quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uma Histórias das Arábias


J. C. Vilhena Mesquita

Com a chancela da AJEA Edições publicou-se há anos atrás um livro com o sugestivo título de Zunzuns 26 Histórias das Arábias. Trata-se de uma interessantíssima compilação de pequenas crónicas, ordenadas alfabeticamente, sobre os temas mais díspares e em larga medida relacionados com o desempenho profissional do autor por terras do Oriente. Por estranho que pareça este é o seu livro de estreia. Mas por humildade e modéstia preferiu o anonimato, usando o pseudónimo de Hamin Viei. Resguarda-se, desse modo, o talento de um algarvio, natural de Aljezur, cuja formação em engenharia o levaria a desenvolver intensa actividade por terras de África, nas areias do Sahara e nos míticos recônditos do Médio Oriente.
O livro compõe-se de vinte e seis pequenas histórias decorridas em várias partes do mundo e termina com um estudo, mais especulativo do que científico, sobre as origens de Aljezur, estabelecendo para o efeito algumas comparações da sua toponímia com possíveis étimos da língua árabe. Mas o que torna este livro verdadeiramente imperdível são as “Histórias das Arábias”, um autêntico acepipe literário, sobretudo para os apreciadores do humorismo britânico, visto ser inspiradamente britânico o estilo literário de que estão imbuídas essas brevíssimas crónicas. E no Algarve não conheço ninguém com quem se possa comparar (senão talvez em parte com Carlos Abreu), pois que se trata de uma espécie de apontamentos de viagens, temperados num humor muito subtil e aceradamente crítico. Por outro lado, as comparações culturais e os remoques políticos, além de espirituosos são duma clarividência notável.
A forma como Hamin Viei brinca com os absurdos babélicos, as confusões fonéticas e os equívocos linguísticos, ou com os dilemas políticos duma África dilacerada pelo tribalismo, com os choques culturais entre europeus e árabes, com o racismo e a pobreza, ou a emigração e a exploração humana, merece do leitor uma reflexão atenta e criteriosa sobre problemas de tão difícil, senão impossível, solução. Estas histórias que o autor ordenou de uma forma temática, começaram por ser apenas anotações ou breves memorandos, que foi exarando a esmo numa espécie de Diário de viagem. Tinham não só um forte exotismo literário como também um intenso brilho de humor e de crítica social. Ouçamos as suas justificações: «As histórias desta edição eram, a princípio, notas escritas apensas ao diário da minha missão no Sahara. Li-as e reli-as, mas cedo descobri que diziam respeito a outra realidade pela qual muitos se começaram a interessar. (...) Ao trabalhar as minhas notas, senti a necessidade de as ordenar por forma agradável e suave. A forma abecedaria como elas são apresentadas, nasceu por mero acaso. Os títulos foram criados a partir dos textos. Os espelhos de cada história foram uma necessidade criada para comparação de realidades. Outros retoques vieram a seguir... ao virar uma página... (uma página de vida...).»
Os amigos mais próximos partilharam da leitura desses apontamentos de viagens e ficaram surpreendidos, não só com o estilo irónico como também com a sua qualidade literária. Em geral a opinião convergia para o aconselhamento da sua edição em livro. Urgia partilhar com o público as sardónicas mensagens que o autor dirigia à navegação política europeia, sobre as relações internacionais com o Norte de África e os países da bacia mediterrânica, aqui tão perto, mas infelizmente tão descuradamente ignorados. Alguns desses amigos foram mais convincentes do que outros. Por isso mereceram ser destacados no livro e merecem também ser aqui referenciados. São eles o Dr. Joaquim José Magalhães dos Santos, o Eng.º Carlos Abreu (já falecido), o artista Tolentino de Lagos e a Dr.ª Ester Fernandes, que prefacia a obra com palavras de apreço e simpatia. Deste grupo importa salientar Tolentino de Lagos que assina os magníficos desenhos que acompanham o livro. E que talento e graça irradia daqueles bonecos que emprestam um toque “cartoonístico” às humoradas crónicas de Hamim Viei.
Para os leitores interessados devo acrescentar que além do estilo “very british” do autor, do seu imperdível sarcasmo político, importa também realçar os conhecimentos que se podem extrair deste livro para comparar a cultura árabe com a ocidental, concluindo-se que as diferenças não são tão acentuadas que justifiquem a separação, o alheamento e até o ódio com que nos encaramos mutuamente. O feitiço do deserto, a sua quietude e placidez, deixa fortes marcas no espírito civilizadamente agitado e stressante do homem europeu. Ali a vida parece ter o ritmo sideral das estrelas, submetida a um sol impiedoso onde se esquentam ideias, fervilham crenças e se luta arduamente pela sobrevivência. Fermenta naquele mítico deserto um mundo de vida, por vezes imperceptível e geralmente incompatível com certas mentalidades. E, porém, foi ali que Hamin Viei se sentiu mais perto de Deus, numa ascese existencial, que lhe revelou o intrínseco valor das coisas simples da vida, sentindo diferenças, barreiras, desigualdades, abusos e injustiças, que espelham a ambição dos homens e os defeitos das civilizações erguidas sob o estandarte dum dogmatismo religioso ou duma bandeira ideológica desumanizante.
As reflexões que a paz do deserto suscita no cidadão europeu, deformado pelas exigências da produtividade capitalista, estão bem patentes neste livro, cujo autor soube construir página a página com laivos de humor, graça e ironia. Certamente algumas delas motivariam um sorriso amarelo aos nossos políticos envolvidos nas relações internacionais com o Médio Oriente. Só um espírito prático e muito perspicaz como o de Hamin Viei seria capaz de retratar de forma tão mordaz e clarividente os choques culturais motivados pela chamada cooperação ocidental. São os interesses do petróleo e dos grandes empreendimentos de engenharia civil que movem a atracção ocidental e levam a mão-de-obra especializada para as profundezas do deserto sahariano.
O autor deste livro é um engenheiro de conceituada experiência técnica, que esteve ao serviço de várias empresas multinacionais responsáveis pela construção de equipamentos sociais de grande envergadura. A solidão experimentada nas areias saharianas ficou bem patente neste livro, mas a sua inspiração literária prende-se com as saudades do seu Algarve distante. Por isso não prescindo, para concluir, de transcrever as palavras com que o autor abre este livro, as quais me parecem lapidares para explicarem o feitiço do deserto e a profilaxia mental de que, por vezes, se pode revestir a própria solidão: «Os ruídos da Civilização nunca me deixaram pensar; mas longe deles, no coração do Sahara, onde a única realidade era eu e o Deserto... (eu, senhor do Mundo, e o Mundo de mim) vim a descobrir, nas profundezas da sua solidão e quietude, quanto útil ele me foi. Pena é que outros não possam lá chegar...»

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A sublime expressão do amor no doloroso sofrimento da saudade


