literatura viva, sendo por isso os herdeiros naturais do movimento do Orpheu. O Dr. Joaquim Magalhães colaborou com o grupo, carteou-se com a maioria dos seus impulsionadores, e quando no início da década passada se fez em Faro uma exposição sobre o movimento da Presença, o Dr. David Mourão Ferreira teve a hombridade de apontar, destacar e enaltecer a figura do Dr. Joaquim Magalhães como um dos últimos resistentes do movimento da Presença.
Por fim, importa salientar a sua faceta de “pai dos poetas”, como ficou conhecido após ter lançado António Aleixo. Neste rincão de poesia e viveiro de poetas, que é o Algarve, poucos foram os que não se acercaram do Dr. Magalhães pedindo-lhe que apadrinhasse a sua estreia literária com um prefácio ou umas simples palavras de abertura, que pudessem dar a entender que as suas obras tinham préstimo e os seus autores sobejo talento. Nunca negou essa paterna bênção, como também nunca soube dizer não a ninguém. Nem mesmo quando sabia que dificilmente conseguiria gerir os seus compromissos. Escreveu prefácios, apresentou livros e fez palestras sobre poesia popular em todo o Algarve, tornando-se no intelectual mais conhecido da região. Fez parte de júris em Jogos Florais e concursos literários, dando com a sua presença muita da credibilidade e do prestígio que faltava à maioria desses certames.
No âmbito da crítica literária escreveu dezenas de apreciações não só relativas às obras que acabavam de ver a luz da estampa como também sobre autores da moderna literatura portuguesa. Acima de tudo importa acrescentar que foi talvez o único intelectual que neste país teve a ousadia de descrer e, diria mesmo, desacreditar a poesia de António Ramos Rosa. Nada tinha a objectar contra o abstraccionismo poético, que não raras vezes até lhe agradava, mas incomodava-se com o pseudo-intelectualismo daqueles que, fazendo versos que ninguém entendia, passavam por ser mais inteligentes do que os outros poetas. Da poesia de Ramos Rosa dizia mesmo que se tratava de prosa às escadinhas ou texto retalhado no açougue dos cenáculos lisboetas.
A sua obra poderia ter sido vastíssima se em vida se tivesse preocupado em reunir em livro o melhor e a maior parte do que escrevia. Por isso, acaba por ser considerada escassa. Em boa verdade serviu a cultura sem dela se servir. Não obstante publicou os seguintes trabalhos:

O Romance do Poeta Aleixo, 1959.
Perfil literário de Teixeira Gomes, 1960.
Aventura Poética de Emiliano da Costa, 1962.
Ao Encontro de António Aleixo, 1977.
João de Deus, esse desconhecido, 1995.
Pretérito Imperfeito - Quadras e Lírica, 1996.
Cartas Sem Código Postal, 1999.

Não é uma numerosa e farta lista de obras, como certamente sugere e pressupõe o seu grande prestígio intelectual. Mas as suas preocupações científicas foram quase sempre ultrapassadas pela inimitável missão pedagógica a que votou toda a sua vida. Não gozou da disponibilidade necessária para se dedicar à investigação por inteiro, deixando-se absorver pela divulgação, quer através de centenas de artigos nos jornais, quer através das inúmeras conferências pronunciadas em quase todo o país. Nunca foi capaz de se furtar ou simplesmente recusar as solicitações que lhe eram dirigidas, sobejando-lhe pouco tempo livre para se ocupar na investigação literária. Tinha disso consciência pois numa quadra, ao jeito aleixiano, retratou assim a situação:

Cada um é como é,
e, por isso, eu sou assim,
dei todo o meu tempo aos outros,
fiquei sem tempo para mim.

