sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Algarve precisa de mais museus que falem do seu histórico passado


José Carlos Vilhena Mesquita

A província do Algarve, expoente máximo do turismo nacional, não pode, infelizmente, orgulhar-se de possuir muitos e variados museus, pese embora o seu passado histórico se encontre vincadamente perpetuado nos inúmeros testemunhos arqueológicos deixados pelos povos oriundos das grandes civilizações mediterrânicas.
Saliente-se que a museologia no Algarve nasce, por via de regra, da iniciativa particular e fundamenta-se na doação de colecções pertencentes a comprovincianos obviamente dotados de marcante espírito científico e altruístico. O primeiro exemplo partiu do arqueólogo Estácio da Veiga que em vão pretendeu criar o Museu Arqueológico do Algarve, com sede em Faro. No entanto, grande parte do espólio recolhido aquando das escavações que efectuara para a Carta Arqueológica do Algarve (1878-1883) foi recuperado por Monsenhor Joaquim Maria Pereira Botto, que, a 4 de Março de 1894, fundou na capital desta província o «Museu Archeologico e Lapidar Infante D. Henrique» designação essa que ainda hoje conserva.
Em Lagos, idêntica iniciativa se ficou a dever ao José Formosinho, que nesta cidade erigiu o que pode considerar-se, sem exagero, o segundo melhor museu em todo o Algarve.
Quanto a Vila Real de Santo António, beneficiou da oferta feita, pelo genial xilogravurista Manuel Cabanas, que foi deputado à Assembleia Constituinte, de uma. valiosa colecção de gravuras esculpidas pelo seu punho. Mais recentemente em Moncarapacho, o rev. P. Isidoro Domingos da Silva, sacerdote da mais elevada formação eclesiástica, e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, escritor e investigador de reconhecido mérito, ofereceram à sua paróquia duas notáveis colecções, uma de Arte Sacra e outra de Arqueologia, capazes de fazer inveja a qualquer museu do nosso país.
Oficialmente, no Algarve apenas estas localidades possuem um museu de que possam orgulhar-se, com especial destaque para Faro onde podem ainda ser visitados os museus Etnográfico, Marítimo e Antonino.

Museu de Moncarapacho, a concretização de um sonho já antigo

Desta vez, porém, falaremos apenas do Museu Paroquial de Moncarapacho, inaugurado há pouco mais de um ano.
Fundada em 19 de Junho de 1471, pelo então bispo de Silves, D. João de Melo, a freguesia de Moncarapacho possui vestígios de ocupação muito remota, pois nela foram postos a descoberto vários testemunhos pré-históricos, como é o caso de cilindros totémicos de configuração antropomórfica; ídolos neo-eneolíticos e inúmeros artefactos pertencentes a povos metalúrgicos do período neolítico. Posteriormente, ali deixaram assinalada a sua passagem Romanos, Visigodos e Árabes, todos eles representados nas galerias do museu.
Muito embora a ideia da fundação deste museu fosse uma velha aspiração da freguesia, o certo é que foi necessário aguardar pelas comemorações do seu quinto centenário para, definitiva e oficialmente, se encarar com optimismo a concretização deste justo e merecido sonho. Como atrás referi, a iniciativa partiu de dois beneméritos, o padre Isidoro Domingos da Silva e o Dr. José Fernandes Mascarenhas, o primeiro detentor da riquíssima colecção de arte sacra (a que atrás aludi), e o segundo de um não menos notável espólio arqueológico. Refira-se que ambas as colecções foram avaliadas em milhares de contos aquando da inauguração no ano passado, no dia 12 de Julho, do museu que pode assim considerar-se um dos mais importantes museus paroquiais do País.
Por estranho que pareça, desde o lançamento da primeira pedra, que marcou o início da construção do edifício, em Setembro de 1971, até à sua inauguração em Julho de 1981., foram dez anos de canseiras e impedimentos diversos que quase fizeram perigar a sua. Concretização, não fosse a vontade indómita dos seus beneméritos fundadores.
O edifício, modesto de proporções mas sóbrio de linhas, encontra-se adstrito à secular Capela de Santo Cristo onde, segundo reza. a história, muitos prodígios e milagres se registaram ao longo dos últimos cinco séculos.

Como as pratas algarvias «viajaram» até Baiona

A ancestral ermida, cuja construção remonta ao ano de 1632, encontra-se esplendorosamente revestida de azulejos policromos datados de 1663, provenientes de Lisboa, possivelmente de uma das 12 mais importantes olarias que na cidade então existiam.
Por altura das invasões francesas, os soldados de Junot, como represália pela derrota sofrida junto à ponte de Quelfes, assaltaram a indefesa freguesia de Moncarapacho não escapando ao saque os valiosos objectos e alfaias de culto existentes na vetusta Capela de Santo Cristo. A maior parte do espólio, criminosamente obtido, pode apreciar-se, ainda hoje, em alguns museus da França, nomeadamente no de Baiona, que não esconde inclusivamente a proveniência moncarapachense das suas peças de prata.
Enfim... coisas da História que, por tristes e ignóbeis, nos escusamos de recordar. Seja como for, na sua idoneidade e no barroquismo da sua talha, a capela de Santo Cristo não poderia ter melhor aproveitamento do que aquele que o povo de Moncarapacho lhe acaba de dar, ao transformá-la em Museu.
Mas penetremos no edifício. este núcleo museológico divide-se em dois grandes sectores: o da Arqueologia e o da Arte Sacra. O primeiro encontra-se instalado no pavimento inferior do edifício e compõe-se sobretudo de artefactos paleolíticos, de cerâmica calcolítica e de várias peças epigráficas, heráldicas e numismáticas pertencentes às épocas da ocupação romana e árabe. Assumem particular destaque um enorme vaso árabe destinado a ablações religiosas, várias lápides epigráficas islâmicas que o Dr. Garcia Domingues tem estado a decifrar, dezenas de ânforas romanas e tubas árabes, alguns; cipos sepulcrais e marcos miliários; com especial destaque para aquele que o Dr. José Fernandes Mascarenhas identificou como sendo o que assinalava a estrada de Ossónoba a Balsa. Além de tudo isto, podem ainda observa-se inúmeras peças de inegável valor museológico, como uma colecção de lucernas, algumas cornijas arquitectónicas, capitéis coríntios de belo talhe, um túmulo romano em perfeito estado de conservação, lápides; taças, pratos e múltiplas peças de cerâmica provenientes da estação arqueológica romana de Alfanxina, situada nos arredores da freguesia de Moncarapacho.

Valioso presépio do séc. XVIII é peça de interesse nacional

No andar superior está reunida a colecção de arte doada pelo rev.º P.e Isidoro Domingos da Silva, merecendo especial referência um valioso presépio napolitano considerado de interesse nacional, datado do século XVIII, presumivelmente anterior à escola de Machado de Castro, e que pertenceu ao magnata da indústria conserveira, Júdice Fialho. Refira-se que só existe um presépio semelhante no Museu de São Paulo, no Brasil, coevo deste e possivelmente importado da mesma origem por algum português emigrado em terras de Vera Cruz.
O prior Isidoro da Silva adquiriu este presépio a uma freira que se encontrava no orfanato de Santa Isabel, em Faro, e que, atendendo ao confrangedor estado de degradação em que a peça se encontrava, preferiu vendê-la a quem se propunha restaurá-la e conservá-la num museu. Posteriormente, seguiu para o Museu de Arte Antiga, onde se procedeu ao seu gracioso restauro. Regressado ao Museu de Moncarapacho, foi logo considerado como peça de interesse público, já que, na Europa, não há notícia de existir nenhum outro que se lhe assemelhe ou equipare em grandeza e majestosidade artística.
Mas não é só este famoso presépio napolitano que merece a nossa visita atenta e demorada ao Museu de Moncarapacho. Outras peças ali existem de incomensurável valor artístico, nomeadamente um valioso calvário lavrado em marfim e pau-santo do século XVI em estilo indo-português; dezenas de imagens sacras, algumas delas com séculos de existência, recolhidas nas imediações do concelho de Olhão; e ainda alfaias, panejamentos e objectos de culto religioso; além de ricas colecções de cálices, custódias e moedas de valor incalculável; peças de mobiliário, com especial destaque para uma bonita arca setecentista do reinado de D. João V; quadros de interesse regional como os assinados por Bernardo Marques e Henrique Pousão; fotocópias de documentos que atestam o heroísmo do povo olhanense frente às tropas invasoras de Junot; animais embalsamados e toda uma série de pequenas peças de interesse não só artístico como etnográfico.
Em suma, um museu repleto de muita coisa valiosa e rara, à mistura com peças, talvez de pouca importância museológica, mas de inegável valor decorativo. Não obstante isso, gostamos francamente da secção de Arqueologia, que nos pareceu bem ordenada se atendermos à exiguidade do espaço a ela destinado. Além disso, não podemos deixar de salientar a imponência que esse deslumbrante presépio napolitano assume no meio do vasto espólio artístico, aqui e ali marchetado por imagens sacras, algumas de sabor popular a atestar a sua ancestralidade.
Para terminar, cumpre-nos assinalar a carência de um funcionário, a tempo inteiro, que sirva de cicerone aos eventuais visitantes, e, especialmente, de um catálogo ou guia interno do Museu, no qual se discrimine a função e importância de cada uma das peças ali expostas. Isto para não falar já da inexistência dos tradicionais postais e diapositivos reproduzindo as peças de maior valor e que, vendendo-se normalmente à entrada dos museus, não só contribuem para a divulgação da cultura e do património local, como contribuem também para a amortização das graves dificuldades financeiras que se vivem em instituições deste género.
Apenas a título de curiosidade, direi ainda que a entrada é grátis.

(artigo publicado no «Diário de Notícias» de 7-09-1982)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Valioso espólio do Museu Antonino de Faro é grande atracção turística no Algarve


José Carlos Vilhena Mesquita

No contexto museológico da cidade de Faro assume particular interesse aquele que, reunindo características intrinsecamente populares, ficou perfeitamente dedicado a um dos mais antigos padroeiros desta cidade: Santo António.
Criado por decisão camarária em 23 de Junho de 1932, pelo então presidente da edilidade farense, Dr. Mário Lyster Franco, só veio a reunir grande parte do seu actual espólio no ano seguinte, para em; 4 de Fevereiro de 1934 ser oficialmente inaugurado pelo Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. A 27 de Outubro do mesmo ano foi nomeado para seu conservador o Dr. Justino de Bivar Weinholtz, igualmente director do Museu Arqueológico e Lapidar, que nesta cidade deixou bem vincada presença cultural, a ele se devendo inclusivamente vários actos de benemerência que ainda hoje, enriquecem os nossos museus. À sua morte sucedeu-lhe o seu fundador, Dr. Mário Lyster Franco, que em 1966 foi substituído pelo então director dos museus municipais, prof. José António Pinheiro e Rosa, grande estudioso e investigador de reconhecidos méritos com vastíssima obra publicada.