José Carlos Vilhena Mesquita

A poesia é o paraíso da inteligência e das ideias, é a suprema elevação do pensamento, um alfobre de concepções quiméricas e de altruística entrega aos valores humanísticos do amor e da amizade. A poesia é também uma seara de emoções e de sentimentos, de cujo pão se alimentam sonhos de liberdade e de solidariedade, que se consubstanciam no afecto e na lealdade, no desvelo e na paixão. A poesia é um ascético templo de reflexão e desinteressada meditação sobre o fogo do amor, a luz do pensamento, a chama da vida e o imperscrutável mistério da morte. O poeta é um singular actor, um privilegiado observador e um genial pintor, que no tablado da vida escreve com a pena molhada em lágrimas poemas de amor e de sofrimento, passando indelevelmente para o etéreo, mas deixando atrás de si um rasto de ideias e de emoções, de que outros comungarão como uma terapia de vida ou um lugar de resistência.
A poesia de Telmoro – pseudónimo de Telmo Bernardes da Silva – é um oráculo erguido ao amor, à liberdade e ao livre-arbítrio, à beleza das coisas simples da vida, à amizade, ao amor e à paixão. O cândido lirismo de Telmoro, orvalhado e puro, rompe, despedaça e perfura a urdidura subtil dos enganos e dos prazeres fáceis. Os seus versos elevam-se acima da futilidade das rotinas, com a pujança e a expressiva naturalidade das alianças que se estabelecem entre a forma e a essência, entre o significado e o significante.
Enquanto, nos séculos precedentes, a poesia era o orgulho das nações civilizadas, o enlevo das elites dirigentes e o alimento espiritual do povo, de cujo sangue descenderam muitos dos vates que melhor ilustram as galerias da cultura europeia – hoje, todos sabemos que a poesia e as artes espirituais que transluzem a alma duma nação, valem muito pouco porque muito pouco valem também os povos letrados que ergueram a bandeira do espírito acima do tenebroso pendão do materialismo financeiro.
O imperialismo espiritual que modelou a alma das nações orientais e fez da poesia uma forma de orar a Deus, acha-se hoje ultrapassado, atrasado e empobrecido, exaurido nas suas milenares riquezas, outrora erguidas sobre os valores da espiritualidade humana. O altar das nações ergue-se sob a alta finança, sem rosto nem pátria, que tudo submete e destrói em nome do lucro, transformando os supremos sentimentos da fraternidade e da solidariedade em abjectos egoísmos e velados interesses de domínio, de submissão e de neo-servilismo. O que vemos hoje no templo da humanidade não é a glorificação de um Deus misericordioso, tolerante e compreensivo – o que vemos hoje elevado ao culto das nações desenvolvidas é a veneração da riqueza, do egocentrismo, da arrogância, do desprezo pela filantropia e pelos desafortunados, em suma… assistimos à sacralização do materialismo, à entronização da mediocridade, à glorificação do egoísmo, à exaltação da barbárie terrorista e à desculturalização dos povos espiritualizados.
Impávidos e serenos, vemos transformar-se a cultura numa indústria da mediatização e do populismo barato, num bacoquismo vivencial para gente iletrada, ou, pior ainda, para gente que se pretende amorrinhar, desinstruir e submeter a uma mediania amesquinhante, de forma a açaimar o pensamento e a desvitalizar a ilustração. Os povos de seculares culturas e modelares tradições, como os europeus, que enraizaram a civilização ocidental como modelo de progresso e de humanização, têm vindo a deixar-se cair numa americanização assoberbante e numa rasoirante globalização, submetendo-se ao imperialismo económico e à supremacia dos países industrializados.
O resultado previsível da globalização e do imperialismo financeiro será a generalização dos métodos educativos, a equalização dos graus académicos, o facilitismo da instrução, o rebaixamento da erudição e o nivelamento intelectual, inferiorizando as proeminências propulsoras das ideias humanistas, do criticismo filosófico, das artes criativas, da música erudita e da poesia lírica. O nível cultural vai inexoravelmente decrescendo pelas exigências duma mediocridade impante e dominadora, que despreza o génio poético, como quem abomina os valores da vida e condena os princípios mais elementares do humanismo, execrando os sentimentos e as emoções.
Nos dias que correm apenas interessa desenvolver as ciências experimentais em detrimento da cultura humanística, amesquinhando as Letras sob o princípio economicista da sua improdutividade.
Vivemos hoje envergonhados sob o estigma duma escolarização dita incipiente, supostamente infrutífera, por não instilar nos jovens o abstraccionismo do número e da quantificação. O nosso atraso – dizem os governantes – não resulta apenas duma deficiente equipagem tecnológica do sector industrial, mas tão só da nossa incapacidade para as ciências matemáticas, para a mecanização do pensamento em associações quantitativas, formalizando conjuntos e acções numéricas, visualizando formas e modelos. Os nossos tecnocratas preconizam insistentemente uma moderna fórmula de imbecilidade, que se consubstancia nesta peregrina afirmação: a matemática é a vida, e a vida é matemática. Pela frente e pelo verso, a frase tem muito para discutir, sendo que em todos os ângulos que a perspectivemos resulta sempre numa inverdade. A vida não é um número nem uma numeração, nem tão pouco a matemática vive do número, e muito menos da matematização. A vida, tal como a matemática, é pensamento, imaginação e criatividade. A vida é, em suma, uma herança e uma sucessão. A matemática é uma convenção, que, elevada à escala universal, pretende abarcar o todo e o nada. É uma concepção e uma idealização do abstracto, uma materialização do pensamento em formalizações imateriais, uma imponderabilidade do efectivo e uma inconsistência da verosimilhança.
A vida, e o que verdadeiramente interessa à vida, não consiste no progresso tecnológico ou na erudição científica, nem unicamente no crescimento do Produto Interno Bruto. A vida é sentimento e paixão, é emoção e contrariedade, é prazer e felicidade, é sacrifício e sofrimento, é amor e aversão, é a fortuna e a desventura, a verdade e a mentira.
A vida é também a morte, coabitando o mesmo espaço, mas trilhando caminhos tão diferentes e tão distantes, que se chega a pensar nunca serem capazes de se cruzar. Entre o nascimento e a morte espraia-se toda uma existência, a que só a poesia sabe dar alento e coragem, para glorificar a paixão, a felicidade e a saudade.
Tudo isto se pode ver e ler neste livro de Telmoro. As contradições da ciência, a sua frieza e inexpressividade, contra a sublimidade das letras e a excelência da palavra, cuja beleza e ordenamento conceptual, articulada numa silábica sucessão rítmica, fazem do poema e do pensamento lírico, uma construção artística absolutamente insuperável. Os versos de Telmoro não preconizam doutrinas, nem difundem ideologias; não se inspiram nem se modelam nos figurinos das novas escolas poéticas, tão pouco enfileiram nos movimentos expressionistas ou pós-modernos da “nouvelle vague” em que se integram as recentes gerações de poetas. A sua poesia é independente, mas não se divorcia dos cânones que moldaram os nossos maiores vates. A sua arte poética faz do soneto uma sinfonia de palavras, uma escultura de voluptuosos sentimentos e uma tela de afectuosas impressões. O soneto é a arte maior do poeta, apenas ao alcance daqueles que fazem da poesia um atelier de arte e um laboratório de filosofia.
Nestes Idílios da Madrugada resplandecem clarões de ideias, arquitectadas em sublimes pensamentos, talvez sugestionados pela recente perda da sua amantíssima esposa. Diz-se que o poeta é mais sincero e mais excelso quando sente a alma trucidada pela dor. Mas é sobretudo a luz da paixão, que se difunde na refracção do seu amor por Eduarda Maria, que nos deixa enternecidos, condoídos, feridos até aos recônditos da alma, vendo a ténue candeia da vida penetrar na última prega da neblina que cobre agora a sua pedra tumular.
Choram os seus versos pesadas lágrimas de amor, derramadas sobre o esquife ainda morno da vida que tão prematuramente partira. Debaixo do trauma da morte, com a alma esmagada pelo peso da derradeira tumba, escreveu o poeta os presente sonetos plasmados na lancinante dor de quem sofre sem poder esconder o agudo pranto da sua amargura. Em dolorosos versos, plenos de sentimento e de paixão, exarou um amargurado testemunho de amor eterno, num sagrado juramento de imperecível saudade.

(Prefácio ao livro, Idílios da Madrugada, de Telmoro)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Poetisa do Mar


José Carlos Vilhena Mesquita

Não tem sido meu hábito prefaciar as obras de autores já consagrados, sendo bem verdade que a confirmação ou reconhecimento do talento surge com o evoluir dos anos e, sobretudo, com a insistente (re)produção editorial da criatividade que corrobora o génio. Por isso me sinto feliz, e até de certo modo lisonjeado, pelo convite da poetisa Maria José Fraqueza para apensar umas breves palavras introdutórias a este esforçado e rigoroso trabalho de apreciação crítica elaborado pelo jurisconsulto Artemio Zanon, sobre a sua vasta e muito elogiada obra literária.
