quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Natal Algarvio perdeu tradições

José Carlos Vilhena Mesquita

Dificilmente se encontram hoje no Algarve os resquícios da festa natalícia genuinamente regional. Mesmo nos lugares mais recônditos da serra se esbateram as tradições, apesar de em toda a província não ser estranha a alegria que a verdadeira festa do lar traduz no espírito da família. No fundo, o Natal, quer seja minhoto, transmontano, beirão ou algarvio, contem um denominador comum: a celebração de uma festa religiosa com características muito intimas, na qual a família se reúne numa verdadeira apoteose dos seus continuadores – as crianças. O Natal é, por excelência, a festa da criança, o prolongamento da família, a personificação da unidade e da esperança no futuro.
Os presentes, com que no início da nossa Era os Reis Magos homenagearam o Deus-Menino, são hoje simbolicamente os mesmos – embora materialmente muito diferentes – e servem para traduzir a felicidade do lar, a paz e a amizade entre os homens. Por isso, Natal sem consoada, sem presépio nem prendas, não é Natal. E estas são, sem sombra para dúvidas, as características mais gerais da festa, que, cada vez mais, se tornou pertença de um património universal.
Verifica-se, porém, que as influências culturais resultantes de uma heterogeneidade geomorfológica de insondável ancestralidade marchetaram as celebrações religiosas com dispares manifestações populares, que, de algum modo, as diferenciavam, criando-lhes uma individualidade peculiar, e, por vezes, algo estranha e muito curiosa. Com o seu estudo se preocuparam os etnógrafos e antropólogos, mas para o seu progressivo esvaziamento parece estar a contribuir um hodierno progresso tecnológico, emanado duma sociedade consumista e alienante, que tende a estandardizar as próprias raízes culturais dos povos. O conservadorismo etnográfico, e a reserva do tradicional, assume-se hoje, numa perspectiva mais cosmopolita, como sintoma de atraso civilizacional. A mundialização do pinheiro escandinavo, e do Pai Natal normando, superaram, por observância da normalização comercial, os padrões culturais e as manifestações populares do Natal latino, esse sim, genuinamente cristão e profundamente visigótico. De tal forma assim é que o Natal secularizou-se para dar lugar a uma festa social, altamente vulgarizada, profundamente dependente duma indústria de mercado, que a força persuasora da publicidade e dos meios audiovisuais de comunicação tem vindo a banalizar.
Mesmo assim, apesar de todas as atrocidades etnográficas a que impavidamente temos vindo a assistir, o Natal é, e será sempre, a festa do lar, a apoteose da criança, um hino de paz que apela à fraternidade humana.

À procura do Natal algarvio

Tal como acima ficou explicitado, não existe hoje propriamente um Natal algarvio. Contudo, tempos houve em que as manifestações natalícias se transformavam em verdadeiras festas da comunidade, com ligeiras ou salientes afirmações da cultura local, que se transformavam em peculiares variações, de região para região, às vezes mesmo de concelho para concelho. Nas comunas rurais sempre se evidenciou um sentimento de solidariedade e de confraternização entre os seus membros, ao qual o espírito religioso emprestava uma forte consistência. Era uma festa deambulatória, se assim se lhe pode chamar, usando o lar e a igreja coma balizas duma intercomunicabilidade fraternal em que as dissensões e incompatibilidades entre as pessoas se perdoavam e desfaziam num amplexo, que o respectivo pároco se esforçava por estreitar. Na região algarvia, dum luminoso cenário azul, falta-lhe na noite de consoada a neve e o frio enregelante, capaz de reter as pessoas no aconchego da cálida lareira.
Antigamente, logo após a consoada, as famílias costumavam visitar-se na noite de Natal, tradição que até há bem pouco se conservava no interior algarvio. As crianças saíam com os pais a visitar os lares mais queridos, comendo deliciosos pastéis de mel e provando espirituosos vinhos. A bondosa inocência do serrenho algarvio impregnava a noite de Natal com um fraterno calor humano verdadeiramente inigualável.
Na esperança de encontrarmos a chama ardente desse passado cultural, deslocamo-nos até ao concelho de S. Brás de Alportel, perdido na serra algarvia, cujos lugarejos percorremos ao sabor de seculares caminhos. Falamos com alguns anciãos de diferentes sítios, com pessoas instruídas e até com alguns jovens. No avaliação deste ligeiro inquérito, verificámos que as tradições antigas já se perderam, que na sua grande maioria são irrecuperáveis, que a juventude pouco se interessa com o passado, que a televisão faz reter as pessoas em casa, que a carestia de vida exterminou quase por completo as visitas aos lares, e, em suma, que o Natal se tornou na noite em que se recebem os presentes. Concordam todos que se trata da festa da família, marcada pela ceia natalícia e pela convivência com as crianças. Não obstante, os jovens preferem mais a noite de Passagem de Ano do que a noite de Natal, pois que, não se sentindo obrigados a ficar em casa com a família, reúnem-se em grupo para saírem até ao litoral ou às cidades mais cosmopolitas onde dançam e bebem até ao raiar da manhã. Surgiu mesmo uma nova tradição: a de presenciar o nascer do sol do Ano Novo.
Todavia, algo permanece ainda vivo do tradicional Natal algarvio, para alguns tão longínquo, mas para outros ainda saudosamente presente, sobretudo na memória dos mais idosos. Acima de tudo mantêm-se a Ceia de Natal, alguma gastronomia tradicional, a reunião da família e o presépio. Porém, são já raros os cantadores populares das janeiras e reisadas, cujos grupos de cantares se designam por “charoleiros”.
O dia de Natal continua a ser insofismavelmente o dia da Família, cujos membros se reúnem na casa dos pais, na do filho mais velho ou na do irmão mais “remediado". Curiosamente, ainda ouvimos falar dos morgados, termo que servia para designar os indivíduos mais ricos, em cujos lares se faziam lautas ceias de vários pratos, imensa doçaria e animada festa, para a qual se convidava o pároco. Durante a noite jogavam-se às cartas, contavam-se histórias antigas, revivia-se a memória dos antepassados, cantavam-se velhas modinhas, mimoseavam-se os mais idosos, presenteavam-se as crianças, filhos e netos. Às vezes reuniam-se numa só casa dezenas de familiares e amigos para celebrarem em conjunto a fraternidade natalícia.
Para estes lados da serra algarvia, e nesta altura do ano, vêem-se numerosas viaturas de emigrantes que apressadamente regressam aos seus lares de origem, para confraternizarem e reunirem-se com a família. A necessidade de afirmação do seu sucesso económico leva-os, por vezes, a realizarem ruidosas festas a que não faltam os acostumados foguetes.
Nos lares mais tradicionais, e que possuem antigas lareiras, queimam-se grossos madeiros, que se colocam atrás do fogo. Reza a tradição local que os rapazes solteiros, para no ano que se avizinha serem bafejados pela sorte, têm que durante a noite visitar nove madeiros, comendo filhós e bebendo vinho novo. Mas hoje já poucas casas se podem dar a esse luxo de receber tanta gente e de ter uma lareira acesa durante todos esses dias. Aliás, para combater o trio existem modernos caloríferos, para além de que as novas construções (os modernos apartamentos) nem sempre possuem fogão nem sala. De qualquer modo, dizem que quando o madeiro não chega a consumir-se inteiramente ate ao Dia de Reis deve-se parti-lo em pequenos pedaços, que servem para nos dias de tempestade se voltar a acender, evitando-se assim que algum raio fulmine o lar. Além disso, o Natal é também a festa da lareira, ou do ancestral fogo sagrado, e quanto maior for o madeiro e mais tempo durar a sua lenta incineração, maior e mais saudável ficará a seara. Parece que também dá mau agoiro não comer bolotas ou castanhas nas vésperas de Natal.
O presépio é tradição inalterável. Toda a gente monta o presépio, que nas casas mais modernas figura, por vezes debaixo de um incaracterístico e profano “pinheirinho”, enfeitado com luminosos conjuntos eléctricos. Nos lares mais antigos, porém, entroniza-se o Menino, numa espécie de altar, ou peanha, que as moças casadoiras constroem sobre uma mesa, sobrepondo varias gavetas invertidas e de tamanhos sucessivamente menores, cobertas de alvas toalhas de linho, enfeitadas com lamparinas de azeite, frutos variados, bonecos alegóricos à quadra natalícia e as tradicionais searas. Convém esclarecer que estas searas, com um significado simbólico de ancestral origem, obtêm-se colocando em pequenos recipientes uma porção de cereais, geralmente trigo, cevada, lentilhas, grãos ou centeio, mergulhados em água, que passados alguns dias germinam e crescem com colorações de um verde amarelado e suave, semelhante aos das verdadeiras searas. No último degrau desta curiosíssima pirâmide figurava o Menino Jesus, emoldurado pela luz radiante das luminárias, em volta do qual se reuniam os mais jovens, para no Dia de Reis entoarem alguns cânticos bastante peculiares:

O meu menino Jesus
Está lá alto na tribuna;
Está pedindo a sua mãe,
Que nos dê muita fortuna.

Eu vim ver este presépio,
Qual será o meu destino,
Por ser noite de ano bom,
Venho cantar ao menino.

Hei-de dar ao menino
Quatro, cinco, nove, seis,
E uma camisinha fina
Pra vestir, Dia de Reis.

Hei-de dar ao menino
Um galão pra cintura;
Que ele também me há-de dar
Um lugar na sepultura.