Para encerrar esta já longa notícia biográfica, não posso deixar passar em claro a nossa convivência particular e a amizade cimentada ao longo de vinte anos. Lembro-me que estivemos juntos em várias iniciativas e que convivíamos diariamente na delegação do «Diário de Notícias», em Faro, onde fui colaborador regional desde 1981 a 1989. Era um regalo ouvi-lo recordar certos autores consagrados com quem privara, e, sobretudo, ouvi-lo comentar as obras que acabavam de surgir nos escaparates, às quais dava sempre grande atenção. Era aliás um inveterado cliente da Livraria do Diário de Notícias, situada na Rua Vasco da Gama, nos baixos da Secretaria de Estado da Cultura. Recordo-me que o Prof. Tomás Ribas quase sempre descia à Livraria pelas onze da manhã, hora da visita do Dr. Magalhães, sendo deliciosas de humor e de chiste político as análises que ambos faziam sobre as mais diversas situações. O Tomás Ribas tinha um humor sardónico, a que nada nem ninguém escapava, e com isso se divertia imenso o pobre do Dr. Magalhães, que sempre foi muito comedido nas suas apreciações, sobretudo quando relativas ao talento e capacidades das pessoas. Eram duas personalidades ímpares na sociedade farense da década de oitenta e tanto a Livraria como a Redacção do Diário de Notícias eram um ponto de passagem e de reunião diária da intelectualidade local e até mesmo do Algarve inteiro. Chegou a ser um ponto de referência para a convivência cultural, que hoje se perdeu e se desactivou completamente. Por ali passavam regularmente o Prof. Pinheiro e Rosa, o Antero Nobre, o Prof. Doutor Gomes Guerreiro, que era o Reitor da Universidade do Algarve, a Dr.ª Mariana Machado Santos, o Dr. Fernandes Mascarenhas, o Dr. Elviro da Rocha Gomes, e esporadicamente o Tóssan, Casimiro de Brito, Carlos Albino e sua esposa Lídia Jorge, o bibliófilo Tavares Simões, o Dr. Tello Queirós, etc.
Pertencemos juntos à Direcção da Associação da Imprensa Regional do Algarve (AIRA), fundada pelo não menos saudoso amigo Antero Nobre. Estive, igualmente, com ambos na fundação da ADEIPA – Associação para a Defesa do Património de Faro, infelizmente já extinta. Participei, ao seu lado, na criação da Universidade para a Terceira Idade, onde leccionei gratuitamente nos dois primeiros anos de existência. Estivemos juntos em júris de Jogos Florais e em várias homenagens onde pronunciamos conferências lado a lado. Recordo-me de um caso exemplar; aconteceu a 15-6-1996, nas Comemorações do 3.º Centenário da Freguesia de Olhão, no âmbito das quais se homenageou nessa data a obra científica do Dr. Alberto Iria, um dos mais ilustres historiadores deste século e certamente uma das mais gradas figuras nascidas naquela vila piscatória. Quem abriu a cerimónia foi o Antero Nobre que nos apresentou como palestrantes, tocando ao Dr. Magalhães o elogio do Autor e a mim o elogio da Obra. Encontrava-se ao nosso lado um enorme retrato do Dr. Alberto Iria, e lembro-me da forma magistral como o Dr. Magalhães se lhe dirigiu, numa espécie de diálogo vivo, por vezes quente e arrebatador, que nos fez rir e chorar, numa mesclagem de sentimentos e emoções como só ele era capaz de suscitar. A numerosa assistência, representativa das principais autoridades políticas e culturais da região, ficou profundamente extasiada com o seu talento de orador, que ao teatralizar um monólogo com o homenageado recentemente desaparecido, parecia dar a entender que ele estava ali entre nós. Nunca vi nada parecido e só um homem de grande talento como o Dr. Magalhães é que era capaz de encenar um diálogo tão realista e emocionante.
Ainda recentemente, durante a apresentação na do seu último livro editado pela Câmara de Tavira, fizemos projectos para o futuro, nomeadamente o encerramento das comemorações centenárias de António Aleixo por intermédio da AJEA, o que infelizmente já não realizaremos em respeito pela sua memória. Em todo o caso não quero terminar esta sentida evocação de homenagem pela perda de um grande amigo, sem afirmar que o Dr. Joaquim Magalhães deixa na memória de todos quantos com ele privaram a mais profunda saudade. Sinto, tal como o Algarve, uma impagável dívida de gratidão.
No cemitério de Loulé repousa no sono eterno, e quase ao lado de António Aleixo, aquele que foi considerado como o “pai dos poetas” do Algarve.
Perdemos um homem bom, que se algum erro cometeu na vida esse foi certamente o de ser generoso numa terra de ingratos.



