quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Evocação do Eng.º Duarte Pacheco no encerramento das Comemorações Centenárias


José Carlos Vilhena Mesquita

Homem singular, uma estrela cintilante do salazarismo que ainda brilha na história do nosso país e na saudade do povo algarvio. Não foi propriamente um político, mas tão simplesmente um estadista activo e competente, construtor material do progresso pátrio, mas igualmente regenerador da imagem do homem público do século XX, do político da nova vaga. Essa era, por estranho que pareça e nos custe admitir, a vaga renovadora do “Estado Novo”.
Jovem, inteligente, prático e sobretudo simpático, de sorriso aberto, de palavra chã e segura. Tinha uma memória prodigiosa, fixando rostos, lugares, conversas e compromissos. Nunca faltava com a palavra dada. Era um homem sério e fiável, muito diferente da imagem deixada pelos políticos que o precederam. Fazia do seu gabinete o seu lar, sem horas para comer ou conviver com os amigos. E quando era preciso estar nas obras, fazia-o com o maior sentido de responsabilidade, mesmo que isso lhe representasse um forte incómodo. A sua postura era a do comum cidadão, tratando os engenheiros e os trabalhadores das obras com a mesma deferência e às vezes pelos seus nomes próprios. Surpreendia tudo e todos, especialmente pelo facto de não ser preciso ir ter com o ministro, já que era o ministro que ia ter com eles, analisando e discutindo o andamento das obras. Só a rotina, a inoperância ou a pura estupidez o faziam perder as estribeiras.
Por vezes enfurecia-se e levava tudo a eito, distribuindo reprovações sem olhar a quem. Rodeou-se de um “staf” de gente especializada e mais ou menos da sua geração. A todos exigia dedicação e sacrifício, a receita mestra da competência. Solicitava sempre as opiniões dos que o rodeavam e aceitava críticas às suas opiniões. Mas depois de decidir já não voltava atrás. Tinha uma personalidade de ferro. E o que mais apreciava num homem era o esforço e a lealdade. Tinha uma numerosa equipa de colaboradores, engenheiros e arquitectos, cujas relações de trabalho nem sempre eram pacíficas. Tinha pois que gerir um largo potencial de talento criativo, que muitas vezes se entrechocava gerando dissenções e conflitos a que o Ministro acorria com o tacto dum apaziguador. Por isso reagia leoninamente contra a intriga e a traição política.
Enfrentava, quando necessário, tudo e todos, desde que tivesse a certeza de estar a terçar armas pela verdade. Mas depois era ele quem sofria, porque a sua úlcera reagia dolorosamente aos efeitos da irritação nervosa obrigando-o a recorrer à sua inseparável garrafa-termo, contendo o leite que lhe servia de calmante natural. A doença agrava-se pelo stress da sua excessiva dedicação ao trabalho, causando-lhe ao mesmo tempo um certo afastamento duma vida normal e regrada. Embrenhado nos seus projectos de inveterado sonhador, esquecia-se da vida social e das elementares refeições, tornando cada vez mais insuportável a sua doença. Para agravar a situação abusava do cigarro, nunca se chegando bem a saber quantos maços fumava por dia, porque também nunca se chegou a saber quantas horas durava o seu dia de trabalho. Era um vulto de compleição superior, cujas virtudes superavam os defeitos. Tinha uma ampla visão das coisas e o conhecimento perfeito da realidade. Superioridade e indiferença à ingratidão e à crítica. Desprezo pelo que era medíocre, pelo hesitante, pelo provisório e pelo provisório, eram alguns dos atributos que marcavam a sua forte personalidade. Possuía um optimismo natural resultante da confiança que tinha em si próprio e da certeza no seu experimentado conhecimento como técnico e homem de estado.
Acima de tudo Duarte Pacheco era a imagem do salazarismo. Os seja, representava os atributos naturais em que se inspirava a filosofia política do exaustivamente propalado ressurgimento nacional. O conceito de ressurgimento, tão propagandeado na Itália de Mussolini, não era mais do que uma forma dourada de traduzir o fascismo europeu. Os atributos do homem do ressurgimento eram precisamente a dedicação à pátria e aos seus valores históricos, a preservação moral e o amor à família, o gosto pelo trabalho, a eficiência profissional, o respeito pelas hierarquias, a determinação nacionalista e a lealdade ao governo. Era nesses vectores que se inspirava o Estado Novo e a ideologia corporativista de Salazar. Falta apurar, com indefectível certeza, se Duarte Pacheco era ou não um apologista do ideário fascista e um convicto apoiante do corporativismo salazarista. Presumo, sinceramente, que era nacionalista, no sentido liberal do termo, e acima de tudo um indubitável admirador de Salazar. Tenho dúvidas que possa ser etiquetado como fascista, corporativista ou mesmo como salazarista, no sentido da estreme sujeição ao chefe. O que não tenho dúvidas é que existiam semelhanças entre ambos, não tinham vida familiar e dedicavam-se com grande sacrifício das suas vidas pessoais à causa pública. Por outro lado, fizeram-se a si próprios com parcos recursos materiais e emergiram dum completo anonimato provinciano, aureolados como homens modelados no barro da honestidade, da competência, do sacrifício e da perseverança. Mesmo discordando dos seus trajectos políticos não podemos ignorar a pujança nacional que ambos possuíam, pujança essa estribada na popularidade e num certo misticismo sebastianista.
Acima de tudo Duarte Pacheco foi um sonhador, um homem desejoso de atingir a perfeição, talvez inspirado no revolucionário espírito de reconstruir a imagem dum país em desacreditada agonia internacional, ainda que percepcionando a grandeza das suas concepções às naturais proporções económicas da pátria. Em todo o caso sempre na paradoxal ânsia de projectar para um século, rentabilizando desse modo as parcas disponibilidades financeiras dum país pobre.
Refazer, reconstruir, renovar e principalmente reinventar, foram as linhas de força do Ministério das Obras Públicas e da personalidade política de Duarte Pacheco. O volume de obras públicas, a que chamou o processo de realizações materiais, foi de tal forma extraordinário e grandioso para o país que, a par da não intervenção na guerra, cobriu o regime salazarista duma inatingível popularidade nacional e dum incomparável prestígio internacional. A verdade é que o período áureo do salazarismo correspondeu exactamente ao período de melhoramentos estruturais levados a efeito pelo ministro Duarte Pacheco. Os grandes beneficiários da esforçada obra de Duarte Pacheco foram o país e Salazar. A sua morte prejudicou ambos, embora o seu exemplo perdurasse para sempre como um paradigma que a todos cumpria imitar.

Obras no Algarve

Foi o primeiro estadista a exigir dos municípios maior responsabilização e rigor no desenvolvimento regional, assente em «Planos Gerais de Urbanização e Expansão», algo similares com os nossos Planos Directores Municipais.
Para a celeridade da sua política de “realizações materiais” criou à sua volta vários organismos públicos chefiados por pessoas da sua confiança e que despachavam directamente com ele, formando uma rede paralela na administração pública, que eram as Juntas, Comissões e Delegações que cobriam os principais sectores públicos, desde o ensino à assistência hospitalar, comunicações postais e telefones, Polícias (GNR e Guarda Fiscal) Alfândegas, Caixa Geral de Depósitos, Hidráulica Agrícola, etc. Tudo era pensado nesses organismos mas nada se decidia senão em despacho directo com o ministro. O centralismo era próprio do regime.
Para acelerar a construção das obras procedia-se a um ardiloso processo de municipalização de terrenos urbanizáveis, através de expropriações que evitassem a aquisição e especulação pelos construtores privados e a sua inflacionação pelos proprietários. O município proprietário urbano foi uma estratégia até de enriquecimento camarário.
A grande obra de Duarte Pacheco para o Algarve está na criação de infra-estruturas básicas. Nisso se acentuaria a sua permanente intervenção no Algarve. A obra mais generalizada de desenvolvimento regional foi o calcetamento de ruas estradas de acesso às grandes cidades algarvias. Mas foi sobretudo no apoio e incentivo à expropriação de terrenos urbanizáveis que mais se fez sentir a sua intervenção. Em todo o caso as Câmaras não tinham na sua grande maioria capacidades financeiras para custear essas expropriações, o que por vezes inviabilizou a realização de muitas obras. Estão neste caso a maioria dos municípios algarvios, exceptualizando-se talvez o de Faro, que pela sua grandeza e poder demográfico suportava melhor os investimentos.
De qualquer modo verificamos que a gestão dos melhoramentos rurais e desenvolvimento urbano das vilas algarvias fazia-se de uma forma pontual, cifrando-se em apoios financeiros do MOP para a realização de restauros em edifícios públicos, nas estradas, nos cemitérios, fontanários, pontões e encanamento de ribeiras, construção de mercados de abastecimento local, pavimentação e calcetamento de estradas e arruamentos, abertura de caminhos rurais, recuperação de edifícios históricos (sobretudo Igrejas, castelos, fortes e fortalezas) e públicos como Câmaras Municipais, escolas primárias e Comerciais, Liceus, bibliotecas, etc; reparação dos hospitais das misericórdias, construção de asilos, saneamento básico, abastecimento de água e luz eléctrica, aterros sanitários, enxugamento de pântanos e terrenos lodosos, etc.
Entre essas obras merecem destaque a abertura de novos furos artesianos e a reformulação do abastecimento público de água à cidade de Faro.
A Electrificação urbana das principais cidades algarvias, integradas no Plano Geral de Electrificação do País, através da rede pública, criando um monopólio de exploração ainda hoje vigente.
O melhoramento das vias de acesso ao Algarve e suas principais vias de comunicação, integrando-as no Plano Rodoviário Nacional. Merece destaque, pelas suas dificuldades de execução e altos custos, a estrada de ligação de Alcoutim com o Alentejo e Algarve; também foram elevados os custos de execução da estrada de Monchique para a Fóia, mandada construir pelo próprio Eng.º Duarte Pacheco que por mais de uma vez veio pessoalmente inspeccionar o andamento das obras.
Bairros Económicos, destinados a alojarem famílias de baixos rendimentos, construídos em Portimão, Olhão, Fuseta, Faro, Loulé, etc.
Equipamentos turísticos, nomeadamente a Pousada de São Brás de Alportel, cujo local escolheu pessoalmente. O Hotel de Sagres, a Pousada da Ria em Faro, etc. Patrocinou a publicação de material de propaganda em colaboração com a SPN de António Ferro. Tratou pessoalmente do Plano de Valorização da Praia da Rocha e sugeriu a construção da estrada Oceano, que ligaria a cidade de Faro à praia da Ilha.
Equipamentos portuários, nomeadamente em Alcoutim, Portimão, Vila Real de St.º António e no tão propalado porto de Faro-Olhão.
Quartel da Guarda Republicana de Tavira, Centro de Saúde de Loulé, estação de Telégrafo Postal de Loulé, Mercado Municipal de Faro, etc.
Liceu de Faro, cujo local no cimo da Av. de St.º António, e não na zona de S. Luís, foi por ele escolhido, inclusivamente com as proporções ditas exageradas para a época. Em conversa com o Presidente da Câmara de Faro, o Eng.º Duarte Pacheco teria afirmado: “Aqui sim, fica bem o edifício do Liceu, em remate desta avenida que será urbanizada. Muito ar, muita luz e paisagem grande. Um Liceu para o futuro.”
Mas de todas as obras a mais importante ou talvez a mais mediática terá sido as Comemorações Centenárias do Mundo Português, efectuadas em 1940, nas quais se integrou o Algarve através de uma majestosa exposição realizada no Largo de São Francisco em Faro, onde estiveram representadas todas as actividades económicas e industriais da região, assim como os municípios algarvios. Estas comemorações estenderam-se a Lagos e a Sagres com várias manifestações culturais e alguns melhoramentos locais. O Comissário Geral da Exposição foi o pintor Carlos Porfírio, sendo presidente da Comissão Executiva Nacional o Dr. Júlio Dantas, cabendo ao Eng.º Duarte Pacheco a honra de inaugurar a exposição e descerrar o monumento ao Bispo D. Francisco Gomes do Avelar em 14-6-1940.
Se mais não fez pelo Algarve foi porque de facto a capacidade de endividamento dos municípios algarvios, era diminuto para fazer face aos custos resultantes das expropriações de terrenos destinados à implantação dos chamados “melhoramentos materiais”. Essa incapacidade financeira derivava dos baixos rendimentos das próprias edilidades. Isso levaria, inclusivamente, o Eng.º Duarte Pacheco ao seguinte desabafo publicado na imprensa da época: “Queixam-se os Algarvios de que faço pouco pelo Algarve. O certo é que os algarvios pedem pouco, talvez porque as Câmaras não podem sustentar maiores encargos, ao contrário de muitas Câmaras de outras províncias.”