Igreja de Santo António do Alto

A fundação deste museu constituiu uma forma de preencher um espaço que em tempos se dizia que era aproveitado para actos e procedimentos indecorosos. Em face disso, e atendendo a que as dependências anexas ao secular templo de Santo António do Alto reuniam as condições minimamente indispensáveis à instalação de um museu popular, lançou o seu já citado fundador uma campanha de angariação de peças que de algum modo estivessem ligadas ao culto daquele taumaturgo.
Nessa altura, aproveitou-se a oportunidade para mobilar toda a igreja que se encontrava praticamente ao abandono e apenas possuía as cadeirinhas de tabua que os devotos para lá levaram quando iam assistir aos velórios e outras cerimónias religiosas. Também se colocaram no seu lugar próprio três interessantes lápides que o cónego Pereira Botto, na ânsia de formar um museu arqueológico, de lá extraíra, esquecendo-se de que só devem ser retiradas dos seus lugares originais as peças que correm risco de desaparecer, o que não era o caso.
Igualmente se abriu na parte antiga da torre (curioso edifício gótico que marca nitidamente a sua origem) uma janela que permitiu apreciar-se devidamente o magnífico artesanato que apresenta. O pátio de entrada foi logicamente alindado, com um poço mais ou menos artificial, e colocaram-se nas paredes da Igreja alguns quadros de menor valia que se encontravam depositados no Museu Arqueológico, o que permitiu dar àquelas instalações uma disposição e um ambiente mais museológico. A igreja de Santo António do Alto ficou, desta forma, muito valorizada, e se a então inesperada construção do novo edifício do liceu e a infeliz ideia do aproveitamento da torre para depósito de água não tivessem tirado a graça, a posição e a beleza própria que o templo ostentava, estamos certos de que este singular museu se transformaria num dos mais curiosos pólos de atracção turística da cidade de Faro. Refira-se que o aproveitamento da torre para depósito de água obrigou a elevá-la mais uns metros retirando-lhe por isso todas as proporções.
Convém, ainda, acrescentar que o referido templo erigido na mais alta colina da cidade foi em tempos uma primitiva torre de vigia da costa (as conhecidas, mas mal estudadas, atalaias), que para contrariarem as constantes investidas dos corsários árabes davam o sinal de rebate chamando as populações a defenderem os seus haveres. Igualmente ali se verificaram sangrentas lutas, durante a guerra civil de 1832-1834, pela posse do mais estratégico ponto militar da cidade, facto esse que há anos facilmente constatável pelos buracos das balas incrustadas nas paredes do edifício, mas que, infelizmente, são hoje irreconhecíveis devido aos trabalhos de reboco e restauro mandados executar há já alguns anos pelos responsáveis camarários.

Soberba panorâmica

Do alto da torre desfruta-se a mais soberba panorâmica da capital algarvia, sendo daí facilmente reconhecíveis os recortes da linha costeira e da Ria Formosa, assim como a distribuição orográfica da região, que se reparte pela serra – a necessitar urgentemente de ser arborizada – pelas terras algo fragosas do barrocal e pela faixa litoral, plana e fértil mas pejada de construções desenquadradas e agressivas no contexto ecológico em que se inserem.
Pelo esplendor do panorama que dali se desfruta, tem sido este local o mais visitado de toda a cidade, facto que quase obriga o turista a penetrar igualmente nas instalações singelas do interessantíssimo Museu Antonino, afecto ao templo e incorporado nas dependências de um antigo claustro. Muitos têm sido os seus visitantes, oscilando a média anual do último quinquénio entre os 15 e 20 mil, o que dá bem a ideia do seu interesse turístico.
Entre os mais ilustres que por ali passaram permitam-me que destaque, para além do ex-Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, dos bispos e arcebispos de Évora, Beja, Coimbra, Algarve e outros, dos deputados; e figuras políticas dos tempos de ontem e de hoje, os mundialmente conhecidos artistas de cinema Marlon Brando e Catherine Deneuve que, aproveitando um curto período de férias, vieram até ao Algarve e juntos visitaram o Museu Antonino, dedicando-lhe palavras de muito apreço e admiração. A fama da sua passagem depressa se fez constar e hoje raros são os jovens fãs do cinema que não pedem à zelosa guarda do museu, sr.ª D.ª Maria Celeste Iria, que lhes mostre os autógrafos daqueles conhecidos actores cinematográficos.

Valioso espólio

De entre as cerca de quatrocentas peças que compõem aquele espólio museológico, merecem especial realce um quadro de Santo António, que se encontrava no antigo Convento de Santo António dos Capuchos desta cidade, onde em tempos esteve instalado o Museu Arqueológico, verificavelmente inspirado (para não dizer cópia fiel) do fresco de Giotto, que se admira na Basílica de Pádua; um Missale Romanum - Ex Decreto Sacrosancti… editado em Antuérpia pela tipografia Plantiniana, no ano de 1725, que curiosamente apresenta as armas dos Bulhões de Coimbra, a cuja família pertencia Santo António, o qual esteve durante largos anos ao serviço litúrgico da Sé de Faro; um azulejo com moldura gótica, imitando um vitral, assinado por Maria Portugal, pseudónimo da principal assistente do conhecido escultor Leopoldo Batistini, autor das magníficas placas azulejadas que assinalam a toponímia histórico-urbana da baixa citadina de Faro; uma madona pintada sobre cobre e um quadro do santo, oferecido pelo conhecido escritor e diplomata Dr. Amadeu Ferreira d’Almeida, que à sua terra natal legou uma das mais ricas e interessantes colecções de arte do seu tempo, a qual preenche hoje uma das mais importantes salas do Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique em Faro; uma escultura do santo em madeira do século XVII, outra em cerâmica com 1,11 m de altura, proveniente da escola coroclasta de Bordalo Pinheiro; várias estatuetas em madeira, cerâmica e metal de fábrica nitidamente popular; dezenas de azulejos e pratos, tendo gravadas ingénuas quadras galhofeiras alusivas ao santo; um aquário de cerâmica representando o taumaturgo a pregar aos peixes, o qual foi adquirido por uma das antigas comissões municipais de turismo nas Caldas da Rainha; centenas de pequenas estampas (que o vulgo designa por“santinhos”), folhetos, opúsculos e livros, alguns deles bastante raros; uma colecção de fotografias emolduradas que se estendem pelas paredes do museu, focando aspectos totais ou parciais de outros templos algarvios ligados ao culto de Santo António, algumas das quais constituem verdadeiros documentos por representarem aspectos de um património histórico já desaparecido; dezenas de medalhas de todos os tamanhos e matérias; uma colecção incompleta do Almanaque de Santo António; revistas, folhas volantes, uma peça de teatro manuscrita em espanhol, bilhetes de lotaria, loiças, vidros e um sem número de peças dispersas de valor muito desigual, mas todas dizendo respeito ao culto do milagroso Santo António.

Recomendações e melhoramentos

Como não podia deixar de ser, verificam-se algumas falhas estruturais que urge colmatar e para as quais gostaria de chamar a atenção das entidades camarárias responsáveis.
1.º - Não existe um catálogo, ou inventário do recheio artístico do Museu, que possibilite aos visitantes encarar e compreender pelo menos as peças consideradas do ponto de vista artístico-museológico mais importantes. Recomenda-se que para a elaboração do mesmo se convidem especialistas e se faça uma edição trilingue do respectivo texto, dado que a maioria dos visitantes são estrangeiros.
2.º - Que se coloquem nos locais apropriados alguns projectores de luz por forma a iluminarem-se as peças mais interessantes.
3.º - Que se reboquem as paredes da sala e se eliminem os repassos de humidade que em certos casos tem desprendido alguns quadros e constituem um sério risco para a oclusão de um curto-circuito, causa próxima de tantos incêndios em instituições do género:
4.º - Que se envernizem as travessas do tecto que atestam a secularidade do edifício, mas que por se encontrarem mal tratadas acabam por dar um reflexo de desleixo e de ruína.
5.º- Que se caiem as paredes internas e externas do edifício, sem esquecer de pintar periodicamente os ladrilhos que revestem o pavimento do Museu.
6.º - Que se repare a porta que dá acesso ao pátio fronteiro ao Museu que, pelo facto de não ficar devidamente encerrada, poderá dar azo a possíveis tentativas de assalto.
7.º - Que se volte a repor, no lugar próprio, a quase lendária fechadura do claustro lateral, em cujo buraco procuravam as jovens casadoiras de olhos vendados introduzir o dedo indicador, transformando este acto numa tradição pouco vulgar e de incontestável interesse etnográfico.
8.º - Que se instalem resguardos de rede nas janelas do Museu de forma a permitir a entrada de ar, luz e calor natural no seu interior.
9.º - Que se proceda, urgentemente, à reparação da escada metálica em caracol, que dá acesso ao mirante, e que, pelo seu estado carcomido, poderá ser motivo de graves desastres pessoais.
10.º - Que se equipe o edifício com extintores e outros meios de combate a um possível incêndio.
11.º - Que se inclua e aconselhe a sua visita nos roteiros turísticos da cidade e do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», de 1-02-1984)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A tortura da alma na efervescência dos neurónios


