segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A «Casa do Atrium». em Idanha a Velha, na antiga Egitânia romana

Casa do Atrium antiga edificação romana, e torre Templária
Em Idanha-a-Velha, num recanto da urbe medieval, encontra-se a chamada Casa do Átrio. Na verdade, e apesar da sua imponente volumetria, é o que resta de uma majestosa “domus”, ou casa urbana, que deve ter pertencido a uma família de patrícios romanos de elevado estatuto social.
Pelas escavações arqueológicas (ainda visíveis e a aguardarem melhores condições técnico-científicas para avançarem), concluiu-se que terá sido construída nos finais do século I, depois de Cristo.
O edifício, ou o que dele restou para a posteridade, faz parte do “Atrium”, que seria uma espécie de pátio aberto ladeado por duas divisões, a que chamavam “alae”, separadas por um corredor ou “atrium”, que tinha no cimo uma abertura, o “compluvium” para entrar não só a luz como também as águas das chuvas que ficavam retidas num tanque, o “impluvium”, ladeado por colunas que suportavam o travejamento do telhado. Em Conímbriga, e noutras “villae” romanas, existem ainda hoje edifícios semelhantes.
Duas portas, acessíveis através de ponte e escada amovível
Na “domus” romana considerava-se o “atrium” como o coração da casa, onde a família se reunia e convivia, e onde o “dominus” (o proprietário) recebia as visitas.
Grande parte deste e de outros edifícios romanos foram na era da reconquista cristã desmantelados para com as suas pesadas silharias de granito se edificarem as muralhas medievais. Com alguma atenção vê-se nas muralhas diferentes talhes nos blocos graníticos e até algumas inscrições muito delidas, que constituem uma espécie de sedimentos históricos, alinhavados por diferentes eras, culturas e civilizações.
Face do poente, repare-se na solidez do podium em que
assenta o edifício, ao lado vêm-se restos de escavações
O turista, ao defrontar-se com este imponente edifício, sente um misto de espanto, de assombro e admiração, face ao seu posicionamento arquitetónico na vila museu de Idanha-a-Velha. Imagine-se agora o que seria o fórum e toda a “civitas” romana da Egitânia antes de ser conquistada pelos suevos e visigodos. Mas no século VIII vieram os árabes e mudaram o paradigma civilizacional. Alguns séculos depois os templários ocuparam a região e transformaram a Egitânia num vasto empório militar, onde poucos desejavam habitar. Esse foi o princípio do fim da Idanha, uma região histórica que desde o séc. XIV apresenta indícios de irreversível desertificação demográfica.
As poldras do rio Ponsul, espécie de ponte pedonal
Deixo-vos algumas fotos da Casa do Átrio, mas também dos fundamentos de outros edifícios romanos, a que acrescento as poldras do rio Ponsul, uma estrada fluvial por onde os igeditanos escoavam as suas riquezas minerais (estanho, chumbo, zinco).

domingo, 6 de setembro de 2026

Idanha a Velha, a antiga Egitânia dos romanos, é hoje uma vila-museu quase desconhecida

Porta das antigas muralhas romanas de Egitânia, hoje Idanha
A secular vila de Idanha-a-Velha, cujas origens remontam aos princípios do cristianismo na península ibérica, merece uma visita atenta e demorada, face ao seu valiosíssimo património histórico. A sua diversidade e multiplicidade artística é vasta, invulgar, singular e desconhecida pela maioria dos portugueses.
Estive alojado uma semana em S. Miguel d'Acha, atraído pelas minhas investigações sobre o pseudo-maçonismo do partido miguelista. Mas isso é um assunto que ficará para outras calendas. 
O que me trás agora a terreiro é o prazer de "turistar" na minha pátria. Confesso que fiquei atónito quando fui visitar a vila medieval de Idanha-a-Velha, não esperava tão agradável viagem no tempo. Passei do século XXI ao século I-IV da nossa era, seguindo depois para o VIII-X, até ao XV, sem qualquer esforço de reflexão. 
Sé da Egitânia, cujo adro é um imenso museu arqueológico

Era tudo óbvio, tudo evidente, estava tudo ali à minha frente, como se estivesse num museu a céu aberto. Literalmente assim, à mão e à vista de todos. Cada pedra era um grito silenciado no passado, uma evocação histórica, pronunciada em voz baixa, porque só ali estava eu e a minha esposa, na imensidão daquela máquina do tempo. Eu sabia, ou pensava que sabia, o que me esperava. Já tinha lido muito sobre o assunto, sobretudo quando fui um jovem aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas a realidade com que me defrontei foi absolutamente desarmante. 
 Fiquei surpreendido com a magnitude da sua riqueza patrimonial; fiquei deslumbrado com a beleza e antiguidade histórica da vila medieval... fiquei envergonhado por ser a primeira vez que visitava Idanha-a-Velha. 
Arco Romano, porta de saída para o rio Ponsul
Como historiador, e porque não dizer como turista, senti um enorme orgulho de ser português. Afirmo-o sem qualquer resquício de nacionalismo bacoco. A Vila, conserva atualmente apenas uma ínfima parte daquilo foi na antiguidade. No século XX, uma família de apelido Marrocos (sintomático para os dias de hoje) destruiu a seu belo prazer a antiga civitas romana, e edificou um solar de duvidoso gosto arquitetónico sobre o antigo fórum romano, cujos alicerces atrapalhava os novos proprietários de explorar os campos agrícolas em redor. Quantos testemunhos da colonização romana, das invasões sueva e visigótica, não se perderam, ou se reduziram à brita dos caminhos, em nome dos interesses da civilização moderna e dos hodiernos proprietários... Deixe-vos aqui algumas imagens de Idanha-a-Velha, numa espécie de aperitivo para um futuro desafio – ou desarmante convite - a deslocarem-se à nossa deslumbrante Beira Baixa, mais propriamente ao distrito de Castelo Branco, para percorrerem esse triângulo maravilhoso que se espraia desde Idanha até Monsanto, passando depois a Penha Garcia até finalizar nas termas de Monfortinho.