quarta-feira, 31 de março de 2010

A Páscoa no Algarve

José Carlos Vilhena Mesquita

Desenraizado das tradições histórico-etnográficas, o Algarve bem se pode queixar do seu turismo estereotipado, que paulatinamente lhe foi esbatendo a riqueza do seu folclore e a fé das suas seculares manifestações religiosas. Deste modo se foram perdendo muitas procissões e romarias, algumas até de carácter profano, que hoje não só lhe dariam uma certa homogeneidade cultural, como ainda por certo constituiriam um forte atractivo turístico na região. E não se pense que o fraco espírito religioso dos Algarvios é hoje o mesmo dos seus antepassados, pois que o contrario se atesta pelas largas dezenas de templos que cobrem a orla litoral. Aliás, outra coisa não seria de esperar numa região totalmente virada para o mar, histórica e economicamente dependente das fainas marítimas, que desde sempre foram temerariamente exercidas por frágeis embarcações a remos ou à vela, de entre as quais se destaca o tradicional e famoso caíque de Olhão, que após a revolta contra os Franceses atravessou em 1808 o Atlântico e para dar tão heróica boa-nova à Família Real, então refugiada no Brasil.
As próprias armações do atum, que nesta província tornaram universalmente conhecidas e apreciadas as nossas conservas (já hoje inexistentes devido ao afastamento dos tunídeos da costa algarvia), foram em tempos alvo de manifestações religiosas interessantíssimas, às quais quase sempre não era estranha a presença do Bispo da diocese. Certas cidades como Tavira, Faro, Portimão e Lagos tiveram em tempos várias procissões anuais que atraíam às sedes dos concelhos muitos milhares de fiéis, algumas das quais espontaneamente organizavam feiras, tudo contribuindo em larga escala para o engrandecimento do comércio local. Mas o progresso foi delapidando as tradições e a religiosidade do povo (materializado por outros ideais talvez menos consentâneos à nossa gente), encerrando-se as igrejas, votando-as ao abandono e à ruína, ao mesmo tempo que as manifestações de âmbito nacional perdiam igualmente o seu carácter conglomerante de outrora.

Do jejum ao baile no terreno das igrejas

Nesta ordem de ideias se encontra a festa principal da Igreja, a Páscoa, que, apesar de nalgumas regiões do País assumir características muito especiais, como é exemplo o Minho, nem por isso se pode afirmar que no Algarve elas eram desprovidas daquele brilho, compenetradamente triste e desolador, da Semana Santa, com todas as suas procissões e rituais religiosos que há séculos lhe andam ligados.
No Algarve a festa pascal apresenta algumas diferenças etnográficas entre a serra e o litoral. No interior, onde as populações rurais viviam com maior dificuldade, e muitas vezes sem o apoio religioso minimamente indispensável, apenas prevalecia a prática do jejum nos dias santificados e a realização de pequenos bailes no terreiro da igreja no próprio Domingo de Páscoa. Nesse dia comia-se um pouco melhor, geralmente uma peça de carne de porco, carneiro ou, no pior dos casos, um frango; os doces só se faziam nas casas abastadas e resumiam-se à tradicional doçaria de amêndoa e figo. No litoral, a tradição era bastante mais rica. Faziam-se procissões na Semana Santa, pagavam-se as promessas, guardava-se jejum nos dias próprios, faziam-se oferendas, etc... No Domingo de Páscoa davam-se grandes festas nas casas ricas dos comerciantes e industriais, comia-se borrego ou carneiro assado, reunia-se a família e realizavam-se alguns jogos tradicionais. Em matéria de doçaria faziam-se os folares de mel, bolos finos de amêndoa delicadamente decorados, bebiam-se vinhos generosos das regiões de Lagos e Tavira, para além dos acostumados bailes nas sociedades recreativas e clubes populares.

A procissão das Tochas

No âmbito destas tradições, profundamente religiosas, assume particular destaque a Procissão das Tochas realizada, no dia de Páscoa, em S, Brás de Alportel, a qual tem na sua essência a comemoração de um dos mais heróicos acontecimentos históricos do Algarve: a expulsão pela confraria dos moços solteiros das tropas inglesas comandadas pelo duque de Essex, que em Julho de 1596 saquearam a cidade de Faro e o seu termo. A procissão percorre as ruas da vila enquanto o povo acompanhante grita em uníssono: «Aleluia. Cristo ressuscitou como disse, aleluia, aleluia, aleluia». No final, as “tochas”, que consistem em simples hastes coloridamente decoradas com flores, são prostradas na calçada formando um vasto tapete florido sobre o qual o sacerdote caminha ao mesmo tempo que empunha o Santíssimo. Em seguida, o prior celebra uma missa campal à qual assistem milhares de fiéis, na mais completa devoção. Ultimamente tem-se realizado um concurso para apuramento das mais belas tochas da procissão, o que se acentua apenas por constituir uma estratégia para a conservação do património etnográfico daquela bela e acolhedora vila serrana.
Em suma, as tradições da Páscoa Algarvia sempre foram ténues e hoje são quase inexistentes, à parte uma ou outra procissão da Semana Santa, que ainda se realiza em Faro, e a tão celebrada Procissão das Tochas, em S. Brás de Alportel, à qual nos referimos já nestas colunas.

(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 22-04-1984)

segunda-feira, 15 de março de 2010

As origens e desenvolvimento do Ensino em Faro

José Carlos Vilhena Mesquita

O ensino em Portugal possuiu, desde as suas mais remotas origens, uma inspiração religiosa a que não era estranho o acesso que, desse modo, se veiculava para a vida eclesiástica. São por demais conhecidas as escolas monásticas ou conventuais da Idade Média, que em Alcobaça, Coimbra e Lisboa, tiveram os seus expoentes de prolixidade e sucesso, formando um corpo de magistrados, legisladores e juristas, responsáveis pela construção do Estado de direito que, paulatinamente, se ergueu no tempo e disseminou os seus valores culturais e linguísticos pelos quatros cantos do globo. A fundação dos Estudos Gerais, em que se enraizou o ensino universitário, surgiu como reflexo da necessidade de aumentar os conhecimentos e a preparação cívica daqueles que, não pertencendo à classe religiosa, se ofereciam para servir na administração pública e, principalmente, na defesa dos direitos que aos cidadãos consignavam as Ordenações do Reino.
Não restam hoje quaisquer dúvidas, nem oferece contestação afirmar-se que são intrinsecamente religiosas as origens do ensino em Portugal. E se nos primeiros tempos cabia aos Dominicanos, Beneditinos, Agostinianos e a outras ordens religiosas a missão de educar e de preparar tanto os novos quadros da Igreja como os do próprio aparelho de Estado, o certo é que a partir de meados do século XVI esse papel passou, quase exclusivamente, para as mãos dos Jesuítas. O ensino tornara-se praticamente monopólio dos inacianos, que para seu benefício e serviço fundaram a Universidade de Évora no local e edifício que ainda hoje, reabilitado e despojado dos vícios de outrora, serve os actuais objectivos de formar as gerações vindouras no espírito científico e na liberdade crítica.
O ponto de viragem estabeleceu-se no consulado do Marquês de Pombal, cuja reforma do ensino constitui a pedra basilar do nosso actual sistema. A expulsão dos Jesuítas obrigou aquele estadista a repensar toda a organização do processo educativo operando, a partir de 1759, uma reforma que tinha algumas parecenças com a administração pública, já que atribuía a todas as cidades e principais vilas do reino uma escola de «aprender a ler, escrever e contar». E neste âmbito não fez discriminações, porque não só estendeu o ensino às colónias, como até instituiu escolas públicas femininas, o que constituía uma atitude de renovação e progresso mental.
O ensino secundário, se assim se lhe pode chamar, não tinha grandes semelhanças com a actualidade, já que era uma espécie de preparatórios para a Universidade. Consistia na leccionação das cadeiras de Gramática Latina, Língua Grega, Retórica e Filosofia, para cuja efectivação se fundaram as competentes escolas nas cidades mais populosas ou nas que fossem cabeça de Comarca. A reforma só teve verdadeira concretização já no declinar do consulado pombalino, precisamente na altura em que a Universidade de Coimbra recebia os seus modernos Estatutos, verdadeiro monumento do ensino cientifico, que colocava o nosso país ao lado das nações mais progressistas da Europa. A filosofia educativa que inspirara o pombalismo fundamentava-se na criação de um ensino estatal e laico, em cuja imagem e semelhança se perfilariam, até hoje, as principais revisões do aparelho e do sistema educacional.
A partir de 1759 assistiu-se a uma lenta implementação do processo que deu origem a sucessivas colocações de professores, atribuição de novas escolas e, diga-se em abono da verdade, muita incongruência, insatisfação e algum desalento. Por isso é que só em 1773 a cidade de Faro teria, completo e preenchido, o seu quadro de professores, cujo elenco, só por curiosidade, aqui se enuncia: Ler, Escrever e Contar: António José Rodrigues; Gramática Latina: João dos Santos de Proença Capinhão; Língua Grega: Dimas Tadeu; Retórica: José Feliciano Coelho; Filosofia Racional: José Ferreira Cidade.
O ordenamento educativo do Algarve ficaria completo em 1779, mas já sob o domínio da «viradeira» que inspirou o reaccionarismo do governo mariano. Para inflectir a situação e esbarrondar o projecto pombalino, entregou-se o ensino aos conventos de religiosos existentes nas respectivas comarcas. Daí os conventos de Faro se encarregarem da Filosofia Racional e da Gramática Latina, enquanto que os franciscanos de Lagos, Portimão, Monchique, Silves e Loulé, assim como os paulistas de Tavira, asseguraram não só a Gramática Latina, como ainda a administração das primeiras letras.
Com implantação do regime liberal, constitucional e parlamentar, os objectivos pombalinos voltaram a inspirar o espírito reformista que presidiu aos novos destinos do ensino em Portugal. Em 1836, com o advento do «Setembrismo» e sob a batuta ministerial de Manuel da Silva Passos, procedeu-se ao reordenamento educativo da nação, do qual ressaltam os Liceus Nacionais, as Escolas Médico-Cirúgicas, as Escolas Politécnica de Lisboa e do Porto, o Conservatório de Arte Dramática, as Academias de Belas Artes de Lisboa e do Porto, a Escola do Exército, etc. Nunca se tinha ido tão longe numa reforma educativa. E o princípio inspirador continuava a ser o mesmo: estatal e laico, como o propusera Pombal.
Ainda assim, o Liceu de Faro só abriria as suas portas em 1849, para dois anos depois receber da Rainha D. Maria II a carta legitimadora da sua fundação. Daí por diante, assiste-se em Faro à fundação das escolas de Desenho Industrial Pedro Nunes, a Escola Primária Superior, a Escola Normal Superior, a Escola Comercial e Industrial Tomás Cabreira, o Magistério Primário, a Escola de Hotelaria e Turismo, o Instituto Politécnico e a Universidade do Algarve. Por elas passaram sucessivas gerações e nelas adquiriram a sua formação de base muitos dos principais quadros técnicos e intelectuais de que o Algarve se pode hoje orgulhar.
A par dessas escolas de grande projecção, outras existiram certamente mais humildes, mas nem por isso menos importantes. É por essa razão que não devemos esquecer, as filantrópicas iniciativas particulares (de maçons e republicanos) em torno da chamada «educação popular», de que foram exemplo os Centros Republicanos, onde pontificaram alguns vultos locais das lutas pela emancipação feminina, como Maria Veleda ou Inácia Anes Baganha; a Universidade Popular do Algarve, fundada por iniciativa do Dr. José Dentinho e propalada pelo Dr. Francisco Fernandes Lopes, na qual se pronunciaram brilhantes conferências e até se ministraram cursos livres; o Círculo Cultural de Camões, que serviu de refúgio e camuflagem a alguns elementos da «Resistance Française», como Lionel de Roulet, Heléne de Beauvoir e até mesmo sua irmã, a escritora Simone de Beauvoir, que veio a Faro proferir uma palestra a convite do Círculo; o seu sucedâneo Instituto da Alliance Française, que julgo ainda subsistir, embora com muitas dificuldades; o Círculo Cultural de Faro, que é de todos o que maiores tradições guarda de uma subtil luta pela emancipação intelectual das classes trabalhadoras contra o «Estado Novo» e o regime Salazarista, cuja fabulosa biblioteca e a própria instituição correm o risco de desaparecer na voragem do desinteresse geral; os Colégios particulares Farense e Algarve, este ainda em actividade; e, por fim, a mais recente de todas as iniciativas particulares, em benefício da educação e no espírito do ensino livre, que é a Universidade do Algarve para a Terceira Idade, que sem apoios significativos nem instalações próprias vai sobrevivendo com muitas dificuldades, razão pela qual se tornou digna do maior apreço social, não só pela sã convivência e alegre confraternização que se manifesta entre todos os alunos, como ainda pela divulgação dos conhecimentos, que de vários quadrantes científicos são ali transmitidos aos seus alunos.
Em desenvolvida análise, obviamente muito mais haveria para explanar e enaltecer neste breve rol de instituições que serviram e desenvolveram, nas suas natura limitações, a formação educativa e cultural do Algarve. Mas, em síntese, basta tocar-lhes, ainda que ao de leve, para que ressaltem da poeira dos tempos, sem que percam a patine da História.

