terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um clamor na centelha do génio

José Carlos Vilhena Mesquita

A arte poética é uma capacidade inata, que desperta em nós como resposta a um profundo estado emocional. O sofrimento e a paixão são os estados de alma mais comumente exorcizados através da poesia. O poeta é um sofredor. E quem ama sente a poesia nas mais pequenas coisas da vida. A dor e a alegria parecem constituir-se nos antípodas da nossa esfera emocional. Porém, andam geralmente próximas. Não restam dúvidas que nos preenchem a existência e fazem-nos sentir que a vida não é mais do que um universo de emoções.
É desse universo, desse pélago de intensas comoções, de perturbações e rupturas, que nos fala a poesia de Quina Faleiro. Sente-se nos seus versos uma alquimia de impressões, mescladas num doloroso sofrimento de rejeição, de que ressuma a interjeição da deslealdade. A perfídia é um dos seus campos preferidos. Uma lavra de quem sabe por onde arrotear. E quão sentenciosas palavras sulcam os seus poemas, como se neles traçasse um mapa de desencantos. Os seus versos ferem-nos por dentro, estremecem-nos a alma, impressionam-nos em sentimentos de culpa. Reflecte-se neles o exorcismo do aleive e da insídia. E neles espiam-se os gestos que se escondem por detrás das mãos que nos enganam, modelando rostos que se esfumam na imperceptibilidade das formas. Não vemos ninguém, apenas sentimos. Estamos todos ali, presos naqueles versos que nos acorrentam à realidade amarga da vida. Amamos e sofremos, somente.
Por outro lado, os sonetos de Quina Faleira são um exemplo flagrante dessa espécie de surda dialéctica interior entre a mágoa das quiméras e a imaterialidade do sonho. É o amor que espreita nas esquinas do tempo, fugaz e enganador. É a construção dos arquétipos, moldados na inatingível perfeição dos seres que nos rodeiam. A Quina imaginou-os esculpidos no barro do Olimpo, puros e sem mácula, talhados sob os cânones dos deuses. O ídolo que erguera fez-se em pó, esboroou-se nas fissuras da traição, apodreceu nas entranhas da matéria. Diluiu-se o sonho, desvelou-se a farsa e a aurora rompeu luminosa no orvalho das lágrimas. A vida ressumava novamente, titubeante e confusa, por entre os escombros do passado.
Os seus versos são palavras meigas, percorrendo o corpo sensível em toques de emoção, exalando segredos que se sussurram, na aragem do amor volatizado pelo fogo da paixão. São como rosas brancas em perfumadas pétalas de imaculada candura. Mas entre a pureza da aparência despontam acerados espinhos em pungentes versos de amor inconseguido. Esta é a lição da vida. Aprendeu-a, com lágrimas escondidas pelas mãos que abafam gritos de raiva, a minha querida amiga Joaquina Faleiro.
Secou-se o pranto, derramou-se no fluir do tempo o último cálice do sacrifício. Descravou os punhais da traição, suturou as feridas, desatou as amarras e encarou a existência com um novo olhar. Regressou à vida. Desprendeu-se ao vento e seguiu o seu rumo, aprendendo a voar sózinha, como se tudo começasse agora, somente agora no plano inclinado da vida.

Foram-se os anéis da vida. Partiram-se os elos que a prenderam em dolosos laços de hipocrisia e falsidade. Mas ficaram os dedos, sobreviventes e triunfantes, numa confusa mesclagem de sofrimento e libertação. Ficaram entrelaçados e serenos... a meditar. Não encontram respostas, nem reclamam justificações. Por vezes, erguem-se para enxugar as lágrimas da nostalgia. É a involuntária derrota do amor, numa incontida sensação de perda. A poesia surgiu na vida de Quina Faleiro como lenitivo da solidão, uma espécie de confidente companheira, que não desilude nem abandona nos momentos em que o desespero parece querer trucidar a alma. As desilusões e amarguras que antes em lágrimas se transformavam, correm agora na asas do prelo em belos sonetos materializadas.
Eis, pois, a obra, humilde amostra duma poetisa singular, de cujos dedos já não escorrem lágrimas, mas antes cintilam lampejos de génio.
Prefácio ao livro de poesia Choram Meus Dedos, da autoria de Quina Faleiro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Projecto de Encanamento para a Barra de Tavira, em 1825

O objectivo deste projecto consistia na construção de um canal que conduzisse o caudal do rio directamente para a embocadura da sua foz, abrindo assim uma barra artificial na zona conhecida por Bacia das Quatro Águas (onde fora originariamente a Barra de Tavira). Deste modo encurtavam-se percursos e evitavam-se os meandros em que se dispersava o leito natural do rio, condicionantes orográficas essas que, juntamente com as cheias de Inverno, facilitaram o progressivo assoreamento do Séqua ao longo de séculos, impedindo o acesso das embarcações mercantes de largo bojo e alta tonelagem ao porto comercial, situado muito próximo do actual Jardim Público.
Este pequeno artigo foi elaborado com base na descoberta de um antigo mapa elaborado pelos engenheiros reais, para em 1825 tratarem do desassoreamento do rio Séqua, que desde o séc. XVI impedia a acostagem de grandes navios ao porto comercial de Tavira. Essa foi, aliás, a principal causa da decadência desta cidade, até então uma das mais notáveis do Algarve.


domingo, 13 de setembro de 2009

A FEIRA de ALCOUTIM em 1822


José Carlos Vilhena Mesquita

Prometi no artigo anterior, sobre as cheias do Guadiana em 1823, carrear para estas mesmas colunas os documentos históricos que justificaram em 1822 a instituição de uma Feira na vila de Alcoutim. E isto porque o Sr. Ascensão Nunes, na sua Monografia de Alcoutim, refere a pgs. 117 que não encontrou o ano de criação da "Feira da Vila". Ora, como Baptista Lopes não só ignora a data da sua fundação como ainda se engana nos dias em que a mesma decorre[1], decidi-me a prestar mais este pequeno subsídio para a História de Alcoutim.
A feira, em si, constituía, tão simplesmente, uma reunião mercantil, baseada na oferta da produção excedentária e regulada pela necessidade/escassez dos bens de consumo. Porém, desde o "movimento foraleiro", que na Idade Média presidiu à formação dos concelhos, que as mesmas traduziam uma estratégia de desenvolvimento económico do sector primário e de comunicação intra-regional. À sua organização e reconhecimento oficial estavam associados determinados privilégios e isenções fiscais, que lhes outorgavam um carácter muito especial - quer comemorativo (santo padroeiro, data histórica, etc.), quer até auto-determinativo, visto que, por vezes, a pujança económica dos pequenos mercados impunha o seu reconhecimento oficial com o estatuto de feira. Daí surgir a distinção entre feiras regulares e feiras francas. Enquanto as primeiras se reuniam por um dia, com uma periodicidade semanal ou mensal, em locais definidos como o "Rocio da Vila" ou o "Terreiro do Mercado"; as segundas distinguiam-se pelo seu carácter anual, geralmente nas épocas de determinadas colheitas, com datas fixas mas alargadas a vários dias, num espaço físico mais amplo como o "Campo da Feira", tendo a particularidade de estarem isentas de encargos fiscais.
No século XIX criaram-se dezenas de feiras francas, muitas delas "especializadas" em certas produções regionais, como legumes, aves, gado, loiças, etc. Chegaram a ser mais de trezentas, entre profanas e religiosas; no primeiro caso designavam-se por "Feiras Grandes", no segundo por "Festas". O exemplo de Alcoutim pertence ao primeiro caso, embora como veremos mais adiante, não lograsse o estatuto de feira franca.
Vejamos, depois deste breve preâmbulo, como se desenrolou o processo da sua criação.
A origem da Feira de Alcoutim está intimamente ligada à vontade popular. Foram os moradores da vila que determinaram a necessidade da sua criação. Nada mais simples do que isto. Porém, pretendiam-na franca. A exemplo do que acontecia no passado, esta pretensão faz supor que a feira já existia e que ao oficializá-la apenas pretendiam isentá-la de impostos. Não acredito nessa hipótese. Penso que o objectivo consistia numa antecipação à feira de Mértola, que se realizava a 20 e 21 de Setembro, onde os alcoutinenses iam vender a produção cerealífera dos seus campos.
Não deixa, porém, de ser estranho que nesse ano de 1822 fosse instituída a feira de Alcoutim ­ predominantemente cerealífera ­ quando as terras do litoral barlaventino, atravessavam uma forte carestia de cereais. Em Portimão, por exemplo, só tinham trigo para 60 dias em «consequencia da mais desgraçada colheita que se tem visto, pois que huma grande parte dos Lavradores deste Districto nem a semente colherão».
[2]
Em Fevereiro de 1821 (ano da petição dos moradores de Alcoutim), os lavradores alentejanos da raia de Espanha queixavam-se da decadência da agricultura devido ao «exçeçivo preço a que a ambição dos senhorios tem elevado a renda das erdades, asim como a falta de braços»; além disso, baixaram os preços dos cereais, lãs e gados, em face do contrabando espanhol sobretudo de trigo, cujo preço era «tam comodo que a maior parte dos povos da arraia se não sustenta de outro pão».[3]

