sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ASCENSÃO e DECADÊNCIA de TAVIRA no ANTIGO REGIME


José Carlos Vilhena Mesquita

A cidade de Tavira, pela sua posição estratégica na foz do rio Gilão, nas proximidades do Guadiana e da raia espanhola, espraiada sobre a ria que a defende das intempéries oceânicas e das incursões corsárias, teve desde a conquista cristã uma importância fulcral na defesa militar do espaço oriental do reino do Algarve. A sua triangulação entre Aiamonte e Faro privilegiam o seu posicionamento geográfico, condicionando simultaneamente o seu crescimento socioeconómico. Todo o seu desenvolvimento futuro ficaria dependente das relações internacionais com a Andaluzia e a costa magrebina, onde estabeleceríamos os nossos interesses comerciais em controversos territórios de difícil sustentação política e de arriscada conservação militar.
Os distintos privilégios e isenções, concedidos no foral e nas diversas cartas régias emanadas pela coroa, desde D. Dinis até D. Sebastião, atestam e confirmam não só a sua importância geo-estratégica, como ainda a necessidade de promover um porto alternativo à costa granadina e um entreposto mercantil à argêntea cidade de Sevilha. Devido às incompetentes relações políticas com o al-andaluz, não teve a cidade de Tavira o sucesso comercial que se esperaria entre os dois reinos transfronteiriços, estabelecendo-se um divórcio ou um alheamento de interesses desde 1252 (conquista definitiva do Algarve) até 1492 (conquista de Granada pelos reis católicos). No decurso desse período, virou-se o Algarve para a estrada atlântica, descurando parcialmente as relações mediterrânicas. A sediação da Ordem de Cristo na raiana praça militar de Castro Marim, agravada com a presença do Infante D. Henrique, impediam qualquer reatamento das relações andaluzas. Por outro lado, sabendo-se dos projectos expansionistas do Infante, a cidade de Tavira viu-se prejudicada pelo entravamento da ria e pelo progressivo assoreamento do seu canal portuário, razões naturais que embargaram o estabelecimento dos estaleiros navais necessários à consolidação do projecto henriquino. Digamos que a região sotaventina, pela configuração da restinga costeira e até pelo regime dos ventos, viu-se arredada, ou pelo menos desviada para segundo plano, no processo dos Descobrimentos Portugueses.
Com a morte do Infante D. Henrique amorrinhou o plano de expansão atlântica, para lhe suceder uma política africanista de conquista militar, afirmação religiosa, fixação cultural, controlo económico e assenhoreamento territorial. Os tavirenses, mareantes e pescadores, fidalgos terratenentes e militares, empenharam no acometimento africano o melhor do seu esforço, e até o fruto dos seus cabedais financeiros, para que a glória do rei e o prestígio da lusa pátria, pairasse nas praias magrebinas como sinónimo da honra e do heróico sacrifício da cristandade. Os algarvios, mas principalmente os tavirenses, foram o sustentáculo, militar e financeiro, das nossas possessões africanas.
Em resultado da posição geo-estratégica da cidade, o seu porto transformou-se na plataforma giratória do profícuo trato sahariano, com particular ênfase no mel, na cera, nas couramas e marroquins, nas exóticas tâmaras, nos incensos e especiarias, no pescado seco e, sobretudo, nos corcéis árabes tão procurados nas cortes europeias. E de Tavira seguiam para os portos magrebinos o sal (o nosso ouro branco), o azeite mais fino (para a higiene e cosmética), a amêndoa coca, o figo mercador, as lixas de peixe, as frutas de espinho (citrinos), a cortiça, o sumagre (para a curtição peleira e tintureira dos marroquins), linho, resina, carvão, cal e peixe salgado (atum e sardinha). Mas também ao porto de Tavira acostaram as armadas reais da “ínclita geração” e do rei africanista, que levaram de Tânger até Arzila o nobre pendão das quinas. E em homenagem à abnegação do povo tavirense, na conquista e conservação das praças africanas, pela cidade passaram e estanciaram alguns monarcas, desde D. João I ao mítico D. Sebastião, que dos campos de Alcácer Quibir haveria de aqui voltar, num frio e pesado esquife, que os tavirenses velaram emocionados na sua Igreja de St.ª Maria.
Com a ascensão de D. João II ao trono, a retrógrada política de fixação territorial no norte de África foi derrogada, para dar prosseguimento ao projecto atlântico – muito diferente do henriquino, que se baseava mais na captura de escravos para financiamento da empresa, do que propriamente na expansão territorial ou no ecumenismo cristão. O estabelecimento da rota da Índia tornou-se num desígnio nacional, centralizado nas mãos da Coroa, preludiando o absolutismo político que dominaria a nação portuguesa até ao raiar de Oitocentos.
Nos finais do séc. XV, com a queda de Granada e Sevilha, e a consequente unificação da Espanha, experimentou a cidade de Tavira um período de florescimento através do estreitamento das relações político-económicas com a vizinha Andaluzia. A bem dizer, o trato mercantil entre os dois territórios nunca foi anulado pela separação da fé religiosa. Apenas se fazia com mais dificuldade, em atitude de descambo e quase sempre correndo enormes riscos. Mas as transacções em moeda forte (maravedil de ouro), aguçavam o engenho dos traficantes. A partir da legitimação do trato transfronteiriço as exportações do Algarve para a Andaluzia cresceram de forma exponencial, tendo no sal de Tavira e Castro Marim, assim como no peixe fresco ou nas barricas em salmoura, o grosso do seu tráfico. Nas décadas seguintes, a cidade de Tavira atingiu um florescente crescimento urbano e um acentuado desenvolvimento económico, mercê da prata peruana que afluía e entesourava Sevilha. Vive-se, nessa altura o apogeu do imperialismo ibérico, primeiro com D. Manuel I de Portugal, e depois com Carlos V e Filipe II de Espanha. A cidade de Tavira cresceu não só no comércio como na religiosidade, construindo-se no séc. XVI várias igrejas e conventos, restaurando-se as muralhas assim como os edifícios antigos e de maior notoriedade, religiosos ou de nobre talha, com que a cidade se vangloriava de ser a primeira do reino. A prova dessa ascensão está na atribuição do título de cidade, por carta de D. Manuel I, datada de 16-3-1520, vinte anos antes de Faro que só em 1577 se sagraria capital do reino, quando nela se instalou D. Jerónimo Osório trazendo de Silves a cadeira episcopal.
A fervorosa religiosidade dos tavirenses está certamente ligada às suas tradições marítimas, mas também ao espírito beato da época, que teve o seu expoente com D. João III e a introdução do Santo Ofício. É verdade, que já com os Reis Católicos a sanha anti-judaica havia contaminado a política de D. Manuel I, que forçara a conversão dos judeus e criara a gravíssima distinção social entre cristãos-velhos e cristãos-novos, tardiamente dirimida com a governação pombalina, que em 16-2-1773 aboliu a “limpeza de sangue”. O certo é que um aparente fanatismo religioso constituiu-se num factor de antagonismo social e de rivalidade mercantil com as comunidades hebraicas residentes no Algarve, contribuindo para a desagregação do trato mediterrânico e para o esfriamento económico com os portos holandeses e os mercados do Báltico. A questão hebraica, ou seja a perseguição pelo braço inquisitorial do Santo Ofício aos judeus ou cristãos-novos (depreciativamente designados por marranos), suscitou uma abrupta fuga de capitais e de insubstituíveis recursos humanos, que animavam as actividades financeiras e os mercados comerciais, tanto interna como externamente. Por outro lado, a par da debandada dos mercadores e banqueiros, retirou-se também a inteligentzia hebraica, que no campo das matemáticas e das ciências experimentais constituíam uma espécie de oásis intelectual no ronceiro atraso nacional.
O Algarve, e a cidade de Tavira, perdeu imenso com essa sangria humana, que aliás serviu de exemplo para muitos empresários mercantis e industriais, que não podendo desenvolver os seus negócios partiram para o Norte de África, para as nações livres da chamada Europa da Reforma, para a bacia mediterrânica e para o Médio Oriente. Tudo se agravou ainda mais quando a crise de sucessão dinástica, provocada pelo desastre de Alcácer Quibir, fez resvalar a coroa para as mãos de Filipe II, ou seja para a temida, e sempre combatida, dominação espanhola. O país apagava-se, diluía-se no império dos Filipes, e com isso se eclipsavam também as principais actividades económicas no país e no Algarve, em particular. O primeiro sintoma da decadência socioeconómica da cidade de Tavira evidenciou-se na diminuição da população residente, suscitada pela quebra das actividades mercantis, mercê da emigração para Sevilha dos mercadores e ricos homens de negócios ligados ao comércio com as Índias, agora submetidas à esfera dos interesses espanhóis. Com os negociantes do comércio internacional foram também para as praias da Andaluzia os empresários da pesca que em Tavira auferiam menores proventos com a exportação do pescado do que nos portos espanhóis. Não esqueçamos que os Filipes desenvolveram uma política económica proteccionista, assegurando o exclusivo dos negócios com as possessões coloniais aos seus naturais ou aos residentes no território metropolitano. Isso fazia com que os nossos empresários do comércio internacional se fixassem na vizinha Espanha para continuarem a desenvolver as suas relações e os seus rendíveis negócios. Por outro lado, a nossa proverbial inveja dos homens bem sucedidos e do nosso endémico arrivismo, tornaram insuportável a vida aos negociantes que não fossem algarvios e aos estrangeiros da fé protestante. A vila de Aiamonte, em reflexo do mau ambiente criado em torno dos mercadores estrangeiros, experimentou em acentuado desenvolvimento urbano, populacional e económico, nos séculos XVII e XVIII, pois que os barcos que antes demandavam o porto de Tavira passaram a acostar naquela vila as suas mercadorias, animando um avultado giro mercantil que se estendia entre Huelva e Sevilha.
Deste modo, tudo se conjugou para que a cidade entrasse numa progressiva decadência, num apagamento económico, que se agravaria com o terramoto de 1755, do qual só se restabeleceria na segunda metade de Oitocentos, com a renovação das pescarias de cerco, do atum e da sardinha, e, muito especialmente com a implantação das indústrias de transformação e conservação do pescado. Mas as explicações dessa regeneração socioeconómica são contas de um outro rosário, que ficarão para desvelar numa próxima oportunidade.

