José Carlos Vilhena Mesquita
Não tive a honra de ter sido aluno do Prof. Doutor Manuel Viegas Guerreiro. Mas tive o prazer e a satisfação de o conhecer pessoalmente, sentindo-lhe o pulsar da alma algarvia na forma alegre e prazenteira como acolhia, sem excepção, todos os que dele se abeiravam, para desfrutar do conhecimento que dele emanava em inesgotável manancial ou, simplesmente, receber conselhos, indicações e referências. Era um cientista na verdadeira acessão da palavra. Paciente, meticuloso e muito rigoroso nos seus trabalhos de investigação, nomeadamente na recolha da Literatura Oral, em que foi modelar. Humilde e ávido de aprender, mas fraterno na transmissão do saber. Acima de tudo era homem de bom coração e de uma ternurenta generosidade. Um verdadeiro paradigma para os colegas e alunos.
O amor à terra-mãe, o espírito “algarviísta” - tão peculiar nos que vivem longe do seu Algarve - era um sentimento, uma emoção sempre presente quando alguém se revelava seu conterrâneo. Falava logo das lendas e encantamentos que à sua terra diziam respeito, imitando sotaques e trejeitos regionais que a todos encantava, pela forma viva e jovial como os interpretava.
Amiudadas vezes trocamos impressões sobre as particularidades da cultura algarvia. Conheci-o quando era caloiro na Faculdade de Letras de Lisboa, achando desde logo que era uma bondosíssima e muito carismática figura daquela casa. Todos o conheciam e respeitavam, havendo sempre da sua parte um sorriso luminoso de extrema candura e afabilidade. Recordo-me bem da impressão que me fizera a sua aparente estatura doutoral, marcada por uma conservadora indumentária de fato e gravata, alto, elegante, olhos perscrutantes, cabelo branco e pescoço ligeiramente inclinado. Metia respeito, e para mim, jovem aluno, aquele deveria ser o protótipo do Professor Catedrático.
Encontrava-o às vezes na Biblioteca da Faculdade ou na Biblioteca Nacional, quase sempre rodeado de alunas e na sua pose habitual: com a mão na ilharga e o pescoço inclinado. Aquele “defeito” no pescoço era, em boa verdade, a sua imagem de marca.
Mais tarde, quando fiz a cadeira de Antropologia Cultural pedi-lhe ajuda para obter bibliografia e sobretudo para ouvir as suas explicações sobre os chamados padrões culturais do Algarve. Ficamos amigos. Amizade essa que se estreitaria com o decorrer dos anos e principalmente quando comecei a fazer a Algarviana, com o Dr. Mário Lyster Franco, de quem era grande amigo. Escrevi-lhe algumas vezes a pedir informações sobre diversos assuntos, geralmente relativos às minhas investigações da cultura algarvia. Por vezes recebia cumprimentos enviados pelo Dr. Alberto Iria, um grande e comum amigo, com quem privei mais de perto.
Foi numa das conversas que tivemos há longos anos, que lhe ouvi dizer que faltava um estudo de fundo sobre a etno-economia do Algarve, desde o Antigo Regime até aos nossos dias. E como paradigma ou em contraposição ao pouco que nesse sentido se fazia entre nós, citava o exemplo de investigadores estrangeiros, como era o caso de Albert Silbert, Michel Drain, Pierre Birot e outros. Porém, referia-se com rasgados elogios aos valiosos contributos que nesse sentido fornecera o Prof. Orlando Ribeiro, nomeadamente no seu livro Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico, no qual distinguiu e salientou a importância do Algarve no contexto geográfico peninsular. Aliás Orlando Ribeiro sempre insistiu que o Algarve era uma região própria, em si mesma, incomparável, com características naturais e meios de sobrevivência económica que lhe poderiam garantir a auto-sustentabilidade. Nesse aspecto as suas convicções de geógrafo e investigador iam de encontro ao pensamento político-económico de Tomás Cabreira, que no princípio do século demonstrou no seu livro O Algarve Económico, que esta região tinha condições de sustentação económica que justificavam a sua integração na proposta de autonomia regional com que foram contemplados os Açores e a Madeira.
