terça-feira, 19 de maio de 2026

Em memória de António Silva Carriço, notável escritor de Monchique

O escritor Silva Carriço
Completa-se este ano, de 2024, no próximo dia 21 de Novembro, cinco anos de saudade, pela morte do escritor António Silva Carriço, amigo de longa data, de que guardo ainda gratas recordações. Quando soube do seu falecimento, escrevi quase de imediato uma sentida evocação da sua vida literária, que reflete e o meu condoído desgosto pela perda de tão estimável amigo. Já se passaram cinco anos… E como nos tempos que correm parece que já não se dá valor a quem o merece, decidi exumar as sentidas palavras que em sua homenagem deixei registadas, para através desta tribuna, em que ele assumiu posição de relevo, lhes dar uma nova vida, e uma perpétua referência na sua terra natal.
A literatura portuguesa, e a cultura algarvia, perdeu com o falecimento de António Silva Carriço, ocorrido a 21-11-2019, um dos mais genuínos escritores da língua de Camões. Foi uma perda irreparável, sobretudo para os que o conheciam e admiravam a sua obra. Mas, ao mesmo tempo, foi também uma perda de que o país não se apercebeu, porque o Silva Carriço era um escritor da província, que vivia longe das luzes da ribalta que apenas iluminam os céus de Lisboa.
Conheci o escritor Silva Carriço na vila de Monchique, sua terra-natal, na primeira visita que fiz à Biblioteca Municipal. Estabelecemos desde logo uma sólida empatia intelectual. Voltamos a encontrar-nos, várias vezes, em eventos de carácter literário. E quando ia a Monchique costumava encontrá-lo na Farmácia Moderna, onde ao fim da tarde se reuniam os homens cultos da vila, sobretudo os colaboradores do jornal local, cujo diretor era então o Dr. José Manuel Furtado.
Numa dessas tardes contou-me a sua vida. Estudara no Colégio de Santa Catarina, em Monchique, que foi um dos mais prestigiados estabelecimentos escolares do sul do país, sob a égide das freiras do Convento de Nossa Senhora do Desterro, professas da Ordem Terceira de S. Francisco. O colégio funcionava em regime de internato, para os alunos que vinham de fora, tanto do Algarve como do Baixo Alentejo, e de externato para os poucos que eram da vila e suas redondezas. Foram essas proficientes religiosas que vieram, em 1954, fundar o Colégio do Alto, em Faro, um dos mais conceituados do país.
O Silva Carriço, saiu de Monchique, para completar os estudos liceais em Lisboa. Mas, como já tinha idade para ganhar a vida, foi trabalhar como desenhador num gabinete de arquitetura, enquanto estudava no Liceu Camões. Terminou o curso no Liceu de D. João de Castro, em Lisboa, empregando-se de seguida no Instituto Nacional de Estatística, aí convivendo com outros algarvios, que se fizeram gente em diversos organismos estatais. Entrado no quadro da função pública, pediu transferência para a Câmara de Monchique, onde permaneceu desde 1961 até à aposentação em 2003.
Biblioteca Municipal António da Silva
Carriço, em Monchique

Funcionário público e homem da cultura

Muito dado ao estudo e à leitura, revelou-se interessado nas letras e na cultura local, razão pela qual lhe seria entregue a direção da Biblioteca Fixa da Fundação Calouste Gulbenkian e, dez anos depois, em 1971, a Biblioteca Municipal de Monchique. Nessas funções prestou um inestimável serviço à cultura e à educação de sucessivas gerações de jovens monchiquenses. Conhecia os clássicos da literatura europeia, mas não era só a leitura que lhe ocupava o tempo, era também o estudo da arte, sobretudo da pintura e escultura. Sabia onde paravam os tesouros artísticos do mundo, e quando as posses o permitiram foi vê-los, na companhia da sua amorosa esposa, aos principais museus da Europa.
Durante quase meio século, pode dizer-se que foi ele quem cuidou da educação literária e do autodidatismo de muitas centenas de crianças e jovens daquele concelho serrano. Fez do seu posto de bibliotecário uma espécie de cátedra popular, na qual divulgou os principais monumentos da cultura lusíada.
O que mais me impressionava os seus “alunos de circunstância” era a sua prodigiosa memória, e a forma inteligente como concatenava os autores e as suas obras, clareando diferenças, juntando afinidades, esclarecendo as ideias e os objetivos que incitaram os escritores a exaltar convicções, incendiar mentalidades, revolucionar gerações. E a par da sua refinada cultura estava a sua requintada sensibilidade, que transparecia de forma contagiante no amor à poesia. E quantos por sua influência leram, e adoraram Alves Redol, Manuel da Fonseca, José Régio ou Natália Correia, quando as suas obras ainda não tinham alcançado o prestígio, com que hoje são reconhecidas em todo o mundo.