terça-feira, 9 de março de 2010

Uma Quarteirense que Camões Amou

Em 1980 assinalou-se o 4º Centenário da morte do maior vate da Língua portuguesa. Porém, perdeu-se então a oportunidade de, através de uma singela placa evocativa, se perpetuar a existência no Algarve da casa que foi berço a D.a Francisca de Aragão, considerada como a musa inspiradora dos Lusíadas. O edifício, na praia de Quarteira, denominada «Estalagem da Cegonha», foi, no século XVI, residência de Nuno Rodrigues Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da Fazenda do Algarve, pai da «loira, viva, esperta e azougada» Francisca de Aragão. Foi nessa vetusta casa apalaçada do morgadio dos Barretos, que nasceu a formosa Francisca de Aragão, que viria a ser figura de proa nas cortes de Portugal e de Espanha. Trata-se de um assunto pouco conhecido sobre uma jovem algarvia, originária da distinta família dos Barretos, que pontificou na corte portuguesa nos finais do século XVI, no período de transição da perda da nacionalidade para a dominação filipina, cuja descendência foi também eminente na vizinha Espanha.

terça-feira, 2 de março de 2010

Vila Real de Santo António no I centenário do seu Fundador

Estudo relativo às comemorações do I Centenário do Marquês de Pombal, realizadas em 1882, as quais tiveram no Algarve forte repercussão em Vila Real de Santo António, cuja fundação no séc. XVIII se deve inteiramente à política de fomento das Pescas implementada por aquele grande estadista. Este estudo foi publicado na revista «Património e Cultura», n.º 9, Vila Real de St.º António, 1983, pp. 9-17.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Quem foi Silvio Pellico? Um Herói? Um Traidor?

Este estudo sobre a vida e obra do célebre escritor italiano Silvio Pellico, foi publicado em 13/04/1982, no suplemento de «Cultura e Arte» do vespertino portuense «Comércio do Porto», por solicitação do meu saudoso amigo Prof. Doutor José Augusto Seabra, que no ano seguinte seria nomeado Ministro da Educação do IX Governo Constitucional, formado pelo então designado "Bloco Central", o qual vigorou entre 1983-1985.
A figura de Silvio Pellico é, ainda hoje, pouco conhecida em Portugal, sendo que na Itália é uma das figuras cimeiras do Romantismo oitocentista. O estudo que agora se coloca ao dispor dum público mais vasto é apenas uma visão de síntese de toda a problemática histórica que envolveu a vida daquele notável escritor italiano. Reedito-o em homenagem ao Prof. Seabra, falecido em 27-05-2004.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Esplendor renascentista no portico da Igreja de Moncarapacho


José Carlos Vilhena Mesquita


A lendária aldeia de Moncarapacho, pertencente ao concelho de Olhão, cuja origem se perde na longa noite dos séculos, pode orgulhar-se de possuir o mais belo pórtico renascentista de todo o Algarve. A sua beleza, associada à perfeição do estilo, rivaliza muito de perto com a extraordinária fachada da Misericórdia de Tavira, obra primorosa desse obscuro arquitecto que foi André Pillarte, a quem alguns estudiosos quiseram, igualmente, outorgar a autoria do pórtico de Moncarapacho. Pessoalmente, discordo dessa hipótese, visto que nessa altura aquele artista encontrava-se ainda na cidade do Gilão, a completar a sacristia, a casa dos despachos, e outras dependências pertencentes ao referido templo da Misericórdia. Mas isso são questões muito mais complicadas e que não cabem nesta pequena nota de carácter divulgativo, que tem apenas por objectivo chamar a atenção dos leitores para a riqueza do património cultural algarvio.
Assim, a igreja matriz de Moncarapacho, de cujo pórtico iremos falar, data da segunda metade do século XVI, e nesse mesmo local existiu em tempos uma simples capela romano-gótica, que, no século XV, cedeu o seu lugar a um mais amplo edifício da invocação de Santa Maria da Graça, cuja transformação e ampliação ocorreria um século depois, facto esse que facilmente se constata no interior do templo. As razões que motivaram esta adulteração prendem-se, por certo, com o crescimento económico e demográfico da freguesia, que através da construção de tão majestoso templo pretenderia, talvez, demonstrar o seu progressivo florescimento.

Largos rendimentos

Por outro lado, a devoção dos seus habitantes por Santa Maria da Graça originou a legação de avultados cabedais e propriedades aforadas, que por morte deixavam àquela igreja. Daí resultaram largos rendimentos, que se empregaram na ampliação do templo para o seu actual aspecto, assim como permitiram a aquisição de ricas alfaias, paramentos e belíssimas imagens, algumas delas hoje recolhidas no magnífico museu paroquial daquela freguesia.
Não esqueçamos, também, que para aqui vieram residir algumas famílias nobres que se haviam distinguido nas ferozes batalhas do Norte de África e na dura epopeia dos Descobrimentos. Este facto constituiu mais uma das razões do crescimento económico e populacional da freguesia. A título de exemplo, citaremos os solares, alguns deles já desaparecidos, dos Corte-Reais, dos Sárrias ou Sarres e Mendonças, dos Pessanhas, dos Tripauxos e de várias outras famílias de que já não reza a História.
Mas, descendo ao pormenor, devemos acrescentar que a fachada desta igreja deverá datar de 1551, e o seu estilo, como já afirmei, é nitidamente renascentista. E muito lamentamos que o Prof. Albrecht Haupt, considerado como suprema autoridade no renascentismo português, não tivesse conhecido este belo pórtico, pois que dele, por certo, iria tecer as mais favoráveis considerações, comparando-o, muito provavelmente, com outros da mesma espécie que gozam de maior fama.
Na verdade, a monumentalidade deste pórtico, associada à beleza escultórica dos soldados romanos vigiando, cenas da paixão de Cristo, encimadas pela imagem da Virgem sob um formoso baldaquino, no qual o Arcanjo Gabriel a saúda chamando-lhe «Cheia de Graça», levou o Dr. José Fernandes Mascarenhas, dedicado estudioso moncarapachense, a designá-lo de «arco de triunfo do velho e novo testamento em pedra».
A porta apresenta-se em arco de volta perfeita, despido de elementos decorativos, ladeado por duas pilastras, ornadas por elementos naturais estilizados, videiras, loureiros, heras e outros vegetais, desenvolvidos num espiral ascendente. Na base das pilastras vêem-se dois bustos em baixo relevo já muito desgastados. Os capitéis são jónicos e os ábacos emoldurados apresentam-se pouco ortodoxos. Os frisos interiores acham-se decorados em cada métopa com cenas da prisão e sacrifício de Cristo, vendo-se em pormenor alguns puxando cadeias ou empunhando chicotes de suplício. A arquitrave também se encontra decorada com elementos naturais, folhas de abacante e outras, em desenvolvimento horizontal. Na parte superior da cornija encontra-se uma espécie de frontão trapezoidal, ladeado pelas estátuas de S. Pedro e de S. João, tendo ao centro uma clarabóia circular, que talvez pretendesse imitar uma rosácea. Ao cimo, um baldaquino do tipo gótico, dentro do qual se acha a imagem de Nossa Senhora da Graça, que parece aguardar a chegada do anjo Gabriel, que está ao seu lado esquerdo.