Não estando ao nível dos investigadores citados, ocorreu-me porém, há alguns anos atrás, traçar um esboço etno-económico do Algarve na primeira metade deste século, precisamente aquele período cronológico que o meu saudoso amigo Prof. Manuel Viegas Guerreiro, melhor conheceu. E, tal como ele dizia, o Algarve era uma terra de pescadores pobres, agricultores remediados e burgueses oportunistas.
As ideias e as palavras, alinhavadas nas linhas que se seguem, são-lhe dedicadas. Foi a pensar nele e no “nosso” Algarve que as escrevi.
Quando em 1879 o historiador Oliveira Martins deu à estampa a sua História de Portugal, tentou, num dos capítulos iniciais, associar os condicionalismos geográficos às características socioeconómicas dos diversos complexos administrativos em que se decompunha o território nacional. No caso especial do Algarve, essa particularização do binómio espaço/comunidade surge-nos esquematizada de uma forma muito elucidativa e bastante esclarecedora. Ouçamos, portanto, as suas palavras:
«Ao calor de um sol já africano, durante o estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios o obrigam à industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para comer. Enquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando, contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os anos em frutos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos valados, pedem apenas que lhes colham os frutos e os ramos; e o mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as trocar por dinheiro.»
Ressaltam desta transcrição os principais factores de identificação e permanência do Algarve, consubstanciados na afabilidade climatérica, na bonomia das águas oceânicas de abundante riqueza pesqueira, na cultura hortofrutícola dos solos, na indústria artesanal e no comércio marítimo. O turismo - então imperceptível - surgiria muito mais tarde, mas ainda assim como reflexo das magníficas condições naturais da região.
Para não correr o risco de nos alongarmos em demasia, diremos, em síntese e na nossa opinião, que o Algarve da primeira metade deste século mantinha uma estrutura económica muito semelhante à do século passado. Quer isto dizer que os alicerces da sua economia regional permaneciam ainda assentes na agricultura, na pesca e indústria conserveira, no comércio e no artesanato. Todavia, a escassez dos recursos hidrográficos e as descontinuidades geomorfológicas, que numa espécie de anfiteatro decrescem de Norte para Sul, geraram assimetrias de desenvolvimento que mantiveram a serra adstrita a uma economia de subsistência, enquanto o litoral progredia no aumento da produção agro-industrial, na diversificação da oferta e na senda duma economia de mercado, ainda que incipiente.
Por diversos condicionalismos e alguma tradição histórica, era no sector primário que residiam as fontes da economia algarvia. Essa dependência dos bens naturais, da terra e do mar, associada à débil preparação técnica das forças laborais, ao escasso investimento na industrialização agrícola, à individualização da propriedade, à concentração dos meios de produção e à apropriação das mais-valias no seio de um reduzido número de empresários ou de proprietários tradicionais, não fazia traduzir uma região modelarmente próspera, mas, sim, um espaço socioeconómico bastante sensível às contingências da natureza, ao diálogo comercial norte-sul e às relações político-económicas com os mercados exteriores.
No âmbito da agricultura havia (como há hoje) que tomar em linha de conta a dicotomia serra-litoral, apesar de entre estas sub-regiões existirem produções agrícolas semelhantes, especialmente nas culturas arvenses.
O interior serrano identificava-se, grosso modo, pelas seguintes características: pobreza dos solos, fragosidade e aridez da terra, culturas de sequeiro, produção cerealífera e pastoril, povoamento escasso e isolado, dificuldade de acessos e afastamento das redes viárias, fraca produção, baixo poder de compra, frugalidade alimentar, austeridade e habitação modestíssima. Numa palavra, os lugarejos serranos resistiam com dificuldade e algum estoicismo às agruras da pobreza. As aldeias subsistiam por força da solidariedade dos seus habitantes e mercê dos poucos excedentes transaccionados nos mercados semanais. As vilas ou sedes de concelho permaneciam envoltas numa certa letargia económica, que se fazia reflectir na sua reduzida actividade comercial. A emigração dos mais jovens para as terras baixas do litoral, para a cintura industrial de Lisboa ou para o estrangeiro, indiciava já o envelhecimento da população e a rarefacção demográfica.
