J. C. Vilhena Mesquita
Sempre que me lembro da vetusta aldeia da Fuzeta ou se por mero acaso os meus caminhos se cruzam com aquela praia de pescadores, ocorre-me logo à lembrança a memória do meu saudoso amigo Reis d’Andrade, que sempre carinhosa e fraternalmente tratei por João de Deus. Era um espírito de eleição e de rara camaradagem, sempre pronto a colaborar em iniciativas de carácter jornalístico, cultural e até desportivo, desde que nelas saísse em relevo a sua “Branca Noiva do Mar”, epíteto por si criado para designar a sua aldeia natal da Fuzeta. Receando que a lembrança da sua memória se vá esvanecendo no coração dos seus conterrâneos, e temendo que os mais jovens ignorem a sua projecção no actual panorama da cultura algarvia, julguei que seria de toda a justiça trazer a estas colunas um breve escorço da sua vida e da sua obra literária.
João de Deus dos Reis Andrade, de seu nome completo, nasceu na aldeia piscatória da Fuzeta a 26-5-1932 e faleceu no Hospital de Faro a 15-3-1998, com 65 anos de idade. Foi poeta, dramaturgo e notável jornalista, sendo, acima de tudo, um homem culto e de grande inteligência, que ao longo da vida se tornou numa respeitada figura da cultura olhanense, cedo evidenciando múltiplos recursos intelectuais, não só como homem de letras, mas também como artista plástico, músico e até como filatelista, já que possuía uma colecção de selos de incontestável valor e interesse cultural. Viveu praticamente a vida inteira na sua Fuzeta natal, onde desempenhou durante décadas as funções de chefe da Secção das Lotas e Vendagem de Peixe. Como no exercício dessas funções sempre cuidasse de zelar pelos interesses dos seus conterrâneos, e como era muito dedicado às coisas da cultura e do desporto local, depressa se tornou no fuzetense mais conhecido no Algarve.

Na verdade, Reis d’Andrade foi na aldeia da Fuzeta um autêntico animador cultural, incentivando sucessivas gerações de jovens a experimentarem o fascínio da Arte de Talma. Ensaiou várias peças de autores nacionais, mas também se lhe ficaram a dever, como dramaturgo de incontestável talento, a autoria de dezenas de peças, que escreveu propositadamente para o Grupo Artístico Fuzetense, uma agremiação de amadores que ele próprio fundou. Por mera curiosidade lembramos aqui algumas das suas peças de maior sucesso que foram representadas por todo o Algarve, cujos títulos passamos a citar, numa sequência que não corresponde à ordem cronológica da sua apresentação pública: A Lenda das Duas Cidades, Histórias da Minha Aldeia, A Branca Noiva do Mar, Os Filhos do Ti Leandro, Alguidares de Barro, Quem Conta um Conto..., Cégada no Carnaval, Quem Matou Juanita Banana, A Grande Excursão, A Grande Farra, As Surdas, As Criadinhas, Os Cravos Vermelhos, etc. Destas só a última foi impressa em livro, talvez por ser dedicada ao «25 de Abril», e, por isso, manter um interesse histórico de âmbito nacional. As suas peças revestiam-se de grande influência regionalista, não só na inspiração temática, como até na caracterização das personagens, nos seus dizeres locais e nas suas indumentárias particulares. Desse modo facilmente o público conseguia distinguir um alentejano, um lisboeta ou um turista estrangeiro, como também entre os algarvios se destrinçava pelo sotaque um olhanense dum farense, ou um lacobrigense dum vilarealense.
A sua paixão pela música levou-o a organizar e a compor as marchas que por ocasião dos Santos Populares se realizavam na Fuzeta, reavivando festejos que haviam caído em desuso. Mas também criou novas festas, como as que realizou em honra de Nossa Senhora do Carmo, para satisfação do fervoroso culto dos marítimos fuzetenses. Nos domínios do profano, acresce dizer que o seu talento de compositor revelou-se não só na música ligeira, como também nas canções populares com que recriou as velhas “estudantinas” que percorriam as artérias de Olhão e de Faro. Curiosamente era um dos mais antigos precursores da música Jazz no Algarve, chegando mesmo a tocar em bares ou em privado com grupos de jovens admiradores das novas correntes musicais, que nos anos cinquenta e sessenta chegavam da América. Era, aliás, dos poucos que na sua aldeia possuía a carteira de músico profissional.