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é um manancial de sensações que se agitam em torno das palavras como ebulições do pensamento. É a efervescência dos neurónios nas etéreas cogitações da alma, causando a agitação das ideias e removendo as concepções estáticas da sociedade civil. Neste caso são revolucionárias, premunitórias e demolidoras. Anunciam a aurora regeneradora de novas eras. Porém, outras estremecem credos e apologias, remexem no íntimo da crença e da fé, esboroam dogmas em refulgentes concepções filosóficas. São agnósticas umas, cépticas outras, descrentes todas, quando concebem a criatura sem ver o criador. Mas, por mais ideológicas e sublimes, ou por mais profundas, ascépticas e enigmáticas que sejam as proposições de um poema de Antero ou de Junqueiro, não restam dúvidas que é na poesia que tudo se transmite e se transforma.
O génio sente-se no acto da criação. A expressão é que difere. A luz e a cor são do pintor, a forma do escultor, a palavra do escritor. Mas a emoção é do poeta. No jogo das sensações, no choque das impressões, nasce a poesia, pura, nua e crua. Um místico mundo de fantasia e realidade desfila pela escadaria do poema. São as metáforas que desaguam no remate de um soneto. A nostalgia da saudade, as comoções do amor, as vicissitudes da alma invadem o poema como uma enxurrada de sentimentos. Isso é poesia. E só o poeta sabe verdadeiramente sentir a poesia. Mesmo quando finge sentir na alma a tortura do imaterializável, o poeta consegue transluzir em diamantinas metáforas a sincera nostalgia de um ideal por construir.
José Estevão Cruz, prosador das efémeras colunas dos hebdomadários algarvios, estreia-se neste livro como poeta. Não sei se algum dia permitirá que o tratem desse modo. Em todo o caso, vê-se que a sua poesia é sentida, sincera e imarcescível. Ainda que retocada nas imagens e rebuscada nos conceitos, não deixa de ser expressiva, raiando, aqui e ali, elevados níveis de pureza lírica.
Parece não existir neste livro um tema principal, nem seria crível que tal acontecesse numa obra poética. Porém sente-se que, no âmago dos seus versos, é a denúncia da opressão e a pusilânime teia dos interesses económicos internacionais, que constituem o tema global desta obra. E se para o comum dos poetas é a Liberdade, na sua concepção mais sublime, o ideal preferido do canto lírico, o José Estevão Cruz vai mais além e elege-a como luta universal da humanidade.
Por isso, os seus versos são um veemente apelo à consciencialização dos oprimidos, clamando contra a iniquidade do poder político que procura entear as classes laboriosas numa inebriante estrutura de dependências socioeconómicas. A letárgica “paz podre” em que vivemos hoje conduz-nos ao insensível alheamento dos que sofrem. E a indiferença parece ser indício do desenvolvimento. O resultado é a distribuição desigual, a marginalidade, o racismo, a violência e a droga. Até parece que no código genético das novas gerações vêem já gravados os defeitos da sociedade moderna: poder, corrupção, vício e perfídia. E estes são os pontos cardeais da educação que na estultícia do nosso egoísmo transmitimos aos vindouros, em nome do sucesso e da competência. A vida é uma competição de tecnologias e cifrões que tudo submete e esmaga à impiedosa lógica da produtividade.
O José Cruz deixa perceber nos seus versos que os direitos individuais, a liberdade e a democracia são mais uma aparência do que uma realidade. E o homem na sua multiplicidade de anseios e frustrações, deixou de ter significado. O cidadão na sua dignidade e honra, é quase uma expressão de retórica. Dá impressão que somos escravos dum sistema sem rosto nem pátria, a que alguns designam por progresso e no qual somos reduzidos à mais abjecta insignificância. Mas se, por um lado, uma cadeia de interesses económicos parece conduzir o mundo, por outro assiste-se à destruição do ambiente, à ameaça termonuclear e aos conflitos internacionais pela posse das fontes energéticas.
Esta é a realidade do autor, que sente a poesia como uma forma de comunicação intelectualizada, dirigida a uma parcela da sociedade civil supostamente preparada para o entender. Este livro é uma espécie de tribuna pública e como tal um risco calculado, visto que o autor nele se expõe à crítica e à imprevisível discordância dos que vêem o mundo por um prisma diferente. Não obstante, acredito que a mensagem que o autor pretende fazer passar é correcta e preocupante, merecedora da nossa melhor atenção.
A poesia é a vida. Por isso a poesia simplesmente acontece, sem peias nem destinos predeterminados. O seu modelo é o homem, nos seus anseios, frustrações e sentimentos. Na verdade, a poesia só não acontece quando não há amor, razão e solidariedade. Em suma, a poesia não é mais do que a associação da inteligência com o sentimento. A vida é o pensamento. Na conjugação primordial desse binómio, na sua expressão mais sublime, reside a poesia como paradigma da humanidade. E a efervescência dos neurónios, que nos torturam a alma em constantes interrogações, é apenas poesia.

(Prefácio ao livro Neurónios Flutuantes, da autoria de José Estêvão Cruz)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Procissão das Tochas, em São Brás de Alportel

José Carlos Vilhena Mesquita

A rainha da beira serra algarvia comemora, anualmente, no Domingo de Páscoa, o seu mais glorioso feito histórico através de uma festa profana, que a Igreja converteu numa grandiosa manifestação religiosa. Curiosamente, as origens desta festa remontam ao século XVI, mais precisamente ao dia 25 de Julho de 1596, data em que, segundo reza a história, se verificou a invasão da cidade de Faro e seus arredores pelas tropas do duque de Essex.
Na verdade, é hoje dado como certo que, nessa data, aquele nobre militar invadiu o Algarve, após ter infligido estrondosa derrota na Baía de Cádis, a esquadra de Filipe II. Contudo, falou-se durante muito tempo que o saque, e o consequente incêndio da cidade de Faro, havia sido obra do famoso pirata Sir Francis Drake, que as más-línguas apontavam como amante da rainha Isabel I de Inglaterra, por ironia cognominada de «a Virgem».
O referido alvitre partiu do cronista algarvio João Baptista da Silva Lopes, que, nas suas Memórias Eclesiásticas do Bispado do Algarve, a páginas 345 diz o seguinte:«Em 25 de Julho de 1596, foi ella [cidade de Faro] incendiada pelos inglezes, que a accommettêrão com huma esquadra comandada por Francisco Drake, sendo governador do Algarve Rui Lourenço de Távora, e Bispo D. Fernando Martins Mascarenhas, talando e assolando tudo quanto encontrárão até á Aldêa de S. Braz, aonde se diz que chegarão, escapando do incêndio apenas a igreja de S. Pedro, e a da Misericórdia. Então se consumirão os cartórios e livros antigos tão interessantes para a História; consta, por tradição, que boa parte da livraria do Bispo D. Jerónimo Osório, roubada nesta occasião, fora levada para a Universidade de Oxford, onde existe
Todavia, sabemos hoje que a invasão não foi chefiada pelo «corsário negro», mas antes pelo duque de Essex, que, para além de incendiar a cidade, assaltou, de facto, a biblioteca que pertenceu ao citado bispo, e famoso humanista, depositando-a depois na universidade de Oxford. Contudo, nem toda a biblioteca foi roubada, pois que aquele nobre inglês, como não era pessoa muito ilustrada, preferiu a beleza das encadernações à qualidade ou ancestralidade das obras e dos manuscritos. Daí que a maior parte dos livros depositados na biblioteca da Universidade de Oxford seja de carácter místico-religioso, principalmente manuais e tratados de teologia, ciência essa que, em larga medida, constituiu a base de formação intelectual daquele insigne estudioso.
Portanto, apesar do prejuízo que este facto acarretou para a história da cultura portuguesa, não podemos deixar de afirmar que a maior parte dos nossos historiadores costuma exagerar um pouco, quando se refere ao apocalíptico acontecimento, visto que sendo livros escritos em latim, que versam temas litúrgicos, não tem hoje a aplicabilidade e o interesse dos tempos de outrora.
Quanto à data apontada como verídica, há ainda quem discorde dela, talvez por que se apoiam em Rebelo da Silva, que, na sua História de Portugal, vol. VIII, a páginas 145, afirma que os ingleses eram senhores de uma armada de 130 velas, chefiada por Lord Effingham, que tinha sob o seu comando oito mil ingleses e uma frota holandesa, que conjuntamente atacaram e destruíram a esquadra de Filipe II, que se encontrava fundeada em Cádis, no dia 20 de Junho de 1596. Um mês depois, avistaram as costas do Algarve, desembarcando então em Faro cerca de três mil homens que, após 48 horas de sangue e fogo, retiraram em direcção aos mares do Norte.
Não nos parece que Rebelo da Silva esteja no pleno uso da razão. No entanto, o que é certo é que, durante esse período de ocupação estrangeira, uma franja do exército inglês derivou até S. Brás, onde, apesar do seu número, foi heroicamente repelido pelos rapazes solteiros da freguesia.
Efectivamente, «tendo os inglezes entrado em Faro, na força de três mil homens, saqueado os haveres dos seus habitantes, incendiando toda a cidade, não escapando cousa que tivesse valor, tiveram conhecimento de que a povoação de S. Braz era rica e importante, e que valia a pena ir sobre ella para a por tambem a saque.
Organizado um forte destacamento, marcharam sobre S. Braz e chegando ali, encontraram todos os habitantes desprevenidos, sendo-lhes fácil roubar o que encontravam. Não contentes, porém, com os roubos e mortes que praticaram, lançaram fogo á egreja, o que produziu uma grande indignação entre os habitantes. Foi então que, passado o primeiro panico, alguns rapazes solteiros, uniram-se como um só homem, e cahindo sobre os inglezes, fizeram n’elles grande chacina obrigando-os a bater em retirada, largando o que tinham saqueado
» (in Almanaque de S .Braz d’ Alportel para o ano de 1894, p. 22).
O heroísmo dos sambrasenses encontra-se, inclusivamente, narrado na única fonte que a este facto se refere com o rigor do pormenor: «Ha a confraria do nome de Jesus, em que só servem os solteiros, em memoria de quando os inglezes deram fogo a esta egreja, e invocando as taes solteiros o nome de Jesus se opposeram contra aquelles anglicanos, e os lançaram fora, com feliz successo, acção que se obrou em dia de S. Thiago Apóstolo, e n’esse dia lhe fazem a festa com as suas cavalhadas de tarde» (António Pereira. da Silva, «Descripção de S. Braz», manuscrito depositado na Torre do Tombo, dotado de 1757).
Curiosamente, as armas empunhadas pelos rapazes solteiros não passavam de lanças improvisadas machados rústicos, chucos e alfaias agrícolas, com as quais «cahiram destemidamente sobre os inglezes» (Sebastião Joaquim Baçam, «S. Bras do Alportel», 1912). Daí nasceu a alcunha de “cachamorreiros” para os Alportelenses. A única fonte que fala com orgulho desta alcunha pertence a João Manuel Rodrigues de Passos, quando, a dado passo, afirma o seguinte: «Caros, conterrâneos, a palavra cachamorreiros, com que nos alcunharam, parece que teve origem n’aquella data (25 de Julho de 1596), em consequencia. dos nossos ascendentes terem feito retirar á cacheirada a pirataria ingleza. Tal alcunha, pois, é, uma glória para nós filhos d’esta formosa rainha da beira serra». (in Almanaque de S. Bras, de 1894).
Presentemente, a comemoração deste ano heróico constitui uma extraordinária manifestação religiosa, eivada porém de um certo machismo, derivado precisamente do seu carácter histórico.
Esta festa celebra-se no Domingo de Páscoa, e o povo chama-lhe a Procissão das Tochas, pois que os homens empunham uns paus enramalhetados de flores que, pela sua esplendorosa tonalidade mais parecem tochas flamejantes.
Percorrem assim, com as “tochas” floridas, as ruas da vila, gritando em uníssono: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia». Porém, entrementes e à socapa, trazem consigo uma pequena garrafa da mais pura e cristalina medronheira, que emborcam a espaços, enquanto gritam cada vez com mais força e entusiasmo: «Aleluia, Cristo ressuscitou como disse, Aleluia, Aleluia, Aleluia».
Concluída a procissão, as “tochas” são prostradas ordenadamente sobre a calcada, constituindo, assim, um vasto e esplendoroso tapete florido, sobre o qual o sacerdote caminha solenemente, ao mesmo tempo que empunha o Santíssimo. Após a marcha religiosa, o prior celebra então a missa campal, à qual assistem sempre milhares de fiéis, alguns deles ainda arfantes do vigor da solenidade.
Antigamente, e julgo que também ainda hoje, se costuma realizar um concurso para apuramento das mais belas “tochas” que desfilaram na procissão, as quais se distribuem por três grupos, conforme as técnicas empregues na sua elaboração artística. Refira-se que, neste ano [1982], o concurso das melhores tochas organizado pela paróquia terá a especial comparticipação da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, da Junta de Freguesia e da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Após a actuação do Rancho Folclórico de Alte e do lançamento dum vistoso fogo-de-artifício, serão encerradas as festividades, que, no seu género, bem poderão ser consideradas como únicas na Península Ibérica.
Pelo seu real valor etnográfico, que, por estranho que pareça, ainda não foi estudado, aqui fica o nosso apontamento, que mais nenhuma pretensão encerra que não seja a de dar a conhecer uma manifestação popular, que em si congrega o espírito profano, mas inocente, do nosso povo com o misticismo cristão da Igreja.
Lamentamos apenas que o dia 25 de Julho, data da invasão inglesa do Algarve, não seja comemorado com o júbilo e a veneração com que os actos de grande heroísmo patriótico costumam ser celebrados no nosso país.