Mescla de estilos

Contudo, o interior do edifício é uma mescla de Gótico e de Renascença, motivado pelas frequentes alterações de que foi alvo ao longo dos séculos. O arco da capela-mor data de 1581, e em estilo renascentista, assim como a abóbada terminal da nave do Evangelho. São também visíveis as reminiscências romano-góticas nos cunhais das cabeceiras, o que demonstra uma diferença de alturas, em tempos existente, entre as naves central e laterais. Observam-se também várias nervuras góticas nas capelas do Senhor dos Passos, de Santo António e das Almas. São igualmente góticos os arcos e as nervuras da capela do Calvário e por detrás da capela-mor vêem-se ainda as mísulas que possivelmente sustentavam a primitiva abóbada da abside gótica. Da ancestral ermida, provavelmente contemporânea da Sé de Faro, ainda permanecem visíveis um capitel e três bocetes de singela feitura.
À parte os elementos arquitectónicos, são ainda dignas de especial referência as pinturas do retábulo da Capela das Almas, representando o Purgatório, as da Capela do Calvário, onde se vê S. Gregório Magno que tem por insígnia um livro de música, e as da Capela de Santo António, cujas pilastras do arco frontal são de uma beleza rara. Os azulejos polícromos que recobrem as paredes destas capelas datam do século XVII e são esplendorosamente belos. O púlpito de pedra tem a forma de cálice, com uma copa octogonal, decorado com pinturas iguais às dos arcos da igreja, datadas do século XVIII.
Algumas das peças de estatuária desta e de outras igrejas encontram-se hoje a recato no magnífico Museu Paroquial, obra de dois grandes beneméritos locais, ao qual nestas mesmas colunas demos em tempos o devido destaque.


(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 10 de Julho de 1983)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Algarve e a Cortiça ou a ameaça de uma riqueza



José Carlos Vilhena Mesquita

Considerada desde há milénios como uma das principais riquezas naturais à flor da Terra, a cortiça deverá ser encarada no seu dualismo pragmático e económico. Assim, para os mais leigos no assunto, compete-nos informar que no nosso país, fundamentalmente na zona a sul do Tejo, produz-se mais de metade da cortiça mundial. A sua qualidade é, insofismavelmente, a melhor do mundo, fazendo deste produto natural a principal mercadoria do nosso comércio externo.
Como curiosidade, refira-se que cerca de metade do volume da cortiça é composto de ar que se encontra alojado em poliedros estanques revestidos de resina, os quais numa casca com 8 cm de espessura poderão cifrar-se em mais de 500 milhões de células. Devido a esta particularidade, a cortiça é indispensável como isolante do som e do calor, sendo, por isso, a sua aplicação múltipla e variada. Além do mais é levíssima, estanque, sem cheiro ou sabor, é elástica, resistente, impermeável e não é tóxica. Cientificamente, a cortiça (quercus suber) não é mais do que a camada suberificada das células protectoras do córtex da árvore e resulta de um meristema secundário que se radica na periferia do caule como se se tratasse da epiderme humana.
A árvore da cortiça é, como todos sabem, o sobreiro, que só começa a produzir a partir dos 20 anos de vida, e o seu habitat natural situa-se nas regiões arenosas, de terrenos profundos e soltos, com altitudes inferiores a mil metros, sob um clima de forte insolação do tipo mediterrâneo continental caracterizado por verões secos e Invernos rigorosos. A zona de implantação do sobreiro estende-se, por conseguinte, pela bacia mediterrânica e, numa escala decrescente, os principais produtores de cortiça são Portugal, Espanha, Argélia, Itália, Tunísia e França.

Produzirmos mais de metade dos valores mundiais

A área total da produção mundial anda à volta dos 2050 milhões de hectares e o rendimento anual é da ordem dos 400 mil toneladas, cujo valor comercial atingiu no ano transacto cerca de 500 milhões de dólares: Especificamente no nosso país, a área de exploração totaliza 656.200 hectares e a produção cifra-se em valores superiores a 200 mil toneladas anuais, o que equivale a dizer que produzimos mais de metade dos valores mundiais.
Refira-se, igualmente, que um sobreiro tem uma longevidade média de 150 anos e que, normalmente, dele não se consegue extrair mais de uma dúzia de «reproduções», se bem que a partir das cinco primeiras “tiradas” a qualidade da cortiça venha a diminuir progressivamente. Em média dum “chaparro” extrai-se pouco mais de uma arroba de cortiça, dum sobreiro cinquentenário obtemos o triplo e dum octogenário mais de 15 arrobas. As árvores descascadas tomam uma cor ferruginosa devido à oxidação dos tecidos em contacto com o ar, iniciando-se imediatamente o processo de recomposição que, por força da natureza, é, apesar disso, bastante lento, visto que só dali a nove anos é que estará em condições de poder sofrer idêntica operação.
A principal aplicação da cortiça situa-se ao nível da indústria rolheira, que absorve 65% de toda a cortiça vendida, senda de primordial qualidade as rolhas de champanhe produzidas nas nossas fábricas de Santa Maria de Lamas. Além disso a cortiça aplica-se na indústria do calçado, na construção civil, na indústria automóvel, nas artes plásticas, na decoração do lar, na caça, na pesca e no desporto em geral. Ultimamente, tomando em consideração a sua baixa combustibilidade, serve para forrar os tubos de ventilação dos submarinos nucleares, para transportar isótopos radioactivos a mais de 800º C, para protecção de naves espaciais e satélites de comunicação e, inclusivamente, foi há bem pouco tempo aplicada cortiça portuguesa como isolante térmico da camada externa da nave espacial «Columbia».

Os preços da arroba baixaram assustadoramente no mercado

Acontece, porém, que um dos problemas que mais afligem os agricultores da serra algarvia é a questão do tratamento e comercialização da cortiça. Fala-se, inclusivamente, de alguns casos em que se verificam situações de pré-ruína, visto que os preços da arroba da cortiça baixaram assustadoramente no mercado, a ponto de atingirem cotações inferiores àquelas que se verificavam em 1980.
Efectivamente, enquanto há dois anos atrás os industriais pagavam 1000$00 por arroba, hoje mostram-se relutantes em oferecer ao produtor 800$00 pela mesma quantidade de matéria-prima. Em contrapartida, os honorários a despender com o aluguer da força de trabalho especializada subiram em flecha, atingindo verbas praticamente incomportáveis. Atendendo a que no Algarve a exploração suberícola se processa nas regiões da serra interior, os custos de extracção da cortiça são substancialmente agravados pelo facto de primeiramente se ter de proceder à decapagem do terreno, que pela sua morfologia se transforma numa faina árdua e onerosa. De facto, para se proceder a tal tarefa é necessário alugar alfaias mecânicas, próprias para o efeito, que cobram ao agricultor entre 1000$00 e 1500$00 escudos à hora. Acontece que a remoção do mato numa propriedade de extensão relativamente pequena nunca custa menos de 20 contos. Saliente-se que esta acção de decapagem do terreno não se processa nos mesmos moldes do Alentejo, onde o solo e plano e árido. Daí podermos afirmar que, à partida, o agricultor algarvio está em desvantagem económica relativamente ao seu vizinho alentejano.

Os salários subiram e a cotação da cortiça baixou

Quanto à contratação de mão-de-obra experimentada na arte de descascar o sobreiro, é preciso reconhecer que a sua taxa inflacionista cresceu na razão inversa dos preços que a matéria-prima atinge no mercado. E isto porque enquanto os salários subiram a cotação da cortiça baixou. Assim, nos dias que correm, um “tirador” de cortiça não ganha menos de 2000$00 por dia. A sua função, sendo a mais especializada, baseia-se numa técnica ancestral, transmitida de pais para filhos, que consiste no rigoroso manejo do machado, cuja afiada lâmina penetra, com precisão milimétrica, até ao tecido interior da árvore sem lhe provocar a mais pequena beliscadura.
Aliás, diga-se de passagem, que uma leve incisão no tronco interno provocaria a formação de nódulos que prejudicariam extraordinariamente a futura qualidade da cortiça. Por outro lado, um bom “tirador” é capaz de num dia extrair 360 kg de matéria-prima sem ferir uma única árvore. Daí resulta naturalmente a justificação para a possível exorbitância do seu vencimento.
Após a contratação do “tirador” é preciso proceder de igual modo com o “ajuntador”, cuja função se resume simplesmente ao amontoar das pranchas e canudos da cortiça em local apropriado à sua expedição. Só por isso ele ganha entre 1500$00 e 2000$00 por dia. Por outro lado, como normalmente os sobreiros se estendem por terrenos bastante acidentados, não é possível a utilização de veículos motorizados para o transporte da cortiça, pelo que se terá de colmatar esta dificuldade através da contratação do “homem da besta”. Ora, acontece que o aluguer do homem e da mula anda à volta dos 2500$00 diários. É curioso que ao animal são incorporadas cangalhas laterais que permitem a sustentação da matéria-prima. Normalmente aguenta com algumas centenas de quilos empilhados de forma especial, semelhante a uma abóbada formada por inúmeros canos de cortiça. Só através desta operação é possível descer os íngremes cerros da recôndita serra algarvia. Por vezes, a vários quilómetros de distância, aguarda a sua chegada o motorista, que por seu turno transfere a matéria-prima para os respectivos centros industriais de transformação. Para cumprir essa tarefa o camionista cobra cerca de 15$00 por arroba, fora as despesas da quilometragem que serão cobrados conforme a distância a que se situam as devidas indústrias.

As razões da preocupante baixa dos preços

No apuramento final das despesas de extracção, verifica-se que cada arroba de cortiça custa em média ao produtor cerca de 300$00. Se em 1980 o preço da arroba esteve no mercado a 1000$00, logicamente este ano, atendendo às aludidas despesas, deveria atingir os 1300$00. Mas, por incrível que pareça, oscila entre os 750$00 e os 900$00, o que equivale a dizer que o seu preço real, deduzidos os custos de extracção, é de 500$00.
Agora pergunta-se: a que se deve esta baixa dos preços? Muito naturalmente à inadmissível facilidade de importação da cortiça espanhola que, devido à sua exploração mecanizada, ao câmbio e, sobretudo, à inferior qualidade da mesma, permite atingir no mercado um preço bastante inferior ao vigente no nosso país. Porém, o pior de tudo isto é que esta cortiça, pretensamente portuguesa, é exportada para os nossos clientes do norte da Europa, que ao aperceberem-se da sua inferior qualidade acabarão por perder a confiança na nossa matéria-prima. Em contrapartida, quem ganha com isso é a Espanha, que só exporta para os países da CEE a cortiça de melhor qualidade, equilibrando com isso o seu preço menos competitivo.
Nesta conformidade, o país é duplamente prejudicado, não só internamente como no estrangeiro. Por essa razão, os agricultores do Algarve, na sua maioria, não tem mandado descascar os sobreiros, por não compensarem os preços no mercado, deixando ficar nas árvores a cortiça por mais um ou dois anos à espera de melhores dias, ou seja de melhores preços. Porém, esta disposição de vender a cortiça com 10 ou 11 anos é lesiva ao País, pois são mais dois anos que se perdem na produção, se bem que se melhore na qualidade do produto. Todavia, se os preços se mantiverem mais ou menos a este nível, a qualidade continuará a ser prejudicada pela oferta, o que em boa verdade trará a ruína a muitas casas agrícolas. Cremos mesmo que, por este andar, a cultura do sobreiro, protegida superiormente desde 1310, aquando do reinado de D. Dinis, tem tendência a ser abandonada, senão mesmo substituída por outra mais rentável.

