O suplício e a humilhação pública infligidos a Felipa de Sousa, pelo horrendo Tribunal do Santo Ofício, não podem ser esquecidos, merecendo ser sempre rememorado como algo que avilta e indigna a liberdade de género, que oblitera a opção sexual, que agride a tolerância e impede a integração social, que, em suma, impossibilita o direito à diferença. Foi através do sacrifício de muitas mulheres que, como Felipa de Sousa, sofreram a opressão sexista e foram ostracizadas ou estigmatizadas devido às suas opções sexuais, que as mentalidades avançaram no sentido da tolerância, da integração e do reformismo no mundo.
Felizmente, na civilização ocidental o processo histórico avançou no sentido da conquista das liberdades e direitos individuais – desde a luta do sufragismo e do feminismo até à igualdade plena de género. Todavia, é de todos sabido que ainda existem por esse mundo muitas centenas de milhões de mulheres, que se sentem privadas da sua liberdade sexual e da sua opção de género. É para essas mulheres, que nunca puderam revelar o seu desejo nem expressar livremente a sua preferência sexual, que escrevi este artigo, personificando na memória de Felipa de Sousa, uma homenagem a todas as mulheres dos cinco continentes que ainda não desfrutam do direito de poderem expressar livremente as suas afeições, as suas preferências sexuais e o livre arbítrio no amor. A 18 de Dezembro de 1591, em Salvador da Bahia – uma das mais ricas e mais prósperas cidades do Brasil –, os esbirros da Inquisição após persistente interrogatório, conseguiram obter da cristã-velha, Paula de Siqueira, de 38 anos de idade, a denúncia de haver praticado o “abominável pecado nefando” da «sodomia foeminarum», isto é, o sacrilégio da contranatura, com uma mulher de 35 anos, chamada Felipa de Sousa, natural de Tavira, no reino do Algarve. Deste modo, tão imprevisto quanto surpreendente, emergiu ao conhecimento público o primeiro caso de perseguição sexual e de condenação da prática de lesbianismo pelo Tribunal do Santo Ofício em terras de Vera Cruz. A singularidade deste tipo de flagício herético, o modo como o processo foi dirimido pelo Inquisidor, e sobretudo o facto da principal vítima ser uma mulher algarvia, de quem se ignorava a própria existência, mas que é hoje um símbolo universal da liberdade de género e da opção sexual, levou-me a escrever este trabalho, não apenas por curiosidade académica, mas também por solidariedade com os que sofrem a exclusão, o opróbrio e o estigma da diferença.
Algarve - História e Cultura
Este Blog, da autoria de José Carlos Vilhena Mesquita, constitui um repositório de trabalhos publicados em diferentes suportes e plataformas (jornais, livros, conferências, congressos, etc), a maioria dos quais são hoje difíceis de consultar nas suas fontes originais. Por outro lado, pretende-se criar uma via de ligação e de comunicação com diferentes públicos, sendo certo que o preferencial alvo são os alunos universitários, para os quais remeto a leitura dos textos contidos neste Blog.
terça-feira, 12 de março de 2019
segunda-feira, 4 de março de 2019
A "Banha da Cobra" - uma patranha com história
Entende-se por “Banha da Cobra” tudo aquilo que sendo um simples placebo, isto é, inócuo e inútil, se difunde e propaga publicamente como algo comprovadamente eficaz, seguro, poderoso e miraculosamente infalível. Para os lexicólogos significa algo que se publicita ou anuncia para endrominar incautos; um palavreado com o velado propósito de enganar os outros; uma proposta ou promessa de que não existe intenção de cumprir. Em suma, uma mentira, uma trapaça, um ludíbrio, uma vigarice. Hoje a expressão “banha da cobra” é usualmente empregue de modo pejorativo. E o "vendedor de banha da cobra" identifica alguém que é mentiroso, charlatão e de falsa índole.
A banha da cobra é sempre a mesma, porque o prazer psicótico da fraude não se refreia perante a ganância de lucros tão arrebatadores. O que muda é a embalagem, isto é, o design e o marketing, porque a finalidade é sempre a mesma, sendo inclusivamente comum à mensagem hipocrática: submeter a dor e o sofrimento, vencer a doença. A diferença é que os charlatães visam apenas o lucro pelo embuste, enquanto os médicos e a medicina validam a ciência no confronto com a doença e o padecimento, na quimérica ilusão de triunfarem sobre a morte.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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Artigos Científicos
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
João Henrique, um notável filólogo, escritor e jurista brasileiro, nascido em Faro
Poucos
serão os que no Algarve conheceram ou já ouviram falar de João Henrique dos
Santos, um dos muitos portugueses que no vórtice da República e dos seus
conturbados anos de instabilidade revolucionária, emigrou para o Brasil. Muito
menos sabem que desfrutou da reputação de homem culto, sério e ilustrado –
considerado uma autoridade no foro brasileiro, uma espécie de Séneca dos tempos
modernos. Os seus dotes de oratória, aliada a uma sólida erudição, permitiram-lhe
granjear a glória de ter sido figura de proa, e de referência, no mundo
académico do seu tempo. Não obstante tudo isso, pode bem dizer-se que é mais um
dos muitos algarvios que no século passado foi alguém, com notável prestígio
social e académico, mas que hoje, perante o desprezo e a ignorância das novas gerações,
dorme o sono eterno nas brumas da omissão e do esquecimento.
À imagem do protótipo emigrante português de além-mar, foi competente, honesto e leal. Trabalhou muito e produziu melhor, tanto como professor universitário como, sobretudo, como homem público e publicista, fazendo da palavra escrita a sua enxada de vida. Escreveu prolixamente para os jornais, reservando a centelha da sua inteligência para os livros que deu à estampa no Brasil, sobre diversas temáticas, com especial realce para a Filologia e para o Direito.
À imagem do protótipo emigrante português de além-mar, foi competente, honesto e leal. Trabalhou muito e produziu melhor, tanto como professor universitário como, sobretudo, como homem público e publicista, fazendo da palavra escrita a sua enxada de vida. Escreveu prolixamente para os jornais, reservando a centelha da sua inteligência para os livros que deu à estampa no Brasil, sobre diversas temáticas, com especial realce para a Filologia e para o Direito.
João Henrique dos
Santos, nasceu em Faro, mais propriamente na aldeia de Santa Bárbara de Nexe,
em 2-8-1884, num lar modesto de família pobre, mas honesta e trabalhadora. Os
pais não tendo melhores recursos, mas cientes da inteligência do filho, anuíram
aos conselhos do seu professor primário, no sentido de prosseguir os estudos no
Seminário de São José, em Faro. Senão seguisse a vida eclesiástica adquiria,
pelo menos, uma educação que lhe permitisse superar os desafios da vida. Não
lhe foi difícil vencer os obstáculos sociais das suas humildes origens, impondo-se
e distinguindo-se no ambiente austero do seminário pelo seu génio intelectual e
pelas suas qualidades humanas.