(artigo publicado, no matutino «Diário de Notícias» de 12-04-1982)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Monte de S. Miguel no Algarve – panorâmica turística inexplorada

José Carlos Vilhena Mesquita

O Algarve não é apenas sol e mar. Muitas vezes o dissemos e todos sabem que temos razão. Porém, o turismo algarvio continua insistindo na polarização do litoral, esquecendo o interior onde muitas vezes a beleza do campo e do património histórico se transforma num tonificante lenitivo para o «stress», ou para as enfadonhas e rotineiras férias nas praias. Há que pensar na organização de novos roteiros turísticos e na alternância praia/campo que possibilite ao visitante uma imagem mais objectiva da realidade algarvia. O facto de não levar o turista até à serra, só para que não veja a frugalidade económica dos habitantes ou o atraso “civilizacional” (se é que isso existe) dos seus costumes, e quanto a nós uma política errada. Confinar o turista ao espaço geográfico que medeia entre a praia e o hotel é um perfeito disparate, e esconder-lhe a própria beleza do Algarve, e afastá-lo da nossa cultura e do nosso riquíssimo artesanato. Os estrangeiros apreciam as nossas tradições e os nossos valores sociais, muitas vezes aqueles que o desenvolvimento económico-industrial fez desaparecer nos seus próprios países, sem esquecer que a sua canalização para o interior iria certamente desenvolver a economia local, tão marginalizada e esquecida, prestes a sofrer o ermamento humano e, como natural consequência, a desertificação.
Como sugestão ou alternativa aqui deixo a ideia de uma visita ate ao monte de S. Miguel, cuja panorâmica, salvo as devidas proporções, nada fica a dever à Fóia em Monchique. Acrescento ainda que o cerro de S. Miguel é muito mais do que um soberbo miradouro natural da serra, do Barrocal e da linha azul cristalina do nosso litoral, pois que outros atractivos e riquezas se podem ali observar. Vejamos então.

«O monte do Figo» na história

Na antiguidade sabe-se que o cerro de S. Miguel ou monte do Figo, como então era conhecido, servia de importante ponto de referência à navegação costeira, não sendo raras as alusões à sua estratégica localização nos mapas portulanos, textos literários e documentos históricos pertencentes aos Fenícios, Cartagineses, Gregos, Romanos, Vikings, Árabes e outros povos cristãos da Europa do Norte. Inclusivamente, atribuíam-se-lhe poderes místicos, obscuros e fantasiosos, provenientes de uma fértil imaginária, intrínseca aos povos marítimos. Mitólogos como W. Christ Imullenhoff consideravam aquela elevação como uma montanha sagrada, uma espécie de Olimpo onde as divindades marítimas se reuniam em sigilosa conferência. O eminente arqueólogo prof. Schulten chegou mesmo a identificar o cabo Zéfiro, citado por Avieno no seu imortal poema Ora Marítima, como sendo o monte Figo, opinião de que comungam outros investigadores, nomeadamente o prof. Mendes Correia e o espanhol Antonio Arribas, o que parece definitivamente afastar quaisquer dúvidas acerca da identificação do tartéssico cabo Zéfiro com o cerro de S. Miguel.
Não obstante estas opiniões abalizadas de estudiosos célebres, como Schulten, penso que o problema não está ainda totalmente clarificado, e francamente, na minha opinião, não me parece muito lógico, ou pelo menos muito fácil de compreender, que um cerro de 400 metros de altitude e a cerca de duas léguas de distância da costa possa ser a mesma coisa que um cabo. Mais lógico seria, talvez, identificar o cabo Zéfiro com o cabo de Santa Maria e considerar como seu perceptível e mais elevado ponto de referência o Monte do Figo. Mas, enfim, tudo isso são questões que transcendem os meus precários conhecimentos.

Ermida de S. Miguel

Através da reconquista Afonsina cristianizaram-se os locais místicos ligados ao paganismo greco-romano, não escapando a essa onda de renovação religiosa o simples Monte do Figo, em cujo alto, reza a tradição, se teria erguido uma ermida para assinalar o aparecimento do Arcanjo S. Miguel. Contudo, no cume do cerro nada subsiste que prove a sua anterior existência, e de concreto apenas se sabe que o bispo D. Francisco Gomes do Avelar ali mandou colocar um pedestal de pedra com uma enorme cruz de madeira, que o tempo se encarregou de fazer desaparecer.
Todavia, na encosta norte do cerro ergueu-se, em data que desconhecemos, mas que deve rondar os séculos XV ou XVI, uma (nova) ermida, bastante singela, de tipo rural, denotando fortes influências góticas e visíveis reconstruções, que, por certo, alteraram a sua traça original. O último restauro processou-se no ano passado [1983], e tal como, desde 1943, ficou a dever-se à iniciativa do padre Isidoro Domingos da Silva, pároco de Moncarapacho, que nesta freguesia tem desenvolvido, de parceria com o Dr. José Fernandes Mascarenhas, uma acção cultural verdadeiramente brilhante e assinalável.
O seu recheio é bastante pobre, de uma só nave, chão de grés em ladrilho, um único altar dois degraus acima do nível central, ostentando ao centro uma antiga imagem do padroeiro, ladeada por duas estatuetas de Nossa Senhora do Socorro. Possui alguns bancos corridos em castanho de antiga fábrica, à esquerda um secular púlpito (certamente resquício da primitiva construção), com boa acústica e uma improvisada sacristia. O referido pároco ali reza missa todos os últimos domingos de cada mês, a ela assistindo a população do barranco de S. Miguel, que não ultrapassa os 20 habitantes.
Curiosamente, a ermida possui campanário, mas não tem sino, o que, segundo apurámos, é uma aspiração destas gentes que vivem placidamente na lonjura da serra.

Potencialidades e dificuldades

Depois que a radiotelevisão ali instalou um retransmissor, depressa se abriram os convenientes acessos rodoviários, e hoje facilmente qualquer cidadão pode subir até ao cume do monte para dali desfrutar duma panorâmica de indescritível beleza.
A altitude atinge os 411 metros acima do nível do mar, o solo é calcário e no cume abundam vários minerais como a calcite, cor de mel rosado, e a halina, os calhaus rolados de quartzo e quartzites, um filão de basalto alterado com olivina e na encosta sul vêem-se imensas rochas com amonites fossilizadas.
Na face norte, a poucos metros do retransmissor, encontra-se o Barranco de S. Miguel, pequeno aglomerado habitacional, que em 1964 totalizava uma centena de moradores, mas que hoje não ultrapassa duas dezenas de locatários. O abandono da população deveu-se em larga medida à fraca rentabilidade agrícola, à escassez da água e, fundamentalmente, à emigração, não propriamente para o estrangeiro mas antes para a orla litoral do Algarve.
A zona florestal tem vindo a diminuir, as secas sucedem-se, os poços esgotam-se e as privações de toda a ordem têm tornado a vida insustentável àqueles que persistem em ficar. As crianças, que são em reduzido número, para irem à escola primária do Azinheiro, na freguesia de Estoi, deslocam-se quatro quilómetros, desbravando caminho entre os cerros. Os jovens têm de ir para Faro estudar, o que é muito dispendioso e praticamente incomportável. O analfabetismo ronda os oitenta por cento e a fuga à escolaridade obrigatória não é um hábito mas antes uma necessidade.
A luz eléctrica foi instalada há cerca de cinco anos [1979], não possuem água encanada nem fontanário, as instalações sanitárias (quando existem) são rudimentares, não há telefones, não lêem jornais e o único contacto com o quotidiano exterior é feito através da rádio (que ouvem com frequência) e da televisão, cujo aparelho poucos possuem, mas que vêem amiúde, sendo o programa preferido a telenovela, que curiosamente designam por «Gabriela», qualquer que seja o seu título original.
Nos últimos quatro anos tiveram de comprar água nas imediações mais próximas, a qual transportavam em mulas e cântaros para utilização doméstica e amanho de algumas sementeiras, pois o único poço (que é comunitário) só este ano, devido à forte pluviosidade, atingiu um nível razoável. A inquinação das águas e a deflagração de um surto de febres tifóides são perigos constantes e iminentes.
A produção agrícola é fundamentalmente composta por cereais: centeio, trigo, cevada e outros. Colhem alguns frutos num terreno difícil, onde só resistem com abundância as alfarrobeiras, oliveiras, figueiras e amendoeiras, cuja produção poderia ser aproveitada de forma conveniente à sua comercialização.
A exuberância silvestre, fortemente marcada pela presença do rosmaninho, tomilho, giesta, alecrim, rosas albardeiras e outros arbustos floridos, transforma o terreno numa vasta área propícia à produção de mel.
A constante desarborização da serra tem sido a causa próxima da secura e esterilização dos solos, situação que futuramente poderá levar ao desaparecimento deste interessante aglomerado que dá pelo nome de Barranco de S. Miguel.
Esperemos que as autoridades do turismo regional aproveitem ao máximo as belezas naturais deste local, onde se pode desfrutar de uma beleza panorâmica inigualável no Algarve. Sugerimos também aos futuros visitantes do cerro de S. Miguel que não deixem de confraternizar com o povo do sítio de Barrancos, esquecido e marginalizado desde há largas décadas, sofrendo em silêncio as amarguras de uma existência praticamente sem futuro.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias», em 24-9-1984)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Tradições do Natal Português