NOTAS

[1] A Avezinha, 21-10-1999.

[2] Idem, ibidem.

[3] Jornal do Algarve, Magazine, n.º 2191, de 25-3-1999, p. 15.


Nota: este texto foi publicado na revista «Stilus» nº 2.

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

O primeiro jornal diário de Faro


José Carlos Vilhena Mesquita

Numa altura em que acabamos de assistir em Faro à fundação da edição Algarve do Diário do Sul, convirá, talvez, falar um pouco daquele que há mais de um século atrás apareceu pela primeira vez na capital algarvia com uma periodicidade diária regular e constante.
Fundado a 8 de Dezembro de 1880 para servir de arauto a um grupo de progressistas que se havia radicado na capital algarvia, teve O Progresso do Algarve, apesar da sua efémera existência, o mérito de ser o segundo diário a sul do Tejo, editado oito anos depois do célebre Diário do Algarve, fundado em Dezembro de 1872 na cidade de Lagos. Foi seu director o jornalista Luiz Sepulveda Pimentel Mascarenhas, natural de Portimão, figura marcante nos meios político-intelectuais de então, brilhante orador e dedicado pedagogo, que faleceu em Faro a 30-1-1920. À data do seu desaparecimento era ainda grande polemista e desde Abril de 1917 que dirigia o semanário farense O Algarve, que ajudara a fundar em 1908, e que por ainda hoje se publicar é justa e merecidamente considerado o decano da imprensa algarvia.
Publicava-se primeiramente como bissemanário às quartas e sábados e teve vários subtítulos, desde «Órgão da Política Progressista Algarvio», passando a «Folha afecta ao Partido Progressista» e terminando em «Órgão do Partido Progressista Algarvio». Estas constantes mudanças devem-se fundamentalmente às lutas intestinas dos progressistas algarvios que acabaram por se dividir em dois grupos: os “rabinos” e os “fajardos”. Aos primeiros pertenceram o Dr. Manuel Águedo Gomes de Miranda, natural de Moncorvo, Luiz Mascarenhas, de Portimão, o farmacêutico João Agostinho Ferreira Chaves e o Dr. António Frederico Gomes, ambos de Faro. Dos “fajardos” faziam parte o Dr. Manuel Joaquim d'Almeida, natural de Aveiro P.e Manuel José Gonçalves Osório, nascido em Bragança, e os irmãos Drs. Frederico e Francisco Lázaro Cortes, ambos de Faro.
Suponho que iniciou a sua publicação diária numa terça-feira a 18 de Abril de 1882 com o n.º 142 prolongando-se até ao n.º 225 de 18 de Julho desse ano, voltando à sua periodicidade normal de bissemanário desta feita às quintas e domingos. No total publicaram-se apenas 93 números diários, sendo hoje considerados ultra-raros, para além de com toda a certeza não existir, uma colecção completa deste jornal. Pessoalmente conheço apenas a colecção incompleta e bastante esparsa do Sr. José Manuel Bivar, muito possivelmente a única que subsiste deste título.
Entre os seus colaboradores mais assíduos merecem especial menção os nomes de Brotas Cardoso, desenhador de obras públicas, o veterinário Anes Baganha, o secretário-geral do governo civil Dr. Álvaro de Mendonça e o Dr. António Frederico Gomes, todos há muito desaparecidos. Possuía ainda nas suas fileiras três jornalistas remunerados: Silva Pontes, natural de Faro, José Bernardo de Aragão Teixeira, de Loulé, e o correspondente em Lisboa, António Eduardo de Macedo Ortigão, igualmente nascido em Faro, oficial do Real Arquivo da Torre do Tombo, 1.º conservador da Biblioteca Nacional, director da secretaria geral das Bibliotecas e Arquivos Nacionais, colaborador de vários diários lisboetas, redactor de O Século e do Diário de Notícias, onde trabalhou até ao seu falecimento ocorrido em 31-1-1931. De salientar que quando Macedo Ortigão vinha passar as suas férias à terra natal encarregava-se de escrever, quase na totalidade, O Progresso do Algarve, a ele se ficando a dever acesas polémicas com o seu adversário regenerador o Districto de Faro, dirigido pelo brilhante jornalista e agente consular António Bernardo da Cruz. Ambos os periódicos constituem ao presente das fontes mais importantes para o estudo da História Contemporânea do Algarve, havendo apenas a lamentar a falta das suas colecções completas. Vem a talhe de foice acrescentar que do Districto de Faro a mais completa colecção que se conhece comprei-a eu recentemente aos herdeiros do comendador Ferreira Neto.