Efectivamente a obra de Maria José Fraqueza fala por si, constitui no seu conjunto uma espécie de análise introspectiva da sua alma de artista, do seu génio lírico, da sua sensibilidade intelectual, do seu humanismo literário e do seu apreço pelas Belas Letras. Como algarvia, de radícula e pura gema, não admira que lhe ecoem na alma, como inebriantes cânticos de sereia, os oníricos encantos de Orfeu, as árias celestiais das musas, o fascínio mítico e o enlevo lírico dos encantamentos, crisálidas boninas deste agareno canteiro de florescências poéticas.
Maria José Fraqueza é produto da cultura autóctone, fruto da inocência camponesa e da heróica coragem do marítimo da Fuzeta. Possui na alma esses dois pólos que se atraem e repelem mutuamente, a terra e o mar. Mas foi esse pélago imenso, esse indomável monstro que tantas almas tragou na sua insaciável voragem, que lhe inspirou as mais belas poesias da sua obra.
Todavia, também é verdade que nas suas veias corre o sangue e os genes do ancestral lirismo árabe, cuja profícua herança se poderá aquilatar nos poemas de Ibne Ammar, de Al-Mutamid, de Al-Oriani ou de Ibne-Cací, infelizmente hoje tão pouco, e mal, divulgados. Nas éclogas, nas odes, nos hinos e cânticos poéticos dos clássicos, mas sobretudo nos vates islâmicos do ancestral Garbhe, bebeu Maria José Fraqueza o elixir mágico da fonte de Orfeu, a cristalina inspiração dos seus idílicos versos. Mas foi na voz do povo que se inspirou para arquitectar muitas das suas belíssimas quadras, essa espécie de vaso poético que o povo coloca à janela do coração, e que em breves palavras contém uma peculiar lição filosófica no retinir musical da rima. A quadra popular, tantas vezes injustamente repelida pelos poetas de maior vulto, é, na simplicidade dos seus quatro versos, uma lição de vida. Desde os mais antigos trovadores provençais até ao nosso insigne Fernando Pessoa (grande apaixonado, e inspirado cultor da quadra popular), sempre se conservou na cultura portuguesa o genuíno e democrático modelo dos quatro versos, usado nas desgarradas poéticas e sobretudo nas canções de cariz popular, cuja recolha constitui o cerne do nosso folclore literário.
Não necessita pois de apresentação quem ao longo de décadas cultivou o verbo na mais lídima expressão lusíada, compondo sonetos nos moldes de Petrarca e nos cânones de Sá de Miranda.
Da sua lavra literária conheço tudo quanto saiu em livro. E tudo começou pelas Histórias da Minha Terra, publicado em 1989, um livro de poesia inspirado no ritmado pulsar da oralidade popular, uma espécie de recolha em verso das expressões que o povo usa para comunicar os seus mais genuínos sentimentos. Um livro de baptismo que ficou como uma marca, um cartão-de-visita da própria autora, já que nele também fala de si e das suas memórias de infância no seio dos sacrificados pescadores da sempre noiva aldeia da Fuzeta.
Segue-se-lhe Os Murmúrios do Mar, também de 1989, que é, para mim, um dos seus mais belos livros. O tema principal é naturalmente o mar, esse mar algarvio de dócil aparência, enlevo dos veraneantes e do turismo internacional, estrada de sonhos e de vidas, mas que, por vezes, também foi cemitério de muitos homens para quem a vida foi um constante desafio com a morte. Neste livro é o conjunto dos sonetos nele reunidos que mais impressiona o leitor. São inspirados nas formas naturais da vida, cantando o jogo do amor e a lotaria da vida, sempre acompanhada pela incerteza do destino, pelo fadário da desgraça e pela crueldade do infortúnio.
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, publicado em 1990, é um livro de poemas caldeado num finíssimo humorismo algarvio que só a Maria José Fraqueza seria capaz de traduzir em verso. A forma como brinca com as coisas sérias da vida parece fácil de escrever, mas só quem tenta imitar-lhe o exemplo é que se apercebe da dificuldade que enfrenta ao procurar traduzir em ritmados versos a graça e o espírito das alcunhas dos marítimos seus conterrâneos. Curiosas são também as quadras, tecidas no mais genuíno sentimento popular, cantadas com um sadio e profiláctico sorriso, sem maldade nem motejo. Ainda que tentando ser sarcásticas, vê-se que estão depuradas das tão banais quanto inconvenientes e depreciativas críticas contra a inocência do povo. Não há nos seus versos ridicularizações nem apoucamentos, mas tão só breves apreciações sarcásticas, tentando ironizar com certas atitudes do nosso quotidiano.
Vendavais da Alma, editado em 1994, é certamente o mais conseguido e o mais conhecido livro da sua autoria. Constitui uma antologia de sonetos de muita qualidade, seguindo os figurinos clássicos, tendo sempre em conta uma temática naturalista, uma inspiração intimista e sentimental. É uma panóplia de sonetos de muito boa urdidura, numa concepção introspectiva e de profunda emotividade, nos quais transparecem diferentes sensibilidades numa dicotomia de afectos e numa permanente interrogação metafísica entre o ser, o estar e o partir. Sente-se ainda na leitura deste livro de sonetos uma constelação de ideias, aparentemente díspares e confusas, construindo um caleidoscópio de idílicas formas, de incisivas cores e de impressivos cheiros, num comportando emocional ou numa coreografia de sentimentos que nos deixa estonteados, inebriados, encandeados pela luz do seu raro lirismo poético.
Há Natal dentro de Mim – Poemas de Natal, publicado em 1995, é, como se depreende facilmente, uma compilação de poemas inspirados na quadra natalícia, muito conforme, aliás, ao que é usual nessa época festiva, em que as editoras, e até os órgãos de comunicação social, procuram dar a público, em prosa e verso, textos ilustrativos do profundo significado de que se reveste o Natal para a união das famílias. Neste pequeno livro, Maria José Fraqueza reuniu vinte e cinco poemas de diferentes estruturas poéticas, cuja leitura transmite uma certa paz interior, uma solidariedade e um enlevo fraterno para as famílias desavindas, para além de comunicar às crianças uma mensagem cristã de bondade e afectuosa doçura para com os mais desfavorecidos, para quem o Natal poderá, pelas circunstâncias da vida, ter deixado de existir. Um livrinho muito belo e muito simples.
Maresias Infinitas, publicado também em 1995, é mais uma compilação de sonetos e poemas estróficos de diferentes estruturas, numa dimensão algo reduzida para o valor da sua poesia. Em todo o caso, nele volta o mar da Fuzeta a ser o cenário principal da sua inspiração, ressaltando mais uma vez o niilismo sentimental da própria vida. O Mar que dá a vida também dá a morte. O Mar, esse oráculo de mistérios e de terrores, traz no regaço das suas ondas os sonhos e as quimeras que só as musas sabem transmitir.
O Cântico das Ondas, publicado em 1998, é algo semelhante ao anterior, mas para melhor. Tem novamente o Mar como protagonista, como palco e como fonte de inspiração da sua poesia. Pela insistência temática percebe-se que Maria José Fraqueza pretende assumir-se como a Poetisa do Mar, a mulher embalada desde o berço nas ondas da sua amada praia da Fuzeta. E julgo que por tudo quanto tem feito pela sua terra merece o honroso epíteto de poetisa da Branca Noiva do Mar.
A verdade é que o mar, na plenitude da sua força mítica, está sempre presente na obra lírica de Maria José Fraqueza. Repare-se que os livros seguintes transmitem essa presença nos próprios títulos. Desde logo a Maré de Trovas – Quadras populares, publicado em 2000, cujos versos ao jeito do povo cantam os filhos do mar, cavalgando na procela das ondas para granjear com hercúleo sacrifício o sustento da família; mas também cantam as sereias, os búzios e todos os habitantes das misteriosas profundezas desse imenso pélago que serviu de estrada aos mareantes, para como dizia Camões, dar novos mundos ao mundo nunca antes imaginados.
Repisa a mesma temática em Cantando o Mar – Sonetos, publicado em 2005, no qual apura a técnica do soneto em belíssimas composições, mais profundas de sentimentalismo e paixão, sendo claro que nele atingiu um patamar de recursos metafóricos mais evoluído do que nas obras anteriores.
Por fim, surgem dois novos trabalhos, os mais recentes da sua inspirada lavra poética: Sob as Margens do Gilão, publicado em 2006, e dedicado à cidade de Tavira, no qual o misticismo da água, como fonte de vida, volta a estar presente na estrutura rimática dos seus versos. Um livro de muito boa qualidade poética que só confirma a minha anterior asserção, ou seja a poesia de Maria José Fraqueza ao longo dos anos tem vindo a apurar-se na eficácia, nos atributos, na energia e na eficiência dos valores poéticos, em suma, na excelência do seu lirismo.
O apelido da poetisa, Fortaleza, não traduz a força contra a resistência, mas antes a força moral elevada ao seu expoente máximo, isto é, a força de ânimo que inflama a alma dos vencedores. E em boa verdade, a Maria José, a Poetisa do mar, é uma mulher vencedora, que soube encarar os reveses e os infortúnios da vida com a intrépida coragem dos heróicos mareantes da sua querida praia da Fuzeta, dessa mítica Branca Noiva do Mar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O espírito tertuliano – uma miragem do passado