José Carlos Vilhena Mesquita

Num país como o nosso, de reduzidas dimensões territoriais, é impensável que a festa da Natividade assuma proporções etnográficas dignas de elevado relevo. Além disso, em quase todo o mundo se celebra idêntica data, se bem que nem sempre com o mesmo espírito religioso e festivo que nós, europeus, lhe outorgamos.
Na realidade, desde os primórdios do cristianismo que se celebra esta solene data, muito embora se deva salientar que no início do século V se comemorava o nascimento de Cristo no mês de Janeiro, e no ano de 432 festejava-se simultaneamente no dia 25 de Dezembro a Natividade e a adoração dos Reis Magos. O estabelecimento desta data como aniversário do nascimento de Cristo deve-se a São João Crisóstomo, que no panegírico de S. Figolonio, pronunciado no ano de 386, defendeu a sua autenticidade. Houve, porém, que esperar pelo pontificado de Júlio II para definitivamente se estabelecer como dia de Natal a data de 25 de Dezembro.
A primitiva festa da Natividade consolidou-se durante a vigência do Papa Sisto III (432-440), e apontava já para o estabelecimento de duas celebrações bastante características: a do Presépio e a da Santa Missa, com as respectivas orações litúrgicas. A primeira deu grande impulso ao carácter festivo da celebração e realizava-se principalmente na basílica romana de Santa Maria, que passou desde então a denominar-se ad praesepe. Quanto aos ofícios litúrgicos, celebravam-se no mesmo templo e tinham um acentuado carácter mariano, obedecendo à clara intenção de converter a Natividade numa vigília nocturna, semelhante à que se celebrava na Páscoa.
A devoção e o gosto pela festa da Natividade acentuaram-se ainda mais quando o Papa Teodoro, no século VII, trouxe para Roma as relíquias do berço do Menino Jesus e das manjedouras dos animais que aqueceram a sua nudez. Muito embora nos pareça existir em tudo isto algo de fantasioso, o certo é que ainda hoje se veneram essas relíquias como se fossem autênticas. Por certo, o que importa é a sua simbologia e não a sua verosimilhança.
Associada à festa do Natal celebravam-se durante a Alta Idade Média três missas rezadas pelo Papa na Igreja de Santa Maria Maior, sendo de realçar a primeira, a da meia-noite, popularmente designada por missa do Galo por ser propiaquante gallorum canti. A segunda missa, a da alvorada, rezava-se na Igreja de Santa Anastásia, já inexistente, e a terceira na Basílica de São Pedro, às quais se outorgava um profundo sentido místico, já que a primeira significava o nascimento de Cristo, a segunda a felicidade que Cristo veio trazer aos homens e, a terceira a realização das promessas da lei santa.
Presentemente só a missa do Galo prevalece na tradição cristã e no espírito popular, se bem que a corrosão dos tempos e o materialismo da vida actual haja desbotado o seu significado. De qualquer modo, há que assinalar a permanência de algumas tradições de raiz medieval, que, nas terras do interior, ainda se vão mantendo, mau grado a aculturação motivada pelo surto emigratório. Mesmo assim, a época natalícia tem um carácter telúrico e vigoroso que, em certos casos, especialmente em Trás-os-Montes e nas Beiras, se assume como fonte inesgotável de conhecimentos nos domínios da etnografia e da demopsicologia. Como características gerais apontam-se a queima do madeiro ou cepo, a consoada, a Missa do Galo, o presépio, as Janeiras e Reis, os cortejos evocativos dos Reis Magos e os autos, entremezes e vilancicos.

A queima do madeiro ou do cepo

Em praticamente toldas as províncias do País se verifica a tradição do fogo da lareira familiar, alimentado por um enorme toro de madeira, que no Minho tem o nome de Canhoto, enquanto nas restantes regiões lhe chamam madeiro ou cepo.
Conforme a tradição, é preferível que o cepo seja de oliveira, árvore da paz, por ser dessa madeira a cruz de Cristo. Por outro lado, associam-se-lhe tradições profanas, pois que quanto mais grosso ele fosse mais gordo seria o porco para a matança do ano. Além disso, também se lhe atribuem poderes sobrenaturais, pois que os restos que não arderem serão guardados para com eles se preservar o lar das trovoadas e outras iras divinas. E para provar esta regra muitas lendas dramáticas se narram contra aqueles que violam a tradição e a crença do povo.
No fundo, a incineração do madeiro ou cepo não é mais do que a revitalização do fogo simbólico originário do rito pagão, que nos adros das igrejas e capelas crepita, abrasivo e luminoso, por entre os grupos de jovens que lhe dedicam inúmeras quadras do vasto cancioneiro natalino.

A ceia grande ou consoada

Normalmente designada por festa da família, por se reunir à mesa a maioria dos familiares, era costume realizar-se a consoada depois da Missa do Galo. Contudo, hoje, essa tradição já se vai perdendo devido ao desuso das antigas ceias. E na composição das ementas é que se constatam algumas heterogenias de carácter antropológico resultantes das assimetrias sociogeográficas.
Assim, enquanto no Minho predomina o bacalhau cozido com batatas, ovos e tenros, “tronchos” de “coivão” da horta, em Trás-os-Montes, no Centro Litoral e no Alentejo assa-se o leitão ou come-se um lauto assado de porco, regado com bom vinho novo. Por sua vez, na Estremadura, no Ribatejo e nas ricas casas beirãs, come-se o tradicional peru recheado de acepipes saborosos, enquanto no Algarve nos deliciamos com o lendário pitéu da carne de porco com amêijoas e linguiça assada, prato este já caído em desuso mercê da aculturação turística do peru.
Paralelamente ao “presigo”, as mesas, os armários e escaparates, estão repletos de doçarias de toda a espécie, variando igualmente de região para região. Por exemplo, no Minho os «mexidos» arabescados com canela da Índia, assumem posição de destaque, logo acompanhados pelas deliciosas rabanadas ensopadas no mel doirado, pelo leite-creme crestado com açúcar caramelizado, pelos pratos de aletria, pelo pão-de-ló e bolo-rei, este ultimo já importado desde há longa data. Nas Beiras confeccionam-se filhós estendidas. fatias-douradas, coscorões, bilhós, pães-leves, merendas, bicas e arroz-doce. No Douro, comem-se rabanadas, formigos, mexidos, sopas secas, ovos queimados, sonhos, arroz-doce, aletria, figos, uvas-passas e vinho quente. No Ribatejo tem especial relevo o bolo-podre, as broas, os bolos de gema e as azevias compostas por grão, arroz-doce e filhós. No Alentejo saboreiam-se as filhós, azevias, sonhos, borrachos e os nogados, à base de nozes, amêndoas ou pinhões misturados com mel. Finalmente, no Algarve, apreciam-se doirados fritos escorrendo mel, filhós, bolinhóis, empanadilhas de batata-doce, figos, pinhões e nogado.
Como facilmente se depreende, é ao nível da doçaria que as diferenças se acentuam, se bem que a gastronomia seja igualmente um indício da personalidade do nosso povo. Mas passemos adiante.

A Missa do Galo

Atendendo a que se trata duma celebração religiosa, não se radicalizam quaisquer heterogenias regionais. No entanto, pela circunstância de só se realizar nesta quadra do ano, não podemos deixar de salientar a sua singularidade litúrgica. Mas como especial atractivo registe-se o desvelamento do Presépio, que ate aí permanecia envolto numa cortina para dar ao acto um carácter mais solene. O pároco, após dar a conhecer a ingénua composição de figuras de barro. Celebra a missa enquanto o povo entoa cânticos de Natal. Por fim, o pároco dá o Menino Jesus a beijar aos fiéis, que silenciosamente lhe pedem mercês e protecção.
Como nota curiosa, é saliente nesta altura a boa disposição de todos os presentes alguns deles já bem bebidos e mais bem comidos.

O Presépio

A origem dos presépios remonta a São Francisco de Assis, que teve a genial ideia de fazer reviver, através da arte popular, as cenas bíblicas directamente relacionadas com o nascimento de Cristo. Em si mesmos, os presépios constituem uma lição viva de fraternidade, amor e humildade.
Compõem o presépio, a Sagrada Família, os Reis Magos e a respectiva cascata com a manjedoura e os animais que aqueceram o Menino. No entanto, o gosto popular acentuou este enternecedor quadro litúrgico com o acrescentamento de centenas de outras figuras da sua própria existência socioeconómica, como é o caso dos gaiteiros, moleiros, moinhos, açougueiros, pastores, ferreiros, sapateiros, sem esquecer naturalmente a tradicional cena da matança do porco. Aliás, convêm lembrar que o nosso país é tradicionalmente ceramista, rico em valores artísticos, alguns deles florescendo em grupo, como são exemplo as escolas de Lisboa e de Mafra. Com especial relevo para os discípulos de Machado de Castro. Na Estremadura as igrejas locais pugnavam pela realização de maravilhosos presépios e rivalizavam com os de Coimbra, Aveiro, Viseu e Lamego, igualmente notáveis pela majestosidade e profusão das suas figuras.
Armados nas igrejas, expostos admiração e culto dos povos, os presépios funcionam ainda hoje como principal atractivo religioso para a Missa do Galo. Pena é que nas residências particulares se vá cedendo à importação profana das escandinavas árvores de Natal, que nada tem de católico nem de latino. O mesmo se verifica com essa figura pouco significativa que é O Pai Natal. Igualmente originário das regiões rígidas do Norte da Europa.

As Janeiras e os Reis


O cantar das Janeiras e o domínio, quiçá o mais rico, do Cancioneiro Popular Português. A sua origem remonta igualmente ao tempo do paganismo em imitação das Saturnais Romanas que, ao converterem-se à religião crista, assumiram foros da maior originalidade.
No ancestral cantar das Janeiras está contido todo o espírito popular, a criatividade; a beleza, o encómio e o escárnio. Muito embora neste domínio se acentuem as heterogenias regionais, é, no entanto, comum a todo o País a composição de pequenos grupos corais, normalmente acompanhados de instrumentos musicais, que percorrem os mais variados lugares da sua freguesia ou vila, batendo às portas e entoando loas religiosas à mistura com quadras de fino gosto popular. O objectivo era serem bem recebidos pelos moradores que lhes ofereciam doces e vinho. Mas, caso não correspondessem a contento, eram “mimoseados” com canções de chacota, por vezes achincalhantes, e não raras vezes culminadas por cenas bem tristes e desnecessárias. As esmolas recebidas, em géneros, guloseimas ou dinheiro, eram em certas regiões destinadas à ceia ou festa do grupo, enquanto que noutras paragens revertiam a favor das almas do Purgatório. No Algarve são bem conhecidas as tradicionais charolas que na orla marítima do Sotavento ainda se mantêm com o mesmo fulgor de há dezenas de anos atrás. A recolha deste riquíssimo espólio da nossa literatura oral, foi, em parte, compilado por José Leite de Vasconcelos, Ataíde Oliveira e muitos antropólogos, amadores ou profissionais, que percorreram o País de lés-a-lés.

Os cortejos de Reis Magos

Esta tradição dos cortejos dedicados ao tema bíblico da adoração dos Reis Magos tem vindo progressivamente a desaparecer, se bem que em Coimbra e na aldeia de Tentúgal ainda se conserve na plenitude da sua beleza etnográfica.
Assim, em Coimbra, desfilam bandas de música acompanhadas de crianças de batina vermelha e cota de renda branca, transportando consigo turíbulos de incenso e oferendas para o Menino Jesus. Seguem-se os homens que ostentam bandeiras engalanadas e archotes em ignição, como que a abrirem caminho aos Reis Magos, cujas roupagens sumptuosas e brilhantes denunciam a presença real. Nesta conformidade percorrem as ruas da cidade até à Igreja de S. Bartolomeu, em cujo adro se representa um auto popular alusivo ao carácter festivo da própria comemoração. Por fim, procede-se ao leilão das oferendas, após o que o pároco dá o Menino a beijar.
Na pacata localidade de Tentúgal, o cortejo é precedido por numerosos gaiteiros e clarins que duma forma ruidosa e alegre se anunciam a aproximação do desfile. Este é encabeçado por um arauto, logo seguido por uma estrela brilhante e majestosa alusiva àquela que guiou os Reis Magos até Belém, e um pouco mais atrás desfilam as três altezas reais com as respectivas oferendas de ouro, incenso e mirra, que se fazem acompanhar pelos seus pajens e pelo numeroso público presente. Após percorrerem as ruas da povoação dirigem-se à aldeia de Ribeiva de Frades, de onde regressam a Tentúgal para confraternizarem em simultâneo com o povo de ambas as localidades.
No fundo, trata-se de um cortejo de carácter religioso, mas nem por isso menos importante do ponto de vista etnográfico, que merece ser preservado e minuciosamente estudado.