A Vida é um poema inscrito num poliedro de sentidos

José Carlos Vilhena Mesquita

Tudo na vida tem um sentido, uma explicação lógica e plausível, uma justificação ética dos nossos actos e dos nossos passos, reservando-se para os misteriosos recônditos da alma a intransmissível expressão dos sentidos. A vida, na sua intercepção da realidade material com a fantasia mítica, na sua imensidão cósmica geradora dessa fragilidade gnosológica que nos empurrou para um misticismo avassalador, suscitou diversas e incontornáveis interrogações às quais tentaram responder a racionalidade intelectual e o cientificismo material. Dessa aliança, da razão com o conhecimento, desenvolveu-se a Civilização e progrediu a Cultura Humana. É por isso que a vida constitui uma viagem de evolução e apuramento, não só do conhecimento científico como também da espiritualidade humana. Ora é nesse trajecto de responsabilidade social e de obrigação moral que se desenvolve a vida social, e muito especialmente a espiritualidade humana, nas suas cambiantes artísticas mais expressivas, como é o caso da música e da poesia.
É precisamente das circunstancialidades da vida, traçada num rumo intercontinental, que se expressa este livro, espécie de retrato espiritual da existência, quase missionária, de um médico que sente na alma as mágoas e padecimentos daqueles que sofrem, na carne e no espírito, da desigual partilha das riquezas materiais, num mundo de diferentes realidades económico-culturais, marcado porém por uma avassaladora indiferença geral. O sentido de justiça e o frémito da dor dilaceram o espírito do homem de ciência, que da luminosa França, berço da ilustrada liberdade, parte para a América, profunda e pobre, para a mítica cordilheira dos Andes, enlevado na jubilosa missão de acudir aos desventurados da sorte, a quem a doença roubava a alegria de viver. Com o coração a latejar de compaixão pelos mais desprotegidos, viajou pela rota da miséria, tercendo armas no campo da batalha sanitária. Os melhores anos da sua vida deixou-os embarcar numa viagem de generosa partilha, navegando entre mundos desconhecidos, erguendo mastros de fraternidade e enfunando velas de esperança, na humilde vontade de ajudar os desafortunados filhos de um Deus menor.
O próprio título deste livro, Cosmopoles, traduz o poliedro cosmopolita em que se espraiam diferentes culturas, sem necessariamente se entrechocarem, amalgamarem ou fundirem, respeitando-se na admiração das suas diferenças. O médico François Blanc partilhou a sua vida com os mais necessitados, levando-lhes a ciência envolta numa palavra de generosidade, incutindo ânimo aos que sofriam, e transmitindo confiança aos que resistiam no silêncio da revolta. Repartiu com as crianças uma mensagem de fé e um sorriso de esperança, acalentando nelas o sonho de poderem construir, sobre os escombros do neocolonialismo, um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, sem diferenças de raças nem distinções de classes.
Foi com a alma repartida pelo confronto dos mundos atlânticos, que as certezas da sua ilustração científica se transformaram em escrupulosas interrogações, em perplexas incertezas e permanentes hesitações. O homem de ciência feito, deixou-se enlear na teia na dúvida espiritual, como se afinal para tudo houvesse duas verdades e duas certezas, porque no seu coração não existe lugar para a mentira nem para a negação. O mundo é como a própria vida, um espaço de diversidades e de incertezas, projectado num poliedro de sentidos, em que só as emoções nos fazem sentir o direito e a necessidade de sermos felizes. Entre os vários poemas que compõem este livro permitam-me que destaque a “Botelha do mar”, Eclusas”, “Caminho da porta estreita” e “Sonho de Poeta” que ilustram perfeitamente a inspiração poética e a qualidade artístico-intelectual do autor, cuja obra já anteriormente publicada constitui suficiente garantia para sugerirmos e vivamente aconselharmos a leitura deste Cosmopoles.


Nota: Prefácio ao livro de poesia Cosmopoles, da autoria do Dr. François Louis Blanc

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

No Centenário de Marcelo Caetano - A primavera marcelista – memória de uma oportunidade perdida


J. C. Vilhena Mesquita

Quando Marcelo Caetano foi chamado ao poder, em 25-9-1968, para substituir Salazar, que havia sofrido um acidente e se encontrava incapacitado para governar a nação, lembro-me que uma brisa de esperança se estendeu a todo o país, parecendo atiçar a refulgente chama da mudança com que almejávamos iluminar o nosso futuro. Mesmo naqueles que conhecíamos como indefectíveis nacionalistas havia um desejo, uma silenciosa vontade de trilhar novos caminhos que proporcionassem maior progresso, melhores condições de vida e, sobretudo, uma remodelação do velho contrato social, capaz de viabilizar a paz e o fim da ditadura.
Na perspectiva da minha geração, os valores democráticos tão zelosamente açaimados pela Censura e sobretudo pelos esbirros da PIDE, inundavam surpreendentemente as páginas dos nossos jornais como reflexo noticioso da “desordeira” revolução estudantil do Maio de 68 – cujas repercussões intelectuais tive a felicidade de comungar com Sartre e Simone de Beauvoir, além de ter presenciado nesse Verão os seus desoladores efeitos físicos nas despavimentadas ruas de Paris – “après le pavé, la plage”, diziam os jovens seguidores de Cohn-Bendit.
Logicamente sentíamos que os ventos eram de mudança e que a democracia seria uma questão inadiável. Quando no início do Outono assistimos à substituição de Salazar, pensamos que todas as condições para a tão ambicionada abertura política estavam reunidas na pessoa de Marcelo Caetano. Aliás é do senso comum, e da mais elementar politologia, que as ditaduras raramente sobrevivem aos ditadores. Por isso, todos esperávamos que Marcelo se assumisse como restaurador da democracia em Portugal.
Todas as perspectivas políticas, as mais azadas e auspiciosas, cubicavam no governo, ainda mais quando em 1970 faleceu Salazar, justificando-se que a partir de então fossem dados passos inequívocos de transição para a democracia. Aliás pareciam inequívocos os indícios de abertura política, quando nas eleições de 26-10-1969 a ANP-Acção Nacional Popular (cosmética nominal da antiga União Nacional) integrava nas suas listas eleitorais a chamada “Ala Liberal”, constituída por várias personalidades desafectas ao regime. Mas contrariamente a todas as expectativas, o regime conservava certos tiques fascistas, certamente agudizados pela contestação estudantil, pelas greves laborais e pelo terrorismo urbano patrocinado pelo Partido Comunista. Mas, acima de tudo, era a guerra colonial que mais intensamente corroía o regime, e como Marcelo Caetano não tinha coragem para lhe dar uma solução política, era lógico que só uma revolução militar poderia devolver a liberdade ao povo português. Como rescaldo ficava, para muitos dos que acreditaram em Marcelo Caetano, uma profunda decepção e certamente a convicção de que a chamada “Primavera Marcelista” foi uma oportunidade perdida. Pessoalmente julgo até que não passou de um clamoroso embuste.

Marcelo Caetano, ascensão de um talento promissor

Oriundo de uma pobre família de agricultores da serra da Lousã, que emigraram para a capital à procura de melhor sorte, Marcelo José das Neves Alves Caetano, nasceu em Lisboa a 17-8-1906 e cedo se notabilizou como um jovem de talentos promissores. Aos 16 anos matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, aos 21 estava licenciado e aos 25 defendia com raro brilhantismo a tese de doutoramento intitulada «A depreciação da moeda depois da Guerra». A fama do seu sucesso correu célere nos meandros do poder, a tal ponto que Salazar pediu para o conhecer pessoalmente, convidando-o para fazer parte da equipa que gizou e concebeu a Constituição de 1933. Nesse mesmo ano, com apenas 27 anos de idade, concorreu a uma vaga de professor catedrático de Direito, na qual foi provido com todo o mérito.
Por essa altura, já Marcelo Caetano havia dado nas vistas como redactor da revista «Ordem Nova», sucedânea da «Nação Portuguesa», órgão do Intregralismo Lusitano, movimento monárquico de inspiração fascista no seio do qual pontificava o reaccionaríssimo anti-republicano e fervilhava o espírito da contra-revolução. António Sardinha era o rosto intelectual dos integralistas, mas nas suas fileiras pululavam figuras de grande agressividade militarista, como Rolão Preto, fundador do Movimento Nacional-sindicalista, cujos partidários se revelavam publicamente como admiradores confessos dos ditadores Primo de Rivera, Mussolini e Hitler. Mas como Salazar odiava o militarismo, cedo desconfiou dos integralistas, determinando a inclusão na função pública dos seus dirigentes políticos, impedindo assim que prosseguissem as suas actividades.
Marcelo é então nomeado vogal da comissão executiva da União Nacional, mas não figurará nas listas de deputados nas eleições de 1934. O seu radicalismo integralista e a sua impulsividade política causam desconfiança na hoste salazarista. Desiludido ocupa-se da revisão do novo Código Administrativo, do novo estatuto da Função Pública e da reorganização do Supremo Tribunal Administrativo. A obra produzida era realmente vasta e merecia recompensa. Salazar nomeia-o, em 1940, Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, mas em 1944 suspende-o das funções para o elevar a Ministro das Colónias. Porém, declarações infelizes, proferidas no fim da guerra, sobre os defeitos e a natural falibilidade do “Pai da Pátria”, fazem-no apear-se do governo em 1947, aceitando como compensação presidir à União Nacional e à Câmara Corporativa, cargos pouco mais do que decorativos.
Quando em 1951, com a morte do presidente Carmona, alguns salazarentos pensaram restaurar a monarquia, Marcelo Caetano, apesar de indefectível monárquico, colocou-se ao lado de Albino dos Reis e Trigo de Negreiros, opondo-se terminantemente a uma sucessão dinástica. Porém, teve a infeliz ideia de sugerir nome de Salazar para candidato às eleições presidenciais, o que foi entendido como uma maneira de afastar o ditador do poder. O nome escolhido foi Craveiro Lopes e, mais uma vez, Marcelo retira-se para a vida universitária. Curiosamente surgiu a partir daí uma certa empatia com Craveiro Lopes que, em 1955, convence Salazar a oferecer ao eterno delfim do regime a pasta da Presidência. Digamos que Marcelo, mais uma vez torna à casa-mãe sob a bênção do “Pai da Pátria”, como no mito bíblico do filho pródigo.
Circunstâncias do foro íntimo, acrescidas pelas intrigas políticas, fizeram com que o general Craveiro Lopes se tornasse hostil à camarilha salazarista. Correu mesmo o boato de que estaria a preparar com Marcelo Caetano a demissão de Salazar da Presidência do Conselho, entendida pelos ultramontanos como um ilegítimo golpe palaciano, contra o qual o coronel Santos Costa chegou a decretar a prevenção dos quartéis da capital. A União Nacional apresentou às eleições de 1958 o obscuro almirante Américo Tomás, contra a fulgurante candidatura do general Humberto Delgado, representante unionista da oposição democrática. Curiosamente, Marcelo Caetano era homem das relações do “general sem medo”, não sendo logicamente seu apoiante. Como as eleições tiveram de ser forjadas para que o candidato fascista as pudesse vencer, tornou-se óbvia a derrota política dos situacionistas. Marcelo em Conselho de Ministros apontou o coronel Santos Costa como responsável pelo fracasso. Salazar, de forma salomónica, demitiu ambos do governo e Marcelo abandonou a vida política. Tudo parecia terminado.

