quarta-feira, 28 de maio de 2014

Forte de Cacela e de Santo António de Tavira, extintos em 1794


retrato do Conde Schaumburg-Lippe
Talvez poucos historiadores algarvios saibam deste pormenor. Quando o Conde Schaumburg-Lippe (1724-1777) fez a notável inspecção, em 1764, ao equipamento defensivo da linha costeira do Algarve, em cujo inspecção aparece a célebre frase em que considera o Algarve "hum pedaço do Paraizo Terrestre", aconselhou o Marquês de Pombal a proceder à reconstrução de vários fortes, fortalezas e revelins, que asseguravam a defesa militar da costa algarvia. Pelo pormenor, mas também pela eloquência desse relatório (inspecção), merece uma leitura atenta por quem estuda o Algarve no séc. XVIII, mas também mereceria uma publicação, em futura «Monumenta Historica Algarbiensis», uma quimera que ilustres historiadores, como António Baião [que tinha sangue algarvio] e Alberto Iria, sustentaram durante anos sem qualquer sucesso. Eu já a li na «Colecção Pombalina» (contém 756 códices manuscritos) da BNP, e posso dizer que é uma fonte de primeira grandeza. Curiosamente, tinha anotações talvez de Pedro de Azevedo, embora desconfie que por lá andou também o escritor Júlio Dantas, que foi um grande divulgador da nossa história.
Retomando o fio à meada, o Marquês de Pombal ciente dos escassos recursos do Tesouro Público (actual Ministério das Finanças) mandou arquivar o relatório do Conde Lippe, para posterior reapreciação. No reinado seguinte, de D. Maria I, período designado por "Viradeira" visto ser marcado pela política retrógrada do absolutismo, uma das soluções usadas para evitar o aumento da despesa pública, por via da restauração dos fortes militares da linha costeira, foi o encerramento de alguns desses equipamentos militares. Entre eles, figuram os Fortes de Cacela e de Santo António do Rio, em Tavira, a que o vulgo chamava Forte do Rato, cuja decadência só viria a ser travada quase dois séculos depois, para servirem de aquartelamento às forças de vigilância e de inspecção fiscal.
Forte de Cacela
Quando o capitão-de-mar-e-guerra Lourenço Germach Possolo passou pela costa algarvia, no último cartel do século XIX, considerou que a maioria das fortalezas algarvias, nomeadamente a de Sagres, estavam na triste condição de "pardieiros". O abandono dos monumentos históricos no nosso país era endémico, vinha de longa data, e contrastava lamentavelmente com o que ocorria noutros países, nomeadamente em Itália, onde o espírito romântico da época e o crescente fervor nacionalista lançara uma onda de recuperação e restauro dos monumentos e edifícios históricos.
Para os possíveis interessados aqui deixo a referência bibliográfica do edital publicado em 1794, que pode ser consultado nas bibliotecas da Academia das Ciências, da Ajuda, da BNP e outras:
Forte de Santo António, vulgo Forte do Rato, em Tavira

Edital.- "Sua Magestade foi servida ordenar por Aviso do Secretario de Estado Luiz Pinto de Sousa, de sinco do corrente mez de Março, se faça público, que os Governos das Fortalezas de Cassella, e Santo Antonio do Rio, da Cidade de Tavira, Reino do Algarve, se achão extinctos, e abolidos para já mais se poderem pertender. Lisboa treze de Março de mil setecentos noventa e quatro- Francisco Xavier Telles de Mello (Lisboa): Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1794.-1 folha; 29cm.-B.
J.C. Vilhena Mesquita

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Coutos e terras de degredo no Algarve

Este pequeno trabalho de investigação pretende dar a conhecer uma realidade pouco divulgada entre a comunidade científica, que consiste na preservação das terras de degredo mais de um século depois de terem sido extintos os Coutos de homiziados em Portugal. Esta situação, no caso aqui revelado, pode justificar-se pelo retomar do regime absolutista com D. Miguel, mas também pela necessidade de repovoamento do território nacional. Importa não esquecer que o Algarve, e muito particularmente a vila de Castro Marim, foi uma das primeiras regiões do país a receber cartas de Couto para obstar ao fenómeno socioeconómico do ermamento e, desse modo, operar ao forçado repovoamento da raia fronteiriça no Guadiana. Os documentos aqui transcritos reforçam também a ideia de que o Algarve, pela sua extremada posição geográfica foi sempre terra de degredo e exílio. Basta lembrar, que ainda no regime deposto de Salazar, o filósofo Agostinho da Silva, em 1943, foi compelido a exílio interno, sob a designação de residência fixa, na Praia da Rocha em Portimão. Os possíveis interessados na leitura do meu trabalho poderão fazer o seu download sem quaisquer encargos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

ALJEZUR E O BUROCRACISMO HISTÓRICO. Uma estrada que levou séculos a ser construída, por causa da "serpente demoradora" no centralismo político.


A burocracia no nosso país tem origens que remontam à formação do espaço nacional, sensivelmente desde 1252, e que se agudizaria a partir do centralismo de D. João II até aos nossos dias. Com o estado absoluto e o autoritarismo régio, surgiu um fenómeno que, não sendo novo, tornar-se-ia insuportável: o adiamento, a prorrogação e a dilação dos prazos de consecução das obras públicas, especialmente nas regiões periféricas. O Algarve, nesse aspecto, era uma vítima endémica do isolamento e do esquecimento a que a sua extremada situação geográfica o condenava. Fartos de esperar pela construção de uma estrada, o povo de Aljezur aproveitou o retorno de D. Miguel à pátria-mãe, para através das costumeiras felicitações de júbilo, lembrar pela voz da sua autarquia, que desse uma prova da sua renovada autoridade, mandando cortar "o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto". Isto é, que acabasse com a burocracia e avançasse com os melhoramentos de que os povos e a pátria tanto careciam. O sentido de oportunidade político dos aljezurenses pede meças ao tempo presente. Aqui fica, transcrito na sua versão original e em primeira mão, o elucidativo documento. A razão dos numerosos dislates ortográficos deve-se certamente à parca instrução do escrivão.

[sumário: Ofício da Câmara de Aljezur solicitando a construção de uma estrada de ligação a Lagoa e Portimão, ao mesmo tempo  que felicita o regresso de D.Miguel]

«Serenissimo Senhor:
A Camara Nobreza e Povo da Villa de Aljezur, commarca de Lagos, Reyno do Algarve, dá Parabens asi mesmo pela Felis chegada de V. A. R. à Capital destes Reynos de Portugal: Fortuna tão desejada, e vem por este modo protestar seos votos de satisfação e Fedelidade.
Serenissimo Senhor:
Tomamos aqui lugar para expor a V.A.R. que tendo repetidos requerimentos para se fazerem as extradas que da dita vila vão para Lagos, capital da Comarca; e a de Vila Nova de Portimão, que ambas se podem fazer com hum conto de reis sendo bem economizados e aplicados por Pessoas zerlozas e entereçadas no bem publico: é moderada despeza comparada com o grande beneficio que rezulta por ser o unico tranzito por onde se podem conduzir Artilharias e carruagens quando persizão circular desta parte para todo o Algarve, e em tão comodidade aos habitantes.
Das repetidas suplicas que temos feito nada mais tem rezultado que informações e avaliações, vesturias de Engenheiros e outras deligencias cujos papeis se achão parados nas Tribunas sem que nos tenhamos noticia alguma deles; rezultando unicamente as despezas cresidas que se tem feito com os informantes os quaes somente estas bastavam para fazer pelo menos trez Legoas de boa Extrada; Pois com dezasseis mil reis se achão já prontas duas Leguas da dita extrada.
Serenissimo Senhor:
Corte V.A.R. o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto só em aparatoz.
Sabeçe sem informação que de extradas feitas rezulta utilidade; resta unicamente a V.A.R. mandar aos seos Ministros que sem demora fação rodar esta deligencia pelo expediente de suas obrigações, participandonos offiçiozamente para nos lhe deregirmos os exclarecimentos de que persizarem de forma que chegue a fazer-se as extradas pedidas com o Tributo dos Seriáis aplicados a este fim ou como a V.A.R. milher convier mandar.
Sirvaçe V.A.R. açeitar os nossos çinçeros e fiéis votos de obediencia e acudir ao que expomos como for do seo Real agrado.
Deos Guarde a V.A.R., Aljezur em Camara de 16 de Março de 1828.
O Juiz Presidente, Manoel Marreiro.»
(seguem-se os restantes elementos da vereação que, curiosamente, eram todos analfabetos)