O
apelo de Cristo foi, porém, mais forte, e o jovem João Henrique aceitou os
votos sagrados, ordenando-se presbítero com outros companheiros do seminário,
em cerimónia de júbilo e pompa religiosa, celebrada na Sé Catedral de Faro. Decorria
então o tempo da Carbonária, das bombas e dos atentados republicanos, cujo
exemplo principal foi o assassinato do Rei, no fatídico 1º de Fevereiro de
1908, a que se seguiu dois anos depois a implantação da República. Nessa altura
ser padre era prova de coragem e de convicção religiosa, até mesmo nas
recônditas e ignoradas aldeias algarvias que João Henriques paroquiou, até assentar
arraiais na pequena freguesia do Azinhal, no concelho de Castro Marim, onde foi
sempre lembrado e estimado.
Sequioso de tudo conhecer e compreender, dedicou-se à leitura e à formação de uma biblioteca pessoal, mostrando-se muito interessado no estudo histórico das línguas latinas, da nossa primordial literatura e do direito civil. Começou então a escrever para o público, primeiramente uns pequenos folhetos, depois um sermão e, por fim, nos órgãos da imprensa regional algarvia. Nos princípios do séc. XX, fundou e dirigiu, em parceria com o então tenente José Francisco Guerreiro Fogaça, o semanário católico «Correio do Algarve», sediado em Lagos, ao tempo considerado como dos mais notáveis órgãos da imprensa algarvia. O espírito aguerrido e polémico do padre João Henrique, a sua demolidora e vituperina crítica política, inspirada no seu homólogo José Agostinho de Macedo, transmitiu-se às colunas do jornal, granjeando-lhe fama e prestígio.
Sequioso de tudo conhecer e compreender, dedicou-se à leitura e à formação de uma biblioteca pessoal, mostrando-se muito interessado no estudo histórico das línguas latinas, da nossa primordial literatura e do direito civil. Começou então a escrever para o público, primeiramente uns pequenos folhetos, depois um sermão e, por fim, nos órgãos da imprensa regional algarvia. Nos princípios do séc. XX, fundou e dirigiu, em parceria com o então tenente José Francisco Guerreiro Fogaça, o semanário católico «Correio do Algarve», sediado em Lagos, ao tempo considerado como dos mais notáveis órgãos da imprensa algarvia. O espírito aguerrido e polémico do padre João Henrique, a sua demolidora e vituperina crítica política, inspirada no seu homólogo José Agostinho de Macedo, transmitiu-se às colunas do jornal, granjeando-lhe fama e prestígio.
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| Emigrantes portugueses à espera de barco para o Brasil |
A ida para o Brasil foi uma decisão
duplamente acertada, porque se destinava a alcançar uma merecida segunda
oportunidade, não só do ponto de vista civil como também política, pois que
João Henrique foi sempre um fervoroso monárquico. O Brasil, a partir do séc.
XVIII com o chamariz da mineração aurífera, tornou-se para os portugueses numa
espécie de terra prometida, um novo Jardim do Éden para onde partiam uns à
procura de fortuna, outros de glória e, a maioria, buscando construir uma nova
vida, sem peias nem máculas. Na segunda metade do século XIX, muito depois de
consumada a independência daquela antiga colónia, numa fase em que arrancava a
todo o vapor a Revolução Industrial, retomaram os portugueses a rota do Brasil,
já não atraídos pelo ouro, mas antes pelo café, algodão, cacau, e, por fim
pelos seringais da borracha. Dos principais portos da Europa levantam ferro
grandes vapores, pejados de emigrantes pobres, de perseguidos religiosos, de
presidiários, de proscritos, degredados, exilados, enfim, uma turbamulta desejosa
de alcançar uma nova oportunidade de vida. E essa nova esperança de vida estava
à sua espera nos campos férteis do Novo Mundo, desde o Alasca até às Pampas. A
revolução industrial e o capitalismo agrário, desenvolveu-se e implementou-se
na América, através da importação de grandes contingentes obreiros,
transvasados da Europa e da Ásia, para construírem aquilo que mais tarde se
designaria como “sonho americano”.
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| Planta antiga da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul |
Assim
que se fixou no Brasil a vida de João Henriques sofreu uma mudança completa e
profunda. Começou a estudar, e com tal sucesso que em breve estava licenciado
em Direito. Tomou então mais uma decisão radical: naturalizou-se cidadão
brasileiro. A vida eclesiástica e o seu Algarve natal ficavam assim
definitivamente para trás, de tal forma que não mais voltaria à pátria.
Fixou
a sua residência definitiva na Rua Carlos von Koseritz, nº 77, em Porto Alegre,
no Rio Grande do Sul, e abriu escritório de advogado. Rapidamente fez amigos e
alcançou fama de proficiente jurisconsulto, tendo na colónia residente de
portugueses o grosso da sua clientela. Para complemento de vida dedicou-se
também à docência, primeiro no ensino secundário, leccionando francês e latim,
e depois no universitário, regendo as disciplinas de filologia românica e
literatura clássica greco-latina. No ensino superior granjeou prestígio entre
os seus alunos, que tinham pelos seus dotes de oratória e sólida erudição, uma profunda
admiração. A isso foi sensível a Casa de Portugal no Brasil, que por várias
vezes o elegeu para os seus corpos socias, tendo-lhe, posteriormente, dedicado uma
sentida homenagem pública, através do descerramento do seu busto no salão-nobre
daquela instituição, para admiração e veneração futura da sua memória
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| Antiga rua dos Andrades, em Porto Alegre, cidade fundada por portugueses no Rio Grande do Sul |
Como
publicista pode dizer-se que o Prof. João Henrique colaborou em todos os
jornais e revistas da imprensa do Rio Grande do Sul, e de outros estados
brasileiros. Os assuntos a que dedicou maior atenção intelectual, foram os que ao
tempo mais preocupavam o desenrolar das ciências jurídicas, do Direito e da
Filologia. Sei que nessas áreas publicou dezenas de artigos científicos, que
depois saíram em separata, infelizmente de reduzido número para a circulação
pública, o que as torna hoje espécimes bibliográficos muito raros e valiosos.