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

No Centenário de Marcelo Caetano - Salazar e Caetano, dois cérebros para um só Fascismo


José Carlos Vilhena Mesquita

Não passou despercebido à opinião pública o primeiro centenário do nascimento do Professor Marcello Caetano, figura proeminente do nacionalismo corporativista e do «Estado Novo», designação eufemística do fascismo português. A aliança paternalista dos poderes político e religioso, foi ardilosamente usada para escamotear a ditadura que durante meio século subjugou o nosso povo, impedindo o seu desenvolvimento económico, o seu progresso sociocultural e a sua integração no espaço comunitário da Europa democrática. Não há desculpa nem mitigação possível para esta triste realidade: Portugal foi um país fascista.
Por mais que tentemos dourar os conceitos, e perdoar aos intervenientes do regime a sua mediação e conivência com as atrocidades cometidas nas cadeias políticas, principalmente no campo do Tarrafal, a verdade é que jamais poderemos esquecer que entre 1926 e 1974, vivemos debaixo de uma ditadura, anti-democrática, anti-partidária e anti-liberal, pese embora a abissal distância que a separava da desumana barbárie perpetrada pelas tiranias nazi-fascistas, contra as quais eclodiu a II Guerra Mundial.
As raízes do regime ditatorial emanaram das casernas militares em 28-5-1926, pela mão de um triunvirato marcial, no seio do qual se estranhava a presença do algarvio, Mendes Cabeçadas – obreiro do “5 de Outubro” e sincero admirador da democracia, sistema político em que aliás se consubstanciava a República – pondo cobro a uma certa anarquia governativa em que se deixara resvalar o novo regime. Nessa altura, emergiu na cena política aquele que viria a tornar-se na eminência parda do regime, um conceituado professor de Finanças na Universidade de Coimbra, de seu nome António de Oliveira Salazar, católico fervoroso, acérrimo contestatário da democracia, dos partidos políticos e das liberdades cívicas. Dois anos depois aceitaria a pasta da Economia por insistência do eng.º Duarte Pacheco, um algarvio de grande talento e honestidade que serviu o regime em nome dos altos desígnios da pátria, cuja eficiência e dedicação ao trabalho acabaria por transformá-lo na figura emblemática do salazarismo.
A ditadura e o fascismo português tiveram um só rosto: Oliveira Salazar. Todavia, foram os que o serviram e o bajularam como salvador da pátria, os verdadeiros obreiros do fascismo. No séquito dos fiéis áulicos do regime, na montra dos favoritos da ditadura, no pedestal dos predestinados e iluminados validos do “Pai da Pátria”, figurava em primeiro plano o Professor Doutor Marcelo José das Neves Alves Caetano, que aos 16 anos se matriculara em Direito, aos 21 estava licenciado e aos 25 doutorado. Era o que hoje se considera um sobredotado, um génio do Direito, a quem o regime teve a sorte de enfeitiçar.

A emergência política de Salazar

Antes de chegar ao poder, Salazar, do alto da sua cátedra coimbrã, publicava nos órgãos da imprensa católica, verdadeiras catilinárias contra o despesismo do Estado e o regabofe dos partidos republicanos, que paulatinamente iam destruindo a pátria. O seu pensamento, bem estruturado e esclarecido, consonante ao seu estatuto professoral, assim como as críticas dirigidas à irresponsabilidade governativa dos dirigentes republicanos, tornara-se notada nos areópagos da conspiração política, sobretudo no seio da oposição monárquica. Salazar emergia na opinião pública como um homem sério e competente, que desprezava a democracia e a consequente partidocracia, sugerindo que a salvação da pátria teria de ser restabelecida através de uma política de forte contenção administrativa. Quando o país parecia mergulhado na bancarrota, Salazar foi chamado a sobraçar a pasta das Finanças, tornando-se a breve trecho no salvador da pátria, não só pelos seus equilibrados Orçamentos de Estado como também pelo facto de ter evitado a entrada de Portugal na II Guerra Mundial. A organização de uma poderosa máquina de propaganda política – sobretudo após a promulgação da Constituição de 1933 que pôs fim à Ditadura Militar e proclamou o “Estado Novo” – tanto a nível interno como externo, liderada por António Ferro, fizeram de Salazar um modelar homem de Estado, impoluto, honrado e honesto, que tudo sacrificara aos supremos desígnios da pátria. Após o conflito bélico, assistiu-se à reconstrução da Europa, ao desenvolvimento da via socialista e ao nascimento da chamada Guerra-Fria. Por razões geo-estratégicas de até de contrabalanço das influências políticas na Europa, a Inglaterra como potência dominante optou pelo mal menor, garantindo a manutenção do fascismo ibérico.

Salazar e Caetano – diferenças e similaridades.

Entre Salazar e Caetano existiam pontos de encontro a nível intelectual, mas era no paralelo político que mais se aproximavam. Ambos eram estruturalmente autocratas, adeptos de um Estado forte, centralizado na absoluta autoridade do Chefe. A forma como ambos expressavam o seu pensamento político era visceralmente fascista. Julgo que Caetano na juventude, e sobretudo no período da sua afirmação política, mostrava-se mais convictamente fascista do que Salazar. Começou por dirigir a revista panfletária «Ordem Nova», que se identificava na capa como: “contra-revolucionária, reaccionária, católica, apostólica e romana, monárquica, intolerante e intransigente, insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras das artes e da imprensa”. O conteúdo da mesma era nitidamente de inspiração fascista. Como se isso não bastasse, Marcelo fazia discursos impulsivos e alarmistas acerca do novo xadrez político europeu. Inclinava-se favoravelmente para o fascismo italiano, imitando a pose de Mussolini, mas evitava a gesticulação espalhafatosa e ameaçadora dos ditadores militaristas, ainda que gostasse de usar farda e de assumir uma postura marcial quando foi dirigente nacional da Mocidade Portuguesa. Hipocritamente dizia que não gostava de ver as crianças fardadas. Por isso transformou os nossos “lusitos” numa imitação barata dos “balilas” italianos.
A maior similitude entre Salazar e Caetano estabelecia-se nas origens académicas, porque ambos fizeram da cátedra universitária o seu trampolim político. Ainda que especializados em ciências diferentes – um na Economia/Finanças e o outro no Direito – o certo é que eram duas áreas fundamentais e complementares na administração pública. Por isso, sentiam-se predestinados e imprescindíveis para o competente exercício do poder. Salazar na concepção económica, para equilibrar as contas públicas, e Caetano na concepção das leis, para dar consistência e credibilidade à organização política do Estado.
Eram ambos soberbos e de temperamentos impositivos – como era apanágio das autoridades académicas – mas divergiam na plasticidade mental e na forma como abordavam as questões mais prementes, sobretudo na concepção política das relações internacionais.

Características de Salazar

Salazar era contido nas palavras, muito ardiloso no tratamento social e nas relações políticas, tendo como defesa natural a desconfiança. Para ele a vida era um jogo de interesses e de ganâncias mesquinhas. Apresentava-se aos olhos do público como o anti-político, enfadado com a governação, desejando servir sem servir-se, sacrificando a sua carreira e os seus próprios interesses em benefício da causa pública. Foi incensado como um exemplo para toda a nação, submetido à razão do bem comum e encarando o poder com espírito de missão. Era socialmente um solitário, com fortes indícios de misoginia. Tinha uma personalidade forte, mas evidenciava uma certa tacanhez na apreciação dos prazeres da vida quotidiana, refutando luxos e confortos por lhe parecerem ofensivos à pobreza em que vivia a maioria da nação. Em muitas das suas atitudes parecia apologista dum franciscanismo bacoco e démodé. Vivia frugalmente por assim ter sido educado desde tenra idade, era poupado e avarento como todos os rurais. Acima de tudo, Salazar era um rural, intrinsecamente um homem do campo e do interior agrícola, que simpatizava com a inocência e submissão do camponês. Por isso, nunca se integrou no espírito urbano ou na convivência cosmopolita, nem adquiriu a consciência citadina. Desconfiava dos burgueses e detestava os finórios da vida fácil. Nunca deixou de ser um seminarista, ascético e recatado, ferido de amores platónicos ou inconcebidos, que o tempo se encarregou de transformar num velho misógino. Em suma, tinha esgares de beatitude e mentalidade de sacristão numa paróquia de abrangência nacional.

Características de Caetano

Ao invés, Caetano era um homem garboso, alto e elegante. Tinha a pose de um galã, de sorriso simpático e afáveis palavras, não regateando elogios nem galanteios quando necessários. Porém, não se dava a confianças nem a relações fáceis. Consciente das suas raras qualidades intelectuais – era seguramente um sobredotado – investiu tudo na sua carreira académica, doutorando-se em Direito com apenas 25 anos de idade.
Era, porém, muito impulsivo, autoritário, exigente e perfeccionista. Media os outros pelo seu próprio estro, do que resultava quase sempre uma apreciação desnivelada. Por outro lado, era muito ambicioso e congeminava projectos pessoais de poder, fazendo alianças com grupos de sombra e criando os seus próprios fâmulos, um pouco à imagem do que lhe era peculiar no ambiente universitário.
Como tinha consciência do seu valor intelectual e sobretudo da sua fidelização aos valores do fascismo, achava que o regime, ou seja, Salazar e a sua entourage, deveriam promovê-lo aos supremos areópagos do poder, o que até esteve quase a concretizar-se. Ainda assim, foi Ministro das Colónias, Presidente da Câmara Corporativa e Ministro da Presidência. Mas queria mais. E se não foi mais longe, e se em todos esses lugares não se demorou muito, foi porque sobre ele impediam fortes desconfianças entre o séquito dos ultramontanos que rodeavam Salazar.
Apesar de Caetano ter sido católico praticante, foi com o decorrer dos anos perdendo a fé, até se tornar intrinsecamente agnóstico. Nunca o revelou em público, a não ser já no exílio e apenas aos seus amigos mais próximos. Todavia, como político e homem de Estado conservou sempre a conveniente postura de católico praticante. Julgo que a Igreja, apercebendo-se de alguma incongruência, terá vetado as suas ambições para se assumir como delfim do Chefe. Essas contrariedades não foram raras, porque esteve quase sempre a um passo do Olimpo. E sempre que Caetano não alcançava a satisfação dos seus interesses queixava-se das intrigas palacianas, apontando responsabilidades a João Lumbrales, a Cancela de Abreu e sobretudo ao coronel Santos Costa, ministro da Guerra e braço direito de Salazar.
A impulsividade de Caetano levou-o a proferir nos seus discursos algumas afirmações de caíram mal no caudatário salazarista, fazendo pender sobre a sua lealdade certas desconfianças. Cientes das suas qualidades e dos seus méritos académicos, mas receosos das desmedidas ambições, os prosélitos do regime trataram de o afastar do séquito do Chefe, deixando-lhe como única escapatória o feudo universitário, a que se dedicaria praticamente a vida inteira, à excepção da famigerada “Primavera Marcelista” que não passou de um embuste político e de uma oportunidade perdida. Curiosamente, sempre que se sentia injustiçado refugiava-se em deprimentes silêncios, queixando-se de deslealdades e traições, procurando remir as suas próprias culpas na incompetência dos seus servidores. Foi assim em 1972, quando perdeu o apoio da “Ala Liberal”, e foi assim após o “25 de Abril”, quando, no seu livro Depoimento, tentou justificar o falhanço da sua governação política através da insolubilidade da questão colonial. Na sua concepção política, o fim da guerra colonial só seria aceitável no quadro de uma derrota militar a negociar com os movimentos de libertação. A solução teria de ser militar e não política, ainda que aos políticos coubessem depois as negociações de entrega dos territórios. Esta solução era inaceitável para as altas patentes por se recusarem a arcar com o ónus duma derrota militar.

