José Carlos Vilhena Mesquita
Ninguém sabe, ao certo, quando e onde se manifestou, publicamente e pela
primeira vez, no Algarve a popular Arte de Talma. Suspeitamos que as artes
cénicas, herdadas da colonização islâmica nunca se extinguiram no
Algarve-Andaluz. E pelo menos desde o séc. XV subsistem inequívocas referências
a certas representações jubilosas de carácter teatral, em honra de visitações
régias ou de comitivas militares, que tinham por destino a conquista e
manutenção das praças do Norte de África.

Convém explicar, que um
Entremez é uma pequena composição dramática, de carácter jocoso e burlesco, mas
de recorte moral, cujos actores encarnam figuras locais em flagrantes da vida
real, que o público assistente conhece da sua vivência quotidiana. Em boa
verdade é aquilo que antigamente se designava por farsa, cujas origens
entroncam no teatro vicentino. O único senão é que o Entremez tem um alcance
localista, desprovido de expressão nacional, sendo por isso considerado em
teatro como uma peça menor. Representava-se nas grandes salas nacionais para entretenimento
do público, antes das grandes peças ou no intervalo das mesmas.
Por outro lado, extrai-se
deste ofício um pormenor muito importante, que é o da existência em 1827 de uma
sala de espectáculos em Faro, com artistas locais, denominada «Sociedade do
Teatro Harmonia». Por conseguinte existia na cidade, talvez desde o princípio
da centúria, um equipamento vocacionado para a cultura, certamente para acolher
representações cénicas e musicais. Em reforço dessa hipótese, impõe-se lembrar
que em 1808, quando o Algarve se libertou do jugo napoleónico, publicou-se no
ano seguinte uma peça de teatro intitulada «Restauração dos Algarves, ou Heroes de Faro e
Olhão, Drama Historico em Tres Actos», da autoria de Luís de Sequeira Oliva, que foi certamente levada à cena
em Faro.
Curioso é também o facto do sargento-mor, Freire Pantoja, acrescentar no
seu ofício, que o texto original do citado Entremez não refere o ano em que foi
publicado, nem a tipografia em que foi impresso, o que o levava a suspeitar
tratar-se de uma publicação clandestina. E se assim fosse tornava-se num caso
de averiguação policial. Mas o que mais lhe desagradava era o facto de “serem
os Theatros estabelecidos para servirem de Escholla onde os Povos aprendão as
máximas bases da politica, da moral, do amor da Patria, do valor do zello e da
fidelidade com que devem servir os Soberanos”.[1]

Todavia, encontrei um outro ofício do mesmo sargento-mor, Freire Pantoja,
no qual refere que na noite de 18 de Fevereiro de 1828 voltou à cena o referido
Entremez, solicitando que desta vez fossem tomadas medidas enérgicas. Face à
reincidência o Intendente despachou que se mandassem proibir as representações.[2]

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