De entre a sua vastíssima lista de obras
merecem especial referência os livros Filologia
Jurídica, editado em 1934 e Direito
Romano, um verdadeiro tratado em dois volumes, publicado em 1938. No
entanto, também publicou outros trabalhos de grande interesse científico, como
por exemplo a Doação Mortis Causa no
Direito Romano; a Pontuação na
Escrita – sua história e seu emprego; o Latim
e a formação das línguas românicas; Roma
pagã - suas instituições, usos e costumes; O casamento perante o Direito Romano; O operariado e a legislação romana; Axiomas do Direito Romano, Culto
dos Césares, Gramática Latina, Origem e significação dos nomes das pessoas,
e vários outros livros, que se tornaria enfadonho citar.
![]() |
Faculdade de Direito na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
|
Acima de tudo o Dr. João Henrique Santos foi
um dos mais famosos professores universitários do Brasil, um incansável
investigador do Direito e da Linguística, um profundo conhecedor e inveterado
estudioso das línguas e das literaturas clássicas.
Era casado com D. Ana Faria Henrique e pai de
David Faria Henrique, conhecido jornalista brasileiro. Era irmão de D. Maria do
Carmo Henrique, que residiu em
Santa Bárbara de Nexe, de D. Adelina Henrique da Cruz, que
vivia em S. Paulo ,
de D. Alexandrina Henrique de Brito que residia no Rio de Janeiro, e de Artur
Henrique, que foi um conhecido capitão da marinha mercante brasileira.
O
Prof. João Henriques Santos, faleceu em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do
Sul, no Brasil, a 7-1-1952, com 67 anos de idade.
Dado
que se trata de um notável cidadão farense, cuja memória o tempo se encarregou de obliterar ao conhecimento das novas gerações, propus numa das recentes
reuniões da comissão de Toponímia do Município de Faro, à qual tenho a honra de
pertencer, que fosse atribuído nome do Prof. João Henrique dos Santos a uma das
artérias da cidade, o que foi aceite, e, mais tarde, cumprido. Ficou, assim,
reconhecida a gratidão dos seus conterrâneos farenses, prestada em derradeira
homenagem, a um grande vulto da cultura luso-brasileira.
José Carlos Vilhena Mesquita
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José Carlos Vilhena Mesquita
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domingo, 31 de dezembro de 2017
FOGAÇA, Marisabel
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| A escritora Marisabel Fogaça |
Pseudónimo literário da escritora e publicista
Maria Isabel Fogaça Xavier, nascida na freguesia da Mexilhoeira Grande,
em Portimão, a 15-11-1914, e falecida em Lisboa, a 20-1-1985. Era filha de Francisco José Xavier, e de Maria Júlia Leal Fogaça.
Realizou os preparatórios na terra natal, seguindo
depois para Faro onde concluiu o Magistério Primário. Exerceu durante alguns
anos, mas um casamento muito jovem, com Hugo Limpo de Negrão Buísel, e a necessidade de angariar maiores
proventos afastou-a da docência e do Algarve. Foi trabalhar como funcionária de
uma grande empresa de Lisboa, subindo na escala da competência e da confiança
profissional até quase à intimidade da direcção, que depositava no seu trabalho
a maior credibilidade.
Anos mais tarde foi para Angola, tendo colaborado
assiduamente na Rádio Clube de Angola.
Marisabel Fogaça ficou conhecida no meio literário
nacional como uma escritora de mediana qualidade, tendo como público alvo a
mulher jovem e pouco instruída, romântica e sensível, para a qual não interessa
escrever de forma rebuscada e muito elaborada. O que importava, sim, era escrever
num estilo claro, simples e pouco exigente, mas sempre empolgante, com
traições amorosas, ciladas dos colegas de trabalho e denúncias perjurosas,
amizades desfeitas por velados interesses económicos, relações paralelas e,
equívocos dramáticos, enfim toda uma panóplia representativa das misérias
humanas, entrecortada por deslealdades, frustrações, angústias, suicídios, etc.
Não há dúvida nenhuma que os seus livros não passaram incólumes, nem aos olhos
da crítica nem dos seus leitores. Em certos casos chegaram a atingir grandes
vendas, como foi o caso de do romance Manuela, publicado em 1945, que alcançou
a 8.ª edição, vendendo milhares de exemplares.
Como escritora, Marisabel Fogaça começou a
revelar-se na literatura infantil, escrevendo vários livrinhos muito
interessantes e instrutivos, de grande utilidade para a formação moral,
religiosa e educativa das crianças. Aventurou-se também na poesia, mas apenas
com uma ligeira e infrutífera tentativa, de que resultaria pouco mais do que Nada,
Nada, título aliás mal conseguido até por ser em parte coincidente com um
livro Júlio Dantas, precisamente aquele com que se estreou nas letras em 1897.
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| Toupeiras Humanas, romance realista de grande sucesso literário |
Como publicista, Marisabel Fogaça dispersou
colaboração por vários quadrantes nacionais, desde o antigo jornal «Ecos de
Belém», passando ao «Jornal dos Açores», avançando para «A Província de Angola»
e terminando na conceituada revista feminina das «Modas e Bordados».
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| Interessante livro infantil, que passou praticamente desapercebido à crítica |
Maria Isabel Fogaça, teve uma filha, Maria Júlia Fogaça Buísel, nascida em Portimão a 13-3-1939, que viria a ser actriz de cinema, trabalhando com o famoso cineasta Manoel de Oliveira que a convidou para integrar a sua equipa da realização, tornando-se anotadora, assistente de produção e por fim seu braço direito na realização. Dessa amizade nasceu a obra Manoel de Oliveira - Fotobiografia, que Júlia Buísel deu à estampa em 2002, editada pela Livraria Figueirinhas. Em 2012, Júlia Buísel escreveu uma obra notável sobre o cinema português, intitulada Antes que me Esqueça, na qual relata algumas histórias pessoais passadas nos bastidores de realização de alguns dos mais importantes filmes da nossa cinematografia.
Resta acrescentar que Maria Isabel Fogaça antes de falecer, ofereceu a sua vasta biblioteca particular à Casa do Povo da Mexilhoeira
Grande.