O desencontro com a História

Marcelo Caetano com o decorrer dos anos aprendeu a comedir-se nas atitudes e nas palavras. Digamos que poliu-se (ou poluiu-se!) com a proverbial patine dos políticos. Isto é, tornou-se astucioso e hábil nas relações com o poder, adulando as eminências do regime, como Albino dos Reis, Trigo de Negreiros e sobretudo Pedro Teotónio Pereira, que foi quem sempre manteve as delfiníticas pretensões de Marcelo Caetano no sentido de vir a suceder a Salazar. Para satisfazer as suas aspirações, conquistou a confiança de alguns homens do poder que se transformariam em seus fiéis sequazes, como Moreira Baptista, Duarte do Amaral, Silva Cunha, Elmano Alves e Andrade e Silva, insinuando-se também junto dos possíveis candidatos à sucessão do Chefe, como Franco Nogueira, Antunes Varela e Adriano Moreira.
Quando finalmente Salazar “caiu da cadeira” os ultramontanos do decadente fascismo português não conseguiram evitar que o “Grupo da Choupana” lograsse convencer Américo Tomás a nomear como sucessor do “Pai da Pátria” o seu eterno delfim, Marcelo Caetano, cujas cãs se haviam branqueado com as perfídias cortesãs que lhe arruinaram uma precoce carreira política.
Caetano aprendera a lição. Com o tempo tornara-se político antes de o ser. Assimilara a arte de ser político, ou seja, fez-se generoso nos compromissos e ardiloso nas alianças, tentando perceber atempadamente os inconfessáveis interesses alheios. Quando chegou ao poder nomeou os amigos e os informadores para as cadeiras governativas. Depois despiu a velha capa de fascista, que vestira na juventude, camuflando as suas ideias autocráticas com ilusórias simpatias liberais e supostas tolerâncias democráticas. Para se lantejoular com o brilho da indulgência política e da liberdade democrática, chamou do exílio o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que enfrentara Salazar com uma inusitada coragem contra a desigualdade social, clamando protecção para os desvalidos e desempregados, objectando a guerra colonial e a falta de liberdade, assumindo-se como um verdadeiro defensor da mensagem de Deus, fazendo corar de vergonha as supremas autoridades da Igreja. Também amnistiou o exílio do Dr. Mário Soares, sabendo porém que jamais o conseguiria atrair para as fileiras da sua “Ala Liberal”.
A suposta “primavera marcelista” com que iniciara a sua governação política não passou de simples cosmética administrativa. Mudou o nome à Censura e à PIDE, mas continuou a coarctar as liberdades individuais. A guerra colonial agudizou-se, surgiram as primeiras acções de terrorismo urbano (perpetrados pela ARA e pela LUAR) e as eleições de 1969 e de 1973 foram um tremendo embuste para as aspirações daqueles que (como Sá Carneiro, Miller Guerra, Francisco Balsemão, e outros) acalentavam a esperança duma transição democrática sem sobressaltos revolucionários.
O período de desenvolvimento económico e de progresso industrial, com que Marcelo esmaltara a sua “primavera” depressa se esfumou na crise petrolífera, no racionamento dos combustíveis e no surto inflacionário. Nem as suas pedagógicas “Conversas em Família” dirigidas ao povo semanalmente na TV, conseguiam justificar a sua política de “evolução na continuidade”. O país arrastava-se para o abismo e Marcelo teimava em manter uma ditadura que até à própria Igreja se tornara obsoleta e desacreditada.
Preferiu agarrar-se ao poder e cair de pé. Mas caiu de joelhos. No dia 25 de Abril de 1974 os soldados de mão dada com o povo gritavam pela Liberdade que Marcelo não lhes soubera proporcionar. Como um triste acossado refugiou-se na ratoeira do Carmo, onde nem a GNR o quis defender. Saiu numa Chaimite blindada e debaixo dos apupos do povo. Um duro castigo para a sua soberba de autocrata.
Marcelo Caetano perdeu a soberana oportunidade de proceder à transição do fascismo para a democracia. Não o fez. Por isso ficará para sempre lembrado na História como o último ditador de Portugal.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ASCENSÃO e DECADÊNCIA de TAVIRA no ANTIGO REGIME


José Carlos Vilhena Mesquita

A cidade de Tavira, pela sua posição estratégica na foz do rio Gilão, nas proximidades do Guadiana e da raia espanhola, espraiada sobre a ria que a defende das intempéries oceânicas e das incursões corsárias, teve desde a conquista cristã uma importância fulcral na defesa militar do espaço oriental do reino do Algarve. A sua triangulação entre Aiamonte e Faro privilegiam o seu posicionamento geográfico, condicionando simultaneamente o seu crescimento socioeconómico. Todo o seu desenvolvimento futuro ficaria dependente das relações internacionais com a Andaluzia e a costa magrebina, onde estabeleceríamos os nossos interesses comerciais em controversos territórios de difícil sustentação política e de arriscada conservação militar.
Os distintos privilégios e isenções, concedidos no foral e nas diversas cartas régias emanadas pela coroa, desde D. Dinis até D. Sebastião, atestam e confirmam não só a sua importância geo-estratégica, como ainda a necessidade de promover um porto alternativo à costa granadina e um entreposto mercantil à argêntea cidade de Sevilha. Devido às incompetentes relações políticas com o al-andaluz, não teve a cidade de Tavira o sucesso comercial que se esperaria entre os dois reinos transfronteiriços, estabelecendo-se um divórcio ou um alheamento de interesses desde 1252 (conquista definitiva do Algarve) até 1492 (conquista de Granada pelos reis católicos). No decurso desse período, virou-se o Algarve para a estrada atlântica, descurando parcialmente as relações mediterrânicas. A sediação da Ordem de Cristo na raiana praça militar de Castro Marim, agravada com a presença do Infante D. Henrique, impediam qualquer reatamento das relações andaluzas. Por outro lado, sabendo-se dos projectos expansionistas do Infante, a cidade de Tavira viu-se prejudicada pelo entravamento da ria e pelo progressivo assoreamento do seu canal portuário, razões naturais que embargaram o estabelecimento dos estaleiros navais necessários à consolidação do projecto henriquino. Digamos que a região sotaventina, pela configuração da restinga costeira e até pelo regime dos ventos, viu-se arredada, ou pelo menos desviada para segundo plano, no processo dos Descobrimentos Portugueses.
Com a morte do Infante D. Henrique amorrinhou o plano de expansão atlântica, para lhe suceder uma política africanista de conquista militar, afirmação religiosa, fixação cultural, controlo económico e assenhoreamento territorial. Os tavirenses, mareantes e pescadores, fidalgos terratenentes e militares, empenharam no acometimento africano o melhor do seu esforço, e até o fruto dos seus cabedais financeiros, para que a glória do rei e o prestígio da lusa pátria, pairasse nas praias magrebinas como sinónimo da honra e do heróico sacrifício da cristandade. Os algarvios, mas principalmente os tavirenses, foram o sustentáculo, militar e financeiro, das nossas possessões africanas.
Em resultado da posição geo-estratégica da cidade, o seu porto transformou-se na plataforma giratória do profícuo trato sahariano, com particular ênfase no mel, na cera, nas couramas e marroquins, nas exóticas tâmaras, nos incensos e especiarias, no pescado seco e, sobretudo, nos corcéis árabes tão procurados nas cortes europeias. E de Tavira seguiam para os portos magrebinos o sal (o nosso ouro branco), o azeite mais fino (para a higiene e cosmética), a amêndoa coca, o figo mercador, as lixas de peixe, as frutas de espinho (citrinos), a cortiça, o sumagre (para a curtição peleira e tintureira dos marroquins), linho, resina, carvão, cal e peixe salgado (atum e sardinha). Mas também ao porto de Tavira acostaram as armadas reais da “ínclita geração” e do rei africanista, que levaram de Tânger até Arzila o nobre pendão das quinas. E em homenagem à abnegação do povo tavirense, na conquista e conservação das praças africanas, pela cidade passaram e estanciaram alguns monarcas, desde D. João I ao mítico D. Sebastião, que dos campos de Alcácer Quibir haveria de aqui voltar, num frio e pesado esquife, que os tavirenses velaram emocionados na sua Igreja de St.ª Maria.
Com a ascensão de D. João II ao trono, a retrógrada política de fixação territorial no norte de África foi derrogada, para dar prosseguimento ao projecto atlântico – muito diferente do henriquino, que se baseava mais na captura de escravos para financiamento da empresa, do que propriamente na expansão territorial ou no ecumenismo cristão. O estabelecimento da rota da Índia tornou-se num desígnio nacional, centralizado nas mãos da Coroa, preludiando o absolutismo político que dominaria a nação portuguesa até ao raiar de Oitocentos.
Nos finais do séc. XV, com a queda de Granada e Sevilha, e a consequente unificação da Espanha, experimentou a cidade de Tavira um período de florescimento através do estreitamento das relações político-económicas com a vizinha Andaluzia. A bem dizer, o trato mercantil entre os dois territórios nunca foi anulado pela separação da fé religiosa. Apenas se fazia com mais dificuldade, em atitude de descambo e quase sempre correndo enormes riscos. Mas as transacções em moeda forte (maravedil de ouro), aguçavam o engenho dos traficantes. A partir da legitimação do trato transfronteiriço as exportações do Algarve para a Andaluzia cresceram de forma exponencial, tendo no sal de Tavira e Castro Marim, assim como no peixe fresco ou nas barricas em salmoura, o grosso do seu tráfico. Nas décadas seguintes, a cidade de Tavira atingiu um florescente crescimento urbano e um acentuado desenvolvimento económico, mercê da prata peruana que afluía e entesourava Sevilha. Vive-se, nessa altura o apogeu do imperialismo ibérico, primeiro com D. Manuel I de Portugal, e depois com Carlos V e Filipe II de Espanha. A cidade de Tavira cresceu não só no comércio como na religiosidade, construindo-se no séc. XVI várias igrejas e conventos, restaurando-se as muralhas assim como os edifícios antigos e de maior notoriedade, religiosos ou de nobre talha, com que a cidade se vangloriava de ser a primeira do reino. A prova dessa ascensão está na atribuição do título de cidade, por carta de D. Manuel I, datada de 16-3-1520, vinte anos antes de Faro que só em 1577 se sagraria capital do reino, quando nela se instalou D. Jerónimo Osório trazendo de Silves a cadeira episcopal.
A fervorosa religiosidade dos tavirenses está certamente ligada às suas tradições marítimas, mas também ao espírito beato da época, que teve o seu expoente com D. João III e a introdução do Santo Ofício. É verdade, que já com os Reis Católicos a sanha anti-judaica havia contaminado a política de D. Manuel I, que forçara a conversão dos judeus e criara a gravíssima distinção social entre cristãos-velhos e cristãos-novos, tardiamente dirimida com a governação pombalina, que em 16-2-1773 aboliu a “limpeza de sangue”. O certo é que um aparente fanatismo religioso constituiu-se num factor de antagonismo social e de rivalidade mercantil com as comunidades hebraicas residentes no Algarve, contribuindo para a desagregação do trato mediterrânico e para o esfriamento económico com os portos holandeses e os mercados do Báltico. A questão hebraica, ou seja a perseguição pelo braço inquisitorial do Santo Ofício aos judeus ou cristãos-novos (depreciativamente designados por marranos), suscitou uma abrupta fuga de capitais e de insubstituíveis recursos humanos, que animavam as actividades financeiras e os mercados comerciais, tanto interna como externamente. Por outro lado, a par da debandada dos mercadores e banqueiros, retirou-se também a inteligentzia hebraica, que no campo das matemáticas e das ciências experimentais constituíam uma espécie de oásis intelectual no ronceiro atraso nacional.
O Algarve, e a cidade de Tavira, perdeu imenso com essa sangria humana, que aliás serviu de exemplo para muitos empresários mercantis e industriais, que não podendo desenvolver os seus negócios partiram para o Norte de África, para as nações livres da chamada Europa da Reforma, para a bacia mediterrânica e para o Médio Oriente. Tudo se agravou ainda mais quando a crise de sucessão dinástica, provocada pelo desastre de Alcácer Quibir, fez resvalar a coroa para as mãos de Filipe II, ou seja para a temida, e sempre combatida, dominação espanhola. O país apagava-se, diluía-se no império dos Filipes, e com isso se eclipsavam também as principais actividades económicas no país e no Algarve, em particular. O primeiro sintoma da decadência socioeconómica da cidade de Tavira evidenciou-se na diminuição da população residente, suscitada pela quebra das actividades mercantis, mercê da emigração para Sevilha dos mercadores e ricos homens de negócios ligados ao comércio com as Índias, agora submetidas à esfera dos interesses espanhóis. Com os negociantes do comércio internacional foram também para as praias da Andaluzia os empresários da pesca que em Tavira auferiam menores proventos com a exportação do pescado do que nos portos espanhóis. Não esqueçamos que os Filipes desenvolveram uma política económica proteccionista, assegurando o exclusivo dos negócios com as possessões coloniais aos seus naturais ou aos residentes no território metropolitano. Isso fazia com que os nossos empresários do comércio internacional se fixassem na vizinha Espanha para continuarem a desenvolver as suas relações e os seus rendíveis negócios. Por outro lado, a nossa proverbial inveja dos homens bem sucedidos e do nosso endémico arrivismo, tornaram insuportável a vida aos negociantes que não fossem algarvios e aos estrangeiros da fé protestante. A vila de Aiamonte, em reflexo do mau ambiente criado em torno dos mercadores estrangeiros, experimentou em acentuado desenvolvimento urbano, populacional e económico, nos séculos XVII e XVIII, pois que os barcos que antes demandavam o porto de Tavira passaram a acostar naquela vila as suas mercadorias, animando um avultado giro mercantil que se estendia entre Huelva e Sevilha.
Deste modo, tudo se conjugou para que a cidade entrasse numa progressiva decadência, num apagamento económico, que se agravaria com o terramoto de 1755, do qual só se restabeleceria na segunda metade de Oitocentos, com a renovação das pescarias de cerco, do atum e da sardinha, e, muito especialmente com a implantação das indústrias de transformação e conservação do pescado. Mas as explicações dessa regeneração socioeconómica são contas de um outro rosário, que ficarão para desvelar numa próxima oportunidade.