José Carlos Vilhena Mesquita

Nos primórdios do século passado o país despontava para a curiosidade e o interesse das novas ideias libertárias, que fervilhavam um pouco por toda a Europa. Nas grandes cidades europeias, como Paris, Londres, Roma e Madrid, reuniam-se nos cafés pequenos grupos de artistas e homens de letras, para discutirem ideias e ideologias, novas concepções de ética e de estética, sobretudo novas formas de organização da vida social e económica, tendentes à construção de um mundo mais justo e mais fraterno, erigido sob a luz da liberdade.
Nos antigos Salões e nas Academias reais do setecentismo europeu, incorporaram-se as elites iluministas – numa mesclagem intelectualizada da nobreza com a alta burguesia, tendente ao debate das grandes reformas que inspiraram a formação do estado moderno. Porém, essas instituições culturais foram paulatinamente cedendo lugar aos espaços públicos de reunião mais acessível e popular, de que é principal exemplo o Salão-de-chã, de inspiração burguesa e frequência feminina, e o Café, de origens pequeno-burguesas, onde se reuniam, em democrática convivência, todos os estratos sociais, com especial incidência no empresariado mercantil e industrial.
Na verdade, é ao convívio intelectual e à efervescência das ideias que o Café deve as suas origens, cabendo à cidade universitária de Oxford a glória de ter erigido, em 1650, o primeiro de que existe confirmada memória. Quatro anos depois os mercadores de Marselha fundaram um Café (o segundo com veracidade histórica), para se reunirem e acertarem os seus negócios nos portos mediterrânicos. Seria, contudo, em Paris que, em 1689, abriria o Café Procope, o mais célebre do mundo por nele se reunirem os artistas, os políticos e os intelectuais mais famosos na época das Luzes.
O Café, com o decorrer dos anos, foi perdendo as suas particularidades selectivas e burguesas, mercê da tolerância de novas frequências, suscitada pela exponencial abertura de novos espaços nas cidades portuárias e no interior industrializado. Em boa verdade, o Café evoluiu com o tempo até se tornar numa instituição de equidade social, onde o convívio das classes dominantes se caldeou com o funcionalismo terciário e o operariado industrial. De centro de reunião empresarial, nomeadamente de Bolsa popular do comércio regional, o Café tornar-se-ia num espaço tertuliano das novas ideias políticas e num cenáculo artístico-literário de jovens talentos. Mais do que qualquer outra instituição social, o Café tornar-se-ia num dos símbolos do Liberalismo e da afirmação política da pequena burguesia.
O século XIX, a que muitos historiadores chamaram o século da Burguesia, parece-me que foi também o século dos Cafés, porque neles se aproximaram, em salutar convivência e em acesa discussão de ideias, os representantes dos diversos patamares em que se repartia a sociedade oitocentista. Os cafés, onde todos se sentiam iguais por se sentarem em mesas iguais, tornaram-se locais de reunião periódica para se tomar um simples e popular café, um requintado e burguês cacau, um conhaque ou um brandy, sorver um aromático havano ou uma onça de perfumado tabaco holandês em golfadas de cachimbo canadiano. Nos cafés divulgaram-se as ideologias redentoras do socialismo, do anarquismo e do republicanismo, do associativismo proletário e do sindicalismo, urdiram-se reivindicações operárias, marcaram-se greves e manifestações, congeminaram-se revoluções, escreveram-se romance, versos, canções, e até os grandes manifestos políticos, fundaram-se redacções de jornais, difundiu-se o maçonismo e proclamou-se a utopia dum mundo novo, sem domínio nem pecado.
O café tornou-se no símbolo de uma época, que transitou do liberalismo económico para o demo-liberalismo político. Atravessou os últimos séculos como um areópago da liberdade de reunião e de expressão. Neles se discutiam os comportamentos e as ideias mais avançadas, misturavam-se os sexos, expunham-se quadros de artistas excluídos e experimentavam-se transgressões de toda a ordem. Mas também neles o operário se instruía e divertia, quer lendo os jornais gratuitamente, quer jogando ao bilhar, às cartas, às damas, ao gamão e ao xadrez. Havia um reservado para os jogos de azar, uma espécie de casino dos pobres, e, nalguns casos, a horas mortas, faziam-se sessões de espiritismo. Alguns transformaram-se em cabarés, com espectáculos de música e dança, alternando com actividades menos recomendáveis, descortinando-se nalguns a existência de lupanares clandestinos.
Não obstante, os cafés conservaram-se fiéis às suas originais tradições, como respeitáveis locais de reunião da classe-média, verdadeiros alfobres das ideias libertárias e núcleos de livre discussão das novas concepções estéticas da Arte da Literatura. Alguns, raros, ainda subsistem no nosso país, como o Magestic, a Brasileira e o Nicola. Mas a esmagadora maioria dos Cafés históricos, berços da liberdade e da democracia, desapareceram já, na voragem do capitalismo e na rasoira boçal do imperante neo-liberalismo, a que a globalização deu uma expressão de impiedade cultural e de predominante ignorância.
Nos últimos decénios do século passado surgiram novos cafés, mais pequenos e mais simples, consentâneos com a sociedade em que vivemos, apressada, frenética e instável, por isso mesmo mais individualista e menos convivente. O Café Hélice, na Avenida 5 de Outubro, é um exemplo dos cafés da nova vaga. Pela sua despretensiosa aparência estética e sóbrio conforto, depressa se tornou num ponto de encontro a cujas mesas se costumam acolher cidadãos da classe média, que moram ou trabalham nas imediações, especialmente professores e estudantes, funcionários públicos, bancários, engenheiros, advogados, empresários, enfim, toda uma panóplia social ilustrativa dos tempos hodiernos.
Entre os seus frequentadores diários distinguia-se o eng.º Tito Olívio, morador num prédio fronteiro, que não raras vezes ali se reunia, no final do dia, com professores e outros cidadãos, interessados em discutir e reflectir sobre os problemas da cultura, da arte, do património histórico, e sobretudo da literatura, sendo que a alguns era a poesia que os atraía ao convívio. Tudo terá começado em Maio de 1997, quando Tito Olívio pensou, juntamente com Fonseca Domingos e Diamantino Barriga, que eram os mais assíduos, em reunirem-se semanalmente com outros poetas para analisarem o que cada um produzia, fazendo críticas construtivas, ajudando a melhorar as deficiências de estrutura formal ou de construção semântica, que não raras vezes os impediam de concluir com ilustração e beleza os seus poemas. Depressa o grupo cresceu, não só em quantidade como também em qualidade intelectual e em diversidade artística. Aos três poetas fundadores juntaram-se prosadores, jornalistas, ensaístas, músicos, pintores e até cantores, numa espécie de sociedade de autores da cultura farense. Enquanto uns iam ficando, marcando presença assídua e semanal, outros só esporadicamente voltavam para obter um conselho, uma crítica, uma ajuda pontual para remover dúvidas estéticas ou deficiências formais na construção das suas composições líricas.
Em torno de uma “bica”, de um chá ou de um galão com torradas, surgiu um salutar convívio entre homens e mulheres cultores de Orfeu, de diferentes idades e níveis de instrução, desenvolvendo pretextos para a reflexão intelectual sobre a dimensão estética da vida. Formou-se assim uma espécie de cenáculo, no qual pontifica ainda hoje a figura de Tito Olívio, não pelo seu natural protagonismo intelectual, mas muito especialmente pela sua bondade, pela sua generosidade e, sobretudo, pela sua disponibilidade para incentivar os poetas e para implementar iniciativas que promovem e divulgam as obras daqueles que ainda não obtiveram o justo reconhecimento do público. O grupo, cada vez mais numeroso, carecia de algo que o identificasse, que lhe desse nome, porque nascido à luz da liberdade rejeitava a formulação de estatutos ou de vínculos que o prendesse à sociedade civil e à organização política. A única regra a que aqueles tertulianos se comprometeram obedecer é a da tolerância, e do respeito mútuo no direito à diferença, tanto nas divergências políticas como nos credos religiosos.
A vida é um círculo em perpétuo movimento, cuja aceleração depende da vontade moral e da criatividade intelectual. Daí a ideia de adoptar a Hélice, que decora e dá o nome ao próprio café, como símbolo e designação mais apropriada para aquele grupo de poetas, de prosadores e artistas. Quando em Janeiro de 1998 nasceu a AJEA – Associação de Jornalistas e Escritores Algarvios, logo se lhe juntaram os fundadores da Tertúlia Hélice, cujo grupo passou a constituir-se numa espécie de núcleo dinamizador das actividades daquela agremiação no seio da sociedade farense.
Lembro aqui, a título de curiosidade, alguns dos autores com quem convivi a partir de 1998, quando tive o privilégio de me juntar à Tertúlia Hélice. Desde logo os que já desapareceram, todos talentosos poetas, como o genial Fonseca Domingos, o irreverente Vivaldo Beldade, a meiga e carinhosa Quina Faleiro e o apaixonado Hélder Azevedo - espírito notável de artista, poeta e prosador, cuja vida dava um romance. Mas outros que os acompanharam ou que lhes seguiram as pisadas, permanecem estoicamente na Tertúlia Hélice, tercendo armas pelo desenvolvimento da cultura algarvia. Destaco o Manuel Cardoso, poeta, músico e cronista, na sua escrita barroca, ilustrada, cuidada e perfeccionista, revela-se a nobreza do seu cavalheirismo e do seu raro polimento social. O Diamantino Barriga, poeta e quadrista de inspiração naturalista, generoso, fraterno e de bondosíssimo coração, uma alma de eleição já hoje difícil de encontrar na nossa sociedade. Igualmente bondosa é a Romana Rosa, poetisa de invulgar criatividade, que escreveu em prosa e verso belos livros para as crianças, procurando sempre incutir no espírito dos jovens a mesma generosa fraternidade com que ela sempre pautou a sua vida. A poetisa Manuela Odete, sempre atenta às questões ambientais e à solidariedade social, temas em que se tem inspirado para a composição dos seus belos sonetos. O mesmo acontece com a Célia Roque, mulher sofredora, castigada pelos desgostos da vida, que procurou na poesia o acolhedor refúgio para as suas mágoas. A Lília Bárbara cuja obra poética tem escapado aos elogios da crítica, mas que é sem favor um dos mais seguros valores da literatura algarvia. O mesmo acontece com o Ferradeira de Brito, poeta, dramaturgo, letrista e compositor, de quem há pouco apresentei 20 livros de uma assentada, atingindo certamente um recorde digno de figurar nos anais do Guiness.
Entre as poetisas da Tertúlia, merece destaque especial a Glória Duarte Marreiros, detentora de vasta obra poética, muito elogiada pela crítica e justamente asseverada pelos galardões literários que tem arrebatado nos últimos anos. Os sonetos da Glória são verdadeiras sinfonias de expressividade poética, em que a paixão e a mágoa se juntam num sincero amplexo de sentimentos e emoções. Entre as frequentadoras mais assíduas, distingue-se não só pelos seus dotes de inteligência e de fecunda originalidade literária, como ainda pelo seu maternal carinho, a Ilda Costa. Uma verdadeira dama, há muito aposentada das suas funções de criativa da alta moda parisiense, dedicando-se hoje à pintura e, sobretudo, à poesia, com invulgar e engenhoso talento, cabendo-me a honra de ter prefaciado o seu livro de estreia. Outra das figuras que inicialmente marcava posição distinta no seio da tertúlia era a Manuela Saraiva, senhora muito educada, de belos traços femininos, com laivos de uma nobreza genuína, que veio para Faro quando a transportadora aérea nacional aqui abriu os seus escritórios. Tinha sempre a palavra certa para a crítica mais sincera e exigente, por vezes com uma mordacidade desarmante. Por fim, a Maria Margarida, a nossa eloquente diseuse, senhora do mais fino quilate social, professora aposentada, possuidora duma prodigiosa capacidade de memorização, o que lhe permite decorar e declamar um poema em poucos minutos. A sua elegante presença física, associada à mais moderna indumentária parisiense, faz dela proeminente figura nos recitais de poesia promovidos pela AJEA, onde consegue arrebatar do pública as mais estrondosas ovações.
Entre os mais recentes frequentadores da Tertúlia Hélice merecem especial destaque o Francisco Alexandre, o François Blanc e o Telmoro. O primeiro é professor e poeta, muito inteligente, bastante culto e perseverante estudioso das civilizações clássicas, autêntico exegeta das profecias e do misticismo bíblico, que discute e analisa com a mais persuasiva eloquência. O segundo é um médico francês, muito culto e generoso, verdadeiro andarilho do mundo latino-americano, dedicando-se à investigação criterioso da medicina andina. Apaixonado pela cultura lusíada, que estudou com profundidade e rigor científico, aqui veio aportar, escolhendo o Algarve e a cidade de Tavira como reduto natural para a sua inspiração poética. Possui vasta obra literária, consagrada internacionalmente pela crítica da especialidade. Por fim, um destaque muito pafrticular para o poeta Telmoro, espírito dos mais criativos e talentosos que conheço no Algarve, um verdadeiro humanista à imagem do seu Mestre e mentor literário, Tito Olívio, que o lançou no mundo das letras algarvias. É dos raros poetas que compõe em várias línguas, espanhol, italiano, francês e inglês, um autêntico poliglota, que escreve e canta as suas próprias canções. Alguns dos seus poemas foram musicados, cantados e editados em dois CDs por Alberto Carlos, um artista que também frequentou a Terlúlia Hélice até atingir a merecida consagração, sendo hoje considerado como um dos mais distintos e requisitados cantores das casas de fados sedeadas no Algarve.
Não querendo esquecer-me de ninguém, aqui presto também a minha homenagem à Rosinda Vargues e ao Luciano, seu marido, ela cantora, ele compositor e instrumentista, que têm participado na apresentação de livros editados pela AJEA, cantado belíssimas canções com poemas de Tito Olívio, de Telmoro, de Ferradeira e Brito e até de Vitória Rodama, que é a mais recente e promissora poetisa da Tertúlia.
Para terminar, impõe-se acrescentar que considero esta Antologia como uma breve amostra do talento poético e da qualidade literária dos seus intervenientes. Convém frisar, entre muitos outros aspectos reveladores da sua genuína criatividade poética, que quase todos eles têm obra publicada em letra de forma, sendo certo que alguns possuem vários prémios que atestam o reconhecimento público das suas obras. No seio deste diversificado grupo de poetas, prosadores e artistas, justifica-se que, em nome de todos, aqui deixe uma palavra de apreço e de muita gratidão para com o poeta Tito Olívio, alma-mater da Tertúlia Hélice e da maioria das actividades culturais realizadas pela AJEA, da qual é, sem favor nem exagero, a principal figura. A sua natural generosidade tem-no levado a erguer aos ombros muitos poetas que, pela sua gigantesca sombra, nunca veriam brilhar a luz do sol. A publicação desta Antologia é mais uma prova da sua capacidade de iniciativa e da sua dedicação fraternal a todos quantos frequentam a Tertúlia Hélice.
Como os últimos são os primeiros, termino com uma menção de gratidão para com a Vitória Rodama, a cuja abnegação e espírito de iniciativa se deve o patrocínio financeiro desta Antologia.