Possuía tipografia própria adquirida ao Defesa do Povo, que se publicou em Silves de 15 de Setembro de 1878 até 8 de Dezembro de 1880, a qual já havia pertencido ao Correio do Meio Dia (fundado em 24-5-1874 e extinto a 13-1-1878) e ao Jornal dos Artistas (11-11-1875 a 20-7-1877), ambos periódicos de Portimão. Teve a Redacção e Administração sediada na Rua de S. Pedro n.º 5 e era propriedade do Centro Progressista de Faro, designação que manteve no cabeçalho até à já referida cisão do partido. Apresentava-se com um formato de 4 pp., no tamanho de 320x435 mm., sendo a sua mancha tipográfica de 285x410 mm, diminuindo na fase diária as suas proporções para 260x380 mm., com mancha de 230x325 mm. Tinha cinco colunas como bissemanário e quatro como diário, sempre impresso a preto e raramente ilustrado. O papel era fraco, a paginação corrida e a impressão era francamente medíocre. Os caracteres tipográficos apresentavam-se gastos e o título, impresso a negro, tinha a dimensão de 230x50 mm., inserindo na sua fase diária o subtítulo: «Folha diária do Partido Progressista». Custava avulso 30 réis e a assinatura trimestral era de 750 rs., passando na sua fase diária a 10 rs. Avulso, mantendo o preço anterior da assinatura. A publicidade “de interesse particular” pagava-se a 40 rs/linha e os anúncios vulgares a 20 rs/ /linha, cabendo aos assinantes um desconto de 25%, sendo por isso a última página integralmente preenchida pelos anunciantes do comércio e indústrias locais. A inventariação e sobrepesagem dessa publicidade no contexto socioeconómico da sociedade farense, constitui trabalho de muito interesse para o estudo das potencialidades da região nos finais do século passado. No rodapé da 1.ª página publicava-se sempre um folhetim, e de entre os muitos que ali se deram a público permita-se-me destacar «Uma Canção Romântica» de Pinheiro Chagas e «Os Piratas» de Frederico Marryat, por serem aqueles que mais aceitação tiveram entre os leitores farenses.
Manteve o Progresso do Algarve, como já se disse, demoradas campanhas e acesas polémicas contra o Districto de Faro, nomeadamente acerca da tisana Assis, que se dizia ser uma ligeira alteração do célebre “Chá Zithman”, especialmente indicado na cura da sífilis, facto que atraiu a Faro largos milhares de doentes, que enriqueceram os seus promotores e o comércio local. Nessa época custava cada tisana 3000 réis e o tratamento prolongava-se por cerca de um mês. Os doentes acorriam ao Algarve através de carreiras marítimas oriundas praticamente de todo o mundo ficando, por isso, a cidade de Faro conhecida pela “Meca dos sifilíticos”. O negócio remonta ao aparecimento no Algarve do Dr. Constantino Cúmano, italiano refugiado de perseguições políticas, que durante a sua estadia em Faro doara ao seu confidente e fiel amigo José Maria Assis o segredo de uma tisana que curava o flagelo da sífilis. Convém, já agora, lembrar que o Assis embora fosse barbeiro de profissão era um homem culto, de boa índole e a sua arte em nada se assemelhava à dos seus actuais colegas de profissão. No fundo ele era um misto de enfermeiro, veterinário, farmacêutico, dentista, etc... Portanto, o facto de ser “barbeiro” não queria dizer que se dedicasse propriamente a desfazer barbas e a cortar cabelo.
Quando o médico italiano regressou à sua pátria ficou o Assis na posse de um florescente negócio, que o tornou conhecido no país, nas colónias e até no Brasil, de onde vinham periodicamente centenas de sifilíticos, que enchiam os hotéis e pensões locais, para além da “Casa de Saúde” na Rua Infante D. Henrique, onde hoje se encontram os serviços da Caixa de Previdência.
Foi igualmente feroz a campanha encetada em 1885 contra Dr. António Centeno, na altura Governador Civil do Algarve e, mais tarde, presidente do conselho de administração das Companhias Reunidas Gás e Electricidade, a quem o jornal chamava o “Sem tino”. A dignidade daquele ilustre advogado e publicista, fundador do Correio Português, proprietário do Diário Popular e presidente da Associação Industrial Portuguesa, foi por várias vezes achincalhada de uma forma absolutamente injusta e escusada, até porque também ele militava nas fileiras do Partido Progressista.
Para terminar, resta-me salientar a importância deste efémero diário farense, o segundo que se publicou nesta província, para o estudo dos partidos monárquicos no Algarve e para a História da Imprensa Progressista em Portugal, sem falar já no seu primordial interesse para a realização de uma futura monografia da cidade de Faro.