A ceia de Natal

Junto ao presépio montava-se a mesa para a ceia, repleta de enchidos, presunto, carnes variadas, deliciosos bolos de mel, filhós, fatias douradas, brinhóis, “empanadilhas” de batata-doce, estrelas de figo, queijos de figo, bolos de amêndoa, dons-rodrigos, figos torrados, amêndoas, pinhões, avelãs e nozes, tudo isto acompanhado de espirituosos vinhos e da saborosa medronheira algarvia. Ao contrário do bacalhau minhoto, come-se no Algarve um anafado galo, escolhido meses antes, o qual o povo desde logo designa por Galo do Natal. Porém, nas casas mais opulentas há quem mate um porco, cuja carne e cuidadosamente repartida, salgada ou defumada, para que dure ate à Quaresma.
Durante a noite ou depois da consoada alguns grupos de rapazes vão cantando de casa em casa até à hora da Missa do Galo. Entretanto, os chefes das famílias mais gradas da freguesia dirigem-se à igreja da paróquia, onde apresentam as boas-festas ao pároco e distribuem esmolas aos pobres. À meia-noite celebra-se a Missa do Galo, cujo templo foi previamente decorado, pelas senhoras mais respeitáveis da freguesia, com flores, velas e um magnífico presépio. No fim da Missa o pároco dá o Menino-Jesus a beijar aos fiéis, regressando depois todos a casa, com os mais novos a cantarolar algumas quadras alusivas à época, quando não se reúnem à volta de um madeiro ardendo ao ar livre, cantando e dançando um qualquer improvisado corridinho.
No dia seguinte, come-se o que sobrou da noite da consoada, voltando-se a reunir a família. Porém a alegria e bastante menor. Nas localidades da faixa litoral, especialmente nos bairros de pescadores, come-se pelo Natal o célebre leitão, litão, ou “peixe-de-cor”, que não é mais do que um pequeno esqualo, conhecido por pata-roxa, também aqui designado por caneja. Este pequeno tubarão, para ser transformado numa iguaria do natal algarvio, precisa de ter no mínimo um metro de comprimento para poder pesar pouco mais de um kilo. Prepara-se “escalado”, ou seja, aberto ao meio, depois é distendido numas canas em forma de papagaio, e após salgado põe-se a secar à soleira da porta de casa durante uma semana. Guarda-se depois em sítio seco para ser consumido no Inverno, sobretudo na consoada por ser mais barato do que o bacalhau. Este costume ainda hoje se mantém em Olhão e Portimão.
Curiosamente, na serra repete-se pelo Carnaval uma ceia algo semelhante à do Natal, com filhós e o tal, indispensável, galo. Por isto se vê quão simples e pobre se mantém a gastronomia por estas bandas, onde a agricultura continua a ser rudimentar, mal dando para a sobrevivência da família.
Na passagem de ano, ou noite de Ano Novo, a festa é semelhante à do Natal, embora muito mais alegre, marchetada por frequentes libações e bailaricos, que os mais jovens organizam nas sociedades recreativas ou nos clubes populares. As charolas e o cantar das janeiras são as manifestações mais castiças do povo serrenho e as mais características desta época. No Dia de Reis era costume fazer-se o bolo-rei, cuja confecção difere muito daquela que já nos habituamos a consumir durante toda a quadra natalícia. As tradicionais janeiras ou reisadas cantavam-se pela última vez, encerrando-se, deste modo, o mais belo período festivo do ano.
Presentemente, nas cidades do litoral algarvio já não existem quaisquer manifestações populares que identifiquem aquilo a que poderíamos chamar um “Natal diferente”. As tradições esbateram-se ou perderam irrecuperavelmente o sentido peculiar do Natal.
Hoje, o Natal é de cada um, nunca para todos, mas cada vez será menos do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias» em 24-12-1985)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Manuel Gomes Guerreiro, um Homem superior a quem o Algarve deve a fundação da sua Universidade

J. C. Vilhena Mesquita

Os amigos, verdadeiros e sinceros, nunca deveriam desaparecer do nosso convívio. Fazem-nos falta, como se deles dependêssemos para equilibrar o espírito e sossegar a alma. Mais nos dói ainda o coração quando temos de falar deles no passado, isto é, quando apenas deles resta uma saudosa recordação. É o caso do Professor Engenheiro Manuel Gomes Guerreiro, de quem guardo a memória da mais profunda gratidão. Pessoalmente devo-lhe uma amizade sincera, enriquecida por uma franca e recíproca admiração. A paixão pelo Algarve, e o estudo dos seus mais diversificados aspectos histórico-culturais, era o cimento conglomerador da nossa amizade. E foi por causa dessa minha afeição algarviista que dele recebi o convite para ingressar no corpo docente da Universidade do Algarve.
Acima de tudo o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi um Homem de muitos saberes, a quem tudo suscitava a curiosidade do conhecer e do entender. Cientista esforçado, preocupado e proficiente, para quem a biodiversidade constitui uma harmoniosa estrutura erguida ao longo de milénios, como se fosse uma teia de interdependências na qual o homem parece ser um agente regulador e vigilante. Porém, era sua convicção que a incompetência e a ignorância dos políticos, acrescidas dos interesses económicos, tendiam a ameaçar o frágil equilíbrio ecológico do nosso planeta.
Afligia-o a responsabilidade de saber que sucessivas gerações anteriores, com sofridos sacrifícios, nos tivessem legado um património ambiental e um equilíbrio ecológico que a todo o momento tem sido descurado, alterado e irremediavelmente delapidado. Só um cientista com a sua capacidade para sentir o que o rodeia, e com uma enorme carga emotiva para entender os poetas, é que era capaz de escrever ciência com o calor das palavras simples, usadas por gente simples para atravessar a essência das coisas. No seu cientificismo académico nunca subiu à torre de marfim para se isolar da realidade nem do pragmatismo funcional. Preferiu a verdade primeira, concreta e sensível das coisas, para só depois a perscrutar com o olhar profundo e rigoroso da ciência. O saber é um encadeamento de sucessivas experiências e de acumuláveis conhecimentos, no qual a ciência representa alguns elos, mas não completa toda a cadeia cognitiva. Tinha disso consciência, e, por isso, respeitava todos os caminhos, todas as percepções e contributos, que o pudessem ajudar a compreender a realidade e o porquê das coisas, na plena certeza de que a verdade absoluta não passa de uma quimera filosófica.
Quantas vezes o ouvi dizer que existia uma ciência popular que o mundo científico levianamente desprezava. Quantas vezes me disse que com o povo humilde da serra algarvia se aprende mais do que se ensina. Percebi-o e dei-lhe razão no primeiro confronto directo com a realidade. Existe um saber próprio nas entranhas das terras fragosas e altaneiras que subsistiu ao longo dos séculos, preservando métodos e técnicas de trabalho, costumes e condutas sociais, medicinas alternativas, músicas e cantares, provérbios e ladainhas, enfim um mundo de conhecimentos que não é do foro exclusivo do etnólogo, mas sim de todo o cientista que faça da avidez do conhecimento e da humildade da aprendizagem o que Gomes Guerreiro fez: um lema de vida.
Para além da feição de homem de ciência, o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi, sobretudo, um homem íntegro, que nunca permitiu que os seus legítimos interesses lhe pervertessem o carácter ou lhe desviassem o prumo da honra. Foi, como diria o poeta, um homem perpendicular. Que aprendeu, mercê de grandes e sofridas desilusões, a perceber a falsidade, a traição e a mesquinhez dos “homens pequenos”. A vara com que se mede o estro dum homem não comporta os centímetros da sua estatura nem a altivez das suas palavras, mas antes a sua grandeza de carácter e a dimensão das suas atitudes e comportamentos. Disse-me muitas vezes que a crise de consciência democrática e de valores ético-sociais do mundo actual está intimamente ligada ao egoísmo e à velada satisfação de apátridas interesses económicos. E à imitação da primeira metade deste século, o actual regime democrático poderá correr riscos de sobrevivência e de satisfação das massas se nada se fizer para combater o clientelismo e a partidocracia. Por outro lado, insistia que o melhor investimento no futuro e a principal obrigação do Estado moderno é a Educação e a formação intelectual. A institucionalização da Escola aberta à formação livre e independente de curriculuns académicos estatizados, que evitasse a simples “caça ao canudo” para a obtenção de um emprego, era também um dos seus desideratos. Mas como tantos outros sonhos que o Prof. Gomes Guerreiro sustentou ao longo da vida, muitos deles não se concretizaram. Contudo o mais importante realizou-se: a Universidade do Algarve, da qual foi com toda a justiça o seu primeiro Reitor. Tive nessa altura a minha quota parte, não só na angariação de assinaturas para o Dr. José Vitorino poder exigir na Assembleia da República a discussão da fundação da nossa Universidade, como também alguns anos depois ao ter sido convidado pelo Prof. Gomes Guerreiro para docente fundador desta casa a que muito me orgulho de pertencer.
Devo pois confessar, que pessoalmente sempre recebi do Prof. Gomes Guerreiro as maiores deferências, sendo uma delas a sua adesão à AJEA – Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, logo nos primeiros dias em que avancei com a sua criação.
Da sua biografia, que escrevi para o meu ainda inédito «Dicionário da Imprensa Algarvia», extracto para aqui os seguintes elementos:
Manuel Gomes Guerreiro, era filho de Manuel Guerreiro e de Maria Vitória Gomes, ambos naturais da freguesia de Querença. Nasceu a 20-1-1919 no sítio das Vargens, freguesia de Querença, dali se apartando dois anos depois em direcção a Faro, onde fez a instrução primária e se distinguiu no velho Liceu João de Deus. Em 1939 fez o exame de admissão ao Instituto Superior de Agronomia, onde concluiria, em 1943, o curso de engenheiro silvicultor. Em Alcobaça, sob a orientação do Prof. Vieira Natividade, elaborou a sua tese de licenciatura intitulada «O Problema do melhoramento Florestal do Género Populus», dado à estampa na Revista da Direcção Geral dos Serviços Florestais. A partir daí não parou com a investigação e os trabalhos publicados rondam hoje uma centena de títulos, os quais nos escusaremos de citar ao longo desta notícia por na sua grande maioria dizerem exclusivo respeito à sua especialidade científica.
Depois de ter passado pelo Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, ingressou, em 1944, no Quadro de Investigação da Estação de Experimentação Florestal do Sobreiro, organismo sediado em Alcobaça e de grande prestígio internacional, chefiado pelo Prof. Abílio Fernandes. Aí se dedicou, durante 12 anos, ao estudo dos problemas do Melhoramento Genético, particularmente de espécies lenhosas incluídas nos géneros Populus, Castanea, Quercus e Pinus. A esse período remontam vários trabalhos de investigação publicados em revistas nacionais e estrangeiras.
Convidado a ingressar no quadro docente do Instituto Superior de Agronomia, apresentou-se em 1957 a defender provas para Professor Agregado ascendendo mais tarde, por concurso, a Professor Extraordinário da Universidade Técnica de Lisboa, na qual se integrava aquele Instituto. Em ambos os casos apresentou dissertações específicas e obteve aprovação por unanimidade. Em 1959 aceitou o convite do director do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, sediado em Lourenço Marques (actual Maputo), para integrar o Quadro efectivo na qualidade de Investigador. Em 1963 foi-lhe conferida a posse do lugar de Presidente daquele Instituto. Naquela antiga colónia desempenhou também os cargos de Director da Sociedade de Estudos de Moçambique e do Museu de Álvaro de Castro, ambas instituições do maior prestígio científico.
No ano seguinte transferiu-se, em comissão de serviço, para o Instituto de Investigação Científica de Angola e daí para a Universidade de Luanda, onde, em 1968, viria a ser aprovado, por concurso público e unanimidade, para Professor Catedrático, através de provas que teve de vir realizar a Lisboa no Instituto Superior de Agronomia, perante um júri que incluía todo o corpo de professores catedráticos daquele Instituto. Regressando a Angola exerceu as funções de Director (por delegação do Reitor da Universidade de Luanda) dos cursos de Agronomia e de Silvicultura instalados em Nova Lisboa, actual Huambo, tendo aí leccionado várias disciplinas dos cursos de Engenharia Agrónoma e de Silvicultura. Em 1972, foi nomeada Vice-Reitor da Universidade de Luanda, onde se manteve até Janeiro de 1974, altura em que tomou posse, por convite do Ministro Veiga Simão, do lugar de vogal da Comissão Instaladora da Universidade de Évora. Em 1978 transferiu-se para a Universidade Nova de Lisboa, onde foi responsável pelo Departamento de Ciências do Ambiente, em virtude até das provas dadas como Secretário de Estado do Ambiente, no I Governo Constitucional, entre 1976 e 1977. Refira-se, por curiosidade, que só não ingressou no governo seguinte porque ao ser-lhe exigida a filiação no Partido Socialista recusou-se a fazê-lo, para garantir a liberdade e independência do poder executivo. Nos dois anos que se seguiram leccionou a disciplina de Ecologia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Quando em 1979 foi criada a Comissão Instaladora da Universidade do Algarve o Professor Manuel Gomes Guerreiro teve a honra de ter sido logo escolhido para a presidência daquele órgão, em que se manteve até 1982, ano em que lhe foi conferida a distinta posse de Reitor. Por razões diversas, que não importa agora esmiuçar, demitiu-se em 1986 daquele cargo, vindo a jubilar-se como Professor em Janeiro de 1989. Entre 1992 e 1994 aceitou o convite para exercer as funções de Vice-Reitor da Universidade Internacional, cargo que abandonou por decisão própria.
A sua vastíssima bibliografia reparte-se por domínios tão diversos como os Sistemas Agroflorestais, a Ecologia, e o Ensino Universitário. Para além de ter sido um consagrado cientista, não podemos deixar de salientar que ultimamente se tinha também revelado como um analista do binómio Desenvolvimento/Ambiente, usando perspectivas de observação e de enfoque teórico que poderão considerar-se muito próximas dos filósofos pós-modernistas que, de Toffler a Alghore, se debateram com os problemas de crescimento da industrialização, da poluição e da destruição do meio-ambiente.
Acompanhei-o até quase aos últimos dias de vida. E posso afirmar que não obstante os seus oitenta e um anos de idade, aparentava bom estado de saúde pelo que nada fazia prever que sentindo-se ligeiramente indisposto desse entrada num hospital de Lisboa no dia 9 de Abril, em cuja madrugada acabaria por falecer vítima de acidente cardio-vascular. O seu funeral realizou-se no dia seguinte, partindo da Igreja de São João de Deus, em Lisboa, para o cemitério da freguesia de Querença, onde foi celebrada missa de corpo presente pelo Padre Dr. Júlio Tropa Mendes, perante numerosa assistência constituída pela maioria do corpo docente da Universidade do Algarve, deputados, autarcas, entidades oficiais e governativas da região. Nessa tarde de Abril os céus fecharam-se para sempre, deixando para detrás, no altaneiro cemitério de Querença, o corpo de um amigo, cuja memória de gratidão sempre me acompanhará até ao resto dos meus dias.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Simone de Beauvoir no Algarve - um episódio nas relações luso-francesas


