| Primeiro patamar ou "jardim do buxo" |
Porém, no século anterior, em pleno barroco joanino, as dioceses mais ilustradas e opulentas começaram a erigir jardins de oliveiras, mesclados com olorosos roseirais, numa clara alusão ao monte Getsemani, onde Jesus orou com seus discípulos, na véspera da sua crucificação. Outros antistes preferiram recriar o Jardim do Éden, com árvores frondosas importadas dos paraísos orientais, cujos frutos e sementes atraem aves canoras e de ornato, como o pavão, cuja cintilante plumagem encanta o mais insensível amante destes belos recantos da natureza. Bordejando as idílicas sombras deparamo-nos com geométricos lagos e artísticos repuxos de água, com carpas vermelhas, e até alguns animais exóticos de terna convivência.
| O jardim é votado a S. João Evangelista, embora a primeira estátua seja S. Miguel |
O jardim foi consagrado a São João Baptista, sendo atualmente a mais notável e resplandecente joia da nossa arquitetura paisagística. A massa arbustiva e arbórea, sobretudo os dédalos de buxo esculpido em harmoniosas figuras geométricas, encontra-se hoje decorado com pequenos lagos de fino recorte artístico, a par de centenas de estátuas (nem todas de artístico bom-gosto) da autoria de santeiros locais. O jardim e o edifício adjacente (hoje museus), serviam de estância de veraneio aos bispos da Guarda, mas no consulado pombalino, em 1771, passaram para a posse da recém-criada diocese de Castelo Branco.
| Escadaria dos Reis, ao cimo está D. Afonso Henriques |
O jardim em si possui três patamares diferentes, o mais baixo junto do portão de entrada é dominado pelo buxo, um arbusto de verde viçoso com eflúvios de flores vermelhas. A madeira de buxo é resistente, mas macia, sendo por isso usada em alfaias agrícolas e até na estatuária sacra. A sua ramagem é fácil de recortar em artísticos desenhos trapezoidais, sendo por isso muito usado nos jardins de aparato mais famosos do mundo.
Ascende-se por uma escadaria ao patamar central, que é o mais amplo, onde se destacam as árvores de jardins, sobretudo laranjeiras bravas. Chamam a este espaço o “jardim alagado” por causa dos cinco pequenos lagos, no interior dos quais se destacam os geométricos canteiros de flores que lhe dão a graça e a beleza do barroco italiano. O “lago das coroas”, situado à esquerda, com três colunas de repuxos encimadas por coroas reais, são de uma retumbante beleza artística, representativos das três dinastias nacionais, visto que a quarta dinastia, a dos Braganças, ainda não existia no tempo em que o jardim foi construído.
| Escadaria dos Apóstolos |
O mais apelativo aos olhos do visitante é a escadaria, dividia em dois segmentos ascendentes com um pequeno pátio ao meio, que dá acesso ao “Lagos das Coroas”. Ambos se encontram bordejados de estatuária. O da esquerda é a chamada “Escadaria dos Reis”, e o da direita é a “Escadaria dos Apóstolos”, cujas estátuas terão pouco mais de um metro de altura. Conhecendo a vida dos apóstolos percebe-se pelos símbolos do seu martírio que não correspondem ao nome indicado. Isso acontece também com outras estátuas cujos nomes estão trocados.
Confesso desconhecer a identidade do escultor, ou do mestre canteiro, de casa uma delas, sendo que em tempos se alvitrou serem da autoria do Aleijadinho (António Francisco Lisboa, 1738-1814), o que julgo ser um absoluto disparate, não só porque o famoso escultor nunca saiu de Minas Gerais, de onde era natural, como também pelo seu traço artístico, que era muto mais perfeito do que o das estátuas do jardim episcopal de Castelo Branco.
| Patamar do "jardim alagado" |
A escadaria dos reis, composta por dezasseis estátuas representativas das duas primeiras dinastias, termina com D. Sebastião, sendo que a 3ª dinastia, a Filipina, se encontra representada num varandim lateral, com os monarcas esculpidos em tamanho reduzido. É a chamada ala dos “reis intrusos”, composta pelos Filipes, pelo cardeal D. Henrique e pelo D. António Prior do Crato.
Ocupando o lado direito deste patamar encontra-se o magnífico lago dos jogos de água (laghi di giochi), certamente de feitura italiana, que é uma verdadeira preciosidade no contexto artístico europeu dos jardins de aparato.
| Panorâmica do patamar central |
No último patamar deparamos com um lago de surpreendentes dimensões, que julguei ter sido a piscina dos clérigos, ou talvez um reservatório destinado a aquacultura piscícola, para fins lúdicos e de alimentação da mitra bispal. Disseram-me, porém, que servira como reservatório de água para regar os jardins, embora se soubesse que o bispo, por vezes, nele se divertisse a remar uma pequena canoa.
Em suma, o jardim episcopal de Castelo Branco não fica atrás de outros que se conhecem pelo seu grande prestígio nacional, como é o caso dos que existem nos palácios de Queluz, da Ajuda, de Mafra, de Belém, do Bussaco, e de Mateus em Vila Real; embora reconheçamos que não se pode comparar com a majestosidade dos de Monserrate, de Serralves, no Porto, do Palácio de Fronteira, em Lisboa, da Quinta da Regaleira, em Sintra, da Quinta do Palheiro, no Funchal e do Parque Terra Nostra, nas Furnas, Açores, que são de maior dimensão, de maior diversidade botânica e de maior riqueza arbórea. Em todo o caso, é motivo de orgulho e positivo espanto a beleza artística do Jardim Episcopal de Castelo Branco, cuja visita recomendo vivamente a todos os que se orgulham do nosso património natural e paisagístico.