A Vida é um poema inscrito num poliedro de sentidos

José Carlos Vilhena Mesquita

Tudo na vida tem um sentido, uma explicação lógica e plausível, uma justificação ética dos nossos actos e dos nossos passos, reservando-se para os misteriosos recônditos da alma a intransmissível expressão dos sentidos. A vida, na sua intercepção da realidade material com a fantasia mítica, na sua imensidão cósmica geradora dessa fragilidade gnosológica que nos empurrou para um misticismo avassalador, suscitou diversas e incontornáveis interrogações às quais tentaram responder a racionalidade intelectual e o cientificismo material. Dessa aliança, da razão com o conhecimento, desenvolveu-se a Civilização e progrediu a Cultura Humana. É por isso que a vida constitui uma viagem de evolução e apuramento, não só do conhecimento científico como também da espiritualidade humana. Ora é nesse trajecto de responsabilidade social e de obrigação moral que se desenvolve a vida social, e muito especialmente a espiritualidade humana, nas suas cambiantes artísticas mais expressivas, como é o caso da música e da poesia.
É precisamente das circunstancialidades da vida, traçada num rumo intercontinental, que se expressa este livro, espécie de retrato espiritual da existência, quase missionária, de um médico que sente na alma as mágoas e padecimentos daqueles que sofrem, na carne e no espírito, da desigual partilha das riquezas materiais, num mundo de diferentes realidades económico-culturais, marcado porém por uma avassaladora indiferença geral. O sentido de justiça e o frémito da dor dilaceram o espírito do homem de ciência, que da luminosa França, berço da ilustrada liberdade, parte para a América, profunda e pobre, para a mítica cordilheira dos Andes, enlevado na jubilosa missão de acudir aos desventurados da sorte, a quem a doença roubava a alegria de viver. Com o coração a latejar de compaixão pelos mais desprotegidos, viajou pela rota da miséria, tercendo armas no campo da batalha sanitária. Os melhores anos da sua vida deixou-os embarcar numa viagem de generosa partilha, navegando entre mundos desconhecidos, erguendo mastros de fraternidade e enfunando velas de esperança, na humilde vontade de ajudar os desafortunados filhos de um Deus menor.
O próprio título deste livro, Cosmopoles, traduz o poliedro cosmopolita em que se espraiam diferentes culturas, sem necessariamente se entrechocarem, amalgamarem ou fundirem, respeitando-se na admiração das suas diferenças. O médico François Blanc partilhou a sua vida com os mais necessitados, levando-lhes a ciência envolta numa palavra de generosidade, incutindo ânimo aos que sofriam, e transmitindo confiança aos que resistiam no silêncio da revolta. Repartiu com as crianças uma mensagem de fé e um sorriso de esperança, acalentando nelas o sonho de poderem construir, sobre os escombros do neocolonialismo, um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, sem diferenças de raças nem distinções de classes.
Foi com a alma repartida pelo confronto dos mundos atlânticos, que as certezas da sua ilustração científica se transformaram em escrupulosas interrogações, em perplexas incertezas e permanentes hesitações. O homem de ciência feito, deixou-se enlear na teia na dúvida espiritual, como se afinal para tudo houvesse duas verdades e duas certezas, porque no seu coração não existe lugar para a mentira nem para a negação. O mundo é como a própria vida, um espaço de diversidades e de incertezas, projectado num poliedro de sentidos, em que só as emoções nos fazem sentir o direito e a necessidade de sermos felizes. Entre os vários poemas que compõem este livro permitam-me que destaque a “Botelha do mar”, Eclusas”, “Caminho da porta estreita” e “Sonho de Poeta” que ilustram perfeitamente a inspiração poética e a qualidade artístico-intelectual do autor, cuja obra já anteriormente publicada constitui suficiente garantia para sugerirmos e vivamente aconselharmos a leitura deste Cosmopoles.


Nota: Prefácio ao livro de poesia Cosmopoles, da autoria do Dr. François Louis Blanc

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

No Centenário de Marcelo Caetano - A primavera marcelista – memória de uma oportunidade perdida


J. C. Vilhena Mesquita

Quando Marcelo Caetano foi chamado ao poder, em 25-9-1968, para substituir Salazar, que havia sofrido um acidente e se encontrava incapacitado para governar a nação, lembro-me que uma brisa de esperança se estendeu a todo o país, parecendo atiçar a refulgente chama da mudança com que almejávamos iluminar o nosso futuro. Mesmo naqueles que conhecíamos como indefectíveis nacionalistas havia um desejo, uma silenciosa vontade de trilhar novos caminhos que proporcionassem maior progresso, melhores condições de vida e, sobretudo, uma remodelação do velho contrato social, capaz de viabilizar a paz e o fim da ditadura.
Na perspectiva da minha geração, os valores democráticos tão zelosamente açaimados pela Censura e sobretudo pelos esbirros da PIDE, inundavam surpreendentemente as páginas dos nossos jornais como reflexo noticioso da “desordeira” revolução estudantil do Maio de 68 – cujas repercussões intelectuais tive a felicidade de comungar com Sartre e Simone de Beauvoir, além de ter presenciado nesse Verão os seus desoladores efeitos físicos nas despavimentadas ruas de Paris – “après le pavé, la plage”, diziam os jovens seguidores de Cohn-Bendit.
Logicamente sentíamos que os ventos eram de mudança e que a democracia seria uma questão inadiável. Quando no início do Outono assistimos à substituição de Salazar, pensamos que todas as condições para a tão ambicionada abertura política estavam reunidas na pessoa de Marcelo Caetano. Aliás é do senso comum, e da mais elementar politologia, que as ditaduras raramente sobrevivem aos ditadores. Por isso, todos esperávamos que Marcelo se assumisse como restaurador da democracia em Portugal.
Todas as perspectivas políticas, as mais azadas e auspiciosas, cubicavam no governo, ainda mais quando em 1970 faleceu Salazar, justificando-se que a partir de então fossem dados passos inequívocos de transição para a democracia. Aliás pareciam inequívocos os indícios de abertura política, quando nas eleições de 26-10-1969 a ANP-Acção Nacional Popular (cosmética nominal da antiga União Nacional) integrava nas suas listas eleitorais a chamada “Ala Liberal”, constituída por várias personalidades desafectas ao regime. Mas contrariamente a todas as expectativas, o regime conservava certos tiques fascistas, certamente agudizados pela contestação estudantil, pelas greves laborais e pelo terrorismo urbano patrocinado pelo Partido Comunista. Mas, acima de tudo, era a guerra colonial que mais intensamente corroía o regime, e como Marcelo Caetano não tinha coragem para lhe dar uma solução política, era lógico que só uma revolução militar poderia devolver a liberdade ao povo português. Como rescaldo ficava, para muitos dos que acreditaram em Marcelo Caetano, uma profunda decepção e certamente a convicção de que a chamada “Primavera Marcelista” foi uma oportunidade perdida. Pessoalmente julgo até que não passou de um clamoroso embuste.

Marcelo Caetano, ascensão de um talento promissor

Oriundo de uma pobre família de agricultores da serra da Lousã, que emigraram para a capital à procura de melhor sorte, Marcelo José das Neves Alves Caetano, nasceu em Lisboa a 17-8-1906 e cedo se notabilizou como um jovem de talentos promissores. Aos 16 anos matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, aos 21 estava licenciado e aos 25 defendia com raro brilhantismo a tese de doutoramento intitulada «A depreciação da moeda depois da Guerra». A fama do seu sucesso correu célere nos meandros do poder, a tal ponto que Salazar pediu para o conhecer pessoalmente, convidando-o para fazer parte da equipa que gizou e concebeu a Constituição de 1933. Nesse mesmo ano, com apenas 27 anos de idade, concorreu a uma vaga de professor catedrático de Direito, na qual foi provido com todo o mérito.
Por essa altura, já Marcelo Caetano havia dado nas vistas como redactor da revista «Ordem Nova», sucedânea da «Nação Portuguesa», órgão do Intregralismo Lusitano, movimento monárquico de inspiração fascista no seio do qual pontificava o reaccionaríssimo anti-republicano e fervilhava o espírito da contra-revolução. António Sardinha era o rosto intelectual dos integralistas, mas nas suas fileiras pululavam figuras de grande agressividade militarista, como Rolão Preto, fundador do Movimento Nacional-sindicalista, cujos partidários se revelavam publicamente como admiradores confessos dos ditadores Primo de Rivera, Mussolini e Hitler. Mas como Salazar odiava o militarismo, cedo desconfiou dos integralistas, determinando a inclusão na função pública dos seus dirigentes políticos, impedindo assim que prosseguissem as suas actividades.
Marcelo é então nomeado vogal da comissão executiva da União Nacional, mas não figurará nas listas de deputados nas eleições de 1934. O seu radicalismo integralista e a sua impulsividade política causam desconfiança na hoste salazarista. Desiludido ocupa-se da revisão do novo Código Administrativo, do novo estatuto da Função Pública e da reorganização do Supremo Tribunal Administrativo. A obra produzida era realmente vasta e merecia recompensa. Salazar nomeia-o, em 1940, Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, mas em 1944 suspende-o das funções para o elevar a Ministro das Colónias. Porém, declarações infelizes, proferidas no fim da guerra, sobre os defeitos e a natural falibilidade do “Pai da Pátria”, fazem-no apear-se do governo em 1947, aceitando como compensação presidir à União Nacional e à Câmara Corporativa, cargos pouco mais do que decorativos.
Quando em 1951, com a morte do presidente Carmona, alguns salazarentos pensaram restaurar a monarquia, Marcelo Caetano, apesar de indefectível monárquico, colocou-se ao lado de Albino dos Reis e Trigo de Negreiros, opondo-se terminantemente a uma sucessão dinástica. Porém, teve a infeliz ideia de sugerir nome de Salazar para candidato às eleições presidenciais, o que foi entendido como uma maneira de afastar o ditador do poder. O nome escolhido foi Craveiro Lopes e, mais uma vez, Marcelo retira-se para a vida universitária. Curiosamente surgiu a partir daí uma certa empatia com Craveiro Lopes que, em 1955, convence Salazar a oferecer ao eterno delfim do regime a pasta da Presidência. Digamos que Marcelo, mais uma vez torna à casa-mãe sob a bênção do “Pai da Pátria”, como no mito bíblico do filho pródigo.
Circunstâncias do foro íntimo, acrescidas pelas intrigas políticas, fizeram com que o general Craveiro Lopes se tornasse hostil à camarilha salazarista. Correu mesmo o boato de que estaria a preparar com Marcelo Caetano a demissão de Salazar da Presidência do Conselho, entendida pelos ultramontanos como um ilegítimo golpe palaciano, contra o qual o coronel Santos Costa chegou a decretar a prevenção dos quartéis da capital. A União Nacional apresentou às eleições de 1958 o obscuro almirante Américo Tomás, contra a fulgurante candidatura do general Humberto Delgado, representante unionista da oposição democrática. Curiosamente, Marcelo Caetano era homem das relações do “general sem medo”, não sendo logicamente seu apoiante. Como as eleições tiveram de ser forjadas para que o candidato fascista as pudesse vencer, tornou-se óbvia a derrota política dos situacionistas. Marcelo em Conselho de Ministros apontou o coronel Santos Costa como responsável pelo fracasso. Salazar, de forma salomónica, demitiu ambos do governo e Marcelo abandonou a vida política. Tudo parecia terminado.