domingo, 16 de Agosto de 2009

Reis d’Andrade, o jornalista da Branca Noiva do Mar


J. C. Vilhena Mesquita

Sempre que me lembro da vetusta aldeia da Fuzeta ou se por mero acaso os meus caminhos se cruzam com aquela praia de pescadores, ocorre-me logo à lembrança a memória do meu saudoso amigo Reis d’Andrade, que sempre carinhosa e fraternalmente tratei por João de Deus. Era um espírito de eleição e de rara camaradagem, sempre pronto a colaborar em iniciativas de carácter jornalístico, cultural e até desportivo, desde que nelas saísse em relevo a sua “Branca Noiva do Mar”, epíteto por si criado para designar a sua aldeia natal da Fuzeta. Receando que a lembrança da sua memória se vá esvanecendo no coração dos seus conterrâneos, e temendo que os mais jovens ignorem a sua projecção no actual panorama da cultura algarvia, julguei que seria de toda a justiça trazer a estas colunas um breve escorço da sua vida e da sua obra literária.
João de Deus dos Reis Andrade, de seu nome completo, nasceu na aldeia piscatória da Fuzeta a 26-5-1932 e faleceu no Hospital de Faro a 15-3-1998, com 65 anos de idade. Foi poeta, dramaturgo e notável jornalista, sendo, acima de tudo, um homem culto e de grande inteligência, que ao longo da vida se tornou numa respeitada figura da cultura olhanense, cedo evidenciando múltiplos recursos intelectuais, não só como homem de letras, mas também como artista plástico, músico e até como filatelista, já que possuía uma colecção de selos de incontestável valor e interesse cultural. Viveu praticamente a vida inteira na sua Fuzeta natal, onde desempenhou durante décadas as funções de chefe da Secção das Lotas e Vendagem de Peixe. Como no exercício dessas funções sempre cuidasse de zelar pelos interesses dos seus conterrâneos, e como era muito dedicado às coisas da cultura e do desporto local, depressa se tornou no fuzetense mais conhecido no Algarve.
Na verdade, Reis d’Andrade foi na aldeia da Fuzeta um autêntico animador cultural, incentivando sucessivas gerações de jovens a experimentarem o fascínio da Arte de Talma. Ensaiou várias peças de autores nacionais, mas também se lhe ficaram a dever, como dramaturgo de incontestável talento, a autoria de dezenas de peças, que escreveu propositadamente para o Grupo Artístico Fuzetense, uma agremiação de amadores que ele próprio fundou. Por mera curiosidade lembramos aqui algumas das suas peças de maior sucesso que foram representadas por todo o Algarve, cujos títulos passamos a citar, numa sequência que não corresponde à ordem cronológica da sua apresentação pública: A Lenda das Duas Cidades, Histórias da Minha Aldeia, A Branca Noiva do Mar, Os Filhos do Ti Leandro, Alguidares de Barro, Quem Conta um Conto..., Cégada no Carnaval, Quem Matou Juanita Banana, A Grande Excursão, A Grande Farra, As Surdas, As Criadinhas, Os Cravos Vermelhos, etc. Destas só a última foi impressa em livro, talvez por ser dedicada ao «25 de Abril», e, por isso, manter um interesse histórico de âmbito nacional. As suas peças revestiam-se de grande influência regionalista, não só na inspiração temática, como até na caracterização das personagens, nos seus dizeres locais e nas suas indumentárias particulares. Desse modo facilmente o público conseguia distinguir um alentejano, um lisboeta ou um turista estrangeiro, como também entre os algarvios se destrinçava pelo sotaque um olhanense dum farense, ou um lacobrigense dum vilarealense.