Autos entremezes e vilancicos

A origem dos autos de Natal perde-se no tempo e crê-se que as primeiras representações deste género teatral foram impulsionadas pela própria Igreja para melhor divulgar as suas doutrinas. Em Portugal, o dramaturgo que maiores êxitos alcançou foi Gil Vicente, sendo ainda hoje as suas peças muito apreciadas e procuradas pelo público. Muitos destes autos tem um carácter estritamente popular e por esse país fora ainda se representam anualmente. Recorde-se, por exemplo, em terras de Viana o Auto de Floripes, felizmente já estudado por especialistas, e que constitui um verdadeiro atractivo turístico nesta quadra natalícia.
Infelizmente, os grupos de teatro amador espalhados, por esse país fora, não costumam aproveitar esta fonte de inesgotável riqueza etnográfica, para darem a conhecer a nossa juventude algumas das tradições mais genuínas do nosso povo.
Quanto aos entremezes, que eram curtas representações teatrais de espírito jocoso ou burlesco, são vulgarmente designadas por farsas, género que Gil Vicente igualmente cultivou no decurso da sua obra. Presentemente, os entremezes raramente os representam.
Finalmente, os vilancicos são madrigais que se cantavam nas igrejas por ocasião do Natal e dos Santos Populares, mas que hoje caíram totalmente no esquecimento e poucas são as localidades em que ainda se conservam.
Enfim, de um modo geral, procurando ser breve e sucinto, penso que sobre as tradições do Natal português muito mais haverá que dizer se bem que cairíamos no aprofundamento das questões levantadas o que só contribuiria para a saturação do leitor.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias» em 24-12-1982)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cacela a Velha – Imóvel de interesse público


José Carlos Vilhena Mesquita

O núcleo histórico de Cacela a Velha acaba de ser classificado [1983], pelo Instituto Português do Património Cultural, como imóvel de interesse público, devendo-se essa determinação oficial à aprovação de uma proposta apresentada, nesse sentido, pela Junta de Freguesia de Vila Nova de Cacela. Contudo, a justíssima petição do órgão mais representativo do povo de Cacela, teve como fundamento o brilhante estudo em tempos executado pelo Arq.º Cabeça Padrão que, justamente, apontava como um dos objectivos prioritários a classificação do Núcleo Histórico como imóvel de interesse público, de forma a evitar-se a degradação da arquitectura e do ordenamento paisagístico, não só da zona monumental, fronteira ao mar, como ainda de todo o conjunto urbano que felizmente ainda conserva evidentes traços das suas origens medievais. Saliente-se, igualmente, o incondicional apoio prestado pela ADIPACNA (Associação para a Defesa e Investigação do Património Cultural e Natural) e pelo município vila-realense, cabendo àquela organização a salvaguarda deste valioso núcleo histórico do qual fazem parte uma velha fortaleza, que serve de quartel à Guarda-fiscal, a Igreja Matriz e a secular ermida de Santa Rita.
A freguesia de Cacela, cuja origem remonta ao tempo dos Fenícios e que, segundo alguns historiadores teria sido a lendária Conistorgis, capital dos Cúneos, foi com toda a certeza uma das mais importantes localidades da ocupação árabe e nela residiu, se bem que temporariamente, o célebre conquistador do Algarve, D. Paio Peres Correia, cujos restos mortais julga-se que repousam na Igreja de S. Maria do Castelo, em Tavira. Também nesta povoação se evidenciam alguns resquícios da ocupação pré-histórica e especialmente romana (desde antas e outras necrópoles, até ao achamento de fustes de colunas, capitéis, moedas, cerâmica, mármores, etc.), em parte estudados por Estácio da Veiga, Santos Rocha, José Leite de Vasconcelos, e outros, muito embora devamos acrescentar que a maioria das estações arqueológicas conhecidas permanecem ainda inexploradas em progressiva degradação.
Cerca de 1240 foi esta povoação tomada aos Mouros por D. Sancho II que, juntamente com o seu castelo, a doou à Ordem de Santiago. Porém, decorridos dois anos voltou à posse dos muçulmanos para, em seguida, ser retomada pelo fronteiro-mor do Algarve e Mestre da referida ordem, D. Paio Peres Correia, que não mais a perdeu. Por sua vez, D. Afonso III, que em 1252 conquistou definitivamente o território do Algarve, confirmou em 1255 a doação feita por seu pai à Ordem de Santiago e seu filho, D. Dinis, outorgava-lhe a 17 de Julho de 1283 o primeiro foral.
Apesar do seu passado brilhante a vila de Cacela foi paulatinamente ofuscada pela cidade de Tavira, e pela aldeia piscatória de Monte Gordo, até que o Marquês de Pombal lhe deu o golpe fatal ao retirar-lhe os privilégios de sede de concelho, incorporando-a como freguesia da renascente Vila Real de Santo António. De qualquer modo, a permanência de várias famílias de agricultores (algumas delas até de origem nobre), a florescente pesca do atum e a posterior fundação de uma fábrica de telha francesa pertencente à Companhia de Cerâmica, possibilitou a continuidade do povoado, que apesar da sangria emigratória ainda hoje resiste, em parte devido ao turismo e às excelentes condições naturais da sua costa para a prática de desportos náuticos.
A fortaleza de Cacela, que defendia a entrada da barra de Tavira, é de origem bastante remota, sabendo-se por intermédio do prior Duarte Correia de Freitas, autor de uma memória datada de 1758, que ao pé da Igreja existia um castelo "que padeceu grande ruína com o terramoto de 1755", mas que acabou por ser reparado. É muito possível que esse castelo esteja, pelo menos em parte, integrado na actual fortaleza que, conforme documentação digna de crédito, foi mandada construir em 1770 por D.Rodrigo de Noronha, governador do reino do Algarve. Porem, a sua edificação terminaria apenas em 1794, no reinado de D. Maria I, sendo, nessa altura, governador e capitão general deste reino o Conde de Val de Reis, D. Nuno José Fulgêncio de Mendonça e Mourão. Inspeccionou aquela edificação militar o Dr. José Caetano de Andrade e Castro, guarda-mor da cidade de Tavira, conforme se pode constatar na inscrição que figura sobre a porta principal, e que passamos a transcrever:

EM O REINADO DA AIGVSTISSI
MA S D M I RAINHA DE PORTV-
GAL GOVERNADO ESTE RN.º
DO ALG. O INmo EXmo NUNO
JOSE FVLGENCIO DE MENDONSA
E MOURA CONDE DE VALDREIS
GENTIL HOME D. SAR. DE
PUTADO DA JUNTA DOS 3
ESTADOS GOVERNADOR E CApam
GENERAL DO REINO MANDOU RE
EDIFICAR E ACABO ESTA FOR-
TALEZA SENDO INSPECTOR
DA MESMA OBRA O Dor JOSE
CAETANO DANDRADE E CASTRO
GUARDA MOR DA CIDe DE TA-
VIRA.
ANNO DE 1794

Quanto à Igreja Matriz convirá dizer que a sua fundação remonta provavelmente ao séc. XIII, sendo depois, em 1518, construído sobre as suas ruínas o actual templo. Das suas origens resiste ainda uma velha porta lateral em estilo gótico e da edificação quinhentista assume especial interesse o seu belo pórtico renascentista, sobre o qual se destacam os bustos em baixo relevo de S. Pedro e de S. Paulo. Apresenta duas pilastras laterais ornadas de carrancas, dragões, machados, cabeças de anjo, tridentes, arcos e aljavas, todas dispostas numa sequência vertical. Tem três naves, separadas por arcos ogivais assentes em colunas de 1,70 m. de altura, com bases e capitéis oitavados, cujos elementos decorativos são hemisférios ou cordas, o que denota o seu estilo manuelino. O comprimento da igreja é de 24,5 m. e a altura é de 10,5 m., com cinco altares muito singelos, mas de grande beleza.
De salientar a abóbada artesoada, com bocetes estrelados, da capela da Senhora dos Mártires, e ainda uma grade de ferro seiscentista da capela do Santíssimo, e uma cruz processional de ferro decorada nas extremidades com as figuras de S. José, N. Senhora, S. João Evangelista e St.ª M.ª Madalena.
Esta igreja foi praticamente arrasada pelo sismo de 1755 e reedificada pelo Bispo D. Francisco Gomes do Avelar em 1795, encontrando-se hoje ainda aberta ao culto.
Por fim, a ermida de St.ª Rita, pequena e modesta, tem apenas um altar no qual assenta num nicho a imagem da Santa devendo-se igualmente a D. Francisco Gomes o seu restauro e protecção. Dista da Igreja Matriz cerca de 3 km., e desconhece-se a data da sua fundação.
Em suma, resta-nos aguardar que este exemplo da Associação para a Defesa do Património de Vila Real de St.º António, do respectivo município e da Junta de Freguesia de Cacela, venha a servir de estímulo às entidades oficiais do Algarve que, nomeadamente em Faro, não prestam o mínimo interesse ao valiosíssimo espólio histórico-cultural do seu próprio concelho.

(artigo publicado no semanário «Jornal do Algarve», n.º 1401 de 3-2-1984)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Natal Algarvio perdeu tradições

José Carlos Vilhena Mesquita

Dificilmente se encontram hoje no Algarve os resquícios da festa natalícia genuinamente regional. Mesmo nos lugares mais recônditos da serra se esbateram as tradições, apesar de em toda a província não ser estranha a alegria que a verdadeira festa do lar traduz no espírito da família. No fundo, o Natal, quer seja minhoto, transmontano, beirão ou algarvio, contem um denominador comum: a celebração de uma festa religiosa com características muito intimas, na qual a família se reúne numa verdadeira apoteose dos seus continuadores – as crianças. O Natal é, por excelência, a festa da criança, o prolongamento da família, a personificação da unidade e da esperança no futuro.
Os presentes, com que no início da nossa Era os Reis Magos homenagearam o Deus-Menino, são hoje simbolicamente os mesmos – embora materialmente muito diferentes – e servem para traduzir a felicidade do lar, a paz e a amizade entre os homens. Por isso, Natal sem consoada, sem presépio nem prendas, não é Natal. E estas são, sem sombra para dúvidas, as características mais gerais da festa, que, cada vez mais, se tornou pertença de um património universal.
Verifica-se, porém, que as influências culturais resultantes de uma heterogeneidade geomorfológica de insondável ancestralidade marchetaram as celebrações religiosas com dispares manifestações populares, que, de algum modo, as diferenciavam, criando-lhes uma individualidade peculiar, e, por vezes, algo estranha e muito curiosa. Com o seu estudo se preocuparam os etnógrafos e antropólogos, mas para o seu progressivo esvaziamento parece estar a contribuir um hodierno progresso tecnológico, emanado duma sociedade consumista e alienante, que tende a estandardizar as próprias raízes culturais dos povos. O conservadorismo etnográfico, e a reserva do tradicional, assume-se hoje, numa perspectiva mais cosmopolita, como sintoma de atraso civilizacional. A mundialização do pinheiro escandinavo, e do Pai Natal normando, superaram, por observância da normalização comercial, os padrões culturais e as manifestações populares do Natal latino, esse sim, genuinamente cristão e profundamente visigótico. De tal forma assim é que o Natal secularizou-se para dar lugar a uma festa social, altamente vulgarizada, profundamente dependente duma indústria de mercado, que a força persuasora da publicidade e dos meios audiovisuais de comunicação tem vindo a banalizar.
Mesmo assim, apesar de todas as atrocidades etnográficas a que impavidamente temos vindo a assistir, o Natal é, e será sempre, a festa do lar, a apoteose da criança, um hino de paz que apela à fraternidade humana.