O litoral caracterizava-se pela fertilidade dos solos, tanto nos vales e várzeas como na planície da beira-mar. à cultura de sequeiro no barrocal-serra sucedia a cultura de regadio na faixa litoral, em cuja propriedade repartida se desenvolviam as primícias hortofrutícolas. Pomares, olivais, figueirais e vinhas, prevaleciam entre as culturas arvenses. As feiras e mercados animavam a economia local e a exportação dos frutos secos - figo, amêndoa e alfarroba - mantinham aceso o comércio com o país e o estrangeiro. Na faixa litoral crescia o tecido urbano das principais cidades e vilas, gerado pelo incremento comercial, desenvolvimento da industria e fomento das pescas. O centro de decisão político-administrativo, sediado em Faro, outorgava ao litoral o próprio epíteto de Algarve, justificando-se deste modo a expressão serrenha de “ir ao Algarve”, como tradução duma simples deslocação para as terras baixas da beira-mar.
Vejamos agora o sector das pescas, tradicionalmente considerado como uma das mais acentuadas potencialidades do povo algarvio, que teve durante a epopeia dos Descobrimentos Marítimos uma acentuada expressão de glória universal.
Com uma extensa plataforma continental e uma tão vasta quanto acessível linha costeira, o Algarve constitui, desde longa data, um dos mais cobiçados bancos pesqueiros da Península Ibérica. A política pombalina de incremento pesqueiro nos meados da centúria de Setecentos e o investimento nas artes de captura do atum, sardinha e corvina, levado a cabo no século seguinte por diversas empresas nacionais e estrangeiras, das quais ainda subsiste a Companhia de Pescarias do Algarve (fundada em 1835), fizeram dos portos de Vila Real de St.º António, Portimão, Faro e Olhão os principais centros económicos da pesca algarvia. Neles despontaram as primeiras industrias conserveiras, cuja tecnologia teria sido introduzida em 1865 por um empresário italiano em Vila Real de St.º António.
Ao investimento estrangeiro, de origem italiano (para o atum) e francês (para a sardinha), seguiu-se-lhe o espanhol que trazia consigo o melhor azeite da Andaluzia e Catalunha. Mas se de início os empresários nacionais escasseavam o certo é que por todo o país despontavam novas fábricas, sendo de realçar o facto de em 1924 existirem em Portugal cerca de 400 unidades fabris, número esse que em 1945 decrescera para 246 industrias. E se a princípio o azeite se importava de Itália e de Espanha, a folha-de-flandres e a solda de França, também é certo que não tardou muito a que fossem substituídos por tecnologia nacional, assumindo-se neste âmbito o Algarve como uma das regiões mais proeminentes, mercê dos avultados índices de exportação efectua- dos no decurso das duas guerras mundiais. Daí resultaram incalculáveis fortunas, de que são ainda exemplo várias residências apalaçadas e algumas extensas propriedades agrícolas (como foi o caso de Vilamoura) que o turismo se encarregaria, mais tarde, de anexar e converter em aldeamentos ou estâncias de veraneio.
O crescimento da indústria atraiu muitas famílias do campo e da serra, operando-se a transformação do agricultor em operário. Dessa transmutação social resultaria um certo esvaimento da força de trabalho nos campos do interior. E com o advento do turismo repetir-se-ia nova sangria demográfica que abriu o caminho ao ermamento da serra.
A evolução era constante no sector pesqueiro. Fundam-se arraiais para os pescadores do atum, despontam bairros operários em torno das fábricas, abrem-se novas ruas nas vilas e cidades portuárias, há mais poder de compra e o comércio alarga a oferta em função da procura.