O sucessor natural de Salazar – evolução na continuidade

Mas com o despoletar da guerra colonial a ditadura salazarista entrou em decadência. Como, aliás, em decadência física estava também o velho ditador. Eram os anos do fim.
Os movimentos independentistas em África haviam despontado há muito tempo e por todo o continente. Portugal não estava logicamente imune à legítima sublevação dos povos oprimidos pelo colonialismo. E por mais branda que essa opressão, supostamente, tivesse decorrido nas nossas antigas colónias, era certo e sabido que a paz podre, que então se vivia, não seria eterna. Faltou discernimento político para preparar com a devida serenidade a transição da soberania nos territórios ocupados. Marcelo foi um dos culpados do adiamento dessa inevitabilidade.
Uma agressão militar, iniciada em Angola, apoiada pela União Soviética e consentida pelos Estados Unidos, uniu os portugueses em torno da pátria ofendida, e aparentemente da própria ditadura. Salazar reagiu em força, proferindo, como um pendão de guerra, o grito colonialista: “Angola é nossa…” Mas com o envio maciço de tropas apenas adiou o inevitável. Salazar estava velho para se tornar num caudilho militar, e o regime estava pouco menos do que moribundo. Era sabido que tudo se desmoronaria quando morresse o ditador. Era apenas uma questão de tempo.
Um acidente vascular cerebral apeou-o do poder em 1968 e levou-o ao túmulo em 1970. Chegara, finalmente, a hora de Marcelo Caetano. Interesses de vária ordem deram-lhe o poder, sentando-o na cadeira do velho ditador. Pediram-lhe que a honra da pátria não fosse vilipendiada, isto é, que a questão ultramarina permanecesse inalterável. Porém, a guerra colonial mantinha-se como uma ferida, pela qual se escoava o sangue da pátria.
A sucessão de Marcelo indicava mudanças no regime, apesar de afirmar publicamente que seguiria uma política de “evolução na continuidade”. Um mês depois de tomar posse mandava amnistiar o exílio político de Mário Soares e do Bispo do Porto. Começava assim um período de clara abertura política conhecido por “primavera marcelista”.
A minha geração vivia amordaçada pela Censura, perseguida pela PIDE e ameaçada pelo espectro da guerra colonial. As instituições persecutórias das liberdades individuais, verdadeiros sustentáculos da ditadura, começaram a mudar de nome e pareciam aligeirar algumas das suas actividades de prepotência e de arbitrariedade política. Por outro lado, as tão populares “Conversas em Família” difundidas pela TV davam a Marcelo Caetano uma imagem de candura e amabilidade a que o país não estava habituado. No Parque Mayer estreavam revistas de crítica social e política, além de peças de teatro de autores até então proscritos pelo regime. Na televisão o programa «Zip-Zip» entrevistava figuras desafectas ao regime e retratava com humor o nosso atraso cultural, assim como alguns tiques saloios do nosso quotidiano sociopolítico. Nos jornais, sobretudo no «Diário de Lisboa», começaram a escrever, sem rodeios nem temores, certos intelectuais conotados com o partido comunista. Algumas obras proibidas pela Censura foram autorizadas a circular. E para as eleições de 1969 chegou-se a falar na criação de um partido liberal de oposição ao regime, que abortaria à nascença para se transformaria na chamada “Ala Liberal” integrada nas listas da União Nacional.

O embuste marcelista

Marcelo a breve trecho adquire uma imagem política muito positiva. Nas suas visitas pelas terras do interior, distribuía abraços e sorrisos, beijava as crianças e falava com o povo, numa resplandecente campanha de charme político. O sorriso simpático tornara-se na sua imagem de marca. Por todo o lado era recebido em triunfo. Pensou certamente que o povo se sentia feliz e que estaria inequivocamente ao seu lado. Mas tudo era vão e inglório. Um embuste orquestrado pela propaganda. A verdade é que Marcelo tornara-se apenas num “Salazar mais simpático do que o outro”.
A popularidade parecia crescer ainda mais quando ao visitar as colónias foi recebido em apoteose, com avassaladores banhos de multidão e estridentes gritos de patriotismo que lhe soaram como juras de fidelidade eterna. A questão colonial pareceu-lhe dirimida nessas “jubilosas” manifestações populares que inundaram as ruas de Luanda e de Lourenço Marques. Puro engano. O que o povo queria era a paz. Os colonos desejavam uma solução para a guerra, se possível com a sua permanência e a conservação dos seus bens materiais.
Marcelo, infelizmente, confundiu tudo. Pensou que a solução estaria na derrota militar dos movimentos independentistas e na perpectualização do colonialismo. Ele que em Fevereiro de 1962 havia proposto a Salazar a criação dos Estados Unidos de Portugal, no qual as colónias (Angola e Moçambique) se transformariam em Estados Federais.
A chamada primavera marcelista depressa adquiriu as invernosas nuvens do embuste político em mergulhara a nação. Os seus erros políticos agudizaram-se em 9-8-1972 com a reeleição de Américo Tomás, numa clara evidência da manutenção do fascismo. Todos supunham que o candidato da União Nacional fosse o próprio Marcelo Caetano, que após eleito nomearia para Primeiro-ministro uma figura de prestígio intelectual, capaz de assumir os destinos da nação, rumo à tão almejada liberdade política. Como isso não aconteceu, a chamada “Ala Liberal”, em que pontificava Francisco Sá Carneiro, decidiu demitir-se em 1973, caindo por terra as esperanças de transição pacífica para a democracia.
O «25 de Abril» era uma inevitabilidade nacional. Creio que o próprio Marcelo Caetano percebeu isso quando leu o livro do general Spínola, sugestivamente intitulado Portugal e o Futuro. Em reflexo dessa leitura pediu, em 11-4-1974, a demissão a Tomás que não foi aceite. Recebeu em troca um voto de confiança na Assembleia Nacional, um voto de fidelidade da hierarquia militar, uma espécie de “beija-mão” monárquica, caricatamente designada por juramento da “brigada do reumático”, e três semanas antes do «25 de Abril» era triunfalmente ovacionado no estádio de Alvalade, num dos seus últimos banhos de multidão.
O resto é de todos conhecido. A 26 de Abril foi desterrado para o Funchal, e em 20-5-1974 partiu para o exílio no Brasil, onde prosseguiu a sua actividade docente na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. No final do ano publica o Depoimento, um libelo expiatório das suas incongruências e um arrazoado político contra os supostos traidores da pátria. Nesse livro pretendeu justificar as atitudes tomadas nos últimos cinco anos da sua governação. Um chorrilho de asneiras e de tergiversões políticas, próprias de um homem ambicioso, autocrático e convictamente fascista, que sempre desejou o exercício do poder. Afinal nunca quis operar uma abertura política, porque temia perder o comando. Pior ainda foi quando, em finais de 1975, publicou As Minhas Memórias de Salazar, uma homenagem ao velho ditador e um execrável panfleto apologético do fascismo, no qual tenta justificar com perniciosas falácias a necessidade de limitar as liberdades públicas, através da PIDE e da Censura, para defender a pátria do comunismo imperialista. Mostrando-se mais “papista do que o Papa”, esta obra foi a última das suas oportunidades perdidas. Em vez de pedir perdão ao povo português voltou a denunciar a sua verdadeira personalidade de fascista.
Para mim, Marcelo Caetano foi um universitário de indesmentível mérito, autor duma proeminente obra científica, que lhe consagra ainda hoje uma posição de relevo nos areópagos do Direito europeu. Todavia, como estadista foi uma imitação barata dos mais baixos arquétipos da política, pois que não hesitou em enganar um povo que o ergueu em triunfo, o ovacionou e o aclamou como a um salvador da pátria.
Sinto-me ainda hoje, como nos tenros anos da minha juventude, defraudado por um homem marchetado pelas mais credíveis insígnias doutorais, com um sorriso verosímil e simpático, em cujas mãos depositei a derradeira esperança de me ser devolvida a felicidade social e a sempre negada liberdade de poder dizer como o poeta: “não sei para onde vou… mas sei que não vou por aí…”
Afinal, tudo não passou de um embuste, porque Marcelo Caetano foi simplesmente um fascista, pouco melhor do que todos os outros que chafurdaram na pocilga salazarista.

domingo, 2 de agosto de 2009

SAGRES, um lugar na História e no Património Universal

A Fortaleza de Sagres, considerada como o mais imponente monumento que a força da natureza talhou no Algarve, tem sido, ao longo dos tempos, objecto do culto da nacionalidade e da investigação dos mais conceituados historiadores, nacionais e estrangeiros. Estrategicamente situada no extremo sudoeste da península, marco de passagem para o atlântico norte e águas mediterrânicas, sofreu ao longo dos séculos constantes ataques dos corsários marroquinos, em cuja defesa se distinguiram heroicamente as gentes do barlavento algarvio. Nesta mole imensa edificou o Infante D. Henrique a sua decantada “vila de Sagres”, cuja tradição permanece ainda hoje, bem viva na memória dos povos então dominados pelas velas da Cruz de Cristo. Com a morte do seu fundador acentuou-se-lhe o declínio, acrescido pelas pilhagens e abalos telúricos, mergulhando na mais confrangedora ruína. No âmbito das chamadas Comemorações Centenárias, de 1940 e 1960, concretizou-se a sua reconstrução, devolvendo-se àquela fortaleza um semblante mais consentâneo com os seus pergaminhos históricos. Todavia, o seu aproveitamento para fins culturais não tem sido o mais desejável, residindo na exploração turística, o único benefício que dela se obtém.
Para manter a sua conservação como monumento histórico do mais elevado quilate, propomos que se promova, junto das entidades oficiais, a sua classificação como Património Universal, sob a protecção da UNESCO.


* Texto da comunicação apresentada às VI Jornadas Regionais sobre Monumentos Militares, realizadas em Vila do Bispo, Lagos, Silves, Loulé e Faro, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro de 1986, sob a égide da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos (APAC).