Petição da Feira Franca

Sendo Alcoutim uma vila da raia espanhola‚ é provável que experimentasse o mesma fenómeno. Mas a movimentação dos preços dos cereais oscilava bastante, e em períodos curtos, nos principais mercados do trigo, evidenciando-se mais constantes no sul do que no norte.
[4] Por isso‚ é possível que Alcoutim, inserida nas margens do Guadiana, com férteis campos de regadio, pomares, gados e pescarias estivesse a atravessar um período de abundância em contradição com a alta dos preços nos mercados de Évora e Beja. Seja como for, estou em crer que a justificação desta feira prende-se não só com as épocas das colheitas como ainda com factores concorrenciais de mercado entre Mértola e Castro Marim.
O certo é que os alcoutinenses, em 1821, suplicaram a D. João IV a criação de uma feira franca, através da seguinte petição:
«Senhor ­ Dizem os moradores na vila de Alcoutim e seu termo que não havendo Feira alguma na dita Villa à qual concorrão os Povos Vezinhos para venderem e comprarem os generos e feitos que fazem a abundancia e giro do Comercio, pertendem que Vossa Magestade lhes faça Graça de Conceder-lhes licença para se fazer mercado publico na dita villa no mez de Setembro e nos dias treze, quatorze e quinze francos, pois que os Supplicantes se persuadem ser lhes conveniente e de muita utilidade, athe mesmo para a Real Fazenda, para cujo fim Pedem a Vossa Magestade se digne mandar se lhes passe provisam. E. R. M.
Como Procurador, Jacintho Alves de Pina.»
[5]
Assinaram esta petição 32 pessoas, cujos nomes escuso de citar para não alongar demasiado este artigo. Inserida no mesmo processo judicial encontrei uma carta da Câmara de Alcoutim, a confirmar e corroborar a petição dos seus moradores:
«O Prezidente e Veriadores da Camara de Alcoutim, Clero Nobreza e Povo desta mesma Villa e seu termo, sendo mandados ouvir pelo Meretissimo Corregedor de Beja (a cuja Commarca esta Villa pertence) sobre o requerimento que fizemos, no qual pedimos a Sua Magestade a graça de nos conceder trez dias de feira nesta Villa: respondemos que queremos ter feira nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro, e que esta para todos os moradores desta Villa e seu termo seria franca e sem onus algum e só os de fóra pagarão terrado e este que seja aplicado para o Concelho que he pobrissimo. Esta he a nossa vontade geral. Eu Antonio Sebastião de Freitas, Escrivão da Camara que o escrevi.
[6]
Subscrevem esta missiva 44 habitantes, dos quais 8 eram analfabetos. Entre as individualidades destacam-se o Juiz de Fora, Joaquim António da Costa Sobrinho, os Veriadores António Joaquim da Silva, José Guerreiro Mestre e João Viegas Teixeira; o Procurador, Joaquim Costa, o Major Governador da Praça, José Maria Xavier, o Capitão Mor, José de Britto Magro, o Major Comandante de Ordenanças, Sebastião José Teixeira, o Prior da Matriz, Joaquim José Cavaco e o Ajudador, Frei Thomaz de Santa Rita Evangelista.
Para atestar a veracidade dos factos contidos na petição, foi lavrado em Beja, a 23-7-1821, pelo Corregedor da Comarca Dr. António José Cabral de Mello e Pinto, um auto de inquirição no qual testemunharam o Rev.º António José Penedo, José Telles de Góis e Manoel Joaquim Ferreira Pato, todos moradores naquela cidade. Confirmaram que «a Feira estabelecida naquella Villa [podia] fazer mais abondante o giro do commercio e que nos dias pedidos no dito requerimento são mais favoraveis por ser em melhor tempo.» O Juiz de Fora de Beja, Joaquim José Anastácio Monteiro de Carvalho e Oliveira, em 30-7-1821, oficiou ao Secretário de Estado dos Negócios do Reino que a petição de Alcoutim deveria ser inteiramente satisfeita.

O Rei autoriza.

Em face dos dados carreados para o processo, a Mesa do Desembargo anuiu, em parte, à pretensão dos moradores e Câmara de Alcoutim, «com a clauzula de não ser franca a feira pertendida»
Conformando-se com esse despacho o Rei mandou exarar a seguinte Provisão:
"Dom João por Graça de Deos, e pela Constituição, etc. Faço saber que os Moradores da Villa de Alcoutim, e seu Termo, Me supplicarão a Graça de lhes conceder licença para estabelecerem hum Mercado publico e franco em os dias 13, 14 e 15 do mez de Setembro, afim dos Povos vezinhos ali venderem e comprarem os generos e effeitos que fazião a abundancia e giro do Commercio de que rezultava utilidade Publica e interesse da Fazenda Nacional. E outro seu requerimento a Informação que se houve do Juiz de Fora da Cidade de Beja servindo de Corregedor da Commarca da mesma cidade, com audiência da Câmara, Nobreza e Povo da Villa, que não tiverão duvida no pertendido estabelecimento, bem como o não teve o Procurador da Coroa e Soberania Nacional que também mandei ouvir. Hey por bem conceder aos Supplicantes a necessaria licença para nos dias treze, quatorze e quinze do mez de Setembro de cada hum anno poderem fazer na dicta Villa a Feira de que se tracta com a clauzula de não ser franca. E Mando ás justiças a que pertencer cumprão e guardem esta Provisam como nella se contem, será registada nos livros respectivos da Camara, da sobredicta Villa, e vallerá posto que seu effeito haja de durar por mais de hum anno sem embargo de Ord. do livro 2.º 40 em contrario. Não pagarão direitos por estar assim Determinado, como constou por hum conhecimento regido emforma a fl. 15 do livro 91 do Registo Geral. El Rey o Mandou pelos Ministros abaixo assignados do seu Conselho e Desembargo do Paço. Luiz António de Araujo a fez em Lisboa a 26 de Março de 1822. José Maria Sinel de Cordes a fez escrever. Manoel Vicente Teixeira de Carvalho, Francisco José de Faria Guião. Por Despacho do Desembargo do Paço de 22 de Agosto de 1821.»
[7]
Deste modo, estão esclarecidas as dúvidas. A feira de Alcoutim data oficialmente de 22 de Agosto de 1822, ressaltando dos documentos acima transcritos que a vontade geral dos alcoutinenses se consubstanciava numa feira franca, o que não veio a ser satisfeito pelo monarca. Faltou a este povo a força económica e a pressão política necessária para fazer prevalecer os seus legítimos desígnios. E a conjugação desses dois vectores esteve quase sempre por detrás da marginalização e esquecimento a que tem sido votada, desde há séculos, a raiana vila de Alcoutim.


NOTAS

[1] João Baptista da Silva Lopes, Corografia ou Memoria Economica, Estadistica, e Topografica do Reino do Algarve, Lisboa, Typ. Academia das Sciencias de Lisboa, 1841, p. 396.

[2] Arquivo Nacional da Torre do Tombo Ministério do Reino, Câmaras do Reino, Maço 986, letra P.
Nesta carta da Câmara de Vila Nova de Portimão, datada de 9-11-1822, pede-se ao Rei que lhes conceda 60 moios de trigo «para acorrer aos terriveis males que pode produzir a fome, que já de tão perto ameaça este Povo».

[3] Arquivo Histórico-Parlamentar da Assembleia da República Documentos das Cortes, Maço 37, n.º 40 a.

[4] Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Prix et Monnaies au Portugal, Paris, Liv. Armand Colin, 1955, pp. 151-164, veja-se os quadros 19 a 21.

[5] A.N.T.T., Desembargo do Paço, Maço 528, n.º 64.

[6] A.N.T.T., Idem, ibidem.

[7] A.N.T.T. Chancelarias Reais Chancelara de D. João VI livro 37, fls 170-170 vº.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