Atum, sardinha, biqueirão, cavala, bacalhau e arenque, são as espécies mais procuradas e afincadamente capturadas. As primeiras nas costas nacionais e as últimas nos longínquos mares da Terra Nova, Islândia, Canadá e Noruega. Nas águas do Atlântico navegava confiante o pescador algarvio. Mas a família ficava em terra, no bairro pobre, nem sempre com o sustento garantido. A miséria habitava paredes meias com a opulência. E quando o mar negava o pão ou roubava a vida dos mais incautos faziam-se rezas, juravam-se promessas e organizavam-se procissões a S. Pedro e S. Gonçalo, às Senhoras do Carmo, da Guia, da Vitória, da Boa Morte, etc. Havia (e creio que ainda não se extinguiu) todo um ritual religioso à volta dos mistérios do mar e dos perigos da pesca, de que foram exemplos as Confrarias ou Compromissos Marítimos, a benção das redes, dos barcos, das armações, as procissões e os ex-votos nas igrejas. A etnografia marítima do Algarve, tão rica e multifacetada, esbateu-se ligeiramente com o decorrer dos tempos, carecendo hoje de um estudo atento, rigoroso e cientificamente conduzido, antes que se apaguem definitivamente da memória dos vivos as reminiscências do passado.
As armações do atum constituíam as artes mais rendáveis, apesar de muito dispendiosas em artefactos e mão-de-obra. De Maio a Junho capturava-se o atum “de direito”, que em direcção ao Mediterrâneo corria a desovar; de Julho a Agosto aguardava-se o seu regresso, sendo por isso designado como “atum de revés”. A faina do copejo nas redes da armação, também conhecida por “tourada do mar”, constituía um dos mais típicos quadros etnográficas região, magistralmente captados nas obras de Raul Brandão e de Manuel Teixeira Gomes.
O valor económico desta espécie era assaz considerável, sendo de referir que os tunídeos apanhados antes da desova pesavam entre 60 e 150 quilos. Por isso se pode imaginar quão notável era o seu aproveitamento na industria conserveira e como era relevante o seu papel na alimentação, quer pelo seu valor calórico-proteico, quer ainda pelo seu destaque na gastronomia regional, que fez do “atum frescal” um dos seus recursos mais apreciados. Infelizmente, também neste aspecto se nota hoje uma enorme distância do passado, visto que a tradicional cozinha regional algarvia vai ficando cada vez mais pobre e estereotipada pela influência das dietas estrangeiras - sendo certo, também, que a carência de certas espécies pelágicas tem contribuído para o empobrecimento da nossa gastronomia.
Por fim, uma ligeira alusão ao comércio.
As actividades comerciais de mais acentuada tradição no Algarve eram as feiras francas e os mercados semanais, sem esquecer as transacções diárias no mercado camarário. As feiras, cujas origens remontam aos tempos medievos, reuniam-se em datas festivas de carácter religioso ou profano. Para elas convergiam mercadores - e mais recentemente os “tendeiros” - de toda a região, não sendo raros os oriundos doutras províncias. De tudo se vendia e comprava, sendo de realçar a transacção de alfaias agrícolas, obras de esparto, palma e couro, frutos secos, gado, vestuário, calçado, loiças de barro e vidro, mobiliário, ourivesaria, etc. Nos mercados semanais distinguiam-se sobretudo e frutos e hortícolas, cereais, sementes, aves, ovos, mel, etc.
Eram, sem dúvida, os mercados semanais (reunidos ao sábado nas localidades do litoral-barrocal ou os mercados mensais estabelecidos em determinado domingo nas aldeias do barrocal-serra) que mais contribuíam para o escoamento da produção agrícola e para o abastecimento de manufacturas por parte das populações do interior. Nestes mercados pulsava o autêntico Algarve, na sua mais concreta pujança agrícola e artesanal. Eram verdadeiros fóruns da economia autóctone e da cultura etnográfica que os tempos modernos adulteraram ou fizeram desaparecer.