Como artista plástico Reis d’Andrade nunca tratou de prestar justiça nem divulgação ao seu incontestável talento. Desenhava impecavelmente. E não raras vezes caricaturava os amigos, os políticos, os escritores, os artistas e até os jogadores do seu Benfica com um primoroso traço artístico. Existem na posse da família e dos amigos belos quadros representando cenas da faina marítima, pessoas, monumentos e até paisagens campestres. Pintava os próprios cenários para o teatro amador, cujas peças, como já dissemos, era ele mesmo que escrevia e encenava. Esta associação da escrita com o desenho, com as artes cénicas e até com a música, são raras e difíceis de conjugar num homem só, daí o seu inestimável talento e a sua invulgar polivalência intelectual.
No convívio social (sei-o bem porque tive a sorte de ter sido seu amigo) irradiava uma cativante simpatia que prendia os que com ele lidaram de perto, não só pelos seus dotes de oratória como também pelo humor com que descrevia as pessoas e as situações da vida política no Algarve ou no país. Por isso tinha amigos em todo o lado, mesmo até no estrangeiro, mercê da amabilidade com que tratava os turistas que passavam pela praia da Fuzeta. Havia turistas que lhe escreviam a agradecer a afabilidade do seu convívio ou as ajudas prestadas durante as férias no Algarve.
Como escritor possuía uma veia sarcástica de inspiração queirosiana, que se tornaria na sua imagem de marca, não só nas peças de teatro como também nas colunas dos jornais. O seu inconfundível humorismo lusitano deixou-o bem patente na rubrica “O Alto da Torre” que assinou de parceria com o jornalista João Leal no «Jornal do Algarve», em que colaborou, quase ininterruptamente, durante quarenta anos. Nessas colunas ficaram famosas as suas crónicas, de fino recorte humorístico e de acerada crítica social, malhando nos costados da nossa secular incompetência, quer fosse política, económica, cultural, artística ou desportiva. Aliás, o Reis d‘Andrade possuía uma prodigiosa memória, na qual arquivou durante anos certos episódios e figuras típicas do nosso bacoco provincianismo, que por vezes ressuscitava com hilariantes comparações aos tempos actuais. A figura do “ti-Lopinhos” que usava nas suas crónicas jornalísticas era uma espécie de consciência crítica das nossas incapacidades, das nossas vaidades, do nosso balofo patriotismo e do nosso injustificado nacionalismo. Por outro lado, a sua “memória de elefante” servia de tira-teimas nas discussões sobre os nomes dos antigos jogadores de futebol do Olhanense ou do Farense (então do Benfica sabia o nome de todos), os resultados dos desafios, as figuras e datas históricas, as capitais dos países, os nomes de artistas de cinema e do teatro português... enfim, era uma verdadeira enciclopédia de curiosidades e do bric-à-brac do saber universal. Lembro-me até da facilidade e rapidez com que fazia as “palavras-cruzadas” publicadas nos jornais diários. Também era exímio na resolução dos quadros de xadrez, damas, “quebra-cabeças” e “charadas” que os jornais inseriam nas suas edições dominicais. A sua inteligência era não só prodigiosa como verdadeiramente relampejante.
Os créditos jornalísticos ganhou-os ao serviço do «Século», na qualidade de correspondente e colaborador eventual, muito anos antes de se tornar conhecido como cronista do «Jornal do Algarve». Em todo o caso não se cingiu apenas a esse semanário vilarealense, pois que graciosa e desinteressadamente dispersou a sua colaboração por outros órgãos locais, nomeadamente pelo «Correio do Sul», «O Algarve», «Voz de Olhão», «O Olhanense», «O Algarve Desportivo», etc. Além disso, trabalhou na Rádio como jornalista e locutor, fazendo ouvir a sua bela voz de tenor em todo o Algarve.
Não podemos esquecer também que se lhe ficou a dever a organização dos Jogos Florais da Fuzeta, que anualmente ainda se realizam pela mão de Maria José Fraqueza, no encerramento dos quais nunca deixou de prestar homenagem à memória do seu fundador e dilecto conterrâneo.
Como filatelista fez exposições de grande valor e insofismável mérito nacional, deixando uma invejável colecção de muitos milhares de selos para ser prosseguida pelos seus herdeiros. Ao espírito irrequieto e criativo de Reis d’Andrade deve a freguesia da Fuzeta muito do seu desenvolvimento cultural, sobretudo por ter resgatado do anonimato uma simples praia de pescadores que epitetou de «Branca Noiva do Mar», numa feliz alusão à paixão, aos perigos e às ilusões, que aquele humilde povo sente pelo meio físico que lhe deu o cerne.