A Cruz de Portugal, em Silves


J. C. Vilhena Mesquita

Numa recente visita à cidade de Silves, tive a ocasião de apreciar o estado de conservação de um dos mais notáveis monumentos, sendo que é simultaneamente um dos mais referenciados no contexto da escultura histórica do Algarve. Refiro-me à Cruz de Portugal, considerada como uma das mais belas peças escultóricas da arte gótica em Portugal, facto esse que justificou em 1910 a sua elevação a Monumento Nacional. Situada, presentemente no Enxerim, ou seja na estrada de Silves para S. Bartolomeu de Messines, vê-se claramente que se encontra num estado de erosão precoce e de irreversível deterioração, devido à fragilidade do material constituinte e à agressividade dos agentes externos, especialmente ambientais, naturais e até sociais.
Creio que há mais de vinte anos atrás tive a oportunidade de ler e apreciar em detalhe o relatório de análise técnica e investigação geológica executado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil a pedido da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Nesse documento concluía-se que aquela peça escultórica deveria remontar ao séc. XV e devido à porosidade da pedra em que se encontrava talhada apresentava reais evidências de desgaste, fissuração e vandalismo, o que ameaçava, a breve prazo, a desagregação dos elementos constitutivos e o risco de destruição ou, pelo menos, de irreversível fraccionação. Exigia-se, por isso, que fossem adoptadas medidas urgentes de protecção, conservação e restauro. Neste caso deveria o “cruzeiro” ser retirado para, em sede especializada, se proceder à sua consolidação, recuperação e, sobretudo, à reconstituição dos elementos artísticos.
Efectivamente, ainda não foram solidamente comprovadas as origens deste cruzeiro, esculpido em ambas as faces no estilo gótico flamejante. Cronologicamente remonta à segunda metade, talvez último quartel, do séc. XV, por ser esse o período áureo do chamado gothique flamboyant (gótico flamejante), que teve como palco as abadias, colegiadas e catedrais da França e da Bélgica. Tenho para mim que o facto de haver sido esculpido em calcário branco-amarelado, pouco resistente e muito poroso – que não existe no Algarve e constitui exemplar único em toda a província – demonstra que não era daqui originário, mas antes importado doutra região, certamente de fora do país. E porquê?
Julgo que a explicação reside até no próprio nome: “Cruz de Portugal”, que parece indicar ter sido encomendada por portugueses e/ou com destino a Portugal. Além disso, o seu estilo afrancesado, os elementos compósitos (a Pietá, tão em voga na Alemanha do séc. XIV), não são frequentes no gótico português, que, como se sabe, foi suplantado pelo estilo nacional, denominado Manuelino, que é, ao fim e ao cabo, uma expressão de arte imposta pelo modus vivendi da nobreza e da fidalguia comercial. Por exemplo, a “Janela do Capítulo” no Convento de Cristo em Tomar não é uma simples janela, mas antes um documento histórico inspirado na hermética simbologia dos Descobrimentos, que pretende transmitir à posteridade várias mensagens politico-socioeconómicas. Por conseguinte, os conjuntos escultóricos têm sempre uma dupla função, estética e simbológica. Ora, segundo creio, a Cruz de Portugal deve ter sido encomendada para figurar numa praça pública como um ex-voto, um marco ou um cruzeiro, para assinalar algo piedoso, algo notável, que tenha que ver com a morte e o martírio, porque são esses os temas ali simbolizados.
Com efeito, sabemos que estas cruzes ordinariamente assinalavam catástrofes, enterramentos, batalhas, acidentes, lugares sagrados, ou simplesmente encruzilhadas de caminhos e, por vezes, o centro do burgo. Nenhuma destas hipóteses me parece a mais plausível. Na falta de melhores e mais seguras informações sou levado a admitir que a mesma talvez servisse para assinalar um grande feito histórico, religioso ou militar. Provavelmente a chegada àquela cidade, em 17 de Setembro de 1471, da armada real comandada por D. Afonso V, que regressava da tomada de Arzila e Tanger. O rei, que no seu exército tinha mercenários estrangeiros, talvez lhes tivesse encomendado aquela cruz para servir como voto em alguma praça pública ou num adro de igreja em Lisboa. Porém, vendo-se tão calorosamente recebido pelo povo de Silves resolveu presenteá-lo com a oferta daquela cruz. Na pior das hipóteses quis ver-se livre dela, talvez por esta incomodar a própria estabilidade do navio que a transportava, não sendo raro aligeirar-se a carga nos portos de retorno.
Mas há hipóteses mais lógicas e plausíveis. Quando D. João II faleceu na vila do Alvor, a 29 de Outubro de 1495, o seu corpo foi depositado na Sé de Silves, até que D. Manuel mandou em 1499 buscar o féretro a fim de o trasladar para o Mosteiro da Batalha, não nos repugnando a hipótese daquela cruz haver sido então ali implantada para assinalar tão piedoso acto. Não esqueçamos que os elementos escultóricos que a constituem são um Cristo crucificado e na retaguarda uma Nossa Senhora da Piedade, vulgarmente conhecida por Pietá, que assumiu foros de imortalidade artística mercê do magistral escopro de Miguel Angelo. Esses elementos relacionam-se com a morte e com o acto piedoso de sepultar os mortos.
Por outro lado, a sua similitude com as medievas cruzes processionais (de que existem vários exemplares nos nossos museus de Arte Sacra), poderá querer assinalar a transferência da Sé de Silves para Faro, efectuada definitivamente a 30 de Março de l577. Mas é muito improvável, visto que nessa época já o estilo gótico havia caído em desuso.
Enfim, são tudo hipóteses, bastante frágeis e sem qualquer fundamento documental que não seja a própria imaginação. De qualquer modo, parece tratar-se de uma memória, até porque nos últimos séculos ela fazia-se distinguir do restante casario mercê dos seus seis metros de altura, o que em certa medida constituiria um ponto de referência para os habitantes e até para os forasteiros, já que se dizia que assinalava o centro da cidade. Infelizmente, foi sucessivamente trasladada para vários locais. Já esteve perto da Sé no terreiro da Câmara, e, ultimamente, voltou para onde já havia estado, ou seja, a cerca de 500 metros da cidade no cruzamento para São Bartolomeu de Messines. Em 1824 deu-lhe a Câmara a base de pedra calcária (bem diferente na cor e textura do calcário da cruz) que ainda hoje a sustém e teria então o dobro da altura que tem actualmente.
O seu valor artístico é incontestável e segundo afirma Pinho Leal, na sua obra Portugal Antigo e Moderno, já os ingleses a haviam cobiçado a ponto de a tentarem levar consigo, pretensão a que a população se opôs vigorosamente. Creio que se referia aos industriais ingleses ali estabelecidos. Não esqueçamos que se trata de um monumento de carácter religioso, cujas origens se perdem na memória dos tempos, e daí o povo atribuir-lhe grande significado religioso. De tal forma que diariamente se viam ali pessoas ajoelhadas invocando a graça divina, sendo igualmente costume juntar-se o povo a rezar em volta da cruz na sexta-feira da quaresma. A própria filarmónica silvense fazia por vezes os seus concertos junto à Cruz de Portugal.
Seja como for, os tempos foram apagando as tradições e inclusivamente reduziram para três metros, isto é, para metade, a altura da primitiva cruz. Actualmente, se bem que resguardada por um alpendre e por um gradeamento de ferro, o secular monumento corre o risco de nos tempos mais próximos se desgastar gradualmente até à sua total irrecuperabilidade. De momento, o calcário em que foi esculpido encontra-se bastante alterado e em estado de desagregação e com algumas fissuras bastante acentuadas. Faltam-lhe já vários fragmentos de pedra e o relevo das figuras e dos ornamentos está muito desgastado. Além disso, agentes parasitários e corrosivos, como líquenes, têm-se fixado especialmente nas zonas umbrosas das reentrâncias do fuste que sustém o crucifixo, contribuindo para a sua progressiva desagregação. O calcário de um modo geral apresenta uma tonalidade amarelo-rosada e o florão que remata a cruz está escurecido, talvez derivado dos fungos da humidade ou das gotículas que caiem do travejamento de madeira que forma o referido alpendre. Por outro lado, a acidez dos excrementos das aves, por exemplo, das andorinhas, tem corroído a pedra. Nota-se, ainda, uma acentuada fractura que atravessa as duas pernas do Cristo crucificado e na sua perna esquerda vê-se um remendo, talvez de gesso. Verifica-se também que o calcário foi colocado com a estratificação no sentido vertical e que algumas fissuras do tipo estilolítico formam uma espécie de rede que põem em perigo a conservação do monumento.
Um exame da pedra revelou que se trata de um calcário fundamentalmente composto por carbonato de cálcio, com leve percentagem de carbonato de magnésio, o que leva a designá-lo como calcário dolomítico. A humidade atmosférica, a chuva e a poluição, são actualmente os principais agentes corrosivos do frágil monumento. Para a sua conservação pode-se optar pelo seu tratamento in situ ou em laboratório. Por razões de urgência recomenda-se a primeira hipótese. Nesse caso, deve-se, tratar imediatamente de eliminar os líquenes, reparar as fendas e fissuras, colar os fragmentos prestos a caírem e, por fim, operar-se a sua consolidação total.
Sugerimos à autarquia de Silves que, em colaboração com o IPPAR e os Monumentos Nacionais, proceda à substituição da vetusta Cruz de Portugal por uma réplica, talvez em fibra de vidro, que fica barata e fielmente idêntica ao original. Não se notará a diferença, podendo sempre visitar-se o monumento original no museu municipal, depois de devidamente restaurado. Julgo que será a única forma de evitar a perda de uma das mais antigas e mais belas peças escultóricas do património histórico algarvio.