José Carlos Vilhena Mesquita

Há cerca de vinte e sete anos atrás publiquei no vespertino lisboeta «Diário de Notícias» um artigo em que recordava uma controversa visita de Simone de Beauvoir ao nosso país, a qual teve como particular ponto de referência a província do Algarve, e em especial a cidade de Faro. Nessa altura, o artigo pareceu-me oportuno e, talvez por isso, se justifique o bom acolhimento que recebeu da parte da comunidade literária. Estava, porém, longe de supor que a escritora francesa lhe sobrevivesse tão pouco tempo. Talvez por essa infeliz circunstância se possa explicar o facto da Biblioteca Nacional – numa exposição bibliográfica realizada logo após o desaparecimento da escritora – ter apresentado numa das suas vitrinas o artigo que pouco tempo antes lhe dedicara.
Tomando em consideração os anos decorridos e o interesse de que se reveste o próprio tema para a história cultural do Algarve, achei que deveria exumar o artigo das páginas do jornal para assim perpetuar a memória de uma das mais célebres escritoras da cultura europeia contemporânea. As relações culturais luso-francesas, que tantas tradições tiveram no Algarve na década de quarenta, constituem, por outro lado, um dos objectivos fundamentais deste despretensioso artigo.
Longe vai da memória dos presentes a meteórica passagem pelo Algarve da escritora francesa Simone de Beauvoir, nascida em Paris a 9-1-1908 e falecida na mesma cidade a 14-4-1986.
Ocorreu este feliz episódio em Março de 1945, por força de um convite que lhe fora oficialmente enviado pelo Instituto Francês em Portugal e pela sua delegação em Faro. Raras referências se tem feito a este acontecimento e a única excepção que conheço pertence ao Prof. Doutor João Medina, que no seu inteligente livro Salazar e França (Lisboa, Ed. Ática, 1977), lhe dedicou um capítulo intitulado «Simone de Beauvoir no Algarve» (Idem, pp. 144-l46), o qual aparece precedido duma extensa antologia retirada das obras A Força das Coisas e de Os Mandarins. Num estilo biográfico-memoralista, Simone de Beauvoir recorda a amarga impressão que lhe causou o clima Salazarista e a consequente situação económico-social, francamente desfavorável ao proletariado rural e fabril, materializada na fossilização dos conceitos de liberdade de expressão e de associação política. Um país pobre com sete milhões de habitantes, onde setenta mil comiam demasiado, enquanto os restantes passavam fome - afirmava e repetia Simone de Beauvoir nos seus livros. Sujo ocaso (“Sale hasard”) desabara sobre Portugal – parece ser a sua conclusão relativamente ao Estado Novo. Tamanhas “heresias” e “vitupérios” valeram-lhe a distinção de ver os seus livros proibidos no mercado livreiro português.

Familiares no Algarve

A principal razão da sua vinda ao nosso país prendia-se a motivações de ordem familiar, interligada com factores de ordem cultural. Efectivamente, estamos em crer que o convite formulado pelo Instituto Francês fora sugerido pelo seu cunhado Lionel de Roulet, casado com Hélène de Beauvoir, ambos refugiados no nosso país pouco antes do colapso militar da França, em 1939. Colocado em Lisboa, como membro directivo do referido Instituto, em breve Lionel de Roulet se transferiria para o Algarve, procurando na amenidade do clima o eficaz tratamento para uma, presumível, tuberculose óssea. Certamente não seria essa a sua doença, mas o certo é que igualmente para aqui o atraíam a mãe, Hélène Laure de Coninck, e o padrasto, o pintor Carlos Porfírio, intelectual da mais fina têmpera, antigo companheiro e amigo de Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor e tantos outros, que em 1917 aparecerá distinguido com as honras de Director e Fundador da revista Portugal Futurista – um dos marcos miliários do movimento modernista português.
Com efeito, Carlos Porfírio[1] numa das suas estadias em Paris consorciara-se, em segundas núpcias com Hélène Laure de Coninck, mãe de dois filhos: Lionel e Chantal. Esta senhora, de esmerada cultura e delicada educação, que era irmã da mãe de Simone de Beauvoir[2], viria a falecer ao Faro, em Dezembro de 1964.
Lionel de Roulet era um homem culto – suponho que fora aluno de Jean-Paul Sartre no Liceu do Havre e do mestre do Existencialismo traduzira o conto Estátuas Volantes, dado à estampa pela Editorial Inquérito. À frente da delegação do Instituto Francês, em Faro, viria a relacionar-se com os mais proeminentes intelectuais algarvios desse tempo, na sua maioria republicanos, de índole pacifista e contemporizadora, que formalmente se declaravam oposicionistas ao regime de Salazar.

O Círculo Cultural de Camões em Faro.

Decorria, então, a época áurea da Comemoração dos Centenários e com ela nasceu a ideia de fundarem um organismo cultural onde se pudessem reunir e implementar na comunidade farense o apreço pelas Humanidades e pela Ciência em geral.[3]
Deram-lhe o nome de Círculo Cultural de Camões e sediaram-se na Praça Alexandre Herculano, nos baixos do “Palácio das Lágrimas”, curiosa designação cuja origem não vale a pena aqui explicar.[4]
Rapidamente se elaboraram os Estatutos, que foram aprovados pelas entidades oficiais em 1940. As actividades culturais iniciaram-se nos finais desse ano na sede do Instituto Francês. A situação financeira do Círculo dependia dum subsídio da Junta de Província, que inclusivamente lhes prometera cinco salas no edifício que então se construía no chamado Largo da Pontinha, hoje designado por Largo da Liberdade. Esta situação de dependência, aliada a outros factores de carácter particular, ditou mais tarde a sua extinção, de cujas cinzas nasceria em 1943 o actual Círculo Cultural do Algarve. Vem, contudo, a talho de foice revelar que António Ferro fizera sigilosas reuniões numa conhecida estalagem próxima de Faro com intelectuais afectos ao regime, propondo a conversão daquele organismo aos ideais vigentes. Felizmente, nem todos viram no Círculo Camões o perigo “reviralhista” que se lhe pretendeu atribuir, recusando-se, portanto, a tomar parte em quaisquer manobras de boicote ou de apropriação ilegal.

Patrocínio Cultural da França.

Apesar de todas as dificuldades o Círculo Camões promoveu ou participou em várias iniciativas culturais que marcaram a época e não deixaram no olvido a sua, ainda que efémera, existência. Assim, registe-se a vinda ao Algarve do célebre coro infantil «La Manécanterie des Petits Chanteurs à la Croix de Bois», dirigidos pelo Abade Maillet e patrocinados pelo Instituto Francês. O grupo coral chegou a Faro a 29-12-1940 e no dia imediato realizou um concerto cujo produto revertia a favor dos pobres. A recepção fez-se com grande aparato na Câmara Municipal, onde discursaram os Drs. Justino de Bivar Weinholtz, Joaquim Magalhães, Lionel de Roulet, Abade Maillet e Francisco Guerreiro Barros. Para anunciar o espectáculo, que decorre no Cine-Teatro Farense, foram afixados interessantes cartazes da autoria de Hélène de Beauvoir e do artista algarvio Tóssan.[5] O êxito foi retumbante e as instalações do Teatro foram insuficientes para conter as largas centenas de espectadores.[6]
Outras iniciativas se seguiram, todas elas organizadas ou patrocinadas pelo Instituto Francês, visto que o Círculo Camões era uma espécie de sua filial.
Assim, decorreu entre 1941 e 1943 nas instalações do Círculo Camões vários cursos de línguas vivas, francês, inglês e alemão, embora suponha que este último nunca chegou a funcionar. Em Março de 1941, o crítico e professor de arte, Myron Malkiel Jirmounsky, pronunciou uma interessante conferência, no salão nobre da Câmara Municipal, subordinada ao tema «O Problema dos Primitivos Portugueses». No mesmo ano, Lionel de Roulet orientou no Círculo um curso de Literatura Francesa. A 14-11-1941 visitou o Algarve o ministro francês François Gentil, demorando-se nesta província três dias, tendo o Círculo Camões, de parceria com o Instituto, promovido algumas conferências daquele político, assim como um banquete de despedida nas instalações do Clube Farense. Por intermédio do mesmo ministro deslocou-se depois a Faro, em 9-12-1941, a pianista Reine Gianoli, aproveitando o Círculo para realizar alguns concertos pelo Algarve. Em Janeiro de 1942, Armand Guibert – conhecido tradutor de Fernando Pessoa – pronunciou uma palestra sob o patrocínio do Instituto Francês. Em Março, Lionel de Roulet inicia uma série de conferências sobre literatura francesa no séc. XIX. Em Maio, Bernard Michelin dava um concerto no Clube Farense, etc, etc. Não vale a pena continuar a enunciar as iniciativas conjuntas do Instituto Francês e do Círculo Cultural Camões, pois tornar-se-ia num vasto e enfastiante rol de concertos, conferências, exposições, cursos intensivos e outras manifestações culturais, que em Faro obtiveram assinalável êxito e muito contribuíram para o desenvolvimento cultural da região.