Da sua lista de obras fazem parte os seguintes
títulos: Poesia – Nada, Nada,
1960. Romance – A plebeia com alma
de rainha, 1942; Manuela, 1945; Toupeiras humanas, 1946; Amor diferente, 1947;
Negrita de olhos verdes, 1948; Comediante, 1948; Destinos, 1949; Herdei uma mulher!, 1950; Katia, cigana ou princesa? 1951; Um marido a prestações, 1951; O oitavo mandamento, 1952; Dénye, 1953; Mulheres sem sexo,
1955; Não sei quem sou, 1955; Cristiana... e eu, 1956; Eu não sabia,
1956; Pequenina, 1957; Almas sem Deus, 1958; 333, 1960; Menti! Que Deus me perdoe..., 1960; A outra face de Deus, 1972. Literatura
infantil - Amendoeiras em flor,
1941; A lei de Deus, 1945; História maravilhosa do pastor mineiro,
1947; História maravilhosa do príncipe
pastor, 1947; Psxiu... Jesus vai
contar..., 1947; Escutem... que vou contar, 1949; A vingança de Mérty,
1949; A princezinha bago de milho, 1954; A bota do tio André,
1954; A Força dos Fracos; Assim Nasceu o Algarve.
(extraído do meu «Dicionário da Imprensa Algarvia», ainda inédito)
(extraído do meu «Dicionário da Imprensa Algarvia», ainda inédito)
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José Carlos Vilhena Mesquita
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Jardim da Glória e da Saudade
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Para a História da Saúde no Algarve - As epidemias de cólera-mórbus no século XIX
Consideram-se
surtos endémicos as doenças transmitidas por bactérias ou por vírus que
deflagram geralmente em determinadas regiões, provocadas por agentes ou
condicionalismos locais. Na maioria dos casos as endemias são sazonais e estão
relacionadas com factores geográficos, climatéricos, e, por vezes, até
genéticos. Consideram-se doenças regionais e não costumam ter efeitos mais
devastadores do que aqueles a que as populações já estão habituadas. No Algarve,
por exemplo, eram muito comuns as doenças palustres ou tifóides no tempo da
curtimenta do esparto e do vime. Confinavam-se aos locais de águas paradas, estagnadas
ou pútridas, aos terenos pantanosos, sapais e lameiros da borda-d’água, onde
eclodiam mosquitos transmissores de febres e sezões. Quando as endemias se
agravam ou propagam, adquirem então o carácter de surtos epidémicos, mas só no
caso de a doença ter sido provocada por um vírus ou bactéria que surgiu inesperadamente
num local e contagiou rapidamente a generalidade da população. Não são raros os
casos em que os surtos epidémicos evoluem de forma incontrolada para situações alarmantes,
extravasando fronteiras numa onda de contaminação generalizada. Nesse caso
adquirem o foro aterrorizante da epidemia. O conceito de Epidemia nasce da
fusão de dois étimos gregos: epi (sobre), e demos (povo), significando algo que
se derrama pela população, causando alarme e medo. Traduz, do ponto de vista
médico, um inesperado e arrebatante índice de enfermos atacados pela mesma
doença num breve lapso de tempo, e sem distinção de sexos, idades, raça ou
classe social. Uma epidemia é um contágio rápido e generalizado, que não tem
limites de tempo nem de espaço, provocando um número elevado de vítimas.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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Artigos Científicos
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
CENOTÁFIOS – na sé de Faro e de Silves
O vocábulo cenotáfio vem do étimo grego Kenotaphion, que presumo
ter dado origem em Latim à palavra Coenotaphium, que significa túmulo ou
monumento sepulcral, erigido em memória de alguém, cujos restos mortais não se
encontram nele depositados. Existe na Sé de Faro um cenotáfio, isto é, um
túmulo vazio, mandado construir pelo Bispo do Algarve D. António
Pereira da Silva, que governou a diocese entre 1704 e 1715. Era seu desejo
repousar para sempre na antiga Capela do Santo Lenho da Sé de Faro, mas
circunstâncias alheias à sua vontade goraram o seu desejo, ficando sepultado
na cripta episcopal. O seu artístico mausoléu transformou-se
assim num cenotáfio, o único existente no Algarve.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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NÓTULAS DE HISTÓRIA DO ALGARVE
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Descrição da cidade de Faro, em contraposição à vila de Loulé, para sede do Tribunal da Relação do Algarve.
Nos finais de 1827, o governo da Regência da Infanta D.ª
Isabel Maria de Bragança, decidiu fazer uma nova divisão do território
nacional, ou seja, uma reforma da estrutura administrativa e um novo
reordenamento da justiça em Portugal. É claro que estas reformas surgiam na esteira
dos novos ventos do liberalismo, que assolavam praticamente toda a Europa. O
problema é que essas reformas surgiam pela mão de burocratas e políticos
ignorantes, incapazes de avaliarem a realidade social e económica das
populações que compunham o território nacional.
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| Panorâmica da cidade de Faro, nos finais do séc. XIX. |
Nesse projecto de lei surgia a escolha da vila de Loulé para sede do Tribunal
da Relação do Algarve, em detrimento da cidade de Faro, que seria a escolha
mais óbvia. Naturalmente havia nisto alguma influência política, o que levou o
deputado Rodrigo de Sousa Castello Branco, representante do Algarve no
parlamento, a insurgir-se contra essa escolha/decisão, sustentando a
preferência de Faro em detrimento daquela vila algarvia. Para o efeito teceu em
pleno parlamento uma descrição comparativa das potencialidades que as
distinguiam e diferenciavam, sustentando que a escolha deveria recair em Faro:
por ser mais rica, mais comercial, mais culta e mais provida de serviços
públicos, além de ser a sede do bispado e, por isso, tida como a capital religiosa
de todo o reino do Algarve. Em face do interesse histórico, passamos a
transcrever a sua apreciação argumentativa, conservando-lhe a grafia original:
«Faro, cidade rica e commerciante, Capital Ecclesiastica do Algarve, centro de
concorrencia de todos os povos da Provincia, he precisamente o local que convem
para o assento da nova Relação. O provinciano vai a Faro de terras muito
distantes fazer alli provimentos para as suas lojas e para generos e fazendas
precisas ao seu proprio consumo; vai outro a Faro tratar negocios no Juizo
Ecclesiastico que alli se acha estabelecido; outro vai tratar sobe as pingues
rendas da Mitra e Cabido que abrangem todas as terras do Algarve. Por esta
forma, Faro he ponto de concorrencia de muita gente de todo aquelle reino:
acha-se alli com facilidade quem forneça os dinheiros precisos sobre ordens ou
letras que para isso se apresentam e que melhor pode escolher-se no Algarve
para assento da Relação?»
![]() |
| Foto da rua principal de Loulé, frente ao mercado municipal, que presumo datar dos inícios do século XX. |
Por outro lado, acrescentava que a vila de Loulé «absolutamente não convém,
porque não ha para lá correspondencias algumas, he uma terra de sertão, sem
commercio, sem offerecer motivo de concorrencia e portanto quem alli for tratar
de huma demanda irá a isso, mas só a isso, e então quanta deficuldade de
encontrar alli dinheiros! He huma terra de proprietarios, entre estes alguns ha
ricos de bens, porém pobres de dinheiro; não ha capitalistas nem negociantes.