AS ORIGENS DO ENSINO PRIMÁRIO NA VILA de ALCOUTIM

José Carlos Vilhena Mesquita

A razão do presente artigo prende-se com a leitura de um interessante estudo publicado no «Jornal do Algarve» n.ºs 1775 e 1776 de 4 a 11 de Abril de 1991, pelo Sr. José Varzeano (pseudónimo de António Miguel Ascensão Nunes) intitulado Um século de ensino escolar no concelho de Alcoutim (1840-1940). Nele o autor dá a público várias informações de particular importância para a vila de Alcoutim, mas que também podem e devem servir de exemplo a futuros subsídios de investigação histórica, através dos quais se torne possível a elaboração duma História do Ensino Primário no Algarve.
Não vamos criticar, rebater ou contrariar a preciosa contribuição que o Sr. José Varzeano nos acaba de oferecer. Bem pelo contrário. A minha intenção é tão simplesmente a de contribuir para o aprofundamento do referido artigo, na parte talvez menos esclarecida que o mesmo comporta: as origens cronológicas do ensino primário em Alcoutim.
Assim, no citado artigo, José Varzeano refere a data de 1840 como início da instrução primária em Alcoutim, mas não acrescenta outra prova documental senão a lacónica referência contida na Acta da Sessão Camarária de 1 de Maio desse ano, onde se constata o fornecimento de cadeiras para a escola. Mas para que tal ficasse demonstrado faltava conhecer a carta de Mercê que instituía o professor proprietário da cadeira de ensino primário em Alcoutim. Esta era a primeira e mais importante questão a desvendar, tendo em conta os limites cronológicos do artigo de José Varzeano. Já lá iremos.
Contudo, o mesmo articulista ­ e brilhante autor da Monografia de Alcoutim, editada em 1985, ­ afirma que a escola primária masculina deveria ser anterior a 1840, visto que num oficio do Administrador do concelho, datado de 1877, e dirigido ao Governador Civil, consta que «a escola da vila é antiquíssima». Como o Sr. José Varzeano não encontrou melhores provas para corroborar ou contradizer as palavras do antigo Administrador de Concelho, deixou que essa afirmação por si só encerrasse a questão. E este é o segundo problema a que gostaria de oferecer uma solução, apesar de ainda não ter encontrado provas definitivamente seguras.
Mas vamos ao primeiro contributo de que o Sr. José Varzeano poderá dispor para uma futura reedição/actualização da sua Monografia de Alcoutim.
Efectivamente o ensino primário instituiu-se em Alcoutim no ano de 1840. A prova está na Carta de Professor proprietário e vitalício da cadeira de ensino Primário em Alcoutim, dada como Mercê de D. Maria II a Francisco José de Barros, em 17 de Janeiro de 1840. Para uma hipotética utilização posterior aqui fica a transcrição da Carta de Mercê:
«D. Maria por Graça de Deos e pela Constituição da Monarchia, Rainha de Portugal, Algarves e seus Dominios; Faço saber aos que esta Minha Carta virem Que hei por bem, Conformando-Me com a proposta do Conselho Geral Director de Ensino Primario e Secundario, Fazer Mercê de Nomear para Professor Proprietário e vitalicio da Cadeira de Ensino Primario de Alcoutim, Districto Administrativo de Faro, a Francisco José de Barros, pelo que Ordeno ao Administrador Geral daquelle Districto, que sendo-lhe prezente esta Carta Sellada com o Sello da Cauza Publica, defira o competente juramento ao dito Francisco José de Barros ou a quem para esse acto estiver munido de legitima procuração, e lhe faça dar posse do seu Cargo pelo Administrador do respectivo concelho, deixando-lhe servir e exercitar, na Conformidade das Leis mediante os vencimentos e prerrogativas que direitamente lhe pertencerem. Não pagou Direitos de Mercê por dispensa da Lei de 19 d'Agosto de 1837.
E por firmeza do que dito é lhe Mandei passar a prezente, referendada pelo Secretario de Estado dos Negocios do Reino e Sellada com o Sello das Armas Reaes.
Dada no Paço das Necessidades em 17 de janeiro de 1840. A Rainha com Guarda - Rodrigo da Fonseca Magalhães [Ministro do Reino].»[1]
Dado que a História do Ensino Primário não é temática do meu interesse académico, não procurei desvendar os traços biográficos de Francisco José de Barros. De qualquer modo, possuo nos meus ficheiros sobre a História do Algarve a nomeação deste mesmo Francisco José de Barros para o cargo de sub-director da Alfândega de Alcoutim.[2]
Quanto à segunda questão, das origens do ensino primário em Alcoutim no século XVIII, apuramos que no tempo do Marquês de Pombal não foi este concelho contemplado com a nomeação de um «Mestre de ler e escrever e contar». Mas disso se pode orgulhar a então designada Vila de Santo António de Arenilha [e não Vila Real de St.º António], que em 22 de Fevereiro de 1774 recebia de D. José I a carta de nomeação de José Pereira para ministrar o ensino das primeiras letras. Dado que o Rev.º Dr. F.X. de Athaíde Oliveira, na sua Monografia do concelho de Vila Real de Santo António não se refere às origens do ensino primário naquela localidade, aqui fica a transcrição do documento, não só pela utilidade de que possa ser alvo, como ainda pelo facto de poder admitir-se uma possível transferência deste «Mestre» para a vila de Alcoutim no reinado seguinte:
«Dom José, etc. Faço saber aos que esta Minha carta virem que tendo consideração aos merecimentos que concorrem na pessoa de José Pereira, Hei por bem fazer-lhe mercê do lugar de Mestre de Ler e escrever e contar para a Villa de Santo Antonio de Arenilha, vencendo de ordenado em cada hum anno quarenta mil reys que cobrará na folha dos Professores da Comarca a que pertencer, e servirá o sobre dito lugar por tempo de tres annos. E quando Eu haja por bem que continue no mesmo exercicio o farey por Appostilla Gratuita nesta Carta E jurará perante o Bispo de Beja do Meu Conselho, Prezidente da Real Meza Censoria, de guardar em tudo o servisso de Deos e o Meu na observancia das Instruçoins determinadas para Escollas Menores e no mais concernente ao dito Emprego, pello que Mando a todos os Menistros officiaes e pessoas a que esta Minha Carta for aprezentada conhecimento della pertencer que deyxem uzar o mesmo José Pereira, plena e Livremente do dito Exercicio de Mestre de Ler e escrever e contar e gozar de todas as Onrras Previllegios Leberdades e Inzençoens que lhe são Concedidas. E por firmeza de tudo lhe mandey dar a prezente Carta asinada pello mesmo Bispo de Beja, e passada pella Minha Chancellaria Mor da Corte e Reyno e Sellada com o Sello pendente de Minhas Armas a qual se cumprirá tam inteiramente como nella se contem e se registará nos Livros da Provedoria e Camera a que pertencer. E não pagou novos direitos na conformidade do meu Decreto de vinte e sete de setembro de 1759.
Dada em Lisboa aos 22 dias do mez de Fevereiro. Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de 1774».[3]
Acontece, porém, que no reinado de D. Maria I a Real Mesa Censória na sua reunião de 12-1-1778 submeteu à aprovação da Rainha uma «lista das terras, conventos e pessoas destinadas para professores», a qual mereceu o régio assentimento em 16-8-1779. Nela surge, creio que pela primeira vez, a instituição do ensino primário em Alcoutim, demonstrada através da indicação de José Pereira da Silva‚ para o cargo de Mestre de ler e escrever.[4]
A principal e única dúvida está na precisão do nome. Seria este José Pereira da Silva o mesmo que exercera idêntico cargo, cinco anos antes, na Vila de Santo António de Arenilha ? Não posso afirmá-lo com segurança. Tudo indica que serão pessoas distintas até porque em 13-3-1783 a Câmara de Vila Real de St.º António recebe da Chancelaria Mor de D. Maria I uma provisão para aforar a José Pereira um determinado terreno;[5] o mesmo acontece em 5-8-1795 e sobre assunto idêntico: aforamento de terras.[6] Ora isto leva a crer que o «Mestre» José Pereira continuava em Vila Real. Contudo, não exercia ali o múnus para que fora nomeado no tempo de Pombal, visto que na lista dos professores promulgada por D. Maria I quem surge no desempenho daquelas funções é um tal Francisco José Torrones.[7]
Por mais esforços que fizesse nunca encontrei a carta de nomeação de José Pereira da Silva para o cargo de «Mestre de Ler e escrever da vila de Alcoutim», como aliás era meu propósito demonstrar no intuito de dar como absolutamente segura a instituição do ensino primário em Alcoutim no ano de 1779. O único José Pereira da Silva que encontrei no Registo Geral das Mercês a exercer funções docentes diz respeito a um «Profeçor de Orthographia Diplomatica para esta cidade de Lisboa, vencendo de ordenado em cada hum anno quatro centos mil reis».[8]
Sabendo-se que no tempo de D. Maria I se procedeu à reforma compulsiva de certos professores, com metade do ordenado «que percebiam», assim como à transferência de outros para localidades muito afastadas daquelas onde anteriormente se encontravam fixados - é possível, embora muito duvidoso, que talvez sejam ambos uma e a mesma pessoa. Contudo, custa a crer que este José Pereira da Silva passasse de um cargo remunerado com 400$000 réis/ano em Lisboa, para uma longínqua vila raiana, com um ordenado dez vezes inferior àquele que auferia antes.
Infelizmente nada mais pude apurar, talvez pela desmotivação que o próprio assunto me oferece. A época de D. José e de D. Maria I está fora dos meus horizontes de investigação histórica. Por isso, deixo ao interesse de outros estudiosos, porventura interessados nestes assuntos, a tarefa de deslindar esta imbróglia confusão e semelhança de identidades.
Para terminar, deixo desde já ao Sr. José Varzeano a promessa de voltar a falar de Alcoutim, mais propriamente acerca de uma «innaudita e nunca lembrada cheia deste Rio Godiana... tão inorme que de outra igual não há mimoria», ocorrida entre 31-1 e 10-2-1823, da qual resultou o derrube do edifício da Câmara e do vetusto Pelourinho.

NOTAS


[1] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registo Geral das Mercês, Livro 11, fls. 232-232 v.º

[2] A.N.T.T., Idem, livro 36, fl. 91 v.º.

[3] A.N.T.T., Chancelaria de D. José I, Livro 34, fl. 12.

[4] Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Collecção de Leis, decretos e alvarás de D. José I e D. Maria I, «Listas das Terras, Conventos e Pessoas destinadas para Professores de Filosofia Racional, Retórica, Lingua Grega, Gramática Latina, Desenho, Mestres de Ler Escrever e Contar, como também dos aposentados nas suas respectivas cadeiras, tudo por resolução real de S. Majestade de 16 de Agosto do presente anno de 1779, tomada em consulta da Real Mesa Censória de 12 de Janeiro de 1778», cota 4-30-9-4.

[5] A.N.T.T., Chancelaria de D. Maria I, Livro 20, fl. 253.

[6] A.N.T.T., Idem, Livro 48, fl. 246.


[7] B.G.U.N., Idem‚ ibidem.

[8] A.N.T.T., Registo Geral das Mercês‚ D. José I, Livro. 29, fl. 52.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Fortaleza de Santa Catarina na Praia da Rocha


José Carlos Vilhena Mesquita

Remonta aos anos trinta da centúria de seiscentos a fundação do conhecido forte e actual monumento histórico, turisticamente conhecido por “Miradouro de St.ª Catarina, situado no extremo sudeste da Praia da Rocha, dominando a embocadura do rio Arade. Com indubitável certeza, sabe-se que em 1633, durante o reinado de Filipe III, o então governador do Algarve, D. Luís de Sousa, dedicou-se pessoalmente à conclusão das obras, nelas empregando as rendas da fazenda pública e do donatário de Vila Nova de Portimão, que era ao tempo o Conde D. Gregório Castelo-Branco.
No célebre relatório do engenheiro Alexandre Massaii, datado de 1621 e designado por Descripção do Reino do Algarve, publicado por Lívio da Costa Guedes no «Boletim do Arquivo Histórico Militar» (n.os 57-58), consta que para obstar aos ataques dos corsários ou de outros agressores que colocassem em risco a defesa das cidades de Portimão e de Silves, se decidiu, em consonância com os especialistas da sua comitiva, optar pela construção de um forte na ponta de Santa Catarina, onde já existia uma antiga ermida, que talvez já antes funcionasse como torre de vigia da costa, pois que St.ª Catarina é da invocação religiosa dos artilheiros militares.
Dado que a falésia estava virada para o sul, apresentando uma altura e posição natural já por si quase inexpugnável, optou-se pela construção duma sólida muralha abaluartada para defesa de terra, com revelins para a fixação de peças de artilharia que disparariam para as praias adjacentes e para a entrada na foz do Arade. Para efectuar uma barreira de artilharia que impedisse a penetração na barra do rio, sugeriu também aquele engenheiro italiano a construção, na margem oposta, do forte de São João de Ferragudo, o que só se concretizaria após a Restauração de 1640, possivelmente em 1643, ou seja dez anos depois do Forte de St.ª Catarina.
Conforme se pode ver no “segundo parecer”, que foi o aprovado dos três que Massaii desenhou para a Ponta de St.ª Catarina, mantém-se inalterável a cortina de muralha com dois meios baluartes nos extremos para a fixação de quatro peças de artilharia, cuja estrutura original compõem a fachada principal, situada a norte de todo o complexo militar. Mas pouco ou nada restando das muralhas laterais, que seriam baixas e pouco extensas, por serem desnecessárias face à envergadura alcantilada da encosta natural. Os restos, ainda visíveis, desses muros situados a nascente e a poente, serviam para sustentar algumas peças de artilharia. Desapareceram com o tempo não só essas paredes laterais como também as peças de fogo, das quais ainda há bem pouco tempo restavam seis canhoneiras de feitura recente. A antiga ermida, cuja invocação deu origem à designação do forte, sofreu sensíveis alterações por ter sido transferida para a face esquerda do interior da muralha, onde, conforme se vê no desenho de Massaii, também se construíram diminutas aposentadorias para fins militares. Não creio que tenha sido construído o fosso, sugerido por Massaii, à volta da fachada original, pois que em face das novas circunstâncias políticas e das novas estratégias militares, os antigos fossos de forte cariz medieval, tornaram-se desnecessários e obsoletos. O engenheiro italiano para qualquer dos três desenhos propostos (um Baluarte e dois pedaços de cortina; dois meios baluartes e uma cortina [opção aprovada]; ou um baluarte ao meio com duas meias cortinas), estimou uma despesa geral a rondar um conto de reis e 200 mil réis.
A estrutura militar original manteve-se praticamente inalterada até aos novos dias, conservando-se quase intacta a fachada, assim como a ermida e a cisterna. Acresce dizer, porém, que nos finais do século XVIII (entre 1792 e 1794) foi palco de sensíveis obras de reparação, derivadas dos estragos provocados pelo terramoto de 1-11-1755. Com efeito, o abalo telúrico e o desastroso maremoto que se lhe seguiu, causaram certos estragos, abrindo brechas nas muralhas, derrubando os muros laterais, a antiga “casa do capitão” e a vetusta ermida. O conde Val de Reys, então governador e capitão-general do Algarve, encarregou o coronel José de Sande Lemos, reputado engenheiro militar, de procedeu às obras de reparação do forte de St.ª Catarina, datando dessa época a actual configuração daquele complexo histórico-militar. Os muros da fachada foram reforçados com mais de um metro de espessura, a ermida foi consolidada, assim como a cisterna, o paiol e outras arrecadações militares.
A utilização prática e efectiva do forte, digamos assim, nunca foi de grande monta, a não ser nos finais do séc. XVII e princípios da centúria seguinte, períodos em que a costa barlaventina era esporadicamente assolada por corsários magrebinos e até ingleses, de cuja memória não se apagam os estragos provocados por Sir Francis Drake.
Nos anos de Oitocentos praticamente não se ouviu falar do forte de St.ª Catarina. As suas peças de artilharia eram escassas e pouco eficientes, perante a versatilidade de manobra das novas embarcações e até perante o aumento do poder de fogo dos novos vasos de guerra. E o certo é que pelas imediações das suas muralhas passou, sem qualquer oposição de fogo de artilharia, a armada liberal do almirante Charles Napier, quando em Junho de 1833 desembarcou nas praias da Altura as tropas do Duque da Terceira. O mesmo aconteceu no seu regresso em direcção ao Cabo de S. Vicente, onde se deu a feroz batalha naval do mesmo nome, cujo vitorioso desfecho ditou a definitiva implantação do liberalismo e do regime parlamentar-constitucional no nosso país.
Na verdade, o forte de St.ª Catarina desde os meados do séc. XVIII que se resumia a um posto de vigia da costa marítima, tornando-se a sua utilização militar de todo obsoleta a partir do momento em que a marinha passou a dispor de embarcações movidas a vapor e equipadas com obuses de largo alcance. Ainda que não tenha sido abandonado, o certo é que o forte de St.ª Catarina passou todo o século XIX e primeira metade da centúria seguinte, praticamente desactivado, resumindo-se a sua utilidade prática à instalação de um posto da Guarda-Fiscal e mais recentemente à instalação da Capitania do Porto de Portimão.
Durante os preparativos das Comemorações Centenárias de 1940, o comissariado regional e as autoridades centrais, pensaram no seu aproveitamento como equipamento turístico, sector que a partir dessa altura começava a estar nas cogitações da Sociedade de Propaganda Nacional, cujos serviços eram dirigidos por António Ferro, fiel servidor do “Estado Novo”, mas acima de tudo um homem ilustre, esclarecido e modernista.
Com o advento das Comemorações Henriquinas, realizadas em 1960, procedeu-se à transformação do velho forte num moderno e turístico miradouro, que engrandeceria toda a marginal da Praia da Rocha, já então uma estância turística de grande renome internacional, mercê do seu renovado casino e dos modernos equipamentos hoteleiros, de entre os quais assumia particular destaque o Hotel Algarve. As obras operadas no antigo Forte de St.ª Catarina foram de molde a torná-lo atraente e funcional para os novos fins a que se destinava, dotando aquele espaço com um quiosque de “souvenires”, um bar-esplanada, um restaurante e um magnífico miradouro voltado para a foz do rio Arade, dominando toda a zona envolve da Praia da Rocha. Até aos anos setenta foram ali efectuadas obras de reconsolidação do esporão rochoso, melhorando-se também os equipamentos turísticos, com nova esplanada num piso inferior, instalações sanitárias e remodelação dos aposentos da capitania, com vista à sua transformação em estalagem ou pousada.
Actualmente mantém a sua função turística, perdendo-se um pouco a sua percepção como monumento histórico devido ao estacionamento automóvel e, mais grave do que isso, ao parqueamento de vendedores ambulantes que desvirtuam quase por completo o mais belo testemunho do património histórico de Portimão.