A revista «AFINIDADES»


Para além de tudo quanto ficou dito, merece especial destaque a publicação da revista «Afinidades», de cultura luso-francesa, que saiu em Setembro de 1942 sob a direcção do médico e musicólogo Dr. Francisco Fernandes Lopes e tendo como chefe da redacção Lionel de Roulet.[7]
A imprensa local acolheu com satisfação a nova revista[8] (de que se publicaram vinte números até Novembro de 1946), na qual colaboraram, entre outros, Joaquim Magalhães, Fernandes Lopes, Lionel de Roulet, Cândido Guerreiro, Abel Salazar, Ardré Gide, Moisés Amzalak, Paul Teyssier, Adolfo Casais Monteiro, Mário Dionísio, Saint-Exupéry, Albert Camus, Joel Serrão, Manuel da Fonseca, André Malraux, Jaime Brasil, Tomás Kim e Simone de Bauvoir, que assina um trabalho intitulado «D'un Novel Humanisme Français», que suponho ser o texto da sua conferência pronunciada em Faro. A capa foi desenhada por Hélène de Beauvoir e apresentava no centro uma vinheta com dois vultos medievais abraçados, como símbolo das afinidades existentes entre as culturas lusa e francesa. Aliás, desta talentosa pintora encontram-se em Faro, na sede da Alliance Française, dois painéis alegóricos, representando um a geografia literária da França e o outro a sinopse da história algarvia no contexto da História de Portugal. Em Fevereiro de 1943, Hélène de Beauvoir realizou no Secretariado de Propaganda Nacional uma exposição de pintura com 50 quadros, que mereceu da crítica grandes elogios.

Simone de Beauvoir no Algarve.

Como já disse, a escritora Simone de Bauvoir esteve na capital algarvia em Março de 1945, demorando-se no nosso país cerca de vinte dias. Dessa visita resultaram algumas das impressões que inspiraram não só os seus livros A Força das Coisas e Os Mandarins, como ainda uma série de artigos, publicados sob pseudónimo, no jornal «Le Combat»[9], os quais provocaram grande celeuma nos meios políticos e nos órgãos de informação nacional.
A sua conferência, pronunciada a 9 de Março pelas 21,30 na sede do Instituto Francês em Faro[10], obteve da imprensa local elogiosas referências. Vejamos um exemplo:
«Na Delegação do Instituto Francês em Faro, sob a presidência do Sr. Governador Civil (Dr. Antero Cabral) ladeado pelas autoridades locais, realizou a sua anunciada conferência sobre “A Vida Literária em França, da Ocupação à Libertação”, a distinta professora e publicista Simone de Beauvoir que foi apresentada pelo Prof. Lionel de Roulet.
A conferente que durante duas horas teve o condão de prender a atenção do auditório, sem o fatigar, fez uma brilhante prelecção e conseguiu comover e emocionar o seu numeroso auditório. O Sr. Governador Civil, agradecendo, extraiu o significado da lição de patriotismo dada pela França e posta em relevo pela conferente.
No final houve uma recepção íntima nas dependências da Pensão Sota, sendo exibidos bailados regionais algarvios e trocados afectuosos brindes».[11]
O clima hostil aos ideais democráticos que se vivia no país deve ter, pelo menos parcialmente, comedido a agressividade política da sua palestra. Simone de Beauvoir vinha distinguida como primeira enviada intelectual duma França renovada e livre, e apesar de se confrontar com uma audiência aburguesada, acomodada e protectora do Estado Novo, nem por isso deixou de atacar a ferocidade nazi e o demoníaco holocausto perpetrado nos campos de concentração:
«... não me amedrontava falar; mas havia uma distância, que por vezes me desencorajava, entre a experiência que evocava e o público. Este vinha escutar-me por ociosidade, snobismo e frequentemente, com malevolência: muitos auditores conservavam total afeição pelo fascismo; a sala manteve-se gelada; ninguém queria acreditar nos campos, nas execuções e nas torturas; quando me levantei, o agente consular disse-me: Pois bem, agradeço-lhe por ter contado estas coisas, que ignorávamos completamente».[12]
A ideia que Simone de Beauvoir levou do nosso país não foi a mais favorável e embora se referisse ao Algarve com algum pictorismo, o certo é que também não lhe escaparam os pormenores de desolação e pobreza que então grassavam nas classes rurais, por serem as mais desprotegidas:
«...Vi uma terra de cores africanas, florida de mimosas e eriçada de agaves, falésias abruptas chocando com um oceano tranquilizado pela doçura do céu, aldeias caiadas de branco, igrejas de um barroco mais circunspecto que o de Espanha; (...) De longe a longe avistava grupos de homens e mulheres curvados para o solo, que sachavam num movimento ritmado: vermelhas, azuis, amarelas, laranja, as roupas brilhavam ao sol. Mas já não me deixava iludir; havia uma palavra que começava a medir o peso: a fome. Sob os tecidos coloridos, aquelas pessoas tinham fome; andavam descalças, cara fechada; e nas aldeias falsamente graciosas, reparei nos seus olhares hebetados; debaixo do sol esmagador, queimava-os um desespero selvagem».[13]
Durante a sua estadia percorreu o país de norte a sul. Gostou do Minho, apreciou os nossos vinhos, o artesanato, os costumes etnográficos, as feiras, o mar e a gastronomia. Mas por todo o lado o seu olhar forasteiro tecia impiedosas críticas à frugalidade em que viviam as camadas populares. Impressionaram-na os inúmeros pedintes, na sua maioria crianças que apresentavam sinais de evidente desnutrição. «O povo era deliberadamente mantido na porcaria e na ignorância»[14], conclui Simone de Beauvoir.
De qualquer modo, a visita foi compensadora para a escritora francesa, mercê da compensação financeira de que foi dotada a sua deslocação, podendo assim dar-se ao luxo de adquirir imenso vestuário, algum calçado e saborear pitéus, que em França o clima de guerra tornara de todo impensáveis.
Ao longo das suas memórias denota não só um acerado espírito crítico – por vezes injusto e até exagerado – como também um intrínseco burguesismo (chegou inclusivamente a comprar um casaco de peles, sapatos de fina pelica e meias de vidro), atitude que contrariava as suas ideias políticas, mas que se devem desculpar a uma mulher que, apesar de tudo, não gostava que lhe chamassem vaidosa.
Os tempos passaram e com eles despontou o reconhecimento público do seu inigualável talento literário, demonstrado pela sua numerosa lista de obras, que lhe granjearam desafogados meios de sobrevivência, um carisma e uma invejável celebridade. Após o desaparecimento de Jean-Paul Sartre (seu marido à hora da morte), viveu despreocupadamente os anos que ainda lhe restavam, de certo modo já afastada daquela atribulada e sensacional vida cultural, que pela sua obra deixou vincadas marcas na intelectualidade francesa e nas gerações europeias contemporâneas.
Mas no remanso da sua acolhedora residência, preenchida de fabulosas recordações dum passado a todos os títulos brilhante, certamente já não se lembrava daquela auspiciosa primavera de 1945, nem daquele deslumbrante Algarve de «falésias abruptas chocando com um oceano tranquilizado pela doçura do céu». E o Algarve esta hoje tão diferente... A vida passa... mas ficam as recordações.


NOTAS

[1] Pintor e cineasta, Carlos Filipe Porfírio nasceu em Faro a 29-3-1895 e faleceu nesta cidade a 25-11-1970. Herdou os seus dotes de artista do pai, José Filipe Porfírio (pintor, decorador e conservador do Teatro Lethes), estudou nas Belas Artes e conviveu de perto com os homens do «Orpheu». Em 1917 surge na direcção da revista «Portugal Futurista», cuja edição de 10.000 exemplares foi em grande parte apreendida pela polícia. Viajou pela Europa e fixou-se em Paris, onde estudou com artistas famosos. Em 1918 realizou em Faro um exposição de parceria com Jorge Barradas, Lyster Franco e Raul Carneiro. Foi o mentor da página futurista do jornal farense «O Heraldo», dirigido pelo pintor Lyster Franco. No salão da «Ilustração Portuguesa» realizou ao 3-2-1923 uma exposição de assinalável êxito. Com o enteado Lionel de Roulet fundou o Círculo Cultural Camões, em Faro, e já em Lisboa notabilizar-se-ia como cineasta ao realizar os filmes Um Grito na Noite, que obteve grande sucesso, e Sonho de Amor. Entretanto em 1940, por ocasião das Comemorações dos Centenários, promoveu a memorável Exposição Regional Algarvia. Mas a sua obra imortal foi, sem sombra de dúvida, o excelente Museu Etnográfico por ele instituído em Faro e para o qual pintou excelentes quadros retratando as lendas algarvias, os costumes populares e as festas religiosas. Acometido por grave enfermidade na garganta, passou os últimos anos de vida completamente afónico e impossibilitado de comunicar com os seus inúmeros amigos e admiradores. Faleceu vítima de um enfarte do miocárdio.

[2] Não tenho a certeza desta filiação, muito embora o Prof. João Medina, baseado em informações cedidas pelo Dr. Joaquim Magalhães, a dê como certa e verosímil.

[3] Neste centro de cooperação intelectual e de formação cultural pretendiam-se atingir objectivos à escala regional, nacional e universal:
«Sur le plan régional il s'appliquera à mieux faire connaître tout ce qui concerne l'Algarve, tous les traits qui font sa personnalité géographique et historique. Il créera une ambiance favorable capable de stimuler les créateurs ou les chercheurs qui se trouvent dans cette province. Il pourra même avoir un certain rôle social (...)
Sur le plan national, il s'agira surtout de faire connaître à la province les personnalités qui font la gloire de la science des lettres ou des arts portugais, au moyen des conférences, d'expositions, de concerts, etc...
Le plan de l'information en général concerne toutes les questions d'ordre culturel. Mais sont spécialement prévus: des cours de vulgarisation scientifique sur le thème: "Histoire des découvertes qui firent le monde modern; lumière électrique, photographie, T.S.F., aviation, etc" et des conférences destinées à procurer une représentation de l'Univers conforme aux derniers données de la science: astronomie, physique, etc...»
Institut Français au Portugal, Le Cercle Culturel Camoens Faro, s/l, Ed. du Bulletin d'Etudes Portugaises, 1941, p. 2.