ANTT, Ministério do Reino, Autos de Felicitações, Aclamações, Juramentos  e Outros, Maço 9, 1ª série, doc. nº 106.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sociedade do Teatro Harmonia, de Faro, em 1827 - História do Teatro no Algarve

José Carlos Vilhena Mesquita

Ninguém sabe, ao certo, quando e onde se manifestou, publicamente e pela primeira vez, no Algarve a popular Arte de Talma. Suspeitamos que as artes cénicas, herdadas da colonização islâmica nunca se extinguiram no Algarve-Andaluz. E pelo menos desde o séc. XV subsistem inequívocas referências a certas representações jubilosas de carácter teatral, em honra de visitações régias ou de comitivas militares, que tinham por destino a conquista e manutenção das praças do Norte de África.
O assunto da primazia e ancestralidade do teatro no Algarve já mereceu a minha atenção em trabalho da especialidade (História do Teatro Lethes). Mas o que agora me traz a terreiro é dar a conhecer a existência em 1827 de uma casa de Teatro em Faro, com uma companhia residente denominada «Sociedade do Teatro Harmonia». As provas encontrei-as, há anos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na secção da Intendência Geral da Polícia, onde me deparei com um ofício do Sargento-mor das Ordenanças de Faro, o conhecido João Carlos de Mello Lobo Freire Pantoja, no qual informa que no teatro da cidade de Faro se representou a 30 de Dezembro de 1827 pela «Sociedade do Teatro Armonia (sic) um Entremez intitulado O Alardo na Aldêa» no qual se fazia «o mais manifesto e decidido escarneo da Coorporação de Ordenanças ou 3ª Linha do Exercito».
Convém explicar, que um Entremez é uma pequena composição dramática, de carácter jocoso e burlesco, mas de recorte moral, cujos actores encarnam figuras locais em flagrantes da vida real, que o público assistente conhece da sua vivência quotidiana. Em boa verdade é aquilo que antigamente se designava por farsa, cujas origens entroncam no teatro vicentino. O único senão é que o Entremez tem um alcance localista, desprovido de expressão nacional, sendo por isso considerado em teatro como uma peça menor. Representava-se nas grandes salas nacionais para entretenimento do público, antes das grandes peças ou no intervalo das mesmas.

Por outro lado, extrai-se deste ofício um pormenor muito importante, que é o da existência em 1827 de uma sala de espectáculos em Faro, com artistas locais, denominada «Sociedade do Teatro Harmonia». Por conseguinte existia na cidade, talvez desde o princípio da centúria, um equipamento vocacionado para a cultura, certamente para acolher representações cénicas e musicais. Em reforço dessa hipótese, impõe-se lembrar que em 1808, quando o Algarve se libertou do jugo napoleónico, publicou-se no ano seguinte uma peça de teatro intitulada «Restauração dos Algarves, ou Heroes de Faro e Olhão, Drama Historico em Tres Actos», da autoria de Luís de Sequeira Oliva, que foi certamente levada à cena em Faro. 
Curioso é também o facto do sargento-mor, Freire Pantoja, acrescentar no seu ofício, que o texto original do citado Entremez não refere o ano em que foi publicado, nem a tipografia em que foi impresso, o que o levava a suspeitar tratar-se de uma publicação clandestina. E se assim fosse tornava-se num caso de averiguação policial. Mas o que mais lhe desagradava era o facto de “serem os Theatros estabelecidos para servirem de Escholla onde os Povos aprendão as máximas bases da politica, da moral, do amor da Patria, do valor do zello e da fidelidade com que devem servir os Soberanos”.[1]
Este ofício é muito curioso e demonstra a importância e consideração em que se tinham as ordenanças de Faro. O Intendente Geral da Polícia despachou que, embora o sargento-mor tivesse razão, não dava quaisquer providências porque a peça já não estava em representação.
Todavia, encontrei um outro ofício do mesmo sargento-mor, Freire Pantoja, no qual refere que na noite de 18 de Fevereiro de 1828 voltou à cena o referido Entremez, solicitando que desta vez fossem tomadas medidas enérgicas. Face à reincidência o Intendente despachou que se mandassem proibir as representações.[2]
Suponho que o que mais preocupava o sargento-mor, Freire Pantoja, era o facto desta peça cómico-satírica, intitulada «Alardo na Aldeia», revelar uma inspiração contra-revolucionária de apoio às pretensões absolutistas propaladas pelo partido miguelista, que clandestinamente movia todas as sua influências, internas e externas, para voltar ao poder, como efectivamente aconteceria em 1828. Também o título do próprio Entremez, continha uma implícita crítica política e social às tropas de 3ª linha, as chamadas Ordenanças, pois que «Alardo» significava por um lado a revista anual das tropas, mas por outro lado, Alarde traduzia uma forma de gabarolice ou de fanfarrice, própria de quem se vangloria sem razão que o justifique. E esse era o espírito popular das Ordenanças, constituídas por antigos soldados em idade avançada, cuja missão consistia na defesa das populações locais, não só em caso de agressão militar, como ainda perante uma calamidade pública, nomeadamente cheias, terramotos, incêndios, surtos epidémicos, etc. Mas, na verdade, o seu valor militar era quase nulo, pois todos sabiam que não estavam preparados, nem equipados, para em caso de ataque enfrentarem as tropas inimigas.


[1] ANTT, Intendência Geral da Polícia, Correspondência dos Corregedores do Algarve e Juízes de Fora do Algarve, 1828, Maço 244, doc. nº 9.
[2] Idem, idem, doc. nº 53.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Fonseca Domingos, um progressista poeta do povo

No contexto da poesia algarvia do século XX, assume particular destaque a figura do poeta José Maria Fonseca Domingos, cuja obra apesar de não ser muito vasta foi bastante apreciada entre os seus pares. Homem íntegro e de forte personalidade, que sempre defendeu os valores da liberdade e do socialismo, correu o mundo, confrontou culturas, conheceu diferentes civilizações e vivenciou díspares organizações políticas. Regressou ao seu Algarve natal para viver os últimos anos de vida em convívio com alguns poetas farenses, para cuja consolidação ajudou a fundar, juntamente com Tito Olívio e Diamantino Barriga, a «Tertúlia Hélice», que apesar de todas as vicissitudes ainda subsiste. O texto que aqui se divulga corresponde à conferência que pronunciei em 18-02-2006, na cerimónia de homenagem póstuma realizada no auditório da Biblioteca Municipal Ramos Rosa, em Faro.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A última Armação do Atum - Arraial Ferreira Neto, em Tavira

As grandes armações do atum desapareceram do Algarve há quarenta anos, sendo que a última foi lançada em 1972, cujo resultado se saldou na captura de um único atum. Nunca mais se voltaria a armar essa grande e prodigiosa estrutura de pesca, que desde a colonização islâmica por aqui se designou por «Almadrava». A última campanha da pesca do atum, efectuada em 1968 pelo Arraial Ferreira Neto, em Tavira, foi seguida a par e passo pelo realizador Hélder Mendes, então ao serviço da RTP. Aqui deixamos o filme produzido com tanto sacrifico e dedicação, que é hoje um incontornável peça da 7.ª arte e um valioso testemunho da nossa etnografia marítima. Lembramos que Hélder Mendes filmou tudo quase sempre sozinho, apenas com uma pequena máquina de filmar "Bolex-Paillard", quase artesanal que funcionava dando-se-lhe corda manualmente, após filmar vinte e quatro segundos de imagens de cada vez. Por falta de meios financeiros da RTP a fita foi gravada a preto e branco, o que foi pena, pois podia ter-se guardado para a posteridade, com mais realismo e exactidão, um dos grandes momentos da História das Pescarias do Algarve. Impõe-se salientar o grande profissionalismo e sentido artístico de Hélder Mendes, que acompanhou durante cinco meses o sacrifício quotidiano dos marítimos algarvios, que se dedicavam à chamada «pesca rica», ou seja à captura do atum, que é hoje uma faina praticamente extinta. Acresce dizer que o documentário produzido e realizado por Hélder Mendes foi retransmitido na RTP, no programa «Bombordo», a 9-3-2002. É, como se pode aqui constatar, um pedaço da História do Algarve.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Pesca da Baleia no Algarve