domingo, 23 de agosto de 2009

Nem Colombo nem Cabral - Quem descobriu a América?


José Carlos Vilhena Mesquita

A dúvida, precedida da afirmação, que usamos como título para este artigo, exclui à partida que aceitemos a tese clássica do “acaso”, como se tratasse de obra do destino o feliz “achamento” do Brasil pela frota de Pedro Álvares Cabral. E isto porque não se pode atribuir à ocasionalidade ou ao sortilégio da sorte, a descoberta de um território que já havia sido demandado por outros povos, que não os portugueses. Além disso, a ajuizar pelas palavras de Estevão Fróis, as costas do Brasil já eram navegadas pelos nossos marinheiros desde 1493.[1]
Mas a nossa intenção não é a de discutir se existiu ou não um conhecimento pré-colombino dos portugueses acerca das terras americanas, mas antes o de afirmar que muito antes das nações ibéricas já outros povos ocidentais e orientais haviam aportado naquelas paragens.
Efectivamente, uma espécie de “pedra roseta”, digamos assim, foi há anos exumada na Bolívia, na qual se podem observar inscrições cuneiformes juntamente com outras grafias de tipo semítico o que, à priori, nos leva a deduzir que navegadores do extremo oriente haviam precedido os navios de Colombo.
Através da leitura de obras como A Agonia do Deus Sol, de Jacques Mahieu, A América Antes de Colombo, de Cyrus Gordon, ou Os Conquistadores do Pacífico, de Pierre Carnac, somos despertados para as prováveis presenças em terras americanas de povos como os Irlandeses, os Fenícios, os Bascos (que em 1143 pescaram bacalhau na Terra Nova), os Vikings, os Egípcios e até os Chineses e Japoneses. Para se chegar a esta suposição muito tem contribuído a intervenção científica da moderna arqueologia.
Relativamente aos irlandeses, sabemos que estes se estabeleceram nos territórios da Terra Nova e da Nova Inglaterra, onde fundaram a chamada “Grande Irlanda”, muito antes de ali chegarem os Vikings comandados por Bjorn Herjulfason e por Leif Ericsson. Estes por sua vez, no ano mil, colonizaram a tão famosos quanto mítica Vimlândia, que se situaria entre Nova Iorque e Boston, embora Jacques Mahieu tenha encontrado vestígios da sua presença na ilha do Yucatão e na América Central.
Mas há ainda outros indícios e testemunhos arqueológicos que quase nos garantem a sua permanência no Peru, se considerarmos a descoberta de algumas múmias de cabelo ruivo na fortaleza amazónica de Kuelap, caso estranho já que os indígenas são regra geral de cabelo negro. Além disso, foram encontrados no deserto de Atacama alguns restos ósseos de cães dinamarqueses, galgos, muito provavelmente trazidos para este continente pelas embarcações vikingues.
Quanto aos povos asiáticos, possivelmente chineses, sabemos que o monge budista Huey Sing esteve na América Central, provavelmente na actual Guatemala, à qual chamou o “país de Fusang”. Por outro lado, de acordo com os estudos efectuados por investigadores e arqueólogos, presume-se que a cultura pré-colombina denominada Chimu, estabelecida a norte do actual território do Peru é, segundo parece, de origem japonesa. Na verdade, sabe-se que os Chineses chegaram a estas paragens por via marítima, e daí se infere que tenham vindo do Japão em resultado das constantes guerras-civis que se desencadeavam naquele arquipélago.
No que respeita aos Fenícios, também se aventa a hipótese da sua presença no continente americano, pois segundo alguns historiadores as terras do “Paruaim”, citadas na Bíblia não passam de uma corruptela da palavra “Peru”. Efectivamente, o templo de Salomão encontrava-se repleto de ouro, trazido pelos fenícios de Hirão, rei de Tiro, cujos marinheiros visitavam assiduamente as minas de “Paruaim”. Aliás, entre o avultado espólio arqueológico exumado na cidade geométrica de Cusco, capital do Império Inca, foi encontrada uma pequena estatueta representando um homem de compridas barbas, em posição sentado, retendo entre os joelhos uma pequena placa na qual parece registar algo que não podemos adivinhar. Porém, existe uma semelhança enorme entre esta pequena escultura e as estátuas representativas dos escribas fenícios. Visto que Cusco foi até à conquista espanhola uma das mais ricas regiões auríferas da América, porque não admitirmos que esse escriba estaria a anotar os carregamentos daquele preciso metal.
Mas foi Pierre Carnac, o historiador que melhor desmistificou a virgindade do continente americano, tomando como referência incontornável os achados arqueológicos encontrados em diversos lugares e regiões do continente americano. Foi com base nesses elementos que teve a ousadia de elaborar uma lista cronológica sobre o aportamento ao continente americano de variadíssimos povos provenientes da Europa e da África que precederam as naus de Colombo. O escalonamento desses povos, segundo Carnac, ficaria ordenado da seguinte maneira:
Cananeus, fenícios, povos negros indeterminados, cartagineses, gregos, romanos, celtas, irlandeses, vikings, ingleses, suevos, noruegueses, venesianos, bretões, bascos, dinamarqueses, portugueses, e só depois os espanhóis de Colombo.
Embora a arqueologia seja uma ciência rigorosa e de reconhecida autoridade, que muito tem contribuído para o progresso do saber histórico, cremos que Pierre Carnac exagerou no que respeita à lista dos povos acima discriminados. Não parece crível que a maioria deles tivesse precedido Colombo. O facto de terem sido encontrados objectos de diferentes origens e culturas, de diversas proveniências e distantes épocas, embora indubitavelmente estranhos às culturas autóctones, não significa que tenham sido levados para ali pelos seus originários produtores. O que deve ter acontecido é que foram transportados para a América por efeito de trocas mercantis não necessariamente operadas naquele território. Por isso é que foram encontrados em contextos arqueológicos deveras estranhos, para cuja explicação prevaleceram certas análises mais especulativas do que científicas, elaborando-se assim conclusões prematuras e pouco fiáveis.
Seja como for, uma coisa é certa: Colombo não descobriu a América, afirmação que é extensiva a Cabral, pois pensamos que alguns dos povos acima referidos terão chegado pelo menos ao actual estado de Pernambuco.
Antes de terminar, porém, acrescentaremos algumas achegas à tão decantada problemática do pré-conhecimento das terras americanas antes do aportamento em terras de Vera Cruz da frota de Pedro Alvares Cabral.
Cumpre assim, em primeiro lugar, perguntar como se explica que D. João II se tivesse apressado a negociar o Tratado de Tordesilhas com os Reis Católicos? De facto, a divisória de 1493 excluía aos portugueses a hipótese de “achamento de terras” para ocidente, e a avaliar pelas preocupações do monarca na demarcação de um meridiano situado a 370 léguas a ocidente do Cabo Verde torna-se um facto estranho, que facilmente no leva a deduzir que já então se sabia da existência de terras no Austro.[2]
Há ainda um outro facto algo estranho que merece ponderosa reflexão. No Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, publicado em 1838 por Diogo Kopke, a certo passo diz o seguinte:
E huma quynta feira que eram tres dias Dagosto partimos em Leste, e hindo hum dia com Sull quebrou a verga ao capitam morr e foy em xviij dias Dagosto e seria isto (duzentas) légoas da Ilha de Santiaguo, e pairamos com o traquete e papafigo dous dias e huma noute, e em xxij do dito mês hindo na volta do mar ao Sul e a Quarta do Sudueste achamos muytas aves feitas como garçõees e quando veo a noute tiravam contra o Susoeste muyto rrigas como aves que hiam pera terra, e neste mesmo dia vimos huma balea e isto bem oytocentas légoas em mar.”[3]
Algo um pouco semelhante escreveu Pero Vaz de Caminha, na sua Carta do Achamento:
E à quarta-feira seguinte (22 de Abril) pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra”.[4]
Ora, não terá Vasco da Gama avistado sinais de terra durante a sua prioritária missão de descobrir o caminho marítimo para a Índia? O indício das aves (garças), dos lenhos flutuantes (“rigas”, possivelmente madeira de pinho) e da baleia (mamífero que proliferava pelas costas brasileiras, e cuja pesca mais tarde se haveria de desenvolver), parecem-nos muito significativos se lhe ajuntarmos ainda o facto de no Roteiro se dizer peremptoriamente que “muyto rrigas como aves que hiam pera terra”. Logo, é muito provável que o descobridor da rota marítima das especiarias se tenha apercebido de correntes orientadas para terra, se é que não vislumbrou mesmo a terra brasileira. Só que a descrição do avistamento dessas terras não consta no Roteiro de Álvaro Velho, nem tão pouco no Diário de Vasco da Gama, facto esse quanto a nós originado pela política de sigilo impulsionada por D. João II. Porém, sabemos hoje que Vasco da Gama aconselhou Cabral a seguir a rota do Sul precisamente a partir das Ilhas de Cabo verde rumando para Sudoeste, caso viesse a ser “importunado” por ventos tempestuosos. Na verdade, o navegador seguiu o conselho, desviando-se ostensivamente para o quadrante de Sudoeste, durante as setecentas léguas que separam a Ilha de São Nicolau do local do primeiro desembarque em Porto Seguro.[5] E como as descrições da viagem não se referem nem a tempestades nem a correntes marítimas que justificassem tão pronunciado desvio da rota, é lógico admitir-se um pré-conhecimento daquele continente. Aliás, se por acaso houvesse necessidade de desvio motivado pelo regime dos ventos (o que não nos parece viável, já que os nossos pilotos sabiam bolinar há quase um século e dominavam as mais modernas técnicas de navegação), como é que se explica que Cabral e os seus pilotos tenham velejado setecentas léguas em águas desconhecidas sem procederem à correcção da rota?
Por outro lado, na Carta do Achamento de Pero Vaz de Caminha nada consta que nos possa levar a supor que aquela descoberta foi acolhida com grande surpresa e contentamento por todos os expedicionários. Ora, se efectivamente o acontecimento fosse obra do acaso, com certeza que o procedimento narrativo de Pero vaz de Caminha seria idêntico ao de Cadamosto quando descreve euforicamente a descoberta das Ilhas de Cabo Verde.[6]
Enfim, muitas mais razões se poderiam adiantar, mas não é nossa intenção esgotar este assunto, pelo que ficamos por aqui. A finalizar, e apenas a talhe de foice, concluímos que é quase certo o conhecimento prévio da existência de terras para ocidente da África, pois doutra forma Pedro Alvares Cabral não teria seguido uma rota tão directa para aquele continente. Agora, duma coisa temos a certeza, é que não foram nem Colombo nem Cabral os descobridores do “Novo Mundo”.