Prefácio ao livro Antologia Poética da Tertúlia Hélice

domingo, 1 de novembro de 2009

A família Lã, e o seu palácio em Faro


Uma das perguntas que há tempos um dos meus alunos me colocou, foi a de saber se eu tinha conhecido o Palácio Lã em Faro. Isso fez com que me lembrasse de reunir alguns apontamentos que tenho em fichas, mal ordenadas e já hoje quase por mim esquecidas, sobre algarvios notáveis. Vejamos o que possuo sobre o assunto.
Quem construiu a residência apalaçada da família Lã, demolida no princípio dos anos oitenta do século passado para no seu lugar se erguer o actual Edifício Tridente, foi o sr. Modesto Gomes Reis, proprietário do renque de habitações que no lado fronteiro ocupavam o quarteirão de fogos operários e armazéns industriais.
Essa casa, de traço e decoração sevilhana, mandara-a construir o Modesto Reis para sua própria residência, numa clara afirmação do seu sucesso empresarial e do seu poder económico. Os meios de fortuna de que dispunha, em significativa abundância, provinham das suas fábricas de fiação, de algodão e linho, concentradas no quarteirão que se estendia desde o local onde actualmente se encontra o edifício da Região de Turismo até ao cruzamento com a rua Bernardo de Passos, de acesso ao Jardim João de Deus, vulgo da Alameda.
É de realçar que para se construir o Liceu de Faro, edifício que constitui hoje a Escola Tomás Cabreira, houve que contar com a benemerência do Modesto Reis, para a cedência de algumas casas e terrenos actualmente integrantes daquele amplo complexo educativo.
Importa desde já acrescentar que o Modesto Reis era de origens espanholas, creio que de famílias da Andaluzia, o que não é para admirar, pois grande parte da indústria algarvia dos meados do séc. XIX foi aqui implantada por espanhóis, sobretudo das terras meridionais. Ao que sei, era parco de instrução, faltava-lhe polimento e finura de trato, tinha atitudes rudes e gestos boçais. Em contrapartida, era esforçado no trabalho e muito persistente nos negócios, apesar de desconfiado e ardiloso. Tinha espírito criativo e empreendedor. Desdenhava dos burgueses ricos a quem chamava de “finórios” e tinha verdadeiro asco aos argentários, a quem chamava de “sanguessugas”.
O Modesto tinha três filhas, que segundo consta eram bonitas e muito prazenteiras, as quais se integraram muito bem na sociedade. Além de simpáticas eram apreciadoras da música e da poesia, causando assolapadas paixões entre os cultores de Orfeu...
Casaram as três com algarvios, que formaram respeitáveis famílias na sociedade do seu tempo. Porém, mais tarde, com a morte do Modesto Gomes Reis, as filhas herdaram os imóveis e as indústrias, que, por razões várias, sobretudo por vicissitudes externas, tiveram de vender ao empresário João Francisco Lã, creio que natural dos arredores de Lisboa, oriundo de uma família de comerciantes com negócios e relações no Algarve.
Foi esta família Lã quem comprou a vivenda do Modesto Reis, que após alguns melhoramentos a transformou naquilo a que o vulgo chamou de “Palácio Lã”. Mas este empresário era também aquilo a que em Lisboa se chamava um novo-rico, ou seja, alguém que enriquecera à custa das novas oportunidades suscitadas pelas alterações políticas do novo regime republicano. Quem o conheceu dizia que não era menos rude do que o Modesto Reis, pelo que o velho palácio em estilo neo-islâmico continuava a ser residência de príncipes... do dinheiro.
A origem da fortuna dos Lã enraizava-se no negócio de importação e exportação de produtos alimentares e de primeira necessidade, especialmente de café, açúcar, cereais e leguminosas, trigo, cevada, aveia, feijão e grão, além de frutos secos, amêndoa, figo, vinhos e aguardentes. Mas foi a transformação industrial do azeite e da alfarroba que mais lucros lhes proporcionaram. Era no Largo do Carmo, na esquina com a rua da Fonte do Bispo, que se situavam as mercearias e armazéns de venda, por grosso e a retalho, da família Lã. As indústrias, os lagares e destilarias, continuavam a ocupar os quarteirões iniciais da actual avenida 5 de Outubro. Nos finais dos anos setenta, que foi quando vim morar para a Rua Eça de Queirós, conheci não só as velhas instalações industriais como ainda os bairros onde residiam ainda muitos dos antigos operários.
A título de curiosidade, faço aqui lembrar que quando o general Carmona efectuou a primeira das duas visitas presidências que realizou ao Algarve, ficou instalado no edifício do Departamento Marítimo do Sul, pouco depois devolvido à Igreja para nele ser reinstalado o Paço Episcopal; mas alguns dos ministros e membros da sua comitiva oficial instalaram-se na majestosa residência que o vulgo designava por “Palácio Lã”. Nessa altura, foram tão magnificamente recebidos e tratados pela família anfitriã, que o governo, com a anuência do próprio Presidente Óscar Carmona, decidiu agraciar o João Francisco Lã com o grau de Cavaleiro de uma ordem militar, creio que de Cristo, pelo que o vulgo, com a subserviente deferência da época, passou a tratá-lo por “Senhor Comendador”.
Em abono da verdade, devemos afirmar que a Família Lã obteve grande notoriedade na sociedade farense, sobretudo nas décadas de trinta até sessenta do século XX, devido à projecção empresarial dos seus negócios. Por isso se compreende que alguns dos seus membros tenham sido convidados a desempenhar alguns cargos públicos importantes, nomeadamente na autarquia farense e nos grémios associativos relacionados com o comércio e a indústria. Um dos seus filhos, José Francisco Lã, desenvolveu uma grande paixão pela aviação, tornando-se amigo muito dedicado dos principais pilotos aviadores da aeronáutica civil e militar do seu tempo. Digamos que durante quarenta anos o “Lã Aviador” foi não só um pioneiro da aviação no Algarve, como ainda o seu maior impulsionador, divulgando iniciativas nacionais e internacionais, criando um clube de aviadores e recrutando instrutores para o ensino da pilotagem aérea. Ao seu esforço se ficou ainda devendo construção de uma pista improvisada no sítio da Meia Légua para a aterragem de pequenas aeronaves. Nessa pista chegou a aterrar, mais do que uma vez, o seu íntimo amigo General Humberto Delgado que na sua casa era sempre recebido da forma mais efusiva e entusiástica.
Os algarvios, na sua acirrada e, por vezes, inconveniente ironia, apelidavam jocosamente o José Francisco Lã como “Ministro do Ar”, epíteto que, aliás, não lhe passava desapercebido. Era natural da Fuzeta, e faleceu em Maio de 1975, com 73 anos de idade. Os seus dois filhos foram igualmente importantes cidadãos: Maria da Encarnação Silveira Lã Fernandes Correia, foi uma notável Inspectora do Instituto de Oncologia, e o José Silveira Lã, foi um competente e muito dedicado funcionário da Comissão Regional de Turismo do Algarve.
Foi o último do clã, porque o seu irmão mais velho, João Francisco Lã Júnior, o grande impulsionador dos negócios herdados do patriarca da família, morrera em Faro, vinte anos antes, a 5-10-1954, com 60 anos de idade, depois de umas férias de intensa pesca desportiva na vila de Sagres, de onde regressara bastante doente. Dotado de um apurado sentido empreendedor e de grande inteligência, expandiu os negócios que do pai herdara, tornando-se num dos mais prestigiados comerciantes da praça de Faro, com capital investido em diversas firmas algarvias, o que lhe permitia manter interesses financeiros em diversos sectores ao mesmo tempo. Em todo o caso era no mercado das hortícolas, dos frutos secos, azeites, vinhos e cortiças, que mais se evidenciou, mantendo avultados negócios no estrangeiro. As suas relações internacionais com diversos países europeus e com as nossas antigas colónias permitiram-lhe dispor de meios financeiros capazes de se tornar num dos homens mais ricos do Algarve. O prestígio de que gozava entre os seus pares valeu-lhe a eleição para Presidente do Grémio dos Exportadores de Frutos e Produtos Hortícolas do Algarve. Além disso desempenhava as honrosas funções de director-tesoureiro da Caixa de Abono de Família do distrito de Faro.
Por fim, o seu primo, António Lã, natural de Mira d’Aire, e notável armazenista de mercearias em Faro, que desempenhara vários cargos públicos, nomeadamente em 1934 na vereação municipal, e, mais tarde, na Comissão Municipal de Turismo, onde se manteve muitos anos, viria a falecer, também nesta cidade, em Agosto de 1974, com 69 anos de idade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Monografismo Algarvio - O pioneirismo de Ataíde Oliveira

Este artigo corresponde a uma conferência pronunciada na Biblioteca Municipal de Loulé a 30 de Novembro de 2005,aquando das comemorações do 90.º aniversário do falecimento do Dr. Francisco Xavier de Ataíde Oliveira. O texto, depois de melhorado, foi publicado na revista Al-Ulyà, órgão científico do Arquivo Municipal de Loulé, cuja edição sai a público sob a chancela da respectiva edilidade.
O leitor interessado poderá ler o texto neste blog, ou fazer o seu download para posterior utilização.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Da Extinção à Restauração do concelho de Aljezur nos finais do séc. XIX

O antigo ordenamento administrativo português tornara-se, no decurso dos séculos, numa imbricada confusão de concelhos, vilas coutos e honras, a que ninguém ousava pôr cobro. Era uma herança da História que só uma revolução das mentalidades, como aquela que resultaria da vitória liberal em 1834, poderia alterar. Esse foi um princípio de honra e compromisso político do novo regime. Teorizada por José Henriques Nogueira, esboçado por Mouzinho da Silveira mas levada à prática por Manuel da Silva Passos, a Reforma Administrativa exarada no decreto de 6-11-1836 exterminou os coutos da Igreja, as vilas e honras da Nobreza, e reduziu a menos de metade os concelhos então existentes. Não vamos agora dissecar o assunto. Em todo o caso, para se fazer uma ideia do seu profundo alcance, bastará dizer que dos 816 concelhos então existentes apenas se mantiveram 351, dos quais o Algarve foi uma pseudo-vítima. Na verdade, dos 17 concelhos que o Algarve possuía apenas se extinguiram quatro, a saber: Alvor, Sagres, Aljezur e Castro Marim. Das suas 68 freguesias reduziram-se-lhe duas: N.ª S.ª do Verde, em Monchique, e S. João da Venda, em Faro, a qual se restabeleceria em 1842, mas no concelho de Loulé. Com Aljezur passou-se algo inusitado, pois que estando previsto fundir-se no concelho de Lagos acabaria por ser anexado a Monchique, o que causava grandes transtornos aos seus moradores. 

sábado, 17 de outubro de 2009

A localização do aeroporto de Faro, escolhida em 1945 por Humberto Delgado

J. C. Vilhena Mesquita

Em Janeiros de 1945 o então governador civil de Faro, Dr. Antero Cabral, reuniu-se em Lisboa no Secretariado de Aeronáutica Civil, dirigido pelo então tenente-coronel Humberto Delgado, cujos estudos realizados nos EUA na área da sua especialidade lhe proporcionaram a precoce promoção a general, tornando-se no mais jovem caudilho militar da Europa. Todos o conhecemos hoje no proscénio da História como o “general sem medo”, pela sua audaciosa candidatura à presidência da República em 1958, cuja derrota eleitoral, fabricada pelos esbirros do regime, o transformaram num proscrito e três anos depois no celebérrimo sacrificado da sanha fascista, assassinado numa emboscada da PIDE.
Mas em 1945 era ainda um delfim do regime salazarista e um promissor quadro da Aeronáutica Civil, cujo futuro político ninguém imaginava tão transviado. Nessa sua reunião com o Governador Civil de Faro, confidenciou-lhe que estavam a realizar-se importantes estudos no sentido de dotar a cidade de Faro com um grande aeródromo de carácter internacional. Conforme estudos prévios, deveria ser construído nos vastos terrenos da Arábia, situados na actual freguesia do Montenegro, local esse onde já costumavam aterrar alguns aviões, naturalmente pequenos e de origem militar. Cumpria-se assim uma das promessas proferidas no seu acto de posse como director do Secretariado de Aeronáutica Civil, ou seja, a construção de aeródromos em cidades estratégicas do país, para servir a defesa militar e o desenvolvimento económico das regiões do interior.
O Governador Civil de Faro, que era um homem sério e bastante ponderado, ficou muito impressionado com a presença de espírito e capacidade de trabalho do tenente-coronel Humberto Delgado, dedicando-lhe, em conversas privadas no Café Aliança, os mais rasgados elogios. Aliás, em declarações à imprensa local o Dr. Antero Cabral afirmaria: “O sr. Tenente-coronel Humberto Delgado, ilustre e grande amigo do Algarve que por várias vezes tem visitado, pessoa de raro dinamismo, cuja acção todo o país está acompanhando com o mais decidido interesse, cumpre desta forma a promessa que fizera no seu discurso de posse.”
Na verdade, um mês depois dessa reunião, o Governador Civil de Faro recebeu a 12-2-1945 um telegrama do director do Secretariado da Aeronáutica Civil, comunicando-lhe ter sido aprovada a construção dum campo de aviação no sítio da Arábia, concelho de Faro, a fim de dotar o sul do país de ligações aérea internacionais. No mesmo telegrama se informa que foram solicitados ao Ministério das Obras Públicas e Comunicações a elaboração do respectivo projecto para poder avançar rapidamente com a sua construção.
Em Fevereiro de 1946 o Gabinete Técnico dos Aeródromos Civis, informou o Governo Civil que se encontrava quase concluído o projecto de construção do campo de aviação no sítio da Arábia. Por sua vez, o governo reconhecendo o interesse público de um aeródromo em Faro, aprovou o decreto-lei n.º 36067 de 30-12-1946, através do qual a Câmara Municipal passaria a liderar o processo de expropriação dos terrenos e execução das obras de construção daquele equipamento, na parte aplicável ao dec. Lei n.º 28797 de 1-7-1938 com as alterações constantes no decreto n.º 35831 de 27-8-1946. Foram estes os documentos oficiais que deram ao município a autoridade de partir para a expropriação ou aquisição dos terrenos tendentes à construção do aeródromo. Mas factores de ordem económica e muita burocracia à mistura, forçaram o atraso das obras. Com o decorrer do tempo e o desenvolvimento da aviação comercial, revelou-se o turismo num sector a privilegiar, razão pela qual entendeu o governo que o aeródromo de Faro se deveria transformar num aeroporto internacional, equipamento de estrutural importância para o desenvolvimento económico do Algarve, o qual cujas obras estariam definitivamente concluídas em 1965. A sua inauguração efectuou-se com toda a pompa e circunstância, mas isso será objecto de análise numa “nótula” posterior.