[4] Aproveito para explicar agora essa origem. Segundo reza a tradição, naquela casa viveu o compositor Militão Coelho que sendo um musicólogo verdadeiramente genial, era também uma pessoa muito livre e atreita a compromissos ou a qualquer tipo de sujeição. Por vezes ficava dias sem sair á rua, outras vezes saía de Faro e só aparecia passados vários meses. Ora aconteceu que em determinada altura ficou noivo de uma senhora de Faro, de boas famílias, com a qual casou talvez um pouco precipitadamente. Pelo seu feitio, livre e distraído, parece que não fazia a senhora muito feliz. Até que um dia, sem que nada o fizesse prever, foi para Lisboa e nunca mais voltou para a sua casa de Faro. Numa cidade provinciana este exemplo de abandono do lar conjugal causou o maior escândalo. Não sei se com verdade ou se por pena da esposa preterida, o certo é que o povo deu em chamar àquela belíssima residência no antigo Largo da Alagoa, como o “Palácio das Lágrimas”, pois que supostamente a senhora passava os seus dias a carpir a chamada “viuvez de vivo”.

[5] O cartaz de Hélène de Beauvoir apresentava ao centro uma criança a cantar, ladeada por três anjos e três jovens tambores, enquanto o de Tóssan mostrava uma criança ajoelhada com a seguinte legenda: «Meu Deus faz com que o papá me compre um bilhete para ir ouvir os pequenos cantores».

[6] Vieram a Faro camionetas de Loulé (duas), Olhão e São Braz de Alportel. O espectáculo que contou com a presença do bispo D. Marcelino Franco, foi apresentado pelo Dr. Mário Lyster Franco, que pronunciou um brilhante discurso, e a organização esteve a cargo do Dr. Joaquim Magalhães, Aleixo da Cunha, Carlos Porfírio e Lionel de Roulet.

[7] Vide José Carlos Vilhena Mesquita, História da Imprensa do Algarve, 2 vols. , Faro, Ed. da Comissão de Coordenação da Região do Algarve, 1988-1989, vol. I, pp. 102-104.

[8] «Em Faro, capital do sul, acaba de nascer uma revista que se propõe exprimir as afinidades profundas de Portugal e da França. E, por isso, escolheu o título “Afinidades”. Entre outras actividades propõe-se esta revista manter o público ao corrente dos mais recentes movimentos literários, artísticos e científicos franceses e relacionar oportunamente o passado cultural comum aos dois países. Nas grandes crises espirituais que periodicamente nos arrancam à nossa quietude, habituamo-nos a voltar-nos para a França (...) Qual será a contribuição francesa para o novo humanismo em formação ? É este o inquérito que “Afinidades” tem como próximo e primacial objectivo.
E é neste espírito que trabalha um grupo de colaboradores portugueses e franceses. O Dr. Fernandes Lopes, que dirige a revista, é um notável exemplo destes homens, cuja cultura é tão vasta que abrange as riquezas espirituais de duas nações. Este primeiro número é um êxito completo.
Sob a capa cor de creme, ornada de uma vinheta de estilo medieval, símbolo da amizade luso-francesa, encontramos uma apresentação agradável e variada com belas gravuras, sugestivas reproduções e 96 páginas de texto...»
In «Correio do Sul», semanário de Faro, n.º 1333 de 1-11-1942.

[9] Cf. A Força das Coisas, Amadora, Livraria Bertrand, 1978, p. 41.

[10] Vide «Correio do Sul», n.º 1451 de 8-3-1945.

[11] In «O Algarve», de 25-3-1945.

[12] In A Força das Coisas, op. cit., pp. 39-40.

[13] In Idem, p. 38.

[14] In Idem, p. 40.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uma Histórias das Arábias


J. C. Vilhena Mesquita

Com a chancela da AJEA Edições publicou-se há anos atrás um livro com o sugestivo título de Zunzuns 26 Histórias das Arábias. Trata-se de uma interessantíssima compilação de pequenas crónicas, ordenadas alfabeticamente, sobre os temas mais díspares e em larga medida relacionados com o desempenho profissional do autor por terras do Oriente. Por estranho que pareça este é o seu livro de estreia. Mas por humildade e modéstia preferiu o anonimato, usando o pseudónimo de Hamin Viei. Resguarda-se, desse modo, o talento de um algarvio, natural de Aljezur, cuja formação em engenharia o levaria a desenvolver intensa actividade por terras de África, nas areias do Sahara e nos míticos recônditos do Médio Oriente.
O livro compõe-se de vinte e seis pequenas histórias decorridas em várias partes do mundo e termina com um estudo, mais especulativo do que científico, sobre as origens de Aljezur, estabelecendo para o efeito algumas comparações da sua toponímia com possíveis étimos da língua árabe. Mas o que torna este livro verdadeiramente imperdível são as “Histórias das Arábias”, um autêntico acepipe literário, sobretudo para os apreciadores do humorismo britânico, visto ser inspiradamente britânico o estilo literário de que estão imbuídas essas brevíssimas crónicas. E no Algarve não conheço ninguém com quem se possa comparar (senão talvez em parte com Carlos Abreu), pois que se trata de uma espécie de apontamentos de viagens, temperados num humor muito subtil e aceradamente crítico. Por outro lado, as comparações culturais e os remoques políticos, além de espirituosos são duma clarividência notável.
A forma como Hamin Viei brinca com os absurdos babélicos, as confusões fonéticas e os equívocos linguísticos, ou com os dilemas políticos duma África dilacerada pelo tribalismo, com os choques culturais entre europeus e árabes, com o racismo e a pobreza, ou a emigração e a exploração humana, merece do leitor uma reflexão atenta e criteriosa sobre problemas de tão difícil, senão impossível, solução. Estas histórias que o autor ordenou de uma forma temática, começaram por ser apenas anotações ou breves memorandos, que foi exarando a esmo numa espécie de Diário de viagem. Tinham não só um forte exotismo literário como também um intenso brilho de humor e de crítica social. Ouçamos as suas justificações: «As histórias desta edição eram, a princípio, notas escritas apensas ao diário da minha missão no Sahara. Li-as e reli-as, mas cedo descobri que diziam respeito a outra realidade pela qual muitos se começaram a interessar. (...) Ao trabalhar as minhas notas, senti a necessidade de as ordenar por forma agradável e suave. A forma abecedaria como elas são apresentadas, nasceu por mero acaso. Os títulos foram criados a partir dos textos. Os espelhos de cada história foram uma necessidade criada para comparação de realidades. Outros retoques vieram a seguir... ao virar uma página... (uma página de vida...).»
Os amigos mais próximos partilharam da leitura desses apontamentos de viagens e ficaram surpreendidos, não só com o estilo irónico como também com a sua qualidade literária. Em geral a opinião convergia para o aconselhamento da sua edição em livro. Urgia partilhar com o público as sardónicas mensagens que o autor dirigia à navegação política europeia, sobre as relações internacionais com o Norte de África e os países da bacia mediterrânica, aqui tão perto, mas infelizmente tão descuradamente ignorados. Alguns desses amigos foram mais convincentes do que outros. Por isso mereceram ser destacados no livro e merecem também ser aqui referenciados. São eles o Dr. Joaquim José Magalhães dos Santos, o Eng.º Carlos Abreu (já falecido), o artista Tolentino de Lagos e a Dr.ª Ester Fernandes, que prefacia a obra com palavras de apreço e simpatia. Deste grupo importa salientar Tolentino de Lagos que assina os magníficos desenhos que acompanham o livro. E que talento e graça irradia daqueles bonecos que emprestam um toque “cartoonístico” às humoradas crónicas de Hamim Viei.
Para os leitores interessados devo acrescentar que além do estilo “very british” do autor, do seu imperdível sarcasmo político, importa também realçar os conhecimentos que se podem extrair deste livro para comparar a cultura árabe com a ocidental, concluindo-se que as diferenças não são tão acentuadas que justifiquem a separação, o alheamento e até o ódio com que nos encaramos mutuamente. O feitiço do deserto, a sua quietude e placidez, deixa fortes marcas no espírito civilizadamente agitado e stressante do homem europeu. Ali a vida parece ter o ritmo sideral das estrelas, submetida a um sol impiedoso onde se esquentam ideias, fervilham crenças e se luta arduamente pela sobrevivência. Fermenta naquele mítico deserto um mundo de vida, por vezes imperceptível e geralmente incompatível com certas mentalidades. E, porém, foi ali que Hamin Viei se sentiu mais perto de Deus, numa ascese existencial, que lhe revelou o intrínseco valor das coisas simples da vida, sentindo diferenças, barreiras, desigualdades, abusos e injustiças, que espelham a ambição dos homens e os defeitos das civilizações erguidas sob o estandarte dum dogmatismo religioso ou duma bandeira ideológica desumanizante.
As reflexões que a paz do deserto suscita no cidadão europeu, deformado pelas exigências da produtividade capitalista, estão bem patentes neste livro, cujo autor soube construir página a página com laivos de humor, graça e ironia. Certamente algumas delas motivariam um sorriso amarelo aos nossos políticos envolvidos nas relações internacionais com o Médio Oriente. Só um espírito prático e muito perspicaz como o de Hamin Viei seria capaz de retratar de forma tão mordaz e clarividente os choques culturais motivados pela chamada cooperação ocidental. São os interesses do petróleo e dos grandes empreendimentos de engenharia civil que movem a atracção ocidental e levam a mão-de-obra especializada para as profundezas do deserto sahariano.
O autor deste livro é um engenheiro de conceituada experiência técnica, que esteve ao serviço de várias empresas multinacionais responsáveis pela construção de equipamentos sociais de grande envergadura. A solidão experimentada nas areias saharianas ficou bem patente neste livro, mas a sua inspiração literária prende-se com as saudades do seu Algarve distante. Por isso não prescindo, para concluir, de transcrever as palavras com que o autor abre este livro, as quais me parecem lapidares para explicarem o feitiço do deserto e a profilaxia mental de que, por vezes, se pode revestir a própria solidão: «Os ruídos da Civilização nunca me deixaram pensar; mas longe deles, no coração do Sahara, onde a única realidade era eu e o Deserto... (eu, senhor do Mundo, e o Mundo de mim) vim a descobrir, nas profundezas da sua solidão e quietude, quanto útil ele me foi. Pena é que outros não possam lá chegar...»