NOTAS

[1] Em todo o caso, Duarte Leite contraria a veracidade das afirmações de Estevão Fróis, considerando-as exageradas.
Cf. Duarte Leite, História dos Descobrimentos, 2 vols., Lisboa, Ed. Cosmos, 1959, 1.º vol. pp. 346-349.

[2] A este facto se refere a carta de Roberto Thorne de 1527, na qual o mercador inglês escreve ao seu monarca dizendo-lhe que desconfia que D. João II estivesse já na posse de notícias que lhe garantissem a existência dum continente austral a oeste de África, e daí ter negociado pela segunda vez o Tratado de Tordesilhas. Jaime Cortesão apresenta o documento e acredita nele, o que não se verifica na citada obra de Duarte Leite.

[3] Damião Peres (dir. de), História de Portugal, 9 vol., Porto, Portucalense Editora, 1928-1954, vol. III, p. 579.

[4] Pero Vaz de Caminha, Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974, p. 33.

[5] Duarte Leite. op. cit., p. 538.

[6] “Aguentamo-nos assim o tempo duas noites com três dias havendo ao terceiro vista de terra, e, gritando todos: - Terra, terra, muito nos maravilhamos, porque não sabíamos que naquelas paragens houvesse terra alguma e mandando subir ao mastro dois homens, descobriram duas grandes ilhas (Ilha do cabo Verde), o que, sendo noticiado, demos graças a Deus Nosso Senhor que nos levava a ver coisas novas; porque bem sabíamos que destas ilhas não havia notícia alguma em Espanha (designação que abrange os países da Península Ibérica, aqui refere-se a Portugal) e, julgando nós que elas podiam ser habitadas, para saber o mais e provar nossa ventura, nos fizemos na volta de uma delas e em pouco tempo nos achamos perto”.
Luís de Cadamosto, «Viagens», in Grandes Viagens Portuguesas, selecção de Branquinho da Fonseca, 2 vols., 2.ª ed., Lisboa, Portugália Editora, s/d, vol. II, pp. 11-12.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O Paladino da Poesia Algarvia – Joaquim Magalhães


José Carlos Vilhena Mesquita

Procurando estabelecer um paralelismo comparativo entre a erudição e a generosidade intelectual, a bondade espiritual e a lisura de carácter, cheguei à triste conclusão que são atributos que muito raramente ornam a figura humana. Como raro é também caminharem juntos o percurso da vida numa só pessoa. Dei-me ao trabalho de procurar nos meus arquivos da cultura algarvia as personalidades que melhor preenchessem essas qualidades e virtudes. Confesso que entre os que possuíram essas virtudes e mais se assemelham entre si foram João de Deus e Joaquim Magalhães. A principal diferença entre ambos reside na distância cronológica e na confinação geográfica das suas acções cívicas. Um viveu e desenvolveu os seus principais projectos culturais em Lisboa e o outro quedou-se pela província, curiosamente a de que era originário o “poeta das crianças”.
Existindo, como creio, uma geopolítica da cultura, protegida pelo poder político, favoritista e centralizador, não admira pois que João de Deus se tenha alcandorado ao areópago das figuras nacionais, apontado como elemento definidor duma cultura e educador de gerações. As suas qualidades foram reconhecidas e o seu génio imortalizado. O Dr. Joaquim Magalhães embora mais humilde e menos ambicioso que o autor da Cartilha, nunca poderia guindar-se a altos voos porque destas terras de lendas e feitiços nunca se apartou. Em todo o caso viveram duas realidades político-culturais absolutamente diferenciadas, em dimensões cronológicas muito distantes, pelo que qualquer comparação entre ambos é sempre passível de incongruências e anacronismos.
No Algarve dos meados do século a vida cultural era incipiente, escassa e quase episódica. O regime vigente também não permitia grandes veleidades, pois encarava os intelectuais como subversivos e potenciais adversários. E quantas vezes o Dr. Joaquim Magalhães não sentiu a impossibilidade de ir mais longe, vendo-se coagido a silenciar as suas opiniões sobre a situação sociocultural em que o país vivia. Por vezes a mais elementar crítica de âmbito literário, quando dita em público, podia ser entendida como perniciosa e desafecta ao regime. Talvez para evitar mais sacrifícios e perseguições - até porque como professor estava sob a alçada do Estado - decidiu refrear as opiniões políticas, evitando confrontar-se com os esbirros do salazarismo. Provavelmente por isso, chegou mesmo a dar a impressão que pactuava com o regime, mas toda a gente sabia que o Dr. Magalhães era um indefectível democrata, cuja bondade de carácter não era capaz de estabelecer diferenças nem distinções entre bons e maus concidadãos.
Pela admiração que me merecia esse generoso amigo, senti um indescritível desgosto no passado dia 16 de Outubro de 1999 quando recebi a triste notícia do seu falecimento. Eram cinco horas da tarde quando um telefonema frio e repentino anunciava: Morreu o Dr. Magalhães. Senti um calafrio, um aperto sufocante no coração que me paralisou a voz. O meu ilustre conterrâneo, indefectível amigo e companheiro nas lides culturais algarvias, partia para sempre. Não sofreu, foi de repente, faleceu serenamente - confidenciou um seu familiar. Virou-se para o outro lado da vida, diria certamente o nosso comum amigo Pinheiro e Rosa, que tinha para a morte uma explicação de transitoriedade, uma espécie de mutação material para um estado de graça absolutamente espiritual, que pessoalmente prefiro qualificar como a prova da nossa impermanência existencial. A sua provecta idade, noventa anos acabados de concluir em Maio, não parecia ter-lhe diminuído a ânsia e viver. Bem pelo contrário, mostrava-se esperançado em romper o século e penetrar no novo milénio. Esta meta cronológica, carregada de fortes implicações psicológicas, sentia-a como uma barreira que desejava vencer. Todavia, uma recente intervenção cirúrgica ao esófago precarizara-lhe a saúde, agravada naturalmente pelo peso da idade. Vi-o definhar neste último verão. Notei-lhe uma grande quebra física, perdendo peso de uma forma irreversível, que o impossibilitou de andar e até de falar com o vigor a que nos havia acostumado. Senti-lhe o fim. Mas apesar de se temer o pior, mas nunca se está preparado para receber e aceitar a morte de um amigo.
Em boa verdade pode dizer-se que o Dr. Joaquim Magalhães foi uma personalidade ímpar e uma figura tutelar da cultura algarvia. Creio mesmo que terá sido o último de uma plêiade de intelectuais que marcaram profundamente a vivência cultural no Algarve. Alguns deles tive a honra de conhecer, como foi o caso do Dr. Mário Lyster Franco, o museólogo José António Pinheiro e Rosa, os publicistas Maurício Serafim Monteiro, Antero Nobre, Abílio Gouveia e Aníbal Guerreiro, os historiadores Alberto Iria, Garcia Domingues e Mariana Santos, os jurisconsultos Rita da Palma, Júlio Carrapato e Neves Anacleto, os poetas João Bráz e Leonel Neves, o escritor Vicente Campinas e o artista Manuel dos Santos Cabanas, além de outros que a memória atraiçoa.
Guardo do meu querido amigo Dr. Joaquim Magalhães as mais gratas recordações, nomeadamente os seus conselhos e ensinamentos, que nunca recusava a quem quer que fosse. Aliás, a sua principal característica era a generosidade. A sua grandeza humana definia-se em duas palavras: bondade e benevolência. É nesse sentido que se tornam mais entendíveis as palavras da escritora Lídia Jorge, quando na homenagem realizada na Livraria Odisseia afirmou: «O Dr. Joaquim Magalhães criou no Algarve uma autêntica família cultural e espiritual... era um homem bom de grande capacidade de envolvimento humano». Como teve a honra de aos catorze anos de idade ter sido sua aluna, recorda-se que «O Dr. Joaquim Magalhães ensinou-nos a saber ler que o silêncio das palavras é uma coisa muito importante... Aprendi com ele o fundamental para a minha vida».
É raríssimo ver-se hoje alguém da sua estirpe, mostrando-se desprendido e desinteressado nas coisas de que poderia beneficiar. E como poderia ter ido longe este homem se fosse um pouco mais ambicioso e não vivesse quase em exclusivo para os outros. Não era esse o seu feitio. Recusou sempre o exercício do poder, apenas aceitando o cargo de Reitor do Liceu de Faro, por ser essa a vontade dos seus colegas. Por isso costumava dizer com alguma ironia que «quem não vive para servir, não serve para viver», sendo inclusivamente esse o seu lema de vida. Esta máxima identifica claramente um homem desprendido de quaisquer vaidades, sem pretensões para ser mais do que um educador e um provocador de ideias e um descobridor de talentos. Mas não só. A sua afabilidade granjeava-lhe amizades tanto à esquerda como à direita, suscitando através da cultura uma convivência pluridimensionada, geradora de consensos e de tolerâncias. A lisura de carácter, que tanto o caracterizava, é uma das razões que me leva a considerá-lo como um paradigma do intelectualismo moderno, inspirado nos sublimes valores do classicismo florentino.
Acresce dizer também que, não obstante ser muito conhecida a sua máxima de vida (quem não vive para servir, não serve para viver), muitas vezes apregoou em público que se considerava um “algarvio nascido no Porto”, razão pela qual adoptou do seu conterrâneo Infante D. Henrique a divisa “talante de bem fazer” (talant de bien faire) para caracterizar a sua conduta sociocultural. Foi sobretudo essa vontade de fazer bem aos outros, usando largamente da paciência e da tolerância, para não ofender a ignorância nem a incompetência dos muitos que dele se cercavam, que obteve a aura de homem singular. Andarilho das ruas de Faro, visitava quase diariamente as sedes dos jornais, as livrarias e os escritórios de alguns amigos. Fazia-o como um ritual, em breves passagens à laia de “visita de médico”. Era só para dar de vaia, comentava em jeito de graça, e partia depois dos cumprimentos habituais. No seu passeio matinal era geralmente abordado por imensas pessoas. Escutava pacientemente quem o interpelava e nunca ouvi dizer que tivesse uma palavra, um comentário reprovador ou depreciativo para quem quer que fosse. Também não gostava de dar opiniões, porque receava que isso pudesse vir a causar dissabores ou a indispô-lo com alguém. Preferia agir como um autêntico diplomata - nem sim, nem não. Contudo, para que a conversa não azedasse tinha logo uma laracha para comparar à situação ou uma anedota para amenizar o clima de crispação. Ouvindo maus dizeres contra tanta gente, nunca foi capaz de “trazer e levar” as intriguinhas que adornam e fertilizam a nossa mesquinha sociedade. Posso afirmar, com pleno conhecimento de causa, que levei algum tempo até aceitar do Dr. Magalhães este silêncio, qual voto de confessionário, que o impedia de revelar as maledicências que lhe confidenciavam aqui e ali. Tinha uma “calma freudiana” que lhe refreava o ânimo e impedia de exteriorizar as emoções ofensivas. Foi então que me disse uma quadra de António Aleixo que nunca esquecerei:

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida
Não deixa de ser Razão.

A benemerência que espalhou foi de carácter espiritual, já que de ordem material não lhe era possível. Aliás, uma das queixas que lhe ouvi várias vezes prendia-se com a sua escassa reforma, nada consentânea com a sua especialização profissional, que noutros tempos era exigentíssima. Apesar disso, a Dr.ª Maria Aliete Galhoz afirmou, na homenagem acima referida, que o Dr. Magalhães após ter sido seu professor soube que as dificuldades económicas colocavam em causa a continuidade dos seus estudos na Universidade, pelo que de uma forma mecenática se ofereceu para lhe pagar as propinas, o que não chegou a ser necessário. Este gesto identifica bem o homem que ele era, as salutares preocupações que tinha com o sucesso dos seus alunos. Mesmo sabendo-se das suas dificuldades económicas, já que um professor ganhava pouco para as funções sociais que desempenhava. Por outro lado, o Dr. Joaquim Magalhães não prescindia das despesas inerentes a um intelectual, ou seja, comprava diariamente jornais e adquiria de livros, por mais dispendiosos que fossem.
Tínhamos em comum algo que nos unia profundamente: nascêramos ambos na mesma rua, a trinta passos de distância, como ele costumava dizer. Distanciavam-nos, porém, 46 anos de diferença. Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, de seu nome completo, nasceu na freguesia da Sé, na cidade do Porto a 3 de Maio de 1909, razão pela qual se intitulava como um “irmão mais velho da República”. Aprendeu as primeiras letras na escola primária de Massarelos, na cidade Invicta, transferindo-se pouco depois para São Martinho de Sande, no Marco de Canaveses, terra de origem dos seus ascendentes. Estudou depois no Colégio Francês e no Liceu Rodrigues de Freitas, ambos no Porto, em cuja Faculdade de Letras se licenciaria em Filologia Românica, com dezasseis valores, no ano de 1930. No ano seguinte iniciou o estágio pedagógico no Liceu Normal de Coimbra, relativo ao 2.º grupo nas disciplinas de Português e Francês. Foram dois anos extenuantes e de certo modo injustos, pois que durante o estágio não se recebia salário. Por isso, foi trabalhar na Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, no Colégio de S. Luís, em Espinho e no Internato de Sernache do Bom Jardim.
Em 1933 foi aprovado com dezassete valores no Exame de Estado no Liceu Normal Pedro Nunes em Lisboa. Ainda antes de ser colocado, no ano lectivo de 1933-34, no Liceu de Faro como professor agregado, O primeiro contacto com Faro durou apenas um ano, já que em 1934-35 concorreu para professor efectivo sendo colocado no Liceu Jaime Moniz, no Funchal. No ano seguinte tomava posse no Liceu de Faro como professor efectivo de Português e Francês, tendo até exercido funções de Director de Classe, Director de Ciclo, Vice-Reitor e Reitor entre 1968 e 1974, com a particularidade de não ter sido saneado com o «25 de Abril». Pelo contrário, merecendo a confiança dos colegas e das novas instituições teve a honra de ser o primeiro Presidente do Conselho de Gestão Democrática do Liceu de Faro. Durante esses quase quarenta anos de docência foi por diversas vezes requisitado para elaborar os pontos nacionais de exame da disciplina de Francês, assim era solicitado para aprovar os livros escolares da mesma língua e de Português.
Ao longo desses quarenta anos de docência deixou fortes marcas no espírito dos seus jovens alunos, que na sua maioria guardam dele as mais gratas recordações. Nesse aspecto parecem-me, mais uma vez, dignas de memória as palavras, aliás, bastante elucidativas, da escritora Lídia Jorge quando a esse respeito afirmou: «Para além do pensamento aberto ao mundo, ele [Dr. Joaquim Magalhães] faz parte de uma espécie de tendência de escola libertária, os únicos textos pedagógicos, didácticos de que eu me lembro e a que ele se referia nas aulas eram os textos de Rousseau. Dizia-nos que cada homem tem um saber dentro de si, tem é de o descobrir, foi a essa perspectiva que o Prof. Joaquim Magalhães foi capaz de se associar com um temperamento que estava perfeitamente coadunado para esse tipo de escola libertária. Por isso nós acabamos por ser tocados por ele.»
[1]
Também o seu ex-aluno e reputado poeta, Gastão Cruz, corrobora as influências deixadas pelo antigo mestre, salientando que o Dr. Joaquim Magalhães foi «uma pessoa que soube estimular os alunos no sentido de um aperfeiçoamento cultural. Era um homem que demonstrava aos seus alunos e não só, uma claridade, uma abertura de espírito e um grande estímulo para todos os que conviviam com ele.»[2]
A sua acção pedagógica foi notável, sendo ainda hoje lembrado como um professor que não preparava as lições como a maioria dos seus colegas, pois fazia da aula um acto de criação. Mas não foi só na sala de aula que o seu talento se evidenciava, pois que durante dezoito anos preparou as récitas de teatro dos finalistas do Liceu, cabendo-lhe a encenação de obras de autores consagrados como Garrett, Gil Vicente, Camilo, António José da Silva (O Judeu), Ramada Curto, Júlio Dinis e Moliére. Alguns dos seus antigos alunos ficavam bastante surpreendidos com a forma como o Dr. Magalhães se dedicava ao teatro, explicando as cenas e imaginando as emoções do autor quando as escreveu. Ainda recentemente, na sua última homenagem pública realizada na Livraria Odisseia no dia 9 de Outubro, a Prof. Doutora Teresa Rita Lopes e a Prof. Aliete Galhoz, recordavam com saudade alguns desses momentos em que a criatividade e a sensibilidade artística do Dr. Magalhães conseguiam fazer dos ensaios verdadeiras homenagens à arte de Talma.
Como agente promotor da cultura a sua acção na sociedade farense foi a todos os títulos exemplar. Merece especial menção a sua participação na fundação da Alliance Française, de que foi o último presidente. Pertenceu com Lionel de Roulet e o Dr. Fernandes Lopes, ao grupo fundador do Círculo Cultural Camões, que durante a guerra se haveria de transformar no Círculo Cultural do Algarve, ao qual presidiu desde 1943 até 1970. Importa acrescentar que o Círculo foi uma espécie de bolsa de resistência intelectual ao fascismo, ali se realizando várias exposições, conferências, colóquios e até cursos intensivos sobre assuntos que não agradavam à situação política. Inclusivamente alguns dos conferencistas e prelectores eram claramente desafectos ao regime salazarista, o que originava constantes visitas dos agentes da PIDE. Além de desagradável a situação chegava por vezes a ser atemorizante, pois podia ocasionar a detenção do palestrante e o encerramento do Círculo.
Apesar da sua honorabilidade o próprio Dr. Joaquim Magalhães chegou a temer pela sua segurança, quando numa das suas acostumadas palestras literárias encarou na assistência com um agente da polícia secreta. O caso não passou de um susto, com uma certa graça, que o Dr. Magalhães descreveu nos seguintes termos: «Fui passar férias e encontrei na casa do meu avô, em Marco de Canavezes, um livro de poemas de Olindo Cabral, abade de Jazende. Achei interessante para apresentar uma conferência. Quando já estava quase no fim vi na sala um PIDE que já conhecia por ter lá ido fazer apreensões de livros. Fiquei perturbado a pensar o que é que ele quereria. No fim da conferência ele aproximou-se de mim e disse que estava curioso em saber quem tinha sido o abade de Jazende porque ele era natural daquela freguesia. Foi uma grande surpresa saber que um agente da repressão podia também ter curiosidade literária.».
[3]
Fundou igualmente o Cine Clube de Faro e o Conservatório Regional do Algarve, a cujo Conselho Administrativo presidiu durante catorze anos. Estas foram as instituições a que mais se dedicou. Porém, outras houve que igualmente beneficiaram do seu esforço como a Misericórdia de Faro, de que foi Vice-Provedor e Provedor, a Mutualidade Popular de que foi Presidente, a Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes Mentais em Faro, e a Câmara Corporativa a que foi Procurador entre 1973-74 em representação das Associações de Socorros Mútuos ao Sul do Tejo. Pertenceu a certos organismos autárquicos de carácter consultivo, como foi o caso do Conselho Municipal de Faro, da Comissão Municipal de Turismo e da Comissão de Arte e Arqueologia de Faro. Julgo também que terá sido um dos primeiros membros do Rotary Clube de Faro, da Cruz Vermelha e de tantas outras associações locais e regionais.
Importa referir que não obstante a sua reconhecida independência política, o certo é que o Dr. Joaquim Magalhães aceitou tomar parte nas comissões distritais eleitorais das candidaturas de Norton de Matos e do general Humberto Delgado. Recentemente foi mandatário regional da segunda candidatura do Dr. Mário Soares à presidência da república, para a qual, como se sabe seria eleito por esmagadora maioria.
Em reconhecimento da sua dedicação à cidade de Faro, às instituições culturais e ao associativismo filantrópico, foi agraciado pela autarquia com as medalhas de Grau Ouro da Câmara Municipal de Faro e Grau Prata da Câmara Municipal de Tavira, culminando em 1995 com a atribuição da Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Porém a mais digna e a mais sentida homenagem pública que se lhe prestou em vida ocorreu em 16 de Setembro de 1991, quando foi atribuído o seu nome à Escola C+S n.º 2 de Faro, que hoje ostenta orgulhosamente a designação de Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Dr. Joaquim Magalhães. Essa foi justamente a mais coerente e perpectualizante homenagem da sua longa e nobre existência.
Estreou-se na imprensa algarvia nos meados da década de trinta tornando-se logo num assíduo e respeitável colaborador, a ponto de lhe ter pertencido durante trinta anos a secção «Sete Dias da Semana» no semanário farense O Algarve, do qual viria mesmo a ser Director entre 1981 e 1983. Colaborou também na Voz de Loulé, no Correio do Sul (Faro), no Povo Algarvio (Tavira), no Jornal do Algarve (V. R. St.º António), nos órgãos estudantis do Liceu de Faro, etc, etc.
Pronunciou largas dezenas de conferências no Algarve, Funchal, Setúbal, Lisboa e Porto, concitando sempre numerosas audiências. A forma como teatralizava a palavra, aliada a uma dicção cristalina, ao estilo coimbrão, proporcionou-lhe a justa fama de orador. Onde quer que fosse palestrar era certo e sabido que tinha a sala cheia. A sua coroa de glória, fruto do seu bom coração, surgiu nos anos quarenta quando deu atenção a um simples cauteleiro que nas ruas de Faro apregoava a “sorte grande”, bonificando os seus clientes com quadras populares a que só um espírito superior como o do Dr. Magalhães sabia dar valor. Esse simples cauteleiro era o poeta António Aleixo, figura popular e de parcas posses, a que a sociedade burguesa dava pouca importância. Era quase analfabeto, porém o Dr. Magalhães soube ver nele um verdadeiro filósofo, que escutou e apoiou, fazendo-se orgulhosamente seu “secretário”.

Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu:
Tenho como secretário
Um professor do Liceu.
O tal Aleixo, o poeta,
Que dizem ser de Loulé,
É uma figura incompleta
Sem o Magalhães ao pé.

Essa prova de humildade chegou mesmo a ser criticada no tempo, visto ser indício de um certo bolchevismo, perigoso e desafecto ao regime vigente. Mas o Dr. Joaquim Magalhães não ligou importância e prosseguiu o seu trabalho de compilar, e certamente corrigir (senão mesmo melhorar), as quadras do Aleixo que deu à estampa num pequeno livro intitulado Quando Começo a Cantar, editado em 1943 pelo Círculo Cultural do Algarve. E foi logo um sucesso, já que o autor com a venda do mesmo apurou cerca de vinte e cinco contos, que o ajudaram a combater a tuberculose que infelizmente o haveria de vitimar. Apesar de Tóssan haver incentivado o poeta Aleixo, no Sanatório dos Covões, em Coimbra, a escrever e publicar os Autos da Vida e da Morte e do Curandeiro, divulgando assim o seu talento junto da academia coimbrã, o que certo é que pertenceu ao Dr. Magalhães a humildade e a generosidade de resgatar o simples cauteleiro do anonimato a que estava condenado, fazendo dele um poeta de renome e prestígio nacional. A bem dizer quem “fez” o poeta Aleixo foi o Dr. Joaquim Magalhães, a quem aliás dedicou o seu primeiro livro, intitulado Romance do Poeta Aleixo, editado em 1959.
Para além de tudo isto, merece especial destaque o facto de haver pertencido ao grupo de intelectuais que liderou o movimento literário da «Presença», ao lado de Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, José Régio, Miguel Torga e Adolfo Casais Monteiro. Os “presencistas” foram os grandes difusores do Modernismo em Portugal, contra o academismo e o jornalismo ronceiro, favoráveis a uma literatura viva, sendo por isso os herdeiros naturais do movimento do Orpheu. O Dr. Joaquim Magalhães colaborou com o grupo, carteou-se com a maioria dos seus impulsionadores, e quando no início da década passada se fez em Faro uma exposição sobre o movimento da Presença, o Dr. David Mourão Ferreira teve a hombridade de apontar, destacar e enaltecer a figura do Dr. Joaquim Magalhães como um dos últimos resistentes do movimento da Presença.
Por fim, importa salientar a sua faceta de “pai dos poetas”, como ficou conhecido após ter lançado António Aleixo. Neste rincão de poesia e viveiro de poetas, que é o Algarve, poucos foram os que não se acercaram do Dr. Magalhães pedindo-lhe que apadrinhasse a sua estreia literária com um prefácio ou umas simples palavras de abertura, que pudessem dar a entender que as suas obras tinham préstimo e os seus autores sobejo talento. Nunca negou essa paterna bênção, como também nunca soube dizer não a ninguém. Nem mesmo quando sabia que dificilmente conseguiria gerir os seus compromissos. Escreveu prefácios, apresentou livros e fez palestras sobre poesia popular em todo o Algarve, tornando-se no intelectual mais conhecido da região. Fez parte de júris em Jogos Florais e concursos literários, dando com a sua presença muita da credibilidade e do prestígio que faltava à maioria desses certames.
No âmbito da crítica literária escreveu dezenas de apreciações não só relativas às obras que acabavam de ver a luz da estampa como também sobre autores da moderna literatura portuguesa. Acima de tudo importa acrescentar que foi talvez o único intelectual que neste país teve a ousadia de descrer e, diria mesmo, desacreditar a poesia de António Ramos Rosa. Nada tinha a objectar contra o abstraccionismo poético, que não raras vezes até lhe agradava, mas incomodava-se com o pseudo-intelectualismo daqueles que, fazendo versos que ninguém entendia, passavam por ser mais inteligentes do que os outros poetas. Da poesia de Ramos Rosa dizia mesmo que se tratava de prosa às escadinhas ou texto retalhado no açougue dos cenáculos lisboetas.
A sua obra poderia ter sido vastíssima se em vida se tivesse preocupado em reunir em livro o melhor e a maior parte do que escrevia. Por isso, acaba por ser considerada escassa. Em boa verdade serviu a cultura sem dela se servir. Não obstante publicou os seguintes trabalhos:

O Romance do Poeta Aleixo, 1959.
Perfil literário de Teixeira Gomes, 1960.
Aventura Poética de Emiliano da Costa, 1962.
Ao Encontro de António Aleixo, 1977.
João de Deus, esse desconhecido, 1995.
Pretérito Imperfeito - Quadras e Lírica, 1996.
Cartas Sem Código Postal, 1999.

Não é uma numerosa e farta lista de obras, como certamente sugere e pressupõe o seu grande prestígio intelectual. Mas as suas preocupações científicas foram quase sempre ultrapassadas pela inimitável missão pedagógica a que votou toda a sua vida. Não gozou da disponibilidade necessária para se dedicar à investigação por inteiro, deixando-se absorver pela divulgação, quer através de centenas de artigos nos jornais, quer através das inúmeras conferências pronunciadas em quase todo o país. Nunca foi capaz de se furtar ou simplesmente recusar as solicitações que lhe eram dirigidas, sobejando-lhe pouco tempo livre para se ocupar na investigação literária. Tinha disso consciência pois numa quadra, ao jeito aleixiano, retratou assim a situação:

Cada um é como é,
e, por isso, eu sou assim,
dei todo o meu tempo aos outros,
fiquei sem tempo para mim.

Para encerrar esta já longa notícia biográfica, não posso deixar passar em claro a nossa convivência particular e a amizade cimentada ao longo de vinte anos. Lembro-me que estivemos juntos em várias iniciativas e que convivíamos diariamente na delegação do «Diário de Notícias», em Faro, onde fui colaborador regional desde 1981 a 1989. Era um regalo ouvi-lo recordar certos autores consagrados com quem privara, e, sobretudo, ouvi-lo comentar as obras que acabavam de surgir nos escaparates, às quais dava sempre grande atenção. Era aliás um inveterado cliente da Livraria do Diário de Notícias, situada na Rua Vasco da Gama, nos baixos da Secretaria de Estado da Cultura. Recordo-me que o Prof. Tomás Ribas quase sempre descia à Livraria pelas onze da manhã, hora da visita do Dr. Magalhães, sendo deliciosas de humor e de chiste político as análises que ambos faziam sobre as mais diversas situações. O Tomás Ribas tinha um humor sardónico, a que nada nem ninguém escapava, e com isso se divertia imenso o pobre do Dr. Magalhães, que sempre foi muito comedido nas suas apreciações, sobretudo quando relativas ao talento e capacidades das pessoas. Eram duas personalidades ímpares na sociedade farense da década de oitenta e tanto a Livraria como a Redacção do Diário de Notícias eram um ponto de passagem e de reunião diária da intelectualidade local e até mesmo do Algarve inteiro. Chegou a ser um ponto de referência para a convivência cultural, que hoje se perdeu e se desactivou completamente. Por ali passavam regularmente o Prof. Pinheiro e Rosa, o Antero Nobre, o Prof. Doutor Gomes Guerreiro, que era o Reitor da Universidade do Algarve, a Dr.ª Mariana Machado Santos, o Dr. Fernandes Mascarenhas, o Dr. Elviro da Rocha Gomes, e esporadicamente o Tóssan, Casimiro de Brito, Carlos Albino e sua esposa Lídia Jorge, o bibliófilo Tavares Simões, o Dr. Tello Queirós, etc.
Pertencemos juntos à Direcção da Associação da Imprensa Regional do Algarve (AIRA), fundada pelo não menos saudoso amigo Antero Nobre. Estive, igualmente, com ambos na fundação da ADEIPA – Associação para a Defesa do Património de Faro, infelizmente já extinta. Participei, ao seu lado, na criação da Universidade para a Terceira Idade, onde leccionei gratuitamente nos dois primeiros anos de existência. Estivemos juntos em júris de Jogos Florais e em várias homenagens onde pronunciamos conferências lado a lado. Recordo-me de um caso exemplar; aconteceu a 15-6-1996, nas Comemorações do 3.º Centenário da Freguesia de Olhão, no âmbito das quais se homenageou nessa data a obra científica do Dr. Alberto Iria, um dos mais ilustres historiadores deste século e certamente uma das mais gradas figuras nascidas naquela vila piscatória. Quem abriu a cerimónia foi o Antero Nobre que nos apresentou como palestrantes, tocando ao Dr. Magalhães o elogio do Autor e a mim o elogio da Obra. Encontrava-se ao nosso lado um enorme retrato do Dr. Alberto Iria, e lembro-me da forma magistral como o Dr. Magalhães se lhe dirigiu, numa espécie de diálogo vivo, por vezes quente e arrebatador, que nos fez rir e chorar, numa mesclagem de sentimentos e emoções como só ele era capaz de suscitar. A numerosa assistência, representativa das principais autoridades políticas e culturais da região, ficou profundamente extasiada com o seu talento de orador, que ao teatralizar um monólogo com o homenageado recentemente desaparecido, parecia dar a entender que ele estava ali entre nós. Nunca vi nada parecido e só um homem de grande talento como o Dr. Magalhães é que era capaz de encenar um diálogo tão realista e emocionante.
Ainda recentemente, durante a apresentação na do seu último livro editado pela Câmara de Tavira, fizemos projectos para o futuro, nomeadamente o encerramento das comemorações centenárias de António Aleixo por intermédio da AJEA, o que infelizmente já não realizaremos em respeito pela sua memória. Em todo o caso não quero terminar esta sentida evocação de homenagem pela perda de um grande amigo, sem afirmar que o Dr. Joaquim Magalhães deixa na memória de todos quantos com ele privaram a mais profunda saudade. Sinto, tal como o Algarve, uma impagável dívida de gratidão.
No cemitério de Loulé repousa no sono eterno, e quase ao lado de António Aleixo, aquele que foi considerado como o “pai dos poetas” do Algarve.
Perdemos um homem bom, que se algum erro cometeu na vida esse foi certamente o de ser generoso numa terra de ingratos.