Humberto Delgado, envolvido numa capa oferecida por um estudante, discursando junto ao monumento a Carvalho Araujo, durante a sua campanha eleitoral, na cidade de Vila Real, em 22 Maio de 1958

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Remexido e a Resistência Miguelista no Algarve

Desenvolvida análise do trajecto de vida de José Joaquim de Sousa Reis, vulgo o Remexido, não só como heróico guerrilheiro miguelista, mas também como cidadão, como político local e como militar. Artigo científico sobre a acção político-militar de José Joaquim de Sousa Reis, herói popular que o vulgo designava por Remexido, famoso guerrilheiro que sustentou a causa miguelista até ao fim do período histórico conhecido por Setembrimo. Foi, e ainda é, uma das mais carismáticas figuras da história regional algarvia, retratado em diversas obras da literatura portuguesa, desde o séc. XIX até à actualidade.
O leitor interessado pode ler ou fazer o dowload, em formato PDF, deste trabalho publicado da revista «Al-'Ulyà», editada pelo Arquivo Municipal de Loulé. A sua leitura pode ser proveitosa até mesmo para os que se sentem menos familiarizados com a temático das Lutas Liberais no nosso país.

História das Pescas em Tavira no século XIX

Devido à riqueza piscícola das águas algarvias e ao fomento da pesca pelas artes fixas, sem esquecer os privilégios reais que andavam adstritos aos seus Compromissos Marítimos, acentuou-se nesta região a actividade piscatória, com visível relevo a partir da política de fomento levada a cabo pelo Marquês de Pombal. A fundação de companhias de pesca facilitou a sobrevivência económica da classe marítima, gerando-se por sua consequência o aumento da produção e captura do pescado, com particular incidência na sardinha e no atum, do que resultaria, inclusivamente, o povoamento de algumas praias sotaventinas, como, por exemplo, Cabanas e Santa Luzia, ambas em Tavira, Fuseta e Olhão, cujos habitantes se empregavam afanosamente nas pescarias de longo curso, nomeadamente nos mares de Larache. E foi a intensificação da pesca na costa africana que acelerou as migrações sazonais dos marítimos algarvios.
A pesca e os seus avultados rendimentos marcaram decisivamente toda a História do Algarve, desde os tempos mais remotos até ao presente, com particular acento no início da política pombalina, que fez do sotavento e da foz do Guadiana o seu principal centro de polarização económica. A concentração demográfica na faixa litoral explica-se, quase exclusivamente pela riqueza e afabilidade destas águas, em cujos portos fundeavam embarcações oriundas dos mais variados quadrantes do globo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A JUVENTUDE e a EDUCAÇÃO – da política da cigarra ao sacrifício da formiga


José Carlos Vilhena Mesquita

O conceito de Juventude, pela sua complexidade psico-fisiológica, é muito vasto e de difíceis contornos. Porém, é hoje consensual que o seu escalão etário oscila entre os 15 e os 24 anos, qualquer que seja o estatuto social, religioso e cultural em que se insere. Num cômputo universal o espectro etário da juventude está avaliado em 1092 milhões de pessoas, metade das quais já constituíram família ou estarão prestes a mudar de estatuto social. A maioria desses jovens vive em países subdesenvolvidos, inseridos na esfera de influência económica do chamado terceiro-mundo. Vivem em zonas rurais, com particular incidência na África, a sul do Saara, no sudoeste asiático e na Oceânia. Neste espectro humano cerca de 65 milhões do sexo masculino e 106 do feminino não sabem ler nem escrever, e pertencem a países pobres. Acresce a esta estimativa cerca de 95 milhões de jovens desempregados, sendo certo que em todo o mundo as taxas de desemprego entre os jovens é duas vezes superior à dos adultos.
Em Portugal cerca de 80% da população possui a educação básica e só a restante ascende aos níveis superiores de instrução especializada. A percentagem respeitante ao sector da Juventude ronda os 30% da população residente, a maioria dos quais ocupados nos diversos sectores produtivos. Uma minoria dessa percentagem termina a sua fase de juventude nos bancos das universidades. Com efeito, 70% da população portuguesa com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos possui a instrução básica. Note-se que a escolaridade obrigatória estabelece-se desde o ensino primário até ao 9.º ano, passando a prescindir dessa obrigatoriedade a partir dos 15 anos, traduzindo-se a experiência dos últimos anos numa escala sempre crescente de incomplementaridade das expectativas nacionais de formação mínima educativa.

A política da paixão socialista

Nestes últimos anos, os governos elegeram a educação como prioridade máxima nacional, propagandeando mesmo uma espécie de “paixão política” que marcaria o sentido nacional e os Orçamentos Gerais do Estado. Se efectivamente consistiu num investimento ou num simples processo de aplicação financeira, acumulador do índice da despesa nacional, é o que veremos na próxima década, sendo minha convicção que a verdade deverá encontrar-se a meio caminho das expectativas criadas pela máquina da propaganda nacional. Contudo, muito se irá alterar com a suposta panaceia de Bolonha, que, não melhorando o ensino nem desenvolvendo a ciência, terá certamente o positivo desfecho de poupar ao Estado muitos dos milhões de euros que até agora investia na Educação. Esperemos que as propinas baixem 25% do seu valor actual, porque é nessa percentagem que vai diminuir o tempo de frequência nas licenciaturas.
O grande defeito do actual processo de educação nacional está na estratégia de avaliação das expectativas gerais, que infelizmente se nivela pelos mais baixos índices, o que forçosamente cavará um fosso cada vez maior entre as camadas instruídas e a mediocridade, à qual sobeja mesmo a mais elementar consciência cívica. O problema agudizou-se quando a mediocridade impante se aventurou à conquista dos partidos políticos, infiltrando-se nas chefias para sub-repticiamente empalmar o poder. Aquilo a que chamo a mediocridade aventureira expulsou da senda política e das esferas do poder os homens de bem, os mais instruídos e melhor intencionados, os mais honrados, impolutos e desinteressados das sinecuras da governança.
O exemplo do Ministério da Educação é paradigmático. Instalaram-se nos diversos gabinetes daquele Ministério uma clique de funcionários, especializados em Ciências da Educação e “coisas” afins, de que foi particular exemplo o Prof. Marçal Grilo, que foi quem no último quarto de século timonou a nau educativa da nação portuguesa. Os resultados estão à vista, mas parece que não têm sido os mais animadores. É o que acontece quando se misturam os interesses partidários com os interesses da Nação, e os rasteiros valores da política com a suprema grandeza da Ciência.

A educação auto-sustentada e a instrução popular

Pela experiência acumulada, nos mais de vinte anos que dedico à docência universitária, constato que raros são os alunos que leram integralmente uma obra de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queirós, de Vitorino Nemésio ou de Jorge de Sena. Quando muito ouviram falar desses autores ou leram deles alguns textos, breves e parcelares, ficando na total ignorância em relação às suas obras.
Urge pois proceder à alfabetização cultural da nação portuguesa, não só através duma educação auto-sustentada, como principalmente dum programa nacional de instrução das massas laborais, urbanas e rurais. O processo educativo deve contemplar não só os jovens estudantes, como também as classes etárias intermédias ou produtivas. Aos desempregados deverá ser dada prioridade num programa de formação intelectual e de reaprendizagem da vida produtiva. Aos idosos deverá ser franqueada a entrada nas universidades para obterem cursos reais e efectivos, e não apenas a simples ocupação dos tempos livres nas designadas Universidades da Terceira Idade.
É fácil incutir não só nos jovens como nas classes adultas uma educação autodidáctica, estribada na observação e na análise superficial, a qual poderá vir a ser consolidada por um acompanhamento de leituras educativas a preços controlados e acessíveis. O Estado precisa de optar urgentemente por uma política do Livro, que facilite a edição a baixo custo e proporcione o consumo e a popularização da leitura. Daqui resultará uma política de defesa e valorização da língua portuguesa, uma divulgação e fomento da leitura pelo prazer da descoberta autodidáctica dos grandes valores da literatura nacional.
Em paralelo impõe-se uma política de familiarização dos estudantes e da classe média com a música, com a herança etnográfica do nosso património etnomusical, das danças e cantares, dos instrumentos e dos sons. Por outro lado, parece-me implícita a educação da preservação dos valores identificativos, como é o caso do património histórico, arquitectónico, artístico e cultural. A preservação e fruição dessa riqueza nacional não devem ser pertença exclusiva dos mais instruídos, mas antes da população em geral, através de uma política de divulgação e, vamos lá, do incentivo ao orgulho de ser português, na justa proporção do nosso contributo universal e da nossa rudimentar inserção europeia.

A gestão das prioridades

A viabilização deste programa de articulação da Cultura com a Educação deverá ser um dos prioritários objectivos do Estado. A “gestão das prioridades” em que se deve articular essa relação Cultura/Educação é que se tornará no principal papel do Estado, em sintonia com os poderes locais e com as Organizações Não Governamentais. Há, talvez, que voltar a recuperar o que é genuíno – não o que é fundamental – o que é caracteristicamente lusíada e tudo aquilo que constituem valores clássicos do humanismo ocidental, sem contudo marginalizar as vanguardas experimentais que optam por outras vias de criação, não divergente nem contrárias aos interesses gerais. Errado seria ver no vanguardismo a prioridade nacional em nome da livre criação artística e do subsídio-dependentismo, o qual forçosamente resultará em detrimento dos objectivos globais da educação, os quais julgamos que devem embasar numa solidez intelectual construída a partir da leitura dos autores e das obras em que se consubstanciou, ao longo dos séculos, a cultura portuguesa.
É preferível nas idades de formação intelectual ler Bernardim Ribeiro, Camões ou Cesário Verde, do que os poetas e escritores simbolistas, modernistas, surrealistas ou existencialistas, cujo discernimento socio-filosófico só se poderá aquilatar depois de adquirida uma sólida cultura geral. Nessa altura a descoberta dos movimentos vanguardistas tornar-se-à mais positiva e mais inteligível para o leitor, pois que está mais receptivo à aquisição da diferença e da mudança.
Nas escolas é preciso induzir os jovens à leitura sem que isso constitua necessariamente uma obrigação ou um parâmetro de avaliação exclusiva, o qual se deverá basear na liberdade de opção e de auto-análise. O aluno conforme a sua classe etária deverá ler quatro a cinco obras, de prosa ou de poesia por ano, para ir consolidando a sua instrução auto-sustentada. O recurso à memorização dos factos históricos, das regras gramaticais, dos basilares teoremas matemáticos e de certas fórmulas químicas, tem de ser exigido através duma maior responsabilização do aluno. As exigências de trabalho, de sacrifício e de competência, assim como as penalizações e reprovações terão de ser restabelecidas sem receio de atingirem índices elevados, de forma a criarmos novas gerações de excelência e de inquestionável responsabilidade cívica.