O sucessor natural de Salazar – evolução na continuidade

Mas com o despoletar da guerra colonial a ditadura salazarista entrou em decadência. Como, aliás, em decadência física estava também o velho ditador. Eram os anos do fim.
Os movimentos independentistas em África haviam despontado há muito tempo e por todo o continente. Portugal não estava logicamente imune à legítima sublevação dos povos oprimidos pelo colonialismo. E por mais branda que essa opressão, supostamente, tivesse decorrido nas nossas antigas colónias, era certo e sabido que a paz podre, que então se vivia, não seria eterna. Faltou discernimento político para preparar com a devida serenidade a transição da soberania nos territórios ocupados. Marcelo foi um dos culpados do adiamento dessa inevitabilidade.
Uma agressão militar, iniciada em Angola, apoiada pela União Soviética e consentida pelos Estados Unidos, uniu os portugueses em torno da pátria ofendida, e aparentemente da própria ditadura. Salazar reagiu em força, proferindo, como um pendão de guerra, o grito colonialista: “Angola é nossa…” Mas com o envio maciço de tropas apenas adiou o inevitável. Salazar estava velho para se tornar num caudilho militar, e o regime estava pouco menos do que moribundo. Era sabido que tudo se desmoronaria quando morresse o ditador. Era apenas uma questão de tempo.
Um acidente vascular cerebral apeou-o do poder em 1968 e levou-o ao túmulo em 1970. Chegara, finalmente, a hora de Marcelo Caetano. Interesses de vária ordem deram-lhe o poder, sentando-o na cadeira do velho ditador. Pediram-lhe que a honra da pátria não fosse vilipendiada, isto é, que a questão ultramarina permanecesse inalterável. Porém, a guerra colonial mantinha-se como uma ferida, pela qual se escoava o sangue da pátria.
A sucessão de Marcelo indicava mudanças no regime, apesar de afirmar publicamente que seguiria uma política de “evolução na continuidade”. Um mês depois de tomar posse mandava amnistiar o exílio político de Mário Soares e do Bispo do Porto. Começava assim um período de clara abertura política conhecido por “primavera marcelista”.
A minha geração vivia amordaçada pela Censura, perseguida pela PIDE e ameaçada pelo espectro da guerra colonial. As instituições persecutórias das liberdades individuais, verdadeiros sustentáculos da ditadura, começaram a mudar de nome e pareciam aligeirar algumas das suas actividades de prepotência e de arbitrariedade política. Por outro lado, as tão populares “Conversas em Família” difundidas pela TV davam a Marcelo Caetano uma imagem de candura e amabilidade a que o país não estava habituado. No Parque Mayer estreavam revistas de crítica social e política, além de peças de teatro de autores até então proscritos pelo regime. Na televisão o programa «Zip-Zip» entrevistava figuras desafectas ao regime e retratava com humor o nosso atraso cultural, assim como alguns tiques saloios do nosso quotidiano sociopolítico. Nos jornais, sobretudo no «Diário de Lisboa», começaram a escrever, sem rodeios nem temores, certos intelectuais conotados com o partido comunista. Algumas obras proibidas pela Censura foram autorizadas a circular. E para as eleições de 1969 chegou-se a falar na criação de um partido liberal de oposição ao regime, que abortaria à nascença para se transformaria na chamada “Ala Liberal” integrada nas listas da União Nacional.

O embuste marcelista

Marcelo a breve trecho adquire uma imagem política muito positiva. Nas suas visitas pelas terras do interior, distribuía abraços e sorrisos, beijava as crianças e falava com o povo, numa resplandecente campanha de charme político. O sorriso simpático tornara-se na sua imagem de marca. Por todo o lado era recebido em triunfo. Pensou certamente que o povo se sentia feliz e que estaria inequivocamente ao seu lado. Mas tudo era vão e inglório. Um embuste orquestrado pela propaganda. A verdade é que Marcelo tornara-se apenas num “Salazar mais simpático do que o outro”.
A popularidade parecia crescer ainda mais quando ao visitar as colónias foi recebido em apoteose, com avassaladores banhos de multidão e estridentes gritos de patriotismo que lhe soaram como juras de fidelidade eterna. A questão colonial pareceu-lhe dirimida nessas “jubilosas” manifestações populares que inundaram as ruas de Luanda e de Lourenço Marques. Puro engano. O que o povo queria era a paz. Os colonos desejavam uma solução para a guerra, se possível com a sua permanência e a conservação dos seus bens materiais.
Marcelo, infelizmente, confundiu tudo. Pensou que a solução estaria na derrota militar dos movimentos independentistas e na perpectualização do colonialismo. Ele que em Fevereiro de 1962 havia proposto a Salazar a criação dos Estados Unidos de Portugal, no qual as colónias (Angola e Moçambique) se transformariam em Estados Federais.
A chamada primavera marcelista depressa adquiriu as invernosas nuvens do embuste político em mergulhara a nação. Os seus erros políticos agudizaram-se em 9-8-1972 com a reeleição de Américo Tomás, numa clara evidência da manutenção do fascismo. Todos supunham que o candidato da União Nacional fosse o próprio Marcelo Caetano, que após eleito nomearia para Primeiro-ministro uma figura de prestígio intelectual, capaz de assumir os destinos da nação, rumo à tão almejada liberdade política. Como isso não aconteceu, a chamada “Ala Liberal”, em que pontificava Francisco Sá Carneiro, decidiu demitir-se em 1973, caindo por terra as esperanças de transição pacífica para a democracia.
O «25 de Abril» era uma inevitabilidade nacional. Creio que o próprio Marcelo Caetano percebeu isso quando leu o livro do general Spínola, sugestivamente intitulado Portugal e o Futuro. Em reflexo dessa leitura pediu, em 11-4-1974, a demissão a Tomás que não foi aceite. Recebeu em troca um voto de confiança na Assembleia Nacional, um voto de fidelidade da hierarquia militar, uma espécie de “beija-mão” monárquica, caricatamente designada por juramento da “brigada do reumático”, e três semanas antes do «25 de Abril» era triunfalmente ovacionado no estádio de Alvalade, num dos seus últimos banhos de multidão.
O resto é de todos conhecido. A 26 de Abril foi desterrado para o Funchal, e em 20-5-1974 partiu para o exílio no Brasil, onde prosseguiu a sua actividade docente na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. No final do ano publica o Depoimento, um libelo expiatório das suas incongruências e um arrazoado político contra os supostos traidores da pátria. Nesse livro pretendeu justificar as atitudes tomadas nos últimos cinco anos da sua governação. Um chorrilho de asneiras e de tergiversões políticas, próprias de um homem ambicioso, autocrático e convictamente fascista, que sempre desejou o exercício do poder. Afinal nunca quis operar uma abertura política, porque temia perder o comando. Pior ainda foi quando, em finais de 1975, publicou As Minhas Memórias de Salazar, uma homenagem ao velho ditador e um execrável panfleto apologético do fascismo, no qual tenta justificar com perniciosas falácias a necessidade de limitar as liberdades públicas, através da PIDE e da Censura, para defender a pátria do comunismo imperialista. Mostrando-se mais “papista do que o Papa”, esta obra foi a última das suas oportunidades perdidas. Em vez de pedir perdão ao povo português voltou a denunciar a sua verdadeira personalidade de fascista.
Para mim, Marcelo Caetano foi um universitário de indesmentível mérito, autor duma proeminente obra científica, que lhe consagra ainda hoje uma posição de relevo nos areópagos do Direito europeu. Todavia, como estadista foi uma imitação barata dos mais baixos arquétipos da política, pois que não hesitou em enganar um povo que o ergueu em triunfo, o ovacionou e o aclamou como a um salvador da pátria.
Sinto-me ainda hoje, como nos tenros anos da minha juventude, defraudado por um homem marchetado pelas mais credíveis insígnias doutorais, com um sorriso verosímil e simpático, em cujas mãos depositei a derradeira esperança de me ser devolvida a felicidade social e a sempre negada liberdade de poder dizer como o poeta: “não sei para onde vou… mas sei que não vou por aí…”
Afinal, tudo não passou de um embuste, porque Marcelo Caetano foi simplesmente um fascista, pouco melhor do que todos os outros que chafurdaram na pocilga salazarista.

domingo, 2 de agosto de 2009

SAGRES, um lugar na História e no Património Universal

A Fortaleza de Sagres, considerada como o mais imponente monumento que a força da natureza talhou no Algarve, tem sido, ao longo dos tempos, objecto do culto da nacionalidade e da investigação dos mais conceituados historiadores, nacionais e estrangeiros. Estrategicamente situada no extremo sudoeste da península, marco de passagem para o atlântico norte e águas mediterrânicas, sofreu ao longo dos séculos constantes ataques dos corsários marroquinos, em cuja defesa se distinguiram heroicamente as gentes do barlavento algarvio. Nesta mole imensa edificou o Infante D. Henrique a sua decantada “vila de Sagres”, cuja tradição permanece ainda hoje, bem viva na memória dos povos então dominados pelas velas da Cruz de Cristo. Com a morte do seu fundador acentuou-se-lhe o declínio, acrescido pelas pilhagens e abalos telúricos, mergulhando na mais confrangedora ruína. No âmbito das chamadas Comemorações Centenárias, de 1940 e 1960, concretizou-se a sua reconstrução, devolvendo-se àquela fortaleza um semblante mais consentâneo com os seus pergaminhos históricos. Todavia, o seu aproveitamento para fins culturais não tem sido o mais desejável, residindo na exploração turística, o único benefício que dela se obtém.
Para manter a sua conservação como monumento histórico do mais elevado quilate, propomos que se promova, junto das entidades oficiais, a sua classificação como Património Universal, sob a protecção da UNESCO.


* Texto da comunicação apresentada às VI Jornadas Regionais sobre Monumentos Militares, realizadas em Vila do Bispo, Lagos, Silves, Loulé e Faro, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro de 1986, sob a égide da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos (APAC).