NOTAS

[1] A Avezinha, 21-10-1999.

[2] Idem, ibidem.

[3] Jornal do Algarve, Magazine, n.º 2191, de 25-3-1999, p. 15.




Nota: este texto foi publicado na revista «Stilus» nº 2.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O primeiro jornal diário de Faro


José Carlos Vilhena Mesquita

Numa altura em que acabamos de assistir em Faro à fundação da edição Algarve do Diário do Sul, convirá, talvez, falar um pouco daquele que há mais de um século atrás apareceu pela primeira vez na capital algarvia com uma periodicidade diária regular e constante.
Fundado a 8 de Dezembro de 1880 para servir de arauto a um grupo de progressistas que se havia radicado na capital algarvia, teve O Progresso do Algarve, apesar da sua efémera existência, o mérito de ser o segundo diário a sul do Tejo, editado oito anos depois do célebre Diário do Algarve, fundado em Dezembro de 1872 na cidade de Lagos. Foi seu director o jornalista Luiz Sepulveda Pimentel Mascarenhas, natural de Portimão, figura marcante nos meios político-intelectuais de então, brilhante orador e dedicado pedagogo, que faleceu em Faro a 30-1-1920. À data do seu desaparecimento era ainda grande polemista e desde Abril de 1917 que dirigia o semanário farense O Algarve, que ajudara a fundar em 1908, e que por ainda hoje se publicar é justa e merecidamente considerado o decano da imprensa algarvia.
Publicava-se primeiramente como bissemanário às quartas e sábados e teve vários subtítulos, desde «Órgão da Política Progressista Algarvio», passando a «Folha afecta ao Partido Progressista» e terminando em «Órgão do Partido Progressista Algarvio». Estas constantes mudanças devem-se fundamentalmente às lutas intestinas dos progressistas algarvios que acabaram por se dividir em dois grupos: os “rabinos” e os “fajardos”. Aos primeiros pertenceram o Dr. Manuel Águedo Gomes de Miranda, natural de Moncorvo, Luiz Mascarenhas, de Portimão, o farmacêutico João Agostinho Ferreira Chaves e o Dr. António Frederico Gomes, ambos de Faro. Dos “fajardos” faziam parte o Dr. Manuel Joaquim d'Almeida, natural de Aveiro P.e Manuel José Gonçalves Osório, nascido em Bragança, e os irmãos Drs. Frederico e Francisco Lázaro Cortes, ambos de Faro.
Suponho que iniciou a sua publicação diária numa terça-feira a 18 de Abril de 1882 com o n.º 142 prolongando-se até ao n.º 225 de 18 de Julho desse ano, voltando à sua periodicidade normal de bissemanário desta feita às quintas e domingos. No total publicaram-se apenas 93 números diários, sendo hoje considerados ultra-raros, para além de com toda a certeza não existir, uma colecção completa deste jornal. Pessoalmente conheço apenas a colecção incompleta e bastante esparsa do Sr. José Manuel Bivar, muito possivelmente a única que subsiste deste título.
Entre os seus colaboradores mais assíduos merecem especial menção os nomes de Brotas Cardoso, desenhador de obras públicas, o veterinário Anes Baganha, o secretário-geral do governo civil Dr. Álvaro de Mendonça e o Dr. António Frederico Gomes, todos há muito desaparecidos. Possuía ainda nas suas fileiras três jornalistas remunerados: Silva Pontes, natural de Faro, José Bernardo de Aragão Teixeira, de Loulé, e o correspondente em Lisboa, António Eduardo de Macedo Ortigão, igualmente nascido em Faro, oficial do Real Arquivo da Torre do Tombo, 1.º conservador da Biblioteca Nacional, director da secretaria geral das Bibliotecas e Arquivos Nacionais, colaborador de vários diários lisboetas, redactor de O Século e do Diário de Notícias, onde trabalhou até ao seu falecimento ocorrido em 31-1-1931. De salientar que quando Macedo Ortigão vinha passar as suas férias à terra natal encarregava-se de escrever, quase na totalidade, O Progresso do Algarve, a ele se ficando a dever acesas polémicas com o seu adversário regenerador o Districto de Faro, dirigido pelo brilhante jornalista e agente consular António Bernardo da Cruz. Ambos os periódicos constituem ao presente das fontes mais importantes para o estudo da História Contemporânea do Algarve, havendo apenas a lamentar a falta das suas colecções completas. Vem a talhe de foice acrescentar que do Districto de Faro a mais completa colecção que se conhece comprei-a eu recentemente aos herdeiros do comendador Ferreira Neto.
Possuía tipografia própria adquirida ao Defesa do Povo, que se publicou em Silves de 15 de Setembro de 1878 até 8 de Dezembro de 1880, a qual já havia pertencido ao Correio do Meio Dia (fundado em 24-5-1874 e extinto a 13-1-1878) e ao Jornal dos Artistas (11-11-1875 a 20-7-1877), ambos periódicos de Portimão. Teve a Redacção e Administração sediada na Rua de S. Pedro n.º 5 e era propriedade do Centro Progressista de Faro, designação que manteve no cabeçalho até à já referida cisão do partido. Apresentava-se com um formato de 4 pp., no tamanho de 320x435 mm., sendo a sua mancha tipográfica de 285x410 mm, diminuindo na fase diária as suas proporções para 260x380 mm., com mancha de 230x325 mm. Tinha cinco colunas como bissemanário e quatro como diário, sempre impresso a preto e raramente ilustrado. O papel era fraco, a paginação corrida e a impressão era francamente medíocre. Os caracteres tipográficos apresentavam-se gastos e o título, impresso a negro, tinha a dimensão de 230x50 mm., inserindo na sua fase diária o subtítulo: «Folha diária do Partido Progressista». Custava avulso 30 réis e a assinatura trimestral era de 750 rs., passando na sua fase diária a 10 rs. Avulso, mantendo o preço anterior da assinatura. A publicidade “de interesse particular” pagava-se a 40 rs/linha e os anúncios vulgares a 20 rs/ /linha, cabendo aos assinantes um desconto de 25%, sendo por isso a última página integralmente preenchida pelos anunciantes do comércio e indústrias locais. A inventariação e sobrepesagem dessa publicidade no contexto socioeconómico da sociedade farense, constitui trabalho de muito interesse para o estudo das potencialidades da região nos finais do século passado. No rodapé da 1.ª página publicava-se sempre um folhetim, e de entre os muitos que ali se deram a público permita-se-me destacar «Uma Canção Romântica» de Pinheiro Chagas e «Os Piratas» de Frederico Marryat, por serem aqueles que mais aceitação tiveram entre os leitores farenses.
Manteve o Progresso do Algarve, como já se disse, demoradas campanhas e acesas polémicas contra o Districto de Faro, nomeadamente acerca da tisana Assis, que se dizia ser uma ligeira alteração do célebre “Chá Zithman”, especialmente indicado na cura da sífilis, facto que atraiu a Faro largos milhares de doentes, que enriqueceram os seus promotores e o comércio local. Nessa época custava cada tisana 3000 réis e o tratamento prolongava-se por cerca de um mês. Os doentes acorriam ao Algarve através de carreiras marítimas oriundas praticamente de todo o mundo ficando, por isso, a cidade de Faro conhecida pela “Meca dos sifilíticos”. O negócio remonta ao aparecimento no Algarve do Dr. Constantino Cúmano, italiano refugiado de perseguições políticas, que durante a sua estadia em Faro doara ao seu confidente e fiel amigo José Maria Assis o segredo de uma tisana que curava o flagelo da sífilis. Convém, já agora, lembrar que o Assis embora fosse barbeiro de profissão era um homem culto, de boa índole e a sua arte em nada se assemelhava à dos seus actuais colegas de profissão. No fundo ele era um misto de enfermeiro, veterinário, farmacêutico, dentista, etc... Portanto, o facto de ser “barbeiro” não queria dizer que se dedicasse propriamente a desfazer barbas e a cortar cabelo.
Quando o médico italiano regressou à sua pátria ficou o Assis na posse de um florescente negócio, que o tornou conhecido no país, nas colónias e até no Brasil, de onde vinham periodicamente centenas de sifilíticos, que enchiam os hotéis e pensões locais, para além da “Casa de Saúde” na Rua Infante D. Henrique, onde hoje se encontram os serviços da Caixa de Previdência.
Foi igualmente feroz a campanha encetada em 1885 contra Dr. António Centeno, na altura Governador Civil do Algarve e, mais tarde, presidente do conselho de administração das Companhias Reunidas Gás e Electricidade, a quem o jornal chamava o “Sem tino”. A dignidade daquele ilustre advogado e publicista, fundador do Correio Português, proprietário do Diário Popular e presidente da Associação Industrial Portuguesa, foi por várias vezes achincalhada de uma forma absolutamente injusta e escusada, até porque também ele militava nas fileiras do Partido Progressista.
Para terminar, resta-me salientar a importância deste efémero diário farense, o segundo que se publicou nesta província, para o estudo dos partidos monárquicos no Algarve e para a História da Imprensa Progressista em Portugal, sem falar já no seu primordial interesse para a realização de uma futura monografia da cidade de Faro.