A defesa da língua e o combate à iliteracia

A forma pouco polida, descuidada, agressiva e despudorada como se tem usado a língua portuguesa, nomeadamente nos meios de comunicação social, quer por parte dos jornalistas, quer por parte dos artistas, escritores e políticos, é sintoma da nossa crescente iliteracia e da nossa progressiva insuficiência intelectual. Essa imagem de incompetência no elementar uso da linguagem tem contribuído em larga escala para o rebaixamento dos níveis de qualidade e de erudita aplicação da comunicação integrada. Cada vez mais se desvaloriza e se corrompe a língua portuguesa, através da introdução de estrangeirismos e de descabidos neologismos.
O regular ordenamento da expressão oral e, sobretudo, a exigente composição da escrita, contribuirá para o aperfeiçoamento do diálogo, da erudição e da respeitabilidade social. Só através do correcto uso da capacidade de expressão é que se poderá explanar a superioridade do pensamento. Pensa melhor quem traduz melhor, ou seja, as ideias poderão ser tanto ou melhor adquiridas quanto mais esclarecida e cristalina se tornar a comunicação. Para isso urge aperfeiçoar as capacidades de escrita nas classes estudantis. Isso adquire-se e entranha-se através da leitura que melhor se adapta ao seu nível etário e intelectual.
Lembro-me que no passado houve tentativas de popularização da cultura e da instrução através da edição de livros a baixo preço, com um discurso acessível, sintetizado e explícito. Foram disso exemplo a «Colecção Cosmos» e os «Cadernos da Seara Nova». Através deles aprenderam gerações de portugueses sem recursos financeiros para ocuparem os bancos universitários. O esforço de Bento de Jesus Caraça é paradigma desse programa de autodidactismo das classes trabalhadoras. Também por esse caminho fizeram ligeiras incursões alguns espíritos superiores como António Sérgio, Jaime Cortesão, Raul Proença e outros “searistas” ou “presencistas”.
O que acontece actualmente é que os alunos quando chegam às Universidades têem uma propensão natural para o generalismo, pois que assim foram treinados nos anos anteriores, com recurso ao ensino das línguas, da Filosofia, das Humanidades e das Ciências Exactas. O seu intelecto mostra-se disposto a derramar a atenção por várias matérias. Porém, na Universidade é logo conduzido para a focalização científica, para a especialização e para o particularismo. Desse modo contrai-se a sua avidez de aprendizagem, secciona-se e fulcraliza-se a sua formação científica em aspectos exclusivamente relacionados com a sua área de formação. Daí que os cursos das chamadas Ciências Exactas ou das Ciências Experimentais não optem por uma formação mais abrangente, no sentido de acompanharem a acumulação de conhecimentos com a sua integração e explicação no tempo social, no tempo político e no tempo cultural.
O desfasamento entre o ensino secundário e universitário é abissal. Contudo, nota-se hoje uma crescente aproximação do topo para a base. Parece-me que deveria ser ao contrário. Mais grave ainda é o nível cultural das licenciaturas antigas para as novas licenciaturas, que sendo cada vez maior só tem conduzido ao abaixamento da qualidade científica e das exigências de competência profissional. Com a reforma de Bolonha tudo se resumirá à queda da fasquia da qualidade, da exigência e da competência, numa rasoira da sumidade e numa entronização da mediocridade intra-europeia. Quem se vai aproveitar disso é o Reino Unido e os Estados Unidos da América, que assim irão superiorizar-se ao nosso baixo nível científico e à nossa inferior qualidade académica. Dantes era-mos pobres mas cultos, agora vamos continuar a ser pobres, mas cada vez mais ignorantes.

sábado, 26 de setembro de 2009

Breve Ensaio Etno-Económico sobre o Algarve - homenagem ao Prof. Viegas Guerreiro

O Algarve na primeira metade deste século mantinha uma estrutura económica muito semelhante à do século passado. Quer isto dizer que os alicerces da sua economia regional permaneciam ainda assentes na agricultura, na pesca e indústria conserveira, no pequeno comércio e na manufactura artesanal. Todavia, a escassez dos recursos hidrográficos e as descontinuidades geomorfológicas, que numa espécie de anfiteatro decrescem de Norte para Sul, geraram assimetrias de desenvolvimento que mantiveram a serra adstrita a uma economia de subsistência, enquanto o litoral progredia no aumento da produção agro-industrial, na diversificação da oferta e na senda duma economia de mercado, ainda que incipiente.
Artigo científico sobre a importância da Etnoeconomia do Algarve nos primórdios do século XX. Conferência proferida em homenagem ao Prof. Doutor Manuel Viegas Guerreiro.



terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um clamor na centelha do génio

José Carlos Vilhena Mesquita

A arte poética é uma capacidade inata, que desperta em nós como resposta a um profundo estado emocional. O sofrimento e a paixão são os estados de alma mais comumente exorcizados através da poesia. O poeta é um sofredor. E quem ama sente a poesia nas mais pequenas coisas da vida. A dor e a alegria parecem constituir-se nos antípodas da nossa esfera emocional. Porém, andam geralmente próximas. Não restam dúvidas que nos preenchem a existência e fazem-nos sentir que a vida não é mais do que um universo de emoções.
É desse universo, desse pélago de intensas comoções, de perturbações e rupturas, que nos fala a poesia de Quina Faleiro. Sente-se nos seus versos uma alquimia de impressões, mescladas num doloroso sofrimento de rejeição, de que ressuma a interjeição da deslealdade. A perfídia é um dos seus campos preferidos. Uma lavra de quem sabe por onde arrotear. E quão sentenciosas palavras sulcam os seus poemas, como se neles traçasse um mapa de desencantos. Os seus versos ferem-nos por dentro, estremecem-nos a alma, impressionam-nos em sentimentos de culpa. Reflecte-se neles o exorcismo do aleive e da insídia. E neles espiam-se os gestos que se escondem por detrás das mãos que nos enganam, modelando rostos que se esfumam na imperceptibilidade das formas. Não vemos ninguém, apenas sentimos. Estamos todos ali, presos naqueles versos que nos acorrentam à realidade amarga da vida. Amamos e sofremos, somente.
Por outro lado, os sonetos de Quina Faleira são um exemplo flagrante dessa espécie de surda dialéctica interior entre a mágoa das quiméras e a imaterialidade do sonho. É o amor que espreita nas esquinas do tempo, fugaz e enganador. É a construção dos arquétipos, moldados na inatingível perfeição dos seres que nos rodeiam. A Quina imaginou-os esculpidos no barro do Olimpo, puros e sem mácula, talhados sob os cânones dos deuses. O ídolo que erguera fez-se em pó, esboroou-se nas fissuras da traição, apodreceu nas entranhas da matéria. Diluiu-se o sonho, desvelou-se a farsa e a aurora rompeu luminosa no orvalho das lágrimas. A vida ressumava novamente, titubeante e confusa, por entre os escombros do passado.
Os seus versos são palavras meigas, percorrendo o corpo sensível em toques de emoção, exalando segredos que se sussurram, na aragem do amor volatizado pelo fogo da paixão. São como rosas brancas em perfumadas pétalas de imaculada candura. Mas entre a pureza da aparência despontam acerados espinhos em pungentes versos de amor inconseguido. Esta é a lição da vida. Aprendeu-a, com lágrimas escondidas pelas mãos que abafam gritos de raiva, a minha querida amiga Joaquina Faleiro.
Secou-se o pranto, derramou-se no fluir do tempo o último cálice do sacrifício. Descravou os punhais da traição, suturou as feridas, desatou as amarras e encarou a existência com um novo olhar. Regressou à vida. Desprendeu-se ao vento e seguiu o seu rumo, aprendendo a voar sózinha, como se tudo começasse agora, somente agora no plano inclinado da vida.

Foram-se os anéis da vida. Partiram-se os elos que a prenderam em dolosos laços de hipocrisia e falsidade. Mas ficaram os dedos, sobreviventes e triunfantes, numa confusa mesclagem de sofrimento e libertação. Ficaram entrelaçados e serenos... a meditar. Não encontram respostas, nem reclamam justificações. Por vezes, erguem-se para enxugar as lágrimas da nostalgia. É a involuntária derrota do amor, numa incontida sensação de perda. A poesia surgiu na vida de Quina Faleiro como lenitivo da solidão, uma espécie de confidente companheira, que não desilude nem abandona nos momentos em que o desespero parece querer trucidar a alma. As desilusões e amarguras que antes em lágrimas se transformavam, correm agora na asas do prelo em belos sonetos materializadas.
Eis, pois, a obra, humilde amostra duma poetisa singular, de cujos dedos já não escorrem lágrimas, mas antes cintilam lampejos de génio.
Prefácio ao livro de poesia Choram Meus Dedos, da autoria de Quina Faleiro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Projecto de Encanamento para a Barra de Tavira, em 1825

O objectivo deste projecto consistia na construção de um canal que conduzisse o caudal do rio directamente para a embocadura da sua foz, abrindo assim uma barra artificial na zona conhecida por Bacia das Quatro Águas (onde fora originariamente a Barra de Tavira). Deste modo encurtavam-se percursos e evitavam-se os meandros em que se dispersava o leito natural do rio, condicionantes orográficas essas que, juntamente com as cheias de Inverno, facilitaram o progressivo assoreamento do Séqua ao longo de séculos, impedindo o acesso das embarcações mercantes de largo bojo e alta tonelagem ao porto comercial, situado muito próximo do actual Jardim Público.
Este pequeno artigo foi elaborado com base na descoberta de um antigo mapa elaborado pelos engenheiros reais, para em 1825 tratarem do desassoreamento do rio Séqua, que desde o séc. XVI impedia a acostagem de grandes navios ao porto comercial de Tavira. Essa foi, aliás, a principal causa da decadência desta cidade, até então uma das mais notáveis do Algarve.