À espera de medidas enérgicas e moralizadoras

Urge, portanto, que o Governo tome medidas enérgicas para atalhar a este estado de coisas que, obviamente, não só prejudicam quem moireja nos campos como, inclusivamente, agravam a economia do País que corre o risco de ver a sua cortiça rejeitada futuramente nos mercados internacionais.
Refira-se que o deputado pelo círculo de Beja, Dr. António Chagas, considerado especialista na matéria, expôs este problema na Assembleia da República, onde a questão mereceu da parte de alguns membros do Governo, entre eles o ministro da Agricultura e Pescas, Dr. Basílio Horta, a mais viva repulsa, a ponto de responsabilizar os industriais pela situação existente no Alentejo e no Algarve. Recorde-se que nos concelhos de São Brás de Alportel, Loulé e Tavira, nomeadamente nas regiões da Cova da Muda, Vale de Luís Netos, Estragamantens e Cachopo, produz-se a mais qualificada cortiça de toda a província do Algarve.
Ficamos, assim, a aguardar a publicação de legislação competente que permita o escoamento da produção interna e proíba os abusos oportunistas dos industriais corticeiros, que na mira de chorudos lucros prejudicam enormemente a economia nacional.


(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 18-08-1982)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Museu e a Escola

José Carlos Vilhena Mesquita


Com imensa mágoa verifico que a maioria das escolas portuguesas não aproveita convenientemente as potencialidades culturais das áreas geográficas em que se acham inseridas. Assim, raramente os estudantes do ciclo preparatório ou das escolas secundárias fizeram uma visita de estudo aos museus, monumentos e palácios da sua área residencial, sem esquecer os passeios pelo campo, que hoje os professores já não fazem. O que é pena, pois constituem verdadeiras aulas práticas de botânica, geologia, mineralogia, zoologia, etc. Numa época em que assistimos ao crescimento avassalador de uma nova ciência como a Ecologia que, sem ser por acaso, tem congregado o interesse e a atenção dos nossos jovens, não compreendemos porque é que não se abrem as portas da escola para o campo.
O museu é, no seu próprio contexto geográfico, o mais valioso espólio do património local. Nele se deposita a memória dos nossos antepassados e através dele poderemos fazer uma verdadeira e alucinante viagem no tempo. Aí se contacta com testemunhos insubstituíveis cuja observação e estudo nos farão compreender melhor a nossa história. Porém, há que preparar convenientemente essa visita para que não nos confrontemos com situações ou peças museológicas que nada nos dizem por lhes desconhecermos o significado. Não vale a pena levar as crianças a visitar uma praça-forte sem terem previamente uma noção do que foi e em que consistiu o feudalismo.
Na verdade, jamais poderemos esquecer que os testemunhos permanecem eternamente mudos se não os soubermos interrogar e, convêm lembrar, ir ao museu não é o mesmo que ir ao supermercado. Para nele se penetrar é preciso ter cultura, que só se adquire na escola, daí que as visitas só se devam efectuar a partir de um determinado nível etário e intelectual. De contrário, a visita será contraproducente e os jovens poderão contrair a ideia de que os museus são cemitérios inúteis, tristes, aborrecidos, frios, sem alegria nem significado. Raramente lá voltarão.

A formação estética

Mas há um sector pouco explorado, ou pelo menos negligenciado, pelos nossos pedagogos no âmbito da museologia, que é a formação estético-artística dos alunos. Em parte, esta situação também se fica devendo à intrínseca desmotivação dos professores para a expressão estética. E não raras vezes se assiste a retumbantes fracassos quando os mais zelosos professores entregam os seus alunos aos cuidados de um erudito especialista que, naturalmente, não consegue adaptar o seu discurso aos parcos conhecimentos culturais dos jovens. Nessa altura, uma visita que se previa ser um êxito pedagógico transformou-se numa chachada e numa total perda de tempo. Os alunos nada perceberam do que lhes foi dito e normalmente limitam--se, em certos casos, a comentar e ridicularizar os trejeitos e o snobismo intelectual do seu ilustre cicerone. A informação cultural, por mais interessante e correcta que possa ser, deverá sempre obedecer a um esquema pedagógicos.
Por outro lado, uma visita ao museu sem ser guiada está também votada ao fracasso, já que não basta aos alunos a «liberdade da descoberta», pois que necessitam dos meios indispensáveis a essa mesma descoberta. Normalmente, os directores dos museus reprovam este tipo de actuação, visto que, sem preparação nem ordem, os alunos chegam mes mo a causar incómodos e distúrbios de vária ordem.

Organizar uma visita

Como proceder então? É simples. Toda e qualquer visita ao museu terá de ser forçosamente preparada em gabinete pelos respectivos responsáveis pedagógicos, que deverão previamente conhecer o espólio museológico e determinar as peças, conjuntos salas ou colecções que mais interessam aos seus alunos.
É fundamental que na aula anterior à visita sejam ministrados aos alunos alguns conselhos sobre o carácter do museu, algumas normas de conduta e de respeito para com a instituição e ainda algumas pistas sobre aquilo que irá ser observado. Nunca e deve privar o aluno do prazer da surpresa e do gosto pela descoberta. O jovem deve directamente contactar com o objecto ou com a obra de arte, para que sinta nisso algum prazer. Nessa altura ele descobre, regista e, sobretudo, familiariza-se com a arte e com a própria instituição.
Torna-se indispensável e até fundamental que o orientador pedagógico da turma ou da disciplina em que essa visita de estudo estiver enquadrada forneça previamente aos alunos um inquérito sobre algumas peças que eles irão descobrir no museu, assim como alguns roteiros cronológicos que possibilitarão caminhos repartidos por grupos (discretamente acompanhados pelo professor), que serão compensados pelo prazer da autodescoberta.
À entrada do museu, deve-se apresentar os alunos ao director e aos conservadores, solicitando-se depois a estes algumas breves palavras de saudação e de esclarecimento sobre os objectivos culturais da própria instituição. Os alunos sentir-se-ão respeitados e satisfeitos, para além de perceberem mais facilmente que estão em presença de um verdadeiro santuário da cultura, que facilmente se poderá transformar em laboratório de investigação histórica.
No final da visita verificaremos, através da leitura dos inquéritos, que nem sempre os melhores observadores são os melhores alunos, pois que a capacidade de análise e reflexão sobre a arte não exige, nesta idade, um «background» cultural de peso, mas antes uma forte sensibilidade, que, como se sabe, é inata. Para esses, devemos dar alguns conselhos e, sobretudo, motivá-los para que não desperdicem as suas intrínsecas inclinações artísticas, de que poderão vir a colher no futuro um glorioso sucesso.

Nas aulas seguintes

Se possível, nas aulas seguintes deverá abrir-se um debate sabre a importância dos museus, a sua necessidade, o seu interesse e ainda sobre o valor de algumas peças nele expostas, as quais poderão eventualmente ser confrontadas com outras da mesma espécie, através da projecção de «slides» ou de gravuras. Veremos que dessa discussão surgirão opiniões interessantíssimas que convirá registar e até, se possível, publicar no jornal da escola. A elaboração de uma reportagem por um grupo de trabalho acerca da visita e da integração do museu na escola seria um exercício complementar da mais elevada importância pedagógica e a sua publicação ou divulgação pública tornar-se-ia imprescindível.
Enfim, aqui está sumariamente a fórmula ideal para a concretização de uma visita de estudo ao museu da nossa localidade, que facilmente se pode adaptar a outros tipos de visitas, como aos monumentos ou ao campo. A posição do professor pode ser activa ou discreta, mas sempre acompanhando os seus alunos, prestando-lhes informações e esclarecimentos que estes registarão no seu bloco de apontamentos. Um relatório final e o preenchimento de um inquérito serão importantes ferramentas pedagógicas para a boa formação estético-artística e histórico-cultural do aluno.
Resta-nos apenas esperar que na província, onde existem dos mais maravilhosos museus do País, se tornem as visitas culturais numa prática corrente das escolas.


(artigo publicado no «Diário de Notícias» em 12 de Janeiro de 1984)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Algarve precisa de mais museus que falem do seu histórico passado


José Carlos Vilhena Mesquita

A província do Algarve, expoente máximo do turismo nacional, não pode, infelizmente, orgulhar-se de possuir muitos e variados museus, pese embora o seu passado histórico se encontre vincadamente perpetuado nos inúmeros testemunhos arqueológicos deixados pelos povos oriundos das grandes civilizações mediterrânicas.
Saliente-se que a museologia no Algarve nasce, por via de regra, da iniciativa particular e fundamenta-se na doação de colecções pertencentes a comprovincianos obviamente dotados de marcante espírito científico e altruístico. O primeiro exemplo partiu do arqueólogo Estácio da Veiga que em vão pretendeu criar o Museu Arqueológico do Algarve, com sede em Faro. No entanto, grande parte do espólio recolhido aquando das escavações que efectuara para a Carta Arqueológica do Algarve (1878-1883) foi recuperado por Monsenhor Joaquim Maria Pereira Botto, que, a 4 de Março de 1894, fundou na capital desta província o «Museu Archeologico e Lapidar Infante D. Henrique» designação essa que ainda hoje conserva.
Em Lagos, idêntica iniciativa se ficou a dever ao José Formosinho, que nesta cidade erigiu o que pode considerar-se, sem exagero, o segundo melhor museu em todo o Algarve.
Quanto a Vila Real de Santo António, beneficiou da oferta feita, pelo genial xilogravurista Manuel Cabanas, que foi deputado à Assembleia Constituinte, de uma. valiosa colecção de gravuras esculpidas pelo seu punho. Mais recentemente em Moncarapacho, o rev. P. Isidoro Domingos da Silva, sacerdote da mais elevada formação eclesiástica, e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, escritor e investigador de reconhecido mérito, ofereceram à sua paróquia duas notáveis colecções, uma de Arte Sacra e outra de Arqueologia, capazes de fazer inveja a qualquer museu do nosso país.
Oficialmente, no Algarve apenas estas localidades possuem um museu de que possam orgulhar-se, com especial destaque para Faro onde podem ainda ser visitados os museus Etnográfico, Marítimo e Antonino.