José Carlos Vilhena Mesquita

A pesca da baleia no litoral algarvio foi, a par da pesca do coral, uma das primeiras a serem desactivadas, pertencendo por isso, e de há longa data, às chamadas “pescarias históricas”. Contudo, temos hoje plena certeza de que a sua efectividade nos mares do Algarve ascende a tempos muito remotos.
Cerro da Vila, povoação piscatória romana, em Vilamoura
Desde as colonizações fenícias, cartaginesas, grega, romana e árabe que existem provas arqueológicas, e até descrições narrativas, duma intensa actividade na captura de cetáceos para lá das portas de Hercules, ou seja, nas costas do Algarve-Andaluz. A sua importância económica foi, certamente, relevante. Por isso, a captura daquele cetáceo constitui um exemplo a reter na análise dos forais de Silves, Tavira, Faro e Loulé, visto que os citados monarcas reservavam para si os direitos da baleação.[1] Isto prova que a pesca da baleia continuava a processar-se com regularidade e, por certo, de forma bastante rendível, pois de contrário não teria sido alvo dos interesses da Coroa. Esta constatação serve também para evidenciar que, após a conquista do Algarve e a unificação do território nacional, continuou a incentivar-se a navegação de altura, cujo alcance se estendia pelo sudoeste atlântico, visto serem estes os domínios naturais da pesca da baleia.
Mas se aqueles forais dizem respeito às principais urbes do Algarve, poderia deduzir-se que este tipo de pesca se confinava aos centros mais populosos e habitados pelos antigos mareantes árabes, cuja experiência de alto mar justificaria o elevado rendimento do sector. Todavia, parece não ser assim. Os algarvios, do ponto de vista antropológico, são fruto da miscigenação de várias raças e culturas indo-europeias, que ao longo dos séculos se cruzaram na grande estrada mediterrâneo-atlântica. O seu legado foi muito vasto e a herança tecnológica ficou patente no aproveitamento dos recursos hidrológicos e na agricultura, na mineração e na metalurgia, nas indústrias da olaria e da cerâmica, na olivicultura, nos linifícios, nas cordoarias e espartos, na tecelagem e tinturaria, na vinicultura e alcoólase, nas artes decorativas, na música, na poesia, na arquitectura e em todas as circunstâncias dependentes do génio inventivo. Desta mesclagem genética resultou o espírito e o carácter do povo algarvio, inclinado para o desfrute e sabor da vida.
Não obstante a sua herança antropológica, o Algarve é essencialmente uma região marítima, com uma importância geo-estratégica incontornável. A sua configuração geográfica tornou-o, desde tempos imemoriais, num amplo cais de acostagem. Os algarvios são homens modelados pelo mar, pois que até nas pequenas povoações costeiras se desenvolveu desde sempre uma intensa actividade piscatória. E a baleia seria um dos seus alvos preferências. Repare-se nos forais de Castro Marim (tanto o de 1277 como o de 1282),
Foral de Aljezur, pergaminho original
Aljezur (1280), Cacela (1283) e Porches (1286), todos eles relativos a pequenos concelhos do litoral, nos quais os “direitos da baleação” se continuavam a reservar para o monarca.[2] E não cremos que D. Dinis, ao exarar esta cláusula nos citados forais, estivesse apenas a copiar uma determinação dos antigos diplomas de seu pai outorgados por volta de 1266, pois que, duas décadas decorridas, deve ter sido informado de que a pesca da baleia constituía uma actividade comum a todo o litoral algarvio. Nesta experiência da faina de alto mar consubstanciavam-se algumas das razões que explicam a presença do Algarve no contexto dos Descobrimentos.[3]
Muito embora a pesca da baleia fosse, em número de capturas, progressivamente diminuindo ao longo dos anos, registaram-se, contudo, algumas tentativas régias para a sua protecção e incremento económico. Insere-se, neste caso, o diploma de D. Afonso IV, datado de 28-9-1340, através do qual se arrendaram ao mercador Afonso Domingues todas as baleações do reino pelo espaço de seis anos. Durante este período a coroa forneceria àquele rendeiro 60 moios de trigo de Beja ou de Serpa e 64 alqueires das salinas de Faro, que se destinavam à conserva da baleia, ficando as famílias dos pescadores sob a protecção real.[4] Suponho que terá sido este o primeiro arrendamento da baleação do reino.
No Algarve os baleeiros mantinham-se em laboração durante todo o ano e apenas sujeitos aos respectivos tributos foraleiros. A importância desta pesca no comércio algarvio do século xv deve ter sido bastante significativa, nomeadamente nos anos de escassez de trigo, pois da sua permuta por carne e óleo de baleia dependia a sustentabilidade de muitas comunidades piscatórias:
 «No reinado do Senhor D. Afonso IV, era hum objecto mui attendivel da nossa industria nacional a Pescaria da Balêa feita nas costas do Algarve, porque de huma Carta de desaggravo daquelle soberano dirigida ao concelho de Tavira no 1.º de Setembro de 1352 consta que em Porto Novo morrião Balêas, e que vinhão almocreves carregallas para fóra a troco de trigo».[5]
Esta situação – permutação de pescado por trigo – vai repetir-se constantemente, sendo, por isso, um exemplo de economia de mercado, visto que os excedentes produtivos do Algarve, pelo seu valor e procura, eram transaccionados por mercadorias de primeira necessidade. Por outro lado, também se demonstra que a produção cerealífera no Algarve era, e foi sempre, deficitária.
Por conseguinte, as pescarias algarvias contribuíam para o crescimento das transacções comerciais e para o abastecimento do seu mercado interno, com especial acuidade nas épocas de crise agrícola.
Selo pendente do Rei D. Dinis
A intensidade do movimento comercial marítimo nos portos algarvios era de tal forma cobiçada pelo corso marroquino que tanto D. Dinis como D. Afonso IV proveram a vigilância destas águas com:
 «huma Esquadra de guarda-costa de três Galés e cinco navios grandes para protecção do Commercio maritimo, que era então grande, principalmente em pescarias, tanto das Provincias do Norte de Portugal, como do Algarve, das quaes se provia o Reino todo, e se exportavão grandes quantidades deste genero para os Paizes estrangeiros, dentro e fóra do Mediterrâneo».[6]
Entre as pescarias, que sustentavam o comércio internacional e os interesses dos empresários estrangeiros, integrava-se a da baleia, embora se notasse já uma sensível decadência no índice das capturas.
Como reflexo do desenvolvimento das pescarias, e sobretudo do comércio externo, era franco e notório, pelo menos desde o século XIV, que o porto de Tavira se distinguia claramente dos restantes:
 «admitia navios de alto bordo, o seu comércio era florescente e avantajado e só para ele havia mais de setenta navios de alto bordo, propriedade de seus habitantes, e que navegavam para diversos portos, além de um crescido número de embarcações costeiras e de pesca».[7]
Gravura de 1577 representando a pesca da baleia
Certamente, muitos desses navios de “alto bordo” caçavam a baleia de parceria com os de Lagos, que na época eram os principais centros da navegação do alto. Na verdade, «onde se fazia a maior baleação era na praia da Senhora da Luz, perto de Lagos, e Porto Novo, pouco distante de Tavira, a qual sustentava 70 barcos, além de muitas embarcações de alto bordo».[8]
Deveria ser intensa a procura deste cetáceo nas águas algarvias, especialmente na costa de Lagos, a cujos baleeiros se concederam certos privilégios em reconhecimento da importância económica dessas pescarias. Demonstra-o a carta de confirmação de D. Pedro I, datada de 29-3-1359, sobre os antigos privilégios dos “maiorais da baleação”, cujos pormenores não discrimina e, por isso, os desconhecemos. [9]
A pesca da baleia prolongou-se pelo reinado de D. Fernando e exercia-se tanto na costa do Algarve como nas do Alentejo e Estremadura.[10] Data dessa época uma carta Regia, de 20-11-1367, na qual aquele monarca ordena:
 «os almoxarifes de Lagos e Tavira dessem ao Bispo e Cabido da Sé de Silves, a cada um, uma carga de besta cavalar – dez arrobas – metade gorda e metade magra, por cada baleia ou cavalasso que morresse nas costas do Algarve por conhecença, como já seu pai e avô tinham feito».[11]
Gravura antiga de Cachalote, espécie muito comum
 nas águas dos Açores
O último testemunho comprovativo da permanência no Algarve da pesca da baleia, ainda que de forma esporádica, remonta ao reinado de D. João I, que, a 15-5-1386, deu ao seu anadel-mor dos besteiros, Estevão Vasques Filipe, as rendas e direitos da baleação de Lagos, acrescentadas das dízimas das mercadorias estrangeiras alfandegadas naquela vila.[12]
Deste breve apontamento se pode concluir que até ao final do reinado do Mestre de Avis os baleeiros lacobrigenses mantiveram-se ainda activos nas perseguições daquele cetáceo. As notícias que temos sobre este tipo de pescaria – exercida desde longa data no Algarve – não ultrapassam o século XIV, sendo de presumir que por essa altura as baleias se tenham afastado desta costa, pelo menos no número e intensidade de outrora, desactivando-se a partir daquela centúria a sua captura.


