quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Igreja de Santa Maria de Idanha-a-Velha, as suas origens islâmicas e notoriedade do seu património histórico

Edifício da antiga mesquita-igreja de Idanha-a-Velha
É possível que do edifício da antiga Catedral de Idanha-a-Velha, sede do bispado da Egitânia, já quase nada exista. Porém, deve ter sido erigido no séc. VI, um templo do culto cristão, pelas hordas invasoras dos Visigodos na atual vila de Idanha-a-Velha. Sabemos que teve vários bispos, cuja identificação conhecemos, mas quase tudo se ignora sobre a sua atividade ecuménica. Curiosamente o que mais subsiste, e o que se conhece, é relativo à colonização islâmica das antigas terras da Egitânia romana.
Após as tribos berberes muçulmanas invadirem a Península Ibérica (entre 711 e 726), passou a suposta catedral egitaniense a ser uma mesquita árabe. O local está referenciado nas fontes islâmicas dos séc. IX a XII sob a designação de لجدانية, que se traduz por Laǧdāniya. É curioso que em Marrocos e na Argélia, ainda hoje existem descendentes de Laǧdāniya, comprovado pelos apelidos Lagdani, Legdani, Lejdane, Laidani, logicamente todos relacionados com a antiga cidade árabe de Idanha.
Face posterior do edifício da antiga igreja
Embora eu não concorde, há quem sustente que as terras de Laǧdāniya pertenciam ao clã familiar de Ibn Marwan, um moçárabe (cristão-árabe), que durante o período Omíada estabeleceu os seus domínios territoriais, entre Idanha e Marvão. Diz-se que o nome do castelo de Marvão está relacionado com Ibn Marwan, chefe militar das forças islâmicas que resistiram à reconquista cristã.
Idanha-a-Velha (a antiga Egitânia) foi uma espécie de fronteira entre o al Andalus (árabes submetidos ao califado omíada de Córdova), e os cristãos do Reino de Leão. Após a reconquista da Península Ibérica, a antiga mesquita árabe, estava em ruínas, sendo reconstruída no séc. XIII pelos Templários, donatários das terras da Egitânia, que a dedicaram à veneração de Santa Maria.
Dimensão dos arcos axiais e as suas influências árabes
Mas o que o turista vê hoje é um edifício dividido em três naves separadas por arcos e colunas. A mais importante é nave central, com doze arcos axiais em ferradura, certamente da era islâmica, o que dá a impressão de ter sido uma grande mesquita. Ao centro parece ter existido um mirabe orientado para Meca. Talvez seja uma modesta imitação da grande mesquita Omíada de Damasco, que tem uma grande nave central e duas colaterais, com o mihrab ao centro da quibla, orientado para Meca. Para quem não está habituado a estes termos convém explicar que o mirabe (miḥrāb) é uma espécie de nicho, em forma de abside, que serve para amplificar o som das orações que o imã (sacerdote) dirige aos fiéis. O quibla (al-qibla) é a direção, ou seja, o ponto cardeal onde se situa a Caaba de Meca, que fica a 58 graus ao noroeste do local em que nos encontrarmos. Já agora também explico que a Caaba é aquele cubo negro que fica ao centro da mesquita de Meca, na Arábia Saudita, à volta da qual circulam a rezar os fiéis de Maomé, no culminar da peregrinação que todos os árabes devem fazer pelo menos uma vez na vida.
Na parede interior, o mirabe da antiga mesquita árabe
Percebe-se pelos arcos em ferradura e pelo aparelho de silharia (recorte das pedras de construção das paredes e muros) que a Igreja de Idanha se assemelha à de Lourosa, a qual está datada dos inícios do século X. Talvez a mesquita-igreja de Idanha-a-Velha seja da mesma época. No entanto, é visível que foi objeto de consideráveis remodelações, desde os séculos XII ao XVI, conservando ainda hoje a sua original monumentalidade. O altar-mor, que ainda subsiste na parte norte, parece ser do séc. XVII.
No século XIX deixou de servir ao culto, transformando-se posteriormente em museu. O pavimento atual é de madeira, para preservação da circulação dos turistas, mas vê-se que era lajeado em pedra.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A «Casa do Atrium». em Idanha a Velha, na antiga Egitânia romana