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A sublime expressão do amor no doloroso sofrimento da saudade


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é o paraíso da inteligência e das ideias, é a suprema elevação do pensamento, um alfobre de concepções quiméricas e de altruística entrega aos valores humanísticos do amor e da amizade. A poesia é também uma seara de emoções e de sentimentos, de cujo pão se alimentam sonhos de liberdade e de solidariedade, que se consubstanciam no afecto e na lealdade, no desvelo e na paixão. A poesia é um ascético templo de reflexão e desinteressada meditação sobre o fogo do amor, a luz do pensamento, a chama da vida e o imperscrutável mistério da morte. O poeta é um singular actor, um privilegiado observador e um genial pintor, que no tablado da vida escreve com a pena molhada em lágrimas poemas de amor e de sofrimento, passando indelevelmente para o etéreo, mas deixando atrás de si um rasto de ideias e de emoções, de que outros comungarão como uma terapia de vida ou um lugar de resistência.
A poesia de Telmoro – pseudónimo de Telmo Bernardes da Silva – é um oráculo erguido ao amor, à liberdade e ao livre-arbítrio, à beleza das coisas simples da vida, à amizade, ao amor e à paixão. O cândido lirismo de Telmoro, orvalhado e puro, rompe, despedaça e perfura a urdidura subtil dos enganos e dos prazeres fáceis. Os seus versos elevam-se acima da futilidade das rotinas, com a pujança e a expressiva naturalidade das alianças que se estabelecem entre a forma e a essência, entre o significado e o significante.
Enquanto, nos séculos precedentes, a poesia era o orgulho das nações civilizadas, o enlevo das elites dirigentes e o alimento espiritual do povo, de cujo sangue descenderam muitos dos vates que melhor ilustram as galerias da cultura europeia – hoje, todos sabemos que a poesia e as artes espirituais que transluzem a alma duma nação, valem muito pouco porque muito pouco valem também os povos letrados que ergueram a bandeira do espírito acima do tenebroso pendão do materialismo financeiro.
O imperialismo espiritual que modelou a alma das nações orientais e fez da poesia uma forma de orar a Deus, acha-se hoje ultrapassado, atrasado e empobrecido, exaurido nas suas milenares riquezas, outrora erguidas sobre os valores da espiritualidade humana. O altar das nações ergue-se sob a alta finança, sem rosto nem pátria, que tudo submete e destrói em nome do lucro, transformando os supremos sentimentos da fraternidade e da solidariedade em abjectos egoísmos e velados interesses de domínio, de submissão e de neo-servilismo. O que vemos hoje no templo da humanidade não é a glorificação de um Deus misericordioso, tolerante e compreensivo – o que vemos hoje elevado ao culto das nações desenvolvidas é a veneração da riqueza, do egocentrismo, da arrogância, do desprezo pela filantropia e pelos desafortunados, em suma… assistimos à sacralização do materialismo, à entronização da mediocridade, à glorificação do egoísmo, à exaltação da barbárie terrorista e à desculturalização dos povos espiritualizados.
Impávidos e serenos, vemos transformar-se a cultura numa indústria da mediatização e do populismo barato, num bacoquismo vivencial para gente iletrada, ou, pior ainda, para gente que se pretende amorrinhar, desinstruir e submeter a uma mediania amesquinhante, de forma a açaimar o pensamento e a desvitalizar a ilustração. Os povos de seculares culturas e modelares tradições, como os europeus, que enraizaram a civilização ocidental como modelo de progresso e de humanização, têm vindo a deixar-se cair numa americanização assoberbante e numa rasoirante globalização, submetendo-se ao imperialismo económico e à supremacia dos países industrializados.
O resultado previsível da globalização e do imperialismo financeiro será a generalização dos métodos educativos, a equalização dos graus académicos, o facilitismo da instrução, o rebaixamento da erudição e o nivelamento intelectual, inferiorizando as proeminências propulsoras das ideias humanistas, do criticismo filosófico, das artes criativas, da música erudita e da poesia lírica. O nível cultural vai inexoravelmente decrescendo pelas exigências duma mediocridade impante e dominadora, que despreza o génio poético, como quem abomina os valores da vida e condena os princípios mais elementares do humanismo, execrando os sentimentos e as emoções.
Nos dias que correm apenas interessa desenvolver as ciências experimentais em detrimento da cultura humanística, amesquinhando as Letras sob o princípio economicista da sua improdutividade.
Vivemos hoje envergonhados sob o estigma duma escolarização dita incipiente, supostamente infrutífera, por não instilar nos jovens o abstraccionismo do número e da quantificação. O nosso atraso – dizem os governantes – não resulta apenas duma deficiente equipagem tecnológica do sector industrial, mas tão só da nossa incapacidade para as ciências matemáticas, para a mecanização do pensamento em associações quantitativas, formalizando conjuntos e acções numéricas, visualizando formas e modelos. Os nossos tecnocratas preconizam insistentemente uma moderna fórmula de imbecilidade, que se consubstancia nesta peregrina afirmação: a matemática é a vida, e a vida é matemática. Pela frente e pelo verso, a frase tem muito para discutir, sendo que em todos os ângulos que a perspectivemos resulta sempre numa inverdade. A vida não é um número nem uma numeração, nem tão pouco a matemática vive do número, e muito menos da matematização. A vida, tal como a matemática, é pensamento, imaginação e criatividade. A vida é, em suma, uma herança e uma sucessão. A matemática é uma convenção, que, elevada à escala universal, pretende abarcar o todo e o nada. É uma concepção e uma idealização do abstracto, uma materialização do pensamento em formalizações imateriais, uma imponderabilidade do efectivo e uma inconsistência da verosimilhança.
A vida, e o que verdadeiramente interessa à vida, não consiste no progresso tecnológico ou na erudição científica, nem unicamente no crescimento do Produto Interno Bruto. A vida é sentimento e paixão, é emoção e contrariedade, é prazer e felicidade, é sacrifício e sofrimento, é amor e aversão, é a fortuna e a desventura, a verdade e a mentira.
A vida é também a morte, coabitando o mesmo espaço, mas trilhando caminhos tão diferentes e tão distantes, que se chega a pensar nunca serem capazes de se cruzar. Entre o nascimento e a morte espraia-se toda uma existência, a que só a poesia sabe dar alento e coragem, para glorificar a paixão, a felicidade e a saudade.
Tudo isto se pode ver e ler neste livro de Telmoro. As contradições da ciência, a sua frieza e inexpressividade, contra a sublimidade das letras e a excelência da palavra, cuja beleza e ordenamento conceptual, articulada numa silábica sucessão rítmica, fazem do poema e do pensamento lírico, uma construção artística absolutamente insuperável. Os versos de Telmoro não preconizam doutrinas, nem difundem ideologias; não se inspiram nem se modelam nos figurinos das novas escolas poéticas, tão pouco enfileiram nos movimentos expressionistas ou pós-modernos da “nouvelle vague” em que se integram as recentes gerações de poetas. A sua poesia é independente, mas não se divorcia dos cânones que moldaram os nossos maiores vates. A sua arte poética faz do soneto uma sinfonia de palavras, uma escultura de voluptuosos sentimentos e uma tela de afectuosas impressões. O soneto é a arte maior do poeta, apenas ao alcance daqueles que fazem da poesia um atelier de arte e um laboratório de filosofia.
Nestes Idílios da Madrugada resplandecem clarões de ideias, arquitectadas em sublimes pensamentos, talvez sugestionados pela recente perda da sua amantíssima esposa. Diz-se que o poeta é mais sincero e mais excelso quando sente a alma trucidada pela dor. Mas é sobretudo a luz da paixão, que se difunde na refracção do seu amor por Eduarda Maria, que nos deixa enternecidos, condoídos, feridos até aos recônditos da alma, vendo a ténue candeia da vida penetrar na última prega da neblina que cobre agora a sua pedra tumular.
Choram os seus versos pesadas lágrimas de amor, derramadas sobre o esquife ainda morno da vida que tão prematuramente partira. Debaixo do trauma da morte, com a alma esmagada pelo peso da derradeira tumba, escreveu o poeta os presente sonetos plasmados na lancinante dor de quem sofre sem poder esconder o agudo pranto da sua amargura. Em dolorosos versos, plenos de sentimento e de paixão, exarou um amargurado testemunho de amor eterno, num sagrado juramento de imperecível saudade.

(Prefácio ao livro, Idílios da Madrugada, de Telmoro)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Poetisa do Mar