Pouco antes de falecer, e quando já se encontrava muito doente, o seu amigo e notável homem de Letras, Ofir Chagas, com a cumplicidade da família, mandou editar, em 1997, o Auto dos Cravos Vermelhos, que constitui a mais apreciada e a mais representada das suas peças de teatro.
A Junta de Freguesia da Fuzeta preiteou a memória de Reis de Andrade numa cerimónia pública realizada a 20-6-2000 materializada no descerramento um painel azulejado com desenhos da autoria do próprio homenageado.
Como seu amigo e admirador, não posso deixar de acrescentar que o João de Deus dos Reis Andrade foi uma figura ímpar da imprensa regional e da cultura algarvia. Quem dele se abeirava ficava logo sensibilizado com a sua inimitável boa disposição, com as suas amabilidades e o seu britânico cavalheirismo, visivelmente destacado na maneira elegante de vestir, com um aristocrático papillon e um cachimbo de tabaco perfumado, que, por outro lado, lhe dava o semblante do inspector Maigret. As suas conversas quase sempre desembocavam na aldeia da Fuzeta, nas suas figuras típicas e nas histórias edificantes daquele humilde povo de pescadores. No fundo o Reis d’Andrade personificava a própria Fuzeta, porque quem conhecia a aldeia conhecia-o a ele, pois que se lhe devia na imprensa de quase todo o país a divulgação dessa mítica aldeia de heróicos bacalhoeiros.
Lembro-me a todo o instante do seu bom humor e das suas altissonantes gargalhadas que a ninguém deixavam indiferente. Ao seu lado reinava a boa disposição e a amizade, porque sabia cativar e conservar os amigos, nunca deixando que entre si se interpusesse a maledicência, a intriga, a hipocrisia, o cinismo e o ódio. Não tinha inimigos porque amava a vida e à sua volta fazia todos felizes com ditos sarcásticos, anedotas hilariantes, divertidas cançonetas, imitações burlescas, sonoridades cómicas, enfim... reunia uma infinidade de recursos e aptidões para provocar a alegria e a boa disposição.
Nunca ouvi da boca do Reis d’Andrade uma palavra em desabono de alguém. E neste Algarve, onde campeia a inveja, a hipocrisia, a calúnia e a maledicência, raros eram os que tinham a ousadia de falar mal dele. E se alguém lhe levava ao conhecimento esse prato de fel, recebia em troca bem-humoradas palavras que deixavam as orelhas a arder, tanto de quem as pronunciara como de quem lhas trouxera. Até nisso demonstrava que era um homem raro, incapaz de guardar rancor a quem quer que fosse.
Por fim, cumpre-me louvar o amor e companheirismo que lhe dedicava a sua querida esposa, D. Maria José Marques, que sempre o acompanhou, nos bons e nos maus momentos, também ela uma mulher alegre, de bom feitio e muito bem disposta. À sua paixão de esposa, e ao amor dos seus três filhos, se ficou devendo em 2002 a edição da obra Crónicas do alto da Torre, uma colectânea de temática fuzetense, seleccionada entre as várias centenas de crónicas que sob a designação em epígrafe publicou entre 1956 e 1992 no semanário «Jornal do Algarve», fundado em Vila Real de St.º António pelo seu amigo José Barão, que foi nos anos cinquenta um dos mais prestigiados plumitivos da imprensa nacional.
Com a edição desse livro, infelizmente pouco divulgado entre nós, os seus familiares prestaram a derradeira, a mais condigna e justa homenagem a um dos mais lídimos talentos da cultura popular algarvia, que, sem os atavios estilísticos da nossa moderna intelectualidade, soube legar às gerações vindouras um testemunho realista, e bem humorado, da vivência política, da sociedade e da cultura das gentes da Fuzeta, notável alfobre de heróicos pescadores e de afoitos bacalhoeiros, que demandaram durante décadas as águas geladas da Terra Nova.
O Algarve não pode esquecer este João de Deus, que por ter sido um fiel apaixonado da sua humilde aldeia de pescadores, corre agora o risco de ficar para sempre esquecido e arredado do apreço das gerações vindouras. Este nosso apontamento é uma tentativa de contrariar a ingratidão a que todos estamos sujeitos neste paradisíaco rodapé de trinta léguas.









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