Um homem da escrita e das belas-letras

Ainda jovem, com apenas 16 anos de idade, o Silva Carriço começou a escrever nos jornais. E não se estreou, como tantos outros, na humilde imprensa regional, mas antes nas prestigiadas colunas do «Novidades», órgão católico de expansão nacional, cujos assinantes se distribuíam pelo país inteiro. E como os jornais sempre foram a rampa de lançamento dos escritores, tornou-se correspondente em Monchique de «O Século» e do «Diário de Lisboa», mantendo durante décadas uma assídua colaboração.
Uma das suas facetas menos conhecida é a de poeta. Começou a expor a sua inspiração lírica em concursos locais de poesia, embora sem grande sucesso. Conseguiu ser distinguido, em 1982, nos Jogos Florais do Algarve, do Racal Clube de Silves, recebendo uma Menção Honrosa, na modalidade «Poesia Lírica». Percebeu que a sua poesia não teria o apreço que esperava, e dedicou-se quase em exclusivo à prosa. As musas deixou-as em repouso, para só as venerar nos momentos de desencanto e solidão, quando as angústias da vida lhe abatiam a alma.
Quando, em Dezembro de 1985, o Grupo de Dinamização Cultural «O Monchiqueiro», decidiu lançar a edição inaugural do «Jornal de Monchique», é o António Silva Carriço, juntamente com o José Manuel Furtado, o José Gonçalo Duarte, o José Rosa Sampaio, o Reis Luís, e outros, que preenchiam as suas colunas com interessantes reportagens, artigos e curiosas secções, sobre os mais variados assuntos. Esse prestigiado órgão da nossa comunicação social ainda hoje se publica, e numa altura em que a imprensa algarvia se reduz a meia dúzia de periódicos, impõe-se enaltecer a persistente luta pela sobrevivência do «Jornal de Monchique», cujos 39 anos de vida editorial, num concelho em crescente desertificação, deveria ser alvo de homenagem pelo Ministério da Cultura.

Memória das Coisas

Como prosador, Silva Carriço, testou o seu talento novamente nos concursos literários. É uma prática corrente, e uma estratégia normal, quando se começa a tentear o árduo caminho das letras. Submeteu-se à aferição do mestre das letras algarvias, o famoso Dr. Joaquim Magalhães, que como presidente júri dos Jogos Florais do Algarve, promovidos pelo Racal Clube de Silves, avaliou e apadrinhou o talento de muitos poetas e prosadores algarvios. Vemos então o Silva Carriço laureado em 1990 com uma Menção Honrosa, o que era um bom augúrio para a carreira literária que iniciaria em 1995, com a publicação do seu livro de estreia, intitulado Memória das Coisas. Nele compilou as crónicas que publicara ao longo de vários anos no «Jornal de Monchique», cujos temas retratam vivências da cultura serrenha, relatam episódios marcantes na vida local, registam o valor e a importância do património etnográfico e das tradições do povo, que constituem a memória e identidade de Monchique. Como livro de estreia teve um inusitado sucesso, esgotando-se a edição pouco tempo depois. Sendo justamente reeditado em 2008.
No ano seguinte à sua estreia literária, em 1996, foi-lhe atribuído pela Região de Turismo do Algarve, o 2.º Prémio de Comunicação Social, em razão do seu artigo «O Prazer da Diferença», um texto brilhante, carregado de conceitos filosóficos, no qual os valores da ética e da estética artística são rebatidos com a sincera e natural eloquência de um homem sensível e inteligente, como sempre o foi o meu amigo António Silva Carriço.
Na continuidade do seu périplo pelos concursos literários, recebeu em 1997 do Clube de Jornalistas de Braga o Prémio Especial Verde Minho, patrocinado pela Região de Turismo do Minho, mercê do artigo publicado no Jornal de Monchique, sob o título de «O Irresistível Fascínio do Verde», no qual compara a viçosa floresta da sua terra natal com o fascinante Gerês na viridente serra minhota. Um texto de rara beleza literária, que se pode comparar com os que melhor escreveu Raul Brandão, certamente um dos autores que mais inspiraram a sua escrita e melhor moldaram a sua personalidade literária.