[1] Vide Alberto Iria, Descobrimentos Portugueses, 2 volumes, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1956, Vol. II, Tomo I, p. 209.
[2] Idem, Idem, vol. II, Tomo I, p. 210.
[3] Cf. Idem, «A Tradição Marítima no Algarve anterior às navegações do século xv e depois ao serviço do Infante D. Henrique», in Las Ciencias, Madrid, Ano XI, n.º 3, p. 599 e ss.
[4] Idem, O Algarve e os Descobrimentos, vol. II, tomo I, pp. 214-215; Vide João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, doc. 63, p. 64.
[5] Constantino Botelho de Lacerda Lobo, «Memoria sobre as Pescarias em Portugal», in Jornal de Coimbra, Lisboa, 1812, p. 82.
[6] Inácio da Costa Quintela, Annaes da Marinha Portugueza, tomo I, Lisboa, 1839, pp. 21-22.
[7] Damião Augusto de Brito Vasconcelos, Noticias Históricas de Tavira (1242-1840), Lisboa, Liv. Lusitana, 1937, p. 121.
[8] Idem, Idem, p. 139.
[9] ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, Liv. 1.º, fl. 35 v.º; apud João Martins da Silva Marques, op. cit., vol. I, doc. 92, p. 110.
[10] Cf. Constantino Botelho de Lacerda Lobo, op. cit., p. 82.
[11] Damião A. B. Vasconcelos, op. cit., p. 139; Vide Alberto Iria, op. cit., vol. II, tomo I, p. 218.
[12] ANTT, Chancelaria de D. João I, Livro 2.º, fl. 27 v.º; vide J. M. Silva Marques, op. cit., Suplemento ao vol. I, doc. 49, p. 68.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Em memória do meu colega e amigo António Rosa Mendes

Morreu o historiador António Rosa Mendes. Calou-se para sempre a voz da eloquência algarvia, o verbo da mediação cívica e da desinteressada ação política, que tudo fez para engrandecer a sua pátria natal. Foi um cidadão exemplar, humilde e desprovido de vaidades, que soube granjear o respeito dos seus conterrâneos e admiração pelos seus colegas e alunos. Acima de tudo foi um homem íntegro, desprendido de interesses, com um forte caráter e de princípios éticos que serviram de exemplo a todos os que o conheceram ou com ele conviveram. Como humanista e homem de cultura, deixou uma vincada imagem de erudição, atestada na vasta obra legada em livro, mas também nas conferências que pronunciou e nos congressos e colóquios, nacionais e internacionais, em que participou. Deixou-nos na memória a recordação do académico competente e do historiador proficiente, do jurista impoluto e do editor mecenas. Mas também guardamos dele o acrisolado amor regionalista e a convicção algarviísta que a todos compete imitar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Evocação da saudosa memória da poetisa Quina Faleiro

     No passado dia 25 de Maio tive o grato prazer de assistir à inauguração da Praceta Joaquina Faleiro, uma brilhante poetisa de quem tive o grato prazer de ser amigo. A cerimónia teve muita dignidade e alguma emoção, transmitida pelos familiares e amigos que nela estiveram presentes. Embora sem a pompa e circunstância de outros eventos, o certo é que a presença do presidente da edilidade  engº Macário Correia, bem como de toda a vereação e de alguns deputados municipais, conferiu àquela singela cerimónia um comovente momento de reflexão e de evocação poética. O Presidente Macário Correio teve a gentileza de proferir um breve discurso, com palavras de muito apreço e de sentida admiração, após o que, em parceria com a nora da homenageada, descerrou a placa toponímica.
     Como a Quina Faleiro (era assim que fraternalmente a tratávamos, e foi esse o seu nome literário que adoptou) possuía um enorme talento para a poesia, lembraram-se os seus companheiros da Tertúlia Hélice de evocar a sua memória através da leitura de alguns dos seus sonetos, extraídos do livro que publicou em vida, «Choram Meus Dedos», mas também da obra editada postumamente pela AJEA Edições com o titulo «Viagem dos Sentidos». Foi uma breve e efusiva homenagem cultural, à qual o presidente e a comitiva autárquica emprestou o carácter oficial da sua presença. A comitiva partiu para outros eventos que nesse dia tiveram igualmente lugar, incluídos num vasto programa de inaugurações com o qual a vereação de Macário Correia pretende demonstrar a eficácia da sua administração.
    Acima de tudo foi um belo momento de convívio cultural, debaixo de um radioso sol primaveril, durante o qual nos lembramos com imensa saudade da Quina, mas também de outros amigos, poetas, escritores e artistas, que faziam parte da AJEA e entretanto nos deixaram, mas dos quais nunca nos esqueceremos.
    Para evocar a saudosa memória da poetisa Quina Faleiro aqui deixo, para reflexão pública, o texto que escrevi para a sessão de homenagem póstuma que a AJEA lhe prestou, a 11-3-2006, no auditório da Biblioteca Municipal de Faro, onde estiveram presentes numerosos amigos, poetas e admiradores, para além de representantes da autarquia e do Governo Civil.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música - um episódio quase anedótico das suas relações políticas

A figura tutelar e fundacional do «Estado Novo» foi incontestavelmente Oliveira Salazar, reputado professor da Universidade de Coimbra e consagrado estadista, que dirigiu os destinos de Portugal durante quase meio século. O sistema político assentava numa ditadura, herdada dos militares, que Salazar moldou à imagem do fascismo italiano, mas numa versão mais suave, de forte pendor clerical, anti-partidária e antidemocrática. O facto de ter evitado a entrada de Portugal na II Guerra Mundial e de ter mantido sempre intacto o vasto império colonial, granjeou-lhe um forte prestígio político, não só no seio da nação como ainda na consideração das maiores potencias mundiais, que durante o período da «Guerra Fria» preferiram manter o ditador sob protetora vigilância, com receio duma escalada bolchevista na Europa mediterrânica. A imagem de político honesto e íntegro, austero e incorruptível, aureolou Salazar com o epíteto de salvador da pátria, cuja dedicação governativa era apreciada como um sacrifício em prol da defesa e integridade da nação portuguesa. 
Mas a figura emblemática do regime corporativo assente na ideia de um «Estado Novo», ordeiro, disciplinado e empreendedor, recaiu no Engº Duarte Pacheco, que, como Ministro das Obras Públicas ou como presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi o autor e impulsionador de uma política de desenvolvimento dos sectores económicos com base na criação de infraestruturas, na qualificação dos recursos humanos e na potencialização das riquezas naturais de que o país dispunha. Basta dizer que foi o primeiro a perceber que um dos vectores para a modernização do país era precisamente a implementação do turismo internacional, desenvolvendo para isso uma vasta rede hoteleira espalhada pela orla costeira, tendo inclusivamente operado  uma campanha de restauro e adaptação de castelos, fortalezas, conventos, mosteiros e outros edifícios históricos, convertendo-os em estalagens turísticas.
O artigo que aqui se coloca ao dispor do público refere-se a um episódio das relações político-governativas entre Salazar e Duarte Pacheco, que foi sempre muito amistosa e produtiva, tendo por objectivo a modernização do país, o progresso material da nação e a valorização da imagem de Portugal além-fronteiras. Da relação de trabalho entre os dois estadistas resultou um período de modernização e progresso do país, que causou um certo espanto no estrangeiro.
Mas a imagem que transparecia para o país era a de que Salazar não só protegia e admirava o  Engº Duarte Pacheco, seu dinâmico e empreendedor ministro das Obras Públicas, como ainda lhe fazia todas as vontades, custeando integralmente certas obras que de fomento tinham pouco e de benefício para o país eram de duvidosa eficiência, como aconteceu por exemplo com o Estádio Nacional.
Neste artigo recordamos um caso que contraria essa imagem protectora de Salazar e que deixou Duarte Pacheco muito decepcionado pela lição que teve de aprender com o chefe de estado. É que o dinheiro dos contribuintes representa o sacrifício e o suor de quem trabalha, não é para os políticos satisfazerem interesses velados com gastos  avultadíssimos em obras sumptuosos, de duvidosa urgência e necessidade. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