Museu de Moncarapacho, a concretização de um sonho já antigo

Desta vez, porém, falaremos apenas do Museu Paroquial de Moncarapacho, inaugurado há pouco mais de um ano.
Fundada em 19 de Junho de 1471, pelo então bispo de Silves, D. João de Melo, a freguesia de Moncarapacho possui vestígios de ocupação muito remota, pois nela foram postos a descoberto vários testemunhos pré-históricos, como é o caso de cilindros totémicos de configuração antropomórfica; ídolos neo-eneolíticos e inúmeros artefactos pertencentes a povos metalúrgicos do período neolítico. Posteriormente, ali deixaram assinalada a sua passagem Romanos, Visigodos e Árabes, todos eles representados nas galerias do museu.
Muito embora a ideia da fundação deste museu fosse uma velha aspiração da freguesia, o certo é que foi necessário aguardar pelas comemorações do seu quinto centenário para, definitiva e oficialmente, se encarar com optimismo a concretização deste justo e merecido sonho. Como atrás referi, a iniciativa partiu de dois beneméritos, o padre Isidoro Domingos da Silva e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, o primeiro detentor da riquíssima colecção de arte sacra (a que atrás aludi), e o segundo de um não menos notável espólio arqueológico. Refira-se que ambas as colecções foram avaliadas em milhares de contos aquando da inauguração no ano passado, no dia 12 de Julho, do museu que pode assim considerar-se um dos mais importantes museus paroquiais do País.
Por estranho que pareça, desde o lançamento da primeira pedra, que marcou o início da construção do edifício, em Setembro de 1971, até à sua inauguração em Julho de 1981., foram dez anos de canseiras e impedimentos diversos que quase fizeram perigar a sua. Concretização, não fosse a vontade indómita dos seus beneméritos fundadores.
O edifício, modesto de proporções mas sóbrio de linhas, encontra-se adstrito à secular Capela de Santo Cristo onde, segundo reza. a história, muitos prodígios e milagres se registaram ao longo dos últimos cinco séculos.

Como as pratas algarvias «viajaram» até Baiona

A ancestral ermida, cuja construção remonta ao ano de 1632, encontra-se esplendorosamente revestida de azulejos policromos datados de 1663, provenientes de Lisboa, possivelmente de uma das 12 mais importantes olarias que na cidade então existiam.
Por altura das invasões francesas, os soldados de Junot, como represália pela derrota sofrida junto à ponte de Quelfes, assaltaram a indefesa freguesia de Moncarapacho não escapando ao saque os valiosos objectos e alfaias de culto existentes na vetusta Capela de Santo Cristo. A maior parte do espólio, criminosamente obtido, pode apreciar-se, ainda hoje, em alguns museus da França, nomeadamente no de Baiona, que não esconde inclusivamente a proveniência moncarapachense das suas peças de prata.
Enfim... coisas da História que, por tristes e ignóbeis, nos escusamos de recordar. Seja como for, na sua idoneidade e no barroquismo da sua talha, a capela de Santo Cristo não poderia ter melhor aproveitamento do que aquele que o povo de Moncarapacho lhe acaba de dar, ao transformá-la em Museu.
Mas penetremos no edifício. este núcleo museológico divide-se em dois grandes sectores: o da Arqueologia e o da Arte Sacra. O primeiro encontra-se instalado no pavimento inferior do edifício e compõe-se sobretudo de artefactos paleolíticos, de cerâmica calcolítica e de várias peças epigráficas, heráldicas e numismáticas pertencentes às épocas da ocupação romana e árabe. Assumem particular destaque um enorme vaso árabe destinado a ablações religiosas, várias lápides epigráficas islâmicas que o Dr. Garcia Domingues tem estado a decifrar, dezenas de ânforas romanas e tubas árabes, alguns; cipos sepulcrais e marcos miliários; com especial destaque para aquele que o Dr. José Fernandes Mascarenhas identificou como sendo o que assinalava a estrada de Ossónoba a Balsa. Além de tudo isto, podem ainda observa-se inúmeras peças de inegável valor museológico, como uma colecção de lucernas, algumas cornijas arquitectónicas, capitéis coríntios de belo talhe, um túmulo romano em perfeito estado de conservação, lápides; taças, pratos e múltiplas peças de cerâmica provenientes da estação arqueológica romana de Alfanxina, situada nos arredores da freguesia de Moncarapacho.

Valioso presépio do séc. XVIII é peça de interesse nacional

No andar superior está reunida a colecção de arte doada pelo rev.º P.e Isidoro Domingos da Silva, merecendo especial referência um valioso presépio napolitano considerado de interesse nacional, datado do século XVIII, presumivelmente anterior à escola de Machado de Castro, e que pertenceu ao magnata da indústria conserveira, Júdice Fialho. Refira-se que só existe um presépio semelhante no Museu de São Paulo, no Brasil, coevo deste e possivelmente importado da mesma origem por algum português emigrado em terras de Vera Cruz.
O prior Isidoro da Silva adquiriu este presépio a uma freira que se encontrava no orfanato de Santa Isabel, em Faro, e que, atendendo ao confrangedor estado de degradação em que a peça se encontrava, preferiu vendê-la a quem se propunha restaurá-la e conservá-la num museu. Posteriormente, seguiu para o Museu de Arte Antiga, onde se procedeu ao seu gracioso restauro. Regressado ao Museu de Moncarapacho, foi logo considerado como peça de interesse público, já que, na Europa, não há notícia de existir nenhum outro que se lhe assemelhe ou equipare em grandeza e majestosidade artística.
Mas não é só este famoso presépio napolitano que merece a nossa visita atenta e demorada ao Museu de Moncarapacho. Outras peças ali existem de incomensurável valor artístico, nomeadamente um valioso calvário lavrado em marfim e pau-santo do século XVI em estilo indo-português; dezenas de imagens sacras, algumas delas com séculos de existência, recolhidas nas imediações do concelho de Olhão; e ainda alfaias, panejamentos e objectos de culto religioso; além de ricas colecções de cálices, custódias e moedas de valor incalculável; peças de mobiliário, com especial destaque para uma bonita arca setecentista do reinado de D. João V; quadros de interesse regional como os assinados por Bernardo Marques e Henrique Pousão; fotocópias de documentos que atestam o heroísmo do povo olhanense frente às tropas invasoras de Junot; animais embalsamados e toda uma série de pequenas peças de interesse não só artístico como etnográfico.
Em suma, um museu repleto de muita coisa valiosa e rara, à mistura com peças, talvez de pouca importância museológica, mas de inegável valor decorativo. Não obstante isso, gostamos francamente da secção de Arqueologia, que nos pareceu bem ordenada se atendermos à exiguidade do espaço a ela destinado. Além disso, não podemos deixar de salientar a imponência que esse deslumbrante presépio napolitano assume no meio do vasto espólio artístico, aqui e ali marchetado por imagens sacras, algumas de sabor popular a atestar a sua ancestralidade.
Para terminar, cumpre-nos assinalar a carência de um funcionário, a tempo inteiro, que sirva de cicerone aos eventuais visitantes, e, especialmente, de um catálogo ou guia interno do Museu, no qual se discrimine a função e importância de cada uma das peças ali expostas. Isto para não falar já da inexistência dos tradicionais postais e diapositivos reproduzindo as peças de maior valor e que, vendendo-se normalmente à entrada dos museus, não só contribuem para a divulgação da cultura e do património local, como contribuem também para a amortização das graves dificuldades financeiras que se vivem em instituições deste género.
Apenas a título de curiosidade, direi ainda que a entrada é grátis.

(artigo publicado no «Diário de Notícias» de 7-09-1982)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Valioso espólio do Museu Antonino de Faro é grande atracção turística no Algarve


José Carlos Vilhena Mesquita

No contexto museológico da cidade de Faro assume particular interesse aquele que, reunindo características intrinsecamente populares, ficou perfeitamente dedicado a um dos mais antigos padroeiros desta cidade: Santo António.
Criado por decisão camarária em 23 de Junho de 1932, pelo então presidente da edilidade farense, Dr. Mário Lyster Franco, só veio a reunir grande parte do seu actual espólio no ano seguinte, para em; 4 de Fevereiro de 1934 ser oficialmente inaugurado pelo Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. A 27 de Outubro do mesmo ano foi nomeado para seu conservador o Dr. Justino de Bivar Weinholtz, igualmente director do Museu Arqueológico e Lapidar, que nesta cidade deixou bem vincada presença cultural, a ele se devendo inclusivamente vários actos de benemerência que ainda hoje, enriquecem os nossos museus. À sua morte sucedeu-lhe o seu fundador, Dr. Mário Lyster Franco, que em 1966 foi substituído pelo então director dos museus municipais, prof. José António Pinheiro e Rosa, grande estudioso e investigador de reconhecidos méritos com vastíssima obra publicada.