A Cruz de Portugal, em Silves


J. C. Vilhena Mesquita

Numa recente visita à cidade de Silves, tive a ocasião de apreciar o estado de conservação de um dos mais notáveis monumentos, sendo que é simultaneamente um dos mais referenciados no contexto da escultura histórica do Algarve. Refiro-me à Cruz de Portugal, considerada como uma das mais belas peças escultóricas da arte gótica em Portugal, facto esse que justificou em 1910 a sua elevação a Monumento Nacional. Situada, presentemente no Enxerim, ou seja na estrada de Silves para S. Bartolomeu de Messines, vê-se claramente que se encontra num estado de erosão precoce e de irreversível deterioração, devido à fragilidade do material constituinte e à agressividade dos agentes externos, especialmente ambientais, naturais e até sociais.
Creio que há mais de vinte anos atrás tive a oportunidade de ler e apreciar em detalhe o relatório de análise técnica e investigação geológica executado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil a pedido da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Nesse documento concluía-se que aquela peça escultórica deveria remontar ao séc. XV e devido à porosidade da pedra em que se encontrava talhada apresentava reais evidências de desgaste, fissuração e vandalismo, o que ameaçava, a breve prazo, a desagregação dos elementos constitutivos e o risco de destruição ou, pelo menos, de irreversível fraccionação. Exigia-se, por isso, que fossem adoptadas medidas urgentes de protecção, conservação e restauro. Neste caso deveria o “cruzeiro” ser retirado para, em sede especializada, se proceder à sua consolidação, recuperação e, sobretudo, à reconstituição dos elementos artísticos.
Efectivamente, ainda não foram solidamente comprovadas as origens deste cruzeiro, esculpido em ambas as faces no estilo gótico flamejante. Cronologicamente remonta à segunda metade, talvez último quartel, do séc. XV, por ser esse o período áureo do chamado gothique flamboyant (gótico flamejante), que teve como palco as abadias, colegiadas e catedrais da França e da Bélgica. Tenho para mim que o facto de haver sido esculpido em calcário branco-amarelado, pouco resistente e muito poroso – que não existe no Algarve e constitui exemplar único em toda a província – demonstra que não era daqui originário, mas antes importado doutra região, certamente de fora do país. E porquê?
Julgo que a explicação reside até no próprio nome: “Cruz de Portugal”, que parece indicar ter sido encomendada por portugueses e/ou com destino a Portugal. Além disso, o seu estilo afrancesado, os elementos compósitos (a Pietá, tão em voga na Alemanha do séc. XIV), não são frequentes no gótico português, que, como se sabe, foi suplantado pelo estilo nacional, denominado Manuelino, que é, ao fim e ao cabo, uma expressão de arte imposta pelo modus vivendi da nobreza e da fidalguia comercial. Por exemplo, a “Janela do Capítulo” no Convento de Cristo em Tomar não é uma simples janela, mas antes um documento histórico inspirado na hermética simbologia dos Descobrimentos, que pretende transmitir à posteridade várias mensagens politico-socioeconómicas. Por conseguinte, os conjuntos escultóricos têm sempre uma dupla função, estética e simbológica. Ora, segundo creio, a Cruz de Portugal deve ter sido encomendada para figurar numa praça pública como um ex-voto, um marco ou um cruzeiro, para assinalar algo piedoso, algo notável, que tenha que ver com a morte e o martírio, porque são esses os temas ali simbolizados.
Com efeito, sabemos que estas cruzes ordinariamente assinalavam catástrofes, enterramentos, batalhas, acidentes, lugares sagrados, ou simplesmente encruzilhadas de caminhos e, por vezes, o centro do burgo. Nenhuma destas hipóteses me parece a mais plausível. Na falta de melhores e mais seguras informações sou levado a admitir que a mesma talvez servisse para assinalar um grande feito histórico, religioso ou militar. Provavelmente a chegada àquela cidade, em 17 de Setembro de 1471, da armada real comandada por D. Afonso V, que regressava da tomada de Arzila e Tanger. O rei, que no seu exército tinha mercenários estrangeiros, talvez lhes tivesse encomendado aquela cruz para servir como voto em alguma praça pública ou num adro de igreja em Lisboa. Porém, vendo-se tão calorosamente recebido pelo povo de Silves resolveu presenteá-lo com a oferta daquela cruz. Na pior das hipóteses quis ver-se livre dela, talvez por esta incomodar a própria estabilidade do navio que a transportava, não sendo raro aligeirar-se a carga nos portos de retorno.
Mas há hipóteses mais lógicas e plausíveis. Quando D. João II faleceu na vila do Alvor, a 29 de Outubro de 1495, o seu corpo foi depositado na Sé de Silves, até que D. Manuel mandou em 1499 buscar o féretro a fim de o trasladar para o Mosteiro da Batalha, não nos repugnando a hipótese daquela cruz haver sido então ali implantada para assinalar tão piedoso acto. Não esqueçamos que os elementos escultóricos que a constituem são um Cristo crucificado e na retaguarda uma Nossa Senhora da Piedade, vulgarmente conhecida por Pietá, que assumiu foros de imortalidade artística mercê do magistral escopro de Miguel Angelo. Esses elementos relacionam-se com a morte e com o acto piedoso de sepultar os mortos.
Por outro lado, a sua similitude com as medievas cruzes processionais (de que existem vários exemplares nos nossos museus de Arte Sacra), poderá querer assinalar a transferência da Sé de Silves para Faro, efectuada definitivamente a 30 de Março de l577. Mas é muito improvável, visto que nessa época já o estilo gótico havia caído em desuso.
Enfim, são tudo hipóteses, bastante frágeis e sem qualquer fundamento documental que não seja a própria imaginação. De qualquer modo, parece tratar-se de uma memória, até porque nos últimos séculos ela fazia-se distinguir do restante casario mercê dos seus seis metros de altura, o que em certa medida constituiria um ponto de referência para os habitantes e até para os forasteiros, já que se dizia que assinalava o centro da cidade. Infelizmente, foi sucessivamente trasladada para vários locais. Já esteve perto da Sé no terreiro da Câmara, e, ultimamente, voltou para onde já havia estado, ou seja, a cerca de 500 metros da cidade no cruzamento para São Bartolomeu de Messines. Em 1824 deu-lhe a Câmara a base de pedra calcária (bem diferente na cor e textura do calcário da cruz) que ainda hoje a sustém e teria então o dobro da altura que tem actualmente.
O seu valor artístico é incontestável e segundo afirma Pinho Leal, na sua obra Portugal Antigo e Moderno, já os ingleses a haviam cobiçado a ponto de a tentarem levar consigo, pretensão a que a população se opôs vigorosamente. Creio que se referia aos industriais ingleses ali estabelecidos. Não esqueçamos que se trata de um monumento de carácter religioso, cujas origens se perdem na memória dos tempos, e daí o povo atribuir-lhe grande significado religioso. De tal forma que diariamente se viam ali pessoas ajoelhadas invocando a graça divina, sendo igualmente costume juntar-se o povo a rezar em volta da cruz na sexta-feira da quaresma. A própria filarmónica silvense fazia por vezes os seus concertos junto à Cruz de Portugal.
Seja como for, os tempos foram apagando as tradições e inclusivamente reduziram para três metros, isto é, para metade, a altura da primitiva cruz. Actualmente, se bem que resguardada por um alpendre e por um gradeamento de ferro, o secular monumento corre o risco de nos tempos mais próximos se desgastar gradualmente até à sua total irrecuperabilidade. De momento, o calcário em que foi esculpido encontra-se bastante alterado e em estado de desagregação e com algumas fissuras bastante acentuadas. Faltam-lhe já vários fragmentos de pedra e o relevo das figuras e dos ornamentos está muito desgastado. Além disso, agentes parasitários e corrosivos, como líquenes, têm-se fixado especialmente nas zonas umbrosas das reentrâncias do fuste que sustém o crucifixo, contribuindo para a sua progressiva desagregação. O calcário de um modo geral apresenta uma tonalidade amarelo-rosada e o florão que remata a cruz está escurecido, talvez derivado dos fungos da humidade ou das gotículas que caiem do travejamento de madeira que forma o referido alpendre. Por outro lado, a acidez dos excrementos das aves, por exemplo, das andorinhas, tem corroído a pedra. Nota-se, ainda, uma acentuada fractura que atravessa as duas pernas do Cristo crucificado e na sua perna esquerda vê-se um remendo, talvez de gesso. Verifica-se também que o calcário foi colocado com a estratificação no sentido vertical e que algumas fissuras do tipo estilolítico formam uma espécie de rede que põem em perigo a conservação do monumento.
Um exame da pedra revelou que se trata de um calcário fundamentalmente composto por carbonato de cálcio, com leve percentagem de carbonato de magnésio, o que leva a designá-lo como calcário dolomítico. A humidade atmosférica, a chuva e a poluição, são actualmente os principais agentes corrosivos do frágil monumento. Para a sua conservação pode-se optar pelo seu tratamento in situ ou em laboratório. Por razões de urgência recomenda-se a primeira hipótese. Nesse caso, deve-se, tratar imediatamente de eliminar os líquenes, reparar as fendas e fissuras, colar os fragmentos prestos a caírem e, por fim, operar-se a sua consolidação total.
Sugerimos à autarquia de Silves que, em colaboração com o IPPAR e os Monumentos Nacionais, proceda à substituição da vetusta Cruz de Portugal por uma réplica, talvez em fibra de vidro, que fica barata e fielmente idêntica ao original. Não se notará a diferença, podendo sempre visitar-se o monumento original no museu municipal, depois de devidamente restaurado. Julgo que será a única forma de evitar a perda de uma das mais antigas e mais belas peças escultóricas do património histórico algarvio.

domingo, 26 de julho de 2009

Mário Lyster Franco – figura modelar do regionalismo algarvio

J. C. Vilhena Mesquita

Na galeria das personalidades cimeiras da cultura e da alma regionalista do povo algarvio, assume particular destaque a distinta figura do Dr. Mário Lyster Franco, um intelectual de fina têmpera e raro talento, que se bateu denodada e acerrimamente em defesa dos valores humanos, paisagísticos e culturais que melhor caracterizam esta região. Ninguém melhor do que ele o soube fazer, em dedicação, sacrifício e paixão. Ser algarvio para Lyster Franco era um orgulho, mas também um estatuto marcado por um fervoroso regionalismo, que baptizara como “algarviísmo” um neologismo da sua lavra que chegou a fazer furor, numa altura em que ninguém falava ou sequer pensava em regionalização.
Mário Augusto Barbosa Lyster Franco, de seu nome completo, nasceu em Faro a 19-2-1902, no seio de uma família ilustre. Seu pai, o pintor Carlos Augusto Lyster Franco, natural de Belém, foi uma das personalidades mais distintas e admiradas na sociedade farense dos princípios do século XX, notabilizando-se como professor do Liceu de Faro, como dirigente republicano do Partido Democrático liderado por Afonso Costa, como jornalista fundador do semanário O Heraldo que se ditou em Tavira e em Faro, e ainda como escritor, em cuja lista de obras pontificam estudos de crítica de arte, crónicas e novelas.
Fez os seus estudou preparatórios e liceais em Faro, estreando-se literariamente aos oito anos de idade, nas colunas do semanário «O Algarve», em cuja edição de 11-12-1910 publicaria uma quadra popular em jeito de crítica política contra o então presidente da Câmara, João Rodrigues Aragão.
Com apenas treze anos participou no histórico I Congresso Regional Algarvio, realizado em 1915 na Praia da Rocha, no qual assumiram notabilíssima participação alguns dos mais famosos políticos e intelectuais do país, como Tomás Cabreira, Paula Nogueira, Agostinho Lúcio, Raul Lino, Falcão Trigoso, João Bentes Castelo Branco, Aboim Inglês, Aníbal Lúcio de Azevedo, António Baião, etc.
Aos quinze anos, perfilava-se publicamente como interveniente no movimento futurista de tão decantada memória, que apesar da incompreensão e até do ostracismo a que havia sido votado na capital, recebera guarida nas colunas do semanário farense «O Heraldo», ao lado de colaboradores que o tempo haveria de tornar célebres, como foi o caso de Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A este propósito veja-se a minha comunicação apresentada em 1984 ao III Congresso do Algarve, intitulado Faro e o Movimento do Orfeu.
Em 1-5-1919 fundou de parceria com José Centeno Castanho, o semanário farense «O Algarvio» que corajosamente se proclamava como órgão difusor de um embrionário movimento de propaganda autonomista, que nunca passou de um projecto de jovens aventureiros, a cujo insofismável talento se perdoavam estes estouvados arroubos de irreverência política. Em todo o caso, repare-se como esta atitude era revolucionária e inovadora para o tempo, pois só após o «25 de Abril» é que surgiu um movimento autonomista (MIA), que não chegou sequer a sair da clandestinidade em que nascera. Lembro que o José Centeno Castanho foi também um homem de sucesso, licenciou-se em Direito e seguiu a carreira diplomática, que em breve abandonaria; mas o facto de ser filho do Dr. Ribeiro Castanho, Ministro de Salazar, refreava-lhe os ímpetos e irreverências, acabando por seguir a vida empresarial no ramo das artes gráficas.
Ainda estudante liceal escreveu com António do Nascimento a revista de crítica social Ora Toma, representada várias vezes, e em anos sucessivos, no Cine-Teatro Farense e noutras casas de espectáculos do Algarve. Nessa peça alguns professores do Liceu e certos políticos da época foram alvo do acerado humorismo estudantil, que não poupando ninguém tornara-se, em certos casos, exagerado e injusto. Tão incompreendido atrevimento valeu ao jovem Mário Lyster Franco alguns dissabores que motivaram a sua transferência para Lisboa, em cujo Liceu Gil Vicente concluiria os seus estudos. Em todo o caso, também é certo que a sua paixão pela aluna Judite Cabeçadas acelerou a sua trânsfuga para a capital, onde reataria essa ligação amorosa. Porém essa paixoneta durou as Rosas de Malherbe.
Matriculou-se depois na Faculdade de Direito de Lisboa, onde não foi dos bons nem dos maus, foi dos outros, dos que souberam desfrutar da vida com a alegre irreverência do espírito estudantil. Anos de descabelada loucura, que ainda assim lhe valeram um licenciatura com doze valores de média. Nesse período de “estudantina liberdade” consegue através do seu grande amigo Assis Esperança um lugar de redactor no jornal «A Pátria», que se extinguiria pouco depois, mudando-se então para a redacção de «O Tempo», órgão de cariz Sidonista dirigido por Simão Laboreiro, que a censura faria suspender, fundando-se em sua substituição «A Palavra», em cujas colunas se distinguiria também o escritor Ferreira de Castro.
Concluído o curso regressa a Faro, onde nas férias estudantis costumava praticar o notariado e ajudar no escritório de Cândido Guerreiro, que embora poeta foi um dos mais bem sucedidos causídicos algarvios do seu tempo. Embora o jovem advogado ainda pleiteasse no foro o certo é que não era essa a sua paixão, dedicando antes ao estudo da literatura e da história algarvia. E nisso colocou sempre o melhor do seu esforço e das suas capacidades intelectuais.
Reconhecendo-lhe grandes talentos e uma fervorosa dedicação à cidade-natal, o governo da ditadura, epitetamente sofismado como "Estado Novo" nomeu-o para a honrosa responsabilidade de Presidente da Câmara Municipal de Faro, onde se manteve durante dois mandatos, de 1932-34 a 1937-39, prosseguindo depois ainda mais alguns anos como vereador. Nesse âmbito, importa realçar que ao Dr. Mário Lyster Franco se ficaram a dever grandes melhoramentos locais, nomeadamente nas infra-estruturas de abastecimento de águas, electricidade e esgotos, assim como na abertura de novas vias de acesso nas freguesias rurais do concelho. Era hábito vê-lo todas as quintas-feiras num side-car desconfortável e perigoso de conduzir a visitar as obras camarárias, exigindo sempre o estrito cumprimento dos contratos.
Uma das suas iniciativas mais curiosas foi a criação em 23-6-1932 do Museu Antonino de Faro, o segundo do país, e até há bem pouco tempo o mais visitado do Algarve. Por outro lado, promoveu várias homenagens públicas a escritores, poetas e historiadores, atribuindo-lhes mais de duas dezenas de novas artérias da cidade. São igualmente dignas de realce as suas iniciativas nas colunas do «Diário de Notícias» e da imprensa regional para os monumentos a D. Francisco Gomes do Avelar, Ferreira de Almeida, Ataíde Oliveira, etc.
Em 1946 assumiu a direcção do semanário «Correio do Sul», o mais prestigiado órgão da imprensa algarvia de todos os tempos, ao leme do qual se manteria quase quarenta anos, sacrificando os seus recursos financeiros e a disponibilidade que deveria consagrar à consecução da sua obra de investigação. Para honra do Algarve manteve o seu jornal num dos lugares de topo da imprensa regional portuguesa. Em Dezembro de 1981, quando a saúde e os meios financeiros eram já parcos, encerrou com profundo desgosto as colunas daquele que foi o seu grande projecto de vida: o «Correio do Sul». Assisti a esse doloroso momento e tive a honra de colaborar na edição derradeira desse incomparável órgão da imprensa algarvia. Porém, havia que fazer sacrifícios e, sobretudo, poupar forças para num derradeiro esforço avançar com a publicação da Algarviana - Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, essa sim a obra da sua vida e, podemos afirmar sem exagero, a alma-mater da cultura algarvia.
Trabalhei nessa obra-mestra da cultura algarvia desde 1980 até meados de 1984. Verifiquei então que os verbetes estavam apenas “alinhavados” e que as entradas biobibliográficas estavam paradas desde 1940. Inclusivamente a maioria dos autores contemporâneos estavam por fazer. Fiz a actualização do 1.º volume e comecei a fazer o 2.º volume, cujos trabalhos tive de interromper porque a Câmara na altura se desinteressou pela edição da obra. Profundamente chocado com essa atitude o Dr. Lyster Franco deixou-se cair num estado de prostração física, de afasia intelectual e de desinteresse pela vida. Cegou num ápice e entrou num estado de senilidade galopante que obrigou ao seu internamento numa instituição hospitalar nos arredores de Lisboa, onde viria a falecer pouco depois.
Foi no convívio diário com esse grande homem da cultura algarvia que aprendi a amar o Algarve e a sentir-me conscientemente algarvio. Atravessei a seu lado momentos desgosto, como a perda da esposa, e de grande desespero derivado do agravamento do glaucoma que o levaria à cegueira. Mas também partilhei a euforia da publicação do primeiro volume da Algarviana, editado em 1982, que por incrível que pareça, nunca mais teve seguimento. Tanto a Câmara Municipal de Faro como a Universidade do Algarve, a Região de Turismo e o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas deveriam unir-se em torno desse projecto, que considero imprescindível para o conhecimento multidisciplinar da região.
A suspensão da edição da Algarviana, imposta pelo então Presidente da Câmara, João Negrão Belo, acelerou a cegueira, deixando-o prostrado e sem vontade de viver. Faleceu a 20-8-1984, na Clínica de S. José de Camarate, em Lisboa, onde dera entrada oito dias antes.
A lista de obras de Mário Lyster Franco reparte-se entre a arqueologia, a história e a literatura algarvia, num total de trinta títulos, dos quais nunca se fez uma reedição. Como também nunca se publicou o livro que acerca da sua vida e obra escrevi em 1984, com o título, por ele escolhido, de Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, baseado em várias entrevistas gravadas na sua casa, enquanto lhe amenizava a solidão em que viveu nos derradeiros meses de vida.

