sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Charneco do Algarve

Nestes dias de primavera, perfumados pelas flores e pelo bulício da natureza, que em tudo desponta e renasce, quedei-me a observar duas pegas-azuis que no meu jardim se envolveram em suposta disputa nupcial. Despertaram-me da letargia do pensamento, por duas razões: faziam um atrupido insolente e desagradável em aves tão belas e graciosas, e saltavam da relva para os arbustos em acesa discussão. Não sei se era uma peleja de machos ou se, ao invés, uma conquista do amor, que entre as aves assume, às vezes, o semblante de uma pugna preludial de acasalamento.
Charneco, Pega-azul ou Rabilongo
Faltou-me a presença do meu amigo Dr. Paulo Rosa, respeitável causídico do foro jurídico, e esclarecido estudioso da fauna e da flora algarvia, para me instruir sobre o comportamento das aves. Lembrei-me dele, assim de repente, porque no seu último livro, O Perfume da Esteva, publicou um elucidativo poema intitulado «À Cyanopica cyanus», designação científica da Pega-azul, no qual descreve as particularidades comportamentais desta ave, nativa da China, Mongólia e Japão. Presumo que a sua introdução na península ibérica tenha ocorrido no século XVI, por iniciativa dos mareantes portugueses envolvidos no tráfego do oriente asiático. Não há outra explicação, porque só existem pegas-azuis em Portugal, Espanha e na Ásia. Pode, por isso, considerar-se como espécie invasora, embora tolerada e bem acolhida, pela razão de ter sido introduzida por mão humana. É possível até que na era quinhentista da colonização asiática, a pega-azul fosse considerada como uma ave ornamental e de estimação doméstica, treinada para companhia e distração das damas na paz soturna dos seus lares.
Pega-azul versus pega-rabuda
À família das corvídeas pertencem duas espécies, quase semelhantes: a pega-azul e a pega-rabuda. A primeira é, sem dúvida, uma das mais belas da avifauna algarvia, também designada por “rabilongo”. É mais delgada de corpo, e exótica de cores, do que a sua prima, a Pega-rabuda, cuja metálica plumagem negra e branca nunca lhe concitou a simpatia popular. Os corvos e as pegas-rabudas são companheiras de cemitério, e no seu emplumado luto pressagiam mau-agouro. Certas megeras que adivinham o futuro, concertam maleitas e desavenças conjugais, costumam compor o tétrico cenário do seu “consultório” com uma pega-rabuda e um corvo “destravado” (adestrado para emitir “sons do outro mundo”), cujo negrume da plumagem se assemelha aos gatos-pingados dos antigos velórios e cortejos fúnebres. Perante este lúgubre quadro cénico, as “consulentes” sentem-se sugestionadas pelas trevas da morte, deixando-se imbuir pela obscuridade do mistério. Tudo a condizer com o embuste da ilusão.
No Algarve, a deslumbrante pega-azul das cortesãs nipónicas, recebeu sabe-se lá porque bulas, o plebeu epíteto de “charneco”. Não gosto nada dessa rude designação, até porque me faz lembrar os pobres ceifeiros da Beira Baixa, que atrás do seu “menageiro” seguiam em pesaroso rancho para as searas, afim de ganharem o seu magro “quinhão”. A esses miseráveis sobreviventes da medieval servidão da gleba, chamavam-lhes “charnecos”, talvez por esgravelharem o pão na charneca dos montados alentejanos. Também lhes chamavam “sertainhos”, ignorando-se a origem desse epíteto, que alguns presumem relacionar-se com os naturais da vila da Sertã.
Charneco algarvio
É uma ave belíssima, reconhecível pela sua longa cauda e asas azuladas, pela tonalidade ocre do seu corpo altivo, e pelo pescoço de cor pérola a que se sobrepõe uma cabeça preta, de que ressaltam dois olhos negros e perscrutantes.
Deve a designação de “Rabilongo” à sua cauda comprida, que lhe serve de leme nas difíceis manobras de voo. Costumo vê-las em grandes bandos, na mata do Ludo junto à Universidade do Algarve, facilmente identificáveis pela cauda rabilonga, sobretudo pelo estridente grasnar que, emitido em grupo, soa de forma estridente e pouco agradável. Tendo-se adaptado bem ao clima e ao ambiente, a pega-azul é um corvídeo residente e visível todo o ano, nas zonas de influência mediterrânica do interior centro e sul do país. Nos montados de sobreiro, nos pinhais e olivais do Baixo Alentejo e litoral do Algarve, proliferam numerosos bandos de pegas-azuis, por ser onde encontra alimento fácil e condições propícias à nidificação.
Ninho da Pega-azul ou Charneco do Algarve
No início da Primavera, em Abril-Maio, formam-se os casais para construir o ninho, feito de ervas secas calafetadas de lama, no cimo das azinheiras ou na frondosa copa dos pinheiros mansos, onde põe 5 a 7 ovos, pintalgados como os das codornizes, incubados pela fêmea durante 15 dias, de forma ininterrupta. Os machos zelam pela sua segurança e alimentação, num louvável trabalho de equipa. Como são aves gregárias, fazem os ninhos ao lado umas das outras, em verdadeiras colónias, onde a intrusão de predadores é facilmente combatida e rechaçada pelo grupo nidificante. E são tão agressivas que nem os gaios, os mochos galegos ou as aves de rapina se aproximam dos seus ninhos.
A presença da pega-azul é vantajosa para as outras aves e animais da floresta, visto que reagem com estridente alarme ao aparecimento de predadores, que cercam ou perseguem, denunciando a sua camuflada presença e impedindo o seu ataque furtivo. Já vi duas pegas-rabudas a atacarem um falcão que havia capturado um pombo, até que este o libertou. Há quem tenha visto ao cair do dia, nos montados alentejanos, as pegas a mergulhares em voos rasantes e estridentes sobre os predadores mais vorazes da noite, como as raposas, ginetas, doninhas, texugos e gatos bravos, que buscam alimento nas luras e troncos dos chaparros. Na maioria das vezes cercam-nos, ou perseguem-nos, grasnando estridulamente, até que se afastem para fora das suas zonas de nidificação.
Alimenta-se sobretudo de insetos, mas no Outono sustenta-se com bagas e sementes. É considerada como ave muito inteligente, capaz de engendrar ataques organizados em grupo contra os seus predadores. Parece ser também senciente, porque cuida dos fracos e doentes do grupo, fornecendo-lhes alimento, proteção e amparo.
Charneco do Algarve
Há quem lhe chame pássaro azul e até quem a confunda com o gaio. Mas é muito diferente, embora sejam ambas aves estritamente selvagens, que por razões de acessibilidade de alimento vão sendo cada vez mais observáveis nos mais amplos jardins urbanos. A pega-azul habituou-se ao convívio humano por causa do lixo urbano, franqueado ao oportunismo das espécies selvagens, que cada vez mais se vão familiarizando com o espaço citadino, onde são observadas com simpatia e até alguma proteção.
A pega-azul é considerada uma ave das monoculturas, sobretudo de árvores frutíferas, onde busca alimento de frutas doces, tendo no Algarve como pasto preferencial o figo, a nêspera, a ameixa e as uvas. A sua presença na proximidade dos pomares indicia graves prejuízos, por deixar os frutos bicados em progressivo e contagiante apodrecimento. É por isso que os fruticultores, para as afastar, recorrem a meios e estratégias de cruel eficácia.
Termino este breve apontamento sobre a avifauna algarvia, com o qual pretendi enaltecer a beleza, o altruísmo e a coragem da pega-azul, transcrevendo aqui o poema realista que o Dr. Paulo Rosa dedicou ao emblemático “charneco” algarvio. Serve também de homenagem ao causídico e ao poeta, que na sua vila de Monchique se tem dedicado à preservação do ambiente natural e ao equilíbrio ecológico da serra algarvia.