À procura do Natal algarvio

Tal como acima ficou explicitado, não existe hoje propriamente um Natal algarvio. Contudo, tempos houve em que as manifestações natalícias se transformavam em verdadeiras festas da comunidade, com ligeiras ou salientes afirmações da cultura local, que se transformavam em peculiares variações, de região para região, às vezes mesmo de concelho para concelho. Nas comunas rurais sempre se evidenciou um sentimento de solidariedade e de confraternização entre os seus membros, ao qual o espírito religioso emprestava uma forte consistência. Era uma festa deambulatória, se assim se lhe pode chamar, usando o lar e a igreja coma balizas duma intercomunicabilidade fraternal em que as dissensões e incompatibilidades entre as pessoas se perdoavam e desfaziam num amplexo, que o respectivo pároco se esforçava por estreitar. Na região algarvia, dum luminoso cenário azul, falta-lhe na noite de consoada a neve e o frio enregelante, capaz de reter as pessoas no aconchego da cálida lareira.
Antigamente, logo após a consoada, as famílias costumavam visitar-se na noite de Natal, tradição que até há bem pouco se conservava no interior algarvio. As crianças saíam com os pais a visitar os lares mais queridos, comendo deliciosos pastéis de mel e provando espirituosos vinhos. A bondosa inocência do serrenho algarvio impregnava a noite de Natal com um fraterno calor humano verdadeiramente inigualável.
Na esperança de encontrarmos a chama ardente desse passado cultural, deslocamo-nos até ao concelho de S. Brás de Alportel, perdido na serra algarvia, cujos lugarejos percorremos ao sabor de seculares caminhos. Falamos com alguns anciãos de diferentes sítios, com pessoas instruídas e até com alguns jovens. No avaliação deste ligeiro inquérito, verificámos que as tradições antigas já se perderam, que na sua grande maioria são irrecuperáveis, que a juventude pouco se interessa com o passado, que a televisão faz reter as pessoas em casa, que a carestia de vida exterminou quase por completo as visitas aos lares, e, em suma, que o Natal se tornou na noite em que se recebem os presentes. Concordam todos que se trata da festa da família, marcada pela ceia natalícia e pela convivência com as crianças. Não obstante, os jovens preferem mais a noite de Passagem de Ano do que a noite de Natal, pois que, não se sentindo obrigados a ficar em casa com a família, reúnem-se em grupo para saírem até ao litoral ou às cidades mais cosmopolitas onde dançam e bebem até ao raiar da manhã. Surgiu mesmo uma nova tradição: a de presenciar o nascer do sol do Ano Novo.
Todavia, algo permanece ainda vivo do tradicional Natal algarvio, para alguns tão longínquo, mas para outros ainda saudosamente presente, sobretudo na memória dos mais idosos. Acima de tudo mantêm-se a Ceia de Natal, alguma gastronomia tradicional, a reunião da família e o presépio. Porém, são já raros os cantadores populares das janeiras e reisadas, cujos grupos de cantares se designam por “charoleiros”.
O dia de Natal continua a ser insofismavelmente o dia da Família, cujos membros se reúnem na casa dos pais, na do filho mais velho ou na do irmão mais “remediado". Curiosamente, ainda ouvimos falar dos morgados, termo que servia para designar os indivíduos mais ricos, em cujos lares se faziam lautas ceias de vários pratos, imensa doçaria e animada festa, para a qual se convidava o pároco. Durante a noite jogavam-se às cartas, contavam-se histórias antigas, revivia-se a memória dos antepassados, cantavam-se velhas modinhas, mimoseavam-se os mais idosos, presenteavam-se as crianças, filhos e netos. Às vezes reuniam-se numa só casa dezenas de familiares e amigos para celebrarem em conjunto a fraternidade natalícia.
Para estes lados da serra algarvia, e nesta altura do ano, vêem-se numerosas viaturas de emigrantes que apressadamente regressam aos seus lares de origem, para confraternizarem e reunirem-se com a família. A necessidade de afirmação do seu sucesso económico leva-os, por vezes, a realizarem ruidosas festas a que não faltam os acostumados foguetes.
Nos lares mais tradicionais, e que possuem antigas lareiras, queimam-se grossos madeiros, que se colocam atrás do fogo. Reza a tradição local que os rapazes solteiros, para no ano que se avizinha serem bafejados pela sorte, têm que durante a noite visitar nove madeiros, comendo filhós e bebendo vinho novo. Mas hoje já poucas casas se podem dar a esse luxo de receber tanta gente e de ter uma lareira acesa durante todos esses dias. Aliás, para combater o trio existem modernos caloríferos, para além de que as novas construções (os modernos apartamentos) nem sempre possuem fogão nem sala. De qualquer modo, dizem que quando o madeiro não chega a consumir-se inteiramente ate ao Dia de Reis deve-se parti-lo em pequenos pedaços, que servem para nos dias de tempestade se voltar a acender, evitando-se assim que algum raio fulmine o lar. Além disso, o Natal é também a festa da lareira, ou do ancestral fogo sagrado, e quanto maior for o madeiro e mais tempo durar a sua lenta incineração, maior e mais saudável ficará a seara. Parece que também dá mau agoiro não comer bolotas ou castanhas nas vésperas de Natal.
O presépio é tradição inalterável. Toda a gente monta o presépio, que nas casas mais modernas figura, por vezes debaixo de um incaracterístico e profano “pinheirinho”, enfeitado com luminosos conjuntos eléctricos. Nos lares mais antigos, porém, entroniza-se o Menino, numa espécie de altar, ou peanha, que as moças casadoiras constroem sobre uma mesa, sobrepondo varias gavetas invertidas e de tamanhos sucessivamente menores, cobertas de alvas toalhas de linho, enfeitadas com lamparinas de azeite, frutos variados, bonecos alegóricos à quadra natalícia e as tradicionais searas. Convém esclarecer que estas searas, com um significado simbólico de ancestral origem, obtêm-se colocando em pequenos recipientes uma porção de cereais, geralmente trigo, cevada, lentilhas, grãos ou centeio, mergulhados em água, que passados alguns dias germinam e crescem com colorações de um verde amarelado e suave, semelhante aos das verdadeiras searas. No último degrau desta curiosíssima pirâmide figurava o Menino Jesus, emoldurado pela luz radiante das luminárias, em volta do qual se reuniam os mais jovens, para no Dia de Reis entoarem alguns cânticos bastante peculiares:

O meu menino Jesus
Está lá alto na tribuna;
Está pedindo a sua mãe,
Que nos dê muita fortuna.

Eu vim ver este presépio,
Qual será o meu destino,
Por ser noite de ano bom,
Venho cantar ao menino.

Hei-de dar ao menino
Quatro, cinco, nove, seis,
E uma camisinha fina
Pra vestir, Dia de Reis.

Hei-de dar ao menino
Um galão pra cintura;
Que ele também me há-de dar
Um lugar na sepultura.


A ceia de Natal

Junto ao presépio montava-se a mesa para a ceia, repleta de enchidos, presunto, carnes variadas, deliciosos bolos de mel, filhós, fatias douradas, brinhóis, “empanadilhas” de batata-doce, estrelas de figo, queijos de figo, bolos de amêndoa, dons-rodrigos, figos torrados, amêndoas, pinhões, avelãs e nozes, tudo isto acompanhado de espirituosos vinhos e da saborosa medronheira algarvia. Ao contrário do bacalhau minhoto, come-se no Algarve um anafado galo, escolhido meses antes, o qual o povo desde logo designa por Galo do Natal. Porém, nas casas mais opulentas há quem mate um porco, cuja carne e cuidadosamente repartida, salgada ou defumada, para que dure ate à Quaresma.
Durante a noite ou depois da consoada alguns grupos de rapazes vão cantando de casa em casa até à hora da Missa do Galo. Entretanto, os chefes das famílias mais gradas da freguesia dirigem-se à igreja da paróquia, onde apresentam as boas-festas ao pároco e distribuem esmolas aos pobres. À meia-noite celebra-se a Missa do Galo, cujo templo foi previamente decorado, pelas senhoras mais respeitáveis da freguesia, com flores, velas e um magnífico presépio. No fim da Missa o pároco dá o Menino-Jesus a beijar aos fiéis, regressando depois todos a casa, com os mais novos a cantarolar algumas quadras alusivas à época, quando não se reúnem à volta de um madeiro ardendo ao ar livre, cantando e dançando um qualquer improvisado corridinho.
No dia seguinte, come-se o que sobrou da noite da consoada, voltando-se a reunir a família. Porém a alegria e bastante menor. Nas localidades da faixa litoral, especialmente nos bairros de pescadores, come-se pelo Natal o célebre leitão, litão, ou “peixe-de-cor”, que não é mais do que um pequeno esqualo, conhecido por pata-roxa, também aqui designado por caneja. Este pequeno tubarão, para ser transformado numa iguaria do natal algarvio, precisa de ter no mínimo um metro de comprimento para poder pesar pouco mais de um kilo. Prepara-se “escalado”, ou seja, aberto ao meio, depois é distendido numas canas em forma de papagaio, e após salgado põe-se a secar à soleira da porta de casa durante uma semana. Guarda-se depois em sítio seco para ser consumido no Inverno, sobretudo na consoada por ser mais barato do que o bacalhau. Este costume ainda hoje se mantém em Olhão e Portimão.
Curiosamente, na serra repete-se pelo Carnaval uma ceia algo semelhante à do Natal, com filhós e o tal, indispensável, galo. Por isto se vê quão simples e pobre se mantém a gastronomia por estas bandas, onde a agricultura continua a ser rudimentar, mal dando para a sobrevivência da família.
Na passagem de ano, ou noite de Ano Novo, a festa é semelhante à do Natal, embora muito mais alegre, marchetada por frequentes libações e bailaricos, que os mais jovens organizam nas sociedades recreativas ou nos clubes populares. As charolas e o cantar das janeiras são as manifestações mais castiças do povo serrenho e as mais características desta época. No Dia de Reis era costume fazer-se o bolo-rei, cuja confecção difere muito daquela que já nos habituamos a consumir durante toda a quadra natalícia. As tradicionais janeiras ou reisadas cantavam-se pela última vez, encerrando-se, deste modo, o mais belo período festivo do ano.
Presentemente, nas cidades do litoral algarvio já não existem quaisquer manifestações populares que identifiquem aquilo a que poderíamos chamar um “Natal diferente”. As tradições esbateram-se ou perderam irrecuperavelmente o sentido peculiar do Natal.
Hoje, o Natal é de cada um, nunca para todos, mas cada vez será menos do Algarve.