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tem sido meu hábito prefaciar as obras de autores já consagrados, sendo bem verdade que a confirmação ou reconhecimento do talento surge com o evoluir dos anos e, sobretudo, com a insistente (re)produção editorial da criatividade que corrobora o génio. Por isso me sinto feliz, e até de certo modo lisonjeado, pelo convite da poetisa Maria José Fraqueza para apensar umas breves palavras introdutórias a este esforçado e rigoroso trabalho de apreciação crítica elaborado pelo jurisconsulto Artemio Zanon, sobre a sua vasta e muito elogiada obra literária.
Efectivamente a obra de Maria José Fraqueza fala por si, constitui no seu conjunto uma espécie de análise introspectiva da sua alma de artista, do seu génio lírico, da sua sensibilidade intelectual, do seu humanismo literário e do seu apreço pelas Belas Letras. Como algarvia, de radícula e pura gema, não admira que lhe ecoem na alma, como inebriantes cânticos de sereia, os oníricos encantos de Orfeu, as árias celestiais das musas, o fascínio mítico e o enlevo lírico dos encantamentos, crisálidas boninas deste agareno canteiro de florescências poéticas.
Maria José Fraqueza é produto da cultura autóctone, fruto da inocência camponesa e da heróica coragem do marítimo da Fuzeta. Possui na alma esses dois pólos que se atraem e repelem mutuamente, a terra e o mar. Mas foi esse pélago imenso, esse indomável monstro que tantas almas tragou na sua insaciável voragem, que lhe inspirou as mais belas poesias da sua obra.
Todavia, também é verdade que nas suas veias corre o sangue e os genes do ancestral lirismo árabe, cuja profícua herança se poderá aquilatar nos poemas de Ibne Ammar, de Al-Mutamid, de Al-Oriani ou de Ibne-Cací, infelizmente hoje tão pouco, e mal, divulgados. Nas éclogas, nas odes, nos hinos e cânticos poéticos dos clássicos, mas sobretudo nos vates islâmicos do ancestral Garbhe, bebeu Maria José Fraqueza o elixir mágico da fonte de Orfeu, a cristalina inspiração dos seus idílicos versos. Mas foi na voz do povo que se inspirou para arquitectar muitas das suas belíssimas quadras, essa espécie de vaso poético que o povo coloca à janela do coração, e que em breves palavras contém uma peculiar lição filosófica no retinir musical da rima. A quadra popular, tantas vezes injustamente repelida pelos poetas de maior vulto, é, na simplicidade dos seus quatro versos, uma lição de vida. Desde os mais antigos trovadores provençais até ao nosso insigne Fernando Pessoa (grande apaixonado, e inspirado cultor da quadra popular), sempre se conservou na cultura portuguesa o genuíno e democrático modelo dos quatro versos, usado nas desgarradas poéticas e sobretudo nas canções de cariz popular, cuja recolha constitui o cerne do nosso folclore literário.
Não necessita pois de apresentação quem ao longo de décadas cultivou o verbo na mais lídima expressão lusíada, compondo sonetos nos moldes de Petrarca e nos cânones de Sá de Miranda.
Da sua lavra literária conheço tudo quanto saiu em livro. E tudo começou pelas Histórias da Minha Terra, publicado em 1989, um livro de poesia inspirado no ritmado pulsar da oralidade popular, uma espécie de recolha em verso das expressões que o povo usa para comunicar os seus mais genuínos sentimentos. Um livro de baptismo que ficou como uma marca, um cartão-de-visita da própria autora, já que nele também fala de si e das suas memórias de infância no seio dos sacrificados pescadores da sempre noiva aldeia da Fuzeta.
Segue-se-lhe Os Murmúrios do Mar, também de 1989, que é, para mim, um dos seus mais belos livros. O tema principal é naturalmente o mar, esse mar algarvio de dócil aparência, enlevo dos veraneantes e do turismo internacional, estrada de sonhos e de vidas, mas que, por vezes, também foi cemitério de muitos homens para quem a vida foi um constante desafio com a morte. Neste livro é o conjunto dos sonetos nele reunidos que mais impressiona o leitor. São inspirados nas formas naturais da vida, cantando o jogo do amor e a lotaria da vida, sempre acompanhada pela incerteza do destino, pelo fadário da desgraça e pela crueldade do infortúnio.
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, publicado em 1990, é um livro de poemas caldeado num finíssimo humorismo algarvio que só a Maria José Fraqueza seria capaz de traduzir em verso. A forma como brinca com as coisas sérias da vida parece fácil de escrever, mas só quem tenta imitar-lhe o exemplo é que se apercebe da dificuldade que enfrenta ao procurar traduzir em ritmados versos a graça e o espírito das alcunhas dos marítimos seus conterrâneos. Curiosas são também as quadras, tecidas no mais genuíno sentimento popular, cantadas com um sadio e profiláctico sorriso, sem maldade nem motejo. Ainda que tentando ser sarcásticas, vê-se que estão depuradas das tão banais quanto inconvenientes e depreciativas críticas contra a inocência do povo. Não há nos seus versos ridicularizações nem apoucamentos, mas tão só breves apreciações sarcásticas, tentando ironizar com certas atitudes do nosso quotidiano.
Vendavais da Alma, editado em 1994, é certamente o mais conseguido e o mais conhecido livro da sua autoria. Constitui uma antologia de sonetos de muita qualidade, seguindo os figurinos clássicos, tendo sempre em conta uma temática naturalista, uma inspiração intimista e sentimental. É uma panóplia de sonetos de muito boa urdidura, numa concepção introspectiva e de profunda emotividade, nos quais transparecem diferentes sensibilidades numa dicotomia de afectos e numa permanente interrogação metafísica entre o ser, o estar e o partir. Sente-se ainda na leitura deste livro de sonetos uma constelação de ideias, aparentemente díspares e confusas, construindo um caleidoscópio de idílicas formas, de incisivas cores e de impressivos cheiros, num comportando emocional ou numa coreografia de sentimentos que nos deixa estonteados, inebriados, encandeados pela luz do seu raro lirismo poético.
Há Natal dentro de Mim – Poemas de Natal, publicado em 1995, é, como se depreende facilmente, uma compilação de poemas inspirados na quadra natalícia, muito conforme, aliás, ao que é usual nessa época festiva, em que as editoras, e até os órgãos de comunicação social, procuram dar a público, em prosa e verso, textos ilustrativos do profundo significado de que se reveste o Natal para a união das famílias. Neste pequeno livro, Maria José Fraqueza reuniu vinte e cinco poemas de diferentes estruturas poéticas, cuja leitura transmite uma certa paz interior, uma solidariedade e um enlevo fraterno para as famílias desavindas, para além de comunicar às crianças uma mensagem cristã de bondade e afectuosa doçura para com os mais desfavorecidos, para quem o Natal poderá, pelas circunstâncias da vida, ter deixado de existir. Um livrinho muito belo e muito simples.
Maresias Infinitas, publicado também em 1995, é mais uma compilação de sonetos e poemas estróficos de diferentes estruturas, numa dimensão algo reduzida para o valor da sua poesia. Em todo o caso, nele volta o mar da Fuzeta a ser o cenário principal da sua inspiração, ressaltando mais uma vez o niilismo sentimental da própria vida. O Mar que dá a vida também dá a morte. O Mar, esse oráculo de mistérios e de terrores, traz no regaço das suas ondas os sonhos e as quimeras que só as musas sabem transmitir.
O Cântico das Ondas, publicado em 1998, é algo semelhante ao anterior, mas para melhor. Tem novamente o Mar como protagonista, como palco e como fonte de inspiração da sua poesia. Pela insistência temática percebe-se que Maria José Fraqueza pretende assumir-se como a Poetisa do Mar, a mulher embalada desde o berço nas ondas da sua amada praia da Fuzeta. E julgo que por tudo quanto tem feito pela sua terra merece o honroso epíteto de poetisa da Branca Noiva do Mar.
A verdade é que o mar, na plenitude da sua força mítica, está sempre presente na obra lírica de Maria José Fraqueza. Repare-se que os livros seguintes transmitem essa presença nos próprios títulos. Desde logo a Maré de Trovas – Quadras populares, publicado em 2000, cujos versos ao jeito do povo cantam os filhos do mar, cavalgando na procela das ondas para granjear com hercúleo sacrifício o sustento da família; mas também cantam as sereias, os búzios e todos os habitantes das misteriosas profundezas desse imenso pélago que serviu de estrada aos mareantes, para como dizia Camões, dar novos mundos ao mundo nunca antes imaginados.
Repisa a mesma temática em Cantando o Mar – Sonetos, publicado em 2005, no qual apura a técnica do soneto em belíssimas composições, mais profundas de sentimentalismo e paixão, sendo claro que nele atingiu um patamar de recursos metafóricos mais evoluído do que nas obras anteriores.
Por fim, surgem dois novos trabalhos, os mais recentes da sua inspirada lavra poética: Sob as Margens do Gilão, publicado em 2006, e dedicado à cidade de Tavira, no qual o misticismo da água, como fonte de vida, volta a estar presente na estrutura rimática dos seus versos. Um livro de muito boa qualidade poética que só confirma a minha anterior asserção, ou seja a poesia de Maria José Fraqueza ao longo dos anos tem vindo a apurar-se na eficácia, nos atributos, na energia e na eficiência dos valores poéticos, em suma, na excelência do seu lirismo.
O apelido da poetisa, Fortaleza, não traduz a força contra a resistência, mas antes a força moral elevada ao seu expoente máximo, isto é, a força de ânimo que inflama a alma dos vencedores. E em boa verdade, a Maria José, a Poetisa do mar, é uma mulher vencedora, que soube encarar os reveses e os infortúnios da vida com a intrépida coragem dos heróicos mareantes da sua querida praia da Fuzeta, dessa mítica Branca Noiva do Mar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O espírito tertuliano – uma miragem do passado