domingo, 26 de julho de 2009

Mário Lyster Franco – figura modelar do regionalismo algarvio

J. C. Vilhena Mesquita

Na galeria das personalidades cimeiras da cultura e da alma regionalista do povo algarvio, assume particular destaque a distinta figura do Dr. Mário Lyster Franco, um intelectual de fina têmpera e raro talento, que se bateu denodada e acerrimamente em defesa dos valores humanos, paisagísticos e culturais que melhor caracterizam esta região. Ninguém melhor do que ele o soube fazer, em dedicação, sacrifício e paixão. Ser algarvio para Lyster Franco era um orgulho, mas também um estatuto marcado por um fervoroso regionalismo, que baptizara como “algarviísmo” um neologismo da sua lavra que chegou a fazer furor, numa altura em que ninguém falava ou sequer pensava em regionalização.
Mário Augusto Barbosa Lyster Franco, de seu nome completo, nasceu em Faro a 19-2-1902, no seio de uma família ilustre. Seu pai, o pintor Carlos Augusto Lyster Franco, natural de Belém, foi uma das personalidades mais distintas e admiradas na sociedade farense dos princípios do século XX, notabilizando-se como professor do Liceu de Faro, como dirigente republicano do Partido Democrático liderado por Afonso Costa, como jornalista fundador do semanário O Heraldo que se ditou em Tavira e em Faro, e ainda como escritor, em cuja lista de obras pontificam estudos de crítica de arte, crónicas e novelas.
Fez os seus estudou preparatórios e liceais em Faro, estreando-se literariamente aos oito anos de idade, nas colunas do semanário «O Algarve», em cuja edição de 11-12-1910 publicaria uma quadra popular em jeito de crítica política contra o então presidente da Câmara, João Rodrigues Aragão.
Com apenas treze anos participou no histórico I Congresso Regional Algarvio, realizado em 1915 na Praia da Rocha, no qual assumiram notabilíssima participação alguns dos mais famosos políticos e intelectuais do país, como Tomás Cabreira, Paula Nogueira, Agostinho Lúcio, Raul Lino, Falcão Trigoso, João Bentes Castelo Branco, Aboim Inglês, Aníbal Lúcio de Azevedo, António Baião, etc.
Aos quinze anos, perfilava-se publicamente como interveniente no movimento futurista de tão decantada memória, que apesar da incompreensão e até do ostracismo a que havia sido votado na capital, recebera guarida nas colunas do semanário farense «O Heraldo», ao lado de colaboradores que o tempo haveria de tornar célebres, como foi o caso de Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A este propósito veja-se a minha comunicação apresentada em 1984 ao III Congresso do Algarve, intitulado Faro e o Movimento do Orfeu.
Em 1-5-1919 fundou de parceria com José Centeno Castanho, o semanário farense «O Algarvio» que corajosamente se proclamava como órgão difusor de um embrionário movimento de propaganda autonomista, que nunca passou de um projecto de jovens aventureiros, a cujo insofismável talento se perdoavam estes estouvados arroubos de irreverência política. Em todo o caso, repare-se como esta atitude era revolucionária e inovadora para o tempo, pois só após o «25 de Abril» é que surgiu um movimento autonomista (MIA), que não chegou sequer a sair da clandestinidade em que nascera. Lembro que o José Centeno Castanho foi também um homem de sucesso, licenciou-se em Direito e seguiu a carreira diplomática, que em breve abandonaria; mas o facto de ser filho do Dr. Ribeiro Castanho, Ministro de Salazar, refreava-lhe os ímpetos e irreverências, acabando por seguir a vida empresarial no ramo das artes gráficas.
Ainda estudante liceal escreveu com António do Nascimento a revista de crítica social Ora Toma, representada várias vezes, e em anos sucessivos, no Cine-Teatro Farense e noutras casas de espectáculos do Algarve. Nessa peça alguns professores do Liceu e certos políticos da época foram alvo do acerado humorismo estudantil, que não poupando ninguém tornara-se, em certos casos, exagerado e injusto. Tão incompreendido atrevimento valeu ao jovem Mário Lyster Franco alguns dissabores que motivaram a sua transferência para Lisboa, em cujo Liceu Gil Vicente concluiria os seus estudos. Em todo o caso, também é certo que a sua paixão pela aluna Judite Cabeçadas acelerou a sua trânsfuga para a capital, onde reataria essa ligação amorosa. Porém essa paixoneta durou as Rosas de Malherbe.
Matriculou-se depois na Faculdade de Direito de Lisboa, onde não foi dos bons nem dos maus, foi dos outros, dos que souberam desfrutar da vida com a alegre irreverência do espírito estudantil. Anos de descabelada loucura, que ainda assim lhe valeram um licenciatura com doze valores de média. Nesse período de “estudantina liberdade” consegue através do seu grande amigo Assis Esperança um lugar de redactor no jornal «A Pátria», que se extinguiria pouco depois, mudando-se então para a redacção de «O Tempo», órgão de cariz Sidonista dirigido por Simão Laboreiro, que a censura faria suspender, fundando-se em sua substituição «A Palavra», em cujas colunas se distinguiria também o escritor Ferreira de Castro.
Concluído o curso regressa a Faro, onde nas férias estudantis costumava praticar o notariado e ajudar no escritório de Cândido Guerreiro, que embora poeta foi um dos mais bem sucedidos causídicos algarvios do seu tempo. Embora o jovem advogado ainda pleiteasse no foro o certo é que não era essa a sua paixão, dedicando antes ao estudo da literatura e da história algarvia. E nisso colocou sempre o melhor do seu esforço e das suas capacidades intelectuais.
Reconhecendo-lhe grandes talentos e uma fervorosa dedicação à cidade-natal, o governo da ditadura, epitetamente sofismado como "Estado Novo" nomeu-o para a honrosa responsabilidade de Presidente da Câmara Municipal de Faro, onde se manteve durante dois mandatos, de 1932-34 a 1937-39, prosseguindo depois ainda mais alguns anos como vereador. Nesse âmbito, importa realçar que ao Dr. Mário Lyster Franco se ficaram a dever grandes melhoramentos locais, nomeadamente nas infra-estruturas de abastecimento de águas, electricidade e esgotos, assim como na abertura de novas vias de acesso nas freguesias rurais do concelho. Era hábito vê-lo todas as quintas-feiras num side-car desconfortável e perigoso de conduzir a visitar as obras camarárias, exigindo sempre o estrito cumprimento dos contratos.
Uma das suas iniciativas mais curiosas foi a criação em 23-6-1932 do Museu Antonino de Faro, o segundo do país, e até há bem pouco tempo o mais visitado do Algarve. Por outro lado, promoveu várias homenagens públicas a escritores, poetas e historiadores, atribuindo-lhes mais de duas dezenas de novas artérias da cidade. São igualmente dignas de realce as suas iniciativas nas colunas do «Diário de Notícias» e da imprensa regional para os monumentos a D. Francisco Gomes do Avelar, Ferreira de Almeida, Ataíde Oliveira, etc.
Em 1946 assumiu a direcção do semanário «Correio do Sul», o mais prestigiado órgão da imprensa algarvia de todos os tempos, ao leme do qual se manteria quase quarenta anos, sacrificando os seus recursos financeiros e a disponibilidade que deveria consagrar à consecução da sua obra de investigação. Para honra do Algarve manteve o seu jornal num dos lugares de topo da imprensa regional portuguesa. Em Dezembro de 1981, quando a saúde e os meios financeiros eram já parcos, encerrou com profundo desgosto as colunas daquele que foi o seu grande projecto de vida: o «Correio do Sul». Assisti a esse doloroso momento e tive a honra de colaborar na edição derradeira desse incomparável órgão da imprensa algarvia. Porém, havia que fazer sacrifícios e, sobretudo, poupar forças para num derradeiro esforço avançar com a publicação da Algarviana - Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, essa sim a obra da sua vida e, podemos afirmar sem exagero, a alma-mater da cultura algarvia.
Trabalhei nessa obra-mestra da cultura algarvia desde 1980 até meados de 1984. Verifiquei então que os verbetes estavam apenas “alinhavados” e que as entradas biobibliográficas estavam paradas desde 1940. Inclusivamente a maioria dos autores contemporâneos estavam por fazer. Fiz a actualização do 1.º volume e comecei a fazer o 2.º volume, cujos trabalhos tive de interromper porque a Câmara na altura se desinteressou pela edição da obra. Profundamente chocado com essa atitude o Dr. Lyster Franco deixou-se cair num estado de prostração física, de afasia intelectual e de desinteresse pela vida. Cegou num ápice e entrou num estado de senilidade galopante que obrigou ao seu internamento numa instituição hospitalar nos arredores de Lisboa, onde viria a falecer pouco depois.
Foi no convívio diário com esse grande homem da cultura algarvia que aprendi a amar o Algarve e a sentir-me conscientemente algarvio. Atravessei a seu lado momentos desgosto, como a perda da esposa, e de grande desespero derivado do agravamento do glaucoma que o levaria à cegueira. Mas também partilhei a euforia da publicação do primeiro volume da Algarviana, editado em 1982, que por incrível que pareça, nunca mais teve seguimento. Tanto a Câmara Municipal de Faro como a Universidade do Algarve, a Região de Turismo e o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas deveriam unir-se em torno desse projecto, que considero imprescindível para o conhecimento multidisciplinar da região.
A suspensão da edição da Algarviana, imposta pelo então Presidente da Câmara, João Negrão Belo, acelerou a cegueira, deixando-o prostrado e sem vontade de viver. Faleceu a 20-8-1984, na Clínica de S. José de Camarate, em Lisboa, onde dera entrada oito dias antes.
A lista de obras de Mário Lyster Franco reparte-se entre a arqueologia, a história e a literatura algarvia, num total de trinta títulos, dos quais nunca se fez uma reedição. Como também nunca se publicou o livro que acerca da sua vida e obra escrevi em 1984, com o título, por ele escolhido, de Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, baseado em várias entrevistas gravadas na sua casa, enquanto lhe amenizava a solidão em que viveu nos derradeiros meses de vida.

PS – A obra Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, só muito recentemente, em 2005, é que a consegui publicar com a chancela da AJEA Edições.

TURISMO E PATRIMÓNIO CULTURAL

J. C. Vilhena Mesquita

A actividade turística no Algarve, a partir de meados da década de sessenta, deixou de ser um fenómeno conjuntural para se transformar, nos dias de hoje, numa das principais fontes de receita da economia regional.
Muito embora se lhe apontem características de sazonalidade, o certo é que se tem vindo a verificar um tendencial crescimento dos índices ocupacionais nas unidades hoteleiras – apesar da oferta ter aumentado a um ritmo, que julgo, demasiado acelerado, para um sector tão susceptível e volúvel como o turismo. Daí que essa tendência se augure tanto mais acentuada quanto o permitirem as relações internacionais, nos domínios da coexistência pacífica, do desenvolvimento económico e da estabilidade socio-laboral.
Sendo o Turismo um conjunto de actividades económicas, emissoras ou receptoras, fundamentadas nas motivações e necessidades que proporcionam a movimentação dos indivíduos no espaço, lógica se torna a sua dependência de factores exógenos, quando provocadores de instabilidade económica, segurança e mobilidade. Demonstra-o o aumento das taxas de juro no Reino Unido, que provocou a diminuição dos fluxos turísticos nos países da Comunidade Britânica e na Europa do Sul. Comprova-o o recente conflito militar no Médio Oriente, que – apesar de breve e circunscrito a determinada região do globo – desencadeou uma onda de insegurança internacional e frustrou as expectativas de mobilidade turística. O resultado está à vista: prejuízos incontáveis, falências, desemprego, etc.
Para obstar a situações como as que acabamos de apontar, sugiro que se comece a pensar na criação de um Banco Europeu do Turismo e de uma Companhia de Seguros do Turismo, em cujo constituição deveriam participar maioritariamente – senão em exclusivo – os países pertencentes à União Europeia. O recurso a estas instituições poderia viabilizar o investimento, diminuir o risco através da análise técnica dos projectos de financiamento e proporcionar a cooperação inter-europeia no estudo dos mercados turísticos. Por outro lado, asseguraria a cobertura dos prejuízos resultantes de hipotéticas calamidades, do tipo ecológico, sísmico ou até epidémico, que fossem causadoras de falências inesperadas ou de desmobilização dos fluxos turísticos.
Mas as crises passam e a actividade turística recompõe-se, quanto mais não seja pela necessidade de lazer e pela intrínseca vontade humana de viajar, comunicar e conhecer.
As alterações políticas verificadas a Leste, indiciam a breve trecho o escalonamento de novos mercados de recepção turística. Por isso, é natural que o turismo, dos anos noventa, se desenvolva numa lógica concorrencial mais diversificada, com rácios de ponderação favorável do tipo cambial ou de simples "novidade". Enfim, ventos de mudança contra os quais nos devemos precaver através de campanhas que infundem a opção pela qualidade, deixando que a melhoria da oferta se compatibilize com o aumento da procura e, assim, se regularizem os mercados.
Não é novidade para ninguém que os índices da quantidade só poderão manter-se pelo aumento da qualidade. E qualidade em turismo significa pureza do ambiente, fruição de espaços livres, sossego, liberdade, exotismo, comodidade, segurança, animação cultural, recreação desportiva, originalidade gastronómica, eficiência de serviços, afabilidade, receptividade, disponibilidade das mais modernas técnicas de comunicação e informação, etc.
Ora, num espaço reduzido como é o Algarve, sujeito às mais diversas pressões dos mercados concorrenciais que lhe estão próximos, não creio que se deva optar pela quantidade, pura e simples, da oferta, sob pena de, num futuro próximo virmos a pôr em causa o próprio ordenamento do turismo. A construção desenfreada e, na maior parte dos casos, inestética poderá vir a tornar-se contraproducente.
Para superar as insuficiências, que de todo o tipo se fazem sentir tanto no sector como na própria região, julgamos que o caminho pelo qual se deverá optar com a maior celeridade será o da formação técnico-profissional e o da investigação científica. Se as autarquias e os organismos responsáveis pelo sector dispusessem de quadros com formação académica especializada muitos destes problemas poderiam ter sido evitados. É na Escola que se prepara e racionaliza o futuro. O investimento na formação profissional e científica garante maior produtividade e rentabilização dos capitais aplicados.
O estabelecimento de protocolos de cooperação e o financiamento de projectos de investigação na Universidade do Algarve, poderá contribuir de forma decisiva para a valorização e desenvolvimento económico do turismo algarvio. A formação académica iniciou-se já na Escola Superior de Gestão Hotelaria e Turismo, integrada na Universidade do Algarve, que irá formar técnicos habilitados com o grau de Bacharelato para laborarem não só nas empresas da região como nas do país em geral.

Turismo e Cultura.