O Sabor da Vida – a consagração do escritor

Ainda em 1997 publica o seu segundo livro de crónicas, O Sabor da Vida, que tal como o primeiro foi editado pelo grupo cultural «O Monchiqueiro», que não demorou a esgotar-se. Trata-se da compilação de alguns artigos publicados no «Jornal de Monchique», que o próprio Silva Carriço considerou como “pedaços de um profundo olhar, que não se limitou a agarrar a luz das pessoas e das situações, mas que se perde e prende nas funduras do sentir”. É um livro de ampla dimensão filosófica, ponderada apreciação artística e de ajuizada análise literária, que o autor, para facilitar a compreensão do leitor, segmentou em conjuntos temáticos de grande interesse para o conhecimento da vida intelectual nos finais do século passado. Pode parecer estranho, a quem nos lê, conceder tão elevados créditos a um simples cronista dum jornal de província, numa terra ignorada e esquecida como Monchique. Para quem não conheceu o Silva Carriço poderá parecer um exagero da nossa parte, mas, na verdade, era um homem muito culto e inteligente, que escrevia primorosamente, caldeando a sua ilustrada escrita com aferições artísticas e juízos de valor, só ao alcance das mentes mais eloquentes e brilhantes.
Em 1998 convidei-o a pertencer à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, à qual aderiu imediatamente. Fundei, e dirigi, no ano seguinte a Revista Stilus, em cuja edição inaugural publiquei de Silva Carriço um brilhante trabalho, do mais fino recorte literário, intitulado «Sabina na Casa de Espelhos» [Stilus, nº 1, Junho 1999, pp.89-96].
Prosseguindo a ordem cronológica da sua vida literária, impõe-se salientar o facto de ter sido galardoado, em 2002, com o 1.º Prémio Manuel Teixeira Gomes, no concurso instituído pela Câmara Municipal de Portimão, com o patrocínio da Delegação Regional da Cultura do Algarve. Daí resultou a publicação do seu primeiro livro de ficção, Entre o Corpo e a Rosa, inspirado no realismo mágico da literatura sul-americana, cuja urdidura endógena decorre no espaço rural do Barranco do Demo, um suposto lugarejo da serra algarvia, onde uma mulher com raros poderes místicos, faz prodigiosas curas e milagres, em troca dos prazeres da carne. Todavia a morta colheu-a da vida de uma forma quase misteriosa, mas ela volta para se vingar dos algozes, como uma penumbra diabólica, que à noite enlouquece de desejo os seus antigos amantes. A bíblica sedução de Eva, e a explanação erótica das relações adúlteras, acaba por resvalar numa imbricada estória macabra, onde o medo, o terror e a desconfiança se apodera dos habitantes da aldeia. Um conto fantástico, muito bem escrito, ao nível de um clássico Edgar Allan Poe ou de um moderno Gabriel Garcia Márquez.
Reconhecendo o seu contributo, como «figura proeminente na vida cultural do concelho de Monchique», a Câmara Municipal decidiu atribuir em 2004, à Biblioteca Municipal o nome de António da Silva Carriço, em homenagem ao seu esforço desenvolvido em prol da educação e da cultura local. Tratou-se de um gesto de agradecimento pelos 43 anos de serviços prestados naquela edilidade, em benefício das gerações jovens que tiveram em Silva Carriço um fraterno amigo, um conselheiro cultural e modelo de erudição, com base num insaciável autodidatismo, que a todos poderia servir de exemplo.
Em 2005 publicou o seu terceiro livro de crónicas, Retrato da Paisagem Enquanto Gente, uma compilação dos textos publicados no «Jornal de Monchique». Na origem desta obra está a intenção de resgatar para a posteridade a efémera lembrança das suas crónicas, na fugaz leitura daquele periódico. A editora Colibri, especialmente vocacionada para a publicação de obras académicas, teve o mérito de acolher debaixo da sua prestigiada chancela a última coletânea de crónicas literárias de António Silva Carriço.
Nos anos que se seguiram participou em diversos eventos culturais, nomeadamente na apresentação de livros, do seu conterrâneo António Manuel Venda, ou em exposições de artes plásticas, incluídas no programa «Faro Capital Nacional da Cultura», presidido pelo meu saudoso amigo António Rosa Mendes. No domínio das artes publicou Silva Carriço os seus últimos textos, um deles intitulado Zé Ventura – As Cores do Tempo, foi premiado em 2007 no London Book Festival. O outro texto, «Uma Abertura de Alma», escreveu-o em 2008 para o livro-catálogo da exposição de fotografia de António Maria Callapez – um olhar a Sul, numa edição comemorativa do centenário do seu nascimento.
Por fim, em 2014, a Paulinas Editora, publicou o seu último livro, Reflexos, constituído por treze contos de Natal, nos quais se apela à paz e à reconciliação entre os homens de todos os quadrantes, de todas as raças e credos. Nesses contos ressalta a esperança num futuro melhor, sob a bênção do Deus-Menino nascido em Belém. A mensagem, que o Silva Carriço nos deixou nesses contos natalícios, é a de os homens foram talhados pela mão de Deus para fazerem o bem, protegendo os fracos e os desfavorecidos, como expressão do amor e da conciliação da humanidade.
Nesta quadra natalícia, seria de inteira justiça que alguns desses belos contos fossem difundidos na rádio Fóia, recriados nas escolas de Monchique ou editados em pequenos livrinhos ilustrados, para oferta daquele município às crianças de todo o Algarve.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Uma autópsia em 1833, na epidemia do cólera-mórbus