José Carlos Vilhena Mesquita

Nos primórdios do século passado o país despontava para a curiosidade e o interesse das novas ideias libertárias, que fervilhavam um pouco por toda a Europa. Nas grandes cidades europeias, como Paris, Londres, Roma e Madrid, reuniam-se nos cafés pequenos grupos de artistas e homens de letras, para discutirem ideias e ideologias, novas concepções de ética e de estética, sobretudo novas formas de organização da vida social e económica, tendentes à construção de um mundo mais justo e mais fraterno, erigido sob a luz da liberdade.
Nos antigos Salões e nas Academias reais do setecentismo europeu, incorporaram-se as elites iluministas – numa mesclagem intelectualizada da nobreza com a alta burguesia, tendente ao debate das grandes reformas que inspiraram a formação do estado moderno. Porém, essas instituições culturais foram paulatinamente cedendo lugar aos espaços públicos de reunião mais acessível e popular, de que é principal exemplo o Salão-de-chã, de inspiração burguesa e frequência feminina, e o Café, de origens pequeno-burguesas, onde se reuniam, em democrática convivência, todos os estratos sociais, com especial incidência no empresariado mercantil e industrial.
Na verdade, é ao convívio intelectual e à efervescência das ideias que o Café deve as suas origens, cabendo à cidade universitária de Oxford a glória de ter erigido, em 1650, o primeiro de que existe confirmada memória. Quatro anos depois os mercadores de Marselha fundaram um Café (o segundo com veracidade histórica), para se reunirem e acertarem os seus negócios nos portos mediterrânicos. Seria, contudo, em Paris que, em 1689, abriria o Café Procope, o mais célebre do mundo por nele se reunirem os artistas, os políticos e os intelectuais mais famosos na época das Luzes.
O Café, com o decorrer dos anos, foi perdendo as suas particularidades selectivas e burguesas, mercê da tolerância de novas frequências, suscitada pela exponencial abertura de novos espaços nas cidades portuárias e no interior industrializado. Em boa verdade, o Café evoluiu com o tempo até se tornar numa instituição de equidade social, onde o convívio das classes dominantes se caldeou com o funcionalismo terciário e o operariado industrial. De centro de reunião empresarial, nomeadamente de Bolsa popular do comércio regional, o Café tornar-se-ia num espaço tertuliano das novas ideias políticas e num cenáculo artístico-literário de jovens talentos. Mais do que qualquer outra instituição social, o Café tornar-se-ia num dos símbolos do Liberalismo e da afirmação política da pequena burguesia.
O século XIX, a que muitos historiadores chamaram o século da Burguesia, parece-me que foi também o século dos Cafés, porque neles se aproximaram, em salutar convivência e em acesa discussão de ideias, os representantes dos diversos patamares em que se repartia a sociedade oitocentista. Os cafés, onde todos se sentiam iguais por se sentarem em mesas iguais, tornaram-se locais de reunião periódica para se tomar um simples e popular café, um requintado e burguês cacau, um conhaque ou um brandy, sorver um aromático havano ou uma onça de perfumado tabaco holandês em golfadas de cachimbo canadiano. Nos cafés divulgaram-se as ideologias redentoras do socialismo, do anarquismo e do republicanismo, do associativismo proletário e do sindicalismo, urdiram-se reivindicações operárias, marcaram-se greves e manifestações, congeminaram-se revoluções, escreveram-se romance, versos, canções, e até os grandes manifestos políticos, fundaram-se redacções de jornais, difundiu-se o maçonismo e proclamou-se a utopia dum mundo novo, sem domínio nem pecado.
O café tornou-se no símbolo de uma época, que transitou do liberalismo económico para o demo-liberalismo político. Atravessou os últimos séculos como um areópago da liberdade de reunião e de expressão. Neles se discutiam os comportamentos e as ideias mais avançadas, misturavam-se os sexos, expunham-se quadros de artistas excluídos e experimentavam-se transgressões de toda a ordem. Mas também neles o operário se instruía e divertia, quer lendo os jornais gratuitamente, quer jogando ao bilhar, às cartas, às damas, ao gamão e ao xadrez. Havia um reservado para os jogos de azar, uma espécie de casino dos pobres, e, nalguns casos, a horas mortas, faziam-se sessões de espiritismo. Alguns transformaram-se em cabarés, com espectáculos de música e dança, alternando com actividades menos recomendáveis, descortinando-se nalguns a existência de lupanares clandestinos.
Não obstante, os cafés conservaram-se fiéis às suas originais tradições, como respeitáveis locais de reunião da classe-média, verdadeiros alfobres das ideias libertárias e núcleos de livre discussão das novas concepções estéticas da Arte da Literatura. Alguns, raros, ainda subsistem no nosso país, como o Magestic, a Brasileira e o Nicola. Mas a esmagadora maioria dos Cafés históricos, berços da liberdade e da democracia, desapareceram já, na voragem do capitalismo e na rasoira boçal do imperante neo-liberalismo, a que a globalização deu uma expressão de impiedade cultural e de predominante ignorância.
Nos últimos decénios do século passado surgiram novos cafés, mais pequenos e mais simples, consentâneos com a sociedade em que vivemos, apressada, frenética e instável, por isso mesmo mais individualista e menos convivente. O Café Hélice, na Avenida 5 de Outubro, é um exemplo dos cafés da nova vaga. Pela sua despretensiosa aparência estética e sóbrio conforto, depressa se tornou num ponto de encontro a cujas mesas se costumam acolher cidadãos da classe média, que moram ou trabalham nas imediações, especialmente professores e estudantes, funcionários públicos, bancários, engenheiros, advogados, empresários, enfim, toda uma panóplia social ilustrativa dos tempos hodiernos.
Entre os seus frequentadores diários distinguia-se o eng.º Tito Olívio, morador num prédio fronteiro, que não raras vezes ali se reunia, no final do dia, com professores e outros cidadãos, interessados em discutir e reflectir sobre os problemas da cultura, da arte, do património histórico, e sobretudo da literatura, sendo que a alguns era a poesia que os atraía ao convívio. Tudo terá começado em Maio de 1997, quando Tito Olívio pensou, juntamente com Fonseca Domingos e Diamantino Barriga, que eram os mais assíduos, em reunirem-se semanalmente com outros poetas para analisarem o que cada um produzia, fazendo críticas construtivas, ajudando a melhorar as deficiências de estrutura formal ou de construção semântica, que não raras vezes os impediam de concluir com ilustração e beleza os seus poemas. Depressa o grupo cresceu, não só em quantidade como também em qualidade intelectual e em diversidade artística. Aos três poetas fundadores juntaram-se prosadores, jornalistas, ensaístas, músicos, pintores e até cantores, numa espécie de sociedade de autores da cultura farense. Enquanto uns iam ficando, marcando presença assídua e semanal, outros só esporadicamente voltavam para obter um conselho, uma crítica, uma ajuda pontual para remover dúvidas estéticas ou deficiências formais na construção das suas composições líricas.
Em torno de uma “bica”, de um chá ou de um galão com torradas, surgiu um salutar convívio entre homens e mulheres cultores de Orfeu, de diferentes idades e níveis de instrução, desenvolvendo pretextos para a reflexão intelectual sobre a dimensão estética da vida. Formou-se assim uma espécie de cenáculo, no qual pontifica ainda hoje a figura de Tito Olívio, não pelo seu natural protagonismo intelectual, mas muito especialmente pela sua bondade, pela sua generosidade e, sobretudo, pela sua disponibilidade para incentivar os poetas e para implementar iniciativas que promovem e divulgam as obras daqueles que ainda não obtiveram o justo reconhecimento do público. O grupo, cada vez mais numeroso, carecia de algo que o identificasse, que lhe desse nome, porque nascido à luz da liberdade rejeitava a formulação de estatutos ou de vínculos que o prendesse à sociedade civil e à organização política. A única regra a que aqueles tertulianos se comprometeram obedecer é a da tolerância, e do respeito mútuo no direito à diferença, tanto nas divergências políticas como nos credos religiosos.
A vida é um círculo em perpétuo movimento, cuja aceleração depende da vontade moral e da criatividade intelectual. Daí a ideia de adoptar a Hélice, que decora e dá o nome ao próprio café, como símbolo e designação mais apropriada para aquele grupo de poetas, de prosadores e artistas. Quando em Janeiro de 1998 nasceu a AJEA – Associação de Jornalistas e Escritores Algarvios, logo se lhe juntaram os fundadores da Tertúlia Hélice, cujo grupo passou a constituir-se numa espécie de núcleo dinamizador das actividades daquela agremiação no seio da sociedade farense.
Lembro aqui, a título de curiosidade, alguns dos autores com quem convivi a partir de 1998, quando tive o privilégio de me juntar à Tertúlia Hélice. Desde logo os que já desapareceram, todos talentosos poetas, como o genial Fonseca Domingos, o irreverente Vivaldo Beldade, a meiga e carinhosa Quina Faleiro e o apaixonado Hélder Azevedo - espírito notável de artista, poeta e prosador, cuja vida dava um romance. Mas outros que os acompanharam ou que lhes seguiram as pisadas, permanecem estoicamente na Tertúlia Hélice, tercendo armas pelo desenvolvimento da cultura algarvia. Destaco o Manuel Cardoso, poeta, músico e cronista, na sua escrita barroca, ilustrada, cuidada e perfeccionista, revela-se a nobreza do seu cavalheirismo e do seu raro polimento social. O Diamantino Barriga, poeta e quadrista de inspiração naturalista, generoso, fraterno e de bondosíssimo coração, uma alma de eleição já hoje difícil de encontrar na nossa sociedade. Igualmente bondosa é a Romana Rosa, poetisa de invulgar criatividade, que escreveu em prosa e verso belos livros para as crianças, procurando sempre incutir no espírito dos jovens a mesma generosa fraternidade com que ela sempre pautou a sua vida. A poetisa Manuela Odete, sempre atenta às questões ambientais e à solidariedade social, temas em que se tem inspirado para a composição dos seus belos sonetos. O mesmo acontece com a Célia Roque, mulher sofredora, castigada pelos desgostos da vida, que procurou na poesia o acolhedor refúgio para as suas mágoas. A Lília Bárbara cuja obra poética tem escapado aos elogios da crítica, mas que é sem favor um dos mais seguros valores da literatura algarvia. O mesmo acontece com o Ferradeira de Brito, poeta, dramaturgo, letrista e compositor, de quem há pouco apresentei 20 livros de uma assentada, atingindo certamente um recorde digno de figurar nos anais do Guiness.
Entre as poetisas da Tertúlia, merece destaque especial a Glória Duarte Marreiros, detentora de vasta obra poética, muito elogiada pela crítica e justamente asseverada pelos galardões literários que tem arrebatado nos últimos anos. Os sonetos da Glória são verdadeiras sinfonias de expressividade poética, em que a paixão e a mágoa se juntam num sincero amplexo de sentimentos e emoções. Entre as frequentadoras mais assíduas, distingue-se não só pelos seus dotes de inteligência e de fecunda originalidade literária, como ainda pelo seu maternal carinho, a Ilda Costa. Uma verdadeira dama, há muito aposentada das suas funções de criativa da alta moda parisiense, dedicando-se hoje à pintura e, sobretudo, à poesia, com invulgar e engenhoso talento, cabendo-me a honra de ter prefaciado o seu livro de estreia. Outra das figuras que inicialmente marcava posição distinta no seio da tertúlia era a Manuela Saraiva, senhora muito educada, de belos traços femininos, com laivos de uma nobreza genuína, que veio para Faro quando a transportadora aérea nacional aqui abriu os seus escritórios. Tinha sempre a palavra certa para a crítica mais sincera e exigente, por vezes com uma mordacidade desarmante. Por fim, a Maria Margarida, a nossa eloquente diseuse, senhora do mais fino quilate social, professora aposentada, possuidora duma prodigiosa capacidade de memorização, o que lhe permite decorar e declamar um poema em poucos minutos. A sua elegante presença física, associada à mais moderna indumentária parisiense, faz dela proeminente figura nos recitais de poesia promovidos pela AJEA, onde consegue arrebatar do pública as mais estrondosas ovações.
Entre os mais recentes frequentadores da Tertúlia Hélice merecem especial destaque o Francisco Alexandre, o François Blanc e o Telmoro. O primeiro é professor e poeta, muito inteligente, bastante culto e perseverante estudioso das civilizações clássicas, autêntico exegeta das profecias e do misticismo bíblico, que discute e analisa com a mais persuasiva eloquência. O segundo é um médico francês, muito culto e generoso, verdadeiro andarilho do mundo latino-americano, dedicando-se à investigação criterioso da medicina andina. Apaixonado pela cultura lusíada, que estudou com profundidade e rigor científico, aqui veio aportar, escolhendo o Algarve e a cidade de Tavira como reduto natural para a sua inspiração poética. Possui vasta obra literária, consagrada internacionalmente pela crítica da especialidade. Por fim, um destaque muito pafrticular para o poeta Telmoro, espírito dos mais criativos e talentosos que conheço no Algarve, um verdadeiro humanista à imagem do seu Mestre e mentor literário, Tito Olívio, que o lançou no mundo das letras algarvias. É dos raros poetas que compõe em várias línguas, espanhol, italiano, francês e inglês, um autêntico poliglota, que escreve e canta as suas próprias canções. Alguns dos seus poemas foram musicados, cantados e editados em dois CDs por Alberto Carlos, um artista que também frequentou a Terlúlia Hélice até atingir a merecida consagração, sendo hoje considerado como um dos mais distintos e requisitados cantores das casas de fados sedeadas no Algarve.
Não querendo esquecer-me de ninguém, aqui presto também a minha homenagem à Rosinda Vargues e ao Luciano, seu marido, ela cantora, ele compositor e instrumentista, que têm participado na apresentação de livros editados pela AJEA, cantado belíssimas canções com poemas de Tito Olívio, de Telmoro, de Ferradeira e Brito e até de Vitória Rodama, que é a mais recente e promissora poetisa da Tertúlia.
Para terminar, impõe-se acrescentar que considero esta Antologia como uma breve amostra do talento poético e da qualidade literária dos seus intervenientes. Convém frisar, entre muitos outros aspectos reveladores da sua genuína criatividade poética, que quase todos eles têm obra publicada em letra de forma, sendo certo que alguns possuem vários prémios que atestam o reconhecimento público das suas obras. No seio deste diversificado grupo de poetas, prosadores e artistas, justifica-se que, em nome de todos, aqui deixe uma palavra de apreço e de muita gratidão para com o poeta Tito Olívio, alma-mater da Tertúlia Hélice e da maioria das actividades culturais realizadas pela AJEA, da qual é, sem favor nem exagero, a principal figura. A sua natural generosidade tem-no levado a erguer aos ombros muitos poetas que, pela sua gigantesca sombra, nunca veriam brilhar a luz do sol. A publicação desta Antologia é mais uma prova da sua capacidade de iniciativa e da sua dedicação fraternal a todos quantos frequentam a Tertúlia Hélice.
Como os últimos são os primeiros, termino com uma menção de gratidão para com a Vitória Rodama, a cuja abnegação e espírito de iniciativa se deve o patrocínio financeiro desta Antologia.

Prefácio ao livro Antologia Poética da Tertúlia Hélice