O Algarve como região privilegiada para o turismo não deve descurar a oferta cultural. E isto porque se tem estribado quase exaustivamente na beleza das praias e na amenidade do seu clima, esquecendo-se da estratégia da diversificação para combater a rotina e a saturação.
A animação desportiva tem sido ultimamente uma opção inteligente evidenciada no aumento e valorização dos campos de golfe, “courts” de ténis, centros de equitação, circuitos de manutenção, centros de estágio, etc.
Falta, porém, dar mais ênfase à animação cultural.
Se em termos de procura tem vindo a aumentar a escolha do Algarve para a realização de congressos nacionais e até internacionais, já o mesmo não se poderá dizer quanto à oferta de programas destinados a curtos períodos de férias culturais. E nesse sentido existem vários filões a explorar. Atente-se, por exemplo, nos festivais de música, folclore, gastronomia, exposições, feiras, etc, e pense-se quantos programas de turismo poderiam ter sido elaborados especialmente para esses eventos. O turismo cultural, circunscrito ao Algarve, não dispõe de meios que lhe permitam preencher as férias anuais de quem nos visita, servindo antes para promover deslocações breves para fins específicos, de carácter artístico, cultural ou científico. E no tocante aos prospectos de propaganda turística raros são os que se dedicam exclusivamente à oferta cultural. Constituem uma honrosa excepção os desdobráveis que o Doutor Francisco Lameira tem publicado sob o patrocínio das respectivas edilidades, versando o património arquitectónico algarvio.
Mas mesmo na época alta do Verão são raras as agências de viagens que se dedicam à exploração de roteiros turísticos de índole cultural. As que o fazem utilizam guias sem formação específica que apenas conhecem o trivial nas localidades aonde conduzem os grupos turísticos. Já tive a oportunidade de apreciar a forma como actuam na cidade de Silves, onde os turistas são introduzidos no Castelo ou na Sé Velha sem terem acesso a uma informação histórica segura que lhes permita compreender as origens seculares daqueles imóveis.
Também, para obviar a semelhantes exemplos, seria oportuno que se procedesse à revisão científica dos programas de formação ministrados na Escola Hoteleira, onde temo que se esteja a enveredar pela superficialidade dos antigos "cicerones". A especialização de guias em determinados circuitos ou roteiros turísticos seria também uma opção a não descurar. E o mesmo se poderá dizer das agências de viagens, cujos operadores turísticos nem sempre estão sensibilizados para este tipo de oferta.

O Património Cultural do Algarve.

Falar do património cultural algarvio é, forçosamente, recordar o passado histórico desta região.
Esta afirmação é tão lógica e apriorística que, por vezes, nos leva a esquecer os vectores fundamentais que garantem a sua permanência na nossa memória colectiva, a saber: identificação (que pressupõe investigação histórica), inventariação, protecção, recuperação/conservação, reabilitação, manutenção e revitalização/utilização.
Neste faseamento se decompõe não só o conhecimento como a valorização do legado histórico herdado dos nossos antepassados e que em larga medida contribuem para a formação de uma consciência regional embasada na cultura. Mas para que o mesmo se possa cumprir ou executar teremos sempre que contar com a preponderância da força da decisão. Quem decide o que fazer, onde e como agir na salvaguarda do nosso património cultural? Obviamente o Estado, por intermédio do poder executivo que se faz representar no Instituto Português do Património Cultural, felizmente já disseminado por diversas regiões, de que é exemplo recente o Algarve. Todavia, o pouco que tem feito não raras vezes tem sido alvo de críticas.
Por conseguinte falar de Património Cultural pode traduzir-se numa crítica ao poder político instituído e à sensibilidade cultural de quem usufrui do poder da decisão. Não é essa a minha intenção.
No entanto, não posso deixar de acrescentar que para fomentar a defesa do nosso património é preciso ter pleno conhecimento do espaço geo-cultural em que se acha inserido, possuir um elevado grau de especialização académica, ter espírito de iniciativa para apoiar e/ou implementar projectos de inventariação, contratar técnicos de reconhecida competência para procederem a acções de recuperação, incentivar a investigação histórica e adquirir um bom relacionamento com as autarquias locais, que permita, em consonância das partes, definir qual o aproveitamento, utilização e divulgação pública dos valores patrimoniais de cada concelho.
E digo isto porque os conjuntos históricos ou tradicionais, qualquer que seja a sua classificação técnico-administrativa, a sua dimensão ou diversidade cultural, não podem deixar de ser parte integrante do espaço em que se inserem as sociedades humanas. O património ainda que seja de todos é, em primeiro lugar, das populações que à sua imagem e influência moldaram atitudes e adquiriram identidades próprias.
Defender o património é também zelar pela planificação urbana e pelo ordenamento do território, combater a uniformização e a descaracterização do espaço imobiliário, evitar demolições de edifícios antigos, definir zonas protegidas e adoptar uma política de reanimação dos conjuntos históricos ou tradicionais. Importa aqui esclarecer que por «conjunto histórico ou tradicional» se deve entender um leque muito diversificado de construções ou espaços, nos quais desapareceu ou ainda permanece a ocupação humana ao longo dos séculos.
A identificação do seu valor e reconhecimento cultural só pode ser avaliada pela apreciação arqueológica, histórica, arquitectónica, estética ou sociocultural. São exemplos concretos, as estações arqueológicas, os monumentos ou edifícios religiosos, civis e militares, as cidades, vilas e aldeias de grande tradição histórica e/ou etnográfica, ruas, praças, literatura oral, artesanato, etc, etc.
Nesta tão vasta quanto árdua tarefa de preservar e conhecer o passado tem-se registado alguns exemplos de particular merecimento que importa aqui salientar. Em primeiro lugar, as antigas Comissões de Arte e Arqueologia que em muitas e variadas ocasiões contribuíram para a inventariação dos imóveis de interesse concelhio, impediram demolições arbitrárias, salvaguardaram arquivos, instituíram bibliotecas, fundaram museus, editaram livros e revistas, sugeriram a atribuição de ruas a diversas personalidades locais e, como se tudo isto não bastasse, conseguiram que as Câmaras nos seus orçamentos aumentassem a cabimentação de verbas destinadas à cultura.
Em segundo lugar, saliento o aparecimento das Associações para a Defesa do Património local que despontaram em quase todo o país, não sendo o Algarve uma excepção. Todavia, o facto de em muitos casos conglomerarem mais do que um concelho – julgando-se, assim, mais seguras da sua sobrevivência financeira – originou certas dissenções internas, desmotivações e consequente desmobilização dos seus associados, tornando-se quase imperceptíveis no meio cultural algarvio. A falta de apoios económicos, quer das quotizações dos membros quer das autarquias locais, provocou a estagnação e a inoperância destes órgãos associativos, de que tanto havia a esperar.
Ressalve-se, porém, as actividades da ADIPACNA, de Castro Marim e Vila Real de St.º António que teve o mérito de haver editado a revista «Património e Cultura» (suspensa ao cabo de dez números) que foi a única no género que se publicou nesta província. Também a ADEIPA, dos concelhos de Faro, Olhão São Brás de Alportel e Tavira, que pelo menos editou três livros, merece o nosso realce, apesar de se encontrar actualmente desactivada. Sucedeu-lhe a FARAON que tem desenvolvido várias acções de divulgação e defesa do património farense, cujos resultados positivos não podemos deixar de enaltecer. As suas visitas guiadas pela cidade e concelho de Faro, assim como os processos que ultimamente tem levado a cabo para a classificação de imóveis de interesse público, merecem a nossa admiração pelo esforço e dedicação que os seus dirigentes têm demonstrado.
Resta-nos, felizmente, a empreendedora Delegação Regional do Sul da Secretaria de Estado da Cultura que tem vindo a apoiar diversas iniciativas no âmbito da investigação e da inventariação do património histórico do Algarve. É com o maior apreço e satisfação que aqui fazemos lembrar a publicação de várias obras de reconhecido mérito científico, de entre as quais me permito salientar o Inventário do Barroco no Algarve e os Inventários Artísticos do Algarve, da autoria do Doutor Francisco Lameira, os Tesouros Artísticos do Algarve, pelo Prof. Pinheiro e Rosa, assim como a notável revista, humildemente designada por «Boletim Informativo», onde se deram à estampa com a chancela da SEC alguns importantes estudos sobre o património teatral, musical e das associações culturais algarvias. A edição de estudos regionais, levantamentos arqueológicos e inventários bibliográficos só dignificam a SEC e enaltecem os seus sucessivos Delegados Regionais. Apesar de ser um organismo público, cujo dirigente não é partidariamente isento, o certo é que as acções promocionais da actividade cultural têm dado amplas provas de competência e de prolixidade, que, em boa verdade, estão acima de qualquer crítica.
Relativamente à delegação do IPPC, recentemente instituída em Faro, pouco podemos adiantar de positivo. Começou desde logo por um processo de instalação pouco digno e algo desabonatório. Com efeito ao acomodar-se, ainda que provisoriamente, nos princípios desta década no edifício do Governo Civil, tornou evidente que se tratava de um organismo ao serviço do poder instituído, fragilizado na sua idoneidade política e dependente dos lobbies da construção civil, geralmente patrocinadores dos partidos políticos. O delegado regional não é uma personalidade reconhecida nos meios intelectuais, mostrando-se pouco à vontade no que respeita conhecimento do património algarvio. É nitidamente um funcionário do poder, destinado a instituir uma «paz podre» um complacente «fare niente», que tanto agrada aos políticos. As suas iniciativas têm sido praticamente nulas e muitas vezes atentatórias à própria salvaguarda do património, não tomando atitudes que antagonizem o poder político ou o poder financeiro. Numa região onde os interesses económicos e as influências políticas de certos "lobbies" não costumam enfrentar quaisquer tipos de entraves, não poderia ter-se escolhido melhor delegado para um organismo tão inconveniente como o é, ou como o deveria ser, o IPPAR.
Este processo ocorreu com o PSD, mas é bem verdade que o PS nada fez para se tornar diferente dos seus antecessores. Nada mudou e teme-se até que o clima de «paz podre» se institucionalize nos organismos estatais representados no Algarve. Esse é, aliás, um dos sintomas do entorpecimento centralista a que nos temos vindo a habituar há mais de um século. Talvez a regionalização nos traga melhores dias para «varrer» os incompetentes e poder «arrumar» a casa que é de todos nós.
Entretanto o turismo vai decorrendo pachorrentamente no Algarve, ao sabor das crises de escassez ou dos excessos, degradando-se impunemente o ambiente enquanto se agrava o custo de vida. Os naturais meios de lazer têm sido descurados, assim como se tem placidamente assistido à delapidação do património histórico, obscurecendo os valores culturais que particularizam esta região. As técnicas de atracção turística aplicadas no Algarve são semelhantes às que se utilizam em quase todos os destinos espalhados pelo mundo do turismo de massas. E esse não é certamente o melhor caminho para o caso específico do Algarve. Enquanto não metermos isto na cabeça nada se alterará.
Nota - texto da Conferência proferida no Congresso de Turismo, realizado em Vilamoura

O ALGARVE E O TURISMO - na perspectiva de Vasco da Gama Fernandes

J. C. Vilhena Mesquita

Neste espírito «algarviista» – que todos me reconhecem, mas que só me tem granjeado dissabores e inimigos – tenho vindo a reunir, ao longo dos anos, um imenso acervo documental sobre o Algarve. São os meus «papéis velhos» ou, como já alguém lhes chamou, a minha "Torre do Tombo". Os amigos e sobretudo os meus alunos sabem do que se trata.
Neles exumei um artigo, de Vasco da Gama Fernandes, publicado na «República», de 21-3-1960, intitulado "Algarve". Duas razoes me levaram de imediato a pensar na sua reedição.