Casa do Atrium antiga edificação romana, e torre Templária
Em Idanha-a-Velha, num recanto da urbe medieval, encontra-se a chamada Casa do Átrio. Na verdade, e apesar da sua imponente volumetria, é o que resta de uma majestosa “domus”, ou casa urbana, que deve ter pertencido a uma família de patrícios romanos de elevado estatuto social.
Pelas escavações arqueológicas (ainda visíveis e a aguardarem melhores condições técnico-científicas para avançarem), concluiu-se que terá sido construída nos finais do século I, depois de Cristo.
O edifício, ou o que dele restou para a posteridade, faz parte do “Atrium”, que seria uma espécie de pátio aberto ladeado por duas divisões, a que chamavam “alae”, separadas por um corredor ou “atrium”, que tinha no cimo uma abertura, o “compluvium” para entrar não só a luz como também as águas das chuvas que ficavam retidas num tanque, o “impluvium”, ladeado por colunas que suportavam o travejamento do telhado. Em Conímbriga, e noutras “villae” romanas, existem ainda hoje edifícios semelhantes.
Duas portas, acessíveis através de ponte e escada amovível
Na “domus” romana considerava-se o “atrium” como o coração da casa, onde a família se reunia e convivia, e onde o “dominus” (o proprietário) recebia as visitas.
Grande parte deste e de outros edifícios romanos foram na era da reconquista cristã desmantelados para com as suas pesadas silharias de granito se edificarem as muralhas medievais. Com alguma atenção vê-se nas muralhas diferentes talhes nos blocos graníticos e até algumas inscrições muito delidas, que constituem uma espécie de sedimentos históricos, alinhavados por diferentes eras, culturas e civilizações.
Face do poente, repare-se na solidez do podium em que
assenta o edifício, ao lado vêm-se restos de escavações
O turista, ao defrontar-se com este imponente edifício, sente um misto de espanto, de assombro e admiração, face ao seu posicionamento arquitetónico na vila museu de Idanha-a-Velha. Imagine-se agora o que seria o fórum e toda a “civitas” romana da Egitânia antes de ser conquistada pelos suevos e visigodos. Mas no século VIII vieram os árabes e mudaram o paradigma civilizacional. Alguns séculos depois os templários ocuparam a região e transformaram a Egitânia num vasto empório militar, onde poucos desejavam habitar. Esse foi o princípio do fim da Idanha, uma região histórica que desde o séc. XIV apresenta indícios de irreversível desertificação demográfica.
As poldras do rio Ponsul, espécie de ponte pedonal
Deixo-vos algumas fotos da Casa do Átrio, mas também dos fundamentos de outros edifícios romanos, a que acrescento as poldras do rio Ponsul, uma estrada fluvial por onde os igeditanos escoavam as suas riquezas minerais (estanho, chumbo, zinco).

domingo, 6 de setembro de 2026

Idanha a Velha, a antiga Egitânia dos romanos, é hoje uma vila-museu quase desconhecida

Porta das antigas muralhas romanas de Egitânia, hoje Idanha
A secular vila de Idanha-a-Velha, cujas origens remontam aos princípios do cristianismo na península ibérica, merece uma visita atenta e demorada, face ao seu valiosíssimo património histórico. A sua diversidade e multiplicidade artística é vasta, invulgar, singular e desconhecida pela maioria dos portugueses.
Estive alojado uma semana em S. Miguel d'Acha, atraído pelas minhas investigações sobre o pseudo-maçonismo do partido miguelista. Mas isso é um assunto que ficará para outras calendas. 
O que me trás agora a terreiro é o prazer de "turistar" na minha pátria. Confesso que fiquei atónito quando fui visitar a vila medieval de Idanha-a-Velha, não esperava tão agradável viagem no tempo. Passei do século XXI ao século I-IV da nossa era, seguindo depois para o VIII-X, até ao XV, sem qualquer esforço de reflexão. 
Sé da Egitânia, cujo adro é um imenso museu arqueológico

Era tudo óbvio, tudo evidente, estava tudo ali à minha frente, como se estivesse num museu a céu aberto. Literalmente assim, à mão e à vista de todos. Cada pedra era um grito silenciado no passado, uma evocação histórica, pronunciada em voz baixa, porque só ali estava eu e a minha esposa, na imensidão daquela máquina do tempo. Eu sabia, ou pensava que sabia, o que me esperava. Já tinha lido muito sobre o assunto, sobretudo quando fui um jovem aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas a realidade com que me defrontei foi absolutamente desarmante. 
 Fiquei surpreendido com a magnitude da sua riqueza patrimonial; fiquei deslumbrado com a beleza e antiguidade histórica da vila medieval... fiquei envergonhado por ser a primeira vez que visitava Idanha-a-Velha. 
Arco Romano, porta de saída para o rio Ponsul
Como historiador, e porque não dizer como turista, senti um enorme orgulho de ser português. Afirmo-o sem qualquer resquício de nacionalismo bacoco. A Vila, conserva atualmente apenas uma ínfima parte daquilo foi na antiguidade. No século XX, uma família de apelido Marrocos (sintomático para os dias de hoje) destruiu a seu belo prazer a antiga civitas romana, e edificou um solar de duvidoso gosto arquitetónico sobre o antigo fórum romano, cujos alicerces atrapalhava os novos proprietários de explorar os campos agrícolas em redor. Quantos testemunhos da colonização romana, das invasões sueva e visigótica, não se perderam, ou se reduziram à brita dos caminhos, em nome dos interesses da civilização moderna e dos hodiernos proprietários... Deixe-vos aqui algumas imagens de Idanha-a-Velha, numa espécie de aperitivo para um futuro desafio – ou desarmante convite - a deslocarem-se à nossa deslumbrante Beira Baixa, mais propriamente ao distrito de Castelo Branco, para percorrerem esse triângulo maravilhoso que se espraia desde Idanha até Monsanto, passando depois a Penha Garcia até finalizar nas termas de Monfortinho.