PS – A obra Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, só muito recentemente, em 2005, é que a consegui publicar com a chancela da AJEA Edições.

TURISMO E PATRIMÓNIO CULTURAL

J. C. Vilhena Mesquita

A actividade turística no Algarve, a partir de meados da década de sessenta, deixou de ser um fenómeno conjuntural para se transformar, nos dias de hoje, numa das principais fontes de receita da economia regional.
Muito embora se lhe apontem características de sazonalidade, o certo é que se tem vindo a verificar um tendencial crescimento dos índices ocupacionais nas unidades hoteleiras – apesar da oferta ter aumentado a um ritmo, que julgo, demasiado acelerado, para um sector tão susceptível e volúvel como o turismo. Daí que essa tendência se augure tanto mais acentuada quanto o permitirem as relações internacionais, nos domínios da coexistência pacífica, do desenvolvimento económico e da estabilidade socio-laboral.
Sendo o Turismo um conjunto de actividades económicas, emissoras ou receptoras, fundamentadas nas motivações e necessidades que proporcionam a movimentação dos indivíduos no espaço, lógica se torna a sua dependência de factores exógenos, quando provocadores de instabilidade económica, segurança e mobilidade. Demonstra-o o aumento das taxas de juro no Reino Unido, que provocou a diminuição dos fluxos turísticos nos países da Comunidade Britânica e na Europa do Sul. Comprova-o o recente conflito militar no Médio Oriente, que – apesar de breve e circunscrito a determinada região do globo – desencadeou uma onda de insegurança internacional e frustrou as expectativas de mobilidade turística. O resultado está à vista: prejuízos incontáveis, falências, desemprego, etc.
Para obstar a situações como as que acabamos de apontar, sugiro que se comece a pensar na criação de um Banco Europeu do Turismo e de uma Companhia de Seguros do Turismo, em cujo constituição deveriam participar maioritariamente – senão em exclusivo – os países pertencentes à União Europeia. O recurso a estas instituições poderia viabilizar o investimento, diminuir o risco através da análise técnica dos projectos de financiamento e proporcionar a cooperação inter-europeia no estudo dos mercados turísticos. Por outro lado, asseguraria a cobertura dos prejuízos resultantes de hipotéticas calamidades, do tipo ecológico, sísmico ou até epidémico, que fossem causadoras de falências inesperadas ou de desmobilização dos fluxos turísticos.
Mas as crises passam e a actividade turística recompõe-se, quanto mais não seja pela necessidade de lazer e pela intrínseca vontade humana de viajar, comunicar e conhecer.
As alterações políticas verificadas a Leste, indiciam a breve trecho o escalonamento de novos mercados de recepção turística. Por isso, é natural que o turismo, dos anos noventa, se desenvolva numa lógica concorrencial mais diversificada, com rácios de ponderação favorável do tipo cambial ou de simples "novidade". Enfim, ventos de mudança contra os quais nos devemos precaver através de campanhas que infundem a opção pela qualidade, deixando que a melhoria da oferta se compatibilize com o aumento da procura e, assim, se regularizem os mercados.
Não é novidade para ninguém que os índices da quantidade só poderão manter-se pelo aumento da qualidade. E qualidade em turismo significa pureza do ambiente, fruição de espaços livres, sossego, liberdade, exotismo, comodidade, segurança, animação cultural, recreação desportiva, originalidade gastronómica, eficiência de serviços, afabilidade, receptividade, disponibilidade das mais modernas técnicas de comunicação e informação, etc.
Ora, num espaço reduzido como é o Algarve, sujeito às mais diversas pressões dos mercados concorrenciais que lhe estão próximos, não creio que se deva optar pela quantidade, pura e simples, da oferta, sob pena de, num futuro próximo virmos a pôr em causa o próprio ordenamento do turismo. A construção desenfreada e, na maior parte dos casos, inestética poderá vir a tornar-se contraproducente.
Para superar as insuficiências, que de todo o tipo se fazem sentir tanto no sector como na própria região, julgamos que o caminho pelo qual se deverá optar com a maior celeridade será o da formação técnico-profissional e o da investigação científica. Se as autarquias e os organismos responsáveis pelo sector dispusessem de quadros com formação académica especializada muitos destes problemas poderiam ter sido evitados. É na Escola que se prepara e racionaliza o futuro. O investimento na formação profissional e científica garante maior produtividade e rentabilização dos capitais aplicados.
O estabelecimento de protocolos de cooperação e o financiamento de projectos de investigação na Universidade do Algarve, poderá contribuir de forma decisiva para a valorização e desenvolvimento económico do turismo algarvio. A formação académica iniciou-se já na Escola Superior de Gestão Hotelaria e Turismo, integrada na Universidade do Algarve, que irá formar técnicos habilitados com o grau de Bacharelato para laborarem não só nas empresas da região como nas do país em geral.

Turismo e Cultura.

O Algarve como região privilegiada para o turismo não deve descurar a oferta cultural. E isto porque se tem estribado quase exaustivamente na beleza das praias e na amenidade do seu clima, esquecendo-se da estratégia da diversificação para combater a rotina e a saturação.
A animação desportiva tem sido ultimamente uma opção inteligente evidenciada no aumento e valorização dos campos de golfe, “courts” de ténis, centros de equitação, circuitos de manutenção, centros de estágio, etc.
Falta, porém, dar mais ênfase à animação cultural.
Se em termos de procura tem vindo a aumentar a escolha do Algarve para a realização de congressos nacionais e até internacionais, já o mesmo não se poderá dizer quanto à oferta de programas destinados a curtos períodos de férias culturais. E nesse sentido existem vários filões a explorar. Atente-se, por exemplo, nos festivais de música, folclore, gastronomia, exposições, feiras, etc, e pense-se quantos programas de turismo poderiam ter sido elaborados especialmente para esses eventos. O turismo cultural, circunscrito ao Algarve, não dispõe de meios que lhe permitam preencher as férias anuais de quem nos visita, servindo antes para promover deslocações breves para fins específicos, de carácter artístico, cultural ou científico. E no tocante aos prospectos de propaganda turística raros são os que se dedicam exclusivamente à oferta cultural. Constituem uma honrosa excepção os desdobráveis que o Doutor Francisco Lameira tem publicado sob o patrocínio das respectivas edilidades, versando o património arquitectónico algarvio.
Mas mesmo na época alta do Verão são raras as agências de viagens que se dedicam à exploração de roteiros turísticos de índole cultural. As que o fazem utilizam guias sem formação específica que apenas conhecem o trivial nas localidades aonde conduzem os grupos turísticos. Já tive a oportunidade de apreciar a forma como actuam na cidade de Silves, onde os turistas são introduzidos no Castelo ou na Sé Velha sem terem acesso a uma informação histórica segura que lhes permita compreender as origens seculares daqueles imóveis.
Também, para obviar a semelhantes exemplos, seria oportuno que se procedesse à revisão científica dos programas de formação ministrados na Escola Hoteleira, onde temo que se esteja a enveredar pela superficialidade dos antigos "cicerones". A especialização de guias em determinados circuitos ou roteiros turísticos seria também uma opção a não descurar. E o mesmo se poderá dizer das agências de viagens, cujos operadores turísticos nem sempre estão sensibilizados para este tipo de oferta.

O Património Cultural do Algarve.