No I Centenário de Emiliano da Costa - converter em casa-museu a residência do poeta

Em 17 de Abril de 1984 publiquei no vespertino «Dário de Notícias» um artigo sobre o poeta Emiliano da Costa cujo primeiro centenário do seu nascimento se comemorava nesse ano, sem a pompa nem a circunstância que a memória daquele notável vate justamente merecia. Para lhe enaltecer o talento e lembrar a importância da sua obra literária, aproveitei o ensejo para visitar a antiga residência do poeta, em Estoi, e sugerir a sua conversão em Casa-Museu, à semelhança do que já ocorrera com Ferreira de Castro e José Régio. A ideia, embora não fosse difícil de concretizar, não teve, porém, a repercussão expectável junto das autoridades locais e regionais. Passados praticamente trinta anos a ideia mantém-se atual, mas infelizmente por concretizar. Os herdeiros da residência, já não serão provavelmente os mesmos que conheci. E temo que o valioso espólio, que então pude observar, já não se conserve na sua integridade.
Para que o meu alvitre, e a minha sugestão de fomento cultural, não permaneça no olvido, decidi recuperar esse artigo e deixá-lo aqui transcrito na sua versão original.


domingo, 14 de abril de 2013

Biblioteca Municipal de Faro - Uma riqueza à espera do futuro

 [Fiz a minha estreia jornalística, como redator regional, no vespertino lisboeta «Diário de Notícias, no dia 20 de Junho de 1981, com um artigo sobre a Biblioteca Municipal de Faro, cujas instalações, nessa altura, acabavam de ser melhoradas mercê da sua transferência do edifício da Câmara Municipal para o quinhentista Convento de Nª Sª da Assunção, vulgo colégio das freiras, e atual Museu Arqueológico e Lapidar do Infante D. Henrique. A biblioteca era pouco frequentada, mas o seu acervo bibliográfico era significativo e valioso. O objetivo deste artigo prendia-se com a urgência de melhorar as circunstâncias de trabalho, as instalações e a divulgação das reais potencialidades daquela instituição para o apoio à investigação e ao ensino universitário, que havia sido oficialmente criado em 1979, mercê da fundação da Universidade do Algarve. Para que não ficasse definitivamente esquecido nas colunas desse grande vespertino (entao como hoje, o mais antigo e mais importante órgão de imprensa do nosso país), decidi recuperar o artigo e transcrevê-lo aqui, na sua integridade original, atualizando-lhe apenas a ortografia. Como era relativamente extenso, a direção do «DN» decidiu publicá-lo em duas partes: a primeira a 20 e a segunda a 30 de Junho de 1981.]

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Alma da poesia no Corpo do amor