Por conseguinte optando entre Faro e Loulé a preferencia he inquestionavelmente
devida a Faro».
Os argumentos do deputado Rodrigo de Sousa Castello Branco, foram ouvidos e
votados favoravelmente na sessão parlamentar de 19-1-1828, decidindo-se que
passariam a existir sete províncias e seis Relações de Justiça, sendo aprovado
que o Tribunal da Relação do Algarve ficaria sediado em Faro e não em Loulé. A
«Gazeta de Lisboa», nº 18 de 21-2-1828, publicou o projecto de criação da nova
reforma administrativa, que julgo não chegou propriamente a entrar em vigor,
pois que a Regência da Infanta Dª Isabel Maria de Bragança cessaria logo depois
em 26 de Fevereiro de 1828, não tardando a chegar D. Miguel que pelas cortes de
11 de Julho de 1828 seria entronizado rei de Portugal. Iniciava-se o período da
usurpação e das perseguições políticas contra os defensores do liberalismo de
que resultaria um forte surto emigratório para a Europa e por fim para os
Açores, onde os liberais concentrariam força para organizar a resistência e
formar o “exército libertador”, que desembarcado na cidade do Porto deu
sustento à guerra civil de 1832-34. Para o desfecho das lutas civis e
consequente vitória da causa liberal muito contribuiu o Algarve, cuja posição
geo-estratégica justificaria a sua invasão pelas tropas do Duque da Terceira,
que não encontrando oposição reorganizaria as suas forças e daqui tomaria a estrada
para Lisboa onde entraria vitorioso no dia 24 de Julho de 1834.
Não obstante o decurso do tempo nem o desenrolar da
história, creio que se fosse hoje a escolha de Faro em detrimento de Loulé,
embora não ofereça dúvidas, também não seria pacífica nem livre de polémica.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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NÓTULAS DE HISTÓRIA DO ALGARVE
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Subsídios para a História Eclesiástica do Algarve - Um Catálogo dos Bispos de Silves
Este Catálogo mais não é do que uma breve relação dos
Bispos da Sé de Silves; mas cumpre acrescentar que o seu primordial interesse reside
na comprovação documental da existência da conhecida contenda entre o rei de
Castela e D. Afonso III respeitante à nomeação dos prelados silvenses, assim
como a presença das suas assinaturas em vários diplomas de escrituras, doações
e mercês, cuja citação constitui uma fonte de indesmentível importância para o
estudo da História Eclesiástica do Algarve. Por outro lado, apercebi-me de que a
maioria dos documentos aí referidos pertence ao Arquivo do Mosteiro de S. Cruz
de Coimbra e ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, para além de serem citadas várias
obras clássicas da historiografia ibérica. Tudo isto dava a entender que o seu
autor seria um investigador erudito e bastante cuidadoso. Rapidamente me
apercebi de que não me enganava ao verificar que a assinatura pertencia ao
historiador Frei Manoel dos Santos, um dos mais notáveis intelectuais do seu
tempo.
O presente manuscrito que ora se dá a público, pela
primeira vez, compõe-se de quatro folhas, preenchidas no rosto e verso, numeradas
de fls. 112 a 115 do códice 152 depositado na B. N. L., pertencente ao espólio
da antiga Academia Real da História Portuguesa.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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Artigos Científicos
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
AS PRIMÍCIAS JORNALÍSTICAS DE MESTRE AQUILINO RIBEIRO NA VILA DE OLHÃO
Poucos saberão certamente que o escritor Aquilino Ribeiro
fez as suas primícias de publicista emérito no Algarve, mais precisamente na
vila de Olhão, tendo escolhido para palco da sua estreia jornalística o semanário
«O Cruzeiro do Sul», fundado e dirigido por José Marques Corpas Centeno, dedicado
secretário da edilidade local e notável publicista. Trata-se de um pormenor
biográfico, frequentemente descurado, que à primeira vista poderá parecer
irrelevante mas que, no fundo, assume particular interesse para o roteiro
literário e estilístico do autor do Malhadinhas.
Por outro lado, constitui um elemento de insofismável orgulho para a História
da Imprensa Algarvia, que de forma alguma se poderá desdenhar, sob pena de
incorrermos num verdadeiro atentado à memória daquele que muito justamente se
considera como o maior romancista português do século XX.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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Artigos Científicos,
LITERATURAL ALGARVIA - Ensaio
UMA VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ
Este livro gira em torno duma espécie de viagem
cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia
incomensurável do universo físico está patente neste livro através da
persistente alusão aos seus elementos constituintes, com particular acinte na
luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema
astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que
compõem o nosso universo mítico, como a fénix, a cobra alada, a pedra
filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da
Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente
fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na
volatilidade do verso poético.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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16:04
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LITERATURAL ALGARVIA - Ensaio
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
A «CHRONICA DO ALGARVE» terá sido o primeiro jornal algarvio?
O jornal que
inaugurou a imprensa algarvia chamava-se «Chronica do Algarve», nasceu por
ocasião da Invasão pelas tropas liberais do Duque de Terceira, cuja quartel-general se estabeleceu em Faro. Publicou-se
no dia 15 de Julho de 1833, e anunciava-se como órgão oficial do partido constitucionalista
de D. Pedro, Regente e futuro Rei de Portugal. Dado que os liberais receavam a
oposição militar e popular desta província editaram a «Chronica do Algarve»
para informar o povo, e principalmente a burguesia, acerca do poderio do
exército da Rainha e dos seus êxitos no campo de batalha. Por outro lado,
serviria como elemento de propaganda das novas ideias e como veículo de
recrutamento de efectivos militares para as fileiras do exército liberal.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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12:50
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Artigos Científicos,
HISTÓRIA da IMPRENSA ALGARVIA
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Tavira, o Marquês de Pombal e a Fábrica de Tapeçarias
A acção política do Marquês de Pombal na 2ª metade do séc. XVIII teve como objectivo a centralização do poder no Estado-Pessoa. Porém, quase em simultâneo, desenvolveu iniciativas de fomento económico que contribuíram para um vasto programa de reformas, quer na organização da administração pública, quer no ordenamento social, introduzindo ideias e projectos que se assemelham, em certa medida, à revolução iluminista. O fomento industrial foi um dos sectores de maior sucesso e de grande dinamismo económico durante o consulado Pombalino. A cidade de Tavira foi contemplada com o apoio à instalação de uma unidade fabril dedicada à produção de tapeçarias. Todavia, razões de vária ordem, nomeadamente o afastamento do Marquês do governo, contribuíram para o insucesso mercantil e encerramento desta unidade fabril, única em toda a História do Algarve.
