quinta-feira, 11 de junho de 2026

Jardim Episcopal de Castelo Branco, uma joia do barroco português

Primeiro patamar ou "jardim do buxo"
Quando no século XIX o romantismo histórico se deixou influenciar pelas ideias naturalistas dos bons ares, da higiene física e do termalismo, construíram-se nas principais capitais europeias majestosos jardins para devaneio da burguesia e recreação das elites. É rara a capital de distrito que não tem belo jardim municipal onde se pode respirar, passear, conviver, descansar ou simplesmente estanciar à sombra de uma árvore secular, de uma odorífera magnólia, de uma frondosa japoneira ou de um perfumado caramanchão de jasmineiros.
Porém, no século anterior, em pleno barroco joanino, as dioceses mais ilustradas e opulentas começaram a erigir jardins de oliveiras, mesclados com olorosos roseirais, numa clara alusão ao monte Getsemani, onde Jesus orou com seus discípulos, na véspera da sua crucificação. Outros antistes preferiram recriar o Jardim do Éden, com árvores frondosas importadas dos paraísos orientais, cujos frutos e sementes atraem aves canoras e de ornato, como o pavão, cuja cintilante plumagem encanta o mais insensível amante destes belos recantos da natureza. Bordejando as idílicas sombras deparamo-nos com geométricos lagos e artísticos repuxos de água, com carpas vermelhas, e até alguns animais exóticos de terna convivência.
O jardim é votado a S. João Evangelista,
embora a primeira estátua seja S. Miguel 
Foi um desses jardins, inspirado num modelo edénico e bíblico, que o bispo da Guarda, D. João de Mendonça, mandou construir em Castelo Branco, entre 1720 e 1726, certamente sugestionado pelos vergéis idílicos que presenciara durante os três anos que viveu na cúria romana. É possível que o autor deste singular jardim episcopal tenha sido um arquiteto italiano, que o citado bispo contratasse em Roma, para recriar no nosso país, aquela pérola do barroco naturalista. Os custos, certamente elevados, compaginavam-se com o fausto da corte joanina, então no seu auge, mercê dos avultados quintos auríferos do Brasil.
O jardim foi consagrado a São João Baptista, sendo atualmente a mais notável e resplandecente joia da nossa arquitetura paisagística. A massa arbustiva e arbórea, sobretudo os dédalos de buxo esculpido em harmoniosas figuras geométricas, encontra-se hoje decorado com pequenos lagos de fino recorte artístico, a par de centenas de estátuas (nem todas de artístico bom-gosto) da autoria de santeiros locais. O jardim e o edifício adjacente (hoje museus), serviam de estância de veraneio aos bispos da Guarda, mas no consulado pombalino, em 1771, passaram para a posse da recém-criada diocese de Castelo Branco.
Escadaria dos Reis, ao cimo está D. Afonso Henriques
O jardim em si possui três patamares diferentes, o mais baixo junto do portão de entrada é dominado pelo buxo, um arbusto de verde viçoso com eflúvios de flores vermelhas. A madeira de buxo é resistente, mas macia, sendo por isso usada em alfaias agrícolas e até na estatuária sacra. A sua ramagem é fácil de recortar em artísticos desenhos trapezoidais, sendo por isso muito usado nos jardins de aparato mais famosos do mundo.
Ascende-se por uma escadaria ao patamar central, que é o mais amplo, onde se destacam as árvores de jardins, sobretudo laranjeiras bravas. Chamam a este espaço o “jardim alagado” por causa dos cinco pequenos lagos, no interior dos quais se destacam os geométricos canteiros de flores que lhe dão a graça e a beleza do barroco italiano. O “lago das coroas”, situado à esquerda, com três colunas de repuxos encimadas por coroas reais, são de uma retumbante beleza artística, representativos das três dinastias nacionais, visto que a quarta dinastia, a dos Braganças, ainda não existia no tempo em que o jardim foi construído.
Escadaria dos Apóstolos
O mais apelativo aos olhos do visitante é a escadaria, dividia em dois segmentos ascendentes com um pequeno pátio ao meio, que dá acesso ao “Lagos das Coroas”. Ambos se encontram bordejados de estatuária. O da esquerda é a chamada “Escadaria dos Reis”, e o da direita é a “Escadaria dos Apóstolos”, cujas estátuas terão pouco mais de um metro de altura. Conhecendo a vida dos apóstolos percebe-se pelos símbolos do seu martírio que não correspondem ao nome indicado. Isso acontece também com outras estátuas cujos nomes estão trocados.
Confesso desconhecer a identidade do escultor, ou do mestre canteiro, de casa uma delas, sendo que em tempos se alvitrou serem da autoria do Aleijadinho (António Francisco Lisboa, 1738-1814), o que julgo ser um absoluto disparate, não só porque o famoso escultor nunca saiu de Minas Gerais, de onde era natural, como também pelo seu traço artístico, que era muto mais perfeito do que o das estátuas do jardim episcopal de Castelo Branco.
Patamar do "jardim alagado"
A escadaria dos reis, composta por dezasseis estátuas representativas das duas primeiras dinastias, termina com D. Sebastião, sendo que a 3ª dinastia, a Filipina, se encontra representada num varandim lateral, com os monarcas esculpidos em tamanho reduzido. É a chamada ala dos “reis intrusos”, composta pelos Filipes, pelo cardeal D. Henrique e pelo D. António Prior do Crato.
Ocupando o lado direito deste patamar encontra-se o magnífico lago dos jogos de água (laghi di giochi), certamente de feitura italiana, que é uma verdadeira preciosidade no contexto artístico europeu dos jardins de aparato.
Panorâmica do patamar central
No último patamar deparamos com um lago de surpreendentes dimensões, que julguei ter sido a piscina dos clérigos, ou talvez um reservatório destinado a aquacultura piscícola, para fins lúdicos e de alimentação da mitra bispal. Disseram-me, porém, que servira como reservatório de água para regar os jardins, embora se soubesse que o bispo, por vezes, nele se divertisse a remar uma pequena canoa.
Em suma, o jardim episcopal de Castelo Branco não fica atrás de outros que se conhecem pelo seu grande prestígio nacional, como é o caso dos que existem nos palácios de Queluz, da Ajuda, de Mafra, de Belém, do Bussaco, e de Mateus em Vila Real; embora reconheçamos que não se pode comparar com a majestosidade dos de Monserrate, de Serralves, no Porto, do Palácio de Fronteira, em Lisboa, da Quinta da Regaleira, em Sintra, da Quinta do Palheiro, no Funchal e do Parque Terra Nostra, nas Furnas, Açores, que são de maior dimensão, de maior diversidade botânica e de maior riqueza arbórea. Em todo o caso, é motivo de orgulho e positivo espanto a beleza artística do Jardim Episcopal de Castelo Branco, cuja visita recomendo vivamente a todos os que se orgulham do nosso património natural e paisagístico.