O comércio retalhista, de porta aberta, estribava-se na polivalência da oferta, sendo na sua maioria estabelecimentos de mercearia, fazendas e retrosaria, ferragens, sapatarias, olarias, curtumes, casas de pasto e tabernas. Nas aldeias do interior só praticamente existiam tabernas e mercearias, que muitas vezes correspondiam ao mesmo estabelecimento e onde se vendia de tudo um pouco: fazendas, alfaias, loiças sementes, conservas, carnes fumadas e peixe seco ou salgado. Muitos desses produtos eram adquiridos nas imediações próximas, sendo o restante fornecido pelo caixeiro viajante, cuja visita além de incerta era, por vezes, demorada.
Nas vilas e cidades as lojas eram em maior número, mas a polivalência das mercearias ou “vendas” era, na maioria dos casos, semelhante à que se verificava nas aldeias.
O grande comércio assumia-se, logicamente, na exportação, quer para o norte do país, quer para o estrangeiro. As vias de escoamento processavam-se, sobretudo, por via férrea e marítima. Os produtos enviados para os mercados exteriores eram especialmente de origem agrícola, animal ou de matérias primas naturais, transformadas em pequenas unidades fabris e oficinas de carácter familiar, sendo certo que algumas eram de proveniência artesanal. As mercadorias que dos portos algarvios se destinavam ao estrangeiro eram, resumidamente, as seguintes: conservas de peixe, sal marinho e sal-gema, alfarroba triturada, farinha de semente de alfarroba e derivados, peixe fresco, salgado e marisco, miolo de amêndoa ou em casca, figo seco, farinhas e guanos de peixe, cortiças, vinho, azeite, madeiras e obras de artesanato em palma e esparto, nomeadamente cestos, canastras, alcofas e vassouras. pela foz do Guadiana também se escoavam minérios e seus derivados (das pirites cupríferas de S. Domingos), cerâmicas, cantarias, mós de moinho, cal e brita, pedras de amolar, areia para a construção civil e vidraria, cimento, mármores e sienitos. As mercadorias e matérias primas aqui citadas destinavam-se a vários países da Europa, América e África, com especial incidência para o Reino Unido, Espanha, Itália, Alemanha, E.U.A., Bélgica, França, Holanda, Congo etc.
Enfim, uma actividade comercial relativamente intensa e laboriosa que teve como principais centros dinamizadores os portos marítimos de Vila Real de St.º António, Faro-Olhão, Portimão e Lagos, aos quais estava também associada uma antiga industria de construção naval, da qual saía a maioria das embarcações pesqueiras.
Foram necessariamente breves as considerações tecidas em torno das principais actividades económicas do Algarve. Propositadamente não falamos do turismo. E isto porque apesar de existirem visíveis indícios da actividade turística na Praia da Rocha desde os primórdios deste século (conforme se constata nas Actas do I Congresso Regional Algarvio de 1915) e desde 1919 em Albufeira (como se demonstra pelos panfletos turísticos então editados), o certo é que no início da década de quarenta os seus resultados económicos eram ainda pouco expressivos. O turismo como principal fonte de rendimento económico do Algarve insere-se num contexto muito recente, cujas origens poderíamos estabelecer nos meados da década de sessenta, através do aparecimento dos grandes empreendimentos hoteleiros.
Termino com a plena consciência de que muito haveria para dizer entre o pouco que ficou expresso. Contudo, relevem-se-me as omissões pela pouca ambição deste breve esboço etno-económico, que outro objectivo não teve senão o de fazer ressaltar a cultura popular algarvia nas suas mais ancestrais e peculiares actividades económicas. Penso que o algarvio enquanto desbravador de mares nunca antes navegados conquistou de pleno direito um lugar de relevo na história universal. Mas foi e é como homem da terra, inovador e criativo, que ele adquire a sua plenitude social e se insere como elemento activo num dos mais importantes espaços culturais da Europa.