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17:43
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Artigos Científicos
FARO E O MOVIMENTO DO ORFEU
Faro foi a
única cidade de província a dar cobertura e apoio ao movimento futurista
liderado por Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Almada Negreiros. É esse o
principal aspecto focado nesta comunicação, para além de ser lembrado que
Fernando Pessoa viveu em Tavira, em casa de sua tia cujo imóvel bem merecia a
colocação de uma placa evocativa da passagem pelo Algarve de um dos maiores
poetas da cultura portuguesa. Será igualmente analisado o papel do semanário «O
Heraldo», dirigido pelo pintor Lyster Franco na cidade de Faro e recordada a
colaboração do artista Carlos Porfírio, director da revista «Portugal
Futurista», de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Sá-Carneiro e de vários
outros jovens algarvios. De salientar que o último sobrevivente do Movimento
Futurista Português foi um algarvio, o Dr. Mário Lyster Franco, falecido em
1984.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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16:59
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ESTUDOS CIENTÍFICOS
terça-feira, 23 de setembro de 2014
FLORBELA ESPANCA NA VILA DE OLHÃO
Na vida de Florbela Espanca existem muitos pontos obscuros (ou menos esclarecidos), que apenas se afloraram sem, contudo, se ousar penetrar no âmago ou na essência das razões que os originaram. A permanência da poetisa em terras do Algarve é um dos trajectos biográficos mais ignorados pelos investigadores, ensaístas e historiadores da nossa cultura. Talvez o facto dessa estadia ter sido curta, transitória e efémera, explique o pouco interesse da investigação. Talvez o facto do Algarve ser uma região predestinada para o turismo tenha levado os estudiosos a supôr que Florbela demandou estas paragens apenas por motivos de lazer. Mas também há quem por falso pudor, imaculando a figura literária de Florbela, procure ignorar essa presença, sabendo de antemão que ela se ficou a dever ao definitivo encerramento das suas naturais expectativas de mulher-mãe.
[ofereço a todos os meus leitores a oportunidade de fazerem o download gratuito deste meu opúsculo sobre a estadia de Florbela Espanca em Quelfes, o qual é muito raro de encontrar, por se ter esgotado pouco depois de ter vindo a público em 1996]
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José Carlos Vilhena Mesquita
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01:08
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ESTUDOS CIENTÍFICOS
Um presépio napolitano do século XVIII no museu paroquial de Moncarapacho
Este presépio napolitano, cuja autoria julgo pertencer a Giuseppe Sammartino, é composto por 45 peças (onze das quais são representações
animalistas), propriedade da riquíssima casa Júdice Fialho, grande
impulsionadora da indústria conserveira e do comércio português além
fronteiras, que após o seu desmoronamento, suscitado pelas consequentes partilhas
da fortuna, acabou por ir parar às mãos do Asilo de Santa Isabel, em Faro, mercê
de uma doação feita, ainda em vida, pela viúva daquele famoso industrial. Durante
largos anos, por altura dos festejos natalícios, este esplendoroso conjunto
artístico foi reunido e exposto ao público, que, deste modo, pôde apreciar
«in-loco» a riqueza, o talhe e a expressão das encantadoras figuras. Mas o
correr dos tempos associado ao desconhecimento do valor das próprias peças
permitiu que o desleixo fosse generalizado e que o abandono originasse,
progressiva e irreversivelmente, um processo de desagregação que levou
inclusivamente à destruição de algumas peças.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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ESTUDOS CIENTÍFICOS
sábado, 20 de setembro de 2014
Manuel de Arriaga e a República
Personalidade relevante, com
um carácter antidinástico a todos os títulos notável, Manuel de Arriaga
procurou esforçadamente, logo após o 5 de Outubro de 1910, a conciliação de
todos os portugueses com o novo regime acabado de implantar. A República era
encarada, na época, como a «cura de todos os males de que enfermava a Nação», e
esse era o ideal, e a esperança, do velho tribuno republicano. «Tendo passado
toda a vida a procurar a República foi procurado por ela para seu Procurador»,
no Verão de 1911, sendo então eleito como primeiro Presidente da República
Portuguesa. Era a justa homenagem prestada ao mais ancião dos republicanos.
Todavia, a incompreensão dos políticos e o clima de desordem partidária, que se
fez sentir com o desmembramento do Partido Republicano Português (PRP), ditaram
o seu afastamento da presidência da Nação, depois de ter sido considerado
traidor e fora-da-lei por destacados vultos da vida política nacional.
(Publiquei este artigo na revista «História», nº 42, em Abril de 1982. Já nem me lembrava da sua existência, se mão amiga não me tivesse oferecido um exemplar de que extratei o texto que abaixo se insere, para uso de estudantes e investigadores da nossa infeliz e malfadada República).
(Publiquei este artigo na revista «História», nº 42, em Abril de 1982. Já nem me lembrava da sua existência, se mão amiga não me tivesse oferecido um exemplar de que extratei o texto que abaixo se insere, para uso de estudantes e investigadores da nossa infeliz e malfadada República).
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José Carlos Vilhena Mesquita
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HISTÓRIA DA REPÚBLICA
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Forte de Cacela e de Santo António de Tavira, extintos em 1794
Talvez poucos historiadores algarvios saibam deste pormenor. Quando o Conde Schaumburg-Lippe
(1724-1777) fez a notável inspecção, em 1764, ao equipamento defensivo da linha
costeira do Algarve, em cujo inspecção aparece a célebre frase em que
considera o Algarve "hum pedaço do Paraizo Terrestre", aconselhou o
Marquês de Pombal a proceder à reconstrução de vários fortes, fortalezas e
revelins, que asseguravam a defesa militar da costa algarvia. Pelo pormenor,
mas também pela eloquência desse relatório (inspecção), merece uma leitura
atenta por quem estuda o Algarve no séc. XVIII, mas também mereceria uma
publicação, em futura «Monumenta Historica Algarbiensis», uma quimera que
ilustres historiadores, como António Baião [que tinha sangue algarvio] e
Alberto Iria, sustentaram durante anos sem qualquer sucesso. Eu já a li na
«Colecção Pombalina» (contém 756 códices manuscritos) da BNP, e posso dizer que
é uma fonte de primeira grandeza. Curiosamente, tinha anotações talvez de Pedro
de Azevedo, embora desconfie que por lá andou também o escritor Júlio Dantas,
que foi um grande divulgador da nossa história.