Falar do património cultural algarvio é, forçosamente, recordar o passado histórico desta região.
Esta afirmação é tão lógica e apriorística que, por vezes, nos leva a esquecer os vectores fundamentais que garantem a sua permanência na nossa memória colectiva, a saber: identificação (que pressupõe investigação histórica), inventariação, protecção, recuperação/conservação, reabilitação, manutenção e revitalização/utilização.
Neste faseamento se decompõe não só o conhecimento como a valorização do legado histórico herdado dos nossos antepassados e que em larga medida contribuem para a formação de uma consciência regional embasada na cultura. Mas para que o mesmo se possa cumprir ou executar teremos sempre que contar com a preponderância da força da decisão. Quem decide o que fazer, onde e como agir na salvaguarda do nosso património cultural? Obviamente o Estado, por intermédio do poder executivo que se faz representar no Instituto Português do Património Cultural, felizmente já disseminado por diversas regiões, de que é exemplo recente o Algarve. Todavia, o pouco que tem feito não raras vezes tem sido alvo de críticas.
Por conseguinte falar de Património Cultural pode traduzir-se numa crítica ao poder político instituído e à sensibilidade cultural de quem usufrui do poder da decisão. Não é essa a minha intenção.
No entanto, não posso deixar de acrescentar que para fomentar a defesa do nosso património é preciso ter pleno conhecimento do espaço geo-cultural em que se acha inserido, possuir um elevado grau de especialização académica, ter espírito de iniciativa para apoiar e/ou implementar projectos de inventariação, contratar técnicos de reconhecida competência para procederem a acções de recuperação, incentivar a investigação histórica e adquirir um bom relacionamento com as autarquias locais, que permita, em consonância das partes, definir qual o aproveitamento, utilização e divulgação pública dos valores patrimoniais de cada concelho.
E digo isto porque os conjuntos históricos ou tradicionais, qualquer que seja a sua classificação técnico-administrativa, a sua dimensão ou diversidade cultural, não podem deixar de ser parte integrante do espaço em que se inserem as sociedades humanas. O património ainda que seja de todos é, em primeiro lugar, das populações que à sua imagem e influência moldaram atitudes e adquiriram identidades próprias.
Defender o património é também zelar pela planificação urbana e pelo ordenamento do território, combater a uniformização e a descaracterização do espaço imobiliário, evitar demolições de edifícios antigos, definir zonas protegidas e adoptar uma política de reanimação dos conjuntos históricos ou tradicionais. Importa aqui esclarecer que por «conjunto histórico ou tradicional» se deve entender um leque muito diversificado de construções ou espaços, nos quais desapareceu ou ainda permanece a ocupação humana ao longo dos séculos.
A identificação do seu valor e reconhecimento cultural só pode ser avaliada pela apreciação arqueológica, histórica, arquitectónica, estética ou sociocultural. São exemplos concretos, as estações arqueológicas, os monumentos ou edifícios religiosos, civis e militares, as cidades, vilas e aldeias de grande tradição histórica e/ou etnográfica, ruas, praças, literatura oral, artesanato, etc, etc.
Nesta tão vasta quanto árdua tarefa de preservar e conhecer o passado tem-se registado alguns exemplos de particular merecimento que importa aqui salientar. Em primeiro lugar, as antigas Comissões de Arte e Arqueologia que em muitas e variadas ocasiões contribuíram para a inventariação dos imóveis de interesse concelhio, impediram demolições arbitrárias, salvaguardaram arquivos, instituíram bibliotecas, fundaram museus, editaram livros e revistas, sugeriram a atribuição de ruas a diversas personalidades locais e, como se tudo isto não bastasse, conseguiram que as Câmaras nos seus orçamentos aumentassem a cabimentação de verbas destinadas à cultura.
Em segundo lugar, saliento o aparecimento das Associações para a Defesa do Património local que despontaram em quase todo o país, não sendo o Algarve uma excepção. Todavia, o facto de em muitos casos conglomerarem mais do que um concelho – julgando-se, assim, mais seguras da sua sobrevivência financeira – originou certas dissenções internas, desmotivações e consequente desmobilização dos seus associados, tornando-se quase imperceptíveis no meio cultural algarvio. A falta de apoios económicos, quer das quotizações dos membros quer das autarquias locais, provocou a estagnação e a inoperância destes órgãos associativos, de que tanto havia a esperar.
Ressalve-se, porém, as actividades da ADIPACNA, de Castro Marim e Vila Real de St.º António que teve o mérito de haver editado a revista «Património e Cultura» (suspensa ao cabo de dez números) que foi a única no género que se publicou nesta província. Também a ADEIPA, dos concelhos de Faro, Olhão São Brás de Alportel e Tavira, que pelo menos editou três livros, merece o nosso realce, apesar de se encontrar actualmente desactivada. Sucedeu-lhe a FARAON que tem desenvolvido várias acções de divulgação e defesa do património farense, cujos resultados positivos não podemos deixar de enaltecer. As suas visitas guiadas pela cidade e concelho de Faro, assim como os processos que ultimamente tem levado a cabo para a classificação de imóveis de interesse público, merecem a nossa admiração pelo esforço e dedicação que os seus dirigentes têm demonstrado.
Resta-nos, felizmente, a empreendedora Delegação Regional do Sul da Secretaria de Estado da Cultura que tem vindo a apoiar diversas iniciativas no âmbito da investigação e da inventariação do património histórico do Algarve. É com o maior apreço e satisfação que aqui fazemos lembrar a publicação de várias obras de reconhecido mérito científico, de entre as quais me permito salientar o Inventário do Barroco no Algarve e os Inventários Artísticos do Algarve, da autoria do Doutor Francisco Lameira, os Tesouros Artísticos do Algarve, pelo Prof. Pinheiro e Rosa, assim como a notável revista, humildemente designada por «Boletim Informativo», onde se deram à estampa com a chancela da SEC alguns importantes estudos sobre o património teatral, musical e das associações culturais algarvias. A edição de estudos regionais, levantamentos arqueológicos e inventários bibliográficos só dignificam a SEC e enaltecem os seus sucessivos Delegados Regionais. Apesar de ser um organismo público, cujo dirigente não é partidariamente isento, o certo é que as acções promocionais da actividade cultural têm dado amplas provas de competência e de prolixidade, que, em boa verdade, estão acima de qualquer crítica.
Relativamente à delegação do IPPC, recentemente instituída em Faro, pouco podemos adiantar de positivo. Começou desde logo por um processo de instalação pouco digno e algo desabonatório. Com efeito ao acomodar-se, ainda que provisoriamente, nos princípios desta década no edifício do Governo Civil, tornou evidente que se tratava de um organismo ao serviço do poder instituído, fragilizado na sua idoneidade política e dependente dos lobbies da construção civil, geralmente patrocinadores dos partidos políticos. O delegado regional não é uma personalidade reconhecida nos meios intelectuais, mostrando-se pouco à vontade no que respeita conhecimento do património algarvio. É nitidamente um funcionário do poder, destinado a instituir uma «paz podre» um complacente «fare niente», que tanto agrada aos políticos. As suas iniciativas têm sido praticamente nulas e muitas vezes atentatórias à própria salvaguarda do património, não tomando atitudes que antagonizem o poder político ou o poder financeiro. Numa região onde os interesses económicos e as influências políticas de certos "lobbies" não costumam enfrentar quaisquer tipos de entraves, não poderia ter-se escolhido melhor delegado para um organismo tão inconveniente como o é, ou como o deveria ser, o IPPAR.
Este processo ocorreu com o PSD, mas é bem verdade que o PS nada fez para se tornar diferente dos seus antecessores. Nada mudou e teme-se até que o clima de «paz podre» se institucionalize nos organismos estatais representados no Algarve. Esse é, aliás, um dos sintomas do entorpecimento centralista a que nos temos vindo a habituar há mais de um século. Talvez a regionalização nos traga melhores dias para «varrer» os incompetentes e poder «arrumar» a casa que é de todos nós.
Entretanto o turismo vai decorrendo pachorrentamente no Algarve, ao sabor das crises de escassez ou dos excessos, degradando-se impunemente o ambiente enquanto se agrava o custo de vida. Os naturais meios de lazer têm sido descurados, assim como se tem placidamente assistido à delapidação do património histórico, obscurecendo os valores culturais que particularizam esta região. As técnicas de atracção turística aplicadas no Algarve são semelhantes às que se utilizam em quase todos os destinos espalhados pelo mundo do turismo de massas. E esse não é certamente o melhor caminho para o caso específico do Algarve. Enquanto não metermos isto na cabeça nada se alterará.
Nota - texto da Conferência proferida no Congresso de Turismo, realizado em Vilamoura

O ALGARVE E O TURISMO - na perspectiva de Vasco da Gama Fernandes

J. C. Vilhena Mesquita

Neste espírito «algarviista» – que todos me reconhecem, mas que só me tem granjeado dissabores e inimigos – tenho vindo a reunir, ao longo dos anos, um imenso acervo documental sobre o Algarve. São os meus «papéis velhos» ou, como já alguém lhes chamou, a minha "Torre do Tombo". Os amigos e sobretudo os meus alunos sabem do que se trata.
Neles exumei um artigo, de Vasco da Gama Fernandes, publicado na «República», de 21-3-1960, intitulado "Algarve". Duas razoes me levaram de imediato a pensar na sua reedição.

A primeira remonta aos primórdios dos anos 80, quando ao lado do Prof. Adelino da Palma Carlos conheci pela primeira vez esse causídico de tão vigorosa têmpera. Tinha um porte altivo, rosto comprido, olhos fundos, voz oraculina, mãos esguias estrangulando sucessivos cigarros. "Este é como eu, um livre-pensador. Algo idealista, por vezes, muito inocente..." – dizia Palma Carlos. "Mandou o ...[não digo quem] à merda e saiu do partido. Está velho..., diziam os novos adesivos do PS."
O Dr. Vasco da Gama Fernandes, riu-se das palavras do amigo e retorquiu: "Foi por isso que a Lurdes Pintassilgo me mandou para o Museu". Referia-se à sua nomeação para director do Museu da República e da Resistência. A conversa foi azeda e muito acintosa para algumas das actuais figuras políticas. Guardei-a na memória e dela também extratei algumas notas para a Algarviana, que então, como agora, ambicionava publicar. Recordo-me que a um deles chamava-lhe "o Inquisidor mor", por, em nome do partido, fazer uso de informadores e provocar intrigas entre certas individualidades de grande prestígio político. Não digo nomes, mas agora percebo como foi que alguns "cinzentões" conseguiram subir na vida política.
Guardo na lembrança desse encontro a ironia do Prof. Palma Carlos e os seus dotes de contador de episódios picarescos. Páginas de memórias nem sempre passíveis de publicação.
"A vida miudinha de um homem às vezes é uma piolheira. Mas isso não invalida que ele seja um homem grande... percebe?" Claro, respondi com aquele ar tolerante que o Dr. Vasco da Gama adoptara como lema, quase epitáfio de uma vida quixotescamente dedicada à complacência das ideias e à liberdade de opinião.
"Acima de tudo, e antes de mais, sou um tolerante – dizia ele. A juventude possui a generosidade da tolerância. A propósito, quando eclodiu em Paris a revolução de Maio eu fui lá para me pôr a par dos ideais da juventude. Nem imagina o que aquilo foi."
Imagino sim – retorqui com orgulho –, também lá estive, em Julho de 68, na companhia de meu irmão, estudante da Sorbone, e também ele um "soixante-huitarde".
A partir daqui tomou as rédeas da conversa e ilustrou-a com gestos amplos, numa mimética de sentidos que lhe engrandeciam a palavra. Quem ali falava era o Tribuno do Povo, seguro, confiante, imune. Mas aquela possante figura irradiava uma fulgurante sensibilidade, que se reflectia na defesa dos valores da emancipação humana: trabalho, honra e liberdade.
A conversa é como as cerejas, pega-se num assunto...
Naturalmente o Algarve veio à baila. Lembro-me do ar estupefacto do Prof. Palma Carlos ao ouvir-me falar das suas tropelias de infância no Largo da Palmeira e no Jardim da Alameda, em Faro, como se eu tivesse feito parte da "trupe dos Lampiões", à qual pertencera nos princípios deste século. Foi uma espécie de provocação – no bom sentido – à qual ripostou com várias outras revelações de carácter memoralista e de inegável interesse regionalista. Porém o seu desalento era profundo. Sentia-se ostracisado pelo Algarve, e não encontrei argumentos que me permitissem demonstrar-lhe o contrário.
Nessa altura, o Dr. Vasco da Gama Fernandes referiu-se ao Algarve e aos algarvios que conhecera nos anos 60. Uma fiada de nomes, alguns oficiais do mesmo ofício: os Drs. Neves Anacleto, Rita da Palma, Júlio Carrapato, Lyster Franco. Não lhe ouvi uma referência depreciativa para qualquer deles. Eram todos "homens grandes".
As suas palavras eram duma clarividência quase profética. Com eloquência teceu a caracterização do povo algarvio, nos seus anseios e limitações, enfatizando a riqueza do mar e a benignidade da terra, como principais agentes modeladores de um psiquismo cultural que considerava ímpar no nosso país.
Revelou-me então que havia escrito 20 anos antes um artigo sobre esse "país do sol", que dera à estampa no jornal «República». Prometeu enviar-mo, o que cumpriu pouco depois.
A segunda razão que me levou a pensar na sua reedição prende-se com as qualidades de observador e de analista esclarecido do autor. Considero-o um documento de grande utilidade para a história do turismo algarvio. Repare-se que estávamos no início da década de 60, um período de grandes perturbações políticas, marcado pela guerra colonial, greves académicas, assassinato do General Humberto Delgado, sucessão de Marcelo Caetano ao moribundo ditador Oliveira Salazar...
Mas os tão saudosos, quanto conturbados, anos 60 assinalaram também os primeiros investimentos no turismo algarvio e o arranque de grandes empreendimentos, como os de Vilamoura e Torralta. Por isso, considero notável a sua profetização do turismo como principal sector de desenvolvimento socioeconómico do Algarve.
As palavras com que Vasco da Gama Fernandes fundamenta as potencialidades do Algarve para o incremento do turismo, constituem o cerne desta brilhante peça jornalística. Contudo, nela transparece também a saudade da infância passada em Cabo Verde, de onde era natural, sugerida pela intensa luminosidade solar e águas calmas das nossas praias.
Mas a sua perspicácia de observador reveste-se, por vezes, de um profundo analismo sociológico. Demonstram-no afirmações tão modelares quanto aquela em que alude à singularidade do povo algarvio, numa espécie de simbiose entre o homem e o mar: "O mar imenso, nas suas complexidades e nos seus atractivos, modelou uma psique que não encontra semelhança noutro ponto do país. Vivendo, primordialmente, dele, o algarvio parece trazer na alma o alvoroço das tempestades e a quietude moirisca dos crepúsculos. É um ser àparte na comunidade portuguesa."
Essa singularidade do povo algarvio evidenciava-se também no dramático fenómeno da emigração e das alterações culturais (enculturação) a que se submetiam os portugueses além fronteiras: "...quando regressa, embora com modificações na sua maneira de ser é sempre o mesmo algarvio, individualista e orgulhoso, habituado à fartura e à pobreza, mas de espinha direita e alma lavada."
Por tudo isto, não só pela clarividência como pela qualidade estilística do texto, justifica-se, aqui e agora, a sua reedição. Mas se não for essa uma razão suficiente, pelo menos que o seja uma razão necessária para homenagear a memória de um homem que, com coragem e sacrifício, lutou pela instauração da liberdade e da democracia, que hoje todos desfrutamos.