domingo, 13 de setembro de 2009

A FEIRA de ALCOUTIM em 1822


José Carlos Vilhena Mesquita

Prometi no artigo anterior, sobre as cheias do Guadiana em 1823, carrear para estas mesmas colunas os documentos históricos que justificaram em 1822 a instituição de uma Feira na vila de Alcoutim. E isto porque o Sr. Ascensão Nunes, na sua Monografia de Alcoutim, refere a pgs. 117 que não encontrou o ano de criação da "Feira da Vila". Ora, como Baptista Lopes não só ignora a data da sua fundação como ainda se engana nos dias em que a mesma decorre[1], decidi-me a prestar mais este pequeno subsídio para a História de Alcoutim.
A feira, em si, constituía, tão simplesmente, uma reunião mercantil, baseada na oferta da produção excedentária e regulada pela necessidade/escassez dos bens de consumo. Porém, desde o "movimento foraleiro", que na Idade Média presidiu à formação dos concelhos, que as mesmas traduziam uma estratégia de desenvolvimento económico do sector primário e de comunicação intra-regional. À sua organização e reconhecimento oficial estavam associados determinados privilégios e isenções fiscais, que lhes outorgavam um carácter muito especial - quer comemorativo (santo padroeiro, data histórica, etc.), quer até auto-determinativo, visto que, por vezes, a pujança económica dos pequenos mercados impunha o seu reconhecimento oficial com o estatuto de feira. Daí surgir a distinção entre feiras regulares e feiras francas. Enquanto as primeiras se reuniam por um dia, com uma periodicidade semanal ou mensal, em locais definidos como o "Rocio da Vila" ou o "Terreiro do Mercado"; as segundas distinguiam-se pelo seu carácter anual, geralmente nas épocas de determinadas colheitas, com datas fixas mas alargadas a vários dias, num espaço físico mais amplo como o "Campo da Feira", tendo a particularidade de estarem isentas de encargos fiscais.
No século XIX criaram-se dezenas de feiras francas, muitas delas "especializadas" em certas produções regionais, como legumes, aves, gado, loiças, etc. Chegaram a ser mais de trezentas, entre profanas e religiosas; no primeiro caso designavam-se por "Feiras Grandes", no segundo por "Festas". O exemplo de Alcoutim pertence ao primeiro caso, embora como veremos mais adiante, não lograsse o estatuto de feira franca.
Vejamos, depois deste breve preâmbulo, como se desenrolou o processo da sua criação.
A origem da Feira de Alcoutim está intimamente ligada à vontade popular. Foram os moradores da vila que determinaram a necessidade da sua criação. Nada mais simples do que isto. Porém, pretendiam-na franca. A exemplo do que acontecia no passado, esta pretensão faz supor que a feira já existia e que ao oficializá-la apenas pretendiam isentá-la de impostos. Não acredito nessa hipótese. Penso que o objectivo consistia numa antecipação à feira de Mértola, que se realizava a 20 e 21 de Setembro, onde os alcoutinenses iam vender a produção cerealífera dos seus campos.
Não deixa, porém, de ser estranho que nesse ano de 1822 fosse instituída a feira de Alcoutim ­ predominantemente cerealífera ­ quando as terras do litoral barlaventino, atravessavam uma forte carestia de cereais. Em Portimão, por exemplo, só tinham trigo para 60 dias em «consequencia da mais desgraçada colheita que se tem visto, pois que huma grande parte dos Lavradores deste Districto nem a semente colherão».
[2]
Em Fevereiro de 1821 (ano da petição dos moradores de Alcoutim), os lavradores alentejanos da raia de Espanha queixavam-se da decadência da agricultura devido ao «exçeçivo preço a que a ambição dos senhorios tem elevado a renda das erdades, asim como a falta de braços»; além disso, baixaram os preços dos cereais, lãs e gados, em face do contrabando espanhol sobretudo de trigo, cujo preço era «tam comodo que a maior parte dos povos da arraia se não sustenta de outro pão».[3]

Petição da Feira Franca

Sendo Alcoutim uma vila da raia espanhola‚ é provável que experimentasse o mesma fenómeno. Mas a movimentação dos preços dos cereais oscilava bastante, e em períodos curtos, nos principais mercados do trigo, evidenciando-se mais constantes no sul do que no norte.
[4] Por isso‚ é possível que Alcoutim, inserida nas margens do Guadiana, com férteis campos de regadio, pomares, gados e pescarias estivesse a atravessar um período de abundância em contradição com a alta dos preços nos mercados de Évora e Beja. Seja como for, estou em crer que a justificação desta feira prende-se não só com as épocas das colheitas como ainda com factores concorrenciais de mercado entre Mértola e Castro Marim.
O certo é que os alcoutinenses, em 1821, suplicaram a D. João IV a criação de uma feira franca, através da seguinte petição:
«Senhor ­ Dizem os moradores na vila de Alcoutim e seu termo que não havendo Feira alguma na dita Villa à qual concorrão os Povos Vezinhos para venderem e comprarem os generos e feitos que fazem a abundancia e giro do Comercio, pertendem que Vossa Magestade lhes faça Graça de Conceder-lhes licença para se fazer mercado publico na dita villa no mez de Setembro e nos dias treze, quatorze e quinze francos, pois que os Supplicantes se persuadem ser lhes conveniente e de muita utilidade, athe mesmo para a Real Fazenda, para cujo fim Pedem a Vossa Magestade se digne mandar se lhes passe provisam. E. R. M.
Como Procurador, Jacintho Alves de Pina.»
[5]
Assinaram esta petição 32 pessoas, cujos nomes escuso de citar para não alongar demasiado este artigo. Inserida no mesmo processo judicial encontrei uma carta da Câmara de Alcoutim, a confirmar e corroborar a petição dos seus moradores:
«O Prezidente e Veriadores da Camara de Alcoutim, Clero Nobreza e Povo desta mesma Villa e seu termo, sendo mandados ouvir pelo Meretissimo Corregedor de Beja (a cuja Commarca esta Villa pertence) sobre o requerimento que fizemos, no qual pedimos a Sua Magestade a graça de nos conceder trez dias de feira nesta Villa: respondemos que queremos ter feira nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro, e que esta para todos os moradores desta Villa e seu termo seria franca e sem onus algum e só os de fóra pagarão terrado e este que seja aplicado para o Concelho que he pobrissimo. Esta he a nossa vontade geral. Eu Antonio Sebastião de Freitas, Escrivão da Camara que o escrevi.
[6]
Subscrevem esta missiva 44 habitantes, dos quais 8 eram analfabetos. Entre as individualidades destacam-se o Juiz de Fora, Joaquim António da Costa Sobrinho, os Veriadores António Joaquim da Silva, José Guerreiro Mestre e João Viegas Teixeira; o Procurador, Joaquim Costa, o Major Governador da Praça, José Maria Xavier, o Capitão Mor, José de Britto Magro, o Major Comandante de Ordenanças, Sebastião José Teixeira, o Prior da Matriz, Joaquim José Cavaco e o Ajudador, Frei Thomaz de Santa Rita Evangelista.
Para atestar a veracidade dos factos contidos na petição, foi lavrado em Beja, a 23-7-1821, pelo Corregedor da Comarca Dr. António José Cabral de Mello e Pinto, um auto de inquirição no qual testemunharam o Rev.º António José Penedo, José Telles de Góis e Manoel Joaquim Ferreira Pato, todos moradores naquela cidade. Confirmaram que «a Feira estabelecida naquella Villa [podia] fazer mais abondante o giro do commercio e que nos dias pedidos no dito requerimento são mais favoraveis por ser em melhor tempo.» O Juiz de Fora de Beja, Joaquim José Anastácio Monteiro de Carvalho e Oliveira, em 30-7-1821, oficiou ao Secretário de Estado dos Negócios do Reino que a petição de Alcoutim deveria ser inteiramente satisfeita.

O Rei autoriza.

Em face dos dados carreados para o processo, a Mesa do Desembargo anuiu, em parte, à pretensão dos moradores e Câmara de Alcoutim, «com a clauzula de não ser franca a feira pertendida»
Conformando-se com esse despacho o Rei mandou exarar a seguinte Provisão:
"Dom João por Graça de Deos, e pela Constituição, etc. Faço saber que os Moradores da Villa de Alcoutim, e seu Termo, Me supplicarão a Graça de lhes conceder licença para estabelecerem hum Mercado publico e franco em os dias 13, 14 e 15 do mez de Setembro, afim dos Povos vezinhos ali venderem e comprarem os generos e effeitos que fazião a abundancia e giro do Commercio de que rezultava utilidade Publica e interesse da Fazenda Nacional. E outro seu requerimento a Informação que se houve do Juiz de Fora da Cidade de Beja servindo de Corregedor da Commarca da mesma cidade, com audiência da Câmara, Nobreza e Povo da Villa, que não tiverão duvida no pertendido estabelecimento, bem como o não teve o Procurador da Coroa e Soberania Nacional que também mandei ouvir. Hey por bem conceder aos Supplicantes a necessaria licença para nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro de cada hum anno poderem fazer na dicta Villa a Feira de que se tracta com a clauzula de não ser franca. E Mando ás justiças a que pertencer cumprão e guardem esta Provisam como nella se contem, será registada nos livros respectivos da Camara, da sobredicta Villa, e vallerá posto que seu effeito haja de durar por mais de hum anno sem embargo de Ord. do livro 2.º 40 em contrario. Não pagarão direitos por estar assim Determinado, como constou por hum conhecimento regido emforma a fl. 15 do livro 91 do Registo Geral. El Rey o Mandou pelos Ministros abaixo assignados do seu Conselho e Desembargo do Paço. Luiz António de Araujo a fez em Lisboa a 26 de Março de 1822. José Maria Sinel de Cordes a fez escrever. Manoel Vicente Teixeira de Carvalho, Francisco José de Faria Guião. Por Despacho do Desembargo do Paço de 22 de Agosto de 1821.»
[7]
Deste modo, estão esclarecidas as dúvidas. A feira de Alcoutim data oficialmente de 22 de Agosto de 1822, ressaltando dos documentos acima transcritos que a vontade geral dos alcoutinenses se consubstanciava numa feira franca, o que não veio a ser satisfeito pelo monarca. Faltou a este povo a força económica e a pressão política necessária para fazer prevalecer os seus legítimos desígnios. E a conjugação desses dois vectores esteve quase sempre por detrás da marginalização e esquecimento a que tem sido votada, desde há séculos, a raiana vila de Alcoutim.


NOTAS

[1] João Baptista da Silva Lopes, Corografia ou Memoria Economica, Estadistica, e Topografica do Reino do Algarve, Lisboa, Typ. Academia das Sciencias de Lisboa, 1841, p. 396.

[2] Arquivo Nacional da Torre do Tombo Ministério do Reino, Câmaras do Reino, Maço 986, letra P.
Nesta carta da Câmara de Vila Nova de Portimão, datada de 9-11-1822, pede-se ao Rei que lhes conceda 60 moios de trigo «para acorrer aos terriveis males que pode produzir a fome, que já de tão perto ameaça este Povo».

[3] Arquivo Histórico-Parlamentar da Assembleia da República Documentos das Cortes, Maço 37, n.º 40 a.

[4] Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Prix et Monnaies au Portugal, Paris, Liv. Armand Colin, 1955, pp. 151-164, veja-se os quadros 19 a 21.

[5] A.N.T.T., Desembargo do Paço, Maço 528, n.º 64.

[6] A.N.T.T., Idem, ibidem.

[7] A.N.T.T. Chancelarias Reais Chancelara de D. João VI livro 37, fls 170-170 vº.