A sua paixão pela música levou-o a organizar e a compor as marchas que por ocasião dos Santos Populares se realizavam na Fuzeta, reavivando festejos que haviam caído em desuso. Mas também criou novas festas, como as que realizou em honra de Nossa Senhora do Carmo, para satisfação do fervoroso culto dos marítimos fuzetenses. Nos domínios do profano, acresce dizer que o seu talento de compositor revelou-se não só na música ligeira, como também nas canções populares com que recriou as velhas “estudantinas” que percorriam as artérias de Olhão e de Faro. Curiosamente era um dos mais antigos precursores da música Jazz no Algarve, chegando mesmo a tocar em bares ou em privado com grupos de jovens admiradores das novas correntes musicais, que nos anos cinquenta e sessenta chegavam da América. Era, aliás, dos poucos que na sua aldeia possuía a carteira de músico profissional.
Como artista plástico Reis d’Andrade nunca tratou de prestar justiça nem divulgação ao seu incontestável talento. Desenhava impecavelmente. E não raras vezes caricaturava os amigos, os políticos, os escritores, os artistas e até os jogadores do seu Benfica com um primoroso traço artístico. Existem na posse da família e dos amigos belos quadros representando cenas da faina marítima, pessoas, monumentos e até paisagens campestres. Pintava os próprios cenários para o teatro amador, cujas peças, como já dissemos, era ele mesmo que escrevia e encenava. Esta associação da escrita com o desenho, com as artes cénicas e até com a música, são raras e difíceis de conjugar num homem só, daí o seu inestimável talento e a sua invulgar polivalência intelectual.
No convívio social (sei-o bem porque tive a sorte de ter sido seu amigo) irradiava uma cativante simpatia que prendia os que com ele lidaram de perto, não só pelos seus dotes de oratória como também pelo humor com que descrevia as pessoas e as situações da vida política no Algarve ou no país. Por isso tinha amigos em todo o lado, mesmo até no estrangeiro, mercê da amabilidade com que tratava os turistas que passavam pela praia da Fuzeta. Havia turistas que lhe escreviam a agradecer a afabilidade do seu convívio ou as ajudas prestadas durante as férias no Algarve.
Como escritor possuía uma veia sarcástica de inspiração queirosiana, que se tornaria na sua imagem de marca, não só nas peças de teatro como também nas colunas dos jornais. O seu inconfundível humorismo lusitano deixou-o bem patente na rubrica “O Alto da Torre” que assinou de parceria com o jornalista João Leal no «Jornal do Algarve», em que colaborou, quase ininterruptamente, durante quarenta anos. Nessas colunas ficaram famosas as suas crónicas, de fino recorte humorístico e de acerada crítica social, malhando nos costados da nossa secular incompetência, quer fosse política, económica, cultural, artística ou desportiva. Aliás, o Reis d‘Andrade possuía uma prodigiosa memória, na qual arquivou durante anos certos episódios e figuras típicas do nosso bacoco provincianismo, que por vezes ressuscitava