A primeira remonta aos primórdios dos anos 80, quando ao lado do Prof. Adelino da Palma Carlos conheci pela primeira vez esse causídico de tão vigorosa têmpera. Tinha um porte altivo, rosto comprido, olhos fundos, voz oraculina, mãos esguias estrangulando sucessivos cigarros. "Este é como eu, um livre-pensador. Algo idealista, por vezes, muito inocente..." – dizia Palma Carlos. "Mandou o ...[não digo quem] à merda e saiu do partido. Está velho..., diziam os novos adesivos do PS."
O Dr. Vasco da Gama Fernandes, riu-se das palavras do amigo e retorquiu: "Foi por isso que a Lurdes Pintassilgo me mandou para o Museu". Referia-se à sua nomeação para director do Museu da República e da Resistência. A conversa foi azeda e muito acintosa para algumas das actuais figuras políticas. Guardei-a na memória e dela também extratei algumas notas para a Algarviana, que então, como agora, ambicionava publicar. Recordo-me que a um deles chamava-lhe "o Inquisidor mor", por, em nome do partido, fazer uso de informadores e provocar intrigas entre certas individualidades de grande prestígio político. Não digo nomes, mas agora percebo como foi que alguns "cinzentões" conseguiram subir na vida política.
Guardo na lembrança desse encontro a ironia do Prof. Palma Carlos e os seus dotes de contador de episódios picarescos. Páginas de memórias nem sempre passíveis de publicação.
"A vida miudinha de um homem às vezes é uma piolheira. Mas isso não invalida que ele seja um homem grande... percebe?" Claro, respondi com aquele ar tolerante que o Dr. Vasco da Gama adoptara como lema, quase epitáfio de uma vida quixotescamente dedicada à complacência das ideias e à liberdade de opinião.
"Acima de tudo, e antes de mais, sou um tolerante – dizia ele. A juventude possui a generosidade da tolerância. A propósito, quando eclodiu em Paris a revolução de Maio eu fui lá para me pôr a par dos ideais da juventude. Nem imagina o que aquilo foi."
Imagino sim – retorqui com orgulho –, também lá estive, em Julho de 68, na companhia de meu irmão, estudante da Sorbone, e também ele um "soixante-huitarde".
A partir daqui tomou as rédeas da conversa e ilustrou-a com gestos amplos, numa mimética de sentidos que lhe engrandeciam a palavra. Quem ali falava era o Tribuno do Povo, seguro, confiante, imune. Mas aquela possante figura irradiava uma fulgurante sensibilidade, que se reflectia na defesa dos valores da emancipação humana: trabalho, honra e liberdade.
A conversa é como as cerejas, pega-se num assunto...
Naturalmente o Algarve veio à baila. Lembro-me do ar estupefacto do Prof. Palma Carlos ao ouvir-me falar das suas tropelias de infância no Largo da Palmeira e no Jardim da Alameda, em Faro, como se eu tivesse feito parte da "trupe dos Lampiões", à qual pertencera nos princípios deste século. Foi uma espécie de provocação – no bom sentido – à qual ripostou com várias outras revelações de carácter memoralista e de inegável interesse regionalista. Porém o seu desalento era profundo. Sentia-se ostracisado pelo Algarve, e não encontrei argumentos que me permitissem demonstrar-lhe o contrário.
Nessa altura, o Dr. Vasco da Gama Fernandes referiu-se ao Algarve e aos algarvios que conhecera nos anos 60. Uma fiada de nomes, alguns oficiais do mesmo ofício: os Drs. Neves Anacleto, Rita da Palma, Júlio Carrapato, Lyster Franco. Não lhe ouvi uma referência depreciativa para qualquer deles. Eram todos "homens grandes".
As suas palavras eram duma clarividência quase profética. Com eloquência teceu a caracterização do povo algarvio, nos seus anseios e limitações, enfatizando a riqueza do mar e a benignidade da terra, como principais agentes modeladores de um psiquismo cultural que considerava ímpar no nosso país.
Revelou-me então que havia escrito 20 anos antes um artigo sobre esse "país do sol", que dera à estampa no jornal «República». Prometeu enviar-mo, o que cumpriu pouco depois.
A segunda razão que me levou a pensar na sua reedição prende-se com as qualidades de observador e de analista esclarecido do autor. Considero-o um documento de grande utilidade para a história do turismo algarvio. Repare-se que estávamos no início da década de 60, um período de grandes perturbações políticas, marcado pela guerra colonial, greves académicas, assassinato do General Humberto Delgado, sucessão de Marcelo Caetano ao moribundo ditador Oliveira Salazar...
Mas os tão saudosos, quanto conturbados, anos 60 assinalaram também os primeiros investimentos no turismo algarvio e o arranque de grandes empreendimentos, como os de Vilamoura e Torralta. Por isso, considero notável a sua profetização do turismo como principal sector de desenvolvimento socioeconómico do Algarve.
As palavras com que Vasco da Gama Fernandes fundamenta as potencialidades do Algarve para o incremento do turismo, constituem o cerne desta brilhante peça jornalística. Contudo, nela transparece também a saudade da infância passada em Cabo Verde, de onde era natural, sugerida pela intensa luminosidade solar e águas calmas das nossas praias.
Mas a sua perspicácia de observador reveste-se, por vezes, de um profundo analismo sociológico. Demonstram-no afirmações tão modelares quanto aquela em que alude à singularidade do povo algarvio, numa espécie de simbiose entre o homem e o mar: "O mar imenso, nas suas complexidades e nos seus atractivos, modelou uma psique que não encontra semelhança noutro ponto do país. Vivendo, primordialmente, dele, o algarvio parece trazer na alma o alvoroço das tempestades e a quietude moirisca dos crepúsculos. É um ser àparte na comunidade portuguesa."
Essa singularidade do povo algarvio evidenciava-se também no dramático fenómeno da emigração e das alterações culturais (enculturação) a que se submetiam os portugueses além fronteiras: "...quando regressa, embora com modificações na sua maneira de ser é sempre o mesmo algarvio, individualista e orgulhoso, habituado à fartura e à pobreza, mas de espinha direita e alma lavada."
Por tudo isto, não só pela clarividência como pela qualidade estilística do texto, justifica-se, aqui e agora, a sua reedição. Mas se não for essa uma razão suficiente, pelo menos que o seja uma razão necessária para homenagear a memória de um homem que, com coragem e sacrifício, lutou pela instauração da liberdade e da democracia, que hoje todos desfrutamos.

Um quadro da vida lisboeta nos anos vinte - JORGE SAN-BASILIO - Um sambrasense desconhecido