José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é a ciência mais antiga do Homem. Dito assim, de chofre, parece uma blasfémia. Afirmo-o, porém, na plena consciência de não estar a incorrer na estulta insensatez de confundir a objectividade da ciência com o idealismo egocêntrico e fantasista da verve poética. A ciência é fria e impessoal, enquanto a poesia é calorosamente intimista. Parece que estamos a falar dos antípodas da razão, ou dos oponentes da existência humana. Mas, na verdade, a poesia é a expressão mais artística e mais sublime da vida, tendo servido desde tempos imemoriais para aplacar os deuses, homenagear os heróis, seduzir os vivos e invocar os mortos. Tudo na vida se pode envolver no halo sagrado da poesia.
Os primeiros conhecimentos foram transmitidos de geração em geração pela arte, pela música e pelo legendário oral, através do qual se fortaleciam os laços de pertença e de integração social. As tribos e os clãs mais ancestrais, identificavam-se não só pela sua peculiar iconografia, como sobretudo pela reverência dos seus heróis, cujo preito se fazia através de cânticos, loas, odes e outras expressões poéticas. Significa isto, que nos primórdios da civilização o saber/ciência era fruto do tempo e da experiência, ou seja, do empirismo vivencial, cuja transmissão se operava através de sentenciosos adágios ou provérbios, pejados de sonoridades rimáticas que facilitavam a sua memorização.
Digamos que a poesia nas sociedades menos evoluídas se tornou numa espécie de correia de transmissão da ciência, exemplo que ainda há pouco anos se verificava nas aldeias mais recônditas do nordeste beirão e transmontano. Se repararmos na nossa literatura oral, constatamos que o misticismo e a crendice popular estão impregnadas de poesia, evidenciada nas orações e benzeduras, nas adivinhas, nos maus-olhados, nas pragas e maldições, nos aforismos e adágios, nos autos e entremezes teatrais, nos relatos sobre o passado histórico e lendário dos antepassados... Enfim, nesse imenso património bio-socio-antropológico, a poesia funciona como uma espécie de oráculo da cultura popular.
No seio da cultura portuguesa, atribui-se ao Infante D. Pedro, a quem chamaram o príncipe das sete-partidas, filho de D. João I e membro da “Ínclita Geração”, a honra de ter introduzido na língua portuguesa o vocábulo POESIA, cujo género literário dizia ele ser “Coisa mais do sabor do que do saber”. Esta afirmação, aparentemente, vem contradizer a relação primordial entre a ciência e poesia. Mas, na verdade, o que acontece é que o tempo mudou, isto é, alteraram-se as mentalidades, transformando-se a organização social e económica do mundo. Modificaram-se as noções de ciência e de cultura, o conhecimento procurou independentizar-se da filosofia e assistiu-se ao nascimento das diversas ciências. E a Poesia, que durante muito tempo havia servido de muleta à ciência, tornou-se a partir de então numa Arte intelectual – é certo que numa expressão elevada do pensamento e num pitonísico oráculo do idealismo filosófico, mas definitivamente numa arte ou simplesmente numa forma de criação artística.
Estava-se em plena Renascença, fervilhavam novas ideias nos cenáculos do Humanismo, e a sombra do velho mundo passava a medir-se com a vara do estro humano. Era o tempo do homo mensura. A poesia tomava novos rumos em diferentes cambiantes. Tornara-se mais imaginativa e artística, formulando novos modelos para a arquitectura das palavras. O sentido desalinhou-se do conteúdo, isto é o significado e o significante estabeleceram um imbricado relacionamento, formando enigmáticos dédalos de locuções, aos quais a riqueza fonética das palavras emprestou uma inovadora sonoridades musical. A partir de então a poesia tornou-se na arte da palavra por excelência. Ora, acontece que as línguas latinas possuíam, na radícula do classicismo, a especial singularidade de darem à entoação das palavras uma musicalidade natural. Talvez por isso é que Rodrigues Lobo no seu livro a Corte na Aldeia, dissesse que "a língua portuguesa é branda para deleitar, grave para engrandecer e doce para pronunciar" .
Por sua vez, Sá de Miranda (o célebre introdutor do soneto em Portugal) desejando ilustrar o espiritualismo e o desprezo dos poetas pelo materialismo, dizia que "os poetas tudo punham em flores e dos frutos nada havia que esperar". Esta asserção marcaria para sempre a concepção geral do valor da poesia, e, por consequência, a desvalorização social do poeta. Vulgarizou-se a errónea imagem do Poeta sonhador, lunático, excêntrico, extravagante e caprichoso, resultante do seu aparente desapego à realidade, do seu psiquismo frenético e fantasista, do seu epicurismo sensualista e, sobretudo, do seu hedonismo existencial.
Certamente por causa dessa falsa imagem do Poeta, é que, mais tarde, quando o materialismo burguês se apoderou do nosso país – um pouco à semelhança do que estamos a viver hoje –  Camilo Castelo Branco, que chegou a ter pretensões poéticas, afirmava enfurecido: «Gela-se-me o sangue, quando a ignorância petulante faz um trejeito de menosprezo ao talento e diz: poeta!».
Ora a Poesia é, em primeiro lugar, um acto de comunicação com o Eu e com o Outro. E actualmente a Poesia também é um lugar de resistência à globalização, cada vez mais redutora e homogeneizante, fulcralizada num modelo imperialista de cultura inspiradamente anglo-americano, no qual só o mediático é universal.
No fundo, a Poesia é simplesmente a arte de fazer versos, transmitindo neles o sentimento, o temperamento e o carácter do poeta, numa simbiose da intimidade com a estética, sem nunca perder de vista os excelsos valores da Ética. Mas, por outro lado, a Poesia é a expressão natural da paixão como suprema manifestação do amor, num entrelaçar de imagens e de metáforas que transluzem o sofrimento e a dor dos amantes. Porém, como dizia Fernando Pessoa, "o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente". Por isso é que a poesia obedece a uma fórmula de composição estética e musical.
Classicamente a Poesia obedece a uma fórmula de composição estética e musical. O seu objecto é a beleza de expressão associada à ideia, usando a palavra com parcimónia, mas procurando elevar os conceitos até ao nível da plurivalência entre o significado e o significante. A poesia deve, pois, expressar uma certa harmonia entre a inspiração lírica e a mensagem literária, dando-lhe um carácter comovente, sem extinguir certezas absolutas.
A Poesia é a inspiração natural e transcendente, mas também é um labor sequencial com a palavra num aprimoramento de ideias e de pensamentos, concebidos nos céus etéreos da lógica, que ultrapassam a materialidade e a impermanência da vida. Por outro lado a poesia é a própria Vida, pejada de memórias recorrentes e de magnetismos telúricos, impregnando-se, por vezes, de obscuros e insondáveis mistérios.
Acima de tudo, a Poesia é dialógica. Com a palavra inventamos mundos usando conceitos profundos e belas metáforas, mas é com palavras simples e familiares que se faz a melhor poesia. Talvez por isso é que o poeta José Craveirinha concebia a criação lírica como uma "fraternidade das palavras", afirmando que "as palavras só precisam de quem as toque ao mesmo ritmo para serem todas irmãs".
Mas a memória das palavras não depende da memória, mas antes das palavras. Existe um Sul mítico no esplendor do Sol, nas areias movediças da memória e na espuma das palavras, como a presença viva dos nossos ascendentes que pairam sobre a nossa memória. Os lugares de recorrência acontecem frequentemente na poesia, quando lembramos as raízes e o tempo que passa, como memória da água.
Existe um tempo de maturação poética, durante o qual o poema precisa de adormecer na sua forma crisálida até despertar como eflúvio de vida e de beleza. Em jeito de crítica, construtiva, diria que existem dois tipos de poetas: os de inspiração vulcânica, a que chamo repentistas, e os versificadores aplicados, a que chamo poetas da inteligência. Os primeiros são os apóstolos do povo, cantam aquilo que vêem com a simplicidade do seu limitado horizonte intelectual. Os segundos versejam com eloquência, constroem imagens e metáforas de fino recorte estilístico, evidenciando uma forte presença intelectual, entretecida na sensibilidade estética e na elevação do pensamento filosófico. Há certos poetas que escrevem de chofre, na primeira penada, sem tão pouco verificarem se nos seus poemas existe sentido, Beleza ou Graça.
O poeta é, em suma, um mago cinzelador da palavra transformada em verso, um alquimista da Beleza. Por isso é que Fernando Pessoa definiu o poeta nesta simples e genial síntese: «Deve haver no mais pequeno poema, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero».
Pegando na afirmação de Fernando Pessoa, sente-se que pelo Corpo e Alma deste livro, passou o espírito homérico da palavra peregrina, do amor platónico e da paixão física de Ulisses. Na profundidade estética da eloquência e na arrumação estésica do seu próprio sentido lírico, percebe-se que Saúl Neves de Jesus foi tocado pelo halo sagrado das musas, deixando-se enlevar no inebriante cântico das sereias.
Na sequência do meu raciocínio inicial, direi que esta obra não é de ciência, porque a tão elevado patamar já não se ergue a poesia. Porém, ela nasceu do amor, da paixão, do sentimentalismo e do mais puro espiritualismo de um cientista, que considero, sem favor, como um incansável, denodado e proficiente investigador, cuja obra académica tem depositado sobre o venerável e frio altar da ciência, com o aplauso inter pares e os mais rasgados elogios da crítica especializada. Este livro vem corroborar a velha frase de António Ferreira, o celebrizado autor da Castro, quando afirmou que “as musas nunca fizeram mal aos doutores”. E de facto assim se comprova pela leitura dos poemas que compõem o livro, De Corpo e Alma, embora também nele se perceba que não foram as musas que o inspiraram, mas certamente uma única e maravilhosa musa, que ajudou o poeta a descobrir a essência do amor.
Toda a obra está impregnada pela ascese dos sentidos, transmitida, de forma muito velada, através do calor sensorial das palavras, suspeitosamente evidenciada na apreensão sensual dos corpos, na percepção táctil das carícias dos amantes ou nos odores da carne libertados pelo frenesim do amor. No poema «Os cinco sentidos da paixão» tudo fica mais claramente definido. O amor vive-se e sente-se na plenitude dos sentidos. É dessa osmose sensitiva que o amor desperta em paixão. “O verdadeiro amor não pode ser definido, apenas sentido...”
Os poemas de Saúl Neves de Jesus são verdadeiras odes ao amor, cânticos oníricos carregados de paixão, num inebriante sensacionismo, que a ninguém pode deixar indiferente. O amor assume-se nos seus versos como um momento de magia, e o êxtase do amor pressente-se na simplicidade das palavras: “Um momento só nosso.../um momento eterno de magia”, “Vale a pena viver.../pela magia.../pelo teu olhar” Sente-se que o poeta vive “Um sonho acordado, / um espaço sem tempo, / num envolvimento infinito...” Por vezes sentimo-nos a seu lado, desejosos de “Acreditar no amor para todo o sempre / num destino traçado por Deus / como uma linha sem curvas...”.
Não restam dúvidas de que a leitura destes apaixonados poemas atingem o mais insensível leitor no profundo âmago dos sentidos, deixando-lhe na alma a contagiante nostalgia do amor, ateando-lhe a lembrança de amores inconseguidos ou de paixões inconsequentes. A magia poética ilumina a memória num contagiante fascínio pela dialéctica psicossomática do Eu em simbiose com o Nós, perpassando nessa relação intimista um certo dualismo ascético, por vezes místico, muito peculiar nos analistas da mente que vêem no amor o exclusivo refrigério da vida. “Quero continuar a sonhar / não me acordes / e sonha também...”
O livro aí está, pronto a ser partilhado, sobretudo por aqueles que ainda se sentem vivos para sonhar com o amor e experimentarem o calor de uma verdadeira paixão. O mistério da vida consubstancia-se precisamente na descoberta da essência do amor.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Natal algarvio perdeu tradições


Dificilmente se encontram hoje no Algarve os resquícios da antiga festa natalícia genuinamente regional. Até mesmo nos lugares mais recônditos da serra algarvia se esbateram as tradições de antanho, apesar de em toda a região não ser estranha a alegria que a verdadeira festa do lar traduz no espírito da família. O que hoje se celebra, em todo o país, é um Natal estereotipado, um decalque euro-americano da festa da família, que oscila entre o presépio católico e o pinheirinho protestante, entre o bacalhau dos pobres e o peru dos ricos.