 À Cyanopica cyanus

Pega azul charneco ou rabilongo
Muito nome em pouca geografia
Quase lhe basta um quadrado do Rectângulo
Para merecer todo mandatar em bastonato
Se humana vida ou alada ronda o berço
Convoca a grito os pares da vizinhança
Que acorrem pressurosos qual bombeiros
De farda azul, camisa ocre e alva, boina preta
Cauda extensa que no ar é leme e trava
A extinguir a grasnados, voos rasantes e bicadas
O foco de ameaça sirenada.

Seis ou sete choca no berçário
Ovos em que um ou nenhum gora
Em três semanas mais dia menos hora
Têm nêsperas, figo lampo e ameixa, o seu calvário.

 

Saber mais…

Aqui ficam algumas referências dignas de credível leitura:

Canário, F. & Marin, J.M. 1999. «Pega-Azul Cyanopica cyanus. Uma Espécie com um Sistema de Cria Cooperativa», in Beja, Actas do II Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, SPEA, Lisboa.

Sacarrão, G.F. 1974. «Acerca de Alguns Aspectos Problemáticos da Ecologia Geográfica de Cyanopica cyanus (Palias) (Aves: Corvidae)», in Estudos da Fauna Portuguesa, nº 1, pp. 1-88

Pedro Miguel Guimarães Cardia Lopes. A Distribuição Mundial da Pega-Azul (Cyanopica cyanus). Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2002.

José Carlos Vilhena Mesquita