J. C. Vilhena Mesquita

Quando há tempos atrás um antigo aluno me solicitou que escrevesse algo sobre a cultura sambrasense pensei imediatamente que deveria evitar nomes consagrados como Bernardo de Passos, José Dias Sancho ou Estanco Louro. Estive indeciso entre o poeta João Braz Machado, o jornalista Jorge San Basílio ou um dos membros da ilustre família Passos: a escultora Rosalina, o escritor Boaventura ou o professor Virgílio.
Dadas as minhas afinidades com a imprensa escolhi a figura mais apagada daquelas que acabo de citar: o jornalista Jorge Máximo de Sousa Basílio.
Foi efectivamente um homem singular, mas obscuro, que a vida dotou de fracos recursos, sacrificando-lhe a existência numa penosa luta da qual sairia ingloriamente derrotado. Nasceu em S. Brás de Alportel a 4 de Julho de 1896, no seio de uma família modesta que, vendo-lhe concluída a instrução primária, o empregou como praticante de farmácia. A sua educação integra-se nos princípios da religião católica e no conservadorismo do regime monárquico. E quando o João Rosa Beatriz aclamava a República o nosso aprendiz de Botica fazia versos e escrevia cartas de amor às moçoilas bem trajadas. Em breve percebeu que a democracia na freguesia não ia tão longe. As herdeiras dos negociantes da cortiça, cuja fortuna fazia inveja por todo o concelho, não estavam destinadas a qualquer simplório lá do burgo.
A necessidade de afirmação do jovem Basílio, a sua vocação para as letras e a amizade do patrão – o farmacêutico Agostinho Mora Faria – explicam o facto de com apenas 16 anos vir a público como director de um semanário local intitulado «O Algarvio», cuja fundação data de 17-3-1912. Um mês depois os mentores da aventura jornalística aperceberam-se de que o rapaz era menor, substituindo-o no cargo de director pelo seu patrão, na verdade o alter ego da iniciativa e o instilador do carácter venenoso e polemicista das suas colunas. A sua origem prende-se com o facto em 6 de Janeiro desse ano os republicanos, do Partido Democrático de Afonso Costa, haverem fundado o semanário «Ecos do Sul», sob o patrocínio de Manoel Enrique Frade e da batuta do Dr. José Baptista Gomes e do prestigiado novelista Boaventura Passos.
A reacção católica e monárquica, temerosa das perseguições e excessos que lhe poderiam advir do novo regime, utilizou a humildade de alguns jovens talentos – como Jorge S. Basílio – para atacar, da forma mais veemente, as hostes adversárias que se acolhiam nas colunas dos «Ecos».
Os artigos com que o jovem redactor desancava no burguesismo dos novos-ricos e no agnosticismo republicano – condimentados no mais bilioso estilo polemista – evidenciavam a sua tão natural quanto rara facilidade de expressão, numa ligeireza das formas e das palavras em que espelhava a subtileza de espírito, incomparável graça e mordaz sarcasmo de um publicista de talento. Devido ao seu carácter prestável e voluntarioso, acrescido da sua prosélita defesa da causa católico-monárquica, houve logo quem nessa altura o cognominasse de Jorge São Basílio, em resultado da abreviatura com que firmava os seus artigos no jornal. A falta de pergaminhos elitistas levou-o a transformar o jocoso epíteto numa espécie de aristocrático pseudónimo – Jorge de San-Basílio, com o qual se tornaria conhecido e admirado na imprensa lisboeta.
A experiência jornalística de «O Algarvio» (que as circunstâncias da época extinguiram em 28-7-1912) revelar-se-ia, no seu espírito moço, tão fugaz quanto traumatizante. No fundo, aspirava libertar-se daquela que foi em tempos a "capital da cortiça" – responsável pelo fornecimento à indústria transformadora de 50% da produçäo nacional – a cuja prosperidade económica ficou também a dever a sua elevação a concelho em 1-7-1914.
Todavia, essa riqueza devido à sua má distribuição era mais aparente do que real. A concentração dos capitais de investimento em escasso número de famílias, cujo espírito de iniciativa era não só bastante retraído como pouco inovador, permite-nos visionar, à distância dos nossos dias quão difícil era vencer numa sociedade rural em vias de desenvolvimento urbano. Numa terra cujo comércio retalhista possuía 246 lojas, das quais 5 eram farmácias e cerca de 200 eram tavernas, facilmente se compreende que nela campeava o alcoolismo e muita pobreza envergonhada. Perante este quadro, algo negro para os olhos de hoje, logicamente não abundavam as oportunidades de trabalho no foro das letras, sobretudo no jornalismo. Outra coisa não seria de esperar numa população que em 1911 tinha um índice de analfabetismo da ordem dos 77,8% e apenas 2856 pessoas que sabiam ler. Um povo alheio à instrução e às coisas da cultura não era boa companhia para um jovem tão promissor como Jorge San-Basílio.
A solução destes casos tem sido, tanto no passado como no presente, sempre idêntica – a emigração. Umas vezes voluntária outras de circunstância ocasional (como é exemplo o serviço militar), o certo é que os jovens saíam das suas terras de origem em direcção aos centros populacionais, buscando aí melhores condições de vida e de sucesso económico. Quando assim não resultava então rumavam para o estrangeiro. A Europa, a bacia Mediterrânica e as terras de África eram ao tempo os principais pólos de atracção emigratória.
O Jorge de San-Basílio não fugiu à regra. Emigrou para Lisboa. Na capital fez de tudo um pouco e conforme as oportunidades. Trabalhou no comércio, foi empregado de escritório, escrevinhou nos periódicos e fez-se jornalista sempre que lhe sorriu a ocasião. Nos altos e baixos afogava as mágoas no álcool. Era a marca das origens.
Relacionou-se aqui e ali, com toda a espécie de gente. E em alguns casos conviveu com quem já tivera pretensões na vida. Foi amigo de poetas, artistas e escritores, políticos, anarquistas e aristocratas, tuteando com a malta da Lisboa fadista. Sobreviver, com um mínimo de dignidade e orgulho, era o seu objectivo mais imediato.
A sua prosápia, ar soberbo e superior, elegância de gesto, finura no trato e argúcia de argumento, conferiam-lhe uma presença de espírito a que os sobejos da causa monárquica se faziam rogados. Nunca encontrei justificações para o seu conservadorismo nem para a sua fidelidade monárquica. O certo é que nos anos da guerra – em que o regime republicano se faz reconhecer internacionalmente e se afirma irreversível aos olhos da Europa – o Jorge San-Basílio aparece pela primeira vez ligado à política. Fez-se sidonista.
O pesado esforço de guerra, impopularizado pela sangria dos constantes recrutamentos, trouxe à evidência a necessidade de um golpe reaccionário que estancasse o sangue derramado nos campos da Flandres. O governo não aguentou as pressões internas e caiu às mãos do germanófilo Sidónio Pais. O sebastiânico general surgiu aos olhos do povo como anti-guerrista e pretenso pacifista. A reacção católica e monárquica arvorou-o como seu estandarte. Em breve a revolução sidonista acabaria legitimada pela vontade popular. E á boca das urnas nunca um presidente obteve tão esmagadora vitória eleitoral. Entre os seus apoiantes estava o Jorge de San-Basílio, escrevendo comunicados, publicando manifestos, lançando boatos, abrindo sedes e Centros de Juventude Sidonista. Era o movimento da euforia nacional. A ditadura voltara e o povo tacanho rogava ao Presidente que se fizesse Rei !
Mas no dia 12 de Dezembro de 1918, à porta da estação do Rossio, o Presidente-Rei seria abatido a tiro. Extinguia-se, deste modo, o sonho restauracionista da facção monárquica e apagava-se mais uma quimera sebastianista, das muitas que ilustram a nossa história. Era o desalento geral. Fugiu cada um para seu lado e o movimento sidonista esfumou-se quase sem deixar rasto.
Jorge San-Basílio partiu para o Brasil onde procurou refúgio e certamente a fortuna que nunca lhe sorriu. Não era um homem de sorte. As portas não se abriram à sua passagem e a ruína não tardou. Resolveu regressar, à pressa e quase à míngua. Em Lisboa recomeçava tudo de novo: jornais, tabernas, boémia e fado. Estava no seu ambiente.
Por volta de 1919 soube da existência em Faro de um jornal cujo título era idêntico àquele que dirigira em S. Brás de Alportel. Ainda por cima arvorava-se como "órgão de propaganda autonomista", o que lhe agradava sobremaneira. Enviou logo um artigo e prometeu outros que não chegaram à estampa. Dirigiam «O Algarvio» de Faro os jovens estudantes do Liceu Jacinto da Cunha Parreira e Mário Lyster Franco. A este último ligar-se-ia dois anos mais tarde numa profunda amizade, repleta de tropelias e diabruras, mais descabeladas do que as dos repúblicos de Coimbra. Ouvi-as contar de viva voz ao Dr. Lyster Franco e de algumas delas guardo breves relatos num livro de memórias, que publiquei em 2005 com a chancela da AJEA Edições.
Sem nunca ter logrado obter uma vida desafogada, o certo é que San-Basílio desde que passou a acompanhar o jovem Mário Lyster Franco, então estudante de Direito, deixou de sentir os insultos da miséria a que envergonhadamente se sujeitara. Tornaram-se companheiros inseparáveis. Os "cobres" de um e os conhecimentos do "meio ambiente" do outro fizeram-se notar na sociedade lisboeta. De dueto passaram a terceto com a adopção do Ferreira de Castro – nessa altura ainda incipiente contista e folhetinista de jornais e revistas baratas. Aumentaram depois para quarteto com a adesão do Eduardo Frias, também ele jornalista promissor e futuro novelista de mérito. Por fim tinham já uma tertúlia com o Artur Portela, o escritor Assis Esperança, o poeta Silva Tavares, o actor Eduardo Freitas, o jornalista Agostinho Paulo, e outros mais ocasionais do que "fixos".
Fizeram coisas do arco-da-velha. Convenceram o Eduardo Frias a entrar na Jaula dos Leões, correndo o risco de ser devorado, só para vencerem uma aposta que o desgraçado desconhecia. Durante o Verão, e sem que alguém disto soubesse, venderam ao "prego" os cobertores da pensão. Inventavam as maiores mentiras à porta da Brasileira, e não raras vezes lançavam uns "ditos" tão vituperinos que deixavam o velho Gualdino Pais – o rei dos sarcastas – com ataques de riso. Outras vezes espicaçavam o orgulho de ginasta e acrobata do ainda desconhecido pintor Almada Negreiros, que quando não achava piada às gracinhas ameaçava vingar-se com os punhos. Ao poeta António Botto não poupavam gracejos, piropos e até pequenas quadras algo indecorosas, acerca das quais, aliás, viriam a pedir-lhe perdão. No lago da casa do Prof. Coelho de Carvalho – emérito Presidente da Academia das Ciências – roubavam magníficos peixes vermelhos e gordas carpas para os lautos jantares na pensão do Ferreira de Castro. Enfim, uns inocentes boémios sem outra maledicência que não fosse a simples boa disposição.
Não se lhe conheceram paixões, mas se as teve não as confessou. Nessa altura o "amor mercenário" entre os jornalistas era causa comum. Disso foi exemplo o próprio Ferreira de Castro – a quem chamavam o brasileiro, não só pelo sotaque como ainda pela forma de vestir – a quem não escapavam as mais tenras aquisições do Bairro Alto.
Parece que a única paixão do San-Basílio eram as gravatas. Perdia a cabeça quando visionasse nas montras da baixa uma gravata bonita. Os tons de azul eram a sua perdição. Podia não ter um centavo no bolso, mas arranjava logo maneira de a trazer ao pescoço. O casaco podia estar puído, as calças descosidas, o colarinho coçado e sebento, as peúgas rotas, os sapatos descambados... Mas a gravata estava sempre impecável! Era o seu cartão-de-visita – dizia ele.
Já que falamos no Ferreira de Castro importa lembrar que foi grande amigo de Jorge de San-Basílio e com ele conviveu nas redacções de alguns periódicos lisboetas. A certa altura um velho amigo de San-Basílio, o jornalista e visionário colonialista Simão de Laboreiro – grande animador da produçäo de borracha na Lunda – decidiu fundar um novo jornal monárquico (sucessor do «Tempo» que a populaça lhe saqueara e a polícia mandara encerrar) com o título «A Palavra». A intenção era idêntica à do órgão anterior: enaltecer a monarquia e atacar a república. Inspirava-se no sidonismo, a que também pertencera o órgão anterior. Mas agora dizia-se apenas monárquico e apartidário. Para redactores convida o San-Basílio o Ferreira de Castro, o Eduardo Frias e o Mário Lyster Franco. Instaladas as oficinas e a redacção entregou aos quatro a decisão de elegerem entre si os corpos directivos.
A experiência no ramo deixava ao Ferreira de Castro e ao San- Basílio a disputa do cargo principal. Porém, ao Ferreira de Castro nem se lhe admitiam dúvidas. Tinha nome feito. Fundara a revista «A Hora», publicara já um livro (Mas..., 1922), colaborava no «ABC», enfim... era ele o director e não se pensava mais no assunto. Meteu o braço no Eduardo Frias e saiu porta fora. O San-Basílio nem teve tempo para esboçar as suas legítimas pretensões. Ficou possesso de raiva.
Praguejando e esgrimindo argumentos jurou vingar-se, enquanto ao lado do Lyster Franco descia a Calçada do Duque até ao Café Itália. Sentaram-se nas mesas do fundo para que se abafassem os vitupérios. Dali a nada chega o jornalista Agostinho Paulo que perante a excitação do colega não esboçava o mínimo gesto. O tom das ameaças lançadas pelo San-Basílio ao Ferreira de Castro crescia de proporções. Sangue, dentes e pisaduras era o mínimo que se antevia no primeiro encontro.
Mas eis que a realidade apressa as fantasias do destino. O Ferreira de Castro, jogando agilmente a sua bengalinha de brasileiro, entra no Itália com o Eduardo Frias em amena cavaqueira e dirige-se ao balcão, talvez para comprar cigarros. Divisam o grupo na mesa do fundo e fazem-lhes um aceno com visível boa disposição. O San-Basílio, estava no ponto. Levanta-se num repente e dirige-se velozmente ao Ferreira de Castro. Antevia-se uma triste cena de pugilato. Mas não! Segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido e regressa na maior calma para junta dos companheiros.
O Lyster Franco ficou atónito. Perguntou-lhe porque não consumara as suas ameaças, ao que ele respondeu em tom enraivecido: «Fui dizer ao Ferreira de Castro que lhe queria bater, que o queria esfacelar, mas que não posso levantar os braços porque tenho os sovacos rotos.»
E ninguém se riu... porque até era verdade!
No fundo, a amizade era mais forte do que as vaidades e ambições pessoais. A vida, sempre tão imprevisível, manteve-os mais ou menos unidos ou, pelo menos, em permanente contacto. Todos singraram...
Porém, da tertúlia do Café Itália o menos afortunado sempre fora o San-Basílio. Apesar de tudo parece que lhe encomendaram em 1927 um livro que teve como título "Um Problema Nacional – A questão do jogo sob os aspectos moral, económico e fiscal".
Da sua, algo penosa, "via-sacra" através dos periódicos lisboetas merece especial destaque a passagem por «A Capital», «A Situação» e «O Século». E na redacção deste último vespertino lograra conquistar o seu lugar à custa de muito talento, dedicação e esforço.
Quando nada fazia prever uma desgraça eis que ela acontece aos 36 anos de idade, num fatídico 10 de Novembro de 1932. Desiludido, solitário, deprimido pelo álcool e ardendo em febre lança-se da janela de um 4º andar, numa tentativa suicida para acabar com tão penosa existência. Não resistiu aos ferimentos. Morreu, ali, no chão húmido da calçada, um ser humano de obscura existência, cansado da solidão.
Pobre San-Basílio, humilde e apagado... permanece esquecido.