Igreja de Santo António do Alto

A fundação deste museu constituiu uma forma de preencher um espaço que em tempos se dizia que era aproveitado para actos e procedimentos indecorosos. Em face disso, e atendendo a que as dependências anexas ao secular templo de Santo António do Alto reuniam as condições minimamente indispensáveis à instalação de um museu popular, lançou o seu já citado fundador uma campanha de angariação de peças que de algum modo estivessem ligadas ao culto daquele taumaturgo.
Nessa altura, aproveitou-se a oportunidade para mobilar toda a igreja que se encontrava praticamente ao abandono e apenas possuía as cadeirinhas de tabua que os devotos para lá levaram quando iam assistir aos velórios e outras cerimónias religiosas. Também se colocaram no seu lugar próprio três interessantes lápides que o cónego Pereira Botto, na ânsia de formar um museu arqueológico, de lá extraíra, esquecendo-se de que só devem ser retiradas dos seus lugares originais as peças que correm risco de desaparecer, o que não era o caso.
Igualmente se abriu na parte antiga da torre (curioso edifício gótico que marca nitidamente a sua origem) uma janela que permitiu apreciar-se devidamente o magnífico artesanato que apresenta. O pátio de entrada foi logicamente alindado, com um poço mais ou menos artificial, e colocaram-se nas paredes da Igreja alguns quadros de menor valia que se encontravam depositados no Museu Arqueológico, o que permitiu dar àquelas instalações uma disposição e um ambiente mais museológico. A igreja de Santo António do Alto ficou, desta forma, muito valorizada, e se a então inesperada construção do novo edifício do liceu e a infeliz ideia do aproveitamento da torre para depósito de água não tivessem tirado a graça, a posição e a beleza própria que o templo ostentava, estamos certos de que este singular museu se transformaria num dos mais curiosos pólos de atracção turística da cidade de Faro. Refira-se que o aproveitamento da torre para depósito de água obrigou a elevá-la mais uns metros retirando-lhe por isso todas as proporções.
Convém, ainda, acrescentar que o referido templo erigido na mais alta colina da cidade foi em tempos uma primitiva torre de vigia da costa (as conhecidas, mas mal estudadas, atalaias), que para contrariarem as constantes investidas dos corsários árabes davam o sinal de rebate chamando as populações a defenderem os seus haveres. Igualmente ali se verificaram sangrentas lutas, durante a guerra civil de 1832-1834, pela posse do mais estratégico ponto militar da cidade, facto esse que há anos facilmente constatável pelos buracos das balas incrustadas nas paredes do edifício, mas que, infelizmente, são hoje irreconhecíveis devido aos trabalhos de reboco e restauro mandados executar há já alguns anos pelos responsáveis camarários.

Soberba panorâmica

Do alto da torre desfruta-se a mais soberba panorâmica da capital algarvia, sendo daí facilmente reconhecíveis os recortes da linha costeira e da Ria Formosa, assim como a distribuição orográfica da região, que se reparte pela serra – a necessitar urgentemente de ser arborizada – pelas terras algo fragosas do barrocal e pela faixa litoral, plana e fértil mas pejada de construções desenquadradas e agressivas no contexto ecológico em que se inserem.
Pelo esplendor do panorama que dali se desfruta, tem sido este local o mais visitado de toda a cidade, facto que quase obriga o turista a penetrar igualmente nas instalações singelas do interessantíssimo Museu Antonino, afecto ao templo e incorporado nas dependências de um antigo claustro. Muitos têm sido os seus visitantes, oscilando a média anual do último quinquénio entre os 15 e 20 mil, o que dá bem a ideia do seu interesse turístico.
Entre os mais ilustres que por ali passaram permitam-me que destaque, para além do ex-Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, dos bispos e arcebispos de Évora, Beja, Coimbra, Algarve e outros, dos deputados; e figuras políticas dos tempos de ontem e de hoje, os mundialmente conhecidos artistas de cinema Marlon Brando e Catherine Deneuve que, aproveitando um curto período de férias, vieram até ao Algarve e juntos visitaram o Museu Antonino, dedicando-lhe palavras de muito apreço e admiração. A fama da sua passagem depressa se fez constar e hoje raros são os jovens fãs do cinema que não pedem à zelosa guarda do museu, sr.ª D.ª Maria Celeste Iria, que lhes mostre os autógrafos daqueles conhecidos actores cinematográficos.

Valioso espólio

De entre as cerca de quatrocentas peças que compõem aquele espólio museológico, merecem especial realce um quadro de Santo António, que se encontrava no antigo Convento de Santo António dos Capuchos desta cidade, onde em tempos esteve instalado o Museu Arqueológico, verificavelmente inspirado (para não dizer cópia fiel) do fresco de Giotto, que se admira na Basílica de Pádua; um Missale Romanum - Ex Decreto Sacrosancti… editado em Antuérpia pela tipografia Plantiniana, no ano de 1725, que curiosamente apresenta as armas dos Bulhões de Coimbra, a cuja família pertencia Santo António, o qual esteve durante largos anos ao serviço litúrgico da Sé de Faro; um azulejo com moldura gótica, imitando um vitral, assinado por Maria Portugal, pseudónimo da principal assistente do conhecido escultor Leopoldo Batistini, autor das magníficas placas azulejadas que assinalam a toponímia histórico-urbana da baixa citadina de Faro; uma madona pintada sobre cobre e um quadro do santo, oferecido pelo conhecido escritor e diplomata Dr. Amadeu Ferreira d’Almeida, que à sua terra natal legou uma das mais ricas e interessantes colecções de arte do seu tempo, a qual preenche hoje uma das mais importantes salas do Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique em Faro; uma escultura do santo em madeira do século XVII, outra em cerâmica com 1,11 m de altura, proveniente da escola coroclasta de Bordalo Pinheiro; várias estatuetas em madeira, cerâmica e metal de fábrica nitidamente popular; dezenas de azulejos e pratos, tendo gravadas ingénuas quadras galhofeiras alusivas ao santo; um aquário de cerâmica representando o taumaturgo a pregar aos peixes, o qual foi adquirido por uma das antigas comissões municipais de turismo nas Caldas da Rainha; centenas de pequenas estampas (que o vulgo designa por“santinhos”), folhetos, opúsculos e livros, alguns deles bastante raros; uma colecção de fotografias emolduradas que se estendem pelas paredes do museu, focando aspectos totais ou parciais de outros templos algarvios ligados ao culto de Santo António, algumas das quais constituem verdadeiros documentos por representarem aspectos de um património histórico já desaparecido; dezenas de medalhas de todos os tamanhos e matérias; uma colecção incompleta do Almanaque de Santo António; revistas, folhas volantes, uma peça de teatro manuscrita em espanhol, bilhetes de lotaria, loiças, vidros e um sem número de peças dispersas de valor muito desigual, mas todas dizendo respeito ao culto do milagroso Santo António.

Recomendações e melhoramentos

Como não podia deixar de ser, verificam-se algumas falhas estruturais que urge colmatar e para as quais gostaria de chamar a atenção das entidades camarárias responsáveis.
1.º - Não existe um catálogo, ou inventário do recheio artístico do Museu, que possibilite aos visitantes encarar e compreender pelo menos as peças consideradas do ponto de vista artístico-museológico mais importantes. Recomenda-se que para a elaboração do mesmo se convidem especialistas e se faça uma edição trilingue do respectivo texto, dado que a maioria dos visitantes são estrangeiros.
2.º - Que se coloquem nos locais apropriados alguns projectores de luz por forma a iluminarem-se as peças mais interessantes.
3.º - Que se reboquem as paredes da sala e se eliminem os repassos de humidade que em certos casos tem desprendido alguns quadros e constituem um sério risco para a oclusão de um curto-circuito, causa próxima de tantos incêndios em instituições do género:
4.º - Que se envernizem as travessas do tecto que atestam a secularidade do edifício, mas que por se encontrarem mal tratadas acabam por dar um reflexo de desleixo e de ruína.
5.º- Que se caiem as paredes internas e externas do edifício, sem esquecer de pintar periodicamente os ladrilhos que revestem o pavimento do Museu.
6.º - Que se repare a porta que dá acesso ao pátio fronteiro ao Museu que, pelo facto de não ficar devidamente encerrada, poderá dar azo a possíveis tentativas de assalto.
7.º - Que se volte a repor, no lugar próprio, a quase lendária fechadura do claustro lateral, em cujo buraco procuravam as jovens casadoiras de olhos vendados introduzir o dedo indicador, transformando este acto numa tradição pouco vulgar e de incontestável interesse etnográfico.
8.º - Que se instalem resguardos de rede nas janelas do Museu de forma a permitir a entrada de ar, luz e calor natural no seu interior.
9.º - Que se proceda, urgentemente, à reparação da escada metálica em caracol, que dá acesso ao mirante, e que, pelo seu estado carcomido, poderá ser motivo de graves desastres pessoais.
10.º - Que se equipe o edifício com extintores e outros meios de combate a um possível incêndio.
11.º - Que se inclua e aconselhe a sua visita nos roteiros turísticos da cidade e do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», de 1-02-1984)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A tortura da alma na efervescência dos neurónios