Imagem esteriotipada da Ceia de Natal em casa abastada
Em boa verdade, Natal minhoto, Natal transmontano, Natal beirão ou Natal algarvio, todos têm um denominador comum: a celebração de uma festa religiosa com características muito íntimas e peculiares, durante a qual se reúne a família numa verdadeira apoteose dos seus naturais continuadores – as crianças. O Natal é, por excelência, a Festa da Família, representada na criança, tida como natural prolongamento da estirpe e da linhagem, uma espécie de personificação da Esperança e do Futuro.
Pinheiro de Natal (Forum Algarve)
Os presentes, que no início da nossa Era serviram para homenagear o Deus-Menino, são hoje metaforicamente os mesmos (salvo as devidas distâncias e óbvias proporções do avanço civilizacional/tecnológico), pois que em si traduzem a felicidade do lar, a paz e a amizade entre os homens. Os presentes simbolizam, em suma, um gesto de homenagem àqueles que mais amamos. Por isso, Natal sem consoada, presépio e prendas, não é Natal. E estas são, sem sombra para dúvidas, as características mais gerais da festa natalícia, que progressivamente se tornou pertença do património universal de todas as raças, culturas e civilizações, até mesmo das que coexistem alheias ao cristianismo.
Verifica-se, porém, que as ascendências culturais, resultantes duma certa heterogeneidade geomorfológica de insondável ancestralidade, influíram as celebrações religiosas com manifestações populares, que, de algum modo, as diferenciavam, criando-lhes uma individualidade algo estranha e curiosa. Com o seu estudo se preocuparam, há décadas atrás, reputados etnólogos e antropólogos, que publicaram importantes obras, que são hoje referências incontornáveis. Não previam, todavia, que se pudesse operar com o tempo um evolutivo esvaziamento das tradições, para o qual parece estar a contribuir um hodierno progresso tecnológico, emanado de uma sociedade consumista, e de um mercantilismo alienante, que tende a estandardizar as próprias raízes culturais dos povos cristãos. O conservadorismo etnográfico, a reserva do tradicional, assume-se hoje aos olhos cosmopolitas como sintoma de atraso civilizacional. A mundialização do pinheiro escandinavo e do Pai Natal normando superaram, por observância da normalização comercial, os padrões culturais e as manifestações populares do Natal latino, esse sim, genuinamente cristão e profundamente visigótico. De tal forma assim é que o Natal secularizou-se para dar lugar a uma festa social, altamente vulgarizada, profundamente dependente duma indústria de mercado, que a força persuasora da publicidade e dos meios audiovisuais de comunicação tem vindo a banalizar.
Mesmo assim, apesar de todas as atrocidades etnográficas a que impavidamente temos vindo a assistir, o Natal é, e será sempre, a festa do lar e da família, a apoteose da criança, e um hino de paz que apela à fraternidade humana. 

Lareira tradicional da serra algarvia
À procura do Natal algarvio

Tal como antes afirmamos, não existe hoje propriamente um Natal algarvio, contudo tempos houve em que as manifestações natalícias se transformavam em verdadeiras festas da comunidade, variando de região para região, às vezes mesmo de concelho para concelho. Nos “montes”, nos lugares da serra e nas pequenas freguesias rurais, era evidente o sentimento de solidariedade e de confraternização entre os seus membros, ao qual o espírito religioso emprestava uma forte consistência. Era, curiosamente, uma festa deambulatória, se assim se lhe pode chamar, usando o lar e a igreja como balizas duma intercomunicabilidade fraternal em que as velhas desavenças e incompatibilidades se desfaziam num amplexo que o respetivo pároco se esforçava por estreitar. Nas terras do interior serrenho, emolduradas num luminoso cenário de azul-cobalto, faltava-lhes a neve ou o frio enregelante capaz de reter as suas gentes no aconchego da cálida lareira.
Era por isso que as famílias se visitavam, os mais jovens percorriam as ruas a visitar os lares mais queridos e também os mais abastados, comendo, aqui e ali, deliciosos pastéis de mel e provando espirituosos vinhos. A bondosa inocência do serrenho algarvio impregnava o Natal de um calor humano verdadeiramente inigualável.
Na esperança de encontrarmos a chama ardente desse passado, e das genuínas manifestações culturais natalícias, deslocámo-nos até ao vasto e recôndito concelho de São Brás de Alportel, que se espraia, algo perdido e quase esquecido, pela serra algarvia, cujos lugarejos percorremos ao sabor e à aventura de seculares caminhos. Conversámos com vários anciãos de provecta idade, em diferentes “montes” e em esconsos sítios, mas também falámos com pessoas instruídas e até com alguns jovens, que nesta quadra retornam às suas origens familiares para passarem as suas férias natalícias. No cômputo desse ligeiro inquérito, verificamos que as tradições antigas já se perderam, e que na sua maioria são já irrecuperáveis; que a juventude pouco se interessa com o passado e que despreza as tradições etnográficas; que a televisão, pela sua massificação telenovelesca, faz reter as pessoas em casa e retira o convívio social, perdendo-se também o diálogo familiar em torno da lareira, durante o qual se transmitiam aos jovens as estórias do romanceiro popular; que a carestia de vida exterminou quase por completo as visitas aos lares para estreitar relações, trocar conhecimentos agrícolas e acertar preços para a venda dos seus produtos… Mais consensual entre as diferentes gerações é a ideia de o Natal ser a época em que se recebem presentes, sendo, enfim, a consoada uma noite especialmente feliz, mas muito menos alegre do que a noite da Passagem de Ano.
Todavia, algo permanece ainda desse passado, para uns tão longínquo, para outros tão saudosamente presente, sobretudo na memória dos mais idosos. Mantém-se nos moldes de antanho a Ceia de Natal, assim como a gastronomia tradicional, a reunião da família, o presépio e os grupos de cantadores populares, a que chamam «charolas» e «charoleiros», que animam as noites frias das janeiras e das reisadas.

Madeiro de Natal ardendo no átrio da igreja
A tradição do “madeiro” de Natal
 
O dia de Natal continua a ser, de forma insofismável, o dia da Família, cujos diversos membros se reúnem na casa dos pais, na do filho mais velho ou na do irmão mais “remediado”. Curiosamente, há certos sítios da serra onde ainda ouvimos falar dos Morgados, termo que serve para designar os indivíduos mais ricos, em cujos lares se fazem lautas ceias de vários pratos, imensa doçaria e animada festa, para a qual costumam também convidar o pároco.
Durante a noite da consoada a animação nos lares serrenhos faz-se de diversas formas, conforme os hábitos e instrução dos membros da família; uns jogam às cartas, outros contam histórias antigas, revivem a memória dos antepassados, cantam velhas modinhas, até chegar o momento crucial da distribuição prendas. Nessa altura começa-se pelos mais velhos, dão-se beijos, abraços e sonoras risadas, os avós e os pais tornam-se o centro das atenções. Seguem-se depois os filhos e os netos, que em certos lares perfazem numeroso grupo.
madeiro de Natal
Costuma também ver-se nas aldeias da serra algarvia muitas viaturas de emigrantes, que apressadamente regressam aos seus lares de origem, para confraternizarem e reunirem-se com a família. A necessidade de afirmação do seu sucesso económico leva-os, por vezes, a realizarem ruidosas festas a que não faltam os acostumados foguetes.
Nos lares mais tradicionais, com antigas lareiras, queimam-se grossos “madeiros” que se colocam “atrás do fogo”. Esclareça-se que o “madeiro” é um grosso barrote de azinho, e que “atrás do fogo” significa colocar esse toro de lenha atrás da grelha do fogo vivo, encostado ao espelho da lareira, fazendo-o assim arder muito lentamente e apenas com o calor irradiado pelo lume. Deste modo transforma-se num enorme braseiro de fogo lento, que se mantém incandescente durante o dia, mantendo a casa quente. À noite reacende-se a lareira, mas sempre evitando que o “madeiro” entre em contacto com o fogo. Reza a tradição local que os rapazes solteiros – para no ano que se avizinha serem bafejados pela sorte – têm que durante a noite visitar nove “madeiros”, comendo filhós e bebendo vinho novo. Mas hoje já poucas casas se podem dar ao luxo de receber tanta gente e de ter uma lareira permanentemente acesa durante todos esses dias. Por outro lado, existem hoje modernos caloríferos para combater o frio, e poucas são as novas habitações que possuem fogão de sala.
De qualquer modo, dizem os mais velhos que, quando o “madeiro” não chega a consumir-se inteiramente até ao Dia de Reis, deve-se partir o que resta em pequenos pedaços que nos dias de tempestade se voltam a acender para atrair a protecção divina, evitando-se assim que algum raio fulmine o lar. Além disso, os antigos também diziam que o Natal era a festa da lareira ou do fogo sagrado, pelo que quanto maior fosse o “madeiro” e quanto mais tempo durasse a sua lenta incineração, maior e mais saudável seria a seara, ou seja, mais profícua e frutuosa poderia vir a ser a próxima safra agrícola. Curiosa é, porém, a vetusta crença dos serrenhos algarvios de que dá mau agoiro não comer bolotas nem castanhas nas vésperas de Natal. 
Trono do Menino Jesus, tradicional presépio algarvi
A entronização do Menino Jesus
 