com hilariantes comparações aos tempos actuais. A figura do “ti-Lopinhos” que usava nas suas crónicas jornalísticas era uma espécie de consciência crítica das nossas incapacidades, das nossas vaidades, do nosso balofo patriotismo e do nosso injustificado nacionalismo. Por outro lado, a sua “memória de elefante” servia de tira-teimas nas discussões sobre os nomes dos antigos jogadores de futebol do Olhanense ou do Farense (então do Benfica sabia o nome de todos), os resultados dos desafios, as figuras e datas históricas, as capitais dos países, os nomes de artistas de cinema e do teatro português... enfim, era uma verdadeira enciclopédia de curiosidades e do bric-à-brac do saber universal. Lembro-me até da facilidade e rapidez com que fazia as “palavras-cruzadas” publicadas nos jornais diários. Também era exímio na resolução dos quadros de xadrez, damas, “quebra-cabeças” e “charadas” que os jornais inseriam nas suas edições dominicais. A sua inteligência era não só prodigiosa como verdadeiramente relampejante.
Os créditos jornalísticos ganhou-os ao serviço do «Século», na qualidade de correspondente e colaborador eventual, muito anos antes de se tornar conhecido como cronista do «Jornal do Algarve». Em todo o caso não se cingiu apenas a esse semanário vilarealense, pois que graciosa e desinteressadamente dispersou a sua colaboração por outros órgãos locais, nomeadamente pelo «Correio do Sul», «O Algarve», «Voz de Olhão», «O Olhanense», «O Algarve Desportivo», etc. Além disso, trabalhou na Rádio como jornalista e locutor, fazendo ouvir a sua bela voz de tenor em todo o Algarve.
Não podemos esquecer também que se lhe ficou a dever a organização dos Jogos Florais da Fuzeta, que anualmente ainda se realizam pela mão de Maria José Fraqueza, no encerramento dos quais nunca deixou de prestar homenagem à memória do seu fundador e dilecto conterrâneo.
Como filatelista fez exposições de grande valor e insofismável mérito nacional, deixando uma invejável colecção de muitos milhares de selos para ser prosseguida pelos seus herdeiros. Ao espírito irrequieto e criativo de Reis d’Andrade deve a freguesia da Fuzeta muito do seu desenvolvimento cultural, sobretudo por ter resgatado do anonimato uma simples praia de pescadores que epitetou de «Branca Noiva do Mar», numa feliz alusão à paixão, aos perigos e às ilusões, que aquele humilde povo sente pelo meio físico que lhe deu o cerne.
Pouco antes de falecer, e quando já se encontrava muito doente, o seu amigo e notável homem de Letras, Ofir Chagas, com a cumplicidade da família, mandou editar, em 1997, o Auto dos Cravos Vermelhos, que constitui a mais apreciada e a mais representada das suas peças de teatro.
A Junta de Freguesia da Fuzeta preiteou a memória de Reis de Andrade numa cerimónia pública realizada a 20-6-2000 materializada no descerramento um painel azulejado com desenhos da autoria do próprio homenageado.