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é um manancial de sensações que se agitam em torno das palavras como ebulições do pensamento. É a efervescência dos neurónios nas etéreas cogitações da alma, causando a agitação das ideias e removendo as concepções estáticas da sociedade civil. Neste caso são revolucionárias, premunitórias e demolidoras. Anunciam a aurora regeneradora de novas eras. Porém, outras estremecem credos e apologias, remexem no íntimo da crença e da fé, esboroam dogmas em refulgentes concepções filosóficas. São agnósticas umas, cépticas outras, descrentes todas, quando concebem a criatura sem ver o criador. Mas, por mais ideológicas e sublimes, ou por mais profundas, ascépticas e enigmáticas que sejam as proposições de um poema de Antero ou de Junqueiro, não restam dúvidas que é na poesia que tudo se transmite e se transforma.
O génio sente-se no acto da criação. A expressão é que difere. A luz e a cor são do pintor, a forma do escultor, a palavra do escritor. Mas a emoção é do poeta. No jogo das sensações, no choque das impressões, nasce a poesia, pura, nua e crua. Um místico mundo de fantasia e realidade desfila pela escadaria do poema. São as metáforas que desaguam no remate de um soneto. A nostalgia da saudade, as comoções do amor, as vicissitudes da alma invadem o poema como uma enxurrada de sentimentos. Isso é poesia. E só o poeta sabe verdadeiramente sentir a poesia. Mesmo quando finge sentir na alma a tortura do imaterializável, o poeta consegue transluzir em diamantinas metáforas a sincera nostalgia de um ideal por construir.
José Estevão Cruz, prosador das efémeras colunas dos hebdomadários algarvios, estreia-se neste livro como poeta. Não sei se algum dia permitirá que o tratem desse modo. Em todo o caso, vê-se que a sua poesia é sentida, sincera e imarcescível. Ainda que retocada nas imagens e rebuscada nos conceitos, não deixa de ser expressiva, raiando, aqui e ali, elevados níveis de pureza lírica.
Parece não existir neste livro um tema principal, nem seria crível que tal acontecesse numa obra poética. Porém sente-se que, no âmago dos seus versos, é a denúncia da opressão e a pusilânime teia dos interesses económicos internacionais, que constituem o tema global desta obra. E se para o comum dos poetas é a Liberdade, na sua concepção mais sublime, o ideal preferido do canto lírico, o José Estevão Cruz vai mais além e elege-a como luta universal da humanidade.
Por isso, os seus versos são um veemente apelo à consciencialização dos oprimidos, clamando contra a iniquidade do poder político que procura entear as classes laboriosas numa inebriante estrutura de dependências socioeconómicas. A letárgica “paz podre” em que vivemos hoje conduz-nos ao insensível alheamento dos que sofrem. E a indiferença parece ser indício do desenvolvimento. O resultado é a distribuição desigual, a marginalidade, o racismo, a violência e a droga. Até parece que no código genético das novas gerações vêem já gravados os defeitos da sociedade moderna: poder, corrupção, vício e perfídia. E estes são os pontos cardeais da educação que na estultícia do nosso egoísmo transmitimos aos vindouros, em nome do sucesso e da competência. A vida é uma competição de tecnologias e cifrões que tudo submete e esmaga à impiedosa lógica da produtividade.
O José Cruz deixa perceber nos seus versos que os direitos individuais, a liberdade e a democracia são mais uma aparência do que uma realidade. E o homem na sua multiplicidade de anseios e frustrações, deixou de ter significado. O cidadão na sua dignidade e honra, é quase uma expressão de retórica. Dá impressão que somos escravos dum sistema sem rosto nem pátria, a que alguns designam por progresso e no qual somos reduzidos à mais abjecta insignificância. Mas se, por um lado, uma cadeia de interesses económicos parece conduzir o mundo, por outro assiste-se à destruição do ambiente, à ameaça termonuclear e aos conflitos internacionais pela posse das fontes energéticas.
Esta é a realidade do autor, que sente a poesia como uma forma de comunicação intelectualizada, dirigida a uma parcela da sociedade civil supostamente preparada para o entender. Este livro é uma espécie de tribuna pública e como tal um risco calculado, visto que o autor nele se expõe à crítica e à imprevisível discordância dos que vêem o mundo por um prisma diferente. Não obstante, acredito que a mensagem que o autor pretende fazer passar é correcta e preocupante, merecedora da nossa melhor atenção.
A poesia é a vida. Por isso a poesia simplesmente acontece, sem peias nem destinos predeterminados. O seu modelo é o homem, nos seus anseios, frustrações e sentimentos. Na verdade, a poesia só não acontece quando não há amor, razão e solidariedade. Em suma, a poesia não é mais do que a associação da inteligência com o sentimento. A vida é o pensamento. Na conjugação primordial desse binómio, na sua expressão mais sublime, reside a poesia como paradigma da humanidade. E a efervescência dos neurónios, que nos torturam a alma em constantes interrogações, é apenas poesia.

(Prefácio ao livro Neurónios Flutuantes, da autoria de José Estêvão Cruz)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Procissão das Tochas, em São Brás de Alportel

José Carlos Vilhena Mesquita

A rainha da beira serra algarvia comemora, anualmente, no Domingo de Páscoa, o seu mais glorioso feito histórico através de uma festa profana, que a Igreja converteu numa grandiosa manifestação religiosa. Curiosamente, as origens desta festa remontam ao século XVI, mais precisamente ao dia 25 de Julho de 1596, data em que, segundo reza a história, se verificou a invasão da cidade de Faro e seus arredores pelas tropas do duque de Essex.
Na verdade, é hoje dado como certo que, nessa data, aquele nobre militar invadiu o Algarve, após ter infligido estrondosa derrota na Baía de Cádis, a esquadra de Filipe II. Contudo, falou-se durante muito tempo que o saque, e o consequente incêndio da cidade de Faro, havia sido obra do famoso pirata Sir Francis Drake, que as más-línguas apontavam como amante da rainha Isabel I de Inglaterra, por ironia cognominada de «a Virgem».
O referido alvitre partiu do cronista algarvio João Baptista da Silva Lopes, que, nas suas Memórias Eclesiásticas do Bispado do Algarve, a páginas 345 diz o seguinte:«Em 25 de Julho de 1596, foi ella [cidade de Faro] incendiada pelos inglezes, que a accommettêrão com huma esquadra comandada por Francisco Drake, sendo governador do Algarve Rui Lourenço de Távora, e Bispo D. Fernando Martins Mascarenhas, talando e assolando tudo quanto encontrárão até á Aldêa de S. Braz, aonde se diz que chegarão, escapando do incêndio apenas a igreja de S. Pedro, e a da Misericórdia. Então se consumirão os cartórios e livros antigos tão interessantes para a História; consta, por tradição, que boa parte da livraria do Bispo D. Jerónimo Osório, roubada nesta occasião, fora levada para a Universidade de Oxford, onde existe
Todavia, sabemos hoje que a invasão não foi chefiada pelo «corsário negro», mas antes pelo duque de Essex, que, para além de incendiar a cidade, assaltou, de facto, a biblioteca que pertenceu ao citado bispo, e famoso humanista, depositando-a depois na universidade de Oxford. Contudo, nem toda a biblioteca foi roubada, pois que aquele nobre inglês, como não era pessoa muito ilustrada, preferiu a beleza das encadernações à qualidade ou ancestralidade das obras e dos manuscritos. Daí que a maior parte dos livros depositados na biblioteca da Universidade de Oxford seja de carácter místico-religioso, principalmente manuais e tratados de teologia, ciência essa que, em larga medida, constituiu a base de formação intelectual daquele insigne estudioso.
Portanto, apesar do prejuízo que este facto acarretou para a história da cultura portuguesa, não podemos deixar de afirmar que a maior parte dos nossos historiadores costuma exagerar um pouco, quando se refere ao apocalíptico acontecimento, visto que sendo livros escritos em latim, que versam temas litúrgicos, não tem hoje a aplicabilidade e o interesse dos tempos de outrora.
Quanto à data apontada como verídica, há ainda quem discorde dela, talvez por que se apoiam em Rebelo da Silva, que, na sua História de Portugal, vol. VIII, a páginas 145, afirma que os ingleses eram senhores de uma armada de 130 velas, chefiada por Lord Effingham, que tinha sob o seu comando oito mil ingleses e uma frota holandesa, que conjuntamente atacaram e destruíram a esquadra de Filipe II, que se encontrava fundeada em Cádis, no dia 20 de Junho de 1596. Um mês depois, avistaram as costas do Algarve, desembarcando então em Faro cerca de três mil homens que, após 48 horas de sangue e fogo, retiraram em direcção aos mares do Norte.
Não nos parece que Rebelo da Silva esteja no pleno uso da razão. No entanto, o que é certo é que, durante esse período de ocupação estrangeira, uma franja do exército inglês derivou até S. Brás, onde, apesar do seu número, foi heroicamente repelido pelos rapazes solteiros da freguesia.
Efectivamente, «tendo os inglezes entrado em Faro, na força de três mil homens, saqueado os haveres dos seus habitantes, incendiando toda a cidade, não escapando cousa que tivesse valor, tiveram conhecimento de que a povoação de S. Braz era rica e importante, e que valia a pena ir sobre ella para a por tambem a saque.
Organizado um forte destacamento, marcharam sobre S. Braz e chegando ali, encontraram todos os habitantes desprevenidos, sendo-lhes fácil roubar o que encontravam. Não contentes, porém, com os roubos e mortes que praticaram, lançaram fogo á egreja, o que produziu uma grande indignação entre os habitantes. Foi então que, passado o primeiro panico, alguns rapazes solteiros, uniram-se como um só homem, e cahindo sobre os inglezes, fizeram n’elles grande chacina obrigando-os a bater em retirada, largando o que tinham saqueado
» (in Almanaque de S .Braz d’ Alportel para o ano de 1894, p. 22).
O heroísmo dos sambrasenses encontra-se, inclusivamente, narrado na única fonte que a este facto se refere com o rigor do pormenor: «Ha a confraria do nome de Jesus, em que só servem os solteiros, em memoria de quando os inglezes deram fogo a esta egreja, e invocando as taes solteiros o nome de Jesus se opposeram contra aquelles anglicanos, e os lançaram fora, com feliz successo, acção que se obrou em dia de S. Thiago Apóstolo, e n’esse dia lhe fazem a festa com as suas cavalhadas de tarde» (António Pereira. da Silva, «Descripção de S. Braz», manuscrito depositado na Torre do Tombo, dotado de 1757).
Curiosamente, as armas empunhadas pelos rapazes solteiros não passavam de lanças improvisadas machados rústicos, chucos e alfaias agrícolas, com as quais «cahiram destemidamente sobre os inglezes» (Sebastião Joaquim Baçam, «S. Bras do Alportel», 1912). Daí nasceu a alcunha de “cachamorreiros” para os Alportelenses. A única fonte que fala com orgulho desta alcunha pertence a João Manuel Rodrigues de Passos, quando, a dado passo, afirma o seguinte: «Caros, conterrâneos, a palavra cachamorreiros, com que nos alcunharam, parece que teve origem n’aquella data (25 de Julho de 1596), em consequencia. dos nossos ascendentes terem feito retirar á cacheirada a pirataria ingleza. Tal alcunha, pois, é, uma glória para nós filhos d’esta formosa rainha da beira serra». (in Almanaque de S. Bras, de 1894).
Presentemente, a comemoração deste ano heróico constitui uma extraordinária manifestação religiosa, eivada porém de um certo machismo, derivado precisamente do seu carácter histórico.
Esta festa celebra-se no Domingo de Páscoa, e o povo chama-lhe a Procissão das Tochas, pois que os homens empunham uns paus enramalhetados de flores que, pela sua esplendorosa tonalidade mais parecem tochas flamejantes.
Percorrem assim, com as “tochas” floridas, as ruas da vila, gritando em uníssono: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia». Porém, entrementes e à socapa, trazem consigo uma pequena garrafa da mais pura e cristalina medronheira, que emborcam a espaços, enquanto gritam cada vez com mais força e entusiasmo: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia».
Concluída a procissão, as “tochas” são prostradas ordenadamente sobre a calcada, constituindo, assim, um vasto e esplendoroso tapete florido, sobre o qual o sacerdote caminha solenemente, ao mesmo tempo que empunha o Santíssimo. Após a marcha religiosa, o prior celebra então a missa campal, à qual assistem sempre milhares de fiéis, alguns deles ainda arfantes do vigor da solenidade.
Antigamente, e julgo que também ainda hoje, se costuma realizar um concurso para apuramento das mais belas “tochas” que desfilaram na procissão, as quais se distribuem por três grupos, conforme as técnicas empregues na sua elaboração artística. Refira-se que, neste ano [1982], o concurso das melhores tochas organizado pela paróquia terá a especial comparticipação da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, da Junta de Freguesia e da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Após a actuação do Rancho Folclórico de Alte e do lançamento dum vistoso fogo-de-artifício, serão encerradas as festividades, que, no seu género, bem poderão ser consideradas como únicas na Península Ibérica.
Pelo seu real valor etnográfico, que, por estranho que pareça, ainda não foi estudado, aqui fica o nosso apontamento, que mais nenhuma pretensão encerra que não seja a de dar a conhecer uma manifestação popular, que em si congrega o espírito profano, mas inocente, do nosso povo com o misticismo cristão da Igreja.
Lamentamos apenas que o dia 25 de Julho, data da invasão inglesa do Algarve, não seja comemorado com o júbilo e a veneração com que os actos de grande heroísmo patriótico costumam ser celebrados no nosso país.