Retomando o fio à meada, o Marquês de Pombal ciente dos escassos recursos do
Tesouro Público (actual Ministério das Finanças) mandou arquivar o relatório do
Conde Lippe, para posterior reapreciação. No reinado seguinte, de D. Maria I,
período designado por "Viradeira" visto ser marcado pela política
retrógrada do absolutismo, uma das soluções usadas para evitar o aumento da despesa
pública, por via da restauração dos fortes militares da linha costeira, foi o
encerramento de alguns desses equipamentos militares. Entre eles, figuram os
Fortes de Cacela e de Santo António do Rio, em Tavira, a que o vulgo chamava
Forte do Rato, cuja decadência só viria a ser travada quase dois séculos
depois, para servirem de aquartelamento às forças de vigilância e de inspecção
fiscal.
![]() |
| Forte de Cacela |
Quando o capitão-de-mar-e-guerra Lourenço Germach Possolo passou pela costa
algarvia, no último cartel do século XIX, considerou que a maioria das
fortalezas algarvias, nomeadamente a de Sagres, estavam na triste condição de
"pardieiros". O abandono dos monumentos históricos no nosso país era
endémico, vinha de longa data, e contrastava lamentavelmente com o que ocorria
noutros países, nomeadamente em Itália, onde o espírito romântico da época e o
crescente fervor nacionalista lançara uma onda de recuperação e restauro dos
monumentos e edifícios históricos.
Para os possíveis interessados aqui deixo a referência bibliográfica do edital
publicado em 1794, que pode ser consultado nas bibliotecas da Academia das
Ciências, da Ajuda, da BNP e outras:
![]() |
| Forte de Santo António, vulgo Forte do Rato, em Tavira |
Edital.- "Sua Magestade foi servida ordenar por Aviso do Secretario de
Estado Luiz Pinto de Sousa, de sinco do corrente mez de Março, se faça público,
que os Governos das Fortalezas de Cassella, e Santo Antonio do Rio, da Cidade
de Tavira, Reino do Algarve, se achão extinctos, e abolidos para já mais se
poderem pertender. Lisboa treze de Março de mil setecentos noventa e quatro-
Francisco Xavier Telles de Mello (Lisboa): Na Officina de Antonio Rodrigues
Galhardo, 1794.-1 folha; 29cm.-B.
J.C. Vilhena Mesquita
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José Carlos Vilhena Mesquita
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NÓTULAS DE HISTÓRIA DO ALGARVE
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Coutos e terras de degredo no Algarve
Este pequeno trabalho de investigação pretende dar a conhecer uma realidade pouco divulgada entre a comunidade científica, que consiste na preservação das terras de degredo mais de um século depois de terem sido extintos os Coutos de homiziados em Portugal. Esta situação, no caso aqui revelado, pode justificar-se pelo retomar do regime absolutista com D. Miguel, mas também pela necessidade de repovoamento do território nacional. Importa não esquecer que o Algarve, e muito particularmente a vila de Castro Marim, foi uma das primeiras regiões do país a receber cartas de Couto para obstar ao fenómeno socioeconómico do ermamento e, desse modo, operar ao forçado repovoamento da raia fronteiriça no Guadiana. Os documentos aqui transcritos reforçam também a ideia de que o Algarve, pela sua extremada posição geográfica foi sempre terra de degredo e exílio. Basta lembrar, que ainda no regime deposto de Salazar, o filósofo Agostinho da Silva, em 1943, foi compelido a exílio interno, sob a designação de residência fixa, na Praia da Rocha em Portimão. Os possíveis interessados na leitura do meu trabalho poderão fazer o seu download sem quaisquer encargos.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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ENSAIOS de História do Algarve
sexta-feira, 16 de maio de 2014
ALJEZUR E O BUROCRACISMO HISTÓRICO. Uma estrada que levou séculos a ser construída, por causa da "serpente demoradora" no centralismo político.
A burocracia no nosso país tem origens que remontam à formação do espaço nacional, sensivelmente desde 1252, e que se agudizaria a partir do centralismo de D. João II até aos nossos dias. Com o estado absoluto e o autoritarismo régio, surgiu um fenómeno que, não sendo novo, tornar-se-ia insuportável: o adiamento, a prorrogação e a dilação dos prazos de consecução das obras públicas, especialmente nas regiões periféricas. O Algarve, nesse aspecto, era uma vítima endémica do isolamento e do esquecimento a que a sua extremada situação geográfica o condenava. Fartos de esperar pela construção de uma estrada, o povo de Aljezur aproveitou o retorno de D. Miguel à pátria-mãe, para através das costumeiras felicitações de júbilo, lembrar pela voz da sua autarquia, que desse uma prova da sua renovada autoridade, mandando cortar "o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto". Isto é, que acabasse com a burocracia e avançasse com os melhoramentos de que os povos e a pátria tanto careciam. O sentido de oportunidade político dos aljezurenses pede meças ao tempo presente. Aqui fica, transcrito na sua versão original e em primeira mão, o elucidativo documento. A razão dos numerosos dislates ortográficos deve-se certamente à parca instrução do escrivão.
[sumário: Ofício da Câmara de Aljezur solicitando a construção de uma estrada de ligação a Lagoa e Portimão, ao mesmo tempo que felicita o regresso de D.Miguel]
«Serenissimo Senhor:
A Camara Nobreza e Povo da Villa de Aljezur, commarca de Lagos, Reyno do Algarve, dá Parabens asi mesmo pela Felis chegada de V. A. R. à Capital destes Reynos de Portugal: Fortuna tão desejada, e vem por este modo protestar seos votos de satisfação e Fedelidade.
Serenissimo Senhor:
Tomamos aqui lugar para expor a V.A.R. que tendo repetidos requerimentos para se fazerem as extradas que da dita vila vão para Lagos, capital da Comarca; e a de Vila Nova de Portimão, que ambas se podem fazer com hum conto de reis sendo bem economizados e aplicados por Pessoas zerlozas e entereçadas no bem publico: é moderada despeza comparada com o grande beneficio que rezulta por ser o unico tranzito por onde se podem conduzir Artilharias e carruagens quando persizão circular desta parte para todo o Algarve, e em tão comodidade aos habitantes.
Das repetidas suplicas que temos feito nada mais tem rezultado que informações e avaliações, vesturias de Engenheiros e outras deligencias cujos papeis se achão parados nas Tribunas sem que nos tenhamos noticia alguma deles; rezultando unicamente as despezas cresidas que se tem feito com os informantes os quaes somente estas bastavam para fazer pelo menos trez Legoas de boa Extrada; Pois com dezasseis mil reis se achão já prontas duas Leguas da dita extrada.