A autópsia é um vocábulo de origem grega, que significa literalmente “ver-se a si mesmo”. Consiste na dissecção e observação de um corpo morto, dos seus órgãos e estruturas internas (nervosas e ósseas). A necropsia ou exame post-mortem, serve para verificar se o cadáver apresenta lesões causadoras da sua morte, ou se os seus órgãos apresentam indícios de inflamação, descoloração e corrosão, resultante de doença orgânica, virológica, intoxicação ou envenenamento. Desde a Antiguidade pré-clássica que se reconhece a importância da prática necrópsica para o desenvolvimento do conhecimento anatómico do corpo humano e das suas estruturas internas. A autópsia deixou de ser apenas uma técnica para fornecer aos médicos a causa da morte, tornando-se num método de investigação para conhecer a natureza da doença diagnosticada, ou para documentar uma patologia totalmente desconhecida.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Charneco do Algarve

Nestes dias de primavera, perfumados pelas flores e pelo bulício da natureza, que em tudo desponta e renasce, quedei-me a observar duas pegas-azuis que no meu jardim se envolveram em suposta disputa nupcial. Despertaram-me da letargia do pensamento, por duas razões: faziam um atrupido insolente e desagradável em aves tão belas e graciosas, e saltavam da relva para os arbustos em acesa discussão. Não sei se era uma peleja de machos ou se, ao invés, uma conquista do amor, que entre as aves assume, às vezes, o semblante de uma pugna preludial de acasalamento.
Charneco, Pega-azul ou Rabilongo
Faltou-me a presença do meu amigo Dr. Paulo Rosa, respeitável causídico do foro jurídico, e esclarecido estudioso da fauna e da flora algarvia, para me instruir sobre o comportamento das aves. Lembrei-me dele, assim de repente, porque no seu último livro, O Perfume da Esteva, publicou um elucidativo poema intitulado «À Cyanopica cyanus», designação científica da Pega-azul, no qual descreve as particularidades comportamentais desta ave, nativa da China, Mongólia e Japão. Presumo que a sua introdução na península ibérica tenha ocorrido no século XVI, por iniciativa dos mareantes portugueses envolvidos no tráfego do oriente asiático. Não há outra explicação, porque só existem pegas-azuis em Portugal, Espanha e na Ásia. Pode, por isso, considerar-se como espécie invasora, embora tolerada e bem acolhida, pela razão de ter sido introduzida por mão humana. É possível até que na era quinhentista da colonização asiática, a pega-azul fosse considerada como uma ave ornamental e de estimação doméstica, treinada para companhia e distração das damas na paz soturna dos seus lares.
Pega-azul versus pega-rabuda
À família das corvídeas pertencem duas espécies, quase semelhantes: a pega-azul e a pega-rabuda. A primeira é, sem dúvida, uma das mais belas da avifauna algarvia, também designada por “rabilongo”. É mais delgada de corpo, e exótica de cores, do que a sua prima, a Pega-rabuda, cuja metálica plumagem negra e branca nunca lhe concitou a simpatia popular. Os corvos e as pegas-rabudas são companheiras de cemitério, e no seu emplumado luto pressagiam mau-agouro. Certas megeras que adivinham o futuro, concertam maleitas e desavenças conjugais, costumam compor o tétrico cenário do seu “consultório” com uma pega-rabuda e um corvo “destravado” (adestrado para emitir “sons do outro mundo”), cujo negrume da plumagem se assemelha aos gatos-pingados dos antigos velórios e cortejos fúnebres. Perante este lúgubre quadro cénico, as “consulentes” sentem-se sugestionadas pelas trevas da morte, deixando-se imbuir pela obscuridade do mistério. Tudo a condizer com o embuste da ilusão.
No Algarve, a deslumbrante pega-azul das cortesãs nipónicas, recebeu sabe-se lá porque bulas, o plebeu epíteto de “charneco”. Não gosto nada dessa rude designação, até porque me faz lembrar os pobres ceifeiros da Beira Baixa, que atrás do seu “menageiro” seguiam em pesaroso rancho para as searas, afim de ganharem o seu magro “quinhão”. A esses miseráveis sobreviventes da medieval servidão da gleba, chamavam-lhes “charnecos”, talvez por esgravelharem o pão na charneca dos montados alentejanos. Também lhes chamavam “sertainhos”, ignorando-se a origem desse epíteto, que alguns presumem relacionar-se com os naturais da vila da Sertã.