(artigo publicado, no matutino «Diário de Notícias» de 12-04-1982)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Monte de S. Miguel no Algarve – panorâmica turística inexplorada

José Carlos Vilhena Mesquita

O Algarve não é apenas sol e mar. Muitas vezes o dissemos e todos sabem que temos razão. Porém, o turismo algarvio continua insistindo na polarização do litoral, esquecendo o interior onde muitas vezes a beleza do campo e do património histórico se transforma num tonificante lenitivo para o «stress», ou para as enfadonhas e rotineiras férias nas praias. Há que pensar na organização de novos roteiros turísticos e na alternância praia/campo que possibilite ao visitante uma imagem mais objectiva da realidade algarvia. O facto de não levar o turista até à serra, só para que não veja a frugalidade económica dos habitantes ou o atraso “civilizacional” (se é que isso existe) dos seus costumes, e quanto a nós uma política errada. Confinar o turista ao espaço geográfico que medeia entre a praia e o hotel é um perfeito disparate, e esconder-lhe a própria beleza do Algarve, e afastá-lo da nossa cultura e do nosso riquíssimo artesanato. Os estrangeiros apreciam as nossas tradições e os nossos valores sociais, muitas vezes aqueles que o desenvolvimento económico-industrial fez desaparecer nos seus próprios países, sem esquecer que a sua canalização para o interior iria certamente desenvolver a economia local, tão marginalizada e esquecida, prestes a sofrer o ermamento humano e, como natural consequência, a desertificação.
Como sugestão ou alternativa aqui deixo a ideia de uma visita ate ao monte de S. Miguel, cuja panorâmica, salvo as devidas proporções, nada fica a dever à Fóia em Monchique. Acrescento ainda que o cerro de S. Miguel é muito mais do que um soberbo miradouro natural da serra, do Barrocal e da linha azul cristalina do nosso litoral, pois que outros atractivos e riquezas se podem ali observar. Vejamos então.

«O monte do Figo» na história

Na antiguidade sabe-se que o cerro de S. Miguel ou monte do Figo, como então era conhecido, servia de importante ponto de referência à navegação costeira, não sendo raras as alusões à sua estratégica localização nos mapas portulanos, textos literários e documentos históricos pertencentes aos Fenícios, Cartagineses, Gregos, Romanos, Vikings, Árabes e outros povos cristãos da Europa do Norte. Inclusivamente, atribuíam-se-lhe poderes místicos, obscuros e fantasiosos, provenientes de uma fértil imaginária, intrínseca aos povos marítimos. Mitólogos como W. Christ Imullenhoff consideravam aquela elevação como uma montanha sagrada, uma espécie de Olimpo onde as divindades marítimas se reuniam em sigilosa conferência. O eminente arqueólogo prof. Schulten chegou mesmo a identificar o cabo Zéfiro, citado por Avieno no seu imortal poema Ora Marítima, como sendo o monte Figo, opinião de que comungam outros investigadores, nomeadamente o prof. Mendes Correia e o espanhol Antonio Arribas, o que parece definitivamente afastar quaisquer dúvidas acerca da identificação do tartéssico cabo Zéfiro com o cerro de S. Miguel.
Não obstante estas opiniões abalizadas de estudiosos célebres, como Schulten, penso que o problema não está ainda totalmente clarificado, e francamente, na minha opinião, não me parece muito lógico, ou pelo menos muito fácil de compreender, que um cerro de 400 metros de altitude e a cerca de duas léguas de distância da costa possa ser a mesma coisa que um cabo. Mais lógico seria, talvez, identificar o cabo Zéfiro com o cabo de Santa Maria e considerar como seu perceptível e mais elevado ponto de referência o Monte do Figo. Mas, enfim, tudo isso são questões que transcendem os meus precários conhecimentos.

Ermida de S. Miguel

Através da reconquista Afonsina cristianizaram-se os locais místicos ligados ao paganismo greco-romano, não escapando a essa onda de renovação religiosa o simples Monte do Figo, em cujo alto, reza a tradição, se teria erguido uma ermida para assinalar o aparecimento do Arcanjo S. Miguel. Contudo, no cume do cerro nada subsiste que prove a sua anterior existência, e de concreto apenas se sabe que o bispo D. Francisco Gomes do Avelar ali mandou colocar um pedestal de pedra com uma enorme cruz de madeira, que o tempo se encarregou de fazer desaparecer.
Todavia, na encosta norte do cerro ergueu-se, em data que desconhecemos, mas que deve rondar os séculos XV ou XVI, uma (nova) ermida, bastante singela, de tipo rural, denotando fortes influências góticas e visíveis reconstruções, que, por certo, alteraram a sua traça original. O último restauro processou-se no ano passado [1983], e tal como, desde 1943, ficou a dever-se à iniciativa do padre Isidoro Domingos da Silva, pároco de Moncarapacho, que nesta freguesia tem desenvolvido, de parceria com o Dr. José Fernandes Mascarenhas, uma acção cultural verdadeiramente brilhante e assinalável.
O seu recheio é bastante pobre, de uma só nave, chão de grés em ladrilho, um único altar dois degraus acima do nível central, ostentando ao centro uma antiga imagem do padroeiro, ladeada por duas estatuetas de Nossa Senhora do Socorro. Possui alguns bancos corridos em castanho de antiga fábrica, à esquerda um secular púlpito (certamente resquício da primitiva construção), com boa acústica e uma improvisada sacristia. O referido pároco ali reza missa todos os últimos domingos de cada mês, a ela assistindo a população do barranco de S. Miguel, que não ultrapassa os 20 habitantes.
Curiosamente, a ermida possui campanário, mas não tem sino, o que, segundo apurámos, é uma aspiração destas gentes que vivem placidamente na lonjura da serra.

Potencialidades e dificuldades

Depois que a radiotelevisão ali instalou um retransmissor, depressa se abriram os convenientes acessos rodoviários, e hoje facilmente qualquer cidadão pode subir até ao cume do monte para dali desfrutar duma panorâmica de indescritível beleza.
A altitude atinge os 411 metros acima do nível do mar, o solo é calcário e no cume abundam vários minerais como a calcite, cor de mel rosado, e a halina, os calhaus rolados de quartzo e quartzites, um filão de basalto alterado com olivina e na encosta sul vêem-se imensas rochas com amonites fossilizadas.
Na face norte, a poucos metros do retransmissor, encontra-se o Barranco de S. Miguel, pequeno aglomerado habitacional, que em 1964 totalizava uma centena de moradores, mas que hoje não ultrapassa duas dezenas de locatários. O abandono da população deveu-se em larga medida à fraca rentabilidade agrícola, à escassez da água e, fundamentalmente, à emigração, não propriamente para o estrangeiro mas antes para a orla litoral do Algarve.
A zona florestal tem vindo a diminuir, as secas sucedem-se, os poços esgotam-se e as privações de toda a ordem têm tornado a vida insustentável àqueles que persistem em ficar. As crianças, que são em reduzido número, para irem à escola primária do Azinheiro, na freguesia de Estoi, deslocam-se quatro quilómetros, desbravando caminho entre os cerros. Os jovens têm de ir para Faro estudar, o que é muito dispendioso e praticamente incomportável. O analfabetismo ronda os oitenta por cento e a fuga à escolaridade obrigatória não é um hábito mas antes uma necessidade.
A luz eléctrica foi instalada há cerca de cinco anos [1979], não possuem água encanada nem fontanário, as instalações sanitárias (quando existem) são rudimentares, não há telefones, não lêem jornais e o único contacto com o quotidiano exterior é feito através da rádio (que ouvem com frequência) e da televisão, cujo aparelho poucos possuem, mas que vêem amiúde, sendo o programa preferido a telenovela, que curiosamente designam por «Gabriela», qualquer que seja o seu título original.
Nos últimos quatro anos tiveram de comprar água nas imediações mais próximas, a qual transportavam em mulas e cântaros para utilização doméstica e amanho de algumas sementeiras, pois o único poço (que é comunitário) só este ano, devido à forte pluviosidade, atingiu um nível razoável. A inquinação das águas e a deflagração de um surto de febres tifóides são perigos constantes e iminentes.
A produção agrícola é fundamentalmente composta por cereais: centeio, trigo, cevada e outros. Colhem alguns frutos num terreno difícil, onde só resistem com abundância as alfarrobeiras, oliveiras, figueiras e amendoeiras, cuja produção poderia ser aproveitada de forma conveniente à sua comercialização.
A exuberância silvestre, fortemente marcada pela presença do rosmaninho, tomilho, giesta, alecrim, rosas albardeiras e outros arbustos floridos, transforma o terreno numa vasta área propícia à produção de mel.
A constante desarborização da serra tem sido a causa próxima da secura e esterilização dos solos, situação que futuramente poderá levar ao desaparecimento deste interessante aglomerado que dá pelo nome de Barranco de S. Miguel.
Esperemos que as autoridades do turismo regional aproveitem ao máximo as belezas naturais deste local, onde se pode desfrutar de uma beleza panorâmica inigualável no Algarve. Sugerimos também aos futuros visitantes do cerro de S. Miguel que não deixem de confraternizar com o povo do sítio de Barrancos, esquecido e marginalizado desde há largas décadas, sofrendo em silêncio as amarguras de uma existência praticamente sem futuro.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», em 24-9-1984)