Serenissimo Senhor:
Corte V.A.R. o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto só em aparatoz.
Sabeçe sem informação que de extradas feitas rezulta utilidade; resta unicamente a V.A.R. mandar aos seos Ministros que sem demora fação rodar esta deligencia pelo expediente de suas obrigações, participandonos offiçiozamente para nos lhe deregirmos os exclarecimentos de que persizarem de forma que chegue a fazer-se as extradas pedidas com o Tributo dos Seriáis aplicados a este fim ou como a V.A.R. milher convier mandar.
Sirvaçe V.A.R. açeitar os nossos çinçeros e fiéis votos de obediencia e acudir ao que expomos como for do seo Real agrado.
Deos Guarde a V.A.R., Aljezur em Camara de 16 de Março de 1828.
O Juiz Presidente, Manoel Marreiro.»
(seguem-se os restantes elementos da vereação que, curiosamente, eram todos analfabetos)
ANTT, Ministério do Reino, Autos de Felicitações, Aclamações, Juramentos e Outros, Maço 9, 1ª série, doc. nº 106.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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NÓTULAS DE HISTÓRIA DO ALGARVE
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Sociedade do Teatro Harmonia, de Faro, em 1827 - História do Teatro no Algarve
José Carlos Vilhena Mesquita
Ninguém sabe, ao certo, quando e onde se manifestou, publicamente e pela
primeira vez, no Algarve a popular Arte de Talma. Suspeitamos que as artes
cénicas, herdadas da colonização islâmica nunca se extinguiram no
Algarve-Andaluz. E pelo menos desde o séc. XV subsistem inequívocas referências
a certas representações jubilosas de carácter teatral, em honra de visitações
régias ou de comitivas militares, que tinham por destino a conquista e
manutenção das praças do Norte de África.
O assunto da primazia e ancestralidade do teatro no Algarve já mereceu
a minha atenção em trabalho da especialidade (História do Teatro Lethes). Mas o
que agora me traz a terreiro é dar a conhecer a existência em 1827 de uma casa
de Teatro em Faro, com uma companhia residente denominada «Sociedade do Teatro
Harmonia». As provas encontrei-as, há anos, no Arquivo Nacional da Torre do
Tombo, na secção da Intendência Geral da Polícia, onde me deparei com um ofício
do Sargento-mor das Ordenanças de Faro, o conhecido João Carlos de Mello Lobo
Freire Pantoja, no qual informa que no teatro da cidade de Faro se representou
a 30 de Dezembro de 1827 pela «Sociedade do Teatro Armonia (sic) um Entremez
intitulado O Alardo na Aldêa» no qual
se fazia «o mais manifesto e decidido escarneo da Coorporação de Ordenanças ou
3ª Linha do Exercito».
Convém explicar, que um
Entremez é uma pequena composição dramática, de carácter jocoso e burlesco, mas
de recorte moral, cujos actores encarnam figuras locais em flagrantes da vida
real, que o público assistente conhece da sua vivência quotidiana. Em boa
verdade é aquilo que antigamente se designava por farsa, cujas origens
entroncam no teatro vicentino. O único senão é que o Entremez tem um alcance
localista, desprovido de expressão nacional, sendo por isso considerado em
teatro como uma peça menor. Representava-se nas grandes salas nacionais para entretenimento
do público, antes das grandes peças ou no intervalo das mesmas.
Por outro lado, extrai-se
deste ofício um pormenor muito importante, que é o da existência em 1827 de uma
sala de espectáculos em Faro, com artistas locais, denominada «Sociedade do
Teatro Harmonia». Por conseguinte existia na cidade, talvez desde o princípio
da centúria, um equipamento vocacionado para a cultura, certamente para acolher
representações cénicas e musicais. Em reforço dessa hipótese, impõe-se lembrar
que em 1808, quando o Algarve se libertou do jugo napoleónico, publicou-se no
ano seguinte uma peça de teatro intitulada «Restauração dos Algarves, ou Heroes de Faro e
Olhão, Drama Historico em Tres Actos», da autoria de Luís de Sequeira Oliva, que foi certamente levada à cena
em Faro.
Curioso é também o facto do sargento-mor, Freire Pantoja, acrescentar no
seu ofício, que o texto original do citado Entremez não refere o ano em que foi
publicado, nem a tipografia em que foi impresso, o que o levava a suspeitar
tratar-se de uma publicação clandestina. E se assim fosse tornava-se num caso
de averiguação policial. Mas o que mais lhe desagradava era o facto de “serem
os Theatros estabelecidos para servirem de Escholla onde os Povos aprendão as
máximas bases da politica, da moral, do amor da Patria, do valor do zello e da
fidelidade com que devem servir os Soberanos”.[1]
Este ofício é muito curioso e demonstra a importância e consideração em que
se tinham as ordenanças de Faro. O Intendente Geral da Polícia despachou que,
embora o sargento-mor tivesse razão, não dava quaisquer providências porque a
peça já não estava em representação.
Todavia, encontrei um outro ofício do mesmo sargento-mor, Freire Pantoja,
no qual refere que na noite de 18 de Fevereiro de 1828 voltou à cena o referido
Entremez, solicitando que desta vez fossem tomadas medidas enérgicas. Face à
reincidência o Intendente despachou que se mandassem proibir as representações.[2]
Suponho que o que mais
preocupava o sargento-mor, Freire Pantoja, era o facto desta peça cómico-satírica,
intitulada «Alardo na Aldeia», revelar uma inspiração contra-revolucionária de
apoio às pretensões absolutistas propaladas pelo partido miguelista, que clandestinamente
movia todas as sua influências, internas e externas, para voltar ao poder, como
efectivamente aconteceria em 1828. Também o título do próprio Entremez,
continha uma implícita crítica política e social às tropas de 3ª linha, as
chamadas Ordenanças, pois que «Alardo» significava por um lado a revista anual
das tropas, mas por outro lado, Alarde traduzia uma forma de gabarolice ou de
fanfarrice, própria de quem se vangloria sem razão que o justifique. E esse era
o espírito popular das Ordenanças, constituídas por antigos soldados em idade
avançada, cuja missão consistia na defesa das populações locais, não só em caso
de agressão militar, como ainda perante uma calamidade pública, nomeadamente
cheias, terramotos, incêndios, surtos epidémicos, etc. Mas, na verdade, o seu valor
militar era quase nulo, pois todos sabiam que não estavam preparados, nem
equipados, para em caso de ataque enfrentarem as tropas inimigas.
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José Carlos Vilhena Mesquita
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