Charneco algarvio
É uma ave belíssima, reconhecível pela sua longa cauda e asas azuladas, pela tonalidade ocre do seu corpo altivo, e pelo pescoço de cor pérola a que se sobrepõe uma cabeça preta, de que ressaltam dois olhos negros e perscrutantes.
Deve a designação de “Rabilongo” à sua cauda comprida, que lhe serve de leme nas difíceis manobras de voo. Costumo vê-las em grandes bandos, na mata do Ludo junto à Universidade do Algarve, facilmente identificáveis pela cauda rabilonga, sobretudo pelo estridente grasnar que, emitido em grupo, soa de forma estridente e pouco agradável. Tendo-se adaptado bem ao clima e ao ambiente, a pega-azul é um corvídeo residente e visível todo o ano, nas zonas de influência mediterrânica do interior centro e sul do país. Nos montados de sobreiro, nos pinhais e olivais do Baixo Alentejo e litoral do Algarve, proliferam numerosos bandos de pegas-azuis, por ser onde encontra alimento fácil e condições propícias à nidificação.
Ninho da Pega-azul ou Charneco do Algarve
No início da Primavera, em Abril-Maio, formam-se os casais para construir o ninho, feito de ervas secas calafetadas de lama, no cimo das azinheiras ou na frondosa copa dos pinheiros mansos, onde põe 5 a 7 ovos, pintalgados como os das codornizes, incubados pela fêmea durante 15 dias, de forma ininterrupta. Os machos zelam pela sua segurança e alimentação, num louvável trabalho de equipa. Como são aves gregárias, fazem os ninhos ao lado umas das outras, em verdadeiras colónias, onde a intrusão de predadores é facilmente combatida e rechaçada pelo grupo nidificante. E são tão agressivas que nem os gaios, os mochos galegos ou as aves de rapina se aproximam dos seus ninhos.
A presença da pega-azul é vantajosa para as outras aves e animais da floresta, visto que reagem com estridente alarme ao aparecimento de predadores, que cercam ou perseguem, denunciando a sua camuflada presença e impedindo o seu ataque furtivo. Já vi duas pegas-rabudas a atacarem um falcão que havia capturado um pombo, até que este o libertou. Há quem tenha visto ao cair do dia, nos montados alentejanos, as pegas a mergulhares em voos rasantes e estridentes sobre os predadores mais vorazes da noite, como as raposas, ginetas, doninhas, texugos e gatos bravos, que buscam alimento nas luras e troncos dos chaparros. Na maioria das vezes cercam-nos, ou perseguem-nos, grasnando estridulamente, até que se afastem para fora das suas zonas de nidificação.
Alimenta-se sobretudo de insetos, mas no Outono sustenta-se com bagas e sementes. É considerada como ave muito inteligente, capaz de engendrar ataques organizados em grupo contra os seus predadores. Parece ser também senciente, porque cuida dos fracos e doentes do grupo, fornecendo-lhes alimento, proteção e amparo.
Charneco do Algarve
Há quem lhe chame pássaro azul e até quem a confunda com o gaio. Mas é muito diferente, embora sejam ambas aves estritamente selvagens, que por razões de acessibilidade de alimento vão sendo cada vez mais observáveis nos mais amplos jardins urbanos. A pega-azul habituou-se ao convívio humano por causa do lixo urbano, franqueado ao oportunismo das espécies selvagens, que cada vez mais se vão familiarizando com o espaço citadino, onde são observadas com simpatia e até alguma proteção.
A pega-azul é considerada uma ave das monoculturas, sobretudo de árvores frutíferas, onde busca alimento de frutas doces, tendo no Algarve como pasto preferencial o figo, a nêspera, a ameixa e as uvas. A sua presença na proximidade dos pomares indicia graves prejuízos, por deixar os frutos bicados em progressivo e contagiante apodrecimento. É por isso que os fruticultores, para as afastar, recorrem a meios e estratégias de cruel eficácia.
Termino este breve apontamento sobre a avifauna algarvia, com o qual pretendi enaltecer a beleza, o altruísmo e a coragem da pega-azul, transcrevendo aqui o poema realista que o Dr. Paulo Rosa dedicou ao emblemático “charneco” algarvio. Serve também de homenagem ao causídico e ao poeta, que na sua vila de Monchique se tem dedicado à preservação do ambiente natural e ao equilíbrio ecológico da serra algarvia.