O presépio é uma tradição inalterável – ultimamente misturado com o pinheirinho pagão, introduzido nos lares serrenhos pelas novas gerações. Toda a gente monta o seu presépio, com mais ou menos figuras e adereços naturais, conforme as possibilidades de cada lar. Nas novas habitações e bairros sociais vê-se uma crescente subalternização do presépio, por figurar debaixo do incaracterístico e pouco católico “pinheirinho”, às vezes feito em plástico, enfeitado com luminosos e musicais conjuntos elétricos.
Nos lares mais antigos, porém, “entroniza-se o Menino” numa espécie de altar, em forma de peanha com três a cinco andares, que as moças solteiras constroem sobre uma mesa (ou no próprio chão da sala), sobrepondo várias gavetas invertidas e de tamanhos sucessivamente menores, cobertas de níveas toalhas de linho, enfeitadas com pequenas luminárias de azeite (hoje substituídas por lamparinas de cera), frutos secos e frescos de diferentes cores e feitios, bonecos alegóricos à quadra natalícia e as tradicionais “searas”. Convém esclarecer que estas “searas”, com um significado simbólico de ancestral origem, obtêm-se colocando em pequenos recipientes uma porção de cereais, geralmente trigo, cevada, lentilhas, grãos ou centeio, mergulhados em água, que passados alguns dias germinam e crescem com colorações de um verde vivo que vai amarelando suavemente, semelhante aos das verdadeiras cearas de trigo. No último degrau desta curiosíssima pirâmide impõe-se a figura do Menino Jesus, emoldurado pela luz radiante das lamparinas e de todo aquele conjunto de frutos e searas, numa mescla entronização do Divino com o Natural. É em volta do trono do Menino Jesus que os mais jovens entoam alguns cânticos bastante peculiares:

Sagrada Família, arte popular
O meu menino Jesus
Está lá alto na tribuna;
Está pedindo à sua mãe
Que nos dê muita fortuna.

 Eu vim ver este presépio,
Qual será o meu destino,
Por ser noite de ano bom,
Venho cantar ao Menino.

 Hei-de dar ao Menino
Quatro, cinco, nove, seis,
E uma camisinha fina
P’ra vestir Dia de Reis. 

Hei-de dar ao Menino
Um galão pra cintura;
Que ele também me há-de dar
Um lugar na sepultura.

A Ceia de Natal

tradicional polvo de natal à algarvia
Junto ao presépio costuma montar-se a mesa para a ceia de Natal, a que também chamam na cidade a noite da Consoada, que ocorre na transição de 24 para 25 de Dezembro. Janta-se tarde, porque o dia ocupou-se com a decoração da mesa e a preparação das iguarias natalícias, especialmente os doces, que são o deleite das crianças. É a chamada noite feliz, a apoteose da família, a glorificação do Menino Jesus.
Na mesa de Natal dispõem-se pratinhos de enchidos cortados às rodelas, de fatias de presunto e de carnes frias; mais atrás ficam as canastrinhas de pinhões, de amêndoas, de figos torrados, de avelãs, de nozes e de estrelas de figo; mais perto dos limites da mesa desfilam então os bolos de mel, as filhós, os sonhos ou brinhóis, as fatias douradas, as empanadilhas de batata-doce, os queijinhos de figo e os de amêndoa, os dons-rodrigos, e, ao centro, os vinhos espirituosos e a saborosa medronheira algarvia. Os vinhos da adega da casa, ou comprados ao lavrador a garrafão, serão depois servidos em jarro de vidro incolor para acompanhar a ceia.
Ao contrário do bacalhau nortenho, do peru da cidade, do polvo do litoral ou das ameijoas com carne de porco do interior, aqui na serra algarvia come-se um anafado galo, escolhido alguns meses atrás para ser “tratado”, leia-se engordado. Desde logo fica marcado como o “Galo do Natal”, merecendo por isso cuidados especiais. Todavia, nas casas mais ricas e opulentas, cujas famílias são mais numerosas, costuma-se matar um porco, cuja carne é cuidadosamente repartida, salgada ou defumada, para que dure até à Quaresma.
Durante a noite, ou depois da consoada, alguns grupos de rapazes reúnem-se no adro da igreja para percorrerem a aldeia a cantar de casa em casa, até à hora da Missa do Galo. Entretanto, os chefes das famílias mais abastadas da freguesia dirigem-se para a Igreja onde apresentam os votos de Natal ao pároco, oferecendo donativos em dinheiro ou em géneros para a caridade e valimento dos pobres. À meia-noite celebra-se a Missa do Galo, cujo templo foi previamente decorado pelas senhoras mais piedosas e mais conceituadas da aldeia, com flores e outros adornos naturais, que conferem odoríferas colorações em torno do presépio popular, sobre o qual, aliás, se concentram todas as atenções. No fim da Missa, o pároco dá o Menino- Jesus a beijar aos fiéis, regressando depois todos a casa, com os mais novos a cantarolar algumas quadras alusivas à época. Por vezes, os moços solteiros reúnem-se no largo da aldeia em volta de uma crepitosa fogueira, com um enorme madeiro de azinho em brasa, irradiante de calor, em volta do qual cantam e dançam improvisados corridinhos. É claro que o calor da fogueira não faz dispensar o ardor da medronheira nem a energia das azevias de batata-doce, que os casais mais velhos trazem para oferecer aos jovens, de todas as idades.
No dia seguinte, come-se o que sobrou da noite da consoada, voltando-se a reunir a família, porém a alegria é bastante menor. Nas localidades da faixa litoral algarvia, especialmente nos bairros de pescadores, come-se pelo Natal o célebre “litão” ou peixe de cor, que é muito concretamente um cação ou uma moreia previamente corado, seco, à soleira da porta. Este costume ainda hoje se mantém em muitos lares e restaurantes de Olhão e de Portimão.
Na Passagem de Ano a festa é semelhante à do Natal, embora muito mais alegre, marcada por frequentes libações e bailaricos, que os mais jovens organizam nas sociedades recreativas ou nos clubes populares. As janeiras ou charolas são a manifestação mais castiça desta época, e também a mais característica do povo algarvio. No Dia de Reis era costume fazer-se o bolo-rei, cuja elaboração difere muito daquele a que já nos habituamos a consumir durante toda a quadra natalícia. As tradicionais janeiras ou reisadas cantavam-se pela última vez, encerrando-se deste modo o mais belo período festivo do ano.
Presentemente, nas cidades do litoral algarvio já não existem quaisquer manifestações populares que identifiquem aquilo a que poderíamos chamar um «Natal diferente». As tradições esbateram-se de forma irrecuperável ou perderam o sentido peculiar do Natal.
Hoje, o Natal é de cada um, nunca de todos e muito menos do Algarve.