Como seu amigo e admirador, não posso deixar de acrescentar que o João de Deus dos Reis Andrade foi uma figura ímpar da imprensa regional e da cultura algarvia. Quem dele se abeirava ficava logo sensibilizado com a sua inimitável boa disposição, com as suas amabilidades e o seu britânico cavalheirismo, visivelmente destacado na maneira elegante de vestir, com um aristocrático papillon e um cachimbo de tabaco perfumado, que, por outro lado, lhe dava o semblante do inspector Maigret. As suas conversas quase sempre desembocavam na aldeia da Fuzeta, nas suas figuras típicas e nas histórias edificantes daquele humilde povo de pescadores. No fundo o Reis d’Andrade personificava a própria Fuzeta, porque quem conhecia a aldeia conhecia-o a ele, pois que se lhe devia na imprensa de quase todo o país a divulgação dessa mítica aldeia de heróicos bacalhoeiros.
Lembro-me a todo o instante do seu bom humor e das suas altissonantes gargalhadas que a ninguém deixavam indiferente. Ao seu lado reinava a boa disposição e a amizade, porque sabia cativar e conservar os amigos, nunca deixando que entre si se interpusesse a maledicência, a intriga, a hipocrisia, o cinismo e o ódio. Não tinha inimigos porque amava a vida e à sua volta fazia todos felizes com ditos sarcásticos, anedotas hilariantes, divertidas cançonetas, imitações burlescas, sonoridades cómicas, enfim... reunia uma infinidade de recursos e aptidões para provocar a alegria e a boa disposição.
Nunca ouvi da boca do Reis d’Andrade uma palavra em desabono de alguém. E neste Algarve, onde campeia a inveja, a hipocrisia, a calúnia e a maledicência, raros eram os que tinham a ousadia de falar mal dele. E se alguém lhe levava ao conhecimento esse prato de fel, recebia em troca bem-humoradas palavras que deixavam as orelhas a arder, tanto de quem as pronunciara como de quem lhas trouxera. Até nisso demonstrava que era um homem raro, incapaz de guardar rancor a quem quer que fosse.
Por fim, cumpre-me louvar o amor e companheirismo que lhe dedicava a sua querida esposa, D. Maria José Marques, que sempre o acompanhou, nos bons e nos maus momentos, também ela uma mulher alegre, de bom feitio e muito bem disposta. À sua paixão de esposa, e ao amor dos seus três filhos, se ficou devendo em 2002 a edição da obra Crónicas do alto da Torre, uma colectânea de temática fuzetense, seleccionada entre as várias centenas de crónicas que sob a designação em epígrafe publicou entre 1956 e 1992 no semanário «Jornal do Algarve», fundado em Vila Real de St.º António pelo seu amigo José Barão, que foi nos anos cinquenta um dos mais prestigiados plumitivos da imprensa nacional.
Com a edição desse livro, infelizmente pouco divulgado entre nós, os seus familiares prestaram a derradeira, a mais condigna e justa homenagem a um dos mais lídimos talentos da cultura popular algarvia, que, sem os atavios estilísticos da nossa moderna intelectualidade, soube legar às gerações vindouras um testemunho realista, e bem humorado, da vivência política, da sociedade e da cultura das gentes da Fuzeta, notável alfobre de heróicos pescadores e de afoitos bacalhoeiros, que demandaram durante décadas as águas geladas da Terra Nova.
O Algarve não pode esquecer este João de Deus, que por ter sido um fiel apaixonado da sua humilde aldeia de pescadores, corre agora o risco de ficar para sempre esquecido e arredado do apreço das gerações vindouras. Este nosso apontamento é uma tentativa de contrariar a ingratidão a que todos estamos sujeitos neste paradisíaco rodapé de trinta léguas.