(artigo publicado no matutino «Diário de Notícias» em 24-12-1985)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Manuel Gomes Guerreiro, um Homem superior a quem o Algarve deve a fundação da sua Universidade

J. C. Vilhena Mesquita

Os amigos, verdadeiros e sinceros, nunca deveriam desaparecer do nosso convívio. Fazem-nos falta, como se deles dependêssemos para equilibrar o espírito e sossegar a alma. Mais nos dói ainda o coração quando temos de falar deles no passado, isto é, quando apenas deles resta uma saudosa recordação. É o caso do Professor Engenheiro Manuel Gomes Guerreiro, de quem guardo a memória da mais profunda gratidão. Pessoalmente devo-lhe uma amizade sincera, enriquecida por uma franca e recíproca admiração. A paixão pelo Algarve, e o estudo dos seus mais diversificados aspectos histórico-culturais, era o cimento conglomerador da nossa amizade. E foi por causa dessa minha afeição algarviista que dele recebi o convite para ingressar no corpo docente da Universidade do Algarve.
Acima de tudo o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi um Homem de muitos saberes, a quem tudo suscitava a curiosidade do conhecer e do entender. Cientista esforçado, preocupado e proficiente, para quem a biodiversidade constitui uma harmoniosa estrutura erguida ao longo de milénios, como se fosse uma teia de interdependências na qual o homem parece ser um agente regulador e vigilante. Porém, era sua convicção que a incompetência e a ignorância dos políticos, acrescidas dos interesses económicos, tendiam a ameaçar o frágil equilíbrio ecológico do nosso planeta.
Afligia-o a responsabilidade de saber que sucessivas gerações anteriores, com sofridos sacrifícios, nos tivessem legado um património ambiental e um equilíbrio ecológico que a todo o momento tem sido descurado, alterado e irremediavelmente delapidado. Só um cientista com a sua capacidade para sentir o que o rodeia, e com uma enorme carga emotiva para entender os poetas, é que era capaz de escrever ciência com o calor das palavras simples, usadas por gente simples para atravessar a essência das coisas. No seu cientificismo académico nunca subiu à torre de marfim para se isolar da realidade nem do pragmatismo funcional. Preferiu a verdade primeira, concreta e sensível das coisas, para só depois a perscrutar com o olhar profundo e rigoroso da ciência. O saber é um encadeamento de sucessivas experiências e de acumuláveis conhecimentos, no qual a ciência representa alguns elos, mas não completa toda a cadeia cognitiva. Tinha disso consciência, e, por isso, respeitava todos os caminhos, todas as percepções e contributos, que o pudessem ajudar a compreender a realidade e o porquê das coisas, na plena certeza de que a verdade absoluta não passa de uma quimera filosófica.
Quantas vezes o ouvi dizer que existia uma ciência popular que o mundo científico levianamente desprezava. Quantas vezes me disse que com o povo humilde da serra algarvia se aprende mais do que se ensina. Percebi-o e dei-lhe razão no primeiro confronto directo com a realidade. Existe um saber próprio nas entranhas das terras fragosas e altaneiras que subsistiu ao longo dos séculos, preservando métodos e técnicas de trabalho, costumes e condutas sociais, medicinas alternativas, músicas e cantares, provérbios e ladainhas, enfim um mundo de conhecimentos que não é do foro exclusivo do etnólogo, mas sim de todo o cientista que faça da avidez do conhecimento e da humildade da aprendizagem o que Gomes Guerreiro fez: um lema de vida.
Para além da feição de homem de ciência, o Prof. Manuel Gomes Guerreiro foi, sobretudo, um homem íntegro, que nunca permitiu que os seus legítimos interesses lhe pervertessem o carácter ou lhe desviassem o prumo da honra. Foi, como diria o poeta, um homem perpendicular. Que aprendeu, mercê de grandes e sofridas desilusões, a perceber a falsidade, a traição e a mesquinhez dos “homens pequenos”. A vara com que se mede o estro dum homem não comporta os centímetros da sua estatura nem a altivez das suas palavras, mas antes a sua grandeza de carácter e a dimensão das suas atitudes e comportamentos. Disse-me muitas vezes que a crise de consciência democrática e de valores ético-sociais do mundo actual está intimamente ligada ao egoísmo e à velada satisfação de apátridas interesses económicos. E à imitação da primeira metade deste século, o actual regime democrático poderá correr riscos de sobrevivência e de satisfação das massas se nada se fizer para combater o clientelismo e a partidocracia. Por outro lado, insistia que o melhor investimento no futuro e a principal obrigação do Estado moderno é a Educação e a formação intelectual. A institucionalização da Escola aberta à formação livre e independente de curriculuns académicos estatizados, que evitasse a simples “caça ao canudo” para a obtenção de um emprego, era também um dos seus desideratos. Mas como tantos outros sonhos que o Prof. Gomes Guerreiro sustentou ao longo da vida, muitos deles não se concretizaram. Contudo o mais importante realizou-se: a Universidade do Algarve, da qual foi com toda a justiça o seu primeiro Reitor. Tive nessa altura a minha quota parte, não só na angariação de assinaturas para o Dr. José Vitorino poder exigir na Assembleia da República a discussão da fundação da nossa Universidade, como também alguns anos depois ao ter sido convidado pelo Prof. Gomes Guerreiro para docente fundador desta casa a que muito me orgulho de pertencer.
Devo pois confessar, que pessoalmente sempre recebi do Prof. Gomes Guerreiro as maiores deferências, sendo uma delas a sua adesão à AJEA – Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, logo nos primeiros dias em que avancei com a sua criação.
Da sua biografia, que escrevi para o meu ainda inédito «Dicionário da Imprensa Algarvia», extracto para aqui os seguintes elementos:
Manuel Gomes Guerreiro, era filho de Manuel Guerreiro e de Maria Vitória Gomes, ambos naturais da freguesia de Querença. Nasceu a 20-1-1919 no sítio das Vargens, freguesia de Querença, dali se apartando dois anos depois em direcção a Faro, onde fez a instrução primária e se distinguiu no velho Liceu João de Deus. Em 1939 fez o exame de admissão ao Instituto Superior de Agronomia, onde concluiria, em 1943, o curso de engenheiro silvicultor. Em Alcobaça, sob a orientação do Prof. Vieira Natividade, elaborou a sua tese de licenciatura intitulada «O Problema do melhoramento Florestal do Género Populus», dado à estampa na Revista da Direcção Geral dos Serviços Florestais. A partir daí não parou com a investigação e os trabalhos publicados rondam hoje uma centena de títulos, os quais nos escusaremos de citar ao longo desta notícia por na sua grande maioria dizerem exclusivo respeito à sua especialidade científica.
Depois de ter passado pelo Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, ingressou, em 1944, no Quadro de Investigação da Estação de Experimentação Florestal do Sobreiro, organismo sediado em Alcobaça e de grande prestígio internacional, chefiado pelo Prof. Abílio Fernandes. Aí se dedicou, durante 12 anos, ao estudo dos problemas do Melhoramento Genético, particularmente de espécies lenhosas incluídas nos géneros Populus, Castanea, Quercus e Pinus. A esse período remontam vários trabalhos de investigação publicados em revistas nacionais e estrangeiras.
Convidado a ingressar no quadro docente do Instituto Superior de Agronomia, apresentou-se em 1957 a defender provas para Professor Agregado ascendendo mais tarde, por concurso, a Professor Extraordinário da Universidade Técnica de Lisboa, na qual se integrava aquele Instituto. Em ambos os casos apresentou dissertações específicas e obteve aprovação por unanimidade. Em 1959 aceitou o convite do director do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, sediado em Lourenço Marques (actual Maputo), para integrar o Quadro efectivo na qualidade de Investigador. Em 1963 foi-lhe conferida a posse do lugar de Presidente daquele Instituto. Naquela antiga colónia desempenhou também os cargos de Director da Sociedade de Estudos de Moçambique e do Museu de Álvaro de Castro, ambas instituições do maior prestígio científico.
No ano seguinte transferiu-se, em comissão de serviço, para o Instituto de Investigação Científica de Angola e daí para a Universidade de Luanda, onde, em 1968, viria a ser aprovado, por concurso público e unanimidade, para Professor Catedrático, através de provas que teve de vir realizar a Lisboa no Instituto Superior de Agronomia, perante um júri que incluía todo o corpo de professores catedráticos daquele Instituto. Regressando a Angola exerceu as funções de Director (por delegação do Reitor da Universidade de Luanda) dos cursos de Agronomia e de Silvicultura instalados em Nova Lisboa, actual Huambo, tendo aí leccionado várias disciplinas dos cursos de Engenharia Agrónoma e de Silvicultura. Em 1972, foi nomeada Vice-Reitor da Universidade de Luanda, onde se manteve até Janeiro de 1974, altura em que tomou posse, por convite do Ministro Veiga Simão, do lugar de vogal da Comissão Instaladora da Universidade de Évora. Em 1978 transferiu-se para a Universidade Nova de Lisboa, onde foi responsável pelo Departamento de Ciências do Ambiente, em virtude até das provas dadas como Secretário de Estado do Ambiente, no I Governo Constitucional, entre 1976 e 1977. Refira-se, por curiosidade, que só não ingressou no governo seguinte porque ao ser-lhe exigida a filiação no Partido Socialista recusou-se a fazê-lo, para garantir a liberdade e independência do poder executivo. Nos dois anos que se seguiram leccionou a disciplina de Ecologia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Quando em 1979 foi criada a Comissão Instaladora da Universidade do Algarve o Professor Manuel Gomes Guerreiro teve a honra de ter sido logo escolhido para a presidência daquele órgão, em que se manteve até 1982, ano em que lhe foi conferida a distinta posse de Reitor. Por razões diversas, que não importa agora esmiuçar, demitiu-se em 1986 daquele cargo, vindo a jubilar-se como Professor em Janeiro de 1989. Entre 1992 e 1994 aceitou o convite para exercer as funções de Vice-Reitor da Universidade Internacional, cargo que abandonou por decisão própria.
A sua vastíssima bibliografia reparte-se por domínios tão diversos como os Sistemas Agroflorestais, a Ecologia, e o Ensino Universitário. Para além de ter sido um consagrado cientista, não podemos deixar de salientar que ultimamente se tinha também revelado como um analista do binómio Desenvolvimento/Ambiente, usando perspectivas de observação e de enfoque teórico que poderão considerar-se muito próximas dos filósofos pós-modernistas que, de Toffler a Alghore, se debateram com os problemas de crescimento da industrialização, da poluição e da destruição do meio-ambiente.
Acompanhei-o até quase aos últimos dias de vida. E posso afirmar que não obstante os seus oitenta e um anos de idade, aparentava bom estado de saúde pelo que nada fazia prever que sentindo-se ligeiramente indisposto desse entrada num hospital de Lisboa no dia 9 de Abril, em cuja madrugada acabaria por falecer vítima de acidente cardio-vascular. O seu funeral realizou-se no dia seguinte, partindo da Igreja de São João de Deus, em Lisboa, para o cemitério da freguesia de Querença, onde foi celebrada missa de corpo presente pelo Padre Dr. Júlio Tropa Mendes, perante numerosa assistência constituída pela maioria do corpo docente da Universidade do Algarve, deputados, autarcas, entidades oficiais e governativas da região. Nessa tarde de Abril os céus fecharam-se para sempre, deixando para detrás, no altaneiro cemitério de Querença, o corpo de um amigo, cuja memória de gratidão sempre me acompanhará até ao resto dos meus dias.