 À Cyanopica cyanus

Pega azul charneco ou rabilongo
Muito nome em pouca geografia
Quase lhe basta um quadrado do Rectângulo
Para merecer todo mandatar em bastonato
Se humana vida ou alada ronda o berço
Convoca a grito os pares da vizinhança
Que acorrem pressurosos qual bombeiros
De farda azul, camisa ocre e alva, boina preta
Cauda extensa que no ar é leme e trava
A extinguir a grasnados, voos rasantes e bicadas
O foco de ameaça sirenada.

Seis ou sete choca no berçário
Ovos em que um ou nenhum gora
Em três semanas mais dia menos hora
Têm nêsperas, figo lampo e ameixa, o seu calvário.

 

Saber mais…

Aqui ficam algumas referências dignas de credível leitura:

Canário, F. & Marin, J.M. 1999. «Pega-Azul Cyanopica cyanus. Uma Espécie com um Sistema de Cria Cooperativa», in Beja, Actas do II Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, SPEA, Lisboa.

Sacarrão, G.F. 1974. «Acerca de Alguns Aspectos Problemáticos da Ecologia Geográfica de Cyanopica cyanus (Palias) (Aves: Corvidae)», in Estudos da Fauna Portuguesa, nº 1, pp. 1-88

Pedro Miguel Guimarães Cardia Lopes. A Distribuição Mundial da Pega-Azul (Cyanopica cyanus). Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2